CIRURGIA RECONSTRUTIVA EM FRATURA DIAFISÁRIA DE TÍBIA
UTILIZANDO FLAP MUSCULAR E CUTÂNEO COM ENXERTIA DE
ASA ILÍACA EM CÃO – RELATO DE CASO
RECONSTRUCTIVE SURGERY IN TIBIA FRACTURE USING MUSCLE AND SKIN
FLAP WITH ILIAC WING GRAFT IN DOG – CASE REPORT
CIRUGÍA RECONSTRUCTIVA PARA UNA FRACTURA DIAFISARIA DE TIBIA
UTILIZANDO COLGAJOS MUSCULARES Y CUTÁNEOS CON INJERTO DE ALA
ILÍACA EN UN PERRO: INFORME DE UN CASO
Raul de Carvalho Castro Silva1
DOI: 10.54899/dcs.v22i84.3792
Recibido: 14/10/2025 | Aceptado: 03/11/2025 | Publicación en línea: 14/11/2025.
RESUMO
No cotidiano dos procedimentos cirúrgicos ortopédicos no âmbito da Medicina Veterinária, se
evidencia um notável aumento no emprego de metodologias de reconstrução, que têm como
objetivo a substituição de estruturas moles na área que é alvo da osteossíntese. A prática
reconstrutiva, por sua parte, compreende a aplicação de metodologias para o reparo tecidual,
como flaps e enxertos, destinadas à correção de falhas cutâneas de origem traumática,
especialmente nos casos em que a aproximação primária das bordas se torna impraticável por
conta da tensão excessiva sobre a área. Existe uma gama variada de procedimentos para a
reconstrução cirúrgica, entre os quais se destacam os enxertos e os retalhos cutâneos.
Frequentemente, a utilização dos retalhos ocorre no padrão axial, abrangendo tipos como os de
avanço, os de transposição e os rotacionais. Para que a intervenção cirúrgica alcance o sucesso, é
imperativo que se faça um planejamento cuidadoso; este busca prevenir intercorrências como a
tensão exacerbada, a formação de hematomas, a infecção do tecido transferido e um
comprometimento do suprimento sanguíneo. Adicionalmente, é fundamental levar em conta a
localização e as dimensões da lesão, as linhas de tensão cutânea e a pele disponível, sendo de
máxima importância a afinidade e a vivência do cirurgião na escolha da abordagem a ser
empregada.
Palavras-chave: Osteossíntese. Cirurgia Reconstrutiva. Flap. Tíbia. Canino. Enxertia.
ABSTRACT
In routine orthopedic surgeries in veterinary medicine, the use of reconstructive techniques aimed
at replacing soft tissue in the area undergoing osteosynthesis has been growing considerably.
Reconstructive surgery, in turn, refers to tissue reconstruction techniques such as flaps and grafts
for the correction of traumatic skin defects when primary closure is not possible due to excessive
1
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias, Universidade Estadual Paulista “Julio
Mesquita Filho” (UNESP) – campus de Jaboticabal, Jaboticabal, São Paulo, Brasil.
E-mail: [Link]-silva@[Link] Orcid: [Link]
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tension. There are several reconstructive surgery techniques, such as skin grafts and flaps. Flaps
are commonly used in the axial pattern, such as advancement, transposition, and rotational flaps.
For a successful surgical procedure, careful planning is required to avoid complications such as
excessive tension, hematoma, flap infection, and circulatory compromise. In addition,
consideration should be given to wound location, size, tension lines, skin availability, and, most
importantly, the surgeon's preference and experience regarding the technique to be used.
Keywords: Osteosynthesis. Reconstructive Surgery. Flap. Tibia. Canine. Grafting.
RESUMEN
En la práctica diaria de la cirugía ortopédica veterinaria, se observa un aumento significativo en
el uso de técnicas de reconstrucción para reemplazar los tejidos blandos en la zona tratada
mediante osteosíntesis. La práctica reconstructiva, a su vez, comprende la aplicación de técnicas
de reparación tisular, como colgajos e injertos, destinadas a corregir defectos cutáneos de origen
traumático, especialmente cuando la aproximación primaria de los bordes resulta impracticable
debido a la tensión excesiva en la zona. Existe una amplia gama de procedimientos de
reconstrucción quirúrgica, entre los que destacan los injertos y colgajos cutáneos. Con frecuencia,
los colgajos se utilizan de forma axial, incluyendo tipos como los de avance, transposición y
rotación. Para que la intervención quirúrgica sea exitosa, es imprescindible una planificación
meticulosa que prevenga complicaciones como la tensión excesiva, la formación de hematomas,
la infección del tejido transferido y la alteración del riego sanguíneo. Además, es fundamental
considerar la ubicación y las dimensiones de la lesión, las líneas de tensión cutánea y la cantidad
de piel disponible. La experiencia y la pericia del cirujano son fundamentales para elegir el
abordaje adecuado.
Palabras clave: Osteosíntesis. Cirugía Reconstructiva. Colgajo. Tibia. Canino. Injerto.
Esta obra está bajo una Licencia CreativeCommons Atribución- NoComercial 4.0 Internacional
INTRODUÇÃO
A cirurgia ortopédica na Medicina Veterinária é um campo especializado que se concentra
no diagnóstico, tratamento, prevenção de doenças e lesões que afetam o sistema
musculoesquelético.
As fraturas ósseas são lesões comuns em cães e podem resultar de traumas como acidentes
automobilísticos, quedas ou conflito com outros animais. O tratamento cirúrgico das fraturas
ósseas geralmente envolve a utilização de técnicas de fixação interna com placas, parafusos, pinos
e hastes intramedulares visando a estabilização dos membros apendiculares sendo que a escolha
da técnica de fixação depende da localização e da gravidade da fratura, bem como a idade, peso
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e tamanho do paciente.
Por sua vez, a abordagem cirúrgica reconstrutiva consiste no emprego de metodologias
para a reparação dos tecidos, como os flaps e os enxertos (Fossum, 2008), com o propósito de
corrigir falhas cutâneas de origem traumática (Slatter, 2007). Na elaboração do planejamento para
uma intervenção de caráter reconstrutivo, é imperativo que se ponderem a localização das lesões,
a flexibilidade (elasticidade) do tecido circundante, a vascularização da região e as condições da
base da ferida, cabendo ao profissional cirúrgico a definição acerca da metodologia mais
apropriada a ser aplicada (Pavletic, 2010).
É necessário que se faça a consideração de determinados aspectos ao se fazer uso de
enxertos ou retalhos, como a orientação do crescimento dos pelos, o nível de tração na linha de
sutura, a utilização de materiais de sutura específicos para a intervenção, assim como do fio
correto (Slatter, 2007). É fundamental ter a consciência de que uma tensão desmedida durante a
oclusão das lesões tem o potencial de provocar a abertura da linha de sutura (deiscência de
pontos), a morte tecidual (necrose), danos à vascularização, um retardo no processo cicatricial e
incômodo para o paciente; por isso, deve-se dar destaque à importância de uma acomodação
apropriada do animal durante o ato cirúrgico e à execução da técnica adequada, fatores que, de
modo expressivo, colaboram para a redução das probabilidades de surgirem intercorrências no
período pós-operatório (Pavletic, 2010).
RELATO DE CASO
Foi encaminhado ao hospital público veterinário em Osasco, um macho canino SRD (sem
raça definida), com idade aproximada de quatro anos, pesando 14 kg, apresentando perda de
movimento do membro pélvico direito. Ao exame físico constatou-se fratura exposta de tíbia. O
tutor, cuidadoso, direcionou-se de imediato ao nosocômio para pronto atendimento após
atropelamento. Em estudo radiográfico através de incidência médio lateral do membro
acometido, revelou a presença de fratura diafisária (Fig. 1) e (Fig. 2). O paciente foi encaminhado
ao setor de cirurgia para a realização de uma osteossíntese do membro fraturado. Com o resultado
dos exames laboratoriais normais foi realizado o procedimento para a osteossíntese em tíbia,
desbridamento do tecido desvitalizado e limpeza da ferida, de forma abundante, com solução
fisiológica 0,9%.
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Figura 1 – Radiografia de tíbia e fíbula direita. A: Projeção crânio-caudal e B: Projeção médio-lateral
Fonte: do autor (2025).
Figura 2 – ORIF foco da fratura
Fonte: do autor (2025).
O animal foi submetido a um protocolo pré-anestésico que empregou anestesia
dissociativa de ketamina, na dosagem de 5 mg/kg, em combinação com diazepam, na dosagem
de 0,5 mg/kg; essa associação teve como finalidade promover uma analgesia mais efetiva para o
processo de higienização e remoção de tecido desvitalizado das margens da lesão, local em que
se constatou a presença de uma esquirola. Foi administrada uma anestesia epidural, na proporção
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de 1 ml/4Kg/PV, a qual consistiu em uma mistura de 0,5 ml de lidocaína 2%, 0,5 ml de
bupivacaína 0,5% e citrato de fentanila na dose de 0,02 mg/kg. Para viabilizar a entubação
orotraqueal, a indução anestésica do paciente foi feita com propofol na dose de 6 mg/kg, sendo a
manutenção do plano anestésico efetuada por via inalatória com isoflurano e oxigênio a 100%.
Uma vez concluída a preparação do campo para uma cirurgia asséptica, efetuou-se uma
abordagem cirúrgica com o objetivo de obter um enxerto autólogo na área correspondente à crista
ilíaca, conforme a metodologia descrita por Schena (1983), local em que se procedeu com uma
incisão da pele e do tecido subcutâneo diretamente sobre a referida estrutura. O músculo glúteo,
depois de se seccionar sua inserção na fáscia, foi levantado e afastado em direção ventral. Em
seguida, promoveu-se o afastamento dos músculos glúteo médio e sacroespinhal, a partir de suas
respectivas faces lateral e medial da crista ilíaca, com o auxílio de um osteótomo e martelo, sendo
que a esta manobra seguiu-se a coleta do enxerto do interior da asa do ílio, feita com o uso de
uma cureta (Fig. 3). O procedimento foi concluído com a síntese do músculo glúteo e, na
sequência, com a sutura do plano subcutâneo e da pele.
Figura 3 – Retirada da asa do ílio
Fonte: do autor (2025).
De forma subsequente, foi executada uma incisão cutânea posicionada sobre o aspecto
medial do osso, cujo percurso se estendeu da crista tibial até a região do maléolo medial (Fig. 4).
A fáscia subcutânea foi seccionada acompanhando o mesmo alinhamento da incisão na pele; após
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essa etapa, procedeu-se à identificação dos vasos safenos e do nervo fibular superficial, os quais
foram deslocados do foco da fratura por meio da sua ancoragem com fio de sutura. O músculo
tibial cranial foi então rebatido em direção cranial, com o emprego de um afastador de periósteo
para promover a liberação da borda cranial da tíbia, enquanto o tendão do músculo flexor digital
longo foi afastado por divulsão em sentido caudal, realizando-se, com isso, a exposição completa
da diáfise da tíbia.
Figura 4 – Acesso à face craniomedial da tíbia, fazendo uma incisão craniomedial na pele. Estender a incisão pelo
comprimento da tíbia se uma placa estiver sendo aplicada. Dissecar através da fáscia, evitando a veia e nervo
safenos mediais cruzando o terço médio ao distal da diáfise tibial
Fonte: Fossum et al. (2021).
Efetuou-se o reposicionamento anatômico da fratura em sua porção intermediária
(medial), com o emprego de pinças de redução espanholas e, posteriormente, realizou-se a
modelagem de uma placa bloqueada de 2,7 mm de seis furos, utilizando-se um retorcedor manual
para que o implante se adaptasse da melhor forma à conformação anatômica da tíbia distal. A
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fixação da placa ao tecido ósseo se deu por meio da distribuição de três parafusos bloqueados de
2,7 mm no fragmento distal e de outros três parafusos no fragmento proximal. Para a colocação
de cada parafuso, o procedimento iniciou-se com uma perfuração óssea no orifício bloqueado da
placa, executada com um perfurador elétrico dotado de uma broca de 2 mm. Logo após, foi feita
a aferição do comprimento do parafuso com um medidor de profundidade, sendo que, em seguida,
realizou-se o rosqueamento do orifício com um macho de 2,7 mm, para então se fazer a introdução
do parafuso com o auxílio de uma chave hexagonal de 2,7 mm.
Após a fratura ser reduzida anatomicamente e estabilizada e a inserção do enxerto
autólogo derivado da crista ilíaca no foco da fratura, foi incisada parte do músculo sartório, em
formato retangular, com as medidas do implante fixado em tíbia (Fig. 5) (Fig. 6), tomando-se
cuidado com a artéria femural, e inserido cranialmente a placa, utilizando-se suturas de
ancoragem em todos os bordos. Em seguida, deu se início a incisão de pele visando a formação
do retalho de padrão axial sendo consideradas as dimensões do vaso e do defeito a ser coberto,
utilizando-se da artéria genicular que é uma ramificação cranial da safena localizada na face
lateral da articulação do joelho entre a crista da tíbia e a patela, progredindo em direção ao
trocanter maior do fêmur (Fig. 7) (Fig. 8). Segundo a literatura e devidamente utilizada neste caso
é um padrão muito indicado para correção de feridas na porção lateral da tíbia e, em alguns casos,
nas porções caudal e medial (Pavletic, 2003; Fossum, 2021). O retalho foi rotacionado de forma
correta sobre a ferida cirúrgica realizada a obliteração do espaço morto com sutura padrão
“walking”, utilizando fio absorvível poliglecaprone 3-0, e a pele aproximada com sutura padrão
simples interrompido, utilizando-se fio inabsorvível monofilamentado de náilon 3-0.
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Figura 5 – Flap músculo sartório
Fonte: do autor (2025).
Figura 6 – Inserção do músculo sartório cranial ao implante
Fonte: do autor (2025).
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Figura 7 – Flap artéria genicular
Fonte: do autor (2025).
Figura 8 – Esquema ilustrativo da técnica de retalho irrigado pela artéria genicular medial
Fonte: Huppes et al. (2022).
No pós-operatório, utilizou-se amoxicilina com clavulanato de potássio (20mg/Kg), por
via oral a cada doze horas, durante dez dias consecutivos, meloxicam (0,1 mg/Kg), por via
subcutânea a cada vinte quatro horas durante cinco dias consecutivos e dipirona (25mg/Kg), por
via oral a cada doze horas por cinco dias consecutivos.
DISCUSSÃO
A utilização de flaps de epiderme e derme com inserção vascular retirados de um espaço
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doador e utilizados em reparo de ferida, enxertos de pele e autólogos visando a rápida recuperação
do paciente é de suma importância e deve ser objeto de planejamento por parte da equipe médica
e o cirurgião responsável.
Sua eficiência é de alto valor pois visa uma precoce revascularização e em específico na
tíbia, onde existe escassez de tecidos moles que ajudam na vascularização da região.
Em casos como o relatado, imaginar uma cicatrização por segunda intenção com
tratamento conservativo e a aplicação de um fixador externo alongaria o tratamento e recuperação
do paciente, além de ter que passar por novos procedimentos anestésicos, e custos por parte do
tutor que, por demais das vezes, não tem condições econômicas de arcar com as despesas com
medicamentos.
Desta forma, utilizar não somente a osteossíntese mas, agregar procedimentos cirúrgicos
reconstrutivos e utilizando de enxertos autólogos próprios para uma formação célere do calo
ósseo ajudam, em muito, a uma padronização de várias técnicas em um só procedimento
cirúrgico.
O retorno a deambulação ocorreu dez dias após a cirurgia com recuperação evidenciada
no membro pélvico submetido ao procedimento. Após o vigésimo dia o paciente evoluiu
clinicamente bem e iniciou o protocolo fisioterápico.
CONCLUSÃO
As cirurgias devem ser planejadas visando otimizar o tempo cirúrgico e anestésico do
paciente, além dos custos advindos de tais procedimentos e de contribuir para um melhor
entendimento sobre a utilização de diversas técnicas cirúrgicas em um só ato cirúrgico e aos
desafios propostos aos ocupantes da área acadêmica.
Por fim, a pesquisa em ortopedia veterinária enfrenta desafios que limitam seu avanço,
contudo, superação dessas barreiras poderá direcionar estudos futuros mais pormenorizados,
contribuindo, de forma significativa, às melhorias no tratamento dos pacientes.
REFERÊNCIAS
FOSSUM, T. W. et al. Cirurgia de pequenos animais. 5. ed. São Paulo: Guanabara Koogan,
2021.
HUPPES, R. R. et al. Cirurgia reconstrutiva em cães e gatos. São Paulo: Medvet, 2022.
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PAVLETIC, M. M. Atlas of small animal wound management and reconstructive surgery.
3. ed. Cambridge: Wiley-Blackwell, 2010.
PAVLETIC, M. M. Pedicle grafts. In: SLATTER, D. (org.). Small animal surgery. 3. ed.
Philadelphia: Saunders, 2003. Cap. 23. p. 292-318.
PIERMATTEI, D. L. Manual de ortopedia e tratamento das fraturas dos pequenos
animais. 3. ed. São Paulo, 1998.
SCHENA, C. J. The procurement of cancellous bone for grafting in small animal orthopedic
surgery: a review of instrumentation, technique, and pathophysiology. Journal of the
American Animal Hospital Association, Golden, v. 19, p. 695-701, 1983.
SLATTER, D. Manual de cirurgia de pequenos animais. 3. ed. São Paulo: Manole, 2007.
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