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Componentes do Comportamento Criativo

O artigo explora a criatividade como um fenômeno complexo, discutindo suas características a partir da literatura da Análise do Comportamento. Os autores argumentam que a criatividade deve ser entendida como um comportamento, enfatizando a importância das condições ambientais e das relações funcionais entre o organismo e seu meio. A pesquisa sugere que a compreensão da criatividade pode ser aprimorada ao evitar práticas verbais inadequadas e ao utilizar uma abordagem operacional para definir o fenômeno.

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Componentes do Comportamento Criativo

O artigo explora a criatividade como um fenômeno complexo, discutindo suas características a partir da literatura da Análise do Comportamento. Os autores argumentam que a criatividade deve ser entendida como um comportamento, enfatizando a importância das condições ambientais e das relações funcionais entre o organismo e seu meio. A pesquisa sugere que a compreensão da criatividade pode ser aprimorada ao evitar práticas verbais inadequadas e ao utilizar uma abordagem operacional para definir o fenômeno.

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acta comportamentalia

Vol. 18, Núm. 1 pp. 107-134

Características dos componentes da classe geral


denominada comportamento criativo identificadas
a partir da literatura da Análise do Comportamento

(Characteristics of the components of the general class denominated creative


behaviour identified upon the Behaviour Analysis literature)

Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo1

Universidade Federal de Santa Catarina

(Receveid July 13, 2009; accepted October 23, 2009)

Criatividade é uma característica socialmente valorizada. É costumeira a afirmação de que


é preciso incentivá-la nos mais diversos âmbitos, das artes à ciência. Comportar-se de for-
ma criativa pode contribuir para a solução de diversos problemas que a sociedade enfrenta,
da degradação dos recursos naturais à violência. No entanto, o que se sabe a respeito do
que é denominado criatividade? Promover criatividade pode depender dessa resposta.
Diversas descobertas a respeito do fenômeno criatividade foram realizadas por
distintas perspectivas de estudo, cada uma delas enfatizando diferentes aspectos deste
complexo fenômeno, e utilizando muitas vezes uma linguagem específica para se referir
a esses aspectos. Segundo Joly (2001) a partir dos anos de 1950, nos Estados Unidos, a
criatividade passou a ser estudada de forma sistemática. Alencar (1993) afirma que as
pesquisas sobre criatividade têm investigado principalmente “traços de personalidade” e
habilidades cognitivas responsáveis pelo aparecimento de produtos criativos. MacKin-
non (1965, 1967, 1975) citado por Alencar (1993), identificou “traços de personalidade”
característicos de pessoas consideradas criativas tais como: intuição, flexibilidade cog-
nitiva, persistência, pensamento independente, espontaneidade, maior abertura às ex-
periências etc. Guilford (1967a, 1967b) citado por Alencar (1993), identificou algumas
habilidades cognitivas que contribuem para o pensamento criativo como: fluência, flexi-

1) Correspondência para: Olga Mitsue Kubo – Núcleo de Estudos em Análise e Síntese do Comportamento
-Departamento de Psicologia – Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) – Universidade Federal de Santa Catarina,
Campus Trindade – Florianópolis / SC. CEP 88.040-970 - Brasil
108 Características dos componentes da classe geral 2010

bilidade, originalidade, elaboração, redefinição e sensibilidade para problemas. Os ter-


mos utilizados pelos autores citados (Guilford, 1967a, 1967b; MacKinnon, 1965, 1967,
1975) em Alencar (1993), quando se referem a características de pessoas criativas, foram
transcritos como os respectivos autores os apresentaram.
Alencar (1998), com base nas habilidades cognitivas propostas por Guilford (1967,
1979), propôs atividades e exercícios para promover a criatividade, principalmente no
contexto escolar. A autora possui extensa publicação acerca da criatividade e sua relação
com a educação, enfatizando a possibilidade de favorecer o surgimento de produtos cria-
tivos, desmistificando a noção da criatividade como um dom, um talento. A partir da
década de 1970, pesquisas sobre criatividade passaram a investigar, além das caracte-
rísticas relacionadas à personalidade e habilidades cognitivas, as características sociais,
históricas e culturais que influenciam o surgimento de produtos criativos (Alencar &
Fleith, 2003). Nessa perspectiva as variáveis ambientais são consideradas, ainda que
de forma genérica, e os autores geralmente se referem a elas por meio de termos como:
influência social, motivação extrínseca e contexto sócio-cultural.
Desde a década de 1950, quando pesquisas passaram a ser realizadas de forma siste-
mática, algumas características do fenômeno “criatividade” foram identificadas por meio
de diferentes procedimentos e foram utilizados diferentes conceitos para se referir a esse
fenômeno (Alencar, 1993). Há algumas exigências para a utilização de termos ao se referir
a fenômenos no âmbito da Ciência, entre as quais: referência a aspectos passíveis de veri-
ficação, objetividade e precisão. Nem todos os termos que se referem ao fenômeno “criati-
vidade” são adequados para o propósito da produção de conhecimento científico.
Para investigar o fenômeno criatividade é necessário que seja feita uma análise
conceitual de tal fenômeno. Por meio deste exame, é possível constatar que as conce-
pções acerca da criatividade, tanto do senso comum como das diferentes perspectivas
psicológicas em geral, evidenciam uma confusão epistemológica que dificulta seu estu-
do. No senso comum, criatividade é considerada um talento ou dom que determinadas
pessoas possuem, ela é transformada em algo interno responsável pelos atos criativos,
ou seja, possui um status causal ou de explicação de ações, sendo a compreensão desse
fenômeno cercada de mistério (Barbosa, 2003; Hunziker, 2006; Marr, 2003). Na litera-
tura psicológica em geral, criatividade é freqüentemente considerada como um “traço de
personalidade” ou decorrente de habilidades cognitivas (Alencar, 1993). De acordo com
essas concepções, a compreensão do fenômeno não é menos misteriosa que a do senso
comum, a natureza do fenômeno também é relegada ao interior das pessoas por meio
de expressões que se referem a conceitos como personalidade, inconsciente e conceitos
correlatos que também possuem o status causal e de explicação de ações (Carpio, 1999;
Marr, 2003).
Há decorrências que derivam das formas de se conceber o fenômeno da criatividade
como uma entidade dotada de propriedades explicativas do comportamento. O caráter de
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 109

entidade interna atribuída à criatividade na literatura psicológica em geral, faz com que
se negligenciem as condições ambientais que favorecem ações criativas. Por exemplo, o
papel que pais e educadores podem exercer ao arranjar as condições ambientais de forma
que sejam propícias a essas ações ocorrerem (Barbosa, 2003). Além de a criatividade
ser transformada em uma entidade, como salientado por Barbosa (2003), ela é dotada
de propriedades causais e de explicação das ações criativas, fazendo com que a entidade
“criatividade” seja considerada apenas a indicação ou indício de ações criativas, e não
como um legítimo objeto de estudo (Carpio, 1999). Desse modo, a concepção da criativi-
dade como uma entidade interna, dificulta a identificação de relações funcionais entre o
organismo que age criativamente e o ambiente em que este realiza a ação dita criativa.
Pseudoexplicações a respeito do comportamento são amplamente difundidas por
meio de práticas verbais, estas constituem dificultadores para a compreensão do com-
portamento entendido como relações funcionais que um organismo estabelece com seu
meio. A Lógica é um ramo da Filosofia que possibilita avaliar a validade de argumen-
tos e dessa forma, identificar falsos argumentos denominados falácias. Segundo Copi
(1974) e Navega (2005), falácias são raciocínios que aparentemente estão corretos, mas
que se examinados com cuidado se mostram falsos e que induzem ao erro. Uma falácia
muito comum ao se tratar de criatividade é a falácia nominal ou circular. Afirmar que
um indivíduo age criativamente porque é criativo e é criativo porque age criativamente,
é um raciocínio que “caminha” em círculos, pois utiliza o próprio nome do evento para
explicá-lo (Hunziker, 2006, Nelson, 2006). Há diversos tipos de falácias, não é objetivo
explorá-las em minúcia, mas sim enfatizar que explicações sobre a criatividade, e sobre
diversos fenômenos psicológicos, podem estar sustentadas por premissas que compõem
argumentos inválidos, sendo necessário identificá-los para tornar possível a explicitação
das condições ambientais relacionadas às ações criativas.
A utilização de termos vagos também consiste em dificultador para a investigação
do fenômeno criatividade. De acordo com Marr (2003), uma das maiores dificuldades
ao se empreender o estudo da criatividade é definir os termos adequados a tal análise.
Skinner (1959/1975) afirma que pelo fato de a linguagem vernacular ser vaga e impreci-
sa, assim como a linguagem utilizada pela Psicologia, que é repleta de termos de origem
antiga e não científica, o adequado é operacionalizar tais termos. Por operacionalizar,
entende-se a identificação das relações entre aspectos do ambiente e o que um organis-
mo faz neste ambiente quando se utiliza os termos em questão. No caso da criatividade,
quando se diz que uma pessoa age criativamente é necessário questionar: Quais são os
aspectos do ambiente que antecederam uma ação dita criativa? Que tipo de ação realiza
uma pessoa que age criativamente? Quais são as características dessa ação? Quais são
os aspectos do ambiente que sucedem tal ação criativa? Essas questões auxiliam a ca-
racterizar com mais precisão o que constitui o fenômeno a ser investigado, exigência in-
dispensável ao se empreender uma investigação científica. De acordo com Junior (1999)
110 Características dos componentes da classe geral 2010

a atitude operacional proposta por Skinner (1959/1975), consiste em um procedimento


que permite um vocabulário descritivo consistente com uma ciência empírica do com-
portamento.
A reificação é um fenômeno lingüístico que consiste na transformação de processos
em coisas, como a própria etimologia da palavra sugere, reificar significa “fazer coisa”
(Robinson, 2003). Esse fenômeno lingüístico também dificulta a identificação das re-
lações que um organismo estabelece com o meio, pois, quando alguém opera sobre o
ambiente e cria algo com características que se denomina criativa, a tendência é dizer
que isto é criatividade, um substantivo, uma “coisa”. Assim, não há mais preocupação
em explicar algo que um organismo faz e se nomeia com verbos, mas sim algo que é
criado e é nomeado com um substantivo, a “criatividade” (Robinson, 2003; Woodworth
& Marquis, 1975).
Sendo assim, explicações sobre criatividade e diversos fenômenos psicológicos se
sustentam em práticas verbais inconsistentes como argumentos falsos, reificação, utili-
zação de termos vagos e imprecisos que dificultam a descoberta das relações funcionais
entre o que o organismo faz e o ambiente no qual ele faz. Identificadas algumas das práti-
cas verbais que sustentam pseudoexplicações do comportamento, a proposta operacional
indicada por Skinner (1959/1975) é uma alternativa plausível para uma definição mais
apropriada dos termos utilizados em uma ciência do comportamento.

1. Da criatividade ao comportamento criativo: perspectiva


da Análise Experimental do Comportamento sobre o
comportamento criativo

Práticas verbais inapropriadas configuram empecilho para o estudo da criatividade,


portanto é necessário referir-se ao fenômeno com termos apropriados. De acordo com
Botomé & Kubo (2005), para se referir àquilo que as pessoas fazem é possível utili-
zar expressões variadas, como substantivos, verbos e até mesmo adjetivos. Contudo,
a utilização de verbos para se referir ao que as pessoas fazem evita transformar aquilo
que estas fazem, em entidades explicativas do próprio comportamento (Woodworth &
Marquis, 1975). Sendo assim, o termo mais adequado para se referir ao fenômeno comu-
mente denominado “criatividade” é: “comporta-se criativamente”. Coerentemente com
essa proposição, diversos autores têm enfatizado a “criatividade” como comportamento
(Barbosa, 2003; Cautilli, 2004; Hunziker, 2006; Lacasella, 2004; Skinner, 1968/1972,
1953/1974, 1974/1982; Vollet, 1974).
Ao examinar o comportamento criativo, Skinner (1974/1982) enfatizou a impor-
tância dos processos de variação e seleção ao fazer uma analogia entre evolução das
espécies por meio da mutação genética e o processo criativo em que também ocorreriam
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 111

“mutações”, referindo-se à variação, submetida posteriormente à ação seletiva das con-


tingências de reforço. Skinner ainda salientou a possibilidade de ensino do comporta-
mento criativo por meio da programação de condições que aumentem a probabilidade de
emissão de respostas originais (Bandini & de Rose, 2006; Skinner, 1968/1972).
Os resultados das pesquisas sobre variabilidade comportamental têm permitido
destacar sua relevância para a compreensão do comportamento criativo e tem possibili-
tado refutar a proposição de que o reforçamento favorece a estereotipia de resposta, com-
provando a natureza operante da variabilidade comportamental (Grunow & Neuringer,
2002; Neuringer, 2002, 2004). Hunziker (2006) destaca que a diversidade de caracterís-
ticas comportamentais que definem a criatividade exige um exame que envolve análi-
ses separadas dessas características. A variabilidade comportamental, segundo a autora,
é uma dessas características. Os resultados de pesquisas que investigam variabilidade
comportamental trazem implicações importantes, por exemplo, para a possibilidade de
ensino do comportamento criativo via reforçamento da variabilidade.
Há outras áreas de estudo promissoras para a compreensão do comportamento cria-
tivo, além de pesquisas sobre variabilidade comportamental, com destaque para estudos
das relações de equivalência de estímulos e a interconexão espontânea de repertórios.
O conjunto de pesquisas, do qual Epstein é o principal pesquisador, tem produzido re-
sultados relevantes para a compreensão do comportamento criativo ao investigar o que
foi chamado de interconexão espontânea de repertórios. De acordo com Delage e Neto
(2006), Epstein elaborou uma teoria comportamental para o fenômeno “criatividade”.
As pesquisas sobre relações de equivalência, como indicado por Sidman (1994), também
contribuem para a compreensão do comportamento criativo. De acordo com o autor, o
estabelecimento de relações de equivalência de estímulos propicia a apresentação de
comportamentos não ensinados explicitamente, ou seja, comportamentos “novos”, aná-
logo ao que se denomina “criatividade”. Há a possibilidade inclusive de, a partir de um
conjunto especificado de circunstâncias, prever o surgimento de atos criativos (Sidman,
1994).
Referir-se à criatividade como comportamento possibilitou um avanço na compre-
ensão de relações específicas que se estabelecem entre um organismo e seu meio, e que
caracterizam o comportamento criativo. Dentre os pesquisadores que estudam diferentes
aspectos das relações que constituem o comportamento criativo, são destacadas inves-
tigações de processos de variação comportamental, interconexão espontânea de reper-
tórios e relações de equivalência de estímulos. Desse modo, fica mais difícil considerar
criatividade como uma entidade e é destacado o comportamento como fenômeno nuclear
na caracterização do fenômeno “criatividade”.
112 Características dos componentes da classe geral 2010

Noção de comportamento como conceito nuclear para o estudo do comportamento


criativo

Considerar “criatividade” como comportamento implica por sua vez a necessidade de


explicitar a noção de comportamento. É comum a noção de que comportamento é aquilo
que um organismo faz e pode ser observado. No entanto, o conceito de comportamento
evoluiu rapidamente desde as primeiras proposições apresentadas por Skinner (1938,
1969/1984, 1953/1974). Botomé (2001) examinou a evolução da noção de comporta-
mento e as contribuições de diversos autores, apresentando essa noção como a relação
que se estabelece entre o que o organismo faz e o ambiente em que o faz. Ou seja, o com-
portamento não é constituído apenas pela ação do organismo, mas também pela situação
do ambiente anterior e posterior a esta ação (Botomé, 2001; Skinner, 1969/1984).
A Figura 1 apresenta os três componentes do comportamento, as setas representam
as possíveis relações entre esses componentes quando um organismo realiza uma ação.
É necessário salientar que as setas presentes na Figura 1 representam apenas as possíveis
relações que podem se estabelecer entre os três componentes do comportamento, não
representando a relação temporal entre os três componentes, pois as alterações produzi-
das por uma resposta particular alteram a probabilidade de ocorrência de respostas dessa
classe no futuro, e não da própria resposta que produziu as alterações no ambiente, como
já foi explicitado por Skinner (1953/1974, 1957/1978). Haja vista a noção de comporta-
mento, como a relação entre o que o organismo faz e o meio em que o faz, criatividade
é um comportamento, ou ao menos se refere a características do comportamento; um
organismo se relaciona de determinada forma com seu meio e suas ações ou produtos
de suas ações são denominados criativos. Investigar o fenômeno “criatividade” a partir
da noção de comportamento traz como exigência identificar as características de cada
componente que compõe aANEXOSclasse denominada
(FIGURAS comportamento
E TABELAS) criativo.

FIGURA 1
Figura 1. Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento
como relação entre o que o organismo faz e o ambiente (anterior e posterior à ação) em que o faz.
Reproduzido de Botomé (2001).
TABELA 1
TÍTULO AUTOR ANO PERIÓDICO

A criatividade sob o enfoque da análise do BARBOSA, J. I. C. 2003 Revista Brasileira de


comportamento Terapia Comportamental e
Cognitiva
Toward A Behavioral Theory of “Creativity” - CAUTILLI, J. 2004
A Preliminary Essay The Behavior Analyst
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 113

Identificar as características de cada componente que constitui o comportamento


criativo permitirá aumentar a visibilidade do que constitui tal comportamento, e dessa
forma lidar mais eficazmente com as relações que os organismos estabelecem com o
ambiente por meio desse comportamento. É possível, por exemplo, planejar condições
de ensino para o comportamento criativo de forma aumentar a dimensão criativa de com-
portamentos como o de resolver problemas, comportamento verbal e os comportamentos
constituintes de competências profissionais e dessa forma aumentar a probabilidade de
que esses comportamentos sejam mais eficazes, e de menor custo para quem se comporta
revertendo em produtos úteis para a sociedade. Sendo assim, fica demonstrada a relevân-
cia de investigar as características da classe geral do comportamento criativo.

MÉTODO

Foram examinadas 20 fontes bibliográficas, entre artigos e livros sobre o comportamento


criativo em geral, e em específico o comportamento criativo “verbal” e comportamento
criativo “solucionador de problemas”. Dessas fontes, foram extraídos trechos que se
referiam à definição de comportamento criativo ou a características desse comportamen-
to, como originalidade, ineditismo e infreqüência. Na Tabela 1 está presente a relação
de artigos que tiveram trechos selecionados e a Tabela 2 permite observar a relação de
livros examinados.

Fontes de informação

Tabela 1. Lista de artigos examinados que tiveram trechos selecionados na composição de categorias
referentes às características de cada componente do comportamento criativo

Título Autor Ano Periódico


A criatividade sob o enfoque da BARBOSA, J. I. C. 2003 Revista Brasileira de Terapia
análise do comportamento Comportamental e Cognitiva
Toward A Behavioral Theory of CAUTILLI, J. 2004
“Creativity” - A Preliminary Essay The Behavior Analyst Today
Comportamento Criativo e Análise HUNZIKER, M. 2006 Sobre Comportamento e
do Comportamento I: variabilidade H. L. Cognição
comportamental
A criatividade verbal e sua JOLY, M. C. A. 2001 Psicologia Escolar e
importância nos ambientes Educação
educacionais
The Stitching and the Unstitching: MARR, J. M.; 2003 The Behavior Analyst
What Can Behavior Analysis Have TECH, G.
to Say About Creativity?
114 Características dos componentes da classe geral 2010

Título Autor Ano Periódico


Comportamento criativo & análise do NELSON, T. 2006 Sobre Comportamento e
comportamento III: Comportamento Cognição
Verbal
Operant variability: NEURINGER, A. 2002 Psychonomic Bulletin &
Evidence, functions, and theory Review
Reinforced Variability in Animals NEURINGER, A. 2004 American Psychologist
and People – Implications for
Adaptive Action
Criatividade: Enfoque Behaviorista VOLLET, V. T. 1974 Boletim de Psicologia. Revista
da Sociedade de Psicologia de
São Paulo

Tabela 2. Lista de livros examinados que tiveram trechos selecionados na composição de categorias
referentes às características de cada componente do comportamento criativo

Título Autor Ano


tecnologia do Ensino SKINNER, B. F 1968/1972
Ciência e Comportamento Humano SKINNER, B. F 1953/1974
Sobre o Behaviorismo SKINNER, B. F 1974/1982

Procedimento

De escolha das fontes de informação:


Foram utilizados os seguintes critérios de escolha das fontes de informação:
a Presença dos termos “comportamento criativo” ou “criatividade” no título da fonte
de forma a aumentar a probabilidade de que o assunto principal da obra se referisse
a aspectos do comportamento criativo.
b) Fontes de informação que foram obtidas integralmente.
c) Fontes em que foi possível identificar aspectos relacionados a quaisquer dos três
componentes do comportamento.
d) Obras que foram citadas como referência das fontes de informação selecionadas de
acordo com os critérios anteriores, como por exemplo, Neuringer (2002) e Skinner
(1953/1974).

De coleta de dados:

Primeira etapa: Consistiu na leitura das fontes de informação e na identificação dos tre-
chos do material que se referiam a:
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 115

(1) definições de comportamento criativo, ou definições de expressões sinônimas


(originalidade, criatividade, comportamento novo, etc). Por exemplo: “Originalidade é
o comportamento pouco freqüente dentro de condições existentes. Para ser original o
comportamento deve ser controlado por um estímulo particular”;
(2) características do comportamento criativo. Por exemplo: “Quando porém, um
padrão de manipulação é pela primeira vez aplicado a um caso particular, resultando em
algo de novo e útil, pode-se considerá-lo como resposta original”.
Segunda etapa: Os destaques feitos na primeira etapa foram organizados de
acordo com os componentes da definição de comportamento: Características da classe
de estímulos antecedentes, Características da classe de respostas e Características da
classe de estímulos conseqüentes, dependendo do tipo de informação que constituíam
os trechos selecionados. Por exemplo: Do destaque “Originalidade é o comportamento
pouco freqüente dentro de condições existentes. Para ser original o comportamento deve
ser controlado por um estímulo particular”, o trecho “Originalidade é o comportamento
pouco freqüente dentro de condições existentes” foi classificado como pertencente à
característica da classe de respostas e o trecho “Para ser original o comportamento deve
ser controlado por um estímulo particular”, foi classificado como pertencente a caracte-
rísticas da classe de estímulos antecedentes.
Terceira etapa: Os destaques da segunda etapa, organizados segundo a noção de
comportamento, foram agrupados em categorias, de acordo com a similaridade dos pro-
cessos aos quais as expressões se referiam e de acordo com cada componente do com-
portamento. Por exemplo, o trecho “A originalidade consiste essencialmente na emissão
do comportamento sob uma nova configuração, (...).” e o trecho “(...) quanto mais amplo
e variado for o repertório de respostas aprendidas pelo indivíduo, tanto maior a possi-
bilidade de, diante de uma nova situação ou de um problema, emitir uma resposta ou
cadeia de respostas novas ou originais, (...).” ambos pertencentes à classe de estímulos
antecedentes foram agrupados em uma única categoria denominada “Situação nova para
o organismo”, pois ambos os trechos se referem a uma condição similar que aumenta a
probabilidade de respostas originais ou novas.

RESULTADOS

Nas Tabelas de 3 a 7 estão apresentados os trechos selecionados da literatura da Análise


do Comportamento que se referem ou definem comportamento criativo, organizados por
categorias de aspectos relacionados a cada um dos três componentes do comportamento
criativo: classe de estímulos antecedentes (Tabelas 3 e 4), classe de respostas (Tabelas
5 e 6) e classe de estímulos conseqüentes (Tabela 7). Na Tabela 8 estão apresentadas as
características dos três componentes que compõem a classe geral denominada compor-
tamento criativo identificadas a partir do exame das obras selecionadas.
116 Características dos componentes da classe geral 2010

Tabela 3. Trechos selecionados de obras da Análise do Comportamento


que se referem ou definem comportamento criativo e que caracterizam aspectos da classe
de estímulos antecedentes como um dos componentes que constituem o comportamento criativo.
Os termos sublinhados indicam aspectos considerados para classificar nas respectivas categorias
de características da classe de estímulos antecedentes

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


1) A originalidade consiste essencialmente na emissão do compor- Vollet (1964)
tamento sob uma nova configuração, (...).
2) (...) quanto mais amplo e variado for o repertório de respostas Skinner (1957) e Staats
aprendidas pelo indivíduo, tanto maior a possibilidade de, diante (1971) citados por Joly
de uma nova situação ou de um problema, emitir uma resposta ou (2001)
cadeia de respostas novas ou originais, (...).
3) Skinner (1968) considera que o estabelecimento de mutações Skinner (1968) citado
ambientais e o controle de contingências reforçadoras são capazes por Joly (2001)
de aumentar o número de respostas diversificadas dos alunos au-
mentando, assim, a probabilidade de ocorrerem comportamentos
criativos.
4) No comportamento verbal, como em todo comportamento ope-
rante, formas originais de resposta são suscitadas por situações Skinner (1974/1982)
Situação às quais uma pessoa não foi anteriormente exposta. A origem
nova para o do comportamento não é diversa da origem das espécies. Novas
organismo combinações de estímulos aparecem em novas situações, e as res-
postas que as descrevem podem nunca ter sido dadas antes pelo
falante, ou lidas ou ouvidas por ele na fala de outrem.
5) (...), ensinamo-lhes também a explorar novos ambientes e a resol-
ver os problemas que daí resultam. Com isso, parecerá mais origi- Skinner (1968/1972)
nal, no sentido de que seu comportamento não pode ser facilmente
atribuído a instruções anteriores, particularmente quando depende
de características imprevistas de um novo ambiente. (p.164)
6) Mednick analisa a criatividade pelo conceito de estrutura de Mednick (1962) citado
associação de palavras, através de novas combinações de elemen- por Vollet (1964)
tos; preenchendo desta forma, os requisitos de solicitações novas
e úteis a uma situação específica.
1) Um grande conjunto evidências sugere que estímulos novos e
Estímulo incertos são ocasião para o comportamento exploratório (Butler,
novo ou 1953; Harlow, 1950; Montgomery, 1951, 1953, 1955; Thompson & Cautilli (2004)
incerto para o Heron, 1954). Barnes and Baron (1961) descobriram que estímulos
organismo novos podem aumentar a probabilidade de comportamento explo-
ratório. (...) Comportamento exploratório é um primeiro passo para
promover o surgimento de “trabalhos criativos” (...). (p.129)1

1) Tradução do trecho “A large body of evidence suggests that novel and thus uncertain stimuli set the occasion for
exploratory behavior (Butler, 1953; Harlow, 1950; Montgomery, 1951, 1953, 1955; Thompson & Heron, 1954). Barnes
and Baron (1961) found that stimulus novelty could increase exploratory behavior. (...) Exploratory behavior is a good
first step to ensuring the creation of “creative works.”
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 117

Na Tabela 3 estão apresentados trechos selecionados de obras da literatura da Aná-


lise do Comportamento que caracterizam aspectos da classe de estímulos antecedentes
da classe geral denominada comportamento criativo. Nesses trechos estão sublinhados
os termos que indicam os aspectos considerados para a classificação nas respectivas
categorias. O exame da Tabela 3 possibilita identificar seis trechos classificados na ca-
tegoria “Situação nova para o organismo”, destacados de diferentes obras. Dentre esses
seis trechos, quatro são de obras distintas de B. F. Skinner, das quais duas são citações
indiretas. Os anos de publicação dos trechos incluídos nessa categoria variam entre 1957
e 1974, considerando o ano da primeira publicação e das citações indiretas.

Tabela 4. Trechos selecionados de obras da Análise do Comportamento


que se referem ou definem comportamento criativo e que caracterizam aspectos da classe
de estímulos antecedentes como um dos componentes que constituem o comportamento criativo.
Os termos sublinhados indicam aspectos considerados para classificar nas respectivas categorias de
características da classe de estímulos antecedentes

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


1) Originalidade é o comportamento pouco freqüente dentro de Staats (1964) citado
condições existentes. Para ser original o comportamento deve ser por Vollet (1964)
controlado por um estímulo particular.
Controle 2) Maltzman lançou os fundamentos para identificar formas efi-
por estímulo cientes de fortalecer as respostas originais, a fim de que elas su-
particular plantem os padrões de respostas habituais predominantes. Para tan- Maltzman (1965b)
to, recorreram aos princípios da “hierarquia de família de hábitos”, citado por Joly
formulados por Hull em 1934, demonstrando que esses princípios (2001)
podem ser generalizáveis para a solução de problemas por huma-
nos. Uma “família de hábitos” é formada quando o indivíduo está
sob o controle de um único estímulo que, em vez de evocar apenas
uma resposta, provoca o aparecimento de uma hierarquia comple-
xa de respostas, que pode ser dominante ou não em função de sua
posição relativa às demais hierarquias presentes no repertório do
indivíduo.
Controle por 1) Para ser original o comportamento deve ser controlado por um Staats (1964) citado
combinação de estímulo particular. Dada porém, uma situação de combinação de por Vollet (1964)
estímulos estímulos, devem surgir combinações de respostas, que, por sua
vez, devem ser de utilidade social.
1) “estímulos ou relações de estímulos que sugerem um contro- Sloane, Endo e
le informal* da resposta (...) são freqüentemente discriminativos Della-Piana (1980)
para identificar a resposta como criativa” (p. 20). - *Controle dis- citados por Barbosa
Controle sutil criminativo “informal”: Quando uma resposta emitida está sob o (2003)
de múltiplas controle sutil de múltiplas variáveis, e não é normalmente reforça-
variáveis da pela comunidade nessas condições (por não exercerem ou por
exercerem muito pouco controle sobre o comportamento de outras
pessoas).
118 Características dos componentes da classe geral 2010

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


2) A distinção entre emissão de resposta convergente e divergente é
um forma de iniciar o estudo da criatividade. (...) A emissão de res- Guilford (1957,
posta divergente requer respostas com menor controle de estímulos 1966) citado por
Controle sutil entre a resposta e a “alternativa correta”. Guilford caracterizou a Cautilli (2004)
de múltiplas forma divergente como “criativa”. (p.127)2
variáveis
3) Eventos que não estão sob controle de estímulos rígido do am- Cautilli (2004)
biente são mais propensos a mutação e assim pode se dizer que
possuem alta taxa de mutação. (p.131)3

Na Tabela 4 estão apresentadas três categorias relacionadas à classe de estímulos


antecedentes da classe geral comportamento criativo. As categorias “controle por estí-
mulo particular” e “controle por combinação de estímulos” foram formuladas a partir
de um mesmo trecho de Staats (1964) citado por Vollet (1964), onde há a afirmação,
por meio das palavras “estímulo particular” e “combinação de estímulos”, de duas pos-
sibilidades quanto ao controle de estímulos presente em comportamentos criativos. A
categoria “controle sutil de múltiplas variáveis” foi elaborada considerando três trechos
de diferentes obras. Esses trechos se referem ao controle de estímulo pelas expressões
“controle sutil”, “less stimulus control” e “tight stimulus control”.

2) Tradução do trecho “the distinction between convergent and divergent response production is a good place to
begin the study of creativity. (…) Divergent response production entails responses with less stimulus control between the
response and the “correct answer.” Guilford characterized the divergent mode as “creative.””
3) Tradução do trecho “Facts not under tight stimulus control of the environment are more prone to mutation and
thus can be said to have a higher mutation rate.”
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 119

Tabela 5. Trechos selecionados de obras da Análise do Comportamento que se referem ou definem


comportamento criativo e que caracterizam aspectos da classe de respostas como um dos componentes
que constituem o comportamento criativo. Os termos sublinhados indicam aspectos considerados para
classificar nas respectivas categorias de características da classe de respostas

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


1) Mednick e Maltzman recorrem ao conceito de associações e Ray (1967) citado
usam o critério de respostas únicas ou incomuns como indica- por Vollet (1974)
dor de originalidade.
2) Criatividade se refere a um tipo de comportamento que a
Emitir respostas pessoa apresenta mais provavelmente em certas circunstâncias, Cautilli (2004)
únicas, novas ou (...) Essa classe de comportamento é freqüentemente caracteri-
incomuns zada como nova ou incomum, enquanto continua produzindo
um efeito desejado. (p.127)4
3) Quando falamos de criatividade, o fazemos freqüentemente Cautilli (2004)
em termos de produção de respostas novas. (p.127)5
4) Comportar-se de maneira nova, incomum, ou não repetida é Campbell,
parte de atividades criativas (Campbell, 1960).6 (1960) citado por
Neuringer (2002)
5) Respostas criativas são aquelas novas ou variáveis que re- Neuringer (2002)
únem um critério adicional, comumente um critério estético
(ex. artístico), mas algumas vezes um critério funcional (ex.
científico).7
Emitir respostas não 1 Os comportamentos mais criativos são os que envolvem res- Staats (1964) citado
empreendidas por postas não empreendidas por outros até então. por Vollet (1974)
outros até então
1) Mednick (1962) analisa a criatividade pelo conceito de es- Mednick (1962)
Combinar elementos trutura de associação de palavras, através de novas combina- citado por Vollet
de maneira nova ções de elementos; preenchendo desta forma, os requisitos de (1974)
solicitações novas e úteis a uma situação específica.
2) A criatividade, considerando o modelo comportamentalista,
está relacionada não somente à produção de comportamentos, Joly (2001)
mas também utiliza cadeias de respostas verbais na combina-
ção de seus elementos diante de uma determinada situação.

4) Tradução do trecho “Creativity refers to a kind of behavior in which a person is likely to engage in under cer-
tain circumstances, (…). This class of behavior is often characterized as either novel or unusual, while still producing a
desired effect.”
5) Tradução do trecho “When we speak of creativity, it is often in terms novel response productions.”
6) Tradução do trecho “Behaving in a novel, unusual, or nonrepeating manner is part of creative activities”
7) Tradução do trecho “Creative responses are novel or variable ones that meet an additional criterion, often an
aesthetic (e.g., artistic) one, but sometimes a functional (e.g., scientific) one.”
120 Características dos componentes da classe geral 2010

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


1) Reservamos o termo “original” para aquelas idéias que re-
sultam de manipulações de variáveis que não seguiram uma Skinner
Manipular variáveis fórmula rígida, e nas quais as idéias têm outras probabilidades (1953/1974)
que não seguem de emissão. (...). (p.148)
uma forma rígida 2) Freqüentemente manipulamos materiais no mundo que nos Skinner
cerca para gerar “novas idéias” quando nenhum problema defi- (1953/1974)
nido está presente. (...) (p.147)

Na Tabela 5 estão apresentados trechos selecionados das obras examinadas que


caracterizam aspectos da classe de respostas da classe geral comportamento criativo.
Quando expressões caracterizavam respostas sob a forma de substantivos (“verbos subs-
tantivados”), a expressão foi adaptada para a forma de verbo, explicitando o processo ao
qual se refere, pois de acordo com Skinner (1953/1974), é mais adequado descrevermos
os comportamentos com verbos que especificam a ação. A categoria “Emitir respostas
únicas, novas ou incomuns” diz respeito a cinco trechos em que as palavras “únicas”,
“incomuns”, “novel” e “unusual” se referem às características que uma resposta deve
apresentar para que possa ser considerada criativa. Os cinco trechos são extratos de três
obras distintas, contudo ao considerar as citações indiretas, quatro são os autores que
afirmam estas características. A afirmação presente no trecho de Staats (1964) citado
por Vollet (1974) de que as respostas envolvidas no comportamento criativo são aque-
las não emitidas por outros até então, foi sintetizada na categoria “Emitir respostas não
empreendidas por outros até então”. Os trechos da categoria “Combinar elementos de
maneira nova” apresentam as palavras “combinação de elementos”. Essas expressões
foram adaptadas para a forma de verbo para indicar a categoria (“combinar”). Há nesta
categoria, no trecho selecionado da obra de Joly (2001), a expressão “cadeia de respos-
tas verbais”, referindo-se aos elementos a serem combinados. A categoria “Manipular
variáveis que não seguem uma forma rígida” foi composta por dois trechos em que se
afirma que a manipulação do ambiente pode resultar em produtos criativos. Os dois tre-
chos dessa categoria foram extraídos da mesma obra, Skinner (1953/1974).
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 121

Tabela 6. Trechos selecionados de obras da Análise do Comportamento que se referem ou definem


comportamento criativo e que caracterizam aspectos da classe de respostas como um dos componentes
que constituem o comportamento criativo. Os termos sublinhados indicam aspectos considerados para
classificar nas respectivas categorias de características da classe de respostas

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


Criar elos de ligação 1) A pessoa criativa é capaz de criar elos de ligações pouco Skinner (1957) e
pouco comuns comuns entre os aspectos do ambiente. Staats (1971) citados
entre aspectos do por Joly (2001)
ambiente
Associar elementos 1) Mednick (1962) define o comportamento criativo como re- Mednick (1962)
não freqüentemente sultado de associações de elementos que aparentemente não citado por Joly
associados possuem ligação e que não são normalmente associados, mas (2001)
que passam a ter elos de ligação em novas combinações em
função de sua utilidade ou de critérios específicos.
1) (...) quanto mais amplo e variado for o repertório de respos- Skinner (1957) e
tas aprendidas pelo indivíduo, tanto maior a possibilidade de, Staats (1971) citados
Combinar respostas diante de uma nova situação ou de um problema, emitir uma por Joly (2001)
conhecidas resposta ou cadeia de respostas novas ou originais, resultante
de mutações, combinações e modificações dessas respostas
conhecidas ocorrendo, assim, um processo criativo.
2) Novidade e variação podem surgir por meio de combina- Epstein (1996) citado
ções de comportamentos aprendidos anteriormente (Epstein, por Neuringer (2002)
1996) (…). (p.686)8
Variar resposta 1) A variabilidade comportamental tem papel fundamental Barbosa (2003)
para a ocorrência da resposta criativa.
2) Dada a variedade de características comportamentais que Hunziker (SCC,
definem a criatividade, o seu estudo envolve análises sepa- v.18, cap.13)
radas dessa diversidade de comportamentos. Um exemplo
desses estudos, são as pesquisas experimentais sobre a varia-
bilidade comportamental.
3) (...) variação é base para a criatividade, devendo ser tam- Marr (2003)
bém selecionada.9
4) Criatividade, exploração e resolução de problemas podem Neuringer (2002)
depender em parte da variabilidade operante.10
Variar resposta 5) Reforçamento da variabilidade facilita a aprendizagem de Neuringer (2004)
novas respostas complexas, auxilia na resolução de proble-
mas, e pode contribuir para a criatividade.11

8) Tradução do trecho “Novelty and variation may arise through combinations of previously learned behaviors
(Epstein, 1996) (…).”
9) Tradução do trecho “(…) variation is but the foundation for creativity, there must also be selection.”
10) Tradução do trecho “Creativity, exploration, and problem solving may depend partly on operant variability.”
11) Tradução do trecho “reinforcement of variability facilitates learning of complex new responses, aids problem
solving, and may contribute to creativity.”
122 Características dos componentes da classe geral 2010

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


6) Donal Campbell (1960) sustentou que variações randômi- Donal Campbell
cas são essenciais para produzir trabalhos criativos. Na medi- (1960) citado por
Variar resposta
da que Campbell está correto, reforçamento da variabilidade Neuringer (2004)
pode possuir um papel construtivo.12

Na Tabela 6 estão apresentadas quatro categorias relacionadas às características da


classe de respostas. A categoria “Criar elos de ligação pouco comuns entre aspectos do
ambiente” possui apenas um trecho em que uma pessoa criativa é caracterizada como
aquela que é “capaz de criar elos de ligação” incomuns entre aspectos do ambiente. A
categoria “Associar elementos não freqüentemente associados” sintetiza a definição de
comportamento criativo dada por Mednick (1962) citado por Joly (2001) em que a “as-
sociação de elementos” incomuns pode resultar em respostas criativas. Em dois trechos
examinados há a afirmação de que a combinação de respostas aprendidas anteriormente
pode fazer surgir comportamentos criativos. Esses trechos deram origem a categoria
“Combinar respostas conhecidas”. A categoria “Variar a resposta” foi formulada a partir
de seis trechos em que as seguintes expressões estão relacionadas à criatividade: “varia-
bilidade comportamental”, “variation”, “operant variation” e “random variations”.

12) Tradução do trecho “Donal Campbell (1960) maintained that random variations are essential to produce crea-
tive works. To the extent that Campbell is correct, reinforcement of variability may play a construtive role.”
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 123

Tabela 7. Trechos selecionados de obras da Análise do Comportamento que se referem ou definem


comportamento criativo e que caracterizam aspectos da classe de estímulos conseqüentes como um
dos componentes que constituem o comportamento criativo. Os termos sublinhados indicam aspectos
considerados para classificar nas respectivas categorias de características da classe de estímulos conseqüentes

Categoria Trechos selecionados Referência da obra


1) Maltzman utiliza a palavra originalidade e Mednick usa criativi- Ray (1967) citado
dade, se referindo praticamente aos mesmos aspectos do comporta- por Vollet (1974)
Utilidade do mento. Para ambos é importante que esses comportamentos “novos”
produto da ou incomuns sejam úteis e relevantes.
resposta 2) Mednick analisa a criatividade pelo conceito de estrutura de asso- Mednick (1962)
ciação de palavras, (...). Realçando a utilidade do conceito, conside- citado por Vollet
rando que o produto criativo deve ser necessariamente útil. (1974)
3) Quando porém, um padrão de manipulação é pela primeira vez Skinner (1967)
aplicado a um caso particular, resultando em algo de novo e útil, citado por Vollet
pode-se considerá-lo como resposta original. (1974)
1) (...). Dada porém, uma situação de combinação de estímulos, de- Staats (1964) citado
vem surgir combinações de respostas, que, por sua vez, devem ser por Vollet (1974)
Utilidade do de utilidade social.
produto da 2) Skinner (1968) considera que a criatividade está relacionada à Skinner (1968)
resposta para análise funcional das variáveis manipuláveis que possibilitam o for- citado por Joly
o indivíduo e a talecimento de comportamentos originais e socialmente aprovados. (2001)
sociedade
3) Skinner (1968) dá um sentido próprio a esses termos. Novo e Skinner (1968)
original devem ser considerados como conceitos úteis e relevantes, citado por Joly
tanto para os indivíduos criativos quanto para sua comunidade; (...). (2001)
4) (...) Parece que o critério para um comportamento novo ser des- Nelson (SCC, v.18,
crito também como criativo seja dado pela comunidade na qual a cap.41)
pessoa participa.
1) Mednick (1962) define o comportamento criativo como resultado Mednick (1962)
de associações de elementos que aparentemente não possuem liga- citado por Joly
Utilidade do ção e que não são normalmente associados, mas que passam a ter (2001)
produto da elos de ligação em novas combinações em função de sua utilidade
resposta ou que ou de critérios específicos.
atenda critérios 2) Apesar do requisito da novidade ser um consenso na caracteriza- Hunziker (SCC,
específicos ção da criatividade, o fato de “ser novo” não basta para caracterizar v.18, cap.13)
um comportamento como “criativo”. De uma maneira geral, a cria-
tividade está relacionada a critérios sócio-culturais que nem sempre
atingem um consenso (...).
3) Respostas criativas são aquelas novas ou variáveis que reúnem Neuringer (2002)
um critério adicional, comumente um critério estético (ex. artístico),
mas algumas vezes um critério funcional (ex. científico).13
13) Tradução do trecho “Creative responses are novel or variable ones that meet an additional criterion, often an
aesthetic (e.g., artistic) one, but sometimes a functional (e.g., scientific) one.”
124 Características dos componentes da classe geral 2010

Na Tabela 7 estão apresentados trechos selecionados que caracterizam aspectos


da classe de estímulos conseqüentes da classe geral comportamento criativo. A cate-
goria “Utilidade do produto da resposta” foi elaborada a partir de três trechos. Nesses
trechos está presente a palavra “útil” relacionada ao comportamento criativo. Todos os
trechos desta categoria foram retirados da obra de Vollet (1974), em que ele cita Skin-
ner (1953/1967), Ray (1967) e Mednick (1962). A categoria “Utilidade do produto da
resposta para o indivíduo e a sociedade” foi formada por trechos que afirmam a neces-
sidade da utilidade da resposta criativa, assim como a categoria anterior. Contudo, essa
categoria apresenta expressões que especificam a utilidade, sendo que o comportamento
criativo deve ser útil “tanto para o indivíduo quanto para sua comunidade”. O exame das
obras permitiu identificar trechos que especificam critérios para caracterizar um compor-
tamento como criativo, além de sua utilidade. As seguintes expressões estão presentes
nestes trechos: “critérios sócio-culturais”, artísticos (“artistic”) e científicos (“scienti-
fic”). Esses trechos deram origem à categoria “Utilidade do produto da resposta ou que
atenda critérios específicos”.

Tabela 8. Características gerais dos três componentes que compõem a classe geral denominada
comportamento criativo organizadas em categorias elaboradas a partir dos trechos das obras examinadas

Classe de estímulos Classe de respostas Classe de estímulos


antecedentes consequentes
- Situação nova para o - Emitir respostas únicas, novas - Utilidade do produto da
organismo ou incomuns resposta
- Estímulo novo ou incerto para - Emitir respostas não - Utilidade do produto da
o organismo empreendidas por outros até resposta para o indivíduo e a
- Controle por estímulo então sociedade
particular - Combinar elementos de - Utilidade do produto da
- Controle por combinação de maneira nova resposta ou que atenda
estímulos - Manipular variáveis que não critérios específicos
- Controle sutil de múltiplas seguem uma forma rígida
variáveis - Criar elos de ligação pouco
comuns entre aspectos do
ambiente
- Associar elementos não
freqüentemente associados
- Combinar respostas
conhecidas
- Variar resposta

Na Tabela 8 estão presentes todas as categorias, criadas a partir dos trechos extraí-
dos das obras examinadas, organizadas de acordo com os componentes do comporta-
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 125

mento. A partir dessa organização é possível explicitar as características da classe geral


denominada comportamento criativo. Como característica da classe de estímulos ante-
cedentes, é possível afirmar que esta se constitui por estímulos “novos”, cuja relação de
controle é sutil, sendo estabelecida por um estímulo particular ou por uma combinação
de estímulos. A classe de respostas do comportamento criativo é caracterizada por res-
postas infreqüentes, não emitidas por outros até então. As respostas encontradas são
denominadas por meio de verbos como variar, manipular, associar e combinar. A classe
de estímulos conseqüentes é caracterizada pela necessidade de que a resposta seja útil,
segundo algum critério, para o indivíduo ou a sociedade.

DISCUSSÃO

Selecionar trechos de obras da Análise do Comportamento sobre comportamento cria-


tivo e organizá-los segundo a definição de comportamento (Botomé, 2001; Skinner,
1969/1984), possibilitou não só identificar aspectos relevantes que caracterizam esse
comportamento, como também explicitar propriedades que aparecem com menos fre-
qüência na literatura como definidoras do comportamento criativo e avaliar a adequação
de termos usualmente utilizados para se referir ao comportamento criativo.
A categoria “Situação nova para o organismo” indicada na Tabela 3 possui seis
trechos destacados, desses seis trechos, quatro foram retirados de diferentes obras de B.
F. Skinner. O autor em diferentes períodos, nas obras de 1957, 1968 e 1974, afirma um
mesmo aspecto ilustrado pelos destaques: “diante de uma nova situação ou de um pro-
blema”; “mutações ambientais”; “situações às quais uma pessoa não foi anteriormente
exposta” e “novo ambiente”, respectivamente. Essa recorrência muito provavelmente
indica a relevância do aspecto destacado nos trechos e classificados na citada categoria.
De acordo com Keller e Schoenfeld (1950/1971) um estímulo é basicamente “uma
parte, ou a modificação de uma parte, do meio” (p.17). O ambiente é, portanto, funda-
mentalmente composto por estímulos, podendo ser descrito em termos deste último.
Assim, no que se refere a abrangência das categorias apresentadas na Tabela 3, é pos-
sível notar que a categoria “Situação nova para o organismo” é mais abrangente que
a categoria “Estímulo novo ou incerto para o organismo”. Na primeira categoria, os
trechos indicam de forma genérica que uma situação nova se configura, sem especificar
que alterações ocorrem no ambiente para que este seja considerado uma situação nova.
A segunda categoria especifica que um estímulo novo configura uma situação nova para
o organismo. Sendo assim, apesar de abrangências diferentes, as duas categorias se re-
ferem à mesma característica da classe de estímulos antecedentes do comportamento
criativo, que é a de ser composta por estímulos novos.
Segundo Keller e Schoenfeld (1950/1971), a definição de “estímulo” implica ne-
cessariamente na existência de uma resposta. Sendo assim, ao se referir a estímulos,
126 Características dos componentes da classe geral 2010

está se referindo a uma relação estabelecida pelo organismo entre um estímulo e uma
resposta. Ao qualificar um estímulo como “novo” se está qualificando uma relação que
o organismo estabelece entre estímulo de uma classe e resposta de uma classe. Sendo
assim, é preciso avaliar a adequação do adjetivo “novo” para qualificar um estímulo. O
termo “novo” não faz referência direta a nenhuma propriedade particular do estímulo
que estabelece relação com uma classe de respostas. Um estímulo “novo” poderia ser
considerado um estímulo composto por uma propriedade que não possui relação bem
estabelecida com nenhuma resposta de uma classe em particular. Dessa forma, há neces-
sidade de especificar a que propriedade do estímulo se refere o termo “novo” ao designar
um estímulo que aumenta a probabilidade de respostas criativas.
Na Tabela 4, as três categorias presentes se referem ao controle de estímulos do
comportamento criativo. Nessa tabela, nos três trechos selecionados de obras de diferen-
tes autores que compõem a categoria “controle sutil de múltiplas variáveis”, há ênfase
na característica do controle de estímulos de respostas criativas que é de ser “sutil” ou
“fraco” por meio das expressões “tight stimulus control” e “less stimulus control”. Está
sendo considerado que um controle de estímulos “sutil” significa que os estímulos con-
troladores não possuem uma relação bem estabelecida com uma classe de respostas, tal
qual o exame feito em relação à utilização do termo estímulo “novo”, embora os adjeti-
vos “sutil” e “fraco” sejam mais especificadores do tipo de relação que existe, ou pode
existir, entre um estímulo, ou propriedade do estímulo e respostas de um organismo.
Ainda na Tabela 4, a categoria “Controle por estímulo particular” foi elaborada a
partir de trechos que indicam que o comportamento para ser considerado original deve
ser controlado por um único estímulo, particular; e as categorias “Controle por combi-
nação de estímulos” e “Controle sutil de múltiplas variáveis” foram elaboradas a partir
de trechos que indicam que é possível que respostas potencialmente criativas possam
ser controladas por múltiplos estímulos. Por meio dessas categorias é explicitada uma
controvérsia presente na literatura sobre o controle de estímulos do comportamento cria-
tivo. Epstein (1980) citado por Barbosa (2003) afirma que a quantidade de variáveis que
controlam a resposta não pode ser utilizada como critério para considerar uma resposta
criativa. Dessa forma, dificilmente os aspectos que se referem à quantidade de estímulos
que controlam a resposta presentes nas categorias “Controle por estímulo particular”,
“Controle por combinação de estímulos” e “Controle sutil de múltiplas variáveis” po-
dem ser utilizadas como características definidoras da classe de estímulos antecedentes
do comportamento criativo. O critério da quantidade de estímulos que controlam uma
resposta, como característica que identifica respostas potencialmente criativas, é invia-
bilizado ainda pelo fato de que dificilmente uma resposta é controlada por um único
estímulo e que estímulos e respostas não são considerados como unidades, mas como
um conjunto de eventos que possuem uma propriedade em comum, denominados classe
de estímulos e classe de respostas.
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 127

A categoria “Emitir respostas únicas, novas ou incomuns” do componente “classe


de respostas” apresentada na Tabela 5 caracteriza uma resposta criativa por meio das
palavras: “únicas”, “incomuns”, “novel” e “unusual”. Esses termos são vagos, facil-
mente confundidos com seu uso no senso comum, portanto, inapropriados para carac-
terizar com precisão as propriedades que a identificam como uma resposta criativa. Se
for considerado que os termos: “únicas”, “incomuns”, “novel” e “unusual”, se referem
à freqüência da resposta, então as respostas criativas poderiam ser aquelas que ocorrem
com baixa freqüência. No entanto, não há indicações suficientes nos trechos das obras
para sustentar tal afirmação.
Supondo que a característica da resposta criativa seja aquela cuja freqüência de
ocorrência é baixa, tal característica pode estar relacionada ao controle de estímulos do
comportamento criativo, que foi caracterizado por uma relação não bem estabelecida
entre uma classe de estímulos e uma classe de respostas, a partir do exame dos dados
apresentados na Tabela 4. O quão bem estabelecido é o controle de um estímulo sobre
uma resposta de uma classe pode ser avaliado a partir da freqüência da resposta dessa
classe. Um controle de estímulos bem estabelecido resulta em uma freqüência de respos-
ta elevada, quando se trata de uma contingência de reforçamento positivo, e um controle
de estímulos não bem estabelecido resulta muito provavelmente em baixa freqüência da
resposta (Catania, 1998/1999; Keller & Schoenfeld, 1950/1971; Millenson, 1967/1975;
Skinner, 1953/1974). A característica de controle de estímulos “sutil” facilita a ocorrên-
cia de respostas possivelmente criativas, no sentido de as respostas emitidas serem as de
baixa probabilidade de ocorrência. Isso indica a possibilidade de que as categorias “con-
trole sutil de múltiplas variáveis”, presente na Tabela 4, e a categoria “Emitir respostas
únicas, novas ou incomuns”, presente na Tabela 5, possuam uma relação funcional. É
importante salientar que nem todo comportamento que possua unicamente as caracterís-
ticas da classe de estímulos antecedentes identificadas até o momento será considerado
criativo, dado que o critério para considerar um comportamento como criativo se refere
também as relações operantes, entre a resposta e sua conseqüência.
A categoria “Emitir respostas não empreendidas por outros até então”, também
apresentada na Tabela 5, estabelece um referencial para avaliar a alta ou baixa freqüên-
cia de uma resposta para além do desempenho do próprio organismo, ou seja, mesmo
uma resposta já bem estabelecida no repertório de um organismo e que se apresenta com
freqüência relativamente alta, pode ser considerada criativa quando emitida na presença
de outros organismos que não emitiram respostas semelhantes. Esse fato indica uma
decorrência crucial no caso do comportamento criativo, de acordo com Hunziker (2006)
e Skinner (1968/1972), ser criativo talvez seja melhor caracterizado em função de refe-
renciais dados pela comunidade na qual a pessoa se comporta, mais do que por uma pro-
priedade do comportamento. Apesar de criativo não ser propriedade do comportamento,
128 Características dos componentes da classe geral 2010

é possível identificar as características dos comportamentos que são mais prontamente


denominados “criativo” por uma comunidade verbal.
Admitir um referencial para avaliar a freqüência de uma resposta que não seja o
desempenho do próprio organismo e que possui como decorrência o fato de que mesmo
uma resposta já bem estabelecida no repertório de um organismo possa ser considerada
criativa, aparentemente invalida, por exemplo, as características do controle de estímulos
do comportamento criativo, caracterizado por uma relação não bem estabelecida entre
uma classe de estímulos e uma classe respostas. No entanto, a característica do controle
de estímulos do comportamento criativo fica preservada, já que tal característica aumen-
ta a probabilidade de que uma resposta seja considerada criativa por uma comunidade
verbal.
As categorias “Combinar elementos de maneira nova” e “Manipular variáveis que
não seguem uma forma rígida”, presentes na Tabela 5 e as categorias “Criar elos de
ligação pouco comuns entre aspectos do ambiente”, “Associar elementos não freqüen-
temente associados” e “Combinar respostas conhecidas”, presentes na Tabela 6, apre-
sentam verbos que especificam variação na resposta (combinar, manipular, criar elos e
associar). Na Tabela 6 está presente a categoria “Variar resposta”, elaborada a partir de
seis trechos de cinco obras examinadas. Considerando o conjunto dessas categorias é
possível afirmar que variabilidade comportamental tem um papel importante para a oco-
rrência do comportamento criativo. Isso indica a relevância do estudo da variabilidade
comportamental para a compreensão e promoção do comportamento criativo.
A probabilidade de ocorrência de comportamentos criativos poderia ser aumenta-
da, por exemplo, fortalecendo as respostas de variar, já que “variar” é uma característica
da classe de respostas do comportamento criativo. Neuringer (2004), afirma que há au-
tores que sustentam que o reforçamento prejudica a “criatividade” (Amabile, 1996 apud
Neuringer, 2004). É necessário fazer algumas considerações acerca dessa afirmação.
Diversos estudos comprovam que a variabilidade fica sob controle operante e que, por-
tanto, o reforçamento aumenta os níveis de variabilidade (Grunow & Neuringer, 2002;
Neuringer, 2002, 2004). No entanto, os níveis de variabilidade sofrem interferência da
aproximação do recebimento do reforçador, como demonstrado por Neuringer (2004).
Esse estudo demonstra que com a proximidade do reforçador, em esquemas de razão,
os níveis de variabilidade diminuem. A partir desses resultados, Neuringer (2002, 2004)
argumenta que a aparente contradição dos resultados quanto ao efeito prejudicial do re-
forçamento sobre a “criatividade”, se deve a ênfase em aspectos distintos de um mesmo
processo comportamental, ao aumento dos níveis de variabilidade em contingências que
a requerem ou a diminuição nos níveis de variabilidade com a proximidade do reforça-
dor em esquemas de razão. No entanto, mesmo havendo esta diminuição da variabilida-
de com a aproximação do reforçador, ela permanece acima dos níveis de variabilidade
quando esta não é exigida.
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 129

Outro aspecto a ser considerado para avaliar a interferência da utilização de refo-


rçamento sobre os níveis de variabilidade é a própria natureza do reforçador utilizado.
Reforçadores naturais ou intrínsecos favorecem a variabilidade da topografia da resposta
em nível mais elevado do que a utilização de reforçadores artificiais ou extrínsecos,
que favorecem a estereotipia da resposta (Andery & Sério, 2004; Ferster, Culberston,
& Perrot-Boren, 1968/1982). Desse modo, a utilização de reforçadores naturais, ao se
ensinar comportamento criativo, por exemplo, é preferível à utilização de reforçadores
artificiais. A utilização gradativa de reforçadores naturais é fundamental para que qual-
quer comportamento a ser ensinado se mantenha em seu ambiente natural, no caso do
ensino do comportamento criativo a utilização de reforçadores é ainda mais crucial, pois
facilita a variabilidade da resposta.
Os estudos sobre variabilidade são importantes ainda para auxiliar na elaboração
de procedimentos para o ensino do comportamento criativo derivados dos procedimen-
tos utilizados nos estudos sobre variabilidade comportamental. Um exemplo de proce-
dimento, é denominado de Lag n, em que seqüências de n respostas em duas barras fa-
vorecem o fortalecimento não de respostas individuais, mas sim de relações (diferença)
entre respostas caracterizadas por distinção segundo alguma propriedade da resposta
(Hunziker & Moreno, 2000). O que reitera a afirmação de que variar é uma resposta
passível de reforçamento e que, portanto pode ser aprendida.
As descobertas sobre a natureza operante da variabilidade podem possibilitar a
proposição de programas de ensino de comportamentos criativos, sejam eles verbais, de
resolução de problemas etc. Em tais programas a utilização de reforçadores naturais ou
intrínsecos se mostra relevante. Procedimentos para estabelecer e manter reforçadores
naturais estão descritos (Comunidad Los Horcones, 1992), e necessitam fazer parte de
um programa de ensino do comportamento criativo, assim como o planejamento de pro-
cedimentos que facilitem o fortalecimento de relações entre respostas que se diferenciam
segundo alguma propriedade da resposta.
Na Tabela 7 estão presentes três categorias que basicamente se referem a um mes-
mo aspecto, a utilidade do produto da resposta envolvida no comportamento criativo. Na
categoria “Utilidade do produto da resposta para o indivíduo e a sociedade” está salien-
tado que a utilidade não se restringe ao indivíduo, mas também para sua comunidade. E
a categoria “Utilidade do produto da resposta ou que atenda critérios específicos” afirma
que outros critérios podem ser considerados, como os critérios artísticos e científicos.
Essa característica, do produto de respostas criativas, de ser útil para o indivíduo que se
comporta, e para a sociedade na qual se insere, denota mais marcadamente a dimensão
social do comportar-se criativamente. A utilidade foi o aspecto mais consistente no exa-
me das obras selecionadas.
A respeito da consideração sobre a dimensão social do comportamento criativo é
possível supor que o estudo desse objeto fuja da alçada da Análise do Comportamento,
130 Características dos componentes da classe geral 2010

por se tratar de uma dimensão social e, portanto, objeto de sociólogos ou de antropólo-


gos. No entanto, é possível argumentar que a “dimensão social” do comportamento cria-
tivo pode ser investigada a partir do exame do comportamento de quem denomina algo
como criativo, sendo este um comportamento como qualquer outro, passível de análise
(Skinner, 1953/1974, 1969/1975).
Na Tabela 8 estão apresentadas as categorias, elaboradas a partir dos trechos
examinados, organizadas em cada componente que constitui a classe geral denomina-
da comportamento criativo. O procedimento utilizado permitiu identificar, a partir da
literatura da Análise do Comportamento, algumas características de cada componente
do comportamento criativo. No entanto, a pertinência e relevância das características
e dos elementos que constituem cada componente do comportamento, explicitados por
meio da análise, necessitam ser verificadas. Botomé (2001) salienta a importância desta
verificação, sendo uma exigência que evita que elementos e características constituam
o comportamento sem que estabeleçam de fato uma relação funcional com qualquer
outro elemento que constitui o comportamento de interesse. Desse modo, é necessário
avaliar a existência de relação funcional entre as características identificadas a partir da
literatura da Análise do Comportamento, e se essas características são relevantes para a
caracterização do comportamento criativo.
Uma das formas de fazer a verificação da pertinência e relevância das caracterís-
ticas do comportamento criativo identificadas é por meio de um programa para ensinar
comportamento criativo. Ao propor condições de ensino a partir das características iden-
tificadas da classe geral comportamento criativo é possível avaliar se estas alteram a
probabilidade de ocorrência de comportamentos denominados criativos, demonstrando
a existência, ou não, de relações funcionais entre as características identificadas, assim
como a pertinência e relevância dessas características.
O exame da literatura por meio do procedimento utilizado permitiu caracterizar a
classe de estímulos antecedentes do comportamento criativo como sendo composta por
estímulos “novos”, cujo controle de estímulo é “sutil”. A classe de respostas é carac-
terizada por respostas “únicas”, “novas”, “incomuns” ou “respostas não emitidas por
outros”, aspecto que poderia se referir a freqüência da resposta, e por verbos que se
referem à variação na respostas como “combinar”, “manipular”, “associar” e “criar elos
de ligação”. A classe de estímulos conseqüentes é caracterizada pela utilidade do pro-
duto da respostas para o indivíduo e para a sociedade, ou que atenda a algum critério
específico, por exemplo, critérios artísticos. A identificação de tais características auxilia
na proposição de programas de ensino de tal comportamento. A relevância do ensino
do comportamento criativo se sustenta na exigência deste ser útil ao atender necessida-
des sociais. Além de ser necessário desenvolver condutas criativas para solucionar os
problemas sociais já existentes, é preciso desenvolver condutas criativas para planejar
formas mais eficazes de as pessoas se relacionarem com o mundo e que garantam um
Vol. 18 Núm. 1 Eduardo José de Souza & Olga Mitsue Kubo 131

futuro de mais qualidade. O ensino do comportamento criativo provavelmente acarretará


muitas exigências metodológicas, no entanto, uma clareza conceitual a respeito de tal
comportamento auxiliará na superação desses problemas. Identificar as características
do comportamento criativo é um pequeno, mas indispensável passo.

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Resumo

Investigar o fenômeno “criatividade” a partir da noção de comportamento traz como exigência identificar
as características dos componentes da classe geral comportamento criativo. Foram examinadas 20 fontes
de informação sobre comportamento criativo na literatura da Análise do Comportamento. O procedimento
consistiu em destacar trechos das obras que definiam ou caracterizavam esse comportamento. Os destaques
foram organizados segundo categorias referentes a características da classe de estímulos antecedentes, ca-
racterísticas da classe de respostas e características da classe de estímulos conseqüentes. Como característica
da classe de estímulos antecedentes, é possível afirmar que esta se constitui por estímulos “novos”, cuja
relação de controle é “sutil”. A classe de respostas do comportamento criativo é caracterizada por respostas
infreqüentes, não emitidas anteriormente. As respostas são denominadas por verbos como “variar”, “ma-
nipular”, “associar”, “combinar” e “criar elos”. A classe de estímulos conseqüentes é caracterizada pela
utilidade da resposta. Termos como “novo” e “sutil”, são vagos, portanto, insuficientes para se referir ao
comportamento criativo de modo mais preciso. Estudos sobre variabilidade comportamental se mostram
relevantes para compreender o comportamento criativo sendo que os verbos encontrados para se referir à
classe de resposta denotam variação da resposta. A utilidade da resposta é provavelmente uma característica
definidora do comportamento criativo.
Palavras-chave: análise do comportamento, comportamento criativo, análise comportamental da cria-
tividade, criatividade, noção de comportamento.

Abstract

A lot of knowledge has already been produced concerning to what is called “creativity”. On the perspective
of the Behavior Analysis, “creativity “ has been considered as a behavior, being this understood as a system
of relationships that establishes among on what the organism does and its environment. To investigate the
phenomenon “creativity” starting from a notion of behavior, it thus requires identifying the characteristics
of each component of the general class denominated creative behavior. On such terms, 20 sources of infor-
mation referring to the creative behavior in general have been selected, the creative behavior related to the
behavior of solving problems or verbal behavior. The procedure utilized was consisted upon: (1) reading the
information sources, (2) extraction of passages that referred to the definition of creative behavior, creativity,
new behavior, or characteristics as originality, ineditism and infrequency, (3) organization of the detached
extracts according to the characteristics of each component of the behavior: characteristics of the antecedent
stimuli class, characteristics of the responses class and characteristics of the consequent stimuli class, and
(4) extract groupings in a same category according to the similarity of the behavioral process in which the
extract have been referring to. With such proceedings it was possible to explicit characteristics of the general
class denominated creative behavior. As characteristic of the antecedent stimuli class, it is possible to affirm
that this category is constituted by “new stimuli”, whose relationship of control is subtle. The responses
class of the creative behavior is characterized by infrequent responses, not emitted by others until then. The
detected responses are denominated through verbs as “to vary”, “to manipulate”, “to associate”, “to combi-
ne” and “to create links of connection not so common”. The consequent stimuli class is characterized by the
134 Características dos componentes da classe geral 2010

need in which the response or its products are to be useful, according to some criteria, to the individual or to
the society. Such terms as “new” and “subtle” are used to refer to the creative behavior, however, they are
vague terms and they do not specify any peculiar property of the stimulus that establishes a relationship with
a responses class directly, and thus, insufficient to refer to the creative behavior with more precision and cla-
rity. From the examined works, categories were elaborated in which verbs as “to vary”, “to manipulate”, “to
associate”, “to combine” and “to create links of connection not so common”; these verbs denote variation
in the response and, consequently, indicate the relevance of the study of the behavioral variability for the
understanding of the creative behavior. The usefulness of the response was the utmost consistent aspect in
the exam of the selected works, the usefulness of the response or of its products is most probably a defining
characteristic of the general creative behavior class. Starting from the characterization of the general creative
behavior class, it is possible to plan with more precision the teachings of such behaviors class and thus to
increase the creative dimension of the behaviors.
Key words: analysis of the behaviour, creative behaviour, creative behavior analysis, creativity, no-
tion of behavior.

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