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Iniquidades em Doenças Crônicas no Brasil

O Brasil enfrenta um aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que são responsáveis por três em cada quatro mortes, com desigualdades significativas entre diferentes grupos populacionais. Embora tenha havido uma redução na mortalidade por DCNTs, as disparidades relacionadas à escolaridade e região persistem, exigindo monitoramento e políticas públicas direcionadas. A pesquisa em saúde é crucial para identificar aqueles que estão sendo 'deixados para trás' e para enfrentar coletivamente a carga das DCNTs na sociedade.
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Iniquidades em Doenças Crônicas no Brasil

O Brasil enfrenta um aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que são responsáveis por três em cada quatro mortes, com desigualdades significativas entre diferentes grupos populacionais. Embora tenha havido uma redução na mortalidade por DCNTs, as disparidades relacionadas à escolaridade e região persistem, exigindo monitoramento e políticas públicas direcionadas. A pesquisa em saúde é crucial para identificar aqueles que estão sendo 'deixados para trás' e para enfrentar coletivamente a carga das DCNTs na sociedade.
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ARTIGO DE OPINIÃO

doi 10.1590/[Link]

Iniquidades e Doenças Crônicas Não Transmissíveis


no Brasil

Inequalities and Chronic Non-Communicable Diseases in Brazil


Inequidades y Enfermedades Crónicas No Transmisibles en Brasil

Fernando C. Wehrmeister1 , Andrea T. Wendt1 , Luciana M.V. Sardinha2

Universidade Federal de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, Pelotas, RS,


1

Brasil
2
Vital Strategies Brasil, São Paulo, SP, Brasil

O Brasil apresenta hoje um cenário epidemiológico com


predominância de doenças crônicas não transmissíveis
“No cenário atual da
(DCNTs), como hipertensão, diabetes mellitus e cânceres, saúde brasileira, com as
que têm fatores de risco bem conhecidos, entre os quais se políticas de austeridade
incluem o tabagismo, a alimentação não saudável, o con- fiscal estabelecidas em
sumo abusivo de bebida alcóolica, além da baixa prática 2016 e os problemas
de atividade física. Em 2017, cerca de três em cada quatro no enfrentamento de
crises sanitárias, como a
mortes foram atribuídas às DCNTs no Brasil.1 Por mais que
pandemia de COVID-19, a
essa mortalidade proporcional seja elevada, de 1990 a 2017 pesquisa em saúde com
houve uma redução de 35% nas mortes por DCNTs no país.1 foco na identificação
Porém, estimativas nacionais de indicadores em saúde po- daqueles que estão sendo
dem esconder importantes desigualdades. 'deixados para trás' se torna
ainda mais relevante.”
Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS),
pactuados em 2015, estabelecem como alvo, além da re-
dução global de mortalidade por DCNTs, a redução das
desigualdades associadas a estas mortes.2 Apesar do bom resultado na redução de mortalidade
por DCNTs no país, nas quase três décadas citadas, com perspectivas de se atingir a meta dos ODS,3
essa redução foi de 48,9% (IC95% -50,8;-46,8) no Distrito Federal, enquanto no Rio Grande do Norte foi
observada estabilidade (-2,8%; IC95% -8,3;3,2).1
Frente a este cenário, é fundamental destacar a relevância do monitoramento, seja dos desfechos
em saúde ou de suas desigualdades. Nesse contexto, o Brasil possui tradição tanto na coleta de infor-
mações em desfechos relacionados à saúde através de inquéritos, quanto por meio dos seus sistemas
de informação em saúde. Um exemplo disso é a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), um inquérito
de base populacional aplicado pela primeira vez em 2013. No módulo de doenças crônicas, uma sé-
rie de informações sobre doenças crônicas, agravos à saúde e utilização de serviços em saúde são
coletadas. Estas informações fornecem um panorama muito abrangente e fidedigno da saúde da
população brasileira. Utilizando dados dos dois anos da PNS, um estudo sobre multimorbidade em
pessoas de 18 a 59 anos de idade mostrou que a presença de duas ou mais morbidades aumentou

Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, 31(nspe1):e20211065, 2022 1


Iniquidades e doenças crônicas ARTIGO DE OPINIÃO

no país e esteve inversamente relacionada com a escolaridade: menos escolarizados apresentam


prevalência de multimorbidade cerca de 10 pontos percentuais maior do que os mais escolarizados.4
Ainda cabe ressaltar que as desigualdades não estão relacionadas somente a determinantes indi-
viduais (por exemplo: idade, raça/cor da pele, escolaridade e riqueza), mas, em um país como Brasil,
com dimensões continentais, a região e a área de residência dos indivíduos, assim como o contexto
em que estes vivem, podem revelar diferenças importantes nas estimativas de saúde. Ainda, de-
pendendo do indicador estudado, a abordagem de interseccionalidades (sobreposição de estratos
sociais) pode destacar grupos em maior vulnerabilidade.
A Figura 1 mostra desigualdades na prevalência de hipertensão arterial e diabetes mellitus, por es-
colaridade, em idosos (≥ 60 anos) residentes em cada uma das cinco macrorregiões brasileiras. Nessa
ilustração, podemos ver a aplicação da abordagem de interseccionalidade –, neste caso específico,
a combinação dos estratos de região e escolaridade. Em linha gerais, para todas as regiões e para
ambas as doenças, é observado um padrão em que os menos escolarizados são mais afetados pelas
doenças do que os mais escolarizados, e esse tipo de visualização permite monitorar as mudanças
ocorridas na prevalência de hipertensão e diabetes com um maior foco em padrões de desigualdade.
Em relação especificamente à interseccionalidade, o exemplo mais evidente de aumento nas
desigualdades nestas doenças pode ser visto na região Sudeste. A prevalência de hipertensão arte-
rial, por exemplo, se manteve estável, entre 2013 e 2019, nos indivíduos mais escolarizados, ao redor
de 44%, enquanto, entre os menos escolarizados, ela evoluiu de 56% para 65%. Este incremento no
grupo mais vulnerável acarretou um aumento substancial das desigualdades observadas. Cabe sa-
lientar que o mesmo padrão é observado para o diabetes mellitus, tanto pontual quando ao longo
do tempo para a região Sudeste. Por outro lado, nas regiões Norte e Nordeste, há indícios de que
uma diminuição das diferenças entre indivíduos mais e menos escolarizados tenha ocorrido, apesar
do aumento da prevalência do desfecho. Portanto, esse tipo de abordagem revela não só em quais
grupos está ocorrendo um aumento/redução do indicador de saúde de interesse, mas se essa mu-
dança é uniforme em toda a população, ou se alguma camada apresenta importante desvantagem
social. A observação destes padrões de desigualdade permite aos gestores um melhor planejamento
e monitoramento de ações e políticas públicas voltadas justamente para o enfrentamento das DCNTs.
Outro aspecto importante no estudo de desigualdades é sua relação com as iniquidades. Enquanto
a desigualdade é a parte mensurável das disparidades entre grupos populacionais, ou seja, aquilo
que conseguimos medir a partir de informações de inquéritos em saúde ou pela utilização de siste-
mas de informações em saúde, a iniquidade é um conceito teórico, de difícil mensuração e sujeita
a juízo de valor.2,5,6
Para a caracterização de uma iniquidade em saúde, deve-se atentar para alguns aspectos. O pri-
meiro é identificar uma sistematização nos padrões de desigualdades. No exemplo da Figura 1, com
algumas poucas exceções, em todas as regiões, tanto diabetes mellitus quanto hipertensão arterial
foram mais prevalentes nos menos escolarizados. O segundo aspecto é aquele relacionado a como
tal padrão foi produzido. Há padrões que são biologicamente produzidos, enquanto outros têm forte
determinação social. Neste exemplo, os menos escolarizados tendem a possuir piores condições de
moradia e trabalho, assim como são mais expostos a fatores de risco para doenças crônicas, como
inatividade física, alimentação inadequada, consumo abusivo de álcool, uso de tabaco, entre outros.
Por fim, além desses dois aspectos, considerada-se a desigualdade uma iniquidade quando é en-
tendida como injusta e, também, evitável. Àqueles que se interessam pelo tema de desigualdade,
cabe um julgamento de valor, para se entender se o que está sendo observado pode ser caracteri-
zado como uma iniquidade.

Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, 31(nspe1):e20211065, 2022 2


Fernando C. Wehrmeister e colaboradoras ARTIGO DE OPINIÃO

Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019.

Figura 1 – Prevalência de hipertensão arterial e diabetes, em idosos brasileiros com idade


≥ 60 anos, por região e escolaridade, Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019

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Iniquidades e doenças crônicas ARTIGO DE OPINIÃO

O monitoramento de indicadores em saúde, sejam de doenças ou cobertura de saúde, é essen-


cial para o acompanhamento da saúde da população. É evidente que estimativas agregadas têm
seu valor, porém acabam por esconder importantes desigualdades nos subgrupos populacionais.
Além do óbvio investimento constante em pesquisas e na melhoria dos sistemas de saúde, deve-se
estimular que inquéritos e serviços de saúde coletem informações sobre diferentes dimensões de
desigualdade: cor da pele, etnia, gênero, situação de migração, região de residência, entre tantas
outras possibilidades. Os próprios ODS já sugerem que estejam disponíveis dados confiáveis, atuais
e que permitam um olhar mais amplo para as desigualdades em saúde.
No cenário atual da saúde brasileira, com as políticas de austeridade fiscal estabelecidas em 2016
e os problemas no enfrentamento de crises sanitárias, como a pandemia de COVID-19, a pesquisa
em saúde com foco na identificação daqueles que estão sendo "deixados para trás" se torna ainda
mais relevante. Um olhar cuidadoso é fundamental para que possamos enfrentar coletivamente a
grande carga que as DCNTs impõem à sociedade e aos serviços de saúde. Este esforço poderá ser
mais efetivo se todos os atores envolvidos, como políticos, gestores, pesquisadores e sociedade ci-
vil, adotarem ações conjuntas e coordenadas visando não só à redução das DCNTs, mas também à
redução de desigualdades associadas a estes desfechos em saúde.

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

Wehrmeister FC redigiu a primeira versão do manuscrito e analisou os dados. Wendt AT e Sardinha LMV
contribuíram com sua interpretação e revisão crítica. Todos os autores aprovaram sua versão final e são
responsáveis por todos os seus aspectos, incluindo a garantia de sua integridade e precisão.

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Correspondência: Fernando C. Wehrmeister | fcwehrmeister@[Link]

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Fernando C. Wehrmeister e colaboradoras ARTIGO DE OPINIÃO

REFERÊNCIAS
1. Malta DC, Duncan BB, Schmidt MI, Teixeira R, Ribeiro ALP, Felisbino-Mendes MS, et al. Trends
in mortality due to non-communicable diseases in the Brazilian adult population: national and
subnational estimates and projections for 2030. Popul Health Metr. 2020; 18(Suppl 1): 16.
2. United Nations. Sustainable development goals 2021. Available from: [Link]
3. Malta DC, Andrade S, Oliveira TP, Moura L, Prado RRD, Souza MFM. Probability of premature death
for chronic non-communicable diseases, Brazil and Regions, projections to 2025. Rev Bras Epidemiol.
2019; 22: e190030.
4. Delpino FM, Wendt A, Crespo PA, Blumenberg C, Teixeira DSdC, Batista SR, et al. Ocorrência e
desigualdades por escolaridade em multimorbidade em adultos brasileiros entre 2013 e 2019:
evidências da Pesquisa Nacional de Saúde. Rev Bras Epidemiol. 2021; 24(supl 2). doi: 10.1590/1980-
[Link].2
5. Silva I, Restrepo-Mendez MC, Costa JC, Ewerling F, Hellwig F, Ferreira LZ, et al. Measurement of social
inequalities in health: concepts and methodological approaches in the Brazilian context. Epidemiol
Serv Saude. 2018; 27(1): e000100017.
6. World Health Organization. State of inequality: reproductive maternal newborn and child health:
interactive visualization of health data. Geneva: World Health Organization; 2015.

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