Nos últimos anos, o enfrentamento à violência contra a mulher tem ganhado destaque
no cenário jurídico brasileiro, culminando em importantes alterações legislativas voltadas
ao combate do feminicídio. A Lei nº 14.994, sancionada em 17 de outubro de 2024, foi
promulgada com o objetivo de fortalecer o combate à violência contra a mulher no
Brasil, especialmente no que se refere ao feminicídio. Essa legislação trouxe alterações
significativas no Código Penal, na Lei Maria da Penha e em dispositivos processuais
penais, promovendo maior rigor punitivo e mecanismos de proteção mais eficazes.
ALTERAÇÕES NO ASPECTO JURÍDICO
1.1. Tipificação do Feminicídio:
• O feminicídio deixou de ser qualificadora e passou a ser crime autônomo (art. 121-
A do Código Penal).
• O feminicídio passa a ser considerado crime hediondo no inciso I-B do art. 1º da
Lei 8.072/1990.
1.2. Alterações no Código Penal:
• Modificação do art. 92 do CP: ampliação dos efeitos específicos da condenação,
aplicando-se a crimes dolosos contra a mulher por razões do sexo feminino.
• Inclusão do feminicídio como causa automática de:
• Perda do poder familiar, tutela ou curatela.
• Impedimento automático de ocupar cargos públicos ou mandatos eletivos até o
cumprimento da pena.
1.3. Processo Penal:
• Alteração do art. 394-A do CPP: crimes contra a mulher por razões do sexo
feminino passam a ter prioridade de tramitação processual, assim como os crimes
hediondos.
• Concessão de justiça gratuita para vítimas, com:
• Isenção de custas, taxas ou despesas processuais.
• Possibilidade de extensão aos familiares da vítima falecida (cônjuge, ascendentes,
descendentes, irmãos).
• Previsão de exclusão da gratuidade em caso de má-fé.
1.4. Lesão Corporal no Âmbito Familiar:
• Alteração do § 9º do art. 129 do CP: lesão corporal em contexto familiar (ainda que
não contra mulher) será punida com reclusão de 2 a 5 anos.
1.5. Princípio da Irretroatividade:
• A nova lei não retroage, ou seja, não se aplica a fatos ocorridos antes da sua
vigência, conforme o art. 5º, inciso XL, da CF.
ALTERAÇÕES NAS IMPLICAÇÕES PENAIS
1.1. Penas para Feminicídio:
• Pena mínima aumentada de 12 para 20 anos, podendo chegar a 40 anos de
reclusão.
• Progressão de regime mais rigorosa: aumento da pena-base dificulta acesso a
benefícios penais.
1.2. Causas de Aumento de Pena (Art. 121-A, § 2º)
Majoração de 1/3 até a metade da pena quando o crime é praticado:
• Durante a gestação, até 3 meses após o parto ou contra mãe/responsável de
criança, adolescente ou pessoa com deficiência.
• Contra menores de 14 anos, maiores de 60 anos, pessoas com deficiência ou
doenças degenerativas com limitações.
• Na presença física ou virtual de descendente ou ascendente da vítima.
• Em descumprimento de medidas protetivas da Lei Maria da Penha.
• Com emprego de meios cruéis (veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura, etc.).
• Com traição, emboscada, dissimulação ou forma que dificulte a defesa da vítima.
• Contra agentes de segurança pública, no exercício da função ou por causa dela,
incluindo familiares próximos.
1.3. Ameaça no Contexto de Violência Doméstica
• Crime de ameaça (art. 147 do CP), quando motivado por violência doméstica ou
misoginia, passa a ser de ação penal pública incondicionada.
OUTRAS INFRAÇÕES PENAIS CONTRA A MULHER
TIPO PENAL DISPOSITIVO COMO ERA COMO FICOU
Lesão corporal §13 do Art. 129 do Reclusão, de 1 a 4 Reclusão, de 2 a 5
qualificada pelo CP anos. anos.
contexto de
violência doméstica
ou por misoginia.
Calúnia, difamação e §3° do Art. 141 do Pena em dobro
injúria (crimes CP (Causa de aumento
contra a honra) de pena)
cometidos em
contexto de
violência doméstica
e/ou familiar
Ameaça cometida §1° do Art. 147 do Pena em dobro
em contexto de CP (Causa de aumento
violência doméstica de pena)
e/ou familiar ou por
motivo
Vias de fato §2° do Pena em triplicada
cometida em Art. 21 do (Causa de aumento
contexto de Decreto-Lei de pena)
violência doméstica 3.688/1941
e/ou familiar ou por
motivo de misoginia
(Contravenção
penal)
Descumprimento de Art. 24-A da Detenção, de 3 Reclusão, de 2 a 5
Medidas Protetivas Lei meses a 2 anos anos e multa
de Urgência 11.340/2006
(Lei Maria da
Penha)
ALTERAÇÕES LEP (Lei de Execuções Penais)
• Art. 41, § 2º: proibição de visita íntima para condenados por crime contra a mulher
por razões de gênero.
• Art. 86, § 4º: possibilidade de transferência do preso para outra unidade federativa
se houver ameaça à vítima ou familiares.
• Art. 112, VI-A: progressão de regime somente após 55% da pena, sem
possibilidade de livramento condicional.
• Art. 146-E: obrigatoriedade de monitoração eletrônica em qualquer saída
temporária do apenado.
Portanto, observa-se um avanço significativo no combate à violência de gênero,
especialmente no que diz respeito ao feminicídio. A criação do tipo penal autônomo (art.
121-A do CP) reforça a gravidade do crime e sua especificidade, destacando a violência
contra a mulher como uma violação grave dos direitos humanos. A elevação da pena
mínima, o endurecimento da progressão de regime e a proibição de benefícios como a
visita íntima refletem uma política penal mais rigorosa e protetiva. No âmbito processual, a
prioridade de tramitação e a concessão de justiça gratuita às vítimas e seus familiares
representam um passo importante para garantir o acesso à justiça. As alterações também
ampliam os efeitos da condenação, como a perda do poder familiar e a inelegibilidade,
contribuindo para a responsabilização plena do agressor. Ao mesmo tempo, ao tornar a
ameaça em contexto de violência doméstica um crime de ação penal pública
incondicionada, o legislador busca romper o ciclo de silêncio e impunidade. As medidas
inseridas na Lei de Execuções Penais demonstram a preocupação com a segurança da
vítima mesmo após a condenação do agressor. Por fim, ao reafirmar o princípio da
irretroatividade, a legislação mantém o respeito às garantias constitucionais, equilibrando
a proteção da vítima com os direitos do réu. Essas mudanças apontam para uma
transformação estrutural na forma como o Estado encara e enfrenta os crimes de gênero.