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Circulação Extracorpórea em Cães Cardíacos

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Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação — REASE

[Link]/10.51891/rease.v11i11.22154

CIRCULAÇÃO EXTRACORPÓREA EM CÃES SUBMETIDOS A CIRURGIA


CARDÍACA

EXTRACORPOREAL CIRCULATION IN DOGS UNDERGOING CARDIAC SURGERY

CIRCULACIÓN EXTRACORPÓREA EN PERROS SOMETIDOS A CIRUGÍA CARDÍACA

Victória Gabrielle dos Santos Rocha1


Raquel Helena dos Santos Silvestrini2
Gabriela Sousa Matos3
Jean Carlo Pascoal Silva Martins4
Patrícia Franciscone Mendes5

RESUMO: Esse artigo buscou discutir sobre a circulação extracorpórea (CEC) que consiste em
um método que assume temporariamente as funções do sistema cardíaco e do sistema
respiratório durante cirurgias de alta complexidade, permitindo que correções no coração sejam
feitas de forma segura e controlada. Na medicina veterinária, seu uso em cães ainda é limitado
devido ao elevado custo, à demanda por equipamentos especializados e à complexidade do
procedimento. No entanto, sua relevância tem aumentado, principalmente em casos de
valvulopatias, defeitos septais, tetralogia de Fallot, transplantes cardíacos e correções de 3406
anomalias congênitas. A presente pesquisa oferece uma revisão da literatura sobre o uso da CEC
em cães submetidos a cirurgias cardíacas, discutindo aspectos históricos, técnicos, fisiológicos,
anestésicos e clínicos, além de enfatizar suas principais aplicações e complicações relatadas na
literatura científica. A revisão reúne informações sobre a anatomia e a fisiologia cardíaca
aplicadas à técnica, descrevendo também os componentes básicos do circuito extracorpóreo,
como bombas, oxigenadores e permutadores de calor, e ressaltando a importância da escolha de
protocolos anestésicos adequados para animais cardiopatas. Além disso, são discutidas
complicações frequentemente associadas ao uso da CEC, incluindo alterações hemodinâmicas,
metabólicas e inflamatórias, bem como distúrbios que afetam os pulmões, rins e sistema
neurológico, o que evidencia a necessidade de monitoramento rigoroso em todas as fases do
procedimento.

Palavras-chave: Cirurgia cardíaca. Circulação extracorpórea. Suporte cardiopulmonar.

1 Graduanda em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário das Américas (FAM).


2 Graduada em psicologia pela Universidade de Taubaté (UNITAU). Graduanda em Medicina Veterinária pelo
Centro Universitário das Américas (FAM).
3 Graduanda em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário das Américas (FAM).
4 Graduando em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário das Américas (FAM).
5 Médica Veterinária - CRMV-SP 30.901. Mestre e Doutora - Departamento de Patologia - FMVZ-USP. Profa. em

Tempo Integral (TI). Centro Universitário das Américas (FAM).

Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v. 11, n. 11, nov. 2025.
ISSN: 2675-3375
Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação — REASE

ABSTRACT: This article sought to discuss cardiopulmonary bypass (CPB) wich is a method
that temporarily takes over the functions of the cardiac and respiratory systems during highly
complex surgeries, allowing corrections in the heart to be performed in a safe and controlled
manner. In veterinary medicine, its use in dogs is still limited due to high costs, the demand
for specialized equipment, and the complexity of the procedure. However, its relevance has
increased, especially in cases of valvular diseases, septal defects, tetralogy of Fallot, heart
transplants, and corrections of congenital anomalies. The present study provides a literature
review on the use of CPB in dogs undergoing cardiac surgery, discussing historical, technical,
physiological, anesthetic, and clinical aspects, while emphasizing its main applications and
complications reported in scientific literature. The review gathers information on cardiac
anatomy and physiology applied to the technique, also describing the basic components of the
extracorporeal circuit, such as pumps, oxygenators, and heat exchangers, and highlighting the
importance of selecting appropriate anesthetic protocols for cardiac patients. Furthermore, it
discusses complications frequently associated with the use of CPB, including hemodynamic,
metabolic, and inflammatory alterations, as well as disorders affecting the lungs, kidneys, and
nervous system, which demonstrates the need for strict monitoring at all stages of the
procedure.

Keywords: Cardiac surgery. Cardiopulmonary bypass. Cardiopulmonary support.

RESUMEN: Este artículo buscó discutir sobre la circulación extracorpórea (CEC), que consiste
en un método que asume temporalmente las funciones del sistema cardíaco y del sistema
respiratorio durante cirugías de alta complejidad, permitiendo que se realicen correcciones en el
corazón de forma segura y controlada. En medicina veterinaria, su uso en perros aún es limitado 3407
debido al alto costo, la demanda de equipos especializados y la complejidad del procedimiento.
Sin embargo, su relevancia ha aumentado, principalmente en casos de valvulopatías, defectos
septales, tetralogía de Fallot, trasplantes cardíacos y correcciones de anomalías congénitas. La
presente investigación ofrece una revisión de la literatura sobre el uso de la CEC en perros
sometidos a cirugías cardíacas, discutiendo aspectos históricos, técnicos, fisiológicos,
anestésicos y clínicos, además de enfatizar sus principales aplicaciones y complicaciones
reportadas en la literatura científica. La revisión recopila información sobre la anatomía y
fisiología cardíaca aplicadas a la técnica, describiendo también los componentes básicos del
circuito extracorpóreo, como bombas, oxigenadores e intercambiadores de calor, y destacando
la importancia de elegir protocolos anestésicos adecuados para animales con cardiopatías.
Además, se discuten las complicaciones frecuentemente asociadas al uso de la CEC, incluyendo
alteraciones hemodinámicas, metabólicas e inflamatorias, así como trastornos que afectan los
pulmones, riñones y sistema neurológico, lo que evidencia la necesidad de un monitoreo
riguroso en todas las fases del procedimiento.

Palabras clave: Cirugía cardíaca. Circulación extracorpórea. Soporte cardiopulmonar.

INTRODUÇÃO

A cirurgia cardíaca em cães tem apresentado avanços significativos nas últimas décadas,
especialmente com a introdução de técnicas como a circulação extracorpórea (CEC), que
possibilita a realização de procedimentos intracardíacos complexos. Essa técnica baseia-se no

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uso de um circuito artificial que oxigena e circula o sangue enquanto os pulmões e o coração são
temporariamente excluídos da função fisiológica. Para garantir sua eficácia e segurança, exige-
se o controle rigoroso de parâmetros fisiológicos e a administração de anticoagulantes, como a
heparina, a fim de evitar a coagulação provocada pelo contato do sangue com superfícies não
biológicas (Chalégré ST, et al., 2011). Além disso, recursos como soluções cardioplégicas e
hipotermia são empregados com o objetivo de proteger o miocárdio durante o procedimento
(Abdouni A, 2020).
Na medicina veterinária, entretanto, a evolução das técnicas cirúrgicas cardíacas ocorreu
de forma mais lenta em comparação à medicina humana, onde a CEC já era amplamente
utilizada desde a década de 1950. Até a década de 1970, procedimentos torácicos, especialmente
cardíacos, eram raramente realizados e, quando o eram, apresentavam prognóstico bastante
reservado. Somente a partir da década de 1980, com o avanço e maior acessibilidade de exames
como o eletrocardiograma e o ecocardiograma, houve maior interesse e desenvolvimento na
área de cirurgia cardíaca veterinária (Freitas RR, 2004).
A técnica da CEC em cães permanece em constante estudo e aperfeiçoamento, sendo
considerada fundamental para o avanço da cirurgia cardíaca veterinária. Dominar esse recurso
3408
permitirá que diversas intervenções, como cardioplegia otimizada, substituição valvar e
inserção de próteses, possam ser realizadas com maior segurança e eficácia, oferecendo melhor
qualidade de vida aos animais acometidos por enfermidades cardíacas (Freitas RR, 2004).
Diante desse contexto, o presente Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo realizar
uma revisão de literatura sobre a utilização da circulação extracorpórea em cães submetidos à
cirurgia cardíaca, abordando os aspectos fisiológicos, técnicos, benefícios, complicações e
perspectivas futuras dessa prática na medicina veterinária.

MÉTODOS

Para o desenvolvimento deste estudo, será realizada uma revisão bibliográfica nas bases
de dados eletrônicos: Google Acadêmico, Periódicos Capes, PubMed, Scielo, PubVet, além de
livros e teses publicadas em português e inglês. A seleção da pesquisa contemplará as seguintes
palavras-chave: cirurgia cardíaca, circulação extracorpórea; anestesia em cães cardiopatas,
anatomia e fisiologia do sistema cardiovascular; disponibilizadas em publicações científicas dos
últimos 44 anos, conforme a disponibilidade de produções intelectuais durante o processo de
desenvolvimento do projeto.

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REVISÃO DE LITERATURA

Cirurgia cardíaca veterinária

As cirurgias cardíacas estão se tornando cada vez mais comuns na medicina veterinária,
e por consequência, em constante evolução. Não há relatos precisos de quando ocorreu a
primeira cirurgia cardíaca em um cão, mas há registros de diversas pesquisas feitas durante os
anos 50 e 60, incluindo o primeiro transplante ortotópico de coração bem-sucedido em um
canino no ano de 1960, realizado pelos médicos Dr. Norman Shumway e Dr. Richard Lower, da
Universidade de Stanford (Shumway; Stinson, 1979). Esse caso também foi parte de um estudo,
buscando aprimorar técnicas de transplante de coração em humanos, afinal, Shumway e Lower
et al eram médicos não veterinários. Reforçando que ainda nessa época, eram raros os casos de
intervenções cirúrgicas com intenção de curar quaisquer patologias cardíacas em cães de
companhia. No mesmo ano, houve outro importante estudo de Shumway et al, foi o
desenvolvimento da técnica de Ross, que também envolveram cães para seu desenvolvimento.
A técnica consiste em substituir a valva aórtica. No caso, a técnica aplicada foi excisar a valva
pulmonar, transplantá-la para a aorta descendente e aplicar uma aorta homóloga no lugar da
valva pulmonar nativa excisada. 2 Cães sobreviveram durante 12 a 14 meses, e foram 3409
acompanhados frequentemente para acompanhar o prognóstico cirúrgico deles, embora
sofressem com certa insuficiência pulmonar, os resultados foram animadores para a evolução
da técnica em humanos adultos.
Desde então, houve inúmeros avanços tecnológicos e técnicos de todas as áreas que
compõem a clínica cirúrgica (Stanford Medicine; Department of Cardiothoracic Surgery).

Classificação

A cirurgia cardíaca é composta por duas classificações: procedimentos cardíacos


fechados e procedimentos cardíacos abertos. Os procedimentos executados em pericárdio,
ventrículos, átrios, veias cavas, aorta e artéria pulmonar principal são classificados como
fechados, já que não necessitam de abertura das grandes estruturas do coração. Já nos casos de
comunicação interventricular (CIV), comunicação interatrial (CIA) e Tetralogia de Fallot
(Consequentemente haverá CIV), será requerida a abertura do coração para correção de tais
afecções, sendo fortemente recomendado o auxílio da circulação extracorpórea para manter a
perfusão de órgãos. (Fossum TW, 2021).

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Pré-operatório

Em animais que necessitam de cirurgia cardíaca, o ideal é avaliar o paciente com anamnese
específica detalhada, exame físico, eletrocardiograma e ecocardiograma para identificar se há
presença de quaisquer comprometimentos cardiovasculares ou respiratórios, e estabilizá-lo para
ter maior segurança ao realizar o procedimento cirúrgico. Caso não haja exames pré-operatórios,
as consequências podem ser devastadoras. Em caso de insuficiências cardíacas congestivas,
particularmente o edema pulmonar, deve-se iniciar o protocolo medicamentoso com diuréticos
(p. ex, furosemida), inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) (p. ex, enalapril,
benazepril e lisinopril) e um inodilatador (pimobendan).
Deve-se também, diagnosticar e tratar quaisquer arritmias cardíacas, como a taquicardia
ventricular, que devem ser controladas através do uso de substâncias antiarrítmicas de classe I
(p. ex, lidocaína e procainamida). Em caso de taquicardias supraventriculares, é indicado o uso
de digoxina, bloqueadores β-adrenérgicos (p. ex, esmolol, propranolol e atenolol) e bloqueadores
do canal de cálcio (p. ex, diltiazem). Em fibrilação atrial, segue o mesmo protocolo para
taquicardias supraventriculares, porém, não necessariamente haverá o uso da digoxina para
reduzir a frequência da resposta ventricular para menos de 140 bpm.
3410
Em animais que apresentam bradicardia, é indicada a realização do teste de atropina ou
glicopirrolato antes do procedimento cirúrgico. Se a bradicardia não for responsiva, pode ser
necessário o uso de marcapasso transvenoso temporário. (Fossum TW, 2018).

Técnica cirúrgica

Fundamentalmente, a cirurgia cardíaca não é diferente de outras abordagens cirúrgicas


de tecidos moles, porém, por ser um dos mais sensíveis e importantes órgãos do corpo, uma
técnica mal-feita pode ter consequências devastadoras. Um grande desafio da cirurgia cardíaca,
é a movimentação vinda da contração do coração e da ventilação, dificultando ainda mais a
técnica. As ligaduras são de extrema importância em procedimentos do sistema cardiovascular,
e o mais indicado para abordagens em tórax.
Geralmente, o cirurgião tem preferência em realizar ligadura à mão, ao invés do uso de
instrumentais, por serem mais rápidos, firmes e seguros, em relação às ligaduras feitas com
instrumentais. O fechamento de estruturas cardiovasculares, deve ser feita com precisão e boa
técnica de sutura, para minimizar a hemorragia. É importante o uso de suturas delicadas e com
agulhas atraumáticas curvadas (lembrando que suturas de vísceras, são sempre feitas com o uso

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de instrumentos cirúrgicos, diferente das ligaduras, que o uso ou não, vai da preferência do
cirurgião (Fossum TW, 2018).

Cicatrização das estruturas cardiovasculares

As estruturas vasculares apresentam elevado potencial de reparação com deposição quase


imediata de fibrina, que constitui uma matriz cicatricial em poucos minutos. Nas veias
utilizadas com enxertos, observa-se epitelização e restauração endotelial precoce. A ocorrência
de trombose é frequente em vênulas submetidas a oclusão traumática transitória. Pelo ponto de
vista clínico, tal evento não foi observado com a mesma intensidade quando há oclusão de veias
mais calibrosas. Para prevenir trombose de estruturas vasculares, as mesmas devem ser
manuseadas delicadamente e da forma menos traumática possível, afinal, quando há trauma em
vasos, pode ocorrer a deposição de plaquetas, fibrina e hemácias na superfície da camada íntima.
Quando há descolamento ou elevação da camada íntima, pode-se originar um retalho
intraluminal capaz de obstruir parcial ou totalmente o fluxo distal. Esse processo favorece o
acúmulo de sangue na parede do vaso, com consequente aumento da viscosidade intraluminal e
subsequente trombose (Fossum TW, 2021).
3411
Materiais de sutura e instrumentos especiais

Fios de polipropileno e poliéster trançado são os padrões para uso em procedimentos


cardiovasculares. Os tamanhos mais comuns são 3-0, 4-0 e 5-0 (os menores podem ser utilizados
para anastomoses vasculares). Os fios devem estar disponíveis com agulhas cardiovasculares
curvas e de diversos tamanhos.
Para uma cirurgia torácica bem-sucedida, é essencial o instrumental cirúrgico adequado.
A maioria dos instrumentos utilizados em cirurgia geral, são utilizados na cirurgia cardíaca,
porém, alguns especiais são de extrema importância para sua realização com maestria. É sempre
recomendado que haja pelo menos dois de cada instrumental, tanto para auxiliar no
procedimento, quanto para se houver algum incidente que um deles se contamine. O afastador
torácico padrão é o Finochietto (Os afastadores ortopédicos autorretentores podem substituir
os torácicos para cães e gatos pequenos). A pinça padrão para a cirurgia torácica é a DeBakey (é
recomendado que pelo menos uma pinça DeBakey possua superfície de carbureto para prender
agulhas de sutura). A tesoura padrão da cirurgia cardíaca é a Metzembaum, sendo mais versáteis
as tesouras curtas. Os porta-agulhas de escolha são o Mayo-Hegar, Crile-Wood e Castroviejo.

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Devem ser longos, e de vários tamanhos, para se adequarem aos diversos tamanhos de agulhas
que requerem a cirurgia cardíaca. Pinças hemostáticas são de extrema importância para tal
procedimento, visando a oclusão temporária de estruturas cardiovasculares e pulmonares. Tais
pinças devem ser atraumáticas, sendo uma excelente escolha a pinça Satinsky. (Fossum TW,
2021).

Pós-operatório

A monitorização do paciente constitui um dos aspectos mais relevantes da cirurgia


cardíaca, sendo os cuidados pós-operatórios determinantes para o prognóstico. Animais
submetidos a procedimentos torácicos devem permanecer hospitalizados após a intervenção,
sob supervisão contínua de um médico veterinário intensivista, durante 3 dias em unidade de
terapia intensiva (UTI) e com a devida autorização do tutor (Andrade JNBM, 2016). O suporte
necessário varia conforme a condição clínica, considerando variáveis como idade, escore
corporal, presença de comorbidades, tipo de cirurgia realizada, intercorrências transoperatórias
e, principalmente, a função cardiopulmonar.
Entre os parâmetros críticos, a avaliação da ventilação é de fundamental importância,
3412
uma vez que a deficiência ventilatória é comum no pós-operatório imediato. A hipoventilação
pode ser secundária a alterações fisiológicas ou ao manejo inadequado da dor. O marcador mais
confiável da ventilação alveolar é a pressão parcial de dióxido de carbono no sangue arterial
(PaCO₂). Valores superiores a 40 mmHg caracterizam hipoventilação alveolar, exigindo
intervenção voltada à correção da causa desencadeante.
A administração de fármacos depressores da ventilação, como opioides e bloqueadores
neuromusculares, deve ser realizada com cautela, ponderando-se os riscos de depressão
respiratória frente à hipoventilação induzida pela dor. Em situações de hipoventilação grave, a
intubação orotraqueal imediata é indicada para restabelecer a oxigenação arterial (PaO₂),
normalizar a PaCO₂, corrigir distúrbios de pH, estabilizar a pressão arterial (PA) e a frequência
cardíaca (FC). Após a estabilização e a redução do comprometimento ventilatório, procede-se à
extubação. Infusões contínuas de propofol e fentanil podem promover conforto e estabilidade
até a resolução de incompatibilidades, ventilação/perfusão ou quadros de acidose metabólica.
Contudo, deve-se considerar que o propofol pode induzir hipotensão, sendo o uso de agentes
vasopressores recomendado para correção (Fossum TW, 2021).

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Em condições fisiológicas, a troca gasosa alveolocapilar mantém equilíbrio entre as


pressões parciais de oxigênio alveolar (PAO₂) e arterial (PaO₂). Entretanto, em pacientes com
comprometimento da difusão pulmonar, observa-se hipoxemia, caracterizada pela discrepância
entre PAO₂ e PaO₂. Tal condição pode resultar de desequilíbrios na relação ventilação/perfusão
ou da presença de shunts decorrentes de atelectasia por absorção. Durante procedimentos com
circulação extracorpórea, a interrupção da ventilação promove colapso alveolar, favorecendo a
ocorrência de atelectasia. A reperfusão de áreas pulmonares colapsadas ocasiona o trânsito de
sangue não oxigenado, aumentando os shunts intrapulmonares. Nestes casos, a administração
de altas concentrações de oxigênio mostra-se ineficaz, sendo necessária ventilação assistida
associada à pressão expiratória final positiva (PEEP), indicada exclusivamente em quadros
graves e refratários à oxigenoterapia convencional. (Powers K e Dhamoon A, 2023)
Outro aspecto relevante é o monitoramento da pressão arterial sistêmica (PAS),
diretamente relacionada ao débito cardíaco e à resistência vascular sistêmica. A cateterização
arterial é o método mais preciso para sua aferição, permitindo não apenas mensuração contínua,
mas também coleta de sangue para hemogasometria. O aumento do débito cardíaco ou da
resistência vascular sistêmica resulta em elevação da PAS, enquanto a correção da hipotensão
3413
deve priorizar intervenções que restabeleçam o débito cardíaco (Andrade JNBM, 2016).
O eletrocardiograma à beira leito é igualmente indispensável no acompanhamento de
animais submetidos à cirurgia cardíaca, possibilitando a detecção precoce de arritmias. A
taquicardia sinusal é a alteração de ritmo mais comumente observada nesses pacientes, e sua
abordagem terapêutica deve ser direcionada à correção da causa primária, como hipovolemia,
dor, ansiedade, acidose, hipotensão, anemia, hipoxemia ou uso de determinados fármacos, com
enfoque na otimização do débito cardíaco. (Fossum TW, 2021).

Circulação extracorpórea veterinária

A circulação extracorpórea (CEC) é uma técnica cirúrgica que permite substituir


temporariamente as funções cardíaca e pulmonar durante cirurgias cardíacas em cães (BVS-
VET, 2016). Apesar do uso comum na medicina humana, a aplicação na medicina veterinária
permanece restrita, em razão do alto custo e da complexidade técnica envolvida (Silva MA,
2006). Nesse contexto, o manejo anestésico assume papel fundamental, garantindo estabilidade
hemodinâmica e prevenindo lesões em órgãos vitais ao longo do procedimento (Gonçalves RC,
et al., 2011).

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Durante a CEC, a hipotermia, seja moderada ou profunda, é frequentemente utilizada


com o objetivo de reduzir o metabolismo tecidual. Em cães de pequeno porte, a associação de
fluxos de perfusão mais baixos a uma hipotermia leve tem se mostrado eficaz (Uemura K, et
al., 2010). Parâmetros como pressão arterial média, pressão venosa central e saturação arterial
de oxigênio costumam permanecer dentro de faixas aceitáveis durante as fases de perfusão e
reperfusão (Gonçalves RC, et al., 2011).
O procedimento, entretanto, pode ocasionar alterações metabólicas, eletrolíticas e
gasométricas, incluindo variações de pH, bicarbonato e glicose (Silva MA, 2006). Para a indução
anestésica, recomenda-se o uso de agentes de baixa depressão cardiovascular, como o isoflurano
(Uemara et al., 2010). A proteção miocárdica, especialmente durante o clampeamento da aorta,
é realizada por meio de soluções cardioplégicas, frequentemente hipercalêmicas (BVS-VET,
2010).
A anticoagulação do circuito é obtida com heparina, monitorada pelo tempo de
coagulação ativado, e revertida com protamina ao final da perfusão (Andrade JCS e Soares AM,
1987). O monitoramento do paciente deve englobar parâmetros hemodinâmicos, gasometria,
eletrólitos e hematócrito, garantindo segurança e eficácia durante todo o procedimento
3414
(Andrade JCS e Soares AM, 1987).
O desmame da CEC requer ajustes cuidadosos de pré-carga, contratilidade e pós-carga,
prevenindo episódios de baixo débito cardíaco (BVS-VET, 2016). Alterações histopatológicas
em coração e pulmões já foram observadas após a reperfusão em cães (Silva MA, 2006). Relatos
clínicos indicam que cães portadores de defeitos cardíacos congênitos conseguiram sobreviver
à correção cirúrgica com sucesso utilizando a CEC (Uemura K, et al., 2010).

Contexto histórico

Na medicina humana, a introdução da circulação extracorpórea na década de 1950


representou um marco para a cirurgia cardíaca, permitindo intervenções intracardíacas
complexas com maior segurança (Ribeiro SN, 2012). No Brasil, os primeiros procedimentos com
CEC foram realizados por Felipozi (1955) e Zerbini (1958), com destaque para a contribuição de
Adib Jatene e do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (INCOR-USP), que
impulsionaram a técnica ao difundirem o uso da hemodiluição, ampliando sua aplicação clínica
(Santos ALS, 2009).

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Na medicina veterinária, Andrade JNBM (2016) ressalta que os procedimentos torácicos


evoluíram gradativamente: inicialmente restritos ao alívio de efusões e correções simples de
ductos persistentes, avançaram para técnicas complexas viabilizadas pela incorporação da CEC
e pelo desenvolvimento de novos protocolos. Essa evolução acompanhou o movimento
observado na medicina humana, embora ainda limitada por barreiras técnicas, econômicas e
logísticas.

Desenvolvimento Técnico

A circulação extracorpórea é uma técnica que substitui temporariamente as funções


cardíacas e pulmonares, desviando o sangue para um circuito externo que realiza a oxigenação
e a remoção de CO₂, devolvendo-o ao organismo em condições controladas de fluxo e pressão
(Santos ALS, 2009; Ribeiro SN, 2012). Esse recurso é fundamental para procedimentos como
correção de comunicação interventricular (CIV) e interatrial (CIA), tetralogia de Fallot,
valvuloplastias e até transplantes cardíacos (Júnior JOCA e Chiaroni S, 2000).
O circuito da CEC é composto por cânulas venosas e arteriais, bomba arterial (centrífuga
3415
ou de roletes), oxigenador de membranas, permutador de calor, reservatórios e filtros
(Kwasnicka KL, 2003). Sob o ponto de vista fisiológico, a CEC deve manter a perfusão
sistêmica, preservar o equilíbrio ácido básico e garantir condições metabólicas adequadas ao
organismo, enquanto, coração e pulmões permanecem inativos. Estratégias como hemodiluição
e hipotermia são frequentemente utilizadas para reduzir a viscosidade sanguínea, otimizar a
microcirculação e diminuir o metabolismo celular, oferecendo maior proteção aos tecidos
(Freitas RR, 2004).
Apesar dos benefícios, a literatura evidencia que a técnica pode desencadear
complicações significativas. Entre elas, destacam-se hipotensão, instabilidade circulatória,
atelectasia, edema pulmonar, disfunção renal aguda, déficits neurológicos e resposta
inflamatória sistêmica, além da lesão por reperfusão decorrente da produção excessiva de
espécies reativas de oxigênio (Kwasnicka KL, 2003; Ribeiro SN, 2012). Tais riscos exigem
protocolos perioperatórios rigorosos, que incluem heparinização sistêmica, administração de
soluções cardioplégicas e monitoramento intensivo em todas as fases do procedimento (Santos
ALS, 2009).

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Princípios Técnicos e Fisiológicos da Circulação Extracorpórea

A circulação extracorpórea (CEC) é uma técnica amplamente empregada em


procedimentos cirúrgicos intratorácicos de alta complexidade, cujo objetivo é substituir
temporariamente as funções cardíacas e pulmonares, permitindo que o cirurgião atue
diretamente nas estruturas cardíacas com segurança. O sangue venoso é drenado do paciente e
conduzido a um circuito externo, no qual ocorre a oxigenação artificial e a remoção do dióxido
de carbono (CO₂). Em seguida, esse sangue é reinfundido na circulação arterial, assegurando a
manutenção da perfusão sistêmica e da oxigenação tecidual durante o período de inatividade
cardíaca e pulmonar (Kwasnicka KL, 2003).
Sob o ponto de vista fisiológico, a CEC deve preservar a estabilidade hemodinâmica, o
equilíbrio ácido-básico e condições metabólicas adequadas ao organismo. Para tanto, são
utilizadas estratégias como a hemodiluição, que reduz a viscosidade sanguínea e favorece a
microcirculação, e a hipotermia induzida, que diminui o metabolismo celular e confere maior
proteção aos tecidos contra lesões isquêmicas (Freitas RR, 2004).
Além dessas medidas, o manejo seguro da CEC exige monitoramento contínuo de
parâmetros como pressão arterial média, hematócrito, temperatura corporal, equilíbrio ácido-
3416
básico e perfusão coronariana. A aplicação de soluções cardioplégicas desempenha papel
essencial, promovendo a paralisação controlada do coração e garantindo a preservação da função
miocárdica após o término da perfusão (Freitas RR, 2004; Kwasnicka KL, 2003).
Nesse contexto, a CEC não apenas viabiliza a execução de intervenções intracardíacas de
forma segura, como também atua como recurso indispensável para a preservação da homeostase
durante a interrupção transitória das funções vitais do coração e dos pulmões.

Quando realizar

A circulação extracorpórea cardíaca pode ser aplicada em praticamente todas as


intervenções intra-cardíacas que necessitem da abertura do coração em cães, como a retirada de
tumores, correção de defeitos septais, correção cirúrgica da persistência do ducto arterioso,
comunicação intra-atrial, correção definitiva da Tetralogia de Fallot e estenoses valvares
(Ribeiro SN, 2012; Medeiros LC, et al., 2024).
Uma das principais aplicabilidades da CEC, na rotina veterinária, são as valvuloplastias
da mitral, defeitos do septo atrial e ventricular, estenose pulmonar e aórtica, e Tetralogia de
Fallot (Ribeiro SN, 2012; Medeiros LC, et al., 2024).

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Além disso, a CEC também pode ser indicada em casos de transplante cardíaco (Borges
M, 2013), em procedimentos de correção de anomalias congênitas complexas, como a
transposição dos grandes vasos (Knupp SNR, et al., 2014), e em reparos cirúrgicos de lesões
traumáticas que envolvam o coração (Ribeiro SN, et al., 2010).

Anatomia e fisiologia com relevância para a CEC

O conhecimento da anatomia e fisiologia cardiovascular em cães é essencial para


compreender os efeitos sistêmicos da circulação extracorpórea (CEC), técnica utilizada em
cirurgias cardíacas complexas. A CEC substitui temporariamente as funções cardíaca e
pulmonar, permitindo que o coração seja abordado cirurgicamente em condições de imobilidade
e campo operatório livre de sangue. Entretanto, o uso dessa técnica provoca alterações
hemodinâmicas, metabólicas e inflamatórias que só podem ser entendidas a partir de uma base
sólida sobre a estrutura e a função cardiovascular.

Anatomia cardíaca
3417
O coração dos cães apresenta quatro câmaras interconectadas por válvulas
unidirecionais. A compreensão dessa organização é fundamental para cirurgias cardíacas que
envolvem correção de defeitos congênitos (como persistência do ducto arterioso e comunicações
interventriculares) ou valvulopatias, nas quais a CEC é frequentemente necessária (Kittleson
MD e Kienle RD, 1998). O coração é o órgão central do sistema cardiovascular, responsável por
impulsionar o sangue através das circulações pulmonar e sistêmica. Nos cães, ele está localizado
na cavidade torácica, no mediastino médio, entre os pulmões, e protegido pelas costelas que se
estendem aproximadamente do terceiro ao sexto espaço intercostal. A base do coração situa-se
em posição dorsal, composta pelos átrios e pelos grandes vasos que nele desembocam (veias) ou
dele se originam (artérias), enquanto o ápice está orientado ventralmente, livre dentro do saco
pericárdico, apoiado sobre o esterno (Reece WO e Erickson HH, 2017). A posição anatômica
pode variar entre as espécies: em cães, o eixo longitudinal do coração apresenta-se oblíquo em
relação ao corpo, diferentemente de equinos e ruminantes, nos quais é mais vertical. Essa
disposição influencia a interpretação radiográfica e ultrassonográfica do tórax nas avaliações
cardiológicas.

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Átrios e ventrículos

O coração é dividido em quatro câmaras: dois átrios (direito e esquerdo), que recebem o
sangue proveniente das veias, e dois ventrículos (direito e esquerdo), responsáveis por ejetar o
sangue para as artérias. O átrio direito (AD) recebe o sangue venoso proveniente das veias cavas
cranial e caudal, bem como do seio coronário, e o conduz para o ventrículo direito através da
válvula atrioventricular direita (tricúspide). O ventrículo direito (VD), de paredes mais
delgadas, impulsiona o sangue para a artéria pulmonar, conduzindo-o aos pulmões, onde ocorre
a hematose. O átrio esquerdo (AE) recebe o sangue oxigenado oriundo das veias pulmonares e
o transfere ao ventrículo esquerdo por meio da válvula atrioventricular esquerda (mitral). O
ventrículo esquerdo (VE), de paredes espessas e com maior capacidade contrátil, bombeia o
sangue para a artéria aorta, distribuindo-o para todos os tecidos corporais (Figura 1). Essa
organização reflete a existência de dois sistemas circulatórios em série: a circulação pulmonar,
composta por átrio direito, ventrículo direito e pulmões; e a circulação sistêmica, composta por
átrio esquerdo, ventrículo esquerdo e órgãos periféricos (Reece WO e Erickson HH, 2017). Esse
aspecto anatômico é relevante durante a CEC, pois o ventrículo esquerdo é o principal
responsável pelo restabelecimento do débito cardíaco após o desmame da máquina coração-
3418
pulmão (Muir WW, 2017).
Representação esquemática do coração canino. O esquema ilustra as principais
estruturas anatômicas do coração de cães, incluindo átrios e ventrículos direito e esquerdo,
válvulas cardíacas: tricúspide, pulmonar, mitral e aórtica, e grandes vasos: aorta, veias cavas e
pulmonares, artéria pulmonar (Figura 1).
Figura 1: Representação esquemática do coração canino

Fonte: Adaptado de pet heart, 2012.

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Válvulas cardíacas

Além das cavidades, as válvulas cardíacas têm papel fundamental no direcionamento do


fluxo sanguíneo, garantindo sua unidirecionalidade e evitando refluxos. São elas: tricúspide,
mitral, pulmonar e aórtica. O funcionamento coordenado dessas estruturas possibilita que o
coração atue como uma bomba eficiente, assegurando que o débito cardíaco do ventrículo direito
seja equivalente ao do ventrículo esquerdo, mantendo o equilíbrio entre as circulações pulmonar
e sistêmica. Alterações em suas estruturas frequentemente demandam correções cirúrgicas,
sendo as cirurgias valvares algumas das indicações clássicas para uso de circulação extracorpórea
em cães.

Vasos coronários

A circulação coronariana canina é majoritariamente esquerda, fornecendo irrigação


crítica ao ventrículo esquerdo (Luboya N, 2016). As artérias coronárias emergem da raiz aórtica
e subdividem-se para irrigar o miocárdio epicárdico e intramural. O retorno coronariano drena
majoritariamente para o átrio direito através do seio coronariano. Durante a CEC, é necessário 3419
interromper temporariamente a perfusão coronariana, o que exige estratégias de proteção
miocárdica, como o uso de soluções cardioplégicas e conservação de reserva coronariana
(Cardoso B, 2023).

Fisiologia cardiovascular

O Sistema de condução elétrica depende do nó sinoatrial (AS), o nó atrioventricular


(AV) e o sistema His–Purkinje , que coordenam a atividade elétrica cardíaca. A ativação elétrica
normal inicia no AS, propaga-se pelos átrios (incluindo o feixe de Bachmann), atravessa o AV
e segue pelo feixe de His e pelos ramos de Purkinje, assegurando sincronização atrioventricular
e recrutamento eficiente do miocárdio ventricular (Reece WO e Erickson HH, 2017). Durante
a CEC, o coração é muitas vezes parado por soluções cardioplégicas, e a retomada da atividade
elétrica depende da integridade desse sistema. Complicações no pós-operatório, como arritmias,
estão diretamente relacionadas à vulnerabilidade do sistema de condução após isquemia e
reperfusão (Loen V, 2021).

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Ciclo cardíaco e débito cardíaco

O ciclo cardíaco alterna enchimento (diástole) e ejeção (sístole). O débito cardíaco (DC)
é o produto da frequência cardíaca (FC) pelo volume sistólico (VS): DC = FC × VS. Esse
parâmetro é o principal monitorado durante e após a CEC. Durante o bypass, o oxigenador e as
bombas perfundem o organismo artificialmente, sendo imprescindível compreender como pré-
carga, pós-carga, inotropismo e ritmo influenciam o DC (Guyton AC; Hall JE, 2017).

Eventos: pressão–volume e trabalho ventricular

O ciclo cardíaco inclui fases de enchimento diastólico (rápido e lento), contração


isovolumétrica, ejeção e relaxamento isovolumétrico. Curvas pressão–volume ilustram relações
entre pressão intraventricular e volume, permitindo avaliação objetiva de complacência,
contratilidade e trabalho sistólico. Em contexto de CEC, alterações na pós-carga e na
contratilidade (por isquemia, reperfusão ou efeitos farmacológicos) alteram o ponto de operação
dessas curvas, exigindo ajustes durante o desmame do bypass (Muir WW, 2017).

Acoplamento: excitação–contração
3420
O potencial de ação cardíaco desencadeia a entrada de Ca2+ e a liberação subsequente de
Ca2+ do retículo sarcoplasmático, promovendo a interação actina–miosina e a geração de força
contrátil. A entrada de cálcio extracelular é particularmente importante para a fase de plateau
do potencial de ação ventricular e para o controle da contratilidade. Alterações iônicas e lesão
isquêmica reperfusional interferem nesse processo, com impacto direto na recuperação da
função ventricular após CEC.

Atividade elétrica e arritmias

Existem potenciais de ação de resposta rápida (miócitos ventriculares e fibras de


Purkinje) e de resposta lenta (células nodais — AS/AV), caracterizando diferentes
propriedades de excitabilidade e condução. A proteção do sistema de condução e o manejo de
arritmias peri e pós-operatórias são essenciais em pacientes submetidos à CEC (Loen V, 2021).

Regulação cardiovascular e o impacto na cec

O mecanismo de Frank–Starling (heterometria) descreve o aumento da força contrátil


em resposta a maior estiramento présistólico (précarga), ajustando o débito ao retorno venoso.

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A regulação homeométrica (mudanças intrínsecas na contratilidade) também influencia a


capacidade de o ventrículo responder às mudanças hemodinâmicas durante o desmame da CEC.

Controle neural e hormonal

A estimulação simpática aumenta frequência cardíaca, velocidade de condução e


contratilidade (efeito ß1), enquanto a atividade vagal reduz ritmo e condução, principalmente
nos nós AS e AV. Durante a CEC, a resposta autonômica é parcialmente alterada pela
circulação artificial e pela anestesia, exigindo ajustes farmacológicos e ventilatórios (Guyton
AC; Hall JE, 2017). A ativação do sistema renina–angiotensina–aldosterona (SRAA) e a
liberação de catecolaminas ocorrem em resposta ao estresse cirúrgico e à alteração
hemodinâmica, influenciando retenção hídrica, vasoconstrição e resistência vascular no pós-
operatório.

Circulação coronariana e metabolismo miocárdico

A perfusão coronariana é regulada por pressão perfusional, compressão miocárdica


(especialmente durante a sístole), autorregulação metabólica e demanda miocárdica. A reserva
3421
coronariana tem capacidade de aumentar o fluxo de acordo com necessidade, é um determinante
da tolerância isquêmica e da recuperação após reperfusão, fatores críticos em procedimentos
com CEC (Luboya N, 2016).

Biomarcadores e reperfusão

Biomarcadores como troponina cardíaca e peptídeos natriuréticos são utilizados para


monitorar lesão miocárdica associada à isquemia e reperfusão após CEC, sendo ferramentas
importantes no acompanhamento pós-operatório (Gavazza A, 2020). Cães apresentam
particularidades: dominância coronariana esquerda, frequência cardíaca basal distinta e
predisposições raciais a cardiomiopatias, o que demanda protocolos específicos em medicina
veterinária.

Particularidades em cães e sua importância clínica

Embora a anatomia e fisiologia cardíaca sejam semelhantes às humanas, cães apresentam


peculiaridades relevantes: a dominância coronariana esquerda, diferenças na frequência
cardíaca basal e predisposições raciais para cardiomiopatias (Buchanan W, 2013). Essas

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diferenças impactam diretamente o manejo da circulação extracorpórea em veterinária,


exigindo protocolos específicos.
A compreensão da anatomia e fisiologia do sistema cardiovascular fornece a base
indispensável para a prática de cirurgias cardíacas com CEC. Aspectos como a dominância
coronariana, o papel central do ventrículo esquerdo, a vulnerabilidade do sistema de condução
elétrica e os mecanismos regulatórios devem ser cuidadosamente considerados no planejamento
cirúrgico e no manejo anestésico. Esse conhecimento é essencial para minimizar complicações,
orientar estratégias de proteção miocárdica e otimizar o prognóstico dos pacientes.

Materiais utilizados na CEC

O circuito de circulação extracorpórea (CEC) é formado por um conjunto de dispositivos


que atuam de maneira integrada para substituir temporariamente as funções cardíaca e
pulmonar durante procedimentos cirúrgicos intratorácicos de alta complexidade. Esses
componentes simulam a dinâmica fisiológica do coração e dos pulmões, garantindo a
manutenção da perfusão e da oxigenação tecidual enquanto o coração permanece inativo
(Santos ALS, 2009). Entre os principais elementos do circuito, destacam-se:
3422
Cânulas venosas e arteriais: responsáveis pela drenagem do sangue venoso e por sua reinfusão
no sistema arterial após a oxigenação, assegurando o fluxo extracorpóreo adequado (Kwasnicka
KL, 2003).
Reservatório venoso: compartimento que coleta e armazena o sangue drenado antes de
seu bombeamento para o circuito (Kwasnicka KL, 2003).
Bomba arterial: pode ser do tipo centrífuga ou de roletes, substituindo a função de
bombeamento cardíaco e garantindo fluxo sanguíneo contínuo no sistema (Kwasnicka KL,
2003).
Oxigenador de membranas: dispositivo que realiza as trocas gasosas de maneira
semelhante ao alvéolo pulmonar, promovendo a oxigenação sanguínea e a remoção de dióxido
de carbono. Comparado aos antigos oxigenadores de bolhas, apresenta menor trauma hemático,
reduzindo complicações associadas (Kwasnicka KL, 2003).
Permutador de calor: possibilita o controle da temperatura corporal, sendo fundamental
tanto para a indução da hipotermia intraoperatória quanto para o reaquecimento gradual do
paciente (Kwasnicka KL, 2003).

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Filtros e aspiradores: atuam na prevenção de embolismos, na remoção de detritos


cirúrgicos e na reintegração do sangue aspirado ao sistema (Kwasnicka KL, 2003).
De acordo com Kwasnicka KL (2003), a correta seleção, montagem e preparo desses
componentes são fatores determinantes para a segurança e eficácia da circulação extracorpórea,
visto que falhas nesse processo podem comprometer a estabilidade do paciente e o sucesso do
circuito.

Controle de temperatura na circulação extracorpórea

A temperatura interna ou central de animais homeotérmicos, em condições normais, se


mantém constante e independente das variações da temperatura ambiente. A regulação da
temperatura é controlada pela porção anterior ao tálamo e hipotálamo, o centro termorregulador
que identifica alterações de temperatura na pele e no sangue.
Durante a CEC, é indicado o uso de resfriamento do paciente como técnica para a
preservação de órgãos e tecidos (Vander AJ, et al., 1975). A vasoconstrição dos vasos da pele,
que diminui a perda de calor por convecção, ocorre simultaneamente à vasodilatação dos leitos
vasculares do músculo esquelético, o que aumenta a atividade muscular para produzir calor por
3423
meio de tensão e tremores. Quando ocorre a hipotermia, o sistema endócrino é ativado, o
consumo de energia aumenta e a frequência cardíaca, débito cardíaco e PAS aumentam (Gravlee
GP, et al., 2015).
O intuito de induzir o paciente, submetido a CEC, à hipotermia é a proteção dos órgãos,
pois a redução da taxa metabólica, e menor consumo de oxigênio subsequente da baixa
temperatura corporal, gera uma margem de segurança do paciente submetido a CEC. A
hipotermia também ajuda a preservar os estoques de fosfato de alta energia e reduz a liberação
de neurotransmissores excitatórios, tal efeito que é de extrema importância para a proteção do
sistema nervoso central (SNC) (Cameron DE e Gardner TJ, 1988).
Normalmente as células neurais isquêmicas, liberam aminas neuroexcitatórias,
especialmente o glutamato (Rothman, 1988). O acúmulo das aminas excitatórias, gera abertura
dos canais de cálcio e a ativação de diversos sistemas enzimáticos destrutivos. A hipotermia
ajuda a prevenir a entrada de cálcio na célula e restringe a permeabilidade da membrana (Busto
R, et al., 1989).
A alteração de temperatura causa uma mudança na taxa de reação de todos os processos
bioquímicos, principalmente as reações enzimáticas. Alguns processos bioquímicos,

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especialmente aqueles localizados nas membranas celulares, apresentam uma mudança abrupta
nas taxas de reação e, determinadas temperaturas críticas. Esses processos foram denominados
como fase de transição, onde a membrana celular sofre uma mudança em sua consistência de
fluido para gel (Hearse DJ, et al., 1981). Nos mamíferos, as transições de fase ocorrem em
aproximadamente 25° C a 28 ° C. A hipotermia possui um limite para seus benefícios, que é o
ponto de congelamento (0°C), condição não tolerada pelo organismo dos mamíferos, afinal, o
tecido não recupera a função ao descongelar o corpo.
Em cirurgia cardíaca, a CEC em conjunto com a hipotermia sistêmica permite fluxos de
bombeamento mais baixos, protegendo o miocárdio, gerando menos trauma sanguíneo e
ofertando melhor proteção de vísceras em relação a perfusão normotérmica (Cameron DE e
Gardner TJ, 1988). Segundo Teixeira GF (1997), os graus de hipotermia podem ser classificados
como leve, moderada ou profunda, como descrito na Tabela 1 a seguir:

Tabela 1: Classificação dos graus hipotermia

3424

Fonte: Teixeira GF (1997).

Normalmente, em cirurgias que necessitam de CEC, é induzida a hipotermia moderada.


A hipotermia profunda, é aplicada quase que exclusivamente em casos de algum tipo de defeito
no maquinário ou incidente no centro cirúrgico, onde o paciente é induzido temperaturas
extremamente baixas para poder corrigir tal problema, sem ter que pausar o procedimento
cirúrgico (Gravlee GP, et al., 2015).

Alterações na função dos órgãos

Por conta da diminuição de fluxo sanguíneo causada pela hipotermia, o organismo do


cão começa a apresentar alterações no músculo esquelético e extremidades, seguidos pelos rins,
leito esplênico coração e cérebro. Porém, segundo Reed et al, apesar da diminuição de fluxo, o

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conteúdo arteriovenoso continua inalterado, indicando que o suprimento de oxigênio é


adequado para tais estruturas.
Com o resfriamento, a FC diminui, porém, ainda há contratilidade adequada. Disritmias
podem ocorrer conforme a temperatura diminui. Pode ocorrer também, batimentos
ventriculares prematuros nodais, bloqueio atrioventricular, fibrilação atrial e ventricular e
assistolia.
O sistema pulmonar é caracterizado pela diminuição progressiva da ventilação.
Os rins apresentam a maior redução de fluxo sanguíneo proporcional de todo organismo.
Há diminuição de transporte tubular de sódio, água e cloreto, e a capacidade de concentração
fica prejudicada. Pode apresentar glicose na urina, por conta da capacidade de processamento da
glicose nos rins prejudicada. Lesões hepáticas são raras na CEC hipotérmica. (Gravlee GP, et
al., 2015).

Alteração ácido-base com mudança de temperatura

A hipotermia leva a alcalose relativa (pH sobe) e diminuição da PCO₂, devido ao


aumento da solubilidade dos gases e menor dissociação de ácidos/bases. O manejo clínico pode
3425
ser feito pelo método α-stat ou pH-stat (Gravlee GP, et al., 2015).

Complicações associadas à circulação extracorpórea

A aplicação da circulação extracorpórea (CEC), embora indispensável em


procedimentos cardíacos complexos, pode desencadear uma série de complicações fisiológicas
que exigem atenção rigorosa da equipe multiprofissional. Essas alterações envolvem diferentes
sistemas orgânicos e estão relacionadas tanto à natureza do procedimento quanto à interação do
sangue com os componentes do circuito extracorpóreo (Freitas RR, 2004).

Alterações Hemodinâmicas, Respiratórias, Renais e Neurológicas

Durante a perfusão extracorpórea, a ausência de fluxo pulsátil somada à hemodiluição


pode ocasionarqueda da resistência vascular sistêmica, resultando em episódios de hipotensão e
instabilidade circulatória (Freitas RR, 2004). No sistema respiratório, são relatadas
complicações como atelectasia, edema pulmonar, hemorragia alveolar e síndrome do
desconforto respiratório agudo, principalmente em perfusões prolongadas (Freitas RR, 2004).
O sistema renal apresenta elevada suscetibilidade, uma vez que a redução do fluxo

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sanguíneo pode levar à oligúria e à disfunção renal aguda, comprometendo a manutenção da


homeostase hídrica e eletrolítica do paciente. Já no sistema nervoso central, alterações da
perfusão cerebral estão associadas ao desenvolvimento de déficits cognitivos, crises convulsivas
e, em situações mais graves, acidentes vasculares encefálicos (Kwasnicka KL, 2003).

Resposta Inflamatória Sistêmica e Lesão por Reperfusão

Outro efeito adverso relevante da CEC é a resposta inflamatória sistêmica,


desencadeada pelo contato do sangue com superfícies não endoteliais do circuito extracorpóreo.
Esse processo estimula a ativação de leucócitos e plaquetas, bem como a liberação de citocinas
pró-inflamatórias e espécies reativas de oxigênio. Em consequência, pode haver intensificação
das lesões teciduais e predisposição à disfunção multiorgânica, sobretudo em pacientes com
comorbidades pré-existentes (Freitas RR, 2004). A lesão por reperfusão, observada no
restabelecimento do fluxo sanguíneo após o período de isquemia induzida, constitui outra
complicação crítica. Caracterizada pela produção exacerbada de radicais livres e pela infiltração
de células inflamatórias, culminando em necrose celular, disfunção endotelial e
comprometimento da integridade vascular (Freitas RR, 2004).
3426
Protocolos Perioperatórios da Circulação Extracorpórea

A realização segura e eficaz da circulação extracorpórea (CEC) em procedimentos


cardíacos exige a adoção de protocolos rigorosos em todas as suas fases: pré, trans e pós-
perfusão. Cada etapa é fundamental para garantir a estabilidade hemodinâmica, a preservação
da função orgânica e a redução de complicações associadas ao procedimento.

Fase Pré-CEC

A etapa pré-perfusional envolve a avaliação clínica detalhada do paciente, com atenção


especial ao peso corporal, hematócrito e condição cardiovascular, fatores que influenciam
diretamente na escolha do circuito e na composição do perfusato (Santos ALS, 2009). A
montagem e preparação da máquina de CEC incluem a separação completa do sistema e o
preparo adequado da solução perfusora, visando minimizar riscos de embolismo gasoso e
garantir a eficiência da oxigenação extracorpórea. Para prevenir eventos tromboembólicos,
realiza se a heparinização sistêmica do paciente, promovendo anticoagulação eficaz durante
todo o procedimento (Kwasnicka KL, 2003).

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Fase Trans-CEC

Durante a perfusão extracorpórea, o controle do fluxo sanguíneo é essencial. Em


condições de normotermia, recomenda-se manter o fluxo entre 2,2 e 2,4 L/min/m², com ajustes
conforme os parâmetros gasométricos do paciente (Freitas RR, 2004). O fluxo de gases é
geralmente regulado na proporção 1:1 em relação ao sangue, sendo adaptado conforme a
necessidade metabólica. A hipotermia é frequentemente empregada como estratégia de proteção
orgânica, reduzindo o metabolismo celular e preservando a integridade tecidual (Freitas RR,
2004).
A monitorização contínua inclui variáveis como pressão arterial média, retorno venoso,
saturação de oxigênio, equilíbrio ácido-básico, hematócrito e parâmetros de coagulação. A
proteção miocárdica é assegurada por meio da administração de soluções cardioplégicas, que
promovem a paralisação segura do coração, além da manutenção da perfusão coronariana
durante o procedimento (Kwasnicka KL, 2003).

Fase Pós-CEC

Na fase final, realiza-se a retirada gradual do suporte extracorpóreo, acompanhada do


3427
reaquecimento progressivo do paciente até atingir a normotermia. A reversão da anticoagulação
é feita com a administração de protamina, neutralizando os efeitos da heparina (Santos ALS,
2009). Em seguida, procede-se à correção dos distúrbios eletrolíticos e ácido-básicos, bem como
à reinfusão do volume residual do circuito. A avaliação final da perfusão tecidual é realizada
por meio da análise de parâmetros clínicos como pressão arterial, diurese e oxigenação
periférica, garantindo a estabilidade fisiológica do paciente após o término da CEC (Freitas RR,
2004).

Anestesia na CEC

Avaliação pré-anestésica

A avaliação anestésica é o primeiro ponto a ser considerado para a realização de uma


anestesia segura e de qualidade. A melhor anestesia é a que o paciente precisa (Massone F, p.9).
Para o animal cardiopata, a avaliação pré-anestésica feita de forma rigorosa é de extrema
importância, para avaliar a gravidade da doença e o impacto sobre os sistemas cardiovascular,
renal e hepático, que são potencialmente afetados pela doença de base (Guedes ACA, 2022) e

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visando a diminuição da possibilidade de morbidade e de mortalidade durante a cirurgia (Gilio


BA, 2021). Com ela, é feita uma interpretação prévia dos desequilíbrios do animal, permitindo
pensar de forma antecipada possíveis correções (Encontro Científico Cultural
Interinstitucional, 2022).
O risco anestésico é definido por diferentes índices. O mais utilizado é o estabelecido
pelo American Society of Anestheiologist, que possui categorias de I a V para pacientes com
disfunção miocárdica. A classificação do New York Heart é utilizada como avaliação objetiva
(Dolgin, 1994; Gilio BA, 2021; Guedes ACA, 2022; Schaumburg, 2014). Estas classificações estão
citadas nas Figura 2 e 3 abaixo:

Figura 2: Classificação do risco anestésico

3428

Fonte: Adaptado de New York Heart Association (1994).

Figura 3: Classificação da limitação funcional

Fonte: Adaptado de American Society of Anesthesiologists (2014).

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Para auxiliar na avaliação, o animal deve passar numa consulta com o anestesista. Deve
ser solicitado hemograma, bioquímico sérico, principalmente as enzimas hepáticas e renais,
radiografia torácica, eletrocardiograma, ecocardiograma, medição não invasivas da pressão
arterial para a avaliação da condição geral do paciente. Se possível, realizar o teste de coagulação,
que deve estar relacionada ao grau da cardiopatia e o tipo de procedimento que será feito (Borges
B et al., 2022; Encontro Científico Cultural Interinstitucional, 2022).
As medicações de uso contínuo devem ser notificadas ao anestesista para evitar
interações medicamentosas com os anestésicos (Borges B et al., 2022). O animal, pode seguir
com o uso até o momento da cirurgia, contudo animais que fazem uso de inibidores de enzima
conversora de angiotensina podem ter hipotensão no trans operatório, e nessa situação o
anestesista deve ter agentes inotrópicos e vasoconstritores por perto (Guedes ACA, 2022). Os
agentes anestésicos podem causar uma depressão cardiopulmonar, que desencadeia um
distúrbio fisiológico acentuado, proveniente da anestesia (Gilio BA, 2021).

Medicação pré- anestésica (MPA)

A medicação pré-anestésica (MPA) apresenta vantagens como a facilitação do manejo do


3429
paciente, promoção de analgesia e miorrelaxamento, sinergismo por potencialização de
fármacos indutores anestésicos, indução suave a anestesia geral e redução da resposta
autonômica reflexa (Fantoni et al, 2008; Massone F, 2023). Os medicamentos utilizados na MPA
podem ser divididos em várias categorias, a depender do efeito desejado, destacando-se os
benzodiazepínicos, fenotiazínicos, anticolinergicos, agonistas de receptores alfa-2 adrenérgicos
e opioides (Massone F, 2023).
Os opioides são a base das medicações pré- anestésicas em pacientes cardiopatas, pois
tendem a causar depressão vascular mínima, mantendo o débito cardíaco e a pressão arterial
sistêmica estáveis (Johnson RA, et al., 2022; Encontro Científico Cultural Interinstitucional,
2022). A principal consequência do uso de opioides é a bradicardia, pelo aumento da atividade
parassimpática, porém pode ser controlada com tratamento ou pré- medicação de
antimuscarínicos (Johnson RA, et al., 2022; Gilio BA, 2021).
Os benzodiazepínicos, como o diazepam e midazolam, são boas escolhas em cardiopatas:
têm mínimo ou nenhum efeito na frequência cardíaca e, contratilidade, não conduzem à
hipotensão. Mas, deve o profissional deve ter atenção à velocidade da administração, já que a

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infusão rápida pode gerar depressão cardiopulmonar e trombos (Borges B et al., 2022; Johnson
RA, et al., 2022).
Anticolinérgicos, como a atropina e o glicopirrolato, são anticolinérgicos parassimpáticos,
usados para aumentar a frequência cardíaca associada a bradicardia sinusal (Borges B et al.,
2022). Uma associação frequentemente usada é a aplicação prévia de atropina com um fármaco
agonista alfa-2 adrenérgico. Essa combinação promove aumento da pressão arterial a níveis
deletérios ao paciente, que, somado à taquicardia, diminui o preenchimento sistólico e aumento
de O2 pelo miocárdio. O glicopirrolato não ultrapassa a barreira hematoencefálica e tem efeitos
mais lentos, com menos chances de gerar taquicardia sinusal (Massone F, 2023).
Fenotiazinicos, como a acepromazina, são excelentes tranquilizantes para animais. Apesar
do uso comum, é um potente antagonista de receptores alfa- 1- adrenérgicos, e conduz à
vasodilatação periférica e à hipotensão, por isso devem ser evitados em cardiopatas (Johnson
RA, et al., 2022; Medeiros LC, et al., 2024). A medicação pode proteger o miocárdio de arritmias
induzidas pela epinefrina e por barbitúrico, mas deve-se considerar os efeitos hipotensores
quando considerado o uso com o objetivo de atender a esse benefício (Borges B et al., 2022).
Os agonistas dos receptores alfa-2 adrenérgicos, como a xilazina, são contraindicados em
3430
cardiopatas, pois promovem o aumento da resistência vascular sistêmica, bradicardia para
tentar manter a pressão arterial, redução do débito cardíaco e hipotensão. Em alguns pacientes,
podem causar vasodilatação e hipotensão arterial, seguida da hipertensão inicial (Johnson RA,
et al., 2022; UFMG, 2024).

Anestesia inalatória

A aplicação da anestesia inalatória garante um controle melhor do plano anestésico, por


sua rápida ação e duração, além de ter poucos efeitos na frequência cardíaca, tem efeitos
mínimos no débito cardíaco (UFMG, 2024). Contudo, o principal efeito cardiovascular é a
vasodilatação dependente, principal mecanismo de hipotensão, causado pelo isoflurano e
sevoflurano (Encontro Científico Cultural Interinstitucional, 2022).
Os principais anestésicos inalatórios são o Isoflurano e o Sevoflurano. O primeiro é mais
indicado para pacientes de alto risco, por ter melhor manutenção do débito cardíaco, pois a
frequência cardíaca se eleva e compensa as alterações de pressão arterial;no entanto causa
vasodilatação. Se o paciente é dependente de volume para o débito cardíaco e pressão de perfusão
é necessário realizar fluidoterapia (UFMG, 2024; Massone F, 2023; Borges B et al., 2022).

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Geralmente esses efeitos colaterais são gerenciados pela diminuição da dose administrada ou
pela neutralização dos efeitos colaterais, com o devido suporte cardiovascular (Johnson RA, et
al., 2022). O sevoflurano é semelhante ao Isoflurano, em seus efeitos cardíacos e respiratórios
(Borges B et al., 2022).

Anestésicos dissociativos

Anestésicos dissociativos, como a cetamina e a tiletamina, dissociam os centros


responsáveis pela consciência e inconsciência. O efeito cardiovascular é a estimulação do
sistema nervoso central, aumentando a frequência cardíaca, contratilidade e a pressão arterial,
podendo causar piora do sistema e arritmias (Johnson RA, et al., 2022). Não é recomendado seu
uso em pacientes com choque hemorrágico ou hipovolêmico grave, e seu uso isolado também
deve ser evitado devido seus efeitos no sistema cardiovascular (Borges B et al., 2022).

Anestésicos intravenosos

O propofol é um anestésico intravenoso, de curta duração e rápida volta de consciência,


muito utilizado na rotina (Massone F, 2023). É um vasodilatador dose-dependente que, em doses
3431
moderadas a altas, pode levar a hipotensão. É contraindicado em pacientes cardiopatas pela
diminuição cardiovascular. Mas há indicação de realizar a dose elevada de forma lenta,
reduzindo a ocorrência de efeitos profundos no sistema cardíaco, porém em doses baixas e com
baixa infusão, permite boa manutenção anestésica, principalmente em pacientes com doenças
cardíacas leves; naqueles com doença grave deve ser induzido cautelosamente (Gilio BA, 2021;
Johnson RA, et al., 2022).
O etomidato é um agente amplamente utilizado pois possui poucos efeitos adversos,
possuindo grande estabilidade cardiovascular (Massone F, 2023; Encontro Científico Cultural
Interinstitucional, 2022). Sua vantagem é ter mínima ou nenhuma depressão cardiovascular,
não alterando a frequência cardíaca, contratilidade ou retorno venoso (Johnson RA, et al., 2022).
Seu uso é indicado na indução anestésica de pacientes cardiopatas (Borges B et al., 2022).

RESULTADOS

A análise da literatura disponível sobre a circulação extracorpórea (CEC) em cães


submetidos à cirurgia cardíaca revela que, embora seja uma técnica consolidada na medicina
humana, seu uso em medicina veterinária ainda se encontra em expansão e enfrenta desafios

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técnicos e logísticos. Os resultados de estudos experimentais e clínicos revisados demonstram


que a CEC permite correções intracardíacas com elevada precisão e controle hemodinâmico,
ampliando o prognóstico de pacientes com cardiopatias congênitas e adquiridas.
Segundo Freitas RR (2004) e Kwasnicka KL (2003), a implementação da CEC
possibilitou avanços significativos na correção de defeitos septais, estenoses valvares e na
realização de transplantes cardíacos experimentais. Os dados apontam que a manutenção do
fluxo sanguíneo extracorpóreo, associada ao uso de soluções cardioplégicas e à hipotermia
controlada, é eficaz na preservação da função miocárdica e na redução da lesão isquêmica
durante o período de parada cardíaca. No entanto, a literatura evidencia que complicações como
hipotensão, disfunção renal e resposta inflamatória sistêmica ainda representam limitações
importantes para a aplicação clínica rotineira (Freitas RR, 2004; Ribeiro SN, 2012).
Os resultados dos estudos também reforçam a relevância da seleção criteriosa de
anestésicos e do monitoramento contínuo durante todo o procedimento. Guedes ACA (2022) e
Gilio BA (2021) destacam que anestésicos de baixo impacto cardiovascular, como o etomidato e
os opioides, contribuem para maior estabilidade hemodinâmica, reduzindo o risco de arritmias
e falência circulatória. Além disso, a fase de reaquecimento e o desmame da CEC exigem
3432
protocolos específicos para evitar distúrbios metabólicos e reperfusão abrupta dos tecidos.
Do ponto de vista fisiológico, a literatura revisada evidencia que a CEC altera a
hemodinâmica sistêmica e o equilíbrio ácido-básico, sendo essencial o controle de variáveis
como temperatura corporal, hematócrito e pressão arterial média. A indução de hipotermia
moderada demonstrou benefícios na proteção de órgãos vitais, especialmente cérebro e rins, por
reduzir a demanda metabólica e o consumo de oxigênio tecidual (Gravlee GP, et al., 2015).
Entretanto, temperaturas excessivamente baixas estão associadas a arritmias e distúrbios na
coagulação, exigindo manejo preciso.
Em relação às complicações, observou-se que a resposta inflamatória sistêmica, a hemólise
mecânica e a ativação de cascatas de coagulação continuam sendo desafios técnicos, decorrentes
do contato do sangue com superfícies não biológicas do circuito (Kwasnicka, 2003). Estratégias
modernas de perfusão, como o uso de oxigenadores de membrana e circuitos revestidos com
heparina, têm reduzido significativamente esses efeitos adversos, demonstrando avanço
tecnológico relevante.
De forma geral, os resultados comparativos sugerem que a aplicação da CEC em cães é
viável e segura quando realizada sob condições controladas e por equipes capacitadas. Contudo,

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seu uso ainda é restrito a centros de pesquisa e hospitais universitários, devido ao custo elevado
e à necessidade de perfusionistas especializados. Estudos recentes indicam tendência de
expansão do uso clínico, especialmente em países com programas de cirurgia cardíaca
veterinária avançados, como Japão, Estados Unidos e França (Medeiros LC,et al., 2024; Loen V,
2021).
Assim, a discussão evidencia que a CEC representa uma fronteira tecnológica importante
para a medicina veterinária. A consolidação dessa prática depende do aprimoramento dos
protocolos anestésicos, da miniaturização dos equipamentos e da capacitação de profissionais.
O impacto positivo na qualidade de vida e na sobrevida dos cães com cardiopatias reforça o
potencial dessa técnica como ferramenta essencial para o futuro da cirurgia cardíaca veterinária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da literatura sobre a circulação extracorpórea em cães submetidos à cirurgia


cardíaca evidência que essa técnica representa um importante avanço para a medicina
veterinária, permitindo intervenções antes consideradas inviáveis. Seu desenvolvimento tem
contribuído para ampliar as possibilidades terapêuticas em cardiopatias complexas, oferecendo
3433
maior segurança cirúrgica e melhores condições de recuperação aos pacientes. No entanto, nota-
se que a implementação da CEC em animais ainda se depara com obstáculos consideráveis,
principalmente no que diz respeito à disponibilidade de equipamentos apropriados, à demanda
por profissionais qualificados e aos altos custos do procedimento. Ademais, a literatura ressalta
que a resposta fisiológica dos cães à CEC pode variar de acordo com fatores como tempo de
perfusão, temperatura corporal, anestesia e condições clínicas prévias, o que reforça a
importância de protocolos padronizados e de monitoramento rigoroso durante todas as etapas
cirúrgicas.
Os estudos analisados ressaltam a importância de uma equipe multidisciplinar,
composta por cirurgiões, anestesistas e perfusionistas, cuja colaboração é fundamental para o
sucesso do procedimento e redução de complicações, como distúrbios hemodinâmicos,
metabólicos e inflamatórios. Dessa forma, a circulação extracorpórea se estabelece como uma
técnica promissora na cirurgia cardíaca veterinária, com a capacidade de aumentar a sobrevida
e melhorar a qualidade de vida dos animais com doenças cardíacas. Pesquisas futuras são
essenciais para melhorar as técnicas de perfusão, anestesia e manejo pós-operatório, permitindo
que a CEC se torne mais acessível, segura e eficiente na prática clínica.

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