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A Dor da Ausência em Asas de Sangue

Violet luta com a dor da perda de Xaden, que a deixou há cento e oitenta dias, e se sente cada vez mais vazia e descontrolada. Ela é aconselhada por Rhiannon a superar essa tristeza e a treinar seu poder, enquanto tenta lidar com os sentimentos de abandono e a esperança de que Xaden possa voltar. Durante uma patrulha, Violet se vê confrontada com a possibilidade de enfrentar não apenas os perigos externos, mas também suas próprias emoções e a escolha entre permanecer presa ao passado ou seguir em frente.

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Graciele Brito
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A Dor da Ausência em Asas de Sangue

Violet luta com a dor da perda de Xaden, que a deixou há cento e oitenta dias, e se sente cada vez mais vazia e descontrolada. Ela é aconselhada por Rhiannon a superar essa tristeza e a treinar seu poder, enquanto tenta lidar com os sentimentos de abandono e a esperança de que Xaden possa voltar. Durante uma patrulha, Violet se vê confrontada com a possibilidade de enfrentar não apenas os perigos externos, mas também suas próprias emoções e a escolha entre permanecer presa ao passado ou seguir em frente.

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LIVRO 4: ASAS DE SANGUE

CAPÍTULO 1

VIOLET
Os dias se fundem com as noites. Não sei mais onde termina um e
começa outro. O relógio que antes tinha alguma importância, agora é apenas
um acessório qualquer. O que importa é a dor. Ela é minha única companhia.
Eu me sento na cama de Xaden, o lugar onde ele deveria estar, mas que
agora está vazia. Tudo ao meu redor me lembra ele. A falta dele. O vazio que
ele deixou em mim é insuportável. Como posso viver assim? Como posso
continuar em um mundo onde não estou com ele?
Faz cento e oitenta dias que ele se foi.
Cento e oitenta amanheceres sem sua voz me chamando de Violence.
Cento e oitenta noites sem seu toque.
Xaden me deixou. Essas três palavras sugam tudo que resta de mim.
Ele não foi levado, não foi sequestrado, não morreu em batalha. Ele
escolheu. Escolheu partir, sem me dar tempo de implorar, sem me deixar
entender.
Ele canalizou da terra. Sentiu o poder crescer, romper limites.
E teve medo.
Medo de me machucar.
Meus dedos apertam as bordas do lençol até os nós ficarem brancos.
Faíscas dançam na ponta das minhas unhas -relâmpago instável, como tudo
dentro de mim.
—Aterre Silver One, -Tain murmura com a voz cansada.
—Eu não sei como Tain, cada dia que passo me sinto mais vazia. - esse
vazio, essa dor está me sujando, e tenho certeza de que o Tain também se
senti assim, não apenas pelo vínculo que temos, mas pela partida da Sgayel.
Uma batida na porta me tira do devaneio.
Me forço a levantar. Meus músculos protestam como se eu estivesse
lutando contra um wyvern-outra vez. Abro.
Rhiannon me encara com aquela expressão entre preocupação e
exaustão. Minha culpa, meus pesadelos noturnos têm desencadeado um
descontrole no meu sinete, causando inúmeros relâmpagos e
consequentemente incêndios.
—Você dormiu? —Ela pergunta entrando sem esperar um convite.
—Você sabe que não, nem vocês estão dormindo, graças a mim. —
Suspiro.
Ela se senta na cadeira, observando meu rosto por um momento, depois
suspira.
—Faz três meses Vi. E você...ainda não consegue ouvir e nem dizer o
nome sem chorar. Pode soar cruel o que vou dizer, mas você precisa superar,
não adianta você ficar presa nessa tristeza, me mata ver você assim. Você
sabe por que ele foi embora, ele te ama, e tenho certeza de que continua te
amando, mesmo estando envolvido pelo poder.
Sinto raiva e tristeza ao mesmo tempo.
—Eu entendo que ele deve ter ficado com medo, mas eu queria que ele
estivesse ao menos se despedido, invés de tira minhas memórias. Ele desistiu
de lutar, desistiu de se mesmo, desistiu de mim, quando eu estava disposta a
luta e ir contra tudo por ele! — Minha voz se eleva pelo desespero do
abandono, assim como meu poder.
A raiva sobe e, com ela o estalo elétrico de um relâmpago ao lado da
janela. O abajur do canto pisca e explode.
Rhiannon se encolhe, mas não recua.
—Seu poder está se descontrolando e cada dia mais forte — ela diz. —
Você sabe disso.
—Eu sei, eu sinto isso o tempo todo. Eu sou uma tempestade
engarrafada, Rhi. E ele era... a única coisa que me ancorava. — Digo enquanto
uma lágrima rola pelo meu rosto.
—Você ainda tem a mim—Tain murmura e me sinto culpada por não
pensar nele.
—Eu sei— respondo de volta.
Ela hesita antes de falar, como se tivesse medo de que eu explodisse
outra vez.
—Você procurou em todas as regiões. Vasculhou cada esconderijo, cada
vilarejo. E nada. Ele não quer ser encontrado. Se você não conseguir controlar
suas emoções, seu poder vai acabar te ferindo. Ou ferindo alguém.
Ela toca meu ombro.
—Você precisa treinar. Não só o corpo. A mente também. Ou vai
afundar ainda mais nisso, Violet. E se ele voltar, se voltar, talvez não
encontre mais você aqui.
A porta fecha atras dela. Eu afundo na cama outra vez, meu peito
apertado como se tivesse espinhos por dentro.
Meus dedos formigam. Faíscas. De novo.
Meus olhos se enchem, mas não deixo as lágrimas caírem.
Xaden me amava o suficiente para me deixar. Mas será que ele me
ama o suficiente para voltar?
—Não me abandone Tain— murmuro em uma suplica.

—Jamais prateada- ele responde de forma determinada.


— Você está se tornando perigosa — Tain diz com cuidado, como quem
segura vidro quebrado. — Mas não é por causa do seu poder. É por causa
daquilo que você deixou de acreditar. Em você. Nele.

Quero gritar. Quero quebrar tudo. Quero cair de joelhos e berrar até o
céu se rasgar.
Mas não faço nada disso.

Apenas fecho os olhos. E deixo que as lágrimas, finalmente, venham.


Silenciosas. Salgadas.
Reais.

Xaden me deixou.
E mesmo assim, uma parte de mim insiste em esperar.
Insiste em acreditar que, em algum lugar, ele ainda sente o fio invisível que nos
une.
E que um dia, esse fio o trará de volta.

Capítulo 2 – O Vazio da Ausência


Eu estava perdida na escuridão quando a voz dele cortou o silêncio.
— Violet. —meu nome era como um sussurro, mas ao mesmo tempo era
firme, inconfundível. Eu sabia que ele estava ali, mas, ao mesmo tempo, não
podia vê-lo. Meu corpo se encheu de calor, um desejo profundo que não sabia
de onde vinha. Então, as sombras ao meu redor começaram a se dissipar, e
ele apareceu.
Xaden.
Ele estava diferente, mais próximo, mais real do que qualquer lembrança
que eu tivesse. Suas mãos se estenderam para mim, com uma suavidade que
me fez fechar os olhos por um momento. Quando abri novamente, ele estava
ali, diante de mim, tão intensamente presente que parecia impossível que ele
pudesse estar em meus sonhos, depois de tanto tempo.
Meu coração doeu ao vê-lo, tão lindo.
—Eu senti sua falta— ele disse, e a dor daquelas palavras me atingiu
com força. Eu queria gritar, queria bater nele, mas ele me puxou para mais
perto, selando meus lábios com um beijo quente, profundo.
Como se ele pudesse apagar todas as minhas dúvidas com aquele
toque. E eu me entreguei.
Mas algo dentro de mim sabia que não era real. Eu podia sentir o quanto
ele estava distante, como se parte dele ainda estivesse perdido. Eu tentei me
aproximar mais, minhas mãos explorando seu corpo, mas ao mesmo tempo, eu
sentia que ele se afastava. Eu podia tocá-lo, mas ele parecia escapar entre os
meus dedos, como se a essência dele fosse feita de algo etéreo, algo que não
pertencia a mim.
—Xaden... não vai embora... fica aqui comigo—.eu sussurrei, mas ele
apenas me olhou, os olhos cheios de uma tristeza que me partiu.
—Eu não posso ficar, Violet—, ele disse, sua voz suave, mas tão
definitiva. —Você precisa seguir em frente.
—Por favor—. imploro me aproximando dele.
Ele acaricia minha bochecha, olhando para minha trança e beija minha
cabeça. —Ah, minha Violence, me perdoe por te causar tanta dor. —E assim
como ele surgiu, ele sumiu.
O vazio o engoliu. E, com ele, a esperança.
A escuridão voltou de repente, engolindo o calor do toque dele, o gosto
de sua boca, a ilusão do consolo. Acordei com um sobressalto, ofegante, o
lençol torcido ao redor das minhas pernas como se eu tivesse lutado com ele.
O peito arfando. O nome dele nos meus lábios.
Xaden.
Passei a mão no rosto, tentando apagar o sonho da pele. Mas ele estava
lá. Como uma tatuagem invisível que queimava por dentro. Olho ao redor do
quarto em Aretia, vazio, frio, tão silencioso que chega a doer.
— Sonhos perigosos prateada. –Tairn resmunga mentalmente, ainda
sonolento.
–Mais do que o vazio que vem depois. –respondo.
Minutos depois, visto a roupa de treino e sigo para o pátio. O céu está
cinzento, como se refletisse meu humor. As faíscas do meu dom permanecem
dormentes, sob controle. Eu aprendi a contê-las. Aprendi a manter a dor só
dentro de mim — onde não machuca mais ninguém.
— Pronta pra quebrar alguns narizes hoje? — Rhiannon surge ao meu
lado, tentando soar leve. Mas eu só sorrio de lado, sem graça.
— Não prometo nada..., mas espero que tentem.
Começo o treino corpo a corpo, o suor logo cobrindo minha pele, o som
de impacto ecoando no ar. Meus punhos se movem com precisão. Cada golpe
é um grito silencioso. Cada esquiva, um pedaço de mim tentando sobreviver.
A dor não some. Mas aqui, nesse momento, ela obedece.
Dooom... Doom. O sino toca.
Quando o sino de Aretia toca, sei que é uma convocação. Algo
importante. A dor no estômago não é por esforço — é um pressentimento. Me
limpo rápido e sigo para o salão onde os líderes se reúnem.
Brennan está lá, sério, com os braços cruzados. Rhiannon senta ao meu
lado, inquieta.
— Houve movimentação nas fronteiras leste — ele começa, sem
rodeios. — Um vilarejo próximo ao vale de Ladrien foi encontrado em ruínas.
Ninguém sobreviveu.
O silêncio pesa. Faíscas dançam nas minhas mãos, sem controle por
um segundo. Fecho os punhos, respiro fundo. Calma, Violet.
— Uma patrulha será enviada — diz Brennan. — Precisamos confirmar
se são wyverns... ou algo pior.
Meu coração acelera. Algo pior?

— E eu vou com eles — digo, antes de pensar. A sala gira na minha


direção.
— Você está instável — diz Mira.
— Estou mais estável do que muitos aqui. E sei lutar– Mira me encara,
com olhos avaliadores, mas compreensivas.
— Você vai. Mas no primeiro descontrole você volta, não podemos
arriscar, você é importante lá, mas é muito mais aqui. – Brennan diz de maneira
calma.
–Iremos distribuir vocês em dois grupos- ele diz rápido. — Imogen,
Rhiannon, Ridoc e Violet. – Ele fala.
—Quero ficar no grupo da Violet. – Viro pra Mira e ela esta encarando
Brennan.
—Tudo bem– ele responde Mira com um olhar conhecedor, tenho
certeza que ela quer ficar comigo para me manter sob seus olhos.
Rhiannon me lança um olhar sério. Ela sabe. Sabe que tem algo mais
por trás da minha decisão — algo que arde mais do que a missão.
Quando a reunião termina, caminho até os estábulos. O cheiro de couro
e metal me acalma. Tairn se aproxima pelo céu e pousa com uma leveza que
não condiz com seu tamanho.
— Patrulha, hein? — ele diz. — Isso vai ser interessante.
–Ou mortal–. Falo.
Fecho os olhos por um segundo, o vento da tarde tocando meu rosto.
Xaden ainda está em mim. Mas agora, talvez… eu possa começar a
enfrentá-lo, mesmo que ele esteja a quilômetros daqui. Se soubesse o quanto
ainda me corrói por dentro, o quanto cada passo que dou sem ele parece uma
traição. Mas eu continuo. Porque é isso que guerreiros fazem.
Abro os olhos.
— Vamos, Tairn.– Ele se abaixa e eu subo em sua sela com movimentos
automáticos. Quando Rhiannon e os outros chegam, montados e prontos,
Brennan nos entrega o mapa com as coordenadas da rota. Uma patrulha
simples, disseram. Mas nada tem sido simples desde aquele dia no vale.
— Zona Leste, próximo das Montanhas Cinzentas — diz Imogen, já
analisando o terreno. — Quase na fronteira do último ataque dos venin.

— Perfeito — murmuro. E sinto, por um instante, a eletricidade subir


pelas minhas costas. Quieta, mas presente.
Alçamos voo.
O céu parece mais escuro hoje, como se pressentisse o que está por vir.
A vegetação lá embaixo se encolhe sob o sopro dos dragões. Voamos lado a
lado, o vento gritando nos ouvidos, os corações batendo em ritmo com as asas.
Rhiannon se aproxima. — Você vai mesmo ficar calada o caminho todo?
— Estou concentrada. – Digo rapidamente.
Ela suspira. — Isso é o que você diz quando não quer falar sobre ele.
Não respondo.
Porque ela está certa.
Oito horas depois aterrissamos em um platô rochoso, perto de um
pequeno vilarejo abandonado. As casas estão esburacadas, janelas
estilhaçadas como olhos que viram demais.
— Marcas de botas. Recentes. – Ridoc observa o solo, abaixado, a
expressão tensa.
— Não são nossas — diz Imogen. — E não são de civis.
Sinto. Como uma vibração nos ossos. Algo antigo, frio. E antes mesmo
que Rhiannon fale, já sei:
— Venin. –falo e o poder começa queimar em mim.
— Se espalhem — ordeno, e ninguém discute. Não aqui. Não agora.
Nosso grupo se move em formação. Silenciosos. Calculados. O peso da
responsabilidade me mantém ereta, mas a dor... a dor é o que me move.
O que encontraremos ali?
Talvez pistas. Talvez escuridão.
Ou talvez... apenas a mim mesma.
Ainda quebrada.
Mas disfarçando bem.
—Ele era a única coisa que fazia esse mundo suportável– digo pra mim
mesma.
—Ele também era instável. Você sabe disso. Depois que canalizou
direto da terra... algo mudou. Ele tinha medo, Violet. Medo do que poderia
fazer com você. Com todos nós.
—Então ele fugiu — cuspo as palavras, amarga. — E me deixou aqui
pra juntar os cacos.
Silêncio.
—Você acha que eu sou fraca, não é? — continuo. — Que me afoguei
nesse luto. Que virei um problema.
Tain finalmente me encara. Seus olhos dourados brilham com aquela
paciência que me fere mais do que qualquer julgamento.
—Não. Eu acho que você está quebrada. Mas não é a primeira vez. E
você sempre volta. Diferente, mas viva.
Eu rio. Um som sem alegria, sem cor.
—E se dessa vez eu não quiser voltar?
Faíscas explodem dos meus dedos e atingem o chão, queimando o
tapete antigo. Tain nem se mexe. Ele sabe que não sou perigosa pra ele. Só
pra mim mesma.
—Então faça uma escolha. Continue aqui, nesse quarto, revivendo o que
perdeu... ou vá atrás dele.
A frase dele paira no ar como um trovão prestes a estourar.
—Você quer que eu vá atrás de alguém que me abandonou?
—Eu quero que você decida se vai ser uma sombra... ou uma
tempestade.
O silêncio que se segue é absoluto. Eu olho ao redor do quarto. Tudo
aqui é dele. Tudo aqui é ausência. Me levanto devagar, sentindo as pernas
tremerem. Não lembro qual foi a última vez que me levantei por vontade
própria.
—E se ele não quiser me ver? — pergunto.
—Então você grita tão alto que ele ouve até onde estiver. — Tain sorri de
lado. — Você é feita de trovão, Silver One. Até o silêncio treme com você.
Por um momento, o ar ao meu redor muda. A eletricidade para de vibrar
em desespero e se transforma em outra coisa. Direcionada. Focada. Como se
algo dentro de mim tivesse acabado de acordar.
Talvez eu ainda esteja quebrada. Talvez eu nunca volte a ser quem fui.
Mas talvez...
Talvez seja hora de descobrir quem eu posso me tornar.

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