Como Não Matar o Amor Proibido
Como Não Matar o Amor Proibido
Summary
Severus Snape e Sirius Black são inimigos desde o primeiro dia de Hogwarts, dois polos
opostos em um mundo cheio de regras e expectativas. Mas quando a rivalidade se mistura
com uma atração inexplicável, as linhas entre amor e ódio começam a se desfocar. Em um
cenário onde a pressão para ser quem os outros esperam se torna insuportável, Severus e
Sirius se encontram em um caminho tortuoso de desejo proibido e revolta. Em um mundo
onde a aceitação parece distante, eles terão que enfrentar os próprios sentimentos e as
consequências de se render ao que realmente querem.
Chapter 1: Capitulo 1
Todo mundo sabe que a Grifinória e a Sonserina estão em guerra há décadas. Mas ninguém
lembra direito por quê. Talvez algum grifinório roubou um pudim sonserino em 1402, ou
talvez os fundadores simplesmente tinham vibes incompatíveis. O fato é que, em Hogwarts,
você escolhe um lado... e reza pra não morrer no processo.
Ele era o príncipe rebelde da Grifinória, ex-comensal doméstico dos Black (sim, aqueles),
agora devidamente renascido sob o teto dos Potter, com cabelo de roqueiro, sorriso de
cafajeste e uma habilidade alarmante de explodir coisas sem tocar na varinha.
E, claro, era um dos Marotos — o grupo mais lendário, temido e absurdamente irritante de
Hogwarts. Se existisse um brasão para encrenca, teria o rosto do Tiago Potter piscando no
topo, com Pedro Pettigrew como mascote e Remus Lupin como o cérebro silencioso por trás
dos planos.
Naquela manhã, o campo de batalha era o corredor do segundo andar, onde a aula de Poções
tinha terminado em caos — de novo.
— Foi o feitiço de chiclete no sapato dele que estragou a marcha, eu juro — disse James,
tentando convencer McGonagall de que não foi “tão grave assim”.
Sirius observava, encostado na parede, os braços cruzados e um meio sorriso disfarçado. Seus
olhos, no entanto, estavam em outra coisa.
Ou melhor: em alguém.
Severo Snape caminhava apressado pelo corredor, os cabelos escuros grudados nas têmporas
pela umidade das masmorras, o rosto mais pálido que o normal e o andar ainda mais irritado
depois do “acidente” com chiclete mágico, poção de deslizamento e uma nuvem temporária
de cor-de-rosa.
O feitiço não tinha sido dele. Mas ele sabia, claro que sabia, quem tinha lançado.
James, obviamente.
— Algo assim — murmurou Sirius, evitando a resposta verdadeira: ele estava imaginando
como seria agarrar aquele nariz arrogante e calar aquela boca irritante com um beijo.
Absolutamente ninguém.
— Aposto que ele mistura condicionador na poção só pra disfarçar o cheiro de vinagre.
---
Duas horas depois, Sirius já havia escapado do almoço, fingido uma dor de cabeça e se
esgueirado pelo corredor escondido que levava à antiga torre de observação desativada. Um
lugar frio, silencioso, onde nem os fantasmas se incomodavam de flutuar.
Sempre chegava.
Odiava Snape. Ou melhor — tinha que odiar. Por causa da guerra. Por causa dos Marotos.
Por causa de tudo.
Mas então Snape falava. Ou calava. Ou olhava. E Sirius esquecia onde começava o ódio e
onde terminava o fascínio.
— Black.
Severo Snape entrou como se aquele lugar o pertencesse. Como se não fosse ilegal, imoral e
um desastre político esperar por alguém da Grifinória ali. Mas ele vinha. Sempre vinha.
— Você se superou hoje — disse Snape, encostando-se à parede com os braços cruzados. —
Chiclete? Sério?
Sirius não respondeu de imediato. Só olhou pra ele, como sempre fazia — como se o mundo
inteiro estivesse em preto e branco e Severo fosse a única mancha de tinta escura que fazia
sentido.
— E você riu.
— Rir é o que me resta — retrucou, seco. — Se eu não rir, eles perguntam. E se perguntam...
Snape olhou para a janela. A luz da tarde iluminava o rosto pálido com melancolia natural.
Era irritante como até o silêncio dele era afiado.
Sirius cerrou os punhos. Sempre aquela precisão cirúrgica. Como se Snape lesse sua mente
com a frieza de um mestre em Legilimência.
— Você não entende, Severo. Se eles souberem... James nunca mais vai olhar na minha cara.
Remus vai me chamar de imprudente. Pedro... bom, Pedro provavelmente só vai cair da
cadeira.
Snape deu um meio sorriso, e por um instante, Sirius viu. O Snape que ninguém via.
— E você vê?
— Eu vejo o que você tenta esconder. E o que tenta negar. Principalmente de si mesmo.
Sirius se aproximou. Dois passos. Três. A distância entre eles era uma corda esticada prestes
a arrebentar.
— Idiota.
— Hipócrita.
Sirius ergueu a mão devagar. Encostou nos cabelos de Snape, afastando uma mecha rebelde.
O toque era leve, mas carregava o peso de tudo que não podiam dizer.
Severo fechou os olhos. E Sirius, por um segundo, esqueceu que era um Black, um Maroto,
um traidor de tudo que a Grifinória defendia.
— Tudo que vale a pena, acaba — respondeu Sirius. — Mas enquanto durar... é só nosso.
Não com raiva. Não com pressa. Mas com a estranha ternura de quem beija o erro mais
bonito da própria vida.
Do lado de fora, o mundo seguia com suas guerras tolas e rótulos inúteis.
Mas naquela torre esquecida, um grifinório e um sonserino aprendiam, em segredo, que o
amor mais perigoso é aquele que você tem que esconder até de si mesmo.
---
Nota da autora:
E lá vou eu me meter em mais uma fanfic — dessa vez, com o caos altamente subestimado
chamado Snirius. Sim, você leu certo. Sirius Black e Severo “Nariz de Poção” Snape. Digam
🙃
que não sou a única que shippa, por Merlin! Ou pelo menos finjam que não, só pra eu não me
sentir completamente surtada.
Essa fanfic tem drama adolescente, pegadinhas duvidosas do James, tensão digna de
caldeirão prestes a explodir e um certo cachorro preto que tá escondendo mais segredos do
que o armário da Umbridge.
Então pega teu chocolate, tua varinha emocional e vem comigo. Vai ter treta. Vai ter beijo
proibido. Vai ter Sirius tentando não demonstrar ciúmes, mas falhando miseravelmente.
- Severus Snape...
A voz cortou o ar com a precisão de um feitiço bem lançado. Firme, baixa, mas impossível de
ignorar. Severus virou-se tão rápido que sua capa rodopiou nos calcanhares. E lá estava ela:
Narcisa Black. Impecável como sempre, os cabelos loiros presos num coque meticulosamente
desalinhado - como se ela fosse feita pra ser perfeita até na rebeldia.
O coração do sonserino deu um salto inquieto. Ele deu um passo para trás, reflexo puro.
Os olhos azuis da loira faiscaram, e ela avançou com passos certeiros, como uma onça em
direção à presa.
- Onde estava, Sev? - perguntou, e embora a voz estivesse mais suave, havia ali uma ameaça
velada. Um carinho afiado, como lâmina polida.
- Estava... estudando. - Ele desviou o olhar, ajustando a gola da túnica com os dedos pálidos.
- Estudando - repetiu Narcisa, agora a centímetros dele, os braços cruzados, o olhar clínico
examinando cada nervo exposto. - Onde exatamente?
Ela franziu os lábios. Inclinou a cabeça. Seus olhos desceram pela figura esguia de Severus,
pousando no pequeno pedaço de pele exposto na curva de seu pescoço.
Silêncio.
E então:
- Ah.
A expressão de Narcisa mudou com a velocidade de um feitiço não verbal. Ela arqueou uma
sobrancelha, ergueu uma das mãos e, sem pedir permissão, puxou com delicadeza brutal a
gola da túnica do amigo para o lado.
Um som escapou dela. Um pequeno "tsc", meio riso, meio julgamento. Ali, como uma
confissão deixada no corpo, um chupão roxo-escuro se destacava contra a pele pálida de
Severus.
- Não é da sua conta, Narcisa - murmurou Severus, mas o tom falhou, misto de vergonha e
impotência.
- Oh, Sev... você sabe que eu sempre faço tudo virar da minha conta - respondeu, agora com
um sorriso afiado. - Quem é ele?
Severus apertou os lábios, olhos colados ao chão de pedra fria do corredor. Narcisa inclinou-
se mais, murmurando como se estivesse contando um segredo proibido:
Severus bufou, cruzou os braços e virou o rosto, mas o rubor que lhe subiu ao pescoço foi
mais eloquente do que qualquer resposta.
- Hm... então não vai contar? - Ela deu de ombros. - Tudo bem. Eu espero. Sempre descubro.
Mas ele nem ouviu. Porque naquele instante, o toque da pergunta dela puxou-o como uma
âncora, arrastando-o para o fundo de uma lembrança recente - onde tudo havia começado.
---
Flashback
O trovão rasgou o céu como um aviso. Mas nem mesmo a fúria da tempestade ousava entrar
naquela torre.
Severus estava encostado à parede, o peito subindo e descendo devagar, a vela lançando
sombras quentes no rosto pálido. Molhado da chuva, os cabelos grudados na testa, ele parecia
uma pintura sombria de algum sonho proibido.
Não precisavam.
Sirius atravessou a sala em três passos, agarrou Severus pela nuca e o beijou com força. Nada
de hesitação. Era fome. Era desespero. Era puro instinto.
Severus arfou, os dedos cravando nos ombros do outro, sentindo cada linha daquele corpo
suado por baixo da camisa molhada.
- Estava me matando por dentro - ele respondeu, e mordeu o queixo de Severus antes de
descer os lábios por sua mandíbula, pescoço, clavícula.
- Cala a boca. - Mas Severus dizia isso enquanto puxava a túnica de Sirius com tanta força
que os botões quase voaram.
Sirius riu rouco, arrastado, e empurrou Severus contra a parede de pedra com o corpo. Os
quadris se chocaram num atrito quente, impaciente, desesperado. Severus prendeu a
respiração, sentindo Sirius se esfregar contra ele, os dois duros, os dois arfando, e nada mais
no mundo fazia sentido além daquela pressão.
Sirius enfiou uma delas por baixo da camisa do outro, subindo até os mamilos, traçando
círculos lentos e depois apertando com mais firmeza. Severus gemeu baixo, rouco, com a
cabeça encostada à parede, os olhos cerrados.
- Olha só, o príncipe da frieza geme bonito - provocou Sirius, com um sorriso obsceno.
- Vai se foder.
Severus prendeu o pulso dele no mesmo instante, os olhos brilhando como brasas.
A resposta foi um beijo brutal, uma mordida no lábio inferior, e logo depois o som do zíper
sendo puxado para baixo.
Sirius ajoelhou entre as pernas de Severus, os olhos escuros subindo devagar. Não havia
vergonha ali. Só luxúria. Só adoração.
- Deixa eu te marcar - ele disse, como um feitiço antigo, antes de colar os lábios na pele do
pescoço.
O chupão foi demorado, lascivo. Sirius sugou com força, e Severus gemeu alto, sentindo cada
centímetro do próprio corpo vibrar.
- Agora todo mundo vai saber que alguém te tocou - sussurrou Sirius, voltando a subir,
lambendo a marca como se fosse um prêmio.
- Só se for alguém muito idiota - retrucou Severus, mas suas mãos puxaram Sirius pra cima
de novo, com um desejo que queimava as palavras.
Eles caíram no chão, um em cima do outro, as pernas entrelaçadas. A capa de Sirius os cobriu
parcialmente, abafando o som das roupas sendo tiradas às pressas, das respirações virando
gemidos, dos nomes sendo sussurrados com reverência e fome.
Sirius se movia contra Severus com uma fricção quase torturante, e o sonserino retribuía com
beijos desesperados e arranhões nas costas que deixariam marcas por dias.
- Me diz que você sente o mesmo - Sirius pediu, ofegante, com os rostos colados.
- Eu sinto.
- Não mente.
Sirius o beijou de novo, como se quisesse engolir a confissão. Como se soubesse que, ali,
naquela torre, entre o cheiro de chuva e suor, os dois pertenciam apenas um ao outro.
Eles se amaram no silêncio do proibido, com pressa e fúria, mas também com uma ternura
que nunca ousariam admitir.
---
De volta ao presente
- Seja lá quem for... - Narcisa falou, tirando Severus de sua viagem no tempo com a leveza de
uma chicotada - ...é ousado.
Severus não respondeu. Ainda sentia o gosto do beijo. A marca da parede em suas costas. O
sussurro de Sirius. O calor.
- Ele é perigoso, não é? - Cissa indagou, com um brilho estranho nos olhos.
Severus a encarou por um segundo. Longo. Cheio de tudo que não podia ser dito.
Ela já sabia.
---
Nota de autora:
🖤
E lá vamos nós, mais uma vez, mergulhar de cabeça nesse oceano de tensão, segredos e...
chupões suspeitos no corredor de Hogwarts
Se você chegou até aqui, respira, você sobreviveu ao flashback. Parabéns. Agora pega um
copo d'água, talvez um chá calmante - ou um feitiço refrigerador, porque olha... esse capítulo
veio com selo de "explícito disfarçado de literatura".
Snape apaixonado? Sirius ajoelhado? Narcisa farejando escândalos com a elegância de quem
nasceu pra isso? Sim, entregamos TUDO.
Essa fanfic é meu "Tutorial de como não matar o amor da sua vida (mesmo ele sendo o
Snape)" e também meu lembrete pessoal de que o amor, quando escondido demais, queima
mais do que qualquer Poção do Inferno.
Se gostou, espalha. Se surtou, comenta. E se você também é do time que shipa Snirius,
venha, senta do lado - o clube dos traumas compartilhados está sempre aberto.
Nos próximos capítulos: segredos ameaçando escapar, o caos emocional ganhando força, e
talvez... mais beijos roubados em torres esquecidas.
Até lá, mantenha suas túnicas fechadas e seus segredos melhor escondidos que os de Severus
Snape.
Chapter 3: Lição 3
Um mês antes.
Silencioso como um feitiço bem lançado, Severus Snape avançava com passos longos e
irritados. O livro de Poções Avançadas colado ao peito, a expressão dura, as olheiras ainda
mais sombreadas pela luz baixa das tochas.
Literal.
- Filho da... - rosnou Sirius Black ao ser empurrado contra a parede de pedra.
- Preste atenção por onde anda, Black - Severus cuspiu, enfiando a cara feia a poucos
centímetros da do grifinório.
- Avisa logo qual maldição vai tentar usar antes que eu ria da sua cara - disse Sirius, olhos
faiscando.
Um feitiço ricocheteou. Outro falhou. As varinhas foram parar longe, voando para o chão de
pedra num som metálico. E então...
Soco.
Soco.
Snape retribuiu com um gancho na costela. O ar escapou dos pulmões de Sirius como um
estalo.
Eles rolavam pelo chão como dois animais selvagens - não havia duelo, só pura selvageria.
Mãos fechadas, corpos se chocando, cotovelos tentando abrir espaço. A túnica de Severus
rasgou no ombro. A de Sirius já estava manchada de poeira e raiva.
- Sempre quis fazer isso - murmurou Sirius, agarrando a gola da túnica de Snape com força.
Respirações ofegantes. O hálito quente misturado com a adrenalina. O gosto do sangue nas
línguas, a tensão elétrica no espaço entre os lábios.
Severus percebeu.
Brutal.
Sirius atacou a boca de Severus como se estivesse cometendo um crime. Os dentes bateram.
Os lábios rasgaram. O sangue misturou-se ao beijo, dando-lhe o sabor metálico da guerra.
- Cala a boca - respondeu Sirius, como se a fala dele fosse o real inimigo.
Severus tentou se afastar, empurrar Sirius pelos ombros. Mas as mãos tremeram. Os dedos
traíram.
O beijo continuou.
Sirius gemeu baixo quando Snape o mordeu. E Severus sentiu o mundo girar um pouco
quando Sirius apertou sua cintura e o puxou para mais perto, como se quisesse fundir os
corpos.
A tensão era tanto que o ar parecia ter desaparecido do corredor. Os olhos de Sirius estavam
arregalados, selvagens. Severus arfava como se estivesse engolindo cada emoção proibida
que carregava há anos.
Foi então que Snape cravou os olhos negros nos de Sirius e, com um movimento preciso, o
joelho subiu.
Acertou em cheio.
Sirius caiu de lado com um grunhido animal, curvando-se sobre si mesmo, as mãos entre as
pernas, os dentes trincados de dor.
- Tente isso de novo, Black, e vai perder mais do que a dignidade - rosnou, cuspindo no chão
e se afastando com passos pesados.
- Maldito... - sussurrou, com o gosto do beijo ainda na boca. - Eu vou te beijar de novo,
Snape. Nem que seja a última coisa que eu faça.
---
- Esbarrei num... problema - respondeu Sirius, lavando o rosto, ainda zonzo, ainda excitado,
ainda perdido.
- Você...?
Ele encarou o espelho, a marca roxa no maxilar e o desejo grudado na pele como perfume
proibido.
- Eu não vou parar.
Nota da Autora:
E aí está, minha gente! O round zero do apocalipse emocional chamado Snirius. Aquele
momento onde o ódio tropeçou no tesão, o orgulho caiu, e o beijo explodiu feito feitiço
proibido. Eles se socaram, se beijaram e - claro - um joelhinho bem colocado porque o
Severus pode se render, mas não sem antes deixar sua assinatura.
A porta do dormitório rangeu alto quando se abriu, ecoando pelas paredes frias das
masmorras como se protestasse contra a entrada daquele corpo desgrenhado e tenso.
Severus Snape entrou como um vendaval contido. O rosto estava marcado - um corte no
lábio, roxo perto da mandíbula, a túnica meio rasgada pendendo de um dos ombros. Cada
passo parecia impulsionado por uma fúria muda. Um frenesi silencioso.
Lançou a capa em direção à cadeira com brutalidade. Depois, afundou as mãos no próprio
cabelo e ficou ali - parado no meio do quarto - tentando respirar. Mas o ar parecia faltar.
Como se tivesse sido arrancado à força... por um beijo.
Tinha cedido.
Tinha gostado.
Uma risada amarga escapou de seus lábios. Curta. Seca. Quase um soluço engasgado.
A voz veio da cama à esquerda, preguiçosa e meio irônica, mas carregada de atenção.
Regulus Black.
Severus congelou. Depois, virou-se devagar. O mais novo dos Black estava recostado nos
travesseiros, com um livro aberto sobre as pernas e uma expressão que dançava entre o tédio
e a curiosidade. Os olhos cinzentos escanearam o estado deplorável do amigo - e franziram
levemente.
- O que foi dessa vez? - perguntou, mais calmo, fechando o livro. - Potter jogou uma
azaração pelas costas? Ou foi o meu irmão de novo?
Severus não respondeu. Caminhou até a pia, jogou água fria no rosto como se pudesse apagar
o incêndio sob a pele. O coração martelava no peito. A raiva girava junto com o desejo
reprimido, ambos se entrelaçando como serpentes venenosas.
Regulus continuou o observando de soslaio, mas não insistiu. Só disse, com a voz mais baixa:
- Você deveria revidar. Uma hora eles vão passar dos limites de verdade.
Severus se enxugou, encarando o espelho rachado. A imagem refletida era um borrão de
frustração. Ele se odiava por ter permitido aquilo acontecer. Por ter sido tocado. Por ter
gostado de ser tocado.
A tensão vazava pelos ombros, pelo maxilar travado, pelo modo como as mãos se apertavam
até ficar pálidas.
Regulus ergueu uma sobrancelha, mas não perguntou mais. Sabia quando Severus não queria
falar. Aprendera, com o tempo, a respeitar os silêncios pesados do amigo.
- Quer que eu pegue a pomada de cura da Madame Pomfrey? - ofereceu, num tom casual.
- Tenho a minha. - Severus se jogou na cama como se o colchão pudesse engolir sua
vergonha. Quis cavar um buraco e se enterrar ali. - E não é nada.
Regulus se levantou mesmo assim, caminhou até o baú, pegou um frasco de vidro âmbar e o
deixou na mesinha de cabeceira.
Severus fechou os olhos. Sentia o gosto do beijo. O cheiro da pele de Sirius. A força das
mãos. A ira misturada ao desejo. E o medo. Merda, o medo. O que ele faria se aquilo
acontecesse de novo?
- O quê?
- Que você vai parar de fingir que aguenta tudo. - Regulus cruzou os braços, encostado ao
vão da cama. - Você tem direito de quebrar, sim. Mesmo que só aqui, com alguém que não
vai usar isso contra você.
Só um pouco.
---
E Sirius Black. O mais bonito. O mais destemido. O que tinha nascido pra ser uma
tempestade com pernas.
Ou quase.
E o maldito estava trancado dentro dele, selado com sete feitiços de silêncio e um cadeado
direto no peito.
Ou melhor - Snivellus, como Sirius gostava de chamá-lo com escárnio. Seu inimigo jurado.
A escória sonserina. O meio-sangue azedo com ar de quem te envenenaria por diversão.
E mesmo assim... Sirius o tinha beijado. Com raiva. Com fome. Com desejo.
O fato era uma pedra na garganta. Um veneno que escorria nas veias. Um inferno que
começava a invadir seus sonhos.
Ele estava no salão principal. O teto encantado mostrava o céu da meia-noite - estrelado,
intenso. As mesas estavam vazias. Exceto por uma.
O cabelo escorria como tinta negra sobre os ombros. Os olhos ardiam. A boca - Merlin - a
boca parecia faminta.
Sirius se aproximou sem saber por que. As pernas iam por conta própria. O peito batia
descompassado, como tambor de guerra.
E então, Sirius o agarrou pela gola da túnica. Puxou. Esmurrou a boca dele com a própria. Os
dentes se bateram. As mãos de Snape escorregaram por sua cintura, afundaram nas costas,
cravaram as unhas.
Não havia raiva ali.
Tudo queimava.
Tudo.
Até-
- SIRIUS!
Estava deitado de bruços na mesa do café da manhã, a cara colada em uma tigela de mingau.
- Tá tudo bem? Você gemeu "Snape" dormindo - disse James, com as sobrancelhas
arqueadas. - Com força.
- O QUÊ?!
- É - confirmou Remus, franzindo a testa. - Você disse "isso, Snape", e depois mordeu a
colher.
Sirius queria morrer. Explodir. Fugir para o deserto e viver como um eremita.
- Era um pesadelo. - Disse, a voz rouca. - Snape me... me... perseguia com uma vassoura.
Pelado.
- Pior pesadelo que já ouvi - disse Potter. - Mas serve. Vamos fazer o Snivellus voar pelado
na próxima aula de DCAT. Brilhante.
Sirius riu. Ou fingiu que ria. Mas o gosto do sonho ainda estava na boca.
O gosto da língua de Snape.
O toque.
O gemido.
Mesmo sabendo que estava ferrado até a última fibra do orgulho Black.
---
Não que fosse novidade. Sirius Black vivia à beira do caos. Mas desta vez era diferente.
Snape com a túnica desajeitada, os dedos longos, os lábios entreabertos e o corpo tenso sob o
dele.
Snape, que ele odiava. Que ele desprezava. Que ele beijou.
"Foi só um momento. Tensão. Raiva. Acúmulo de hormônios. Tá tudo bem, Sirius. Você não
gosta do Snivellus. Ninguém gosta."
E é por isso que ele estava ali. Sentado em um canto qualquer da sala comunal da Grifinória,
com uma garota de cabelos cacheados e riso doce - Emily, da Lufa-Lufa, se lembrava
vagamente.
Emily era legal. Tinha uma risada fácil. Um perfume de flores. E olhos grandes que o
olhavam como se ele fosse um cometa prestes a passar.
Queria que o beijo apagasse a lembrança do outro. Queria que sua pele esquecesse o toque de
Snape.
E Severus entrou.
Ao lado de Narcisa, é claro - como sempre, os dois marchavam como sombras coordenadas.
E viram.
Narcisa, por outro lado, o encarou com um olhar afiado como uma lâmina. Ela entendeu.
Imediatamente. Olhou para Sirius. Depois para Severus. Depois de volta para Sirius.
E então puxou o amigo pelo braço e seguiu, como se não tivessem visto nada.
Viu a expressão de Snape se desfazer por um milésimo de segundo. Viu os ombros caírem.
Viu os olhos fugirem. Viu tudo.
Porque naquele momento, algo dentro dele quebrou de novo. E agora ele sabia:
Aquele beijo com Snape não tinha sido só raiva. Nem só desejo.
E agora, Snape achava que fora só uma brincadeira cruel. Uma provocação de Maroto.
E Sirius se odiava por isso.
---
Nota da autora —
Eu não tô bem. Aliás, alguém aqui tá? Porque se você leu esse capítulo e ainda consegue
respirar normalmente, parabéns: você é imune à tortura emocional. Eu não.
e 10% de mingau, porque a gente precisa manter o menino Black alimentado (mesmo que
ele esteja mais ocupado mordendo colher do que comendo de verdade).
Aliás, gostaria de dizer que ninguém nesse capítulo tomou decisões saudáveis. O beijo com
a Emily? Péssima ideia. Mentir pros amigos? Pior ainda. Mas a gente tá aqui pra isso, né?
Fanfic boa é fanfic que faz o leitor gritar com a tela.
🛏️
🧍🏻♂️: “Não sinto nada.”
: chora em posição fetal enquanto o Regulus dorme.
💋🧠
Sirius Black nesse capítulo:
: beija alguém aleatório
Se você, leitor, estiver sentindo raiva, vergonha alheia, vontade de bater nos dois E de
protegê-los com um cobertor… parabéns, você entendeu perfeitamente a vibe da fanfic.
Próximo capítulo? Talvez uma briga. Talvez mais beijos. Talvez um duelo de varinhas com
tensão sexual. Quem sabe, né? Eu não mando mais em nada.
O pátio estava silencioso, banhado pela luz pálida da lua que escapava pelas janelas altas. O
vento dançava por entre as folhas secas que se acumulavam no chão de pedra. Severus Snape
estava ali, parado como uma estátua, braços cruzados, expressão impassível. Mas por dentro,
era só ruído.
Ele viu. Viu Sirius Black encostar a testa na da lufana, sorrir de um jeito que ele nunca sorrira
pra ele. Viu o beijo. Viu as mãos, o toque, a entrega fácil.
E odiou.
- Então é isso que anda te corroendo? - disse uma voz suave às suas costas.
Severus se virou devagar, já sabendo quem era. Narcisa Black caminhava com a elegância
silenciosa de um felino, braços cruzados, olhos fixos nele como se o lesse por dentro.
- Me corroendo? - ele arqueou uma sobrancelha, seco. - Por que eu estaria me corroendo?
- Ah, não sei - ela se encostou no arco de pedra, estudando-o. - Talvez porque você quase
esmagou a pena de escrever quando viu meu primo beijando aquela garota da Lufa-Lufa. Ou
talvez porque você ficou branco feito pergaminho envelhecido. Ou porque você saiu dali
parecendo que tinha levado um Avada no estômago.
- Estou apenas sendo honesta. - Narcisa se aproximou mais, baixando o tom. - O que foi
aquilo, Sev?
Ele se calou. A mandíbula travada, os olhos fixos num ponto qualquer do pátio, como se
desejasse evaporar dali.
- Porque olhar pra ele me dá náusea - respondeu enfim, amargo. - Porque ele representa tudo
que eu odeio. Sangue-puro mimado, mimetizando rebeldia com uma capa de couro e frases
prontas. Porque ele é barulhento, inconsequente, idiota... e ainda assim, todo mundo olha pra
ele como se fosse Merlin encarnado.
Ele a encarou, surpreso com a acusação, mas não havia indignação nos olhos dela - só uma
compaixão silenciosa.
- Tudo bem. - Ela se virou. - Continue fingindo que é ódio, se isso for mais fácil. Mas
cuidado com esse tipo de mentira... às vezes ela cola tão bem que até você esquece a verdade.
Severus ficou parado, o peito pesado, o vento gelado fazendo cócegas nas bochechas quentes.
Mentiras coladas à pele. Orgulho cravado na carne. E o gosto amargo de um beijo que jamais
deveria ter acontecido - e que ele desejava mais do que tudo repetir.
---
Severus estava sentado no pátio dos fundos, o livro aberto no colo e a mente mil quilômetros
distante. As palavras flutuavam diante de seus olhos sem fazer sentido. Não depois da cena
que vira no dia anterior.
Sirius.
Com aquela garota da Lufa-Lufa.
O beijo.
O toque
O sorriso fingido.
- Você tem razão - disse uma voz atrás dele, rouca, grave, e cheia de raiva.
Severus congelou.
Sirius Black. Mais bagunçado do que o normal, com os cabelos em revolta e os olhos
sombrios.
- Razão sobre o quê? - Severus disparou, afiado.
- Que sou um tolo. Um idiota completo - ele se aproximou. - Porque achei que beijar outra
pessoa apagaria... isso.
- Isso?
- Engraçado. Porque do meu lado, parecia só mais uma brincadeira cruel de um maroto
entediado.
- Claro que foi! - Severus se levantou de um salto. - Beija-me num corredor e no dia seguinte
está lambendo os beiços de uma Lufana qualquer? Você brinca com tudo, Black. Até com
pessoas.
- Eu não brinquei com você - Sirius disse, a voz mais baixa agora, quase um sussurro. -
Aquilo me assustou.
- E o que você faz quando se assusta? Corre pra primeira garota disponível?
- Pelo menos ela não me olha como se eu fosse um monstro. Como se tudo que faço fosse
nojento.
- Eu te odeio - Severus disse, sem convicção. - Eu odeio tudo em você. A sua arrogância, a
sua covardia, esse seu cabelo irritante...
E então ele o beijou. Ou Sirius o beijou. Ou talvez os dois avançaram juntos, colidindo como
cometas em rota de destruição.
Era só eles.
A boca de Sirius mordia a de Severus como punição, e Severus respondia como se estivesse
se vingando do mundo inteiro. Os lábios inchavam, os suspiros escapavam sem permissão, os
olhos ardiam fechados.
- Isso... não devia ter acontecido - Severus disse, mas a voz falhou.
Deixando Severus ali, com o gosto de Sirius nos lábios e o coração em frangalhos.
---
A sala comunal da Grifinória estava envolta numa penumbra quente, acesa apenas pelas
chamas preguiçosas da lareira. Era fim de noite, os corpos cansados se espalhavam pelos
sofás como livros lidos pela metade.
Sirius entrou em silêncio, os passos leves demais para quem sempre fazia questão de ser o
centro das atenções. A jaqueta ainda cheirava a vento e indecisão. Os lábios ardiam. E não
por causa do frio.
- Sirius! - A voz de James Potter veio alta e eufórica, como se não tivesse dormido a semana
inteira. - Cara, você não vai acreditar! Ela disse sim!
- Ela quem? - Sirius jogou-se num sofá, forçando um sorriso. Já sabia a resposta.
- Ela, Sirius. Lily. Evans. A ruiva mais brilhante que já pisou em Hogwarts, a deusa da nossa
geração, a-
- Tá, tá, já entendi - interrompeu, tirando os sapatos com um suspiro. - Você finalmente
convenceu a pobre garota a se render ao seu charme questionável.
- Convenci? Meu caro amigo, ela se apaixonou por mim. Isso aqui, ó - James apontou para o
próprio rosto - isso é irresistível.
Sirius riu, um som curto e sem vida. Por dentro, tudo doía. O gosto ainda estava na boca. A
pele, sensível demais onde Severus o havia tocado. O perfume sutil de poções ainda
impregnado em sua memória olfativa.
James continuava:
- Ela me disse que adorava meu jeito engraçado. Que eu era corajoso. Que achava bonito
como eu tratava os amigos. Que... sei lá, que havia algo em mim que ela nunca viu nos
outros.
Sirius piscou, meio entorpecido. Os cabelos ruivos de Lily não ocupavam espaço na sua
mente.
O que invadia seus pensamentos era outro tipo de cor: preto como tinta fresca, como pena
molhada, como noite sem estrelas.
- A gente vai sair no sábado - James continuava. - Talvez dar uma volta nos arredores de
Hogsmeade. Ela gosta de lugares tranquilos, sabia?
"Será que Severus também gosta de lugares tranquilos?", pensou, antes de se odiar por isso.
Seus olhos viam James, mas sua mente revia o beijo - aquele beijo - que não devia ter
acontecido. O gosto amargo de poção nos lábios, o calor de mãos magras apertando sua
camisa, a raiva misturada com necessidade.
- Cara, eu juro que ela é perfeita. Ela me entende, sabe? A gente fala sobre tudo. Ela me
ouve. E os olhos dela quando sorri? Merlin... parece que brilham. Brilham mesmo.
Ele tentava imaginar olhos verdes. Mas o que vinha eram olhos negros. Penetrantes.
Sarcásticos. Feridos.
O silêncio voltou por um instante, confortável para James. Desconfortável demais para
Sirius.
- Você acha que... - James hesitou, meio sem jeito. - Que eu tô me jogando demais? Que tô
vendo mais do que existe?
Sirius finalmente o encarou.
- James, você está apaixonado. Não existe dose certa pra isso. Você só... sente. E reza pra não
explodir por dentro.
James sorriu, convencido, não entendendo que aquela resposta tinha vindo de um lugar
escuro dentro de Sirius.
E naquele momento, enquanto James delirava sobre a ruiva dos sonhos, Sirius se afundava no
sofá e pensava apenas em uma coisa:
"Eu beijei Severus Snape pela segunda vez . E quero fazer isso de novo."
---
✨ Nota da Autora ✨
Ou: como é que eu vim parar nesse beco escuro entre um grifinório emocionalmente
disfuncional e um sonserino que odeia o próprio reflexo.
Eu só queria escrever umas coisinhas leves, sabe? Um feitiço aqui, uma troca de farpas ali...
Mas aí Sirius beijou Snape. E Snape respondeu. E de repente estou presa num romance
proibido alimentado por raiva, orgulho ferido e beijos que deveriam ser crime contra o
Estatuto da Magia Razoável.
Aqui estou, entre sussurros no pátio, lareiras acesas e sentimentos que queimam mais que
feitiço de fogo.
Se você também está com o peito apertado, os joelhos fracos e a vontade de dar um tapa em
cada um desses dois idiotas apaixonados...
Parabéns. Você está no lugar certo.
Preparem-se: a tensão vai subir, as máscaras vão cair e ninguém sai ileso desse feitiço
chamado Snirius.
Porque aqui não tem final feliz garantido - mas tem beijo mordido, sarcasmo venenoso e dor
bonita de ler.
— Biblioteca? — Sirius bufou como se alguém tivesse sugerido uma excursão guiada à sala
da Umbridge. — Remus, isso é sério? É sábado!
— Você prometeu que ia estudar. Ou pelo menos fingir que sabia onde ficam os livros —
respondeu Remus, arrastando Sirius pelos corredores como um pai paciente com um filho
que acabara de comer açúcar demais.
— E chantagem da McGonagall.
— Isso também.
O cheiro de pergaminho velho e tinta fresca bateu em Sirius como uma maldição leve, mas
persistente. O tipo de cheiro que dizia: "Aqui, a diversão morre."
Lá no fundo, numa mesa cercada por livros e uma leve nuvem de desespero acadêmico,
estavam James — com pose de intelectual fingido — e Lily Evans, que lia com a
concentração de quem podia derrotar Voldemort com um olhar se ele interrompesse o estudo
dela.
Peter, por sua vez, disfarçava um biscoito entre as páginas de um livro grosso sobre criaturas
mágicas que ele provavelmente achava que eram nomes de sobremesas.
— Achei que nunca ia chegar — disse James, lançando um olhar cúmplice para Sirius antes
de voltar a encarar Lily como se ela fosse um feitiço recém-descoberto.
— Protesto indeferido — respondeu Lily, sem desviar os olhos da página, mas com um
sorriso que traía diversão.
E então aconteceu.
Ele apareceu.
Conversando.
Sorrindo.
Sorrindo.
— Não. — Sua voz saiu num sussurro carregado de repulsa. — Não, não, não.
— Não importa! — Sirius mordeu o lábio. — Por que Regulus tá... encostando nele? Por que
Snape tá sorrindo? Snape não sorri! Ele amaldiçoa, insulta... e cheira a óleo de caldeirão. Mas
sorrir?
— Tá incomodado porque o seu irmãozinho príncipe das trevas resolveu socializar com o
mascote da masmorra?
— Eu não gosto dele! É por isso que é estranho! Ele normalmente só respira, estuda e ignora
minha existência. E agora tá... tocando no Snape? Em público? Com afeição?
Lily, até então em silêncio, finalmente ergueu os olhos do livro. Não pra rir.
— Vimos.
Lily fechou o livro com mais força do que o necessário, o maxilar travado.
Silêncio.
Todos sabiam da Grande Briga™ entre ela e Snape no terceiro ano. Ninguém sabia os
detalhes, mas os boatos envolviam insultos, lágrimas, e uma poção capilar que quase virou
maldição permanente.
Sirius estava agradecido pela distração, até ver — de novo — Snape inclinando-se pra
sussurrar algo no ouvido de Regulus, provocando uma risadinha.
Risada. De novo.
— Ridículo — rosnou.
— Um dia você também vai encontrar alguém pra abraçar em silêncio na biblioteca, Sirius.
— Vai pro inferno, Remus.
— Com prazer. Mas não antes de ver como essa novela vai acabar.
Todos riram.
Menos Sirius.
Ele estava — contra toda lógica e orgulho grifinório — muito mais interessado no motivo
pelo qual o sorriso de Severus Snape ainda morava tão fundo na sua memória.
---
A biblioteca já estava esvaziando quando Sirius se levantou tão abruptamente que quase
derrubou a cadeira.
Sirius ignorou. Suas pernas se moveram como se puxadas por um fio invisível, direto até o
fundo da biblioteca, onde sabia que eles estariam. E estavam.
Sem pensar, Sirius atravessou o espaço e se apoiou na parede ao lado da estante como um
predador disfarçado.
— Que cena tocante — disse em voz baixa. — Agora você cuida do meu irmãozinho
também, Severus?
— Sirius.
— Regulus.
Silêncio.
— Eu só vim ajudá-lo com Runas Antigas — respondeu Severus, impassível. — Não que
isso seja da sua conta.
Regulus resmungou algo e deu dois tapinhas no ombro de Snape antes de se afastar, como se
pressentisse a tempestade.
Sirius avançou. Antes que Severus pudesse reagir, ele já o empurrava com o corpo para uma
alcova estreita entre duas estantes.
— Você não manda em mim. Nem nele. — Severus falou firme, mas os olhos arderam.
— Vai me dizer que não gosta disso? — Sirius encostou o rosto, voz baixa. — Porque das
duas vezes que a gente se beijou, você parecia gostar muito.
— Foram dois erros. Um no corredor. Outro no jardim. E nenhum deles pareceu tão errado
assim na hora.
— Você é ridículo.
— Me faz sair.
Os dois ficaram ali, tão próximos que a tensão parecia eletrificar o ar.
Até que passos ecoaram, e os dois se separaram como se tivessem sido atingidos por um
feitiço.
---
Chapter 7: Lição 7
O cheiro de beladona cozinhando enchia a masmorra com uma doçura enjoativa que grudava
na garganta feito culpa mal digerida.
Severus mantinha os olhos fixos no caldeirão, mexendo em sentido horário com a precisão de
um cirurgião e a frieza de um executor. Ao seu redor, o murmúrio abafado da aula de Poções
se misturava ao tilintar de frascos e colheres.
Ele não olhava para o fundo da sala. Não precisava. Sabia que eles estavam lá. Sabia
que ele estava lá.
Ploc.
Algo acertou a parte de trás da sua cabeça. Leve. Insignificante. Uma bolinha de pergaminho.
Risos abafados pipocaram atrás dele. Potter engasgou em alguma piada que Remus fingiu
ignorar. Pettigrew deu uma risadinha histérica. E Sirius... Sirius Black não riu. Ele só o
olhava.
Snape não se virou. Pegou a bolinha do chão com uma expressão ilegível, desdobrou com
cuidado - como se temesse que ali dentro houvesse um feitiço explosivo ou uma maldição
antiga.
A tinta ainda parecia fresca. Como o gosto que Severus lembrava da última vez.
Ele amassou o papel com um estalo dos dedos e o enfiou no bolso do manto com a mesma
elegância que jogaria uma adaga.
Já tinha se rebaixado o suficiente no último encontro - tremendo por dentro, olhando Sirius se
contorcer de ciúmes por algo tão trivial quanto uma conversa com Regulus.
Regulus.
Regulus que era um dos poucos amigos verdadeiros. Regulus que o ouvia. Que o respeitava.
Que jamais o olharia com desprezo por ser um meio-sangue. Regulus que, apesar de todo o
veneno da família, ainda era leal. Ainda era... constante.
Não. Ele não iria. Não dessa vez. Que Sirius engolisse o próprio bilhete e morresse sufocado
com o próprio orgulho.
E ainda assim, quando o relógio bateu 22h55, Severus já estava no corredor. Roupas secas,
varinha nos bolsos, passos silenciosos, coração em descompasso.
Estava escuro, úmido. As velas encantadas flutuavam baixo, lançando sombras longas sobre
as plantas exóticas e seus espinhos perigosos. O ar era pesado de perfume e antecipação.
Sirius estava encostado na bancada, braços cruzados, camisa aberta no colarinho, gravata
frouxa. Como se tivesse passado o dia inteiro esperando por aquilo. Por ele.
- Pensei que não viria - disse, a voz rouca demais para parecer casual.
Sirius deu um passo. E outro. Até que seus corpos quase se tocassem. O cheiro de terra
molhada e suor jovem os envolvia como uma maldição. Os olhos de Sirius estavam quentes.
Intensos. Insuportáveis.
- Por que você me olha assim? - Severus murmurou, com a voz falha de raiva e desejo.
- Porque ninguém me olha como você olha - Sirius respondeu, a mão indo parar no rosto do
sonserino. Os dedos ásperos no queixo, puxando-o para perto. - Nem Regulus.
Severus desviou o rosto, mas Sirius foi mais rápido, colou a boca na dele com uma fome
crua, selvagem. O beijo não pedia permissão. Rasgava. Exigia.
E Severus... cedeu.
Com um grunhido abafado, empurrou Sirius contra a bancada, as mãos cravando nos cabelos
negros, os corpos colidindo como duas tempestades. As bocas se mordiam. As línguas se
desafiavam.
- Você acha que sou seu brinquedo? - Severus arfou entre beijos, com os lábios inchados. -
Que pode me chamar e eu venho correndo?
A bancada foi invadida. Severus foi erguido com força, pernas entrelaçadas nas costas do
grifinório, e ali, entre folhas úmidas e flores venenosas, eles se esqueceram do mundo.
Cada toque era uma promessa quebrada. Cada gemido abafado, uma confissão que não se
podia dizer em voz alta.
Quando os corpos se afastaram, ainda ofegantes, ainda suados e machucados pelas próprias
urgências, Severus o empurrou com raiva e prazer.
- Eu sei. - Sirius sorriu. - Mas você só diz isso depois que goza.
Silêncio.
---
Odiava cada lembrança grudada nas paredes da Sala Precisa, cada gemido abafado por
feitiços de silenciamento, cada marca no pescoço que ele depois escondia com gola alta e
sarcasmo.
Arrancaria Sirius Black do sistema. Nem que pra isso tivesse que abrir as próprias entranhas
e vomitar o desejo. Nem que pra isso tivesse que ser fodido com tanta força que esquecesse o
próprio nome. Nem que fosse a última vez.
A Sala surgiu como um reflexo do que Severus queria negar: escura, úmida, cravejada de
velas flutuantes, e uma cama de dossel com lençóis vermelho-sangue - debochadamente
grifinórios.
- Nós vamos transar. - Sua voz saiu baixa, cortante, decidida. - E vai ser a primeira e a última
vez.
Severus o agarrou pela gola e o beijou como se quisesse apagar aquele sorriso da existência.
Foi um beijo sujo, com gosto de raiva e desejo represado, línguas se chocando com violência,
dentes raspando, mãos apertando demais.
Sirius respondeu com o corpo inteiro. Puxou Severus com força até a cama, empurrou-o no
colchão como quem lança um feitiço, subiu por cima dele num movimento instintivo e
quente.
- Vai ser do meu jeito - ele sussurrou, já abrindo os botões da camisa de Severus com os
dentes. - Você quer tirar o mal pela raiz? Eu sou essa maldita raiz.
E antes que Severus pudesse responder, Sirius afundou a boca no pescoço dele, chupando
forte, marcando, arrancando um gemido que Severus odiou dar.
As roupas desapareceram com pressa e magia. E então estava nu, deitado, com Sirius entre
suas pernas - as mãos fortes segurando suas coxas, abrindo caminho sem cerimônia.
Severus tremeu.
Sirius sorriu contra sua barriga, a língua traçando uma linha quente até o centro da tensão.
E estava mesmo. Desesperado, duro, sensível demais sob os dedos de Sirius que sabiam
exatamente onde tocar, onde pressionar, onde provocar.
O preparo foi rápido, eficiente. Sirius usava os dedos com destreza, cada movimento
arrancando mais do que Severus queria admitir. E quando finalmente se posicionou, os olhos
fixos nos dele, Severus segurou o lençol com força.
O encaixe foi fundo, forte, quente. Um estalo de prazer e dor que tirou o ar de Severus por
um segundo. Ele arfou, os olhos arregalados, as pernas ao redor da cintura do grifinório,
puxando-o mais.
Sirius se moveu com ritmo e intenção. Cada estocada fazia a cama ranger, a pele bater contra
pele, o suor escorrer entre os corpos. Ele o segurava com força, beijava sua boca e depois a
mordia, dizia coisas sujas ao pé do ouvido, chamava Severus de meu, meu, meu, e Severus -
miseravelmente - deixava ser.
Parecia o auge de uma queda. O momento em que o corpo se entrega de vez, mesmo que a
mente grite não.
- Cala a boca - Severus respondeu com dificuldade, os olhos virando com o prazer que ele já
não conseguia esconder.
- Com tudo o que sou - Severus respondeu - agora me faz esquecer quem sou.
E Sirius obedeceu.
Até que Severus gozou com um gemido longo, tremendo, a cabeça jogada pra trás.
Sirius veio logo depois, enterrado até o fim, gemendo baixo, apertando Severus como se
quisesse deixá-lo eternamente marcado.
Silêncio.
Severus saiu da cama primeiro, se vestindo com feitiços secos e silenciosos. Não olhou para
trás.
--
Nota da Autora
Essa foi a vigésima quinta vez. VIN-GÉ-SI-MA QUIN-TA. E se você acha que a vigésima
😏
sexta não vem aí, é porque nunca teve um ex que sabe usar a língua (de forma ofensiva e
de outras formas também, né... ).
A autora gostaria de dizer que esse capítulo foi escrito com a cara toda vermelha, uma
garrafa d'água do lado, e um grito entalado no peito. Porque Snirius não é só um casal - é
uma maldição coletiva. E a gente ama sofrer com classe.
Atualmente
Era uma terça-feira como qualquer outra. Aquelas que chegam cinzentas e parecem prometer
nada — e, ainda assim, derrubam tudo.
Na aula de Poções, Severus Snape estava mais calado que o normal, e isso já dizia muito.
Mexia sua poção com a precisão clínica de sempre, os olhos fixos no líquido que borbulhava
em tons esmeralda. Mas a tensão nos ombros, o maxilar travado e a forma como os dedos
seguravam a colher denunciavam que algo o corroía por dentro.
Do outro lado da sala, os risos de James, Peter e Remus ecoavam num volume irritante, como
mosquitos zombeteiros no ouvido.
— Olha só, Moony — disse James em tom de piada. — Aposto que se colocarmos um fio do
cabelo do Snape na poção, ela se transforma em um antídoto contra o amor.
Severus não se virou. Apenas parou de mexer a poção por um segundo. O suficiente para sua
expressão se fechar numa máscara de gesso. Depois continuou como se nada tivesse
acontecido — mas seu corpo todo gritava.
---
Esperou mais.
Seu corpo vibrava num tipo estranho de inquietação, como se soubesse que o silêncio
daquela estufa escondia uma ausência definitiva.
Quando deu 23h40, ele sussurrou um feitiço patrono, mandando uma luz prateada na direção
das masmorras.
Sem resposta.
Na manhã seguinte, o clima do castelo parecia ter absorvido a raiva mal resolvida que pairava
no ar. O céu despejava uma chuva fria e fina, que batia nos vidros do Salão Principal com a
melancolia de uma sinfonia triste.
Sirius, que costumava brilhar como um sol desordeiro, estava quieto, o rosto levemente
abatido, os olhos cansados.
O sonserino atravessava o Salão com sua típica capa preta ondulando atrás, o rosto
impassível. Mas havia algo... diferente.
---
Sirius tentou alcançá-lo nos corredores. Esperou ele sair da aula de Runas.
Nada.
Severus parou.
Virou-se.
Mas havia algo ali... algo quebrado, que Severus estava lutando para esconder.
— O que foi agora? — ele perguntou. — Veio repetir a piada dos seus amigos? Ou veio me
chamar de algo novo?
— Claro que não — respondeu Snape, ríspido. — Porque você nunca leva nada a sério. Nem
a mim.
O corredor congelou.
— Espera. Namorado?
A palavra saiu tropeçada. Como se tivesse sido conjurada acidentalmente e ele quisesse
enfiá-la de volta na boca.
Sirius hesitou. A boca abriu, depois fechou. Os olhos buscaram uma resposta que não estava
pronta para sair.
Mas “namorados”?
Virou-se.
— Você só me procura no escuro, Black. — A voz dele cortou como lâmina. — Mas sabe o
que é pior do que ser um segredo?
Ficou parado.
No meio do corredor.
Sozinho.
Com a palavra "namorado" ecoando na cabeça como uma maldição que ele mesmo criou.
---
“Me desculpa.”
Rasgou.
Mentira. Porque no fundo, ele sabia que não fazer nada era uma escolha também.
---
Na manhã seguinte ao caos emocional que havia engolido Sirius Black e Severus Snape, uma
mudança inesperada sacudiu Hogwarts. Um novo aviso foi pregado no quadro da torre da
Grifinória: "Alteração na grade de aulas. A partir de hoje, as turmas de Grifinória e Sonserina
do sétimo ano terão aulas conjuntas de Transfiguração."
Sirius encarou o aviso como se fosse uma sentença de Azkaban. Remus soltou um assobio
baixo, enquanto James e Peter gargalhavam.
— Imagina a cara do Snivellus quando descobrir que vai ter que dividir bancada com a gente
— disse James, já com um brilho travesso nos olhos.
Sirius não respondeu. Seu humor estava instável desde a noite anterior, quando Severus não
apareceu no encontro marcado. E pior: naquela manhã, ao cruzar com o sonserino no
corredor, Severus passou por ele como se fosse invisível. Como se todo o sentimento entre
eles nunca tivesse existido.
McGonagall olhou para eles como quem analisa uma coleção de sapos indisciplinados.
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que se podia ouvir o ranger das tábuas do chão.
Sirius olhou em choque para Narcisa, que o encarava com frieza imperial. Lily, que estava ao
lado, cerrou os punhos discretamente ao ouvir o nome de Severus.
— Vocês vão se dividir em grupos de sete — continuou McGonagall, agora com a voz mais
firme que o ferro da espada de Godric. — Trabalhem juntos, mesmo que isso pareça um
sacrilégio.
Sirius sentiu o ar pesar ao seu redor. Estar naquele grupo, ao lado de Severus, Narcisa e Lily...
era como estar em meio a uma tempestade prestes a explodir. E, sinceramente, ele nem sabia
se queria sobreviver a isso.
— Então, Snivellus, parece que vamos dividir o mesmo ar por um tempo — disse Sirius,
tentando enfiar um pouco de provocação no tom, mas falhando miseravelmente porque o
nervosismo já lhe apertava o peito.
Severus ergueu os olhos, tão frios quanto uma noite sem lua.
Narcisa cruzou os braços, observando a cena com aquele olhar de quem guarda segredos que
podem explodir a qualquer momento. Lily, porém, não recuou.
— Vamos focar no projeto, pessoal — disse, a voz firme como um feitiço bem lançado. —
Isso é para o bem da casa e do nosso futuro. Que ninguém esqueça disso.
— Olha, eu sei que tá complicado, mas temos que fazer isso funcionar. A gente não quer
repetir a última briga que quase destruiu metade do castelo, né?
— Se fosse só isso... — resmungou Sirius, mas não podia negar: havia um fio tênue de
esperança naquele conselho do amigo.
Enquanto começavam a organizar o trabalho, um clima pesado pairava no ar. Cada palavra,
cada olhar, carregava histórias mal resolvidas, rancores velados, e um desejo — talvez
proibido — de algo mais.
A aula de Transfiguração daquele dia não foi apenas sobre transformar objetos, mas sobre
transformar corações em guerra. E, no meio daquele caos controlado, Sirius e Severus
estavam prestes a descobrir que, às vezes, o impossível pode nascer da colisão do fogo com o
gelo.
--
Trinta minutos.
— Já que o destino resolveu nos castigar com esse projeto em grupo, acho que... sei lá...
devíamos tentar nos dar bem. Pelo bem das notas, pelo menos.
Ele olhou direto para Sirius, que continuava encarando Severus como se o que existisse entre
eles fosse muito mais do que desprezo. E era. Mas ninguém sabia.
— Pelo menos os sonserinos servem pra alguma coisa — comentou James, com aquele
sorrisinho idiota. — Eles fazem o trabalho todo e a gente só assina.
Sirius riu. Um som curto, seco, absolutamente sem graça. Mas ninguém percebeu — só
Severus. E aquilo queimou.
Lily desviava o olhar, desconfortável. Desde o fim da amizade com Severus, estar na mesma
sala que ele — ainda mais com Narcisa ao lado — era como reviver uma ferida mal fechada.
E pra Severus, ver Lily com James era só mais uma humilhação.
— Já deu pra mim — Severus disse, se levantando. — Vou pra biblioteca. Alguém tem que
fazer esse trabalho, já que a inteligência passou longe da Grifinória.
James riu.
— Deixa ele em paz — Narcisa se meteu, a voz afiada. — Para de brincar com o que você
não entende, Sirius.
— Calma, Cissa — ele disse, com deboche. — Eu realmente quero tirar uma nota boa.
Severus hesitou. Mas no fundo, ele sabia o que aquilo era. Sabia que Sirius queria mais que
páginas de pergaminho.
— Fala comigo. — A voz saiu rouca, urgente. — Você finge que eu não existo. Não olha na
minha cara...
— Porque já conversamos tudo o que tinha pra ser dito — Severus retrucou, frio.
— Acha mesmo que foi só isso? Que acabou? Eu... eu quero você, caralho.
— Porra, Sev...
— Se lembra da nossa primeira vez? Aquela devia ter sido a única. Mas a gente continuou. E
agora olha pra gente.
— Foi destrutivo. — Severus sussurrou, a respiração já pesada. — Você fingia que nada
existia quando seus amiguinhos estavam por perto. E eu me iludi. Achei que era mais.
— E era. É.
Mas antes que Severus pudesse responder, Sirius o puxou pela nuca e o beijou com força. Um
beijo de raiva e vício, de saudade misturada com ódio. Línguas brigando, dentes raspando,
mãos invadindo. Era feio. Era urgente. Era viciante.
Severus gemeu contra a boca dele, e Sirius o empurrou mais contra a parede, pressionando o
quadril. Ele sentiu o pau duro de Sirius roçando contra ele, esfregando, pedindo passagem.
— Você sente falta — Sirius sussurrou, os lábios sujos de saliva. — Fala que não.
— Vai se foder — Severus rosnou, mas já estava abrindo o fecho da calça dele.
— Tarde demais.
Severus soltou um gemido baixo. Aquela sensação — a língua dele, os lábios firmes, a forma
como Sirius chupava como se aquilo fosse a única coisa que importava — era desesperadora.
Ele segurava os cabelos de Sirius com força, os quadris começando a se mover por impulso.
Sugou com ainda mais vontade, lambendo toda a extensão, subindo, descendo, engolindo
gemidos, gemendo junto. A intensidade era quase insuportável. E quando Severus gozou,
ofegante, puxando os fios escuros com força, Sirius engoliu tudo e se levantou com os olhos
queimando.
— Me diz que você não queria isso — disse, encostando a testa na dele.
Severus não disse. Ao invés disso, meteu a mão dentro da calça de Sirius e começou a
masturbá-lo com força, com raiva. Queria que ele gemesse, que perdesse o controle, que
sentisse o mesmo caos que ele sentia. Os beijos eram mais violentos agora, misto de prazer e
ódio, dentes batendo, respiração errática.
Sirius gozou com um gemido abafado na curva do pescoço de Severus, o corpo colado ao
dele como se não soubesse mais se afastar.
E por um momento, ficaram ali. Suados, ofegantes, sujos. Ainda assim, mais reais do que
qualquer conversa sobre Transfiguração.
De novo.
E Sirius ficou sozinho, com o pau ainda sensível, o coração espremido e o gosto de Severus
queimando na língua.
---
Nota da Autora:
E é assim, queridos leitores, que Sirius Black descobre que abrir a boca na hora errada
pode custar mais caro do que um sapato novo no Beco Diagonal. Entre beijos que
queimam e mágoas que gelam, nosso lobo rebelde e nosso morcego favorito continuam
nesse jogo perigoso de “eu te odeio, mas não consigo parar de te querer”. Próximo
🔥💚
capítulo? Prometo mais caos, mais tensão e, quem sabe, uma faísca de reconciliação...
ou mais lenha nessa fogueira que já tá quase incendiando Hogwarts.
Chapter 9: Lição 9
Dois dias.
Foi o tempo que Severus Snape levou para erguer muros de gelo entre ele e Sirius Black.
Olhares cortantes, respostas monossilábicas, ausência total de brechas. Nas reuniões do grupo
para o maldito projeto de Transfiguração, as discussões viravam um ritual. Severus contra
James. James contra Severus. E Sirius no meio, como se a neutralidade fosse possível — e
como se a defesa automática a James não doesse ainda mais em quem o conhecia debaixo das
vestes.
— Você é mesmo previsível — Severus cuspiu na última reunião, saindo da sala com as
vestes rodando atrás de si.
Sirius ficou ali parado, o maxilar trincado e os punhos fechados. Remus suspirou. Peter
tentou mudar de assunto. James riu como quem não entendeu nada. E talvez não tivesse
mesmo.
Mas Sirius estava farto. De fingir que não ligava. De fingir que não sentia. De não saber o
que fazer pra consertar o que quebrou com as próprias mãos.
E foi assim que, numa tarde qualquer, meio perdido pelos corredores de Hogwarts, ele
avistou Lily sozinha na torre da Grifinória, com um livro aberto no colo e a testa franzida de
concentração. Sirius respirou fundo, se aproximando com aquele andar despreocupado que só
enganava quem não o conhecia.
— Ei, Evans.
— Não. É sério. Tipo... se um cara... idiota, meio babaca, tivesse magoado alguém legal, o
que ele devia fazer pra essa pessoa nunca mais esquecer dele?
— Não é pra mim! — ele rebateu rápido demais. — É pra um amigo. Um cara meio tímido,
reservado... mas ele fez uma cagada.
— Um amigo — Lily repetiu, cruzando os braços com escárnio. — Entendi. Um amigo que
por acaso tem cabelo bagunçado, fala alto e não sabe lidar com sentimentos?
— Talvez.
— Faz alguma coisa que ele nunca esqueceria. Não precisa ser grandioso. Precisa ser
honesto. Real. Que toque onde ninguém mais tocou.
Lily ficou olhando ele sumir escada abaixo, uma sobrancelha arqueada, mas um leve sorriso
nos lábios.
Mais tarde, no dormitório, encontrou Marlene sentada na cama com um pacote de doces
roubado da cozinha e as pernas cruzadas como uma esfinge entediada.
— Alguém apareceu com cara de que tá prestes a fazer fofoca — Marlene disse, mordendo
um caramelo.
— O quê?
— Disse que “um amigo idiota” magoou alguém legal e queria saber como fazer pra não ser
esquecido.
— Sério? — Lily arqueou a sobrancelha, rindo. — Achei que vocês tinham terminado se
odiando.
— Quem mais seria? — Marlene sorriu com aquele ar petulante que só ela conseguia. — Ele
nunca superou a última vez que transei com ele no vestiário de Quadribol. Ficou semanas me
seguindo com cara de cachorro sem dono.
— Sirius Black sendo sentimental? — Lily ironizou. — Tá mais fácil Severus Snape pedir
desculpas pro James.
— Amor e ódio andam de mãos dadas, Evans — disse Marlene, piscando. — E Sirius nunca
sabe o que sente. Só sente. E com intensidade.
As duas riram juntas, cada uma acreditando em uma versão diferente da verdade.
Enquanto isso, no outro lado do castelo, Sirius andava em círculos dentro da sala precisa. A
ideia martelava na cabeça como um feitiço incômodo. Fazer algo marcante. Algo que Severus
não esquecesse. Algo que fosse mais que toque — que fosse lembrança cravada na pele.
Porque se Severus não queria olhar pra ele, Sirius daria um motivo pra ele não conseguir
parar de olhar.
Nem de lembrar.
E ele faria isso do único jeito que sabia: com o corpo. Com a pele. Com a língua. Com o
caos.
---
Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Sirius Black havia contado cada
segundo como um condenado no corredor da morte. Mas ao contrário do que o nome sugere,
ele não temia morrer — ele temia não conseguir reconquistar o único garoto que o fazia
perder o juízo de um jeito bom.
Era sábado. Céu azul e ensolarado demais para o humor do sonserino que Sirius pretendia
impressionar. A partida entre Grifinória e Sonserina prometia sangue e suor, e Sirius estava
determinado a adicionar lágrimas — preferencialmente de emoção — à mistura.
Ele sabia que Severus Snape estaria lá. Por causa de Regulus. E não, ele não tinha stalkiado o
ex. Só observava. Com atenção. E alguma obsessão. Mas com dignidade — ou o que restava
dela.
Snape costumava se sentar no canto mais alto das arquibancadas, um livro aberto no colo
como escudo emocional, e os olhos negros de esguelha no irmão mais novo. Era quase triste.
Quase fofo. Quase… impossível de ignorar.
Sirius saiu do campo como quem vai à guerra. Subiu sorrateiramente até a cabine de
transmissão, desviou de um monitor distraído, e roubou o microfone com a mesma destreza
com que roubava corações (embora com mais nervosismo).
— Eu… com toda a pouca vergonha na cara que tenho — começou, a voz amplificada
ecoando por todo o estádio. — Quero pedir desculpas. Porque às vezes a gente só percebe
que estragou tudo quando é tarde demais. E mesmo assim, mesmo sabendo que talvez eu não
mereça outra chance… eu não consigo parar de querer uma. Eu estraguei tudo com alguém
que não merecia nem metade da dor que causei. E se essa pessoa estiver ouvindo… eu só
quero que saiba que foi real. Que ainda é.
E então…
Sirius Black pulou da cabine com sua vassoura, microfone na mão, feito um astro de rock
desafiando as leis da decência escolar. Planou até o meio do campo. E começou a cantar.
**"
Eu só tinha
Essa música parece ser sobre a conexão profunda que sentimos quando conhecemos alguém
especial, e como essa experiência pode ser única e insubstituível. A primeira vez que quis
ficar,
Sirius deslizava sobre o gramado como se o mundo fosse palco, e ele, protagonista do próprio
arrependimento. A música ecoava, despida de orgulho. Era vulnerável. Era corajosa. Era
Sirius, nu diante de todos — mesmo que vestido com o uniforme suado da Grifinória.
E quando a última nota terminou, ele pairou no ar por um segundo. Depois, pousou no centro
do campo, com o peito arfando.
— Me perdoa. Me dá uma chance. Só uma. Eu não prometo ser perfeito, mas prometo nunca
mais te deixar sentir que está sozinho.
O campo irrompeu em aplausos. Gritos. Assobios. Até McGonagall conteve um sorriso antes
de franzir a testa como quem prepara o sermão de sua vida.
Marlene.
Correndo. Brilhando. Saltando nos braços dele como nos contos de fadas.
Ela o beijou.
Sirius arregalou os olhos. Tentou afastá-la, confuso, mas já era tarde. O estrago estava feito.
No alto da arquibancada, Severus soltou a mão de Narcisa. O mundo girou devagar. O
coração apertou como se quisesse desaparecer. E ele soube. Soube que amar Sirius Black era
como andar na corda bamba sem rede de proteção.
— Dez pontos a menos para Grifinória. Detenção, senhor Black. E espero que tenha valido a
pena.
--
Jogou-se na cama e cobriu o rosto com o travesseiro. Queria sumir. Queria voltar no tempo.
Queria, acima de tudo, encontrar o maldito de olhos ônix e implorar por perdão.
Foi quando seus olhos caíram sobre a capa de invisibilidade de James, dobrada
displicentemente sobre a cadeira.
Meia hora depois, escondido entre sombras, Sirius esperava. Um sonserino sonolento abriu a
passagem e ele deslizou por ela feito um fantasma — um fantasma desesperado por redenção.
O corredor dos dormitórios era úmido e silencioso. Ele percorreu as portas com os dedos
tremendo, até parar diante de uma que gelou seu sangue:
Regulus dormia, deitado de lado, respirando fundo. Um livro de Poções ainda aberto sobre o
peito. Já Severus… estava sentado em sua cama, pernas cruzadas, encarando o vazio. As
cortinas meio abertas deixavam ver o contorno dos ombros, tensos, fechados.
Sirius entrou e, sem pensar, atravessou o quarto. Subiu na cama do sonserino, empurrou
Severus até que o outro caiu de costas nos lençóis, e fechou as cortinas com um puxão
decidido.
— O que você está fazendo aqui?! — Severus explodiu, empurrando o peito do grifinório.
— O que você acha? — Sirius rosnou, os olhos selvagens, o cheiro dele preenchendo o
espaço apertado. — Tô aqui porque te amo, porra!
— Eu cantei aquela música pra você, não pra Marlene. A idiota se jogou em cima de mim, e
agora todo mundo acha que estamos juntos de novo. Eu tentei explicar. Juro, eu tentei.
— Você cantou pra mim?! Sirius, você tem noção do ridículo? Da humilhação que foi ver
aquela loira escorada em você enquanto você dizia “the first time I saw your face”?!
— Era a sua cara que eu vi da primeira vez. Sua maldita cara de gênio irritante, de morcego
arisco, de… de amor da minha vida.
Severus ficou sem ar. Sirius o encarava com aquela intensidade feroz, como se o mundo
dependesse daquele momento.
— Eu não vou embora até você me escutar, até me deixar provar que…
— Provar o quê? — Severus desafiou, a voz mais baixa, carregada de veneno e desejo.
Foi um beijo urgente, bruto, de dentes e promessas. Severus tentou resistir por dois segundos
— e fracassou gloriosamente. Suas mãos agarraram o pescoço do outro, puxando-o com
raiva.
As roupas foram sendo arrancadas entre sussurros e provocações abafadas pelas cortinas. A
cama rangeu baixo, cúmplice daquele caos sagrado. Sirius percorreu o corpo do sonserino
como se o estivesse redescobrindo. Os dedos longos de Severus seguravam com força o
quadril do outro, e o cheiro era só deles — suor, desejo e algo como saudade.
— Você ainda tá com raiva de mim? — Sirius perguntou, beijando seu pescoço, descendo até
o peito.
— Estou, e não pretendo parar. — Severus arqueou-se com um gemido rouco. — Mas isso
não quer dizer que eu vá te expulsar agora.
As palavras viraram gemidos, que viraram sussurros, que viraram respiração acelerada. Sirius
foi fundo, como se quisesse preencher todos os espaços que a dor havia aberto dentro de
Severus.
Sirius se virou bruscamente, a coberta escorregando para revelar a cena parcialmente — seu
peito nu suado, Severus meio coberto, cabelos grudados na testa e olhos arregalados.
Regulus.
— Fecha a maldita cortina, Regulus! — Sirius rugiu, puxando a coberta sobre eles.
— EU NUNCA MAIS VOU DORMIR AQUI! — gritou o mais novo, tropeçando ao fugir do
quarto como um gato molhado em choque.
O silêncio caiu entre os dois, e por alguns segundos, foi como se tudo parasse.
— É claro que tô. Você traumatizou seu irmão. E eu, sinceramente, achei que ia te bater até
cair morto. Mas aqui estamos. E você ainda é um idiota.
— Talvez. — Severus ergueu uma sobrancelha. — Vai depender de como você beija daqui
pra frente.
E naquela noite, nas profundezas da Sonserina, dois garotos quebrados colaram seus pedaços
no único lugar onde tudo fazia sentido: nos braços um do outro.
Chapter 10: Lição 10
A lua cheia pairava sobre o céu como um olho prateado, frio e atento. Sua luz espreitava por
entre os galhos retorcidos da Floresta Proibida, recortando silhuetas estranhas no solo úmido.
Para qualquer aluno de Hogwarts com o mínimo de bom senso, atravessar aquele lugar à
meia-noite seria loucura. Mas Severus Snape não era conhecido por seguir os conselhos da
prudência.
Com a capa escura envolvendo seu corpo magro como uma segunda pele, Severus movia-se
entre raízes e arbustos com precisão quase ritualística. Ele sabia exatamente onde pisar. Sabia
onde procurar. Não havia espaço para medo, apenas para cálculo. O brilho da varinha em sua
mão oscilava suavemente enquanto ele se abaixava sobre uma clareira encoberta.
Ele se ajoelhou, cuidando para não danificar os talos ao colher. Colocava cada flor
cuidadosamente em um frasco de preservação encantado, como se tocasse memórias em vez
de plantas. O silêncio só era quebrado por pequenos estalos de galhos ao vento... até que
deixou de ser.
Severus congelou.
Não era uma criatura comum. Não era algo que se escondia. Era algo que caçava.
O coração disparou. Não por medo - mas por lógica. Ele sabia muito bem o que habitava
aquela floresta em noites como aquela. E ele sabia também quem poderia estar à solta. A
ficha caiu em sua mente antes mesmo do som de um galho partido ser seguido pela voz.
Severus se virou tão rápido que quase derrubou o frasco de flores. E ali estava ele: Sirius
Black, de olhos arregalados, peito arfando e varinha em punho. O cabelo desgrenhado voava
com o vento, e o olhar... o olhar era uma mistura de pavor e fúria.
- Tenho mais ideia do que você imagina - respondeu, voltando a colher as flores como se a
presença do namorado não fosse uma interrupção surreal. - E você está atrapalhando minha
coleta.
- Pelo amor de Merlin, isso é sério! - Sirius se aproximou, chutando folhas no caminho. -
Você tem que sair DAQUI. Agora!
- Sirius, se você fizer mais barulho, vai chamar atenção de verdade. Deixe-me terminar.
Sirius o agarrou pelo braço, fazendo-o se levantar com brusquidão. O frasco de flores
balançou perigosamente na mão esquerda do sonserino.
- Escuta, você precisa sair daqui. É uma ordem, Snape.
- Ordem? De você?
Severus piscou. A frase caiu como um raio. Sirius empalideceu no mesmo instante. Quis
morder a língua. Era tarde.
Sirius passou a mão no rosto, o nervosismo pulsando sob a pele. Olhou em volta, como se
esperando que as árvores desmentissem tudo.
- Não... quer dizer, é... Severus, não posso te explicar agora, mas... você precisa confiar em
mim.
- Confiança não vem depois de omitir informações sobre lobisomens soltos na floresta onde
você me encontra, Sirius!
- Eu não te encontrei, porra, eu te segui! - explodiu o grifinório. - Porque sabia que você viria
aqui, que você ia se meter em perigo! Que ia fazer alguma merda que podia te... te custar a
vida!
- Por que tanto pânico, Black? Vai me dizer que se importa comigo agora?
Sirius respirou fundo. Os olhos dele estavam vermelhos, e não era só da irritação.
- Então me diga. Diga o que está escondendo de mim. Diga por que não queria que eu viesse
aqui. Fala logo.
- Eu não posso.
- Não é sobre querer! - ele esbravejou. - Eu não sou o único envolvido nisso. Não posso
quebrar a confiança de alguém por mais que eu...
Engoliu seco.
Sirius cerrou os punhos. A raiva o consumia por dentro, mas era a ansiedade que queimava
seus olhos. Ele olhou para Severus como se não soubesse mais como segurá-lo.
- Eu não posso te dizer agora... Mas te juro que isso tem motivo. Não é por desconfiança. É o
contrário.
- Você diz isso como se fosse um mérito - respondeu Severus, frio. - Mas confesso que, no
momento, me sinto mais como uma distração que precisa ser retirada do caminho.
- Você é a única coisa que me mantém são nessa porra de escola. Eu não durmo direito, não
penso direito, não vivo direito desde que a gente começou com isso!
- Eu sinto muito.. — Sirius desviou o olhar, o tom vacilante.—Eu não quis dizer isso desse
jeito
Severus arqueou uma sobrancelha, a frieza nos olhos quase mascarando a dor.
- Talvez porque você passa metade do tempo me beijando escondido e a outra metade me
afastando como se eu fosse uma bomba-relógio.
Sirius engoliu seco.
- Talvez você seja, Severus. Você explode tudo que toca. — Ele deu um passo mais perto,
como se desafiando o perigo.— E mesmo assim... mesmo assim, eu sempre volto. Eu sempre
volto pra você.
O silêncio voltou. Mas não era vazio. Era preenchido por todas as palavras que nenhum dos
dois conseguia dizer.
- Que você me espere. Que confie. Que me deixe resolver isso, e quando tudo estiver certo...
eu te conto tudo. Sem filtro. Sem segredos. Sem floresta proibida.
Os olhos gritavam.
- Promete?
- Espero que ela valha o suficiente - sussurrou Severus, colocando o último frasco na bolsa
encantada.
Sirius deu um meio passo à frente, hesitante. Seus dedos pairaram sobre o pulso do outro,
como se pedir permissão. Severus não recuou.
- Me deixa te acompanhar até o castelo - disse Sirius, mais suave. - Só... me deixa estar com
você.
Sirius assentiu. Os dois caminharam lado a lado, os passos ecoando entre os galhos. Por
alguns minutos, nada foi dito. Mas havia entendimento ali. Uma ponte sendo reconstruída,
mesmo sobre as ruínas da dúvida.
- Snape?
- O que foi?
Severus revirou os olhos. Mas não respondeu. E também não afastou a mão que agora se
entrelaçava à sua.
O silêncio que se estendia entre eles era espesso, como uma névoa invisível. Não era o
silêncio confortável dos que se entendem sem palavras - era o silêncio tenso dos que
carregam coisas demais entre os dentes, mas ainda não estão prontos para cuspir.
- Posso te perguntar uma coisa? - sua voz saiu baixa, como se soubesse que estava prestes a
tocar uma ferida.
Severus nem o olhou. Continuou andando, a capa ondulando suavemente atrás de si.
Virou-se devagar. Não havia raiva no rosto dele - apenas uma expressão vazia. Exausta.
Como se aquele tipo de insinuação já não doesse, mas deixasse cicatrizes mesmo assim.
- É só uma pergunta. Vocês são... próximos. Ele fala de você como se fosse o último frasco de
poção anti-morte da Terra.
Severus suspirou, passando uma mão pelo cabelo.
- Regulus é... como um irmão mais novo. Nunca foi nada além disso. E nunca será.
Sirius deu um meio sorriso incômodo, o ciúme escapando pelas bordas da máscara de
despreocupação.
- E você é um idiota.
- Não foi fácil pra mim na Sonserina - disse Severus, do nada, a voz rouca e
surpreendentemente baixa.
- Nunca foi. - Severus cruzou os braços sobre o peito, como se protegesse algo quebrado lá
dentro. - Você olha pra mim e vê um cara frio, arrogante, metido com magia das trevas. Mas
nunca parou pra pensar... por quê?
- Sou mestiço - Severus disse com firmeza. - Meu pai era um trouxa. Um escroto. Bêbado.
Violento. E completamente ausente. A única coisa que ele sabia fazer era quebrar coisas. A
maioria delas era minha mãe. Ou eu.
- Merlin...
- Minha mãe era bruxa. Inteligente. Orgulhosa. Ela me ensinou tudo. Quando entrei em
Hogwarts, ela ficou... viva de novo. Como se eu fosse a última chance dela de ver algo bom
no mundo.
Severus encarou o céu por um momento.
- Doença mágica. Fulminante. Não tivemos nem tempo. Meu pai não se importou. Disse que
ela já tava morta mesmo. Que não valia o gasto. - Severus soltou uma risada amarga. - Eu...
pensei em desistir de Hogwarts. Não tinha dinheiro nem pra comprar os livros do novo ano.
Nem pra enterrá-la.
- E quem se importaria?
- Regulus foi quem me salvou. Ele apareceu com um baú cheio de material. Livros, uniforme,
ingredientes. Disse que eu não devia nada a ninguém. Que Hogwarts era meu lugar. Que
minha mãe não teria morrido à toa.
- E quando os outros da Sonserina descobriram que eu era mestiço - Severus continuou, voz
mais baixa -, começaram a me excluir. Me encarar como escória. Ele deu um jeito de me
colocar no mesmo dormitório. Disse que eu era da família. Que se alguém encostasse em
mim, lidaria com ele.
Sirius passou as mãos no rosto. A culpa martelava em suas têmporas.
- Todos pensam isso. É mais fácil. Mais conveniente. A verdade é feia. Suja. Como eu.
- Não diga isso. - Sirius se virou para ele. - Não diga isso.
- Eu sou o que o mundo fez de mim, Sirius. E você... você e os Marotos tornaram as coisas
piores.
Sirius se encolheu, como se tivesse sido atingido por uma maldição silenciosa.
- Foi cruel. E eu... deixei. Porque não tinha forças pra lutar contra vocês.
- Não. Brigamos porque eu fui idiota. Disse uma coisa horrível num momento de raiva. E
ela... se foi. - Severus desviou o olhar. - Mas sim, ela se aproximou dele por causa de mim.
Queria convencer ele a parar de me torturar. Disse que ele só fazia aquilo porque se sentia
ameaçado.
Sirius bufou.
- Talvez não por mim. Mas pela ideia de perder o centro das atenções. De não ser o mais
brilhante. Ou de não ter Lily.
- Quando Lily me virou as costas, foi como morrer outra vez. E aí, só sobraram... Regulus e
Cissa.
Sirius o olhou.
- Narcisa?
- Sim. Você acha que conhece sua família, mas não conhece. Cissa é... diferente. Ela me
ouviu quando ninguém mais queria escutar. Me tratou como... como gente. E não como
escória mestiça.
Sirius ficou em silêncio. A vergonha o corroía. O que ele pensava que sabia sobre Severus
era uma construção de mentiras. E por baixo de tudo, havia um garoto despedaçado que se
recusava a cair.
- Por que você nunca me contou tudo isso antes?
Severus o olhou. Por um momento, viu o garoto que ele beijava às escondidas. O que sorria
de lado, o que tremia quando dizia que sentia falta. O que, agora, chorava em silêncio.
- Eu vou pagar tudo ao Regulus - disse, de repente. - Um dia. Ele nunca cobrou. Mas eu vou
devolver tudo. A dignidade. A esperança.
- Eu ainda acordo às vezes achando que tô de volta naquela casa. Com o cheiro de cerveja
podre e gritos pela manhã. E aí me dou conta que tô em Hogwarts... mas continuo invisível.
Ficaram ali, sentados, em silêncio, sob a madrugada que começava a se tingir de lilás. Pela
primeira vez, Severus sentiu que talvez, só talvez, não estivesse mais carregando tudo
sozinho.
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Nota da autora:
E agora, uma confissão minha pra vocês: quem já leu minhas outras fanfics sabe que eu fujo
um pouco de tramas de guerra. Não é que eu não admire histórias desse tipo, mas eu,
pessoalmente, nunca sinto que acerto o tom da tensão e do peso que esse tema merece. Já fiz
alguns rascunhos tentando incluir mais disso aqui, mas nada me deixava satisfeita. Então,
depois de muito pensar, decidi que essa fanfic não vai ter o tio Voldy tentando "purificar o
mundo bruxo".
No lugar disso, teremos o bom e velho clichê que aquece o coração: adolescentes se
👀
descobrindo, amadurecendo, errando, aprendendo e se apaixonando. E sim, meus caros... Lily
e James podem ou não sobreviver. Quem sabe?
Chapter 11: Lição 11
Sirius Black andava pelos corredores como quem procura algo que não sabe se perdeu ou se
nunca teve.
Cada passo era mais um pensamento martelando sua cabeça, cada sombra no castelo parecia
ter a forma de Severus Snape. O castelo inteiro parecia impregnado dele — nos ecos, nas
janelas embaçadas pela madrugada, até nas tapeçarias que pareciam observá-lo com
julgamento silencioso. Estava sufocando e nem o percebia. Como se sua própria culpa fosse
uma névoa densa, colada à pele.
A cena na floresta girava em looping na sua mente, cruel e constante. A maneira como
Severus falava de sua mãe, como descreveu o pai como um espectro bêbado e cruel. O jeito
como olhou o céu depois de contar que tinha perdido tudo no terceiro ano — e continuava
indo às aulas como se não tivesse sido despedaçado por dentro.
Sirius achava que conhecia dor. Achava que fugir de casa, ser deserdado, virar as costas pra
tudo que os Black representavam, era o suficiente pra se declarar alguém que sobrevivia. Mas
Severus... Severus era outro nível. Um sobrevivente que nem se dava o luxo de parecer
ferido.
Ele parou diante de um vitral qualquer, a luz azulada refletindo em seus olhos. Não se viu ali
— viu Severus. Aquele olhar amargo, exausto, fechado, que escondia um mar revolto. E,
merda, como ele queria mergulhar ali. Nadar por dentro daquele caos. Aprender a nadar, a
salvar e talvez até se afogar junto.
Sirius apoiou a testa no vidro frio. Sua respiração ficou presa por um instante.
E Remus?
A pergunta veio como um raio atravessando o peito. Porque ali, no meio de toda a floresta,
das flores, da raiva, da revelação... ele esqueceu Remus.
— Merda...
Remus.
Ele tinha ido atrás de Severus por instinto, por medo, por amor. Mas deixou Remus...
sozinho. E era noite de lua cheia.
Sirius se virou tão rápido que quase tropeçou no próprio pé. Começou a andar mais depressa,
o coração batendo no ritmo de um tambor de guerra. O castelo parecia se alongar à sua frente,
como se zombasse da sua culpa.
— Aí está ele! — a voz de James ecoou, alta e irritada. — ONDE você se meteu, Sirius?
Peter corria ao lado do amigo, mais ofegante, com os olhos arregalados de preocupação.
— A gente te perdeu lá na clareira! Você tava logo atrás da gente e… PUF! Sumiu!
— E Remus?! — James aproximou-se mais, agarrando o ombro do amigo. — Ele já foi pro
Salão. A transformação terminou, tá exausto. Mas se desse alguma merda, você ia estar onde,
hein?
James encarava-o como se esperasse uma explicação lógica. Peter bufava como um cão
pequeno irritado. E ele… ele só conseguia pensar nos olhos de Severus.
— Sirius?! — James insistiu, mais baixo. — Que porra aconteceu com você?
— Alguém? Quem?
— Você sumiu no meio da floresta, Black! Era noite de lua cheia, por Merlin! Você tem
noção?
— Tenho. — Sirius finalmente disse, num sussurro. — Agora tenho.
Porque a verdade era simples e cruel: ele não tinha pensado em Remus. Não tinha pensado
em mais nada. Estava inteiro, completamente absorvido por Severus Snape. Pelo passado
dele, pela dor dele, pelo jeito como ele pronunciava cada palavra como se esculpisse a
própria sobrevivência.
James abriu a boca pra dizer algo, mas se conteve. Peter apenas assistiu, confuso.
Sirius andou até dobrar o corredor e então encostou-se na parede, escondido da vista deles.
Os dedos tremiam. O coração batia forte.
Não podia mais viver entre sombras e segredos. Não podia mais continuar dividindo a alma
entre o que era certo e o que desejava.
Severus o via. Via até demais. E talvez fosse por isso que Sirius estava começando a se ver
também.
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O dia seguinte amanheceu com gosto de ressaca — não daquelas provocadas por bebidas,
mas daquelas piores: as causadas por conversas intensas demais, verdades duras demais e
silêncios que pesam como feitiços mal lançados.
Na sala da torre onde os grupos de Transfiguração se reuniam, um clima tenso pairava como
uma poção prestes a explodir.
Remus estava pálido, olheiras profundas e um chocolate meio comido repousando sobre o
pergaminho, como se fosse a única âncora entre ele e o mundo dos vivos. James segurava a
mão de Lily com orgulho teatral, mas sorria mais para si mesmo do que para ela. Lily, por sua
vez, lia um livro com tanta concentração que parecia querer desaparecer dentro das páginas
— provavelmente como forma de evitar o contato visual com certos elementos do grupo.
Peter estava em sua habitual órbita paralela, desenhando no canto do pergaminho algo que
parecia um rato com capa e espada. E Sirius… bem, Sirius estava encarando Severus com
uma intensidade que fazia até os tinteiros quererem fugir da mesa.
Severus, impassível, escrevia algo com a letra meticulosa de sempre. Ao seu lado, Narcisa
Black arrumava os próprios pergaminhos como se estivesse no centro de uma ópera
dramática — e, conhecendo Cissa, ela provavelmente estava.
O silêncio era tão espesso que podiam cortar com uma adaga enfeitiçada.
"Preciso de ajuda."
Severus lançou um olhar lateral a Narcisa, que parecia interessadíssima em fingir que
examinava uma pena. Ele pegou a pena dele e, no mesmo papel, escreveu:
"Ajuda com o quê? Enterrar um corpo? Roubar um grifo? Fugir da sua tia Walburga?"
Remus ergueu uma sobrancelha cansada. James o encarou como se Severus tivesse soltado
uma bomba. Lily olhou diretamente para Narcisa, olhos semicerrados de desconfiança. E
Sirius… Sirius o encarava como quem já estava pronto para amaldiçoar o próximo que
olhasse torto para qualquer coisa que envolvesse Snape.
— Algum problema, Severo? — perguntou Lily, o tom gentil, mas carregado de desconfiança
velada.
— Nada — disse Severus, recuperando o controle. — Só lembrei que deixei... uma poção...
fermentando. Provavelmente vai explodir.
— Isso explica tudo — murmurou James, voltando a brincar com a mão de Lily.
Narcisa esticou o pergaminho de volta, com a pose mais inocente do mundo. Severus leu a
próxima mensagem:
"Minha família marcou esse jantar com um pretendente. Não sei quem é. Não quero ir
sozinha. Pode fingir que está me acompanhando por obrigação civil?"
"Você é o único que não vai tentar me convencer a casar por amor ou desobedecer a tradição.
Você só vai bufar e me dar um plano de fuga, o que é muito mais útil."
Severus esfregou a têmpora. Claro que era ela. Claro que era agora.
"E por que não pede pro Theo ou Bellatrix? Eles são doido por essas encenações sociais."
"Justamente. Se for com ele, eles vão achar que é real. E eu ainda tenho noção de autoamor,
Bella é louca sev."
"19h. Eu te mando as roupas. Odeie tudo. Mas venha. Você é minha única esperança."
— Segunda tossida? — perguntou James, semicerrando os olhos. — Tem certeza que não é
você que tá com transformação pendente, Snape?
Sirius, no entanto, se inclinou para mais perto. O olhar dele era uma mistura de ciúmes e
paranoia.
— Que bilhetinho bonito vocês dois estão trocando — comentou, sarcástico. — Vai ter
casamento ou é só flerte pré-duelo?
— Vai ter silêncio — respondeu Severus, sem encará-lo —, se você quiser continuar com
todos os dentes.
Remus, que mastigava um chocolate em silêncio, olhou para os dois com a exaustão de quem
já viu esse espetáculo mais vezes do que gostaria.
— Por que vocês simplesmente não se beijam e resolvem essa tensão? — murmurou para si
mesmo.
Lily fechou o livro com força, encarando Severus com mais atenção. Ela notava os detalhes
— o bilhete, o desconforto, o toque do pé. O que ela não sabia era que o maior segredo
naquela sala não era o papel escondido de Narcisa... era o que Sirius e Severus guardavam
entre silêncios, floreios e olhares atravessados.
O tempo passou devagar até o fim da reunião, e quando McGonagall apareceu para
supervisionar os progressos do grupo, ela franziu o cenho ao ver três centímetros de texto e
uma torre de rabiscos, bilhetes e migalhas de chocolate sobre a mesa.
Assim que todos começaram a se levantar, Narcisa escorregou mais uma vez o bilhete para
Severus:
"Vou estar no salão comunal às 18:50. Me salve da desgraça, Snape. Com elegância."
Severus respondeu:
"Levarei sarcasmo e tédio em quantidades generosas. Nada mais elegante do que isso."
Narcisa sorriu.
Sirius ainda observava de longe, com o cenho franzido e uma interrogação nos olhos.
Severus passou por ele sem dizer nada. Mas ao cruzar, deixou cair discretamente um pedaço
de papel no colo do grifinório.
Sirius mordeu o canto da boca. Não sabia se ria ou se explodia. Mas de uma coisa tinha
certeza:
---
— Você vai me dever essa por uma década, no mínimo — murmurou ele, ajustando a gola da
túnica preta como se fosse uma armadura contra o absurdo.
— Três anos e uma garrafa de hidromel de framboesa. — Narcisa respondeu com altivez,
mesmo que seus dedos tremessem. — E só porque eu sou generosa.
— Ninguém sabe. É um encontro surpresa — disse ela com desprezo, fazendo aspas com os
dedos. — Tudo que sei é que é puro-sangue, tradicional, e supostamente encantador. Palavras
da minha mãe, que obviamente perdeu o juízo junto com qualquer respeito pela minha
autonomia.
E lá estava ele.
Com o cabelo loiro platinado preso num rabo de cavalo polido, a postura rígida de quem
nasceu em cima de um pedestal e a expressão de quem acabara de morder um limão — ou
avistar um desafeto.
Ele arregalou os olhos ao vê-la, mas a compostura voltou tão rápido quanto um feitiço de
contenção.
— Narcisa — disse ele, com a formalidade de quem cumprimenta uma maldição antiga.
— Ótimo! — exclamou Druella Black, batendo palmas com elegância cruel. — Então vamos
deixar vocês três à vontade para... se reconectar.
— Você me enganou — sibilou Narcisa, assim que as mães saíram, o som de seus saltos
ecoando como sinos fúnebres. — Isso era pra ser um plano de fuga, não uma armadilha da
alta sociedade.
— Você me disse que era uma reunião social — respondeu Severus, seco. — Não um teatro
de guerra.
Lucius cruzou os braços e olhou para Severus como se ele fosse uma escultura torta de um
artista modernista.
— Ele é meu acompanhante — respondeu Narcisa, jogando o cabelo para trás com a graça de
uma adaga sendo desembainhada. — Um toque moderno. Irreverente. Provocador. Espero
que sua mãe tenha um colapso.
Severus pigarreou.
— Exato.
No fim do jantar, quando os pratos encantados desapareceram, Lucius se levantou com uma
reverência rígida.
— Foi... elucidativo.
— Se por elucidativo você quer dizer insuportável — respondeu Narcisa, erguendo a taça. —
Foi um prazer.
Lucius saiu como uma tempestade silenciosa — mas Narcisa e Severus mal tiveram tempo de
respirar quando as portas se abriram novamente.
— O quê?
— Que energia! Que dinamismo! — entoou a senhora Malfoy. — Eu disse, Druella, eles são
perfeitos! A tensão é maravilhosa, uma paixão latente. Eles vão se matar ou se amar. Ideal!
— Vamos preparar os papéis do noivado imediatamente — declarou Walburga, puxando uma
pena de fênix da bolsa. — Essa união será magnífica.
— Casamento. Primavera que vem. O contrato será selado até o final da semana. — Druella
sorriu com crueldade maternal.
Severus engasgou. Narcisa empalideceu. Lucius, parado no corredor, parecia ter levado uma
Azaração em câmera lenta.
— Nós... precisamos conversar! — Narcisa disparou, puxando Severus pela manga como se
ele fosse seu escudo humano.
— Estamos ferrados! — ela arfou. — Eu vou me casar com aquele pavão arrogante!
— Pelo lado bom — disse Severus, recuperando o fôlego —, o jantar estava ótimo.
— Severus!
Eles se entreolharam por um segundo, cúmplices no caos. E depois riram — uma risada
nervosa, alta, descontrolada. A risada de quem está preso num labirinto, mas decidiu
aproveitar a paisagem.
----
Nota da autora:
Ah, queridos leitores… antes que vocês saiam correndo pelo corredor gritando “Sirius,
cuidado com os olhares assassinos de Severus!”, deixem-me fazer uma confissão: eu
mesma estou me perguntando como diabos consegui colocar todos esses egos, olhares
mortais e sarcasmo concentrado numa mesma sala sem que Hogwarts pegasse fogo de vez.
Sim, Narcisa se mete em confusões como quem respira, Severus encara tudo como se fosse
uma poção prestes a explodir, e Sirius… bem, Sirius é Sirius — metade charme, metade
desastre ambulante, e completamente obcecado por problemas que não são dele. James e
Peter só estão ali pra nos lembrar que nem todos os humanos podem ser sérios por mais de
cinco segundos.
E, por favor, respirem fundo com o jantar da alta sociedade: se acharem que nada poderia
ser mais tenso do que isso, esperem até ver o próximo encontro. Porque nada,
absolutamente nada, é simples quando se mistura orgulho, tradição, sarcasmo, e o
ocasional coração batendo mais rápido que um hipogrifo assustado.
😏
Ah, e sobre o bilhete de Severus? Sim, eu sei… vocês vão querer roubar uns tantos só pra
praticar sua própria ironia. Boa sorte.
Chapter 12: Lição 12
O Salão Comunal da Grifinória estava um caos controlado, com alunos espalhados em sofás,
livros abertos e risos ecoando como um lembrete de que, em Hogwarts, até o tédio tem trilha
sonora.
Sentado perto da lareira, os dedos tamborilando nervosos sobre o braço da poltrona, ele
encarava a porta com um olhar perdido. Não era costume dele ficar calado, muito menos
parecer… inseguro. Mas ali estava ele: o rei dos Marotos, o insolente e destemido James,
parecendo um garoto que não sabia onde tinha deixado a própria coragem.
Remus estava ao lado, com um livro aberto no colo, mas os olhos fixos em James.
— Ele ainda não voltou? — perguntou com a voz baixa, mas carregada de algo mais denso
que curiosidade.
James balançou a cabeça. — Desde o almoço, Remus. Ele saiu, nem olhou pra trás. E eu…
eu nem sei onde ele foi.
James hesitou. O estômago se revirando, como se tivesse acabado de tomar uma poção mal
preparada.
— Não sei de nada — rebateu, irritado. Mas a frase soou falsa até pros próprios ouvidos.
Remus suspirou. — James, você é meu melhor amigo. Mas às vezes você finge não ver as
coisas só porque elas te doem.
Silêncio.
— Eu só… — James começou, mas a garganta apertou. — A gente sempre esteve junto.
Sempre. Desde o primeiro ano. E agora, sei lá. Ele anda estranho. Calado. Some pelos
corredores. E quando eu falo com ele, ele responde como se estivesse em outro lugar. Ou com
outra pessoa.
— Assusta, sim — confessou. — Porque... e se ele mudar a ponto de não querer mais estar
comigo? A gente é... era uma dupla, sabe? E se ele... sei lá, achar que eu sou só mais um
amigo da infância? E se ele quiser outra vida agora?
Remus olhou pro fogo. O reflexo dourado dançava em seus olhos castanhos, mas havia uma
sombra ali. Um peso.
Remus se levantou. Foi até a janela. Ficou ali, quieto, com os ombros tensos e a voz presa.
— Também sinto falta dele. — A frase veio baixa, mas carregada. — Só que, diferente de
você, eu aprendi a não dizer.
O cabelo bagunçado, os olhos brilhando como se o mundo fosse menos cinza do que era
naquela manhã. Parecia leve. Feliz.
— Ei! Onde você se meteu, seu desgraçado? — tentou soar casual, mas a voz saiu alta
demais.
Remus mordeu o canto da boca. Queria rir também. Queria mesmo. Mas o que sentia era bem
longe disso.
James se levantou, deu dois tapinhas no ombro de Sirius. — Pensei que tinha virado comida
de trasgo.
— Eu? Por favor. Eu que como os trasgos — Sirius piscou, mas havia algo distante no
sorriso.
E James viu. Viu que os olhos dele não estavam voltados pra ele. Nem pra Remus. Estavam
em outro mundo, outra lembrança. Outra pessoa.
E foi nesse instante, nesse mísero segundo de silêncio suspenso, que James sentiu.
O medo.
Aquele medo de criança que perde o irmão no meio da multidão. O medo de ser deixado pra
trás. De não ser mais “nós dois contra o mundo”.
Remus viu também. Viu o olhar de James e quis estender a mão, mas sabia que aquilo era
algo que ele mesmo não sabia como curar.
--
O sol mal tinha esquentado as pedras da escadaria central de Hogwarts quando Sirius Black,
James Potter e Remus Lupin desciam em fila desorganizada, resmungando sobre deveres
atrasados e a audácia da professora McGonagall em exigir coerência de alunos visivelmente
desajustados.
— Eu tô com a sensação de que esqueci alguma coisa — disse Sirius, franzindo o cenho, os
cabelos negros voando ao vento como se também estivessem preocupados.
— De novo? — resmungou Remus, com olheiras profundas e uma barra de chocolate meio-
derretida no bolso do colete.
— Ah, isso é só sua consciência gritando — comentou James, dando uma risadinha enquanto
ainda segurava a mão de Lily. — Coisa rara, mas acontece.
— Não, é sério — disse Sirius, parando no último degrau. — É como se tivesse uma bomba
prestes a explodir e eu tivesse esquecido de cortar o fio vermelh...
— Sirius Black!
BOOM.
Como num passe de mágica, a bomba se materializou diante dele: Marlene McKinnon, loira,
altiva, com os olhos semicerrados e os braços cruzados como quem já sabe que vem
tempestade e trouxe o guarda-chuva só pra jogar fora no drama.
Remus deu um passo pra trás. Ele sabia que quando Marlene aparecia com aquele tom de
voz, o ar no corredor ganhava peso e cheiro de pólvora.
— A gente ia se encontrar pra tomar chá na estufa depois da aula de Runas Antigas! —
acusou ela. — Você simplesmente me ignorou por três dias, Sirius!
— Três? — ele arqueou as sobrancelhas, confuso. — Já foram três?
— Três dias, seu... seu almofadinha cafajeste! — gritou Marlene, gesticulando como se o
acusasse de trair não só a confiança dela, mas também os estatutos básicos do bom senso.
— Ele devia ter dito logo que não era pra ela aquela declaração ridícula.
— Bom... então... Marlene — começou Sirius, com aquele sorrisinho nervoso de quem tenta
atravessar um campo minado usando pantufas. — Sobre a gente…
— Sim? — ela levantou o queixo. — Finalmente vai me contar qual era o plano com aquele
bilhete escondido na caixa de abóbora cristalizada?
— O que dizia: “Você não imagina o que eu faria por você. Ou com você.” — disse ela,
corando levemente.
— Eu escrevi isso? — Sirius virou para Remus, que apenas ergueu os ombros. — Isso soa...
familiar, mas...
— Sirius — Marlene aproximou-se — a gente precisa definir o que somos. A escola inteira já
está nos chamando de casal do ano!
— Casal do quê?!
Sirius olhou para os dois como quem implorava socorro. Mas estava sozinho. Sozinho e
afundando no pântano que cavou com a própria varinha.
— O quê?
Marlene pareceu processar por alguns segundos, até que a expressão dela mudou de confusão
para frieza total.
— Entendi. Você não quer assumir nada.
— Não é isso! — Sirius se apressou. — É que… olha, eu... fiz aquela declaração no campo
de Quadribol, sim, mas não era... exatamente...
Silêncio mortal.
— Eu sabia! — gritou ela. — Eu sabia que tinha alguma coisa errada! Era pra Evans, né?
— NÃO! — Sirius berrou, desesperado. — Claro que não! Por Merlin, não! A Lily já tem o
James! E eu não tô apaixonado pela Lily, tô... eu tô muito confuso!
— Tarde demais, Black — Marlene bufou. — O colégio inteiro achou que estávamos juntos.
Já estou sendo chamada de “Senhora Almofadinhas” pelos primeiros anos.
— Eu... desculpa. Sério. Foi um mal-entendido... daqueles bem grandes. Giga. Mega. Uma
explosão emocional de... palavras mal usadas.
— Você vai se arrepender — disse ela, com um sorriso gelado. — Espero que o alvo real da
sua declaração esteja disposto a lidar com o furacão que você acabou de soltar.
Ela se virou com a capa esvoaçante e o ego ferido, deixando para trás três Marotos, uma
vergonha coletiva e um Sirius Black em frangalhos existenciais.
Remus o encarou.
— Então… qual parte do “terminar com Marlene” você achou que ia se resolver sozinha?
— Você precisa de uma agenda, um terapeuta e talvez um aviso de “não operar romances sem
supervisão”.
Sirius suspirou.
E enquanto Marlene sumia no corredor abaixo, Sirius só conseguia pensar em uma coisa ou
melhor em alguém.
Como diabos ele explicaria isso para Severus snape ?
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Nota da Autora:
Queridos leitores, se vocês estão se perguntando quem é a responsável por toda a confusão
do corredor, podem dar uma olhada na imagem acima: sim, é a grande e temida Marlene
😏
McKinnon em pessoa. Aquela que consegue transformar um simples passeio pelo castelo
em um apocalipse emocional.
Ah, e se você se identificar com o desespero do Sirius tentando explicar tudo, parabéns:
você provavelmente já foi alvo de algum mal-entendido épico na vida. Bem-vindo ao clube.
Chapter 13: Lição 13
A luz mágica das velas pendia preguiçosamente sobre sua cabeça, projetando sombras finas
em seu rosto pálido. Ele lia, rabiscava, franzia o cenho, lia de novo. Tudo com a precisão
cirúrgica de quem estava determinado a esquecer sentimentos inconvenientes como... lábios
de Sirius Black. Ou declarações em campos de Quadribol. Ou beijos proibidos em alcovas.
Coisas perigosas. Coisas que ardiam.
Severus não precisava olhar. O perfume era o mesmo. Cedro, insolência e uma pitada de
confusão hormonal.
— É público? — ele murmurou sem tirar os olhos do livro. — Este é o novo ponto de
encontro dos Grifinórios entediados?
Sirius não respondeu de imediato. Em vez disso, se sentou com tanto cuidado que parecia
temer que o banco fosse cuspir ele dali.
— Ah, claro. E por coincidência, resolveu aparecer justamente quando eu estou aqui?
— Coincidências são subestimadas, Snape — retrucou Sirius, com um sorrisinho torto que
desafiava até a lógica.
Silêncio. Severus folheou mais uma página. Sirius tamborilou os dedos na mesa. A tensão se
sentou com eles.
— Você lembra da... cena no campo de Quadribol? — Sirius disse, finalmente. A voz um tom
mais baixa. Um pouco trêmula. Um pouco esperançosa.
— Cena? — Severus bufou. — Se você está se referindo à sua ópera romântica em pleno
gramado, infelizmente sim. Uma tragédia shakespeariana com Marlene como figurante
iludida.
— Eu juro que ia terminar com ela. Mas aí... Teve o negócio com a música, depois você me
esnobou por dois dias, depois teve aquele desastre na aula da Sprout com a planta assassina e
— ele olhou Severus nos olhos, com um ar quase piedoso — foram só três dias. Três dias! E
agora ela quer me matar.
— E com razão.
— Isso explica o cheiro de carvão. — Ele inclinou a cabeça. — O que foi dessa vez?
Sirius suspirou como quem carrega o peso de dez vidas amorosas mal resolvidas.
— Ela me enfeitiçou para soltar confetes cada vez que falo a palavra “amor”. Confetes.
Rosas. Brilhantes.
— E o que mais?
— Ela trancou minhas cuecas no cofre do elfo doméstico da cozinha. E avisou que se eu
encostar nela de novo, vai me transformar num guaxinim.
— O problema, Snape, é que ela disse que ia fazer a sua vida um inferno também.
— Minha vida já é um inferno. Não sei se ela percebeu, mas nasci na Sonserina, sou pobre e
tenho um romance secreto com um completo imbecil. — Ele fechou o livro com força. —
Acha mesmo que me assustam glitter e confetes?
Sirius apoiou o queixo na mão e olhou Severus como se ele fosse um enigma que valia a pena
decifrar.
— Eu fiquei bravo que você me colocou nessa situação ridícula. — Severus o encarou, sério.
— E que, por mais patética que fosse aquela declaração no campo, eu acreditei. E ela te
beijou na frente de todos, você jurou que iria resolver isso Sirius, mas esqueceu...esqueceu
mim.
— Eu não esqueci. Só me afoguei no caos. E você conhece meu talento pra isso. — Ele
encolheu os ombros. — Mas estou aqui agora.
Severus ficou em silêncio. Seus dedos tamborilaram o canto da capa do livro. Então, com um
suspiro resignado, apontou para o pergaminho em branco à frente.
— Isso é tão injusto... — Sirius murmurou. — Você sabe que eu só li dois desses na vida.
Mas por baixo da mesa, seus dedos procuraram os de Severus, devagar. Discretos. Sinceros.
---
Literalmente.
Narcisa Black nem piscou. Observou, com os olhos semicerrados, a porcelana espatifada no
chão do dormitório da Sonserina. Havia chá por todo lado. Chá e frustração.
A carta ainda tremia em suas mãos — não por medo, mas pela fúria imperial que só uma
Black de sangue puro conseguiria encarnar sem descabelar um fio sequer. A caligrafia
elegante da mãe brilhava cruelmente sob a luz mágica do castiçal:
Ela queria vomitar. Ou virar um morcego e fugir voando da torre mais alta. Ou, com sorte,
amaldiçoar Lucius com uma coceira eterna no nariz que nunca se resolve.
— EU. VOU. MATAR. ELE. — rugiu com a fúria de mil vestidinhos manchados de
chocolate.
Desde os oito anos, Lucius Malfoy era sua nêmese pessoal. O diabo loiro. O inferno
encarnado em túnicas bordadas. A criatura que ousou — num baile — derrubar uma taça de
calda quente no seu vestido novo da Madame Malkin. Narcisa chorou por horas naquela
noite. Sua mãe, Druella Black, ameaçou excomungá-la. E Lucius? Lucius riu.
Ela se vingou. Tesouras escondidas. Um corte limpo durante a aula de Poções. Os cabelos do
herdeiro dos Malfoy foram parar na sopa do Slughorn, e desde então, eles estavam em guerra.
Não guerra. Guerra fria. Daquelas silenciosas e letais, onde qualquer “bom dia” vinha com
subtexto de assassinato.
— Isso só pode ser uma piada — sussurrou para si mesma, encarando o espelho.
O espelho tremeu.
No salão comunal, Lucius Malfoy tomava um chocolate quente com uma serenidade
provocadora. Narcisa entrou como uma tempestade de inverno, vestida impecavelmente de
preto e sarcasmo. Todos na sala sentiram o ar congelar. Algumas cobrinhas nas almofadas se
esconderam nos buracos do sofá. Até o retrato de Salazar pareceu prender a respiração.
— Malfoy — ela cravou, a voz umedecida de veneno doce. — Recebeu alguma carta
interessante esta manhã?
Lucius ergueu os olhos lentamente, como se ela fosse só uma folha chata numa árvore
genealogicamente irrelevante.
— Ah, sim. Uma nota encantadora da sua mãe. Ela tem uma caligrafia… bárbara. Quase me
emocionou.
— Um truque que combinaria mais com sua irmã Andromeda, não acha?
— Cuidado, Malfoy. — A voz dela saiu baixa, cortante. — Não ouse usar o nome dela.
Lucius suspirou teatralmente, recostando-se como quem assiste a um duelo e aposta nos dois
lados perderem.
— Muito bem, minha… futura esposa. — A palavra escorregou com uma ironia tão azeda
que Narcisa quase se engasgou. — Se vamos mesmo ser miseráveis juntos, que ao menos
sejamos miseráveis com estilo.
— O único estilo que você tem é o de um pavão com ego inflado. E a elegância emocional de
um trasgo montanhês — ela devolveu, girando nos calcanhares, túnicas esvoaçando como
uma rainha ferida.
Ele a seguiu com o olhar e murmurou:
— Você ouviu? — cochichavam duas garotas da Corvinal. — Narcisa Black vai casar com
Lucius Malfoy!
Enquanto isso, Narcisa se afundava na cadeira da mesa da Sonserina como se o chão pudesse
engoli-la. Bella não respondia mais suas cartas. Andy estava… Andy tinha sumido com um
nascido trouxa, e agora sua mãe só falava dela em sussurros raivosos. E Narcisa… Narcisa
estava sozinha, vendida como uma jóia de família na vitrine do clã Malfoy.
E sua dignidade.
E a absoluta certeza de que, se fosse obrigada a casar com Lucius Malfoy, ele que se
preparasse para viver com uma Black afiada como estilhaço de espelho — linda, letal e
absolutamente insuportável.
A noite caíra pesada sobre Hogwarts, como uma cortina de veludo preto cobrindo qualquer
possibilidade de paz. A maioria dos alunos já dormia, embalados pelo sussurro das tapeçarias
e o crepitar distante das tochas. Mas Sirius Black andava.
Pelos corredores frios, descalço, túnica aberta, cabelos despenteados. Um vulto inquieto.
Parou em frente à parede úmida que guardava o acesso à Sala Comunal da Sonserina. O
coração batia como um tambor — não de medo, mas de algo mais difícil de nomear. Uma
mistura de ressentimento, saudade e uma culpa que não se dissolvia nem com o tempo, nem
com a distância.
Sussurrou a senha com relutância. A parede se abriu com um estalo úmido, revelando o
interior sombrio e luxuoso da câmara que ele evitava desde o primeiro ano.
Lá dentro, sentado com o corpo jogado num dos sofás verdes, Regulus Black observava uma
lareira baixa que lançava sombras longas pelas paredes. Um livro repousava em seu colo,
aberto numa página que ele claramente não lia.
— Se eu gritar, você vai me transformar em sapo? — perguntou Regulus, sem sequer virar o
rosto. Sua voz soou fria, mas cansada. Um cansaço que não vinha do corpo — vinha da alma.
— Não. Mas posso virar um e pular pela janela se for mais fácil que essa conversa.
Regulus soltou um suspiro, fechando o livro com um estalo abafado. Ele ainda não olhava o
irmão, como se encará-lo fosse admitir alguma fraqueza.
— Falar. Só isso.
— Comigo?
— Com você.
O silêncio que se seguiu foi espesso. Vivo. Pulsava como um organismo próprio.
Regulus enfim ergueu os olhos. Olhos cinzentos, parecidos demais com os de Sirius, mas
com um peso diferente. Como se tivessem sido treinados para não demonstrar nada além de
controle e frieza.
— Você acha mesmo que mamãe deixaria eu receber cartas suas? Depois que fugiu daquela
casa como um rato?
Sirius enrijeceu.
— Eu não fugi como um rato. Eu fugi porque... se eu ficasse, eu ia deixar de ser eu. Ia virar
um deles.
— E acha que eu não? — Regulus levantou-se de repente, com os olhos brilhando. — Acha
que é fácil, Sirius? Que é divertido usar essa máscara? Ser o "Black exemplar", o príncipe do
sangue puro? Eu fiquei porque alguém tinha que aguentar. Alguém tinha que... manter a pose.
— E viver do quê? Da misericórdia dos Potter? — Regulus cuspiu o nome como veneno. —
Você teve sorte. Te deram abrigo, te deram afeto. Eu? Eu fiquei com os ecos da sua ausência
e o triplo da pressão. Agora tudo é sobre mim. Regulus isso, Regulus aquilo. Eu respiro fora
do ritmo e ouço o seu nome como fantasma.
Sirius se aproximou lentamente, como se Regulus fosse uma criatura arisca prestes a fugir.
A tensão entre os dois era um fio de arame esticado ao limite. Mas, curiosamente, não havia
raiva pura ali. Havia tristeza. Frustração. Duas infâncias roubadas, cada uma à sua maneira.
Regulus desviou o olhar para o fogo, mais calmo agora. Sua voz saiu rouca:
Sirius sentiu o golpe, seco e direto. Sentou-se na poltrona à frente com um suspiro longo,
passando a mão pelos cabelos.
— Eu também me pergunto isso. Sempre achei que... um dia a gente ia se entender. Ser como
aqueles irmãos que jogam almofadas um no outro e planejam como enganar a mãe pra sair
escondido.
Regulus soltou um riso abafado. Foi quase imperceptível. Mas estava lá.
— Sim.
Regulus o olhou, encarando como quem tenta decifrar um enigma escrito em runas antigas.
— E eu entendo? Ele me olha como se me visse de verdade, e isso é... assustador. Ninguém
nunca me olhou assim. Nem mesmo James. Com Severus, tudo é intenso. Cru. Complicado.
— Ele te conhece?
— Ele sempre teve um jeito… incisivo. Dá a impressão de que cada palavra pode cortar. —
Respirou fundo. — Mas eu o conheço. É leal, não merece que alguém o manipule.
Sirius inclinou a cabeça, com aquele sorriso torto que sempre irritava e encantava ao mesmo
tempo:
— Ah, ele sabe ser perigoso… mas também sabe ser cuidadoso. Quando quer. — Uma
sobrancelha arqueou. — Um pouco como eu.
— Ou carma.
Sirius se levantou. O corpo ainda carregava o cansaço, mas agora parecia mais leve.
Regulus ainda fitava o fogo, pensativo. E então, num sussurro que quase se perdeu nas
chamas, disse:
— Sirius?
Sirius virou lentamente, olhos ardendo. A voz saiu firme, mas com um toque de emoção:
E saiu.
Fora da Sala Comunal da Sonserina, os corredores continuavam escuros. Mas Sirius sentia
algo diferente no ar. Não era reconciliação, ainda não. Mas talvez — só talvez — fosse o
começo de algo que ele achava perdido: uma ponte.
Ou, ao menos, a lembrança de que, antes de tudo, eles eram dois meninos.
Eram irmãos.
--
Andou até sua cama, mas parou ao ver Remus sentado na dele, as costas apoiadas na
cabeceira, olhos vidrados na janela, onde a lua já não mais o torturava. Por um momento,
Sirius hesitou. Mas logo cruzou o quarto, sem dizer nada, e se jogou na cama do amigo com
um suspiro longo, de quem carrega um mundo inteiro nos ombros.
— Me desculpa pelo outro dia . Por não estar lá. Eu devia ter ficado com você. Sempre
fiquei.
Remus desviou o olhar, como se o perdão estivesse num canto escondido do quarto.
— Eu sei. Só que... foi diferente dessa vez. Não doeu só no corpo. Doeu aqui — disse,
tocando levemente o peito.
Sirius assentiu, olhando para as próprias mãos.
— Nunca mais vou fazer isso. Nunca mais. Eu tava... perdido. Mas isso não é desculpa. Você
é meu melhor amigo, Moony. Eu tô com você até o fim.
Remus assentiu com um murmúrio, e os dois ficaram em silêncio. Um silêncio espesso, feito
de tudo que já tinham dito um ao outro — e das coisas que nunca chegaram a dizer.
— Foi... pesado. Ele tá carregando tanta coisa, Moony. Tanta expectativa, tanta pressão. Eu
saí de casa, fugi, mas ele ficou. Aguentou tudo calado. E agora tá tentando sobreviver do jeito
que dá.
— Deve ser difícil confiar em você — Remus comentou, sem maldade, apenas como um
fato.
— É. Ele disse isso. Que não entende como alguém pode se interessar por mim — Sirius riu,
um som amargo. — E, sabe... por um segundo, eu também não entendi.
— Mas você tem esse jeito estranho de ser impossível de ignorar, Sirius Black.
— Talvez.
Os dois riram baixinho, e por um instante o tempo voltou no tempo. Sirius se apoiou nos
cotovelos e ficou observando o amigo, os cabelos bagunçados, o olhar sereno. E Remus o
encarava também, com uma dúvida quente no peito.
"Eu gosto dele? Ainda gosto? Já gostei mesmo? E o que é isso agora? Só saudade de algo
que passou? Ou uma parte minha quer reviver aquele beijo, aquele toque desajeitado num
domingo qualquer?"
Agora era diferente. Sirius estava... mais intenso. Olhava com uma certeza serena, como
quem sabe exatamente o que sente, mesmo que não possa dizer em voz alta. E Remus sentia
esse fogo de longe, como um calor que não era mais pra ele.
Talvez fosse isso. Sirius tinha mudado. Algo nele estava... diferente. Como se tivesse sido
tocado por outra força. Algo que queimava e acalmava ao mesmo tempo.
E, por mais que doesse um pouco, também sentiu alívio. Porque o que eles tiveram fora
tranquilo. Ingênuo. Terno. Uma descoberta lenta e desajeitada. E ele precisava disso naquela
época. Mas agora... Sirius parecia feito de outra coisa.
Sirius gargalhou.
— Eu era um adolescente muito ousado.
— Ainda é.
Remus assentiu, observando enquanto o outro voltava pra sua cama. Mas não dormiu de
imediato. Ficou ali, olhando as costas do amigo, como se quisesse guardar aquele momento
em algum canto da memória.
---
O aroma de café, ovos e mingau quente preenchia o Grande Salão naquela manhã comum de
Hogwarts. O burburinho dos alunos debatendo táticas de Quadribol, deveres de Aritmancia e
os boatos da noite anterior flutuava entre os estandartes das casas. Todos estavam ali. Menos
dois.
Sirius Black e Severus Snape estavam ocupados demais para café da manhã.
— Sev... Sev... me beija... — murmurou Sirius, com a voz rouca, o olhar suplicante e os lábios
entreabertos.
— Sirius... vamos nos atrasar... isso é uma completa estupidez... — disse, num sussurro
abafado, ainda que suas mãos permanecessem firmes na cintura do grifinório, como se não
soubessem obedecer a razão.
— Que se dane o horário! — Sirius arfou, colando seus lábios nos do sonserino com tanta
intensidade que o deixou sem ar. Cada beijo parecia um feitiço lançado sem varinha —
poderoso, caótico, inevitável. Ele chupava levemente o pescoço pálido de Severus, sorrindo
satisfeito ao ver a marca roxa se formando como uma assinatura.
Severus deixou escapar um gemido baixo. Estava rendido. E odiava admitir isso.
Mas o universo — como sempre — conspirava contra qualquer momento de paz que os dois
tentassem roubar da realidade.
— Shhh! — Severus empurrou Sirius pelo peito, ofegante, tentando recompor o mínimo de
decência.
Tarde demais.
— MAS O QUE...?! — Sirius gritou, erguendo-se num salto teatral. Num piscar de olhos,
segurou Severus pela gola da camisa e ergueu o punho fechado, como se estivesse prestes a
desferir um soco.
— VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR, SUA COBRA VISCOSA! — bradou, com os
olhos flamejantes de uma atuação digna de Oscar. Severus, ainda meio atordoado, apenas
piscava, confuso entre a encenação e a descarga de adrenalina.
Na porta, parados, estavam James Potter e Lily Evans, com as insígnias de monitores
brilhando na luz tênue do corredor.
— Vocês dois de novo?! — resmungou, já entediado com o “ódio eterno” entre Black e
Snape. — Juro por Merlim, um dia vão se matar aqui dentro.
— A gente ouviu barulho... achamos que um armário estava possuído — disse Lily, com uma
careta de nojo. Seus olhos verdes pararam por um segundo longo demais nos dois. Em
Severus, mais especificamente.
Ele ajeitava a camisa amassada, o pescoço marcado, a boca ainda meio vermelha.
Ela franziu o cenho. Um, dois segundos de silêncio, e então arqueou a sobrancelha com uma
expressão ambígua — parte julgamento, parte suspeita. Aquela sobrancelha dizia: “Eu sei.”
— Anda, Sirius. Vamos antes que Filch te veja aqui e resolva te prender por "agressão a
répteis" — grunhiu James, puxando o amigo pelo braço.
Sirius piscou para Severus, quase imperceptível, antes de se virar e deixar o local encenando
ofensa.
Lily ainda permaneceu mais um instante. Olhos em Severus. E Severus, como sempre, não
sabia lidar com ela.
— Cuidado com as... vassouras — disse ela, com uma voz carregada de ironia afiada como
navalha.
— E você... cuide do seu cabelo, está começando a parecer uma juba de leão — rebateu
Severus, de forma automática, ainda que sua voz traísse um leve tremor.
Ela sorriu. Não de raiva. Não de desdém. Mas como quem acabava de confirmar uma teoria
antiga.
E então, saiu.
Sozinho, Severus soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. Encostou a cabeça na
madeira atrás de si. O peito subia e descia como se tivesse corrido uma maratona.
Mas o que queimava mais era o sorriso dele, aquele sorriso antes de sair. Aquele que dizia
"vou voltar" sem precisar de palavras.
-----------
Nota da autora:
Querido leitor, se você chegou até aqui, saiba que essas páginas respiram mais do que
apenas magia — respiram saudade, intensidade e os laços complicados que fazem de nós
quem somos. Sirius e Regulus, Sirius e Remus, Sirius e Severus... cada escolha, cada gesto,
cada olhar carregado de silêncio é uma tentativa de se encontrar num mundo que insiste
em empurrar máscaras.
Se você riu, se emocionou ou se surpreendeu, saiba que esse é o ponto: nem todo caos
precisa ser destrutivo; às vezes, ele constrói pontes silenciosas, mesmo entre corações que
pareciam irreconciliáveis.
E lembre-se: no fundo, todos os Black e todos os Potter, todos os que amam e perdem,
respiram juntos nesse mesmo ritmo caótico. Só que alguns de nós, felizmente, ainda têm a
chance de se reconhecer.
Era um daqueles raros dias de céu limpo em Hogwarts. A brisa suave de outubro fazia as
folhas dançarem no chão como se tentassem ensaiar uma coreografia com o vento. O lago
refletia o dourado das árvores e o som das risadas dos alunos parecia mais alegre do que o
normal.
Lily Evans estava sentada à sombra de um salgueiro perto da margem, com a cabeça apoiada
no ombro de James Potter. Os dedos dele brincavam com os fios de seu cabelo ruivo,
enroscando-os com cuidado, como se quisesse decorar cada detalhe seu.
- Você sabe que se continuar assim eu durmo - murmurou ela, sorrindo com os olhos
semicerrados.
Lily deu uma cotovelada leve em suas costelas, mas não se moveu.
- Não acredito que você me convenceu a matar a última aula pra ficar aqui.
- É amor, Evans. Amor e açúcar - disse ele, oferecendo a tortinha com uma expressão tão
exageradamente galante que Lily teve que rir.
Ficaram ali por mais um tempo, dividindo doces, trocando comentários sobre o uniforme
amarrotado de Filch e como Sirius provavelmente ainda estava dormindo no alto da Torre da
Grifinória. Era fácil estar com James agora. Muito mais fácil do que ela jamais imaginara no
passado.
Ela suspirou, olhando para o céu que começava a ganhar tons rosados.
- Você está estranhamente quieta, Evans... Isso me preocupa. Está planejando minha morte
silenciosa? - brincou James, inclinando o rosto para o dela, os olhos castanhos cintilando.
- Estou apenas... aproveitando. Você é quase suportável quando fica assim - respondeu ela,
fingindo desdém, mas sorrindo.
James sorriu de volta e a beijou levemente. Um beijo calmo, quase reverente, como se
estivesse tentando guardar aquele momento num frasco.
Lily se afastou levemente de James, os olhos seguindo a figura magra do antigo melhor
amigo. A mochila pesava em suas costas, e a cicatriz de um silêncio jamais resolvido pesava
ainda mais na memória dela.
- Sempre me pergunto se ele dorme em pé. O que aquele morcego faz com tantos livros? Jura
que está lendo tudo? Provavelmente só os abraça de madrugada pra fingir que tem
sentimentos.
- James! - exclamou, se afastando dele. - Eu já pedi pra você parar com isso.
- Ok, ok. Mas, Lil... eu só tô tentando proteger você. Ele foi um idiota com você, lembra? Te
chamou de...
- Eu sei muito bem o que ele me chamou. - A voz dela saiu mais baixa, mas firme. - E não é
por isso que eu vou gostar de ver você zombando dele como se fosse um animal enjaulado.
Houve um silêncio tenso. O vento mexia as folhas secas aos pés dos dois.
- Você ainda se importa com ele? - James perguntou, não com ciúmes, mas com uma
curiosidade quase triste.
Lily não respondeu de imediato. Só ficou olhando o ponto onde Severus havia desaparecido.
- Eu me importei por tempo demais, Potter - disse, por fim, com a voz quase um sussurro. - E
mesmo agora... tem dias que sinto falta de quando ele ainda me ouvia. De verdade. Antes de
tudo. Antes de... nós virarmos estranhos.
James passou a mão pelos cabelos, incomodado, mas respeitando o silêncio que ela pedia
sem palavras.
- Eu só não quero que ele machuque você de novo - disse, sério, deixando de lado o tom de
piada.
- E eu só quero que você entenda que não precisa odiar alguém só porque eu me afastei -
respondeu ela, finalmente olhando para ele.
- Tá bem. Sem mais piadas com o Morcego Mestre dos Livros - disse, dando um meio
sorriso. - Pelo menos... por hoje.
Eles se aproximaram de novo, e a cabeça dela encontrou novamente o ombro dele. Mas os
olhos verdes... ainda estavam distantes. Vagando por corredores antigos, onde um dia, ela e
Severus caminhavam lado a lado. Quando ele ainda sorria para ela. Quando ela ainda
acreditava que amor e amizade podiam ser a mesma coisa.
E, mesmo ali, com James ao seu lado e o céu tingido de rosa acima, Lily sentiu uma pontada
no peito.
---
A loira estava sentada no canto da terceira fileira, como sempre. Mas, ao contrário da sua
postura geralmente impecável, ela balançava uma perna com impaciência e tamborilava os
dedos sobre o tampo da mesa. O movimento era sutil, quase imperceptível - mas para uma
Black, qualquer traço de inquietação era um escândalo.
Severus Snape entrou, como se tivesse sido expulso de um redemoinho. A capa desalinhada,
os cabelos mais bagunçados do que o normal e o olhar evasivo. Estava quase alcançando sua
carteira costumeira quando Narcisa estalou a língua e o chamou:
Severus nem tentou mentir. Só resmungou algo inaudível e se deixou puxar por ela, como se
estivesse cansado demais para resistir.
Narcisa ajeitou a postura, cruzando as pernas e encarando o amigo com intensidade cirúrgica.
- Eu estava prestes a invadir o Salão Principal e anunciar seu desaparecimento com cartazes.
E aí você surge... com essa cara de quem ou dormiu num porão ou passou a noite fazendo
coisas indecentes.
- O que houve?
Severus hesitou. A sombra de algo passou em seus olhos. Mas antes que ele conseguisse
formular uma resposta, Narcisa continuou:
- Porque do meu lado a noite também não foi nenhuma ópera de fadas, se quer saber. Recebi
uma carta da minha mãe. - Ela revirou os olhos dramaticamente. - "O noivado com Lucius
está quase fechado", ela escreveu, como se estivesse me anunciando a morte com fita de
cetim prateado. O idiota mal sabe meu nome direito. Aposto que me confunde com Bellatrix
quando está sonolento.
- E pra completar - ela seguiu, já embalando o desabafo - você some. Some. Como se eu não
tivesse literalmente te visto entrar em colapso mental depois da última palhaçada do meu
primo rebelde.
- Mas seu sumiço tem nome e sobrenome, não é? - disse pausadamente, com um sorriso torto.
- S-i-r-i-u-s.
Severus congelou por um momento. Respirou fundo, mantendo o olhar fixo no tampo da
mesa. Narcisa, claro, não recuou.
- Nunca me contou diretamente. Eu soube... pelas entrelinhas. Pela sua cara quando Sirius
aparece. Pela sua fúria mal disfarçada quando ele faz alguma estupidez pública. E, é claro... -
ela inclinou o rosto e lançou um olhar certeiro para o pescoço dele - pelas marcas.
Severus passou a mão rapidamente pelo local, corando, mas sem admitir nada.
- E então? - ela perguntou, suavemente agora. - Vai me deixar deduzindo pra sempre ou vai
confiar em mim de verdade?
Houve um silêncio denso. Severus olhou para Narcisa como se procurasse rachaduras
naquela parede de sarcasmo e elegância. Mas não havia julgamento em seus olhos. Só
curiosidade... e cuidado.
- Não precisa me dizer. Estamos falando do Sirius Black. "Complicado" é o segundo nome
dele. - Narcisa apoiou o queixo na mão. - Mas, Severus... o que vocês têm é real?
Severus hesitou.
- Às vezes, acho que sim. Às vezes, sinto que ele me olha como se enxergasse tudo o que
ninguém nunca quis ver em mim... e mesmo assim ficasse. Mas em outras... ele é só caos.
Barulho. Confusão. E eu sou tudo o que ele sempre odiou. Eu não devia estar com ele. Eu
devia... manter distância. Ser inteligente.
- Bom... acho que você merece pelo menos um pouco de caos. Do tipo que te faz sorrir.
Mesmo que escondido. Você vive se apagando pelos outros. Talvez, dessa vez, seja hora de
arder um pouco.
- E se ele me largar? - Severus perguntou, quase num sussurro. - E se ele resolver voltar pro
mundo dele e me deixar aqui... como sempre?
- Aí você vai sobreviver - disse Narcisa, firme. - Porque você é Severus Snape. E mesmo que
não perceba, já sobreviveu a coisa pior.
Narcisa sorriu.
A porta da sala se abriu. Mais alunos começaram a entrar, ocupando seus lugares com a
algazarra típica de uma manhã fria.
Narcisa não disse mais nada. Apenas tocou brevemente o braço de Severus. Um gesto
pequeno, quase imperceptível, mas que significava: estou aqui.
E ele soube. Sabia que, por mais que o mundo o olhasse com desconfiança, ele ainda tinha
uma âncora.
---
Os jardins de Hogwarts estavam especialmente agitados naquela manhã de sábado. Os
Marotos estavam esparramados sobre a grama, rindo alto de alguma piada sem graça do
James, enquanto Lily Evans revirava os olhos com aquele sorrisinho que ela fingia esconder -
mas ninguém ali era tão discreto quanto queria ser.
Foi então que o som ritmado de saltos se destacou no ambiente, como o anúncio de uma
tempestade chique.
Narcisa Black Malfoy descia os degraus de pedra com a elegância de quem sabia exatamente
o efeito que causava. Os saltos vermelhos reluziam ao sol e cada passo era cronometrado
como uma marcha imperial. A brisa brincava com seus cabelos loiros perfeitamente
ondulados, e o gloss rosa brilhante nos lábios fazia o sol parecer pálido.
Silêncio.
Até o barulho das risadas morreu por um segundo, como se até o vento soubesse que era hora
de calar a boca.
Os Marotos se entreolharam.
Ela nunca aparecia ali. Ainda mais com aquele olhar calculado, como se estivesse prestes a
dar um xeque-mate e apenas saboreando a jogada.
- Se veio me envenenar com um batom enfeitiçado, prima, entre na fila. Peter está antes de
você.
- Como se eu desperdiçasse veneno com você - respondeu Narcisa, sem sequer piscar,
parando a menos de dois metros do grupo. - Vim por um motivo mais nobre. Quase
civilizado, até.
Ela se virou para Sirius, ignorando o resto com um aceno de cabeça digno da realeza.
- Precisamos conversar.
Os Marotos olharam de Sirius para Narcisa, depois entre si. Espanto era pouco. Primos
Black? Conversando? Em público?
- Pare de fugir dos seus deveres como herdeiro da Casa Black, Sirius. E deixe o pobre Reg
respirar um pouco, sim? Ele já vive sob pressão suficiente tentando tapar os buracos da sua
rebelião particular. - Ela pausou, o sorriso agora carregado de escárnio. - E antes que diga
algo espirituoso, já vou avisando: não quero desculpas.
- Vai ser um Lorde, então vai aprender a se comportar como um - retrucou ela, ríspida. - E
também vai respeitar meu acompanhante.
- Acompanhante?
O sorriso ladino que nasceu nos lábios de Narcisa era um poema de travessura nobre.
- Severus Snape.
O efeito foi imediato. Sirius arregalou os olhos, a garganta deu um nó, e ele demorou mais de
três segundos para responder - o que, para Sirius, era o equivalente a um travamento total do
sistema.
- Você... vai levar o Snivellus? - tentou esconder o tremor na voz. - Por que, exatamente?
- Ah, sei lá. Ele é inteligente, educado, tem bom gosto pra vinhos e, sinceramente, se eu tiver
que passar uma tarde inteira ouvindo Lucius falar sobre heranças puristas e o brilho do
próprio cabelo, prefiro pelo menos ter alguém interessante por perto. - Ela deu de ombros
com elegância. - E você, meu querido primo, vai junto. Pra manter as aparências, claro. Não
queremos que pensem que o herdeiro rebelde da nossa adorável linhagem está se
perdendo completamente, não é?
- Você vai a um encontro com a princesa da Sonserina e o mascote de poções dela? Isso sim
é filme de terror, Black!
- Vai querer levar flores pro Snivellus ou já comprou? - disse James, gargalhando.
- E a sua família ama complicar sua vida - murmurou Lily, ainda tentando decifrar o sorriso
que Narcisa dera antes de partir.
Sirius olhou para o horizonte. Seu peito ainda acelerado. E uma única frase rodando na
cabeça:
Esmerilhão... essa mulher estava armando algo. E ele, como um perfeito, já estava mordendo
a isca.
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Nota da Autora:
Gente, hoje eu tô animada! 💃💥 Sério, é praticamente um festival de capítulos —
😂
guardem os confetes e os marshmallows, porque Hogwarts nunca foi tão cheia de drama,
risadas e olhares complicados ao mesmo tempo!
Se você leu tudo até aqui, parabéns! Sobreviver a James zoando Severus, Sirius surtando
👏✨
com a família e Narcisa marchando como uma imperatriz é um esporte radical, e você
conseguiu sem varinha. Palmas!
E só pra constar... se alguém aqui ainda não morreu de curiosidade sobre como vai ser
esse encontro "sofisticado" de Narcisa com Lucius, respirem fundo. Porque o caos vai
começar às três em ponto, e, spoiler: o acompanhante é ninguém menos que Severus
Snape. Merlin, isso vai ser delicioso de assistir.
Chapter 16: Lição 16
O corredor das masmorras estava silencioso, exceto pelo eco suave dos passos de Sirius
Black. A luz das tochas tremeluzia nas paredes de pedra úmida, lançando sombras longas e
trêmulas que pareciam dançar com seus pensamentos. Ele não devia estar ali. Não naquele
horário, não naquele lado do castelo. Mas o incômodo em seu peito crescia a cada hora que
passava. E quando se tratava de Severus Snape... ele nunca fora bom em ignorar o
desconforto.
Parou em frente à porta do dormitório sonserino, hesitando. Tocou duas vezes. Silêncio.
Estava prestes a bater de novo quando a porta se abriu com um rangido baixo. Severus, de
expressão sonolenta, camisa de linho amassada e um livro na mão, o encarou como se ver
Sirius ali fosse uma miragem.
— O que está fazendo aqui, Black? — perguntou em voz baixa, os olhos escuros varrendo o
corredor atrás dele.
— Narcisa?
— Ela quer que a gente vá com ela a um jantar... com o Lúcio. — Sirius revirou os olhos. —
Disse que seria mais fácil enfrentar a arrogância do Malfoy com a gente lá.
— Com a gente?
— É. Comigo e você. Juntos. — Sirius deu um meio sorriso tenso. — Aparentemente ela
gosta de um espetáculo bem montado.
O silêncio entre eles foi preenchido pelo crepitar suave da lareira acesa. Severus largou o
livro sobre a mesa e cruzou os braços.
— E por que exatamente ela nos quer juntos? — perguntou, a voz firme, mas havia um brilho
de compreensão nos olhos.
— Porque ela sabe — respondeu Sirius. — Ou ao menos... desconfia. E você meio que...
deixou escapar. Ou ela percebeu?
Severus não respondeu de imediato. Caminhou até a lareira, apoiando-se na borda de pedra
com os dedos magros. O fogo lançava reflexos dourados em seu rosto pálido.
— Então ela quer nos exibir? — murmurou. — Como uma forma de provocar o Lúcio? Ou
de validar sua própria rebeldia?
— Talvez os dois. A questão é que... isso tudo me pegou desprevenido. Ela falando com
naturalidade, como se fosse normal... como se a gente pudesse ser visto.
— E não podemos? — Severus perguntou, virando-se para encará-lo. — É isso? Você tem
vergonha de ser visto comigo?
— Severus, não é vergonha. — Sirius passou as mãos pelos cabelos, frustrado. — É...
complicado. Você sabe disso. A gente está andando em corda bamba desde que isso começou.
— "Isso"? — Severus repetiu, a voz baixa como uma lâmina. — Chame pelo nome, Sirius.
Relacionamento. Ou você ainda está tentando fingir que somos só um erro recorrente atrás
das tapeçarias?
— Não diz isso — respondeu Sirius, quase num sussurro. — Você sabe que não é isso. Eu
vim até aqui, não vim?
— E ainda assim não quer que ninguém saiba. Nem mesmo seus amigos. Especialmente o
Potter.
O nome caiu como uma âncora no ar entre eles. Sirius fechou os olhos por um segundo.
— James acha que eu te odeio. Todo mundo acha. E com razão. A gente se detestou por anos,
Severus. Você me xingava nos corredores, eu te enforcava com feitiços. Não dá pra
simplesmente aparecer de mãos dadas no Salão Principal.
— Então estamos presos nisso. Escondidos. Como se fosse errado. — Severus o encarava
com algo entre raiva e decepção. — Você diz que se importa, mas não está disposto a pagar o
preço.
Sirius se aproximou, devagar, até estar diante dele. Seus olhos buscaram os de Severus.
— Eu estou pagando o preço. Todos os dias. Fingindo que não sinto o que sinto quando estou
perto de você. Morrendo de medo de estragar tudo com um comentário fora de hora. Me
escondendo até do meu reflexo, porque não sei mais quem sou sem você. Isso não é pouco,
Severus.
O silêncio se fez de novo, mas desta vez era outro. Quente. Doloroso. Honesto.
Severus desviou os olhos, mas não antes que Sirius visse a rachadura na muralha.
— E Regulus? — perguntou com amargura. — Ele já sabe. Nos viu. Qualquer hora vai abrir
a boca.
— Ele não vai. — Sirius tocou a mão de Severus. — Ele me prometeu. E... bem, ele gosta de
você. Disse que está do seu lado, no fundo.
— Como alguém que entende que nem tudo é preto no branco, mesmo quando se trata de um
Black.
Severus soltou um suspiro e recostou a cabeça na pedra fria da parede. Sirius o observava
com uma ternura rarefeita, como quem olha para algo precioso demais para ser tocado sem
cuidado.
— Não. Mas talvez esteja na hora de pararmos de viver como se estivéssemos fazendo algo
vergonhoso.
Severus o encarou por um longo instante. Depois, apertou sua mão de volta.
— Sempre estive.
--
Ele tinha enviado uma garota do primeiro ano — Elsa Rosier, uma menina sardenta e tagarela
— com um bilhete dobrado escondido entre as páginas de um livro de Poções. A garota fez
questão de piscar para ele antes de sair, e Severus quase se arrependeu de ter pedido o favor.
A porta finalmente se abriu com um rangido preguiçoso. Narcisa Black entrou com os
cabelos impecavelmente penteados, os olhos cintilando de curiosidade e leve irritação.
— Isso tinha que ser importante pra me tirar da minha hidratação de camomila, Severus —
disse ela, tirando as luvas e caminhando na direção do amigo com sua elegância felina.
Severus descruzou os braços e andou até ela, o cenho franzido.
— O que está acontecendo, Narcisa? Por que você foi falar com o Sirius? Você enlouqueceu?
Ela revirou os olhos com impaciência e cruzou os braços, imitando a postura dele de minutos
antes.
— Meu primo é um covarde, Sev. Eu não sei o que você vê nele. Honestamente. Ele age
como se você fosse um segredo sujo guardado embaixo do tapete da Grifinória.
— Não, me escuta. Eu sei que vocês estão se escondendo — sua voz abaixou, íntima, firme
— e eu entendo. Mas me parte o coração ver você se arrastando emocionalmente por alguém
que te esconde como se fosse um delito de juventude. E aí ele ainda vem dizer que “ficou
confuso” quando eu sugeri que vocês dois fossem comigo ao jantar com Lucius?
— Claro que sim. Eu queria ver se ele tinha a decência de assumir algo em público, mesmo
que disfarçado. Mas sabe o que ele fez? Ficou vermelho e tropeçou nas palavras como um
menino de onze anos vendo a professora de Transfiguração.
Severus suspirou, a tensão escorrendo por seus ombros. Ele se sentou no sofá de couro verde-
escuro, o peso da situação afundando-o.
— Você tem razão. Ele é um covarde... Mas eu também sou. — Seus dedos trêmulos
brincavam com a costura da túnica. — Tenho tanto medo, Cissa. De que ele volte atrás. De
que tudo isso acabe do mesmo jeito que começou: de repente e com dor.
Narcisa se aproximou, com os olhos mais suaves agora. Sentou ao lado dele, tocando seu
braço com a delicadeza de quem conhece até os espinhos da alma do outro.
— Pois então é isso. Já que todo mundo acha que vocês vão me acompanhar no inferno do
jantar com o idiota platinado, por que não aproveitar e tornar isso um encontro? Mesmo que
disfarçado. Mesmo que cheio de máscaras. Você merece ao menos uma noite. Um momento
pra ser só... você com ele. Sem esconderijos. Sem fantasmas.
Severus olhou para ela, surpreso pela ternura atrás do olhar afiado da amiga.
— Você está tentando me dar um encontro? — Ele sorriu, um sorriso pequeno e torto, mas
genuíno. — Você é uma víbora maravilhosa, Cissa.
— Ah, meu bem — ela sorriu de volta, puxando-o para um abraço apertado —, eu sou a
víbora com coração. A mais rara.
Severus fechou os olhos por um instante. No aconchego dos braços da amiga, ele permitiu
que a emoção o alcançasse. Permitiu-se imaginar que talvez... talvez Sirius estivesse apenas
com medo. Assim como ele. E que, com um empurrão certo, os dois poderiam finalmente
sair das sombras e respirar.
— Obrigado — sussurrou ele, a voz embargada. — Por tudo isso. Por sempre me ver.
— Sempre verei — ela respondeu com firmeza. — E se ele te magoar, prometo envenenar o
sabonete dele.
Eles riram juntos, e por um momento, as paredes geladas das masmorras pareceram um
pouco mais acolhedoras.
---
Nota da autora:
Gente, alguém me explica como eu saí de “vou escrever só um draminha leve” pra
organizar literalmente um jantar tenso com Malfoy, Narcisa fofoqueira, Sirius surtando e
Próximo passo: criar uma playlist “músicas para sofrer no jantar de família” 🎶🍷
Snape vulnerável??? Hahahaha. Festival de capítulos mesmo, eu tô é perdida nesse baile.
.
👀
P.S.2: Se o Lucius soltar uma frase arrogante, já aviso que Severus vai precisar de um
calmante (ou de Sirius segurando a mão dele por baixo da mesa ).
Chapter 17: Lição 17
Sirius Black balançava as pernas num ritmo inquieto, sentado sobre a mureta próxima à porta
principal do castelo. O vento da tarde brincava com os fios soltos do seu cabelo, e ele
praguejava mentalmente por ter escolhido aquela camisa de linho meio aberta — casual
demais, talvez, para alguém que estava prestes a encarar Narcisa Black e Severus Snape ao
mesmo tempo. E ainda por cima atrasados.
Ele olhou o relógio pela terceira vez em cinco minutos. Já passava de meia hora. Meia hora
em que ele poderia estar deitado no sofá do Salão Comunal da Grifinória, fingindo que se
importava com a tarefa de Transfiguração, ou dando risada com James de qualquer plano
idiota envolvendo sapos saltadores.
Suspirou.
O desejo de levantar e sumir pelo primeiro corredor que encontrasse era quase irresistível.
Mas havia duas coisas que o seguravam ali feito maldição.
Primeiro, Regulus.
Aquela conversa com o irmão dias atrás — ou melhor, aquele quase-acerto de contas entre
socos contidos e silêncios desconfortáveis — ainda ecoava na mente de Sirius. Pela primeira
vez, ele sentiu que Regulus realmente queria conhecê-lo, não como o traidor dos Black, mas
como o irmão mais velho que ele ainda tentava enxergar por trás da rebeldia. E isso... isso
valia mais do que ele estava pronto para admitir em voz alta.
Ele sabia o quanto aquele encontro era importante. Narcisa tinha feito questão de marcar um
momento “neutro”, fora da rotina de Hogwarts, para discutir... bem, o quê exatamente,
ninguém sabia. Talvez uma tentativa de entender o que estava acontecendo entre Severus e
Sirius. Ou uma ameaça velada disfarçada de chá das cinco. Com ela, nunca se sabia.
Mesmo que seu pé estivesse batendo no chão com uma força que denunciava o nervosismo.
Mesmo que o céu começasse a escurecer, tingindo as torres de Hogwarts com um tom
dourado melancólico.
— Se eles não chegarem em cinco minutos, eu juro que viro um morcego e voo pro outro
lado do mundo — murmurou para si mesmo, puxando a varinha como se pudesse conjurar
paciência com um feitiço.
Quando Severus olhou em sua direção, seus olhos se encontraram — e havia algo naquele
olhar que misturava alívio, advertência e uma pitada de ternura escondida que fez o estômago
de Sirius virar.
— Achei que tinha desistido — disse Severus assim que se aproximaram, com aquele tom
entre a provocação e o alívio.
— E eu achei que vocês tinham sido sequestrados por elfos domésticos revolucionários —
respondeu Sirius, tentando soar leve, mesmo que seus dedos estivessem suando dentro do
bolso.
— Que bom ver que o seu senso de humor continua intacto, Sirius.
Ele apenas sorriu, sem ousar responder. Era aquela a famosa Narcisa Black: voz afiada como
uma lâmina, postura de rainha e olhos que podiam perfurar o orgulho de qualquer um.
— Vamos andando? — sugeriu Severus, quebrando a tensão. — Malfoy ja deve esta nos
esperando a horas.-Narcisa abriu um sorriso malicioso
Sirius assentiu e, juntos, os três começaram a seguir em direção a saida de Hogwarts, sob a
luz suave do entardecer.
O silêncio que os acompanhava não era exatamente confortável, mas carregava a promessa
de algo importante. Um início, talvez. Um confronto. Um recomeço.
E, mesmo com os pés ainda inquietos e o coração descompassado, Sirius estava ali.
Por Regulus.
Por Severus.
E por ele mesmo — tentando, pela primeira vez em muito tempo, não fugir daquilo que
realmente importava.
---
O restaurante “As Três Magnólias” era discreto e encantador. Escondido entre uma livraria
empoeirada e uma loja de velas aromáticas, era o tipo de lugar que não chamava atenção, mas
que acolhia aqueles que procuravam refúgio — ou sigilo.
Lucius Malfoy já estava lá, impecável em um casaco cinza escuro e luvas de couro, sentado
como se fosse dono do lugar. Ele os recebeu com o mesmo olhar que se lança a uma peça de
arte que se detesta, mas que é cara demais para ignorar.
Severus se manteve em silêncio, mas seu olhar frio analisava tudo — a posição da cadeira de
Lucius, o vinco no guardanapo, a forma como ele segurava a taça. Narcisa, por sua vez,
deslizou para o assento ao lado de Lucius com a elegância de uma rainha entediada e arrastou
Severus consigo, deixando Sirius na frente do noivo.
— Que bom que vieram — disse Lucius, ajeitando o anel no dedo como quem ajeita uma
coroa. — Estava começando a pensar que Narcisa havia se perdido no caminho. Ou sido
sequestrada.
— Se sequestrassem a Cissa, eles iriam nos pagar pra pegarmos ela de volta — comentou
Sirius, já se servindo de pão como quem era íntimo do ambiente. — Ia sair caro, ela morde.
Narcisa bufou. Severus soltou uma risada discreta. Lucius fingiu não ouvir.
O jantar começou com formalidades. Conversas mornas sobre Hogwarts, o Ministério, a nova
ministra da Magia que — segundo Lucius — “tinha a presença de uma doninha
amedrontada”.
Sirius sorriu.
Lucius estreitou os olhos. Narcisa fingia brincar com o cálice, mas não escondia a diversão.
— Você podia tentar ser menos amargo, Lucius — disse ela, sem levantar os olhos do prato.
— Pelo menos em jantares públicos.
— E você podia tentar não me envergonhar — respondeu ele, baixinho, mas ríspido. —
Chega aqui acompanhada de dois... elementos, como se fosse um protesto.
Narcisa pousou os talheres, com calma. Olhou para ele. Os olhos azuis estavam frios como
vidro quebrado.
— "Dois elementos"? Interessante. Um é meu amigo. O outro é meu primo. E você, Lucius, é
um noivo por obrigação que até hoje não entendeu que não está acima de ninguém nesta
mesa.
— Ah, querido — disse Narcisa, erguendo-se com suavidade gélida — você se humilha
sozinho. Eu só aplaudo.
Ela pegou a bolsa, deu um beijo na bochecha de Severus — um gesto genuíno e carinhoso
—, piscou para Sirius e saiu com a cabeça erguida, como se estivesse indo para um desfile.
Lucius ficou imóvel por um segundo. Então, sem sequer olhar para os dois rapazes, levantou-
se.
— Você viu aquilo?! Narcisa arrasou. Merlin, ela devia dar aulas de demolição emocional!
Severus tentou manter a compostura, mas riu também. E riu de verdade. Sem sarcasmo. Sem
reservas. E Sirius olhou pra ele com o coração derretendo num ritmo que não ousava
confessar.
— Isso foi um desastre — comentou Severus, enxugando uma lágrima de riso. — Uma ópera
em chamas.
— Uma ópera em chamas com sobremesa incluída — disse Sirius. — E já que estamos
aqui… quer… ficar?
Severus hesitou. Olhou ao redor. Não havia mais ameaças. Só as velas dançando, o murmúrio
das outras mesas, e Sirius olhando pra ele com olhos brilhando de liberdade. Pela primeira
vez, ali estavam apenas como dois garotos. Não como o herdeiro rebelde de uma família
cruel. Não como o prodígio sombrio de uma casa desprezada. Apenas dois garotos. Sozinhos.
Livres.
Eles pediram outra rodada de vinho (sem álcool — ainda eram alunos, afinal), e dividiram
uma sobremesa de frutas flambadas com chantilly encantado. Conversaram sobre tudo: sobre
a vez que Severus explodiu um caldeirão porque Sirius lhe dera uma receita falsa, sobre os
livros que Sirius lia escondido da mãe, sobre como Severus quase se afogou no Lago Negro
tentando provar um ponto pra ninguém.
— Continua sendo, às vezes — respondeu Sirius, rindo. — Mas agora é o meu idiota.
Severus corou. Sirius sorriu. E naquela noite, sem beijos escondidos em salas escuras, sem
olhares furtivos pelos corredores, eles tiveram seu primeiro encontro. Simples. Fofo. Livre.
Um começo — ainda cheio de riscos, mas cheio de promessas também.
E quando saíram do restaurante, as mãos se tocaram por reflexo. Nenhum dos dois afastou.
O ar de Hogsmeade estava frio, mas não agressivo. Era um frio que acariciava o rosto, que
deixava a pele ruborizada e viva. A neve caía devagar, cobrindo os telhados de branco e
silenciando o vilarejo como um feitiço protetor. Sirius e Severus caminhavam lado a lado
pela ruela de paralelepípedos úmidos, as mãos ocasionalmente se roçando.
Não falavam. Ainda não. A conversa havia cedido lugar a uma calma estranha — boa.
Daquelas que só acontece entre duas pessoas que, mesmo sem dizer nada, sabiam que algo
havia mudado. Que eles haviam mudado.
— Sabia — disse Sirius, de repente, quebrando o silêncio. — Sabia que essa noite ia ser
caótica. Mas não sabia que ia ser... tão boa no fim.
Severus o encarou. Seus olhos, tão acostumados a esconder, pareciam agora atravessados por
uma luz tímida.
— Eu achei que a gente fosse sair correndo depois da primeira taça — confessou. — Que a
gente não saberia como... ser nós. Em público.
— E no fim... a gente foi só dois garotos jantando e rindo de um Malfoy bufando como um
dragão constipado — completou Sirius, com um sorriso.
Severus riu. Um riso sincero, como o de alguém que está vivendo, não apenas suportando.
Chegaram a uma clareira entre duas construções abandonadas, onde uma velha fonte
congelada se erguia ao centro. Não havia mais ninguém por perto — só a lua cheia alta no
céu e a neve sussurrando sobre os telhados.
— Aqui — disse Sirius, parando. — Esse é o momento perfeito. É quando, nos filmes
trouxas, toca uma música melosa e o casal se beija.
— Claro que não. Mas... Remus me obriga. — Sirius riu. — Ele acha que é educação
emocional.
— E funciona?
Eles se olharam.
Sirius deu um passo à frente, e Severus não recuou. Pelo contrário. A respiração deles se
encontrou no ar frio. Os olhos de Sirius estavam iluminados pela lua, e havia algo de
esperançoso demais neles, algo de... vulnerável.
Severus levantou a mão devagar e tocou o rosto do grifinório. O toque foi leve, quase
hesitante, mas firme o suficiente para ser um convite. Ou talvez uma permissão.
— Você tem certeza? — murmurou Severus, a voz rouca, baixa, como se temesse acordar o
feitiço da noite.
E então se beijaram.
Não foi urgente. Nem faminto. Foi suave. Um reconhecimento. Um estamos aqui, um nós
existimos, um isso é real. O mundo sumiu, e tudo que restou foram lábios entrelaçados e
corações se rendendo, finalmente, à ideia de que estavam seguros. Ali. Um no outro.
Quando se separaram, a neve parecia cair ainda mais devagar. Sirius sorriu com os olhos
fechados, a testa encostada na de Severus.
Severus riu.
E, por alguns instantes, ficaram ali — dois meninos de 17 anos, cheios de história, de medos
e de cicatrizes, mas também cheios de possibilidades.
A noite os protegia.
-----
Sirius: Então, meus caros leitores, por hoje é só. Sim, eu sei, capítulos demais em um
único dia — eu sou praticamente um presente de Natal antecipado.
Sirius: Não estraga a magia, Sniv— digo, Severus. A autora claramente perdeu a sanidade
e resolveu escrever como se tivesse tomado três garrafas de fogo-whisky.
Severus: Pelo menos ela tem mais disciplina do que você jamais terá.
Sirius: E ainda assim, aqui estou eu, roubando a cena na nota final. Coincidência? Acho
que não.
Severus: Merlin, como você sobreviveu até os dezessete anos continua sendo um mistério
para a ciência.
"Estou tão orgulhosa de você, Cissy. A última Black que está dando certo."
A última.
Como se Andrômeda tivesse sido apagada da árvore genealógica de maneira tão natural
quanto um borrão de tinta num pergaminho.
Narcisa respirou fundo, tentando conter a náusea que subia. Não queria casar com Lucius
Malfoy. Nunca quis. Mas também não queria decepcionar a família — não mais, não depois
do que aconteceu com Andy. Era como viver entre grades douradas: lindas, reluzentes… mas
ainda assim, grades.
Lucius, descendo com a habitual elegância calculada, o loiro perfeito caindo sobre os ombros
e aquele sorriso de quem sabia exatamente o efeito que causava. Ele parou ao notá-la,
inclinando levemente a cabeça, como se estivesse prestes a se entediar antes mesmo de abrir
a boca.
— Narcisa. — A voz dele veio como seda afiada. — Fugindo de mim ou apenas ignorando?
— Estava tentando apenas viver em paz, Lucius, mas você parece onipresente.
— E por que não a você? — Ele desceu mais um degrau, se aproximando, os olhos
acinzentados fixos nela. — Você gosta de estabilidade, de respeito, de poder. Eu ofereço tudo
isso.
— E amor, Lucius? — O tom dela foi ácido, quase um desafio. — Ou devo me contentar com
um marido que sabe mais sobre política do que sobre o coração da própria esposa?
Ele riu baixo, aquele som quase inaudível que a irritava e intrigava ao mesmo tempo.
— Amor é um luxo que poucos podem se dar. E, francamente, é superestimado.
Narcisa virou o rosto, decidida a subir e encerrar a conversa. Mas quando deu um passo, as
escadas começaram a ranger e se mover abruptamente, mudando de direção. O movimento a
pegou de surpresa.
O salto do sapato escorregou na pedra polida, e por um segundo o mundo girou. O vazio do
vão entre as escadas pareceu abrir a boca, pronto para engoli-la.
Foi então que mãos firmes, rápidas como o reflexo de um jogador de quadribol, a agarraram
pela cintura.
Ela arfou, sentindo o corpo ser puxado contra o dele. O perfume amadeirado de Lucius a
envolveu antes que pudesse pensar em se afastar. Narcisa segurou instintivamente no braço
dele, os dedos se fechando no tecido caro do uniforme, buscando equilíbrio.
Não havia ninguém ali para testemunhar, apenas o rangido distante das escadas ainda se
movendo. Os olhos de Lucius tinham um brilho quase divertido, mas por baixo havia algo
mais — uma intensidade que fez o estômago de Narcisa revirar.
— Cuidado, Cissy… — disse ele, a voz mais baixa, quase um sussurro carregado de ironia.
— Não quero que minha futura noiva se parta em pedaços antes do casamento.
Ela tentou recobrar o fôlego, o coração disparado. Quis acreditar que era apenas pelo susto,
pelo quase-tombo. Mas não era só isso.
— Não me chame assim. — A voz saiu mais fraca do que pretendia, e isso a irritou.
Lucius não obedeceu. Ao contrário, seus dedos apertaram um pouco mais a cintura dela,
certificando-se de que estava firme no degrau. O toque não era rude… mas também não era
inocente.
— Você deveria me agradecer — disse ele, o canto da boca se erguendo num sorriso
calculado. — Salvei você de uma queda nada digna de uma Black.
— Ah, mas eu não preferiria. — O olhar dele desceu, rápido, para os lábios dela antes de
voltar aos olhos. — E não minta para si mesma… você também não.
Por um breve instante, o tempo pareceu se esticar. Narcisa sentiu a respiração dele, quente, e
percebeu que ainda não havia se afastado. Uma parte dela — a parte treinada para manter
sempre o controle — gritava para se soltar, para cortar aquela tensão no meio. Mas havia
outra, escondida, que não queria mover um músculo.
Lucius soltou a cintura dela devagar, como se não tivesse pressa em perder o contato, e deu
um passo para trás.
— Cuidado nas próximas escadas, Narcisa. Nem sempre estarei por perto para impedir que
caia.
E então, com a mesma calma arrogante com que havia aparecido, virou-se e continuou
descendo, deixando-a sozinha.
Narcisa respirou fundo, tentando apagar o calor que subia pelo rosto. Olhou para o caminho
que ainda precisava percorrer e, de repente, a sensação de que as escadas estavam se
movendo não parecia vir apenas das pedras.
---
O vento de fim de tarde soprava frio pelo pátio interno de Hogwarts, carregando folhas secas
que dançavam sobre a pedra gasta. Lily Evans permanecia sentada no banco de madeira
próximo à fonte, o livro aberto sobre o colo, mas os olhos perdidos muito além das palavras.
Era impossível não se lembrar quando aquele corredor, aquela torre, aquele banco… tudo
guardava memórias dele. De risos infantis escondidos entre corredores, de conversas
sussurradas depois do toque de recolher, de confidências trocadas como quem entrega um
pedaço de si mesmo.
Severus Snape atravessava o pátio, como sempre com passos longos e decididos, a capa
negra balançando atrás de si. Ele viu Lily antes mesmo que ela levantasse os olhos, mas não
desviou o caminho. Talvez fosse coincidência. Talvez não.
Quando passou pela fonte, ela falou, sem olhar para ele:
— Aparentemente, o vento está contra todos hoje. Até as páginas se recusam a ficar abertas.
Severus parou. O comentário era banal, mas carregava algo que não via nela há tempos:
ausência de veneno. Apenas… voz.
— Se você segurasse o livro direito, não teria esse problema — respondeu, num tom neutro.
Não estava pronto para a gentileza, mas também não queria afastá-la.
Lily ergueu uma sobrancelha, sem sorrir, mas também sem cortar o contato.
— E aqui pensei que sua especialidade fosse poções, não meteorologia.
Ele deu de ombros, um gesto mínimo. Poderia ter ido embora. Quis ir embora. Mas ficou.
O silêncio se instalou, carregado, mas não sufocante.
Severus se sentou na outra ponta do banco, deixando uma distância segura entre eles, como
se um passo errado pudesse fazê-los despencar de volta ao abismo que os separava.
— Como… — Ele quase perguntou como ela estava, mas a frase travou. Tentou de novo,
reformulando. — Vi que você ganhou dez pontos para a Grifinória na aula de Poções.
Lily virou o rosto na direção dele, surpresa. Não era comum que ele elogiasse algo sem
segundas intenções.
— Ganhei. E não foi um acidente. — A voz carregava ironia, mas suave, como se testasse o
terreno.
Ele assentiu.
— Eu sei. Seu antídoto estava perfeito.
— Ouvi dizer que você está ajudando a Slughorn com experimentos — disse Lily, tentando
manter a conversa viva. — Isso não me surpreende. Você sempre foi… brilhante.
Severus abaixou os olhos para o chão, desconfortável com o elogio. Não sabia se ela dizia
aquilo por polidez ou por verdade.
— É trabalho. — Pausa. — Mas… obrigado.
O silêncio voltou, mas desta vez não foi tão pesado. Era quase… pacífico.
Uma folha pousou sobre o livro aberto no colo dela, e Lily a pegou, girando-a entre os dedos.
— Sabe — começou, a voz mais baixa —, eu não queria que as coisas… terminassem assim
entre nós.
— Diferente não significa impossível. — A frase escapou antes que ele pudesse impedir.
— Então talvez possamos… — Ela hesitou, buscando as palavras certas. — Conversar mais.
Aos poucos.
Severus assentiu, devagar, como quem aceita um feitiço que pode ser perigoso, mas vale o
risco.
— Aos poucos.
Um ruído de passos apressados ecoou pelo pátio, e eles se afastaram ligeiramente, como se o
momento fosse algo frágil demais para ser visto. Um grupo de alunos passou, rindo alto, sem
notar o que acabara de acontecer ali.
Ele apenas a observou se afastar, a capa vermelha esvoaçando atrás dela. E, pela primeira vez
em muito tempo, sentiu que talvez… só talvez… aquela ponte não estivesse completamente
destruída.
---
A Sala Precisa estava no seu modo favorito: um refúgio acolhedor, com paredes forradas de
estantes baixas, livros espalhados pelo chão e um sofá largo, afundado de tanto uso. A lareira,
no canto, ardia com um crepitar suave, lançando luz dourada que dançava sobre o rosto de
Severus.
Ele estava deitado de lado, pernas encolhidas, a cabeça repousando no colo de Sirius. O calor
da lareira e o toque constante e distraído dos dedos do grifinório em seus cabelos quase o
faziam esquecer que existia um mundo lá fora. Sirius, por sua vez, tinha um daqueles sorrisos
tranquilos — raros, reservados para quando não havia plateia nem máscaras.
— Hoje… — começou, a voz baixa, quase engolida pelo estalar da lenha. — Lily falou
comigo.
Os dedos de Sirius pararam por um segundo no cabelo dele, mas logo retomaram, como se
quisessem dizer “estou ouvindo, continue”.
— E não foi… como das últimas vezes — acrescentou Severus, franzindo levemente o
cenho, como se ainda tentasse decifrar o ocorrido. — Ela… se aproximou devagar. Não veio
com acusações, nem eu precisei me defender. Foi… civilizado.
Severus deixou escapar um som que podia ser uma risada curta, ou apenas ar saindo pela
boca. — Não brinque. Eu não sei o que pensar. — Seus dedos apertaram levemente o tecido
da gravata. — Foram anos. Anos de mágoas. Coisas ditas que não se apagam. E, ainda
assim… — parou, mordendo a parte interna da bochecha. — Eu senti… algo. Como se…
talvez… houvesse espaço para… — não terminou.
Severus fechou os olhos, como se a palavra fosse perigosa. — Eu tenho medo dessa palavra.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. A chama da lareira lançava reflexos âmbar
no rosto pálido de Severus, e Sirius, com a mão ainda no cabelo dele, parecia pesar suas
próximas palavras. Quando falou, foi num tom suave, quase cuidadoso.
— Olha, Sevy… — usou o apelido como quem sabia que, naquele momento, não seria
repelido. — Eu não sou exatamente o especialista em reconciliações. Mas eu sei uma coisa:
às vezes, quando alguém volta a se aproximar, não é para apagar o passado. É para construir
algo novo, sem fingir que o velho nunca aconteceu.
Severus abriu os olhos e o olhou, cético. — Isso é uma frase de livro de autoajuda que você
encontrou por aí?
Sirius sorriu, mas não desviou. — Não. É só… a verdade. — Ele passou o polegar pela
têmpora do sonserino, num gesto quase inconsciente. — Você e Lily… vocês têm história.
História demais para ignorar. Mas isso também significa que, se houver uma chance de se
falarem de novo sem se destruírem, talvez valha a pena tentar. Mesmo que doa no começo.
Severus respirou fundo, sentindo o peso daquilo. — E se eu me iludir? E se… ela só tenha
sido cordial por… pena? Ou por algum motivo que não tenha nada a ver comigo?
Sirius deu um leve dar de ombros. — Então você vai lidar com isso. Você não é frágil,
Severus. — Os olhos cinzentos dele brilharam na luz do fogo. — Mas… se me permite… —
inclinou-se levemente, como se confessasse algo — eu acho que você quer tentar. Você só
tem medo de admitir.
O sonserino desviou o olhar para a gravata, que agora estava amassada de tanto ser torcida
entre os dedos. — Eu não sei se consigo confiar. Nem nela… nem em mim.
— Então começa confiando em mim — disse Sirius, com simplicidade, como se fosse a coisa
mais óbvia do mundo. — Eu vou estar aqui, mesmo se isso der errado. — Uma pausa curta,
quase imperceptível, antes de acrescentar: — Sempre.
Severus voltou a encará-lo, e havia algo ali que nem ele sabia nomear. Não era só gratidão.
Era uma sensação estranha e rara… segurança.
— Tenho — respondeu Sirius, sério. — Porque eu sei como é viver se afastando de todo
mundo por medo de se machucar. E sei também como é… deixar alguém entrar. E, acredite…
vale a pena.
O silêncio que veio depois não era mais pesado. Era morno, quase confortável. Severus
encostou o rosto contra a perna de Sirius, fechando os olhos, como se desse um voto
silencioso de confiança.
Sirius, sentindo o peso leve do outro sobre si, inclinou-se para frente e deixou um beijo
rápido no topo da cabeça dele. Não era para provocar, nem para marcar território. Era só…
um gesto de presença.
— Posso dizer uma coisa sem você me jogar daqui? — perguntou Sirius, a voz carregando
aquele tom malicioso que ele nunca perdia completamente.
— Depende. — Severus abriu um olho, desconfiado.
— Eu acho que a Lily tem bom gosto de novo. — Sirius sorriu, passando os dedos pelos fios
negros. — Ela percebeu que você é… diferente. E, convenhamos, irresistível.
Severus soltou um resmungo que podia ou não ter sido de desaprovação, mas não se moveu.
E, para Sirius, isso já era vitória.
A lareira estalou mais forte, como se quisesse participar da conversa. Lá fora, o castelo
respirava no silêncio noturno, alheio ao fato de que, ali dentro, dois rapazes estavam
aprendendo a se permitir mais — não apenas um ao outro, mas ao mundo que tantas vezes
tinham empurrado para longe.
E, naquele sofá gasto, sob a luz quente do fogo, o medo e a esperança coexistiam. Não como
inimigos, mas como velhos conhecidos que, talvez, pudessem finalmente se dar as mãos.
Chapter 19: Lição 19
O laboratório de Poções estava mergulhado numa penumbra tranquila, quebrada apenas pelo
plop ritmado da mistura borbulhante. As lamparinas projetavam sombras compridas nas
paredes de pedra, e o ar estava saturado com um perfume terroso — raiz de valeriana, flor de
tilo e um toque metálico de cobre.
Severus Snape estava em sua zona: corpo curvado sobre a bancada, cabelos caindo como
cortinas negras para proteger o rosto, mexendo o líquido com movimentos tão calculados que
pareciam ensaiados.
Do outro lado da sala, Sirius Black ocupava uma bancada vazia, deitado de bruços como se
fosse um adolescente entediado numa aula de História da Magia. A diferença é que, aqui, o
assunto era Severus. E Sirius nunca se entediava de verdade com ele.
O problema é que metade do tempo ele ficava hipnotizado, e na outra metade, frustrado por
não poder tocar.
— Você vai queimar um buraco na minha nuca se continuar olhando assim — Severus falou,
sem levantar os olhos do caldeirão.
— Eu disse que ia te observar até você parar de me ignorar — Sirius respondeu com um
sorriso malandro. — Culpa sua se é tão… irresistível quando está concentrado.
— Isso é ridículo.
Severus suspirou, mas o canto da boca dele quase denunciou um sorriso. Sirius percebeu e
guardou a vitória mentalmente.
Minutos depois, Severus retirou o caldeirão do fogo com um movimento cuidadoso,
colocando-o sobre uma superfície de pedra para esfriar. Limpou as mãos no pano e falou:
— Agora, repouso.
— Isso quer dizer que você pode finalmente me dar atenção? — Sirius perguntou, já se
erguendo.
— Isso quer dizer que você pode parar de me distrair — retrucou o sonserino, mas já se
aproximava.
Antes que Sirius pudesse planejar uma provocação nova, Severus se acomodou no colo dele,
como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sirius, automaticamente, segurou-o pela
cintura, sentindo aquele peso confortável e ao mesmo tempo perigoso.
— É para você calar a boca por alguns minutos. — Severus inclinou-se e o beijou.
O beijo começou suave, exploratório, mas Sirius não sabia fazer nada pela metade. Uma mão
subiu pelas costas dele, a outra ficou firme na cintura, puxando-o mais perto. Severus apoiou
um joelho na bancada, encaixando-se melhor, e Sirius sentiu aquele momento ser perfeito.
CLAC!
Sirius virou a cabeça devagar, como se estivesse num pesadelo. Lá estava ela: parada na
porta, segurando uma sacola amassada. Um pote de geleia rolou pelo chão, batendo na perna
da mesa antes de parar.
— Eu… vim trazer isso — Lily disse, olhando ora para um, ora para o outro. — Achei que
talvez você tivesse esquecido de comer.
— Não. Não explica. — O olhar dela se estreitou. — Eu não… sei o que vi.
— Eu sei quem ele é! — a frase escapou alto demais, e ele se arrependeu no segundo
seguinte.
O silêncio que veio depois foi tão pesado que Sirius podia ouvir o próprio pulso.
Lily colocou a sacola na bancada, evitando chegar perto. — Vou deixar isso aqui… e sair.
— Excelente ideia — Sirius respondeu, quase suplicando.
Ela deu dois passos para trás, mas parou na porta. — Não vou contar para o James. Ainda.
Sirius deixou o corpo despencar para frente, a testa encostada na bancada. — Isso foi o nosso
fim.
— Você exagera — Severus disse, mas a voz dele não soava tão segura.
— É a Lily, Sevy! A namorada do James! A pessoa que passa metade do tempo com ele! Isso
é… um bilhete premiado para a Terceira Guerra Bruxa.
Severus arqueou uma sobrancelha. — Talvez seja hora de parar de agir como se fosse um
crime.
Sirius não respondeu. Não porque discordasse… mas porque a ideia de enfrentar o olhar de
James Potter depois disso era quase mais assustadora que enfrentar um dementador.
---
O corredor estava frio e silencioso, cada passo ecoando mais alto do que deveria. Lily
segurava a sacola amassada com força, como se isso fosse impedir que o mundo virasse de
ponta-cabeça.
Ela ainda sentia o calor no rosto. Choque, constrangimento… e, para seu horror, uma
pontinha de diversão. A cara do Sirius — uma mistura de “fui pego” com “estou prestes a ser
decapitado” — era digna de registro em memória eterna.
Parou ao lado de uma janela, olhando para fora sem realmente ver.
Eu devia contar para o James. Essa foi a primeira reação. Seguiu-se outra, mais lenta: Mas
devo mesmo?
O James odiava Snape. Não só odiava — se orgulhava disso. Saber que seu melhor amigo
estava envolvido com ele… aquilo poderia quebrar alguma coisa que não teria conserto.
E, para ser honesta, Lily não queria ser a detonadora dessa bomba. Não enquanto estava
tentando reconstruir a própria amizade com Severus.
Mas, enquanto voltava a andar, não pôde deixar de sorrir para si mesma. Talvez… só
talvez… ela se divertisse um pouquinho antes de decidir o que fazer com aquele segredo.
---
Severus permanecia imóvel, de costas para Sirius, as mãos finas e trêmulas cerradas em
punhos sobre a bancada. Os olhos, fixos num ponto indefinido do chão de pedra, refletiam a
frustração e o cansaço que há muito se acumulavam. Era como se toda a exaustão de
esconder seu amor tivesse sido condensada naquele instante.
— Ela sabe — disse, com a voz baixa, áspera, cheia de uma verdade que há muito ansiava
por ser dita. — Sabe o suficiente para perceber que estamos juntos.
Sirius engoliu em seco, sentindo o peso daquela confissão cravar-se fundo no peito. Era
impossível negar; a ameaça que sempre rondava, o medo da exposição, agora se
materializava diante deles.
— Eu sei, Sevy. Sei disso. — A voz de Sirius saiu tensa, quase um sussurro. — Mas ainda
não é hora. Não podemos simplesmente abrir mão da cautela assim, não agora.
Severus virou-se lentamente, o olhar intenso e cortante encontrando Sirius com uma mistura
de dor e indignação.
— Não é questão de hora, Sirius — rebateu, a voz carregada de mágoa. — Quantas vezes vou
ter que ouvir essa mesma desculpa? Quantas vezes terei que ser a sombra, o segredo que você
esconde, como se eu fosse algo para se envergonhar?
Sirius deu um passo hesitante na direção dele, buscando um contato, uma aproximação. Mas
Severus recuou, guardando seu espaço como se fosse a última coisa que lhe restasse.
— Eu quero muito ficar com você — confessou Severus, os olhos brilhando com uma
sinceridade quase dolorosa — mais do que posso expressar. Mas cansei, Sirius. Cansei de ser
um segredo.
Sua voz falhou momentaneamente, a emoção pesando em cada sílaba. O silêncio que se
seguiu parecia um abismo prestes a engolir qualquer possibilidade de entendimento.
Sem dizer mais, Severus pegou seu caderno, as folhas amarrotadas de anotações, e sua bolsa.
Cada movimento era preciso, quase mecânico, como se a decisão tivesse sido tomada muito
antes daquele instante.
— Eu não vou mais esperar por um momento que talvez nunca chegue. — Suas palavras
foram ditas com a firmeza de quem finalmente coloca um ponto final.
Severus abriu a porta e, sem olhar para trás, saiu, deixando Sirius sozinho no laboratório,
com o coração apertado, as mãos tremendo e uma avalanche de sentimentos conflitantes.
Ele precisava ser corajoso — por Severus, por eles. Precisava enfrentar o mundo, enfrentar
James, enfrentar qualquer coisa que viesse.
---
🌙 Nota da autora 🌙
Gente, antes de mais nada: desculpa se traumatizei alguém com a cena da geleia no chão, mas
🤭
convenhamos que ninguém nunca mais vai olhar para um pote de morango da mesma forma.
E sim, eu oficialmente tornei Lily Evans a maior guardiã de segredos proibidos de Hogwarts.
Se ela abrisse uma firma de “Guarda-segredos & Cia”, estaria milionária.
😂
Enquanto isso, Sirius está num colapso digno de novela mexicana e Severus está pronto para
pedir demissão desse relacionamento com direito a carta formal e duas testemunhas.
Agora me digam: vocês contariam pro James ou guardariam segredo igual a Lily? 👀
Chapter 20: Lição 20
O vento estava gelado o suficiente para que Sirius sentisse cada rajada como um empurrão no
peito. As folhas secas farfalhavam sob suas botas enquanto ele descia a encosta em direção
ao lago. A superfície da água refletia o céu cinzento, quebrada de tempos em tempos pelo
ploc das pedras que James lançava, uma de cada vez, com movimentos mecânicos.
Sirius havia ensaiado essa conversa tantas vezes que as palavras já soavam artificiais na
própria cabeça. Mesmo assim, o nó no estômago não afrouxava. Três semanas. Três malditas
semanas desde que Severus saíra do laboratório de Poções sem olhar para trás. Três semanas
de silêncio, olhares desviados nos corredores e noites em que Sirius se revirava na cama,
imaginando se o sonserino estava dormindo ou acordado, se sentia a mesma falta ou se já
tinha decidido seguir em frente.
Agora, estava decidido: ia falar com James. Contar a verdade, nua e crua, antes que o medo o
consumisse de vez.
Quando se aproximou, James não se virou. Apenas jogou mais uma pedra, que ricocheteou
duas vezes antes de afundar.
- Pensei que você tivesse esquecido como sair da cama - disse, sem emoção. - Faz dias que
não te vejo fora da sala comunal.
Sirius se sentou na grama, a uma distância segura, como se o espaço físico pudesse amortecer
o impacto da conversa.
- Eu precisava... pensar.
- Pensar? - James ergueu uma sobrancelha e pegou outra pedra. - Isso é novo.
Sirius ignorou a provocação. Olhou para o lago, tentando encontrar coragem nas ondas
suaves que se formavam na superfície.
- Eu preciso te dizer uma coisa. Não é fácil, e provavelmente você não vai gostar.
James finalmente se virou para encará-lo, estreitando os olhos.
- Estou ouvindo.
- É sobre o Snape.
O efeito foi imediato: a expressão de James se fechou como uma porta batida.
- "Com ele" tipo... estudando? Porque se for isso, parabéns, você conseguiu me assustar de
graça.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que parecia abafar o som do vento e do lago. James o
encarava como se estivesse tentando detectar uma piada escondida.
- Espera. Ele te enfeitiçou? - disse, a voz subindo meio tom. - Te deu Amortência? Merlim
me julgue por dizer isso, mas... o narigudo é bom em poções.
- Então explica - James se inclinou para frente, apontando uma pedra para ele - como é que
você passou semanas sem falar com o sujeito e agora aparece dizendo que está apaixonado?
Porque, se minha memória não me engana, não foi você que disse, lá no dia em que a gente
quase explodiu o caldeirão do Slughorn, que o Snape "não tinha coração nem pra manter um
basilisco vivo"?
Sirius fechou os olhos por um instante, lembrando nitidamente daquele dia - da fumaça roxa,
do cheiro de ovo podre e da risada cúmplice que trocou com James ao insultar Severus.
- Pois parece que você foi da pólvora à poção de amor sem nem passar pelo meio-termo.
- Não é tão simples. - Sirius olhou para o lago, evitando os olhos do amigo. - Quando ficamos
sem nos falar, parecia que faltava alguma coisa. Eu tentei ignorar, mas foi como tapar um
buraco no casco de um barco com fita adesiva. Só afundava mais rápido.
- E você acha que isso vai dar certo? Você e o Snape? - a incredulidade estava clara na voz. -
Ele é... ele é ele.
- Eu sei exatamente quem ele é - retrucou Sirius, mais firme do que esperava. - E é
justamente por isso que quero estar com ele.
James jogou a pedra que tinha na mão, mais forte desta vez, fazendo-a sumir na água sem
ricochetear.
- Sabe o que eu vejo? - perguntou, sem esperar resposta. - Eu vejo você se metendo num poço
sem fundo. Porque por mais que você ache que o conhece, o Snape carrega um mundo de
coisas que você não faz ideia.
- E eu também carrego - Sirius respondeu, encarando-o agora. - Mas ele não saiu correndo
quando descobriu.
James desviou o olhar, como se o peso das palavras fosse demais.
- E como é que isso começou? - perguntou, a voz mais baixa, quase contra a vontade.
- No começo....Eu vivia implicando, ele vivia retrucando... até que um dia a implicância virou
conversa. Depois, conversa virou algo... mais. E quando percebi, já não dava pra voltar atrás.
James passou a mão pelo cabelo, um gesto automático quando estava irritado ou confuso.
O rosto de James se contraiu, como se tentasse processar mais informações do que queria.
- Eu não espero que você aprove. Só quero que saiba. Ele... ele significa muito pra mim.
Por um instante, o rosto de James suavizou, mas logo ele balançou a cabeça.
- Merlim, Sirius... apaixonado pelo Snape. - Ele disse como se ainda estivesse tentando
acreditar nas próprias palavras. - Isso vai ser um inferno.
Sirius deu um meio sorriso cansado.
- Já é.
O vento soprou mais forte, trazendo o cheiro de folhas úmidas e água fria. Nenhum dos dois
falou por um tempo. James voltou a lançar pedras no lago, e Sirius ficou observando as
ondulações se espalhando pela superfície.
- Sabe, - James disse finalmente - se ele te machucar, eu não vou pensar duas vezes antes de
enfeitiçá-lo até ele esquecer o próprio nome.
- Eu sei. - Sirius respondeu, e pela primeira vez desde o início daquela conversa, sentiu um
peso sair de cima dele.
James suspirou.
- Só... toma cuidado, tá? Isso aqui - ele fez um gesto vago entre os dois - é estranho demais
pra eu entender agora. Mas você é meu amigo. E eu não quero te ver quebrado.
Sirius assentiu.
- Eu prometo.
E, naquele momento, apesar de toda a tensão e do futuro incerto, ele soube que tinha dado o
primeiro passo para recuperar não só Severus, mas a si mesmo.
---
A sala de poções estava mergulhada num silêncio viscoso, quebrado apenas pelo borbulhar
compassado dos caldeirões. O cheiro de raiz de asfódelo misturado com folhas de verbena
pairava no ar, quente e quase adocicado. Severus movia as mãos com precisão quase
cirúrgica - cortar, mexer, medir, despejar. Desde que se tornara assistente de Slughorn,
aquelas noites eram sempre assim: repletas de raízes, caldeirões e fórmulas.
Ele não reclamava. O trabalho o ocupava, e ocupação era tudo que ele precisava.
Sirius Black.
O nome parecia ecoar nas paredes da própria mente. Era irritante. Era inevitável.
Severus apertou a lâmina contra a tábua, cortando uma mandrágora com mais força do que o
necessário.
Sim, ele amava Sirius - não negava isso, nem para si mesmo. Mas amor era diferente de
convivência. Amor era diferente de lidar com a realidade de um grifinório impulsivo que não
sabia o significado da palavra "discrição".
O encontro em Hogsmeade tinha sido... perigoso. Bom, mas perigoso. Andar de mãos dadas,
sem medo, sem o peso invisível do julgamento, tinha sido quase uma revelação. Quase o fez
acreditar que poderia ser assim sempre. Quase.
Ele sabia que Sirius era tudo que ele não era - e, de alguma forma, isso só o fazia querer mais.
E querer mais era uma fraqueza que ele não podia se permitir.
Foi então que ouviu passos. Não os passos cuidadosos de um aluno tentando evitar barulho,
mas a passada decidida e familiar de quem nunca teve medo de atravessar uma porta.
- Eu sabia exatamente onde estava vindo - respondeu Sirius, fechando a porta atrás de si. - E
sabia exatamente quem estaria aqui.
- Que pena. - Severus mexeu a poção, o rosto iluminado apenas pela luz verde do caldeirão. -
Está interrompendo um trabalho importante.
- E você está interrompendo a minha sanidade desde que decidiu me evitar - retrucou Sirius,
aproximando-se até o cheiro de couro da jaqueta dele se misturar ao das poções.
- Necessidade de me cortar como se eu fosse uma erva daninha? - Sirius forçou um sorriso
que não chegou aos olhos. - Porque é assim que parece.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase palpável. Sirius respirou fundo, como se lutasse
contra algo que queria dizer há dias.
- O quê?
- Eu contei para ele sobre nós. Tudo. - Sirius deu um passo à frente. - Não tem mais segredo
entre a gente. Não tem mais ninguém que precise descobrir escondido.
- Você... contou ao Potter? - a voz de Severus soou como se estivesse tentando decidir entre
raiva e incredulidade.
- Sim. E ele não morreu, nem explodiu, nem me expulsou da vida dele - disse Sirius, quase
rindo. - E quer saber? Se for preciso, eu grito para toda Hogwarts que amo você.
E antes que Severus pudesse dizer qualquer coisa, Sirius ergueu os braços, como se abraçasse
o próprio ar, e gritou:
O som ecoou nas paredes de pedra. Sirius girou sobre os calcanhares, a voz firme e cada vez
mais alta:
Severus piscou, confuso entre a vontade de mandá-lo calar a boca e a súbita necessidade de
rir.
Severus olhou para ele por um longo momento, depois segurou o rosto de Sirius com as mãos
frias e, sem dizer nada, o beijou. O gosto era mistura de ousadia e poção inacabada.
- Que pensem. - Sirius encostou a testa na dele. - Não escondo mais nada.
O caldeirão continuava borbulhando atrás deles, mas, pela primeira vez em semanas, Severus
não se importou.
---
Nota da autora:
Boa tarde, meus amores 🌙💫 Eu sei, eu sei… vocês provavelmente estão pensando:
💖
Enfim, espero que tenham sentido o coração bater mais forte nesse capítulo — porque o
meu bateu!
👀
Agora me contem: vocês acham que o Snape vai conseguir manter essa pose de “não me
importo” por muito tempo?
O sino sobre a porta do Três Vassouras tilintou, mas Severus quase não registrou o som. Seus
olhos estavam cravados na mesa próxima à lareira, onde Lily e James riam baixinho,
conspirando como sempre. A expressão dele se fechou instantaneamente, como se alguém
tivesse puxado uma cortina de gelo sobre seu rosto.
Sirius, sentado a poucos passos dali, percebeu de imediato a mudança no ar. Um sorriso breve
e quase imperceptível curvou-lhe os lábios — aquele tipo de sorriso que só surgia quando
Severus estava visivelmente desconfortável. A ideia de Lily tinha parecido genial há alguns
dias: um "encontro duplo" para quebrar o gelo. James e Severus juntos. O que poderia dar
errado?
Tudo, aparentemente.
Assim que Severus se aproximou, o burburinho da mesa evaporou. James chegou a abrir a
boca para falar, mas desistiu no mesmo segundo. Lily manteve um sorriso cortês, porém o
arco sutil de sua sobrancelha revelava o alerta. E Severus... Severus apenas fitava Sirius com
um olhar que dizia, sem necessidade de palavras: Por que diabos você me trouxe aqui?
— Relaxa, ele não morde... muito — tentou Sirius, puxando-o levemente pelo braço e
oferecendo um sorriso que não alcançava os olhos.
Silêncio. Severus apenas se virou para James, que cruzou os braços e revirou os olhos de
forma quase teatral. Lily suspirou, como se se preparasse para erguer um escudo invisível
contra o que estava por vir.
— Eu... achei que seria agradável — disse Sirius, numa mistura de hesitação e teimosia. —
Um jantar tranquilo, pra gente conversar, se conhecer melhor...
Severus, finalmente quebrando o silêncio, inclinou a cabeça levemente e falou com aquela
voz afiada que cortava como lâmina molhada:
— Que agradável surpresa. Nada diz "noite perfeita" como sentar à mesa com Potter... e sua
namorada mediadora.
Lily fez uma careta quase imperceptível, como quem pensa já começou. Sirius cerrou o
maxilar, tentando manter o controle da situação que escorria por entre seus dedos.
— Então... — disse ele, puxando a cadeira e se sentando. — Vamos pelo básico. Severus,
esse é o James. James... bem, você já sabe quem ele é.
— O sonserino sarcástico que me ignora há semanas. Prazer em finalmente ter sua atenção.
Severus arqueou uma sobrancelha, deixando que um meio sorriso frio surgisse:
— Ignorá-lo foi a decisão mais sensata que tomei nesse período. E, pelo visto, ainda é. Você é
insano Potter, ficar me perseguindo pelos corredores desde que descobriu sobre nós.
O silêncio voltou, denso como o ar antes de uma tempestade. Sirius sentiu uma pontada de
dúvida corroer o entusiasmo que ainda restava. Talvez aquela ideia — ou melhor, o plano de
Lily — não fosse tão brilhante assim. Mas ele se recusava a desistir. Precisava acreditar que
James e Severus podiam, de alguma forma, coexistir sem que o mundo implodisse.
— Gente... — Lily interveio, a voz firme mas calma, quase maternal. — Podemos pelo
menos tentar conversar como pessoas civilizadas? Não precisa ser guerra ou paz absoluta.
Só... civilidade.
Severus franziu o cenho, mas não retrucou. James bufou, jogando a mão no ar num gesto
teatral, como quem diz tá, tá, vamos tentar. Sirius soltou o ar que não percebera estar
prendendo, mas sabia: aquela era só a calmaria antes do próximo trovão.
Sirius se inclinou sobre a mesa, tentando puxar um sorriso, mas o aperto no peito continuava.
Ele amava Severus — e queria que todos vissem o que ele via — mas, ali, sentia-se como um
equilibrista andando na corda bamba entre o amigo e o namorado.
Os minutos seguintes se arrastaram, longos, quase cruéis. Severus repousava com o braço
apoiado na mesa, o olhar fixo em James como se examinasse cada camada de sua alma.
James, inquieto, mexia o líquido do copo com o dedo, mas não desviava o olhar — havia
algo de competitivo na forma como encarava o sonserino.
— Então... — James começou, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — Você
realmente gosta de poções, não é? — O tom era quase casual, mas com um toque de veneno
escondido.
Severus ergueu uma sobrancelha com a lentidão calculada de quem sabe que está prestes a
provocar:
O riso de James se perdeu no ar. Sirius se remexeu na cadeira, prendendo o impulso de rir e,
ao mesmo tempo, sufocado pela tensão. Ele sabia que Severus não cederia facilmente, mas
James também não conhecia a palavra recuar.
Lily se inclinou para frente, o olhar alternando entre os dois como quem segura as rédeas de
dois cavalos impacientes:
— Pois é, Snape. Sirius sempre fala de você, mas acho que algumas coisas precisam ser
esclarecidas. Tipo... o fato de você ser impossível de lidar.
— Impossível de lidar? Quer me esclarecer o que exatamente quer dizer com isso, Potter?
Sirius quase engasgou. Ele havia ensaiado mentalmente esse encontro dezenas de vezes, mas
nunca previra o quão rápido as linhas de batalha seriam traçadas.
— Só o quê? — Severus cortou, a voz baixa e afiada como vidro quebrado. — Só vamos
fingir que somos civilizados enquanto um idiota tenta ensinar outro idiota a se comportar?
— Se você quer tanto ser racional, Snape, talvez devesse me ouvir primeiro!
— Por favor... não estraguem tudo já no começo. Sirius só quer que todos se conheçam.
O olhar de Severus voltou para ele, agora carregado de algo mais próximo de acusação:
— Sirius... você realmente achou que seria uma boa ideia me trazer aqui?
— Achei que sim — respondeu Sirius, com um sorriso que tentava disfarçar a apreensão. —
Quero que você e o James se deem bem. Por mim.
James soltou um riso curto, mas antes que pudesse falar mais, mexeu deliberadamente sua
bebida, o barulho da colher contra o vidro ecoando como uma provocação.
— Só queria saber se alguma coisa além de sarcasmo passa por esse cérebro aí.
— Ele não começou nada que justifique isso. — Sirius se inclinou para frente, a voz
carregada de algo protetor. — Severus não precisa provar nada pra você.
O silêncio caiu como uma cortina grossa. Lily trocou um olhar rápido com Sirius,
agradecendo sem palavras. Severus, por outro lado, o estudava como se visse algo novo.
— Precisava — Sirius o interrompeu, suave mas firme. — Não vou deixar você levar isso
sozinho.
James, desconcertado, recuou meio passo:
Severus o encarou, e pela primeira vez a voz veio controlada, mas com um limite claro:
— Potter, vou tolerar suas provocações apenas pelo Sirius. Mas não espere que eu ria de
todas.
Sirius sentiu uma vitória silenciosa aquecer seu peito. Lily aproveitou a brecha:
Severus voltou-se para Sirius e, num raro momento sem máscara, disse:
O calor dessa frase o atravessou como um feitiço suave. Sob a mesa, Sirius buscou a mão
dele e entrelaçou os dedos. Severus retribuiu o aperto, sem palavras, mas com a promessa
silenciosa de que, apesar de tudo, estava ali.
O jantar prosseguiu com provocações mais brandas, olhares menos hostis e um fio frágil de
entendimento começando a se formar. No fundo, Sirius sabia que ainda haveria tempestades,
mas, por ora, aquela conexão silenciosa bastava para mantê-lo inteiro.
---
O dormitório estava em silêncio, exceto pelo som metódico da pena de Remus riscando o
pergaminho. Ele estava afundado nos livros, mergulhado na maratona suicida de estudos para
os NIEMs. Havia uma ordem quase sagrada naquele momento — até a porta se abrir com um
estrondo dramático.
— Você não sabe o que eu passei! — a voz de James ecoou pelo quarto como um alarme. Ele
entrou bufando, a gravata meio torcida, o cabelo — mais rebelde que o normal —
denunciando que algo grave tinha acontecido.
Antes que Remus pudesse dizer qualquer coisa, James arrancou o casaco, atirou-o em direção
a uma cadeira (que errou por um bom metro), e se jogou na cama como se tivesse acabado de
sobreviver a uma batalha contra um dragão.
— Boa noite pra você também — murmurou Remus, sem levantar os olhos do livro.
James passou a mão no rosto, como se precisasse criar coragem para reviver o trauma.
— Com a Lily, obviamente. Mas não foi só isso… foi um encontro duplo.
James bufou.
— Sirius… e Snape.
O silêncio que se seguiu foi quase imperceptível, mas Remus endureceu ligeiramente a
postura, a ponta da pena tremendo de leve em seus dedos. James não percebeu — ainda.
Remus pigarreou.
— Bem… ele é o namorado do Sirius. Não é como se fosse uma… surpresa.
Remus abriu a boca para responder, mas fechou de novo. A linha do maxilar estava rígida, e
James, que conhecia os amigos como ninguém, captou aquilo como um faro.
— Fala mais alto, vai. Acho que o pessoal na sala comunal não ouviu.
— Eu não acredito nisso! — James começou a andar pelo quarto, agitado. — O Sirius?! Você
e o Sirius?! Isso é… é…
— Não é “eu e o Sirius” — Remus interrompeu, a voz baixa, mas firme. — É só… eu.
James parou no meio do passo, piscando.
James franziu a testa, o exagero cômico dando lugar a uma expressão genuinamente
preocupada.
Remus deu de ombros, como se aquilo não importasse, mas havia um peso escondido nas
palavras.
— Porque ele está feliz com o Snape. E porque não é como se… eu fosse o tipo dele. Além
do mais, não tenho tempo pra… esse tipo de drama. — Fez um gesto em direção aos livros.
— Os NIEMs estão chegando.
— É sério, James. — Remus forçou um sorriso. — Você sabe como o Sirius é. Ele se joga de
cabeça. E quando ele está com alguém, ele está com essa pessoa. Eu não vou… — ele
engoliu o resto da frase — …me meter no meio disso.
James se jogou de volta na cama, dessa vez de barriga pra cima, encarando o teto.
— Eu ia dizer que é meio estranho imaginar vocês dois juntos… mas, pensando bem… faria
sentido.
— Não ajuda.
— Não tô tentando ajudar, estou tentando imaginar — disse James, com um meio sorriso. —
Sirius e você… dois idiotas que fingem não se importar, mas na verdade guardam tudo aqui
— ele bateu no peito. — A diferença é que você é um idiota organizado.
Remus bufou, mas não conseguiu esconder o leve rubor nas bochechas.
— Talvez. — James se sentou, olhando-o com sinceridade. — Mas se algum dia você mudar
de ideia… ou se isso começar a machucar demais… você me fala, tá?
— Tá, mas amanhã eu quero os detalhes dessa história. Principalmente da parte em que o
Snape tentou te matar com o olhar.
— Boa noite, Potter. — Remus murmurou, mas havia um brilho quase imperceptível nos
olhos.
---
O corredor das masmorras estava silencioso, exceto pelo som distante de água pingando em
algum lugar. As tochas lançavam luz trêmula sobre a pedra fria, criando sombras que
dançavam preguiçosamente nas paredes. Mais alguns passos e a porta da sala comunal da
Sonserina estaria ali — e, com ela, o fim daquela [Link]
Severus, no entanto, ainda não se movia. Encostado na parede úmida, deixava-se ficar ali,
como se o frio da pedra pudesse acalmar o calor que ainda pulsava em sua pele. À sua frente,
Sirius Black permanecia próximo demais para ser casual, a mão quente envolvendo a sua
num aperto que parecia dizer mais do que qualquer palavra.
Havia sorrisos bobos no rosto de ambos — sorrisos que nenhum deles teria coragem de exibir
na luz do dia.
Sirius inclinou-se um pouco mais, a ponta dos dedos roçando o dorso da mão de Severus num
gesto distraído.
— Sei que não é fácil aturar o James… mas ele é importante pra mim. E… — fez uma pausa,
o sorriso se suavizando — …quero que você faça parte das nossas vidas.
Severus desviou o olhar por um instante, como se a intensidade daquelas palavras fosse algo
perigoso de encarar diretamente.
— Parte das nossas vidas… — repetiu, testando o peso da frase. — Isso soa como um
convite para um desastre.
— Talvez. — Sirius sorriu, e havia algo de travesso e sincero ao mesmo tempo. — Mas, se
for um desastre, vai ser o meu desastre favorito.
Severus não pôde evitar o leve revirar de olhos, mas os cantos da boca traíram-no, cedendo a
um sorriso mínimo.
— Você é insuportável.
— E você gosta disso — replicou Sirius, com aquele tom de certeza que irritava e,
secretamente, confortava.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Ficaram ali, apenas se olhando, e Severus se
deu conta de que podia contar nos dedos de uma mão as vezes em que alguém o encarara
assim — como se estivesse exatamente onde queria estar.
— James vai falar — disse Severus, quase para si mesmo. — E os outros também. Logo toda
Hogwarts vai saber.
— Ótimo.
— Ótimo? — Severus franziu o cenho, incrédulo. — Você acha que é tão simples? Não
estamos falando de “ó, olha só, Sirius arrumou um namorado”. Estamos falando de você e eu.
Grifinória e Sonserina. O príncipe do caos e o alvo preferido das piadas do seu grupo. Você
odiava isso...de as pessoas saberem..
Sirius se aproximou ainda mais, até que o ar entre eles se tornasse algo carregado e palpável.
Severus abriu a boca para responder, mas Sirius não lhe deu tempo.
— Eu já contei pro James. Ele ficou… surpreso, claro. Mas ele entende. — O tom ficou mais
suave. — Eu quero você na minha vida, Sev. Não só escondido em corredores ou alcovas
escuras.
Houve um instante em que Severus pareceu prestes a recuar, a erguer aquele muro invisível
que usava como armadura. Mas o olhar de Sirius — aberto, desarmado, sem sombra de
hesitação — tornou isso quase impossível.
— E se eu não tiver coragem? — Severus perguntou, a voz mais baixa que antes.
— Então eu vou ter por nós dois — Sirius respondeu, sem hesitar.
A frase pairou no ar, e por um momento o mundo pareceu se reduzir ao som da respiração de
ambos. Sirius, ainda segurando a mão de Severus, inclinou-se devagar. O toque dos lábios foi
firme, mas não apressado; um beijo que começou como uma promessa e, num piscar de
olhos, se tornou algo mais urgente.
Severus sentiu a mão de Sirius subir até sua nuca, puxando-o para mais perto, e respondeu
sem pensar — sem medo, pelo menos naquele instante. Havia um calor perigoso ali, o tipo de
calor que queimava mesmo através das camadas de roupa e pedra fria das masmorras.
Quando se separaram, Sirius manteve o rosto próximo ao dele, os lábios ainda roçando de
leve.
— Você é maluco.
— E você gosta disso — Sirius repetiu, com o mesmo sorriso convencido de antes.
Severus não respondeu, mas a forma como o olhar dele suavizou foi resposta suficiente.
Sirius soltou sua mão por último, como se não quisesse quebrar o contato, e começou a se
afastar pelo corredor. Antes de virar a esquina, olhou por cima do ombro.
Severus ficou ali, encostado à parede, sentindo o frio da pedra e o calor persistente do toque
de Sirius. E, pela primeira vez, a pergunta que o atormentava — vale a pena enfrentar
Hogwarts inteira? — parecia ter uma resposta que ele começava a querer acreditar.
---
Nota da autora:
✨
Esse capítulo foi praticamente uma sessão de terapia coletiva no Três Vassouras — só que
com cerveja amanteigada no lugar do chá e farpas afiadas no lugar de conselhos. 🪄
James saiu traumatizado, Remus ganhou mais uma cicatriz invisível no coração e Sirius
continua colecionando títulos para “namorado do ano” (apesar das ideias duvidosas). Já o
Snape… bom, ele descobriu que até pode sobreviver a um jantar com Potter — contanto que
tenha Sirius segurando sua mão debaixo da mesa.
💔😂
Prometo que nenhum maroto foi ferido (fisicamente) durante a escrita desse capítulo.
Emocionalmente… aí já não garanto.
Chapter 22: Lição
O cheiro de pão fresco e café recém-passado escapava pelo corredor de pedra, quente e
convidativo. Mas, para Severus, a cada passo em direção ao Salão Principal, o ar parecia mais
pesado, como se a atmosfera se adensasse ao redor dele.
O eco das botas de Sirius soava despreocupado ao lado, e a mão do grifinório, firme na sua,
contrastava violentamente com a hesitação que subia pela espinha de Severus.
— Ainda dá tempo de desistir — murmurou Severus, mantendo os olhos fixos nas lajes
gastas do chão.
Severus revirou os olhos, mas não conseguiu evitar que o canto da boca ameaçasse um
sorriso.
— Você é impossível.
— E você gosta disso. — Sirius piscou, apertando de leve sua mão. — Além do mais, eu já
prometi ontem que ia te buscar pro café.
Quando chegaram diante das portas altas do Salão Principal, Severus parou.
— Sirius…
— Sev — Sirius virou-se para ele, e o apelido veio carregado de calor. — Você confia em
mim?
— Então vamos.
---
Severus travou por meio segundo, os olhos correndo para a mesa da Sonserina. Reconheceu
alguns rostos — não todos hostis, mas nenhum exatamente receptivo. A pressão de dedos de
Sirius em sua mão o fez voltar a andar.
E então estavam lá, cruzando o corredor central sob dezenas de olhares curiosos, incrédulos
ou francamente boquiabertos.
James, que mastigava um pedaço de torrada, congelou no ato. Seus olhos pularam de Sirius
para Severus e de volta, rápido, mas ele recuperou o controle com um esforço visível.
— Ah, ótimo. Snape. Quer café? — disse, como se fosse absolutamente comum tê-lo ali.
A palavra caiu como uma pedra no lago, espalhando ondas por todo o Salão. Conversas se
interromperam, colheres pararam no ar, e um zumbido de sussurros começou
instantaneamente.
Severus sentiu o rosto esquentar de um jeito perigoso. Queria se encolher, desaparecer dentro
do chão.
— Maravilha, Black… — murmurou, baixo o suficiente para apenas Sirius ouvir. — Agora o
castelo inteiro sabe.
— Ótimo — disse Sirius, abrindo um sorriso largo. — Menos tempo pra boatos.
Do outro lado da mesa, Peter mastigava um pedaço generoso de bolo, os olhos correndo
preguiçosamente entre os dois como se estivesse assistindo a um jogo cujo placar já
conhecesse.
Remus fechou o livro com calma, a expressão neutra, e inclinou-se levemente na direção de
Severus.
— Então… — disse, num tom controlado — …leu a última edição do Profeta Diário?
— Melhor assim — comentou Remus, servindo-se de café. — Está cada vez mais idiota.
Lily, sentada ao lado de James, resolveu entrar na dança.
— Severus, eu estava mesmo pensando… será que você pode me ajudar com a nova mistura
de poções que Slughorn comentou ontem?
O clima começava a aliviar, mas não para Severus. Do canto do olho, ele sentia o peso de
olhares da mesa da Sonserina. Os sussurros eram afiados como lâminas, e ele conhecia bem o
tipo de coisas que estavam dizendo.
Foi então que um movimento incomum chamou atenção: Narcisa Black, impecável como
sempre, atravessou o corredor entre mesas com Régulus logo atrás.
Sem pedir licença, ela se sentou ao lado de Severus, e Régulus ocupou o espaço ao lado do
irmão.
— Bom dia, Severus — disse Narcisa, como se fosse rotina tomar café na Grifinória.
— Bom dia — respondeu ele, a voz um pouco mais firme que antes.
— Resolvi que hoje queria experimentar o chá daqui — continuou ela, servindo-se como se
nada fosse mais natural.
O recado estava claro, mesmo sem ser dito: ele não está sozinho.
Sirius trocou um olhar breve com o irmão, e houve ali um entendimento silencioso.
Severus respirou fundo, sentindo o peso em seus ombros aliviar um pouco. Não porque as
fofocas iriam parar — sabia que não iriam — mas porque, pela primeira vez naquela manhã,
não se sentia cercado.
E enquanto Sirius, orgulhoso e sem o menor sinal de arrependimento, servia o tal suco de
abóbora, Severus permitiu-se um pensamento quase perigoso: talvez valesse a pena enfrentar
Hogwarts inteira.
--
O jardim de Hogwarts estava quieto naquela manhã de sábado. Não o silêncio absoluto, mas
aquele tipo de calma viva, em que o som distante de conversas e passos se mistura ao canto
de pássaros e ao farfalhar das folhas. O ar tinha cheiro de terra úmida misturado ao frescor da
grama recém-cortada, e cada rajada de vento trazia um leve perfume das flores cultivadas
pela professora Sprout, lá nas estufas.
Sirius Black se esparramara de maneira característica sob a copa larga de uma macieira, num
canto onde o sol se filtrava em retalhos dourados pelas folhas. A capa do uniforme,
abandonada sobre a grama como se fosse um tapete improvisado, servia de assento para
Severus Snape — que, com a postura sempre contida, se acomodara de lado, de pernas
estendidas, deixando que a cabeça de Sirius repousasse em seu colo.
O contraste dos dois era quase engraçado: Sirius, desgrenhado e de camisa meio aberta,
parecia pronto para adormecer a qualquer instante; Severus, impecável mesmo sentado no
chão, segurava um livro grosso de capa verde-escura com a mesma firmeza de quem
empunha uma varinha. A luz do sol fazia brilhar sutis reflexos azulados nos fios negros do
seu cabelo, e o vento ocasional virava de leve as páginas, como se tentasse apressar a leitura.
— “O ciclo reativo das soluções de mandrágora é instável…” — lia Severus, a voz baixa e
bem marcada, pausando nas palavras mais complexas.
— Instável é achar que vou lembrar disso amanhã — interrompeu Sirius, um meio sorriso
brincando nos lábios.
— Hm… — Sirius esticou as pernas, cruzando os tornozelos. — Prefiro confiar em você para
me salvar.
Severus apenas balançou a cabeça, voltando a leitura, mas os cantos de sua boca cederam
num sorriso contido. O som das palavras preenchia o espaço entre eles de forma
estranhamente confortável, quase como música.
Era curioso, pensava Sirius, como aquele momento simples carregava um peso tão diferente
de qualquer outro dia. Até a manhã anterior, encontros assim pediam cuidado: escolher um
canto afastado, disfarçar olhares, não tocar por tempo demais. Agora, depois do café da
manhã no Salão Principal — depois de toda Hogwarts ter visto de maneira absolutamente
inequívoca que eles estavam juntos —, não havia mais máscaras.
— É meio louco, não é? — perguntou Sirius, a voz saindo lenta, quase preguiçosa.
— Isso aqui. — Sirius fez um gesto vago, englobando o cenário, a árvore, a mão que
descansava de leve sobre o joelho de Severus. — Estar com você sem fingir que não quero
beijar você sempre que respiro.
— Os dois. — respondeu Severus, simples, e Sirius riu, a risada grave ecoando sob a copa da
árvore.
Eles ficaram um tempo sem falar, ouvindo apenas a brisa e o som distante das torres. Sirius
fechou os olhos por um momento, sentindo o calor filtrado do sol e pensando que, se alguém
lhe dissesse há alguns anos que estaria ali — não só com Severus, mas com Hogwarts inteira
sabendo —, teria gargalhado.
— Sabe o que é doido? — começou Sirius, abrindo um olho para olhar o namorado. —
Nosso último ano está acabando.
— Não é “doido”, é inevitável — corrigiu Severus, mas havia um traço de nostalgia na forma
como fechou o livro e descansou as mãos sobre ele.
— Vou me inscrever no programa de aurores com o James. — disse Sirius, e a maneira como
falou denunciava que já se imaginava lá, enfrentando missões perigosas com o melhor amigo
ao lado. — Vai ser insano.
— É, também. Mas é o que eu quero. — Sirius inclinou um pouco a cabeça para encarar
melhor o rosto dele. — E você?
— Isso combina com você. — Sirius sorriu de lado. — Sempre cercado de frascos e
caldeirões, inventando algo brilhante que ninguém mais teria paciência para tentar.
— Sev… — Sirius suspirou, mas não desistiu. — Não quero que você largue um sonho por
causa de galeões. Eu tenho dinheiro suficiente, não me custa nada.
— Não se trata de custar. — Severus desviou o olhar para a relva, onde uma formiga escalava
uma folha caída. — Eu não preciso que você resolva tudo por mim.
O silêncio que seguiu não foi pesado, mas carregava aquela tensão silenciosa de dois
orgulhos que se respeitavam. Sirius inspirou fundo, deixando a cabeça cair de novo no colo
dele.
— Tá. Mas não reclame se um "patrocinador misterioso" mandar um depósito para você um
dia desses.
— Você é impossível. — disse Severus, mas havia um brilho nos olhos que não era de
irritação.
— E você gosta disso. — Sirius fechou os olhos outra vez, quase cantando a frase.
O sol já tinha mudado de posição, desenhando padrões diferentes de sombra sobre eles.
Severus reabriu o livro, mas não passou da primeira linha; estava mais atento ao peso
confortável da cabeça de Sirius e ao entrelaçar lento dos dedos dele sobre seu braço. O futuro
parecia ao mesmo tempo assustador e tentador — e, pela primeira vez, ele se permitiu pensar
que talvez não precisasse enfrentá-lo sozinho.
Severus não respondeu de imediato. Observou o movimento lento das nuvens, sentiu a brisa
fresca no rosto, e então deixou que sua mão buscasse a dele, os dedos se encaixando num
gesto simples, mas definitivo.
— Vamos. — respondeu, baixo, e a certeza que colocou naquela única palavra foi mais forte
do que qualquer promessa longa poderia ser.
---
Nota da autora 🤭
E não é que Sirius conseguiu arrastar o Snape pra tomar café da manhã de mãos dadas no
meio do Salão Principal? Metade de Hogwarts engasgou no suco de abóbora, a outra metade
😂
já está apostando quanto tempo dura, e o resto... bom, o resto tá só fingindo que não viu nada.
Confesso que amei escrever o James tentando fingir normalidade, o Remus falando do
Profeta Diário do nada, e a Narcisa chegando como quem diz: "Ele é meu amigo e vocês vão
ter que engolir". Ícone demais.
E depois, a cena no jardim... ai ai, Sirius Black achando que romance é deitar no colo do
Snape e reclamar de estudar. Quem diria, hein?
Chapter 23: Lição 23
O Salão Comunal da Grifinória estava envolto num silêncio quase antinatural. A lareira
crepitava baixinho, espalhando um calor suave que contrastava com o ar gelado vindo das
janelas mal fechadas. A maioria dos alunos estava curvada sobre livros e pergaminhos,
mastigando feitiços e datas como quem mastiga ansiedades.
Severus Snape, como sempre, parecia impermeável ao ambiente. Sentado no sofá mais
afastado, com as pernas cruzadas e a postura reta, lia e relia uma lista meticulosa de
ingredientes e contra-feitiços, os dedos longos segurando a pena com precisão cirúrgica.
Cada linha era absorvida com uma concentração quase irritante — pelo menos, para Sirius
Black.
— Você está mesmo ignorando minha existência — Sirius disse, largando-se ao lado dele
com um baque exagerado no estofado.
— Não estou ignorando. — Severus respondeu sem levantar os olhos. — Estou escolhendo o
que é mais útil neste momento.
— Ai. — Sirius levou a mão ao peito num falso gesto de dor. — Direto no ego.
Sirius se inclinou, apoiando o queixo na mão e observando o perfil de Severus. Era injusto,
pensou, que alguém pudesse ter aquela expressão tão séria e, ao mesmo tempo, um traço tão
hipnotizante no canto da boca. Um convite silencioso.
Ele deixou a mão deslizar até o peito do sonserino, tocando de leve o tecido. O polegar roçou
o primeiro botão, sem pressa.
Severus ergueu o olhar, estreitando os olhos como se pudesse, com pura força de vontade,
fazer Sirius evaporar.
— Black...
— Mãos. Fora.
Severus afastou a mão dele, mas Sirius mal esperou um instante antes de voltar, agora com a
ponta dos dedos brincando com a gola da camisa. O tecido cedeu levemente sob o toque,
revelando um vislumbre de pele pálida.
O francês saiu como veludo, baixo, arrastado, cada palavra moldada com precisão e intenção.
Antes que Severus pudesse reagir, Sirius fechou os dentes de leve na borda da orelha dele,
num toque rápido e provocador, seguido por um sopro quente que fez a espinha do sonserino
protestar contra o autocontrole.
— Desde quando você fala francês? — O tom estava entre a surpresa e a acusação.
— Desde sempre. — Sirius deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. —
Só não achei que valia a pena comentar.
Severus encarou-o por alguns segundos, tentando não demonstrar que a frase — ainda mais
dita naquele tom — tinha deixado seu coração um pouco mais rápido. Ele fechou o
pergaminho com um estalo e se levantou.
— Que você está subindo para o dormitório comigo? — Sirius sugeriu, erguendo uma
sobrancelha maliciosa.
— Que você fala francês perfeitamente, mas eu já te ouvi se enrolar tentando dizer
"Mandrágora".
O quarto de Sirius estava mergulhado numa penumbra sedutora, a luz da lua filtrada pelos
cortinados criando faixas prateadas que dançavam sobre a cama e os tapetes espalhados pelo
chão. Mal a porta se fechou atrás deles, Sirius agarrou Severus pelos quadris, pressionando o
corpo contra o dele, e aprofundou o beijo com fome, as línguas dançando num ritmo
provocador e intenso.
Severus tentou recuar, mas Sirius segurou seu queixo, guiando o rosto de volta. Cada toque
era uma promessa, cada deslizar de dedos pelo tecido da camisa um estímulo silencioso.
Sirius desabotoou a camisa de Severus com pressa contida, expondo o peito pálido ao toque
voraz de suas mãos, traçando cada linha, cada curva, fazendo Severus se arrepiar sob o calor
do contato.
— Sirius... — murmurou Severus, a voz baixa, carregada de confusão entre desejo e tentativa
de controle.
— Por que resistir? — Sirius respondeu, a voz rouca, enquanto deslizava a mão pela cintura
de Severus, provocando um arquejar involuntário. — Aqui, agora, só nós dois.
Sirius inclinou Severus contra a parede, os lábios devorando cada centímetro de pele que
alcançava, mordiscando, sugando, arrancando suspiros que Severus não conseguia conter. As
mãos de Severus agarraram a camisa de Sirius, mas cada toque do outro era impossível de
ignorar. O corpo de Sirius contra o seu parecia moldar Severus em algo vulnerável e intenso
ao mesmo tempo.
Quando finalmente se moveram para a cama, Sirius gentilmente deitou Severus sobre o
colchão, mantendo o olhar firme e carregado de intenções. Ele subiu por cima, cada beijo
mais intenso que o anterior, cada toque provocando uma mistura de prazer e frustração
controlada. A respiração de ambos se misturava, pesada e irregular, preenchendo o quarto
com uma energia quase elétrica.
Sirius explorava o corpo de Severus com cuidado e determinação, os dedos deslizando pelo
torso, descendo pela cintura, provocando cada reação involuntária. Severus, mesmo tentando
manter o controle, se rendia a cada roçar de mão, a cada beijo profundo, a cada murmúrio
baixo que escapava de seus lábios.
— Você me deixa louco — murmurou Sirius, pressionando-se contra Severus, sentindo cada
respiração curta, cada tremor de prazer que o sonserino tentava disfarçar.
Severus arqueou o corpo, a cabeça inclinando-se para trás enquanto as mãos exploravam o
peito de Sirius, o toque firme e desesperado, tentando retomar alguma autoridade sobre si
mesmo. Mas a tensão entre os dois era incontrolável; cada gesto, cada beijo, cada movimento
era um jogo de dominação e entrega mútua.
Eles se perderam naquele espaço, corpos próximos, lábios colados, respirações entrecortadas
e gemidos contidos. Cada toque provocativo, cada deslizamento de mãos pelo tecido e pela
pele, alimentava uma chama intensa, tornando impossível qualquer tentativa de
racionalidade. O quarto parecia pequeno demais para conter a tempestade que os consumia.
Quando finalmente pausaram, apenas por um instante, Sirius apoiou a testa na de Severus, os
dedos entrelaçados nos cabelos do outro, sorrindo com um misto de cansaço e satisfação:
— E você... — Severus murmurou, a voz rouca e baixa, o peito subindo e descendo com a
respiração acelerada. — Um caos encantador.
Eles riram, silenciosos, trocando toques suaves e beijos mais lentos, permitindo que a
intimidade, a proximidade e o desejo que os consumia se transformassem em algo quase
delicado, mesmo em meio à tensão lasciva. A noite avançava, e o quarto de Sirius se tornou o
refúgio perfeito para perderem-se um no outro, entre suspiros, toques e olhares que falavam
mais do que palavras jamais poderiam.
---
Ele caminhava de um lado para o outro, as mãos cruzadas atrás das costas, a mente um
turbilhão de cenários possíveis. Cada minuto que passava dentro da sala de exames parecia
uma eternidade, e o medo de que algo estivesse errado com o namorado apertava seu peito de
forma inesperada.
— Onde estará ele? — murmurou, quase para si mesmo, a voz baixa e tensa.
Os colegas passavam por ele com olhares cansados ou distraídos, mas Severus mal notava.
Seu foco estava fixo na porta da sala de exames, imaginando Sirius sentado lá, distraído
como sempre, talvez tropeçando nas próprias respostas ou rindo baixinho de algum
pensamento bobo. A preocupação o deixava inquieto, e ele se pegava revivendo cada
momento recente com Sirius — cada beijo, cada toque, cada provocação que agora parecia
tão distante e insustentavelmente presente ao mesmo tempo.
— Você demorou demais — disse Severus, a voz firme, mas com um toque de
vulnerabilidade que raramente permitia. — Pensei que algo tivesse acontecido.
Sirius sorriu, aquele sorriso que sempre conseguia desarmar Severus por completo, e
respondeu com um tom de brincadeira:
— Relaxa, amor. Apenas estava me certificando de fazer um grande espetáculo com minhas
respostas. Você sabe como eu sou dramático.
Severus apertou a mão dele, sem conseguir esconder a mistura de reprovação e alívio. —
Dramático, sim. Imprudente, também. Mas... — ele suspirou, o olhar suavizando — ainda
bem que você está bem.
---
O Três Vassouras estava em plena efervescência, vibrando com risadas, cantos e o tilintar
constante de canecas de cerveja amanteigada. Alunos de todos os últimos anos se espalhavam
pelo salão, alguns ainda comentando as provas recém-terminadas, outros já claramente
embriagados e se divertindo como se a noite fosse eterna. O ar cheirava a pão recém-assado,
chocolate quente e, discretamente, a magia de Hogwarts celebrando mais um ciclo encerrado.
Sirius Black se acomodava em uma mesa perto da lareira, os braços cruzados enquanto
observava o movimento frenético. James estava ao seu lado, segurando duas canecas e
tentando convencer Remus a participar de uma competição de quem bebia mais rápido com
Peter, que ria escandalosamente a cada gole. Lily e Marlene fofocavam no balcão da
Rosmerta, inclinadas uma sobre a outra e gesticulando animadamente, claramente
aproveitando a liberdade do fim das provas.
— Sirius, você está mais nervoso que a minha avó em Dia das Bruxas — James comentou,
rindo enquanto observava Sirius se levantar de tempos em tempos e mirar a porta, como se
qualquer barulho pudesse revelar Severus chegando.
— Eu sei o que estou fazendo — Sirius retrucou, mas sua voz carregava um nervosismo
impossível de disfarçar. Cada vez que a porta rangia ou uma sombra atravessava o umbral,
ele se endireitava, tentando conter o coração que batia como um hipogrifo irritado. — Ele
está demorando demais.
Ao redor, a festa crescia. Alguns alunos dançavam no meio do salão improvisando passos
desajeitados, outros tentavam cantar em dueto com as canções que ecoavam de uma harpa
mágica no canto, tocada por uma aluna de Ravenclaw. Sirius não conseguia se concentrar em
nada além de Severus — imaginando cada detalhe: o jeito que ele arrumava o cabelo, a
postura impecável, o olhar profundo que sempre parecia atravessar qualquer máscara.
— Sirius, olha ali! — James exclamou, apontando discretamente para o banheiro. Sirius
seguiu o gesto e, por um instante, sentiu um calor de ciúmes misturado com incredulidade:
Narcisa e Lucius estavam próximos, sussurrando e trocando um beijo furtivo. Ele revirou os
olhos e voltou a observar a porta, tentando ignorar a prima.
O tempo parecia se arrastar até que a porta fez um rangido mais audível. Sirius se levantou de
um salto, os olhos imediatamente procurando o rosto familiar entre a multidão. E então ele
apareceu.
Severus Snape.
Severus caminhou até Sirius, desviando de mesas e alunos dançando de maneira desajeitada,
e cada passo parecia perfeitamente calculado, elegante e cheio de uma confiança que só ele
conseguia manter. Ao se aproximar, ele estendeu a mão num gesto quase formal, mas os
olhos, escuros e brilhantes, diziam tudo: pertencimento, desejo e uma pontada de travessura.
— Você demorou — Sirius disse, tentando soar firme, mas falhando miseravelmente quando
Severus sorriu de volta, o canto dos lábios curvando-se de forma tão natural que Sirius se
perdeu por um segundo.
— O professor Sulhogan quis me ver antes — respondeu Severus, a voz baixa, carregada de
nuances que apenas Sirius conseguia perceber. — Mas agora... finalmente posso aproveitar a
festa.
O coração de Sirius acelerou, e ele não conseguiu resistir: aproximou-se, a testa tocando a de
Severus, o sorriso se tornando mais travesso.
A música aumentou de volume, e logo alguns alunos se levantaram para dançar. Sirius olhou
para Severus e, sem dizer uma palavra, estendeu a mão, puxando-o para o meio do salão. No
início, Severus hesitou, desconfortável com o centro da atenção, mas a mão firme de Sirius e
o olhar penetrante o convenceram. Logo, ele cedeu, permitindo que Sirius guiasse os passos
de dança improvisados, cada movimento carregado de tensão e flerte.
— Você dança bem... para alguém que sempre finge estar entediado — Sirius murmurou,
encostando a testa na de Severus.
— E você é impossível... — Severus respondeu, mas seu tom era suave, quase vulnerável.
Um sorriso quase invisível se formou nos lábios dele, e Sirius se deliciou com cada detalhe.
Severus finalmente soltou um riso baixo, quase escondido, quando Sirius tentou girá-lo de
maneira exagerada, quase desequilibrando ambos.
— Idiota — murmurou Severus, mas havia brilho nos olhos e leveza na voz. — Mas
divertido.
— Eu sei — respondeu Sirius, apertando a mão de Severus e puxando-o mais perto, os
corpos quase colando enquanto giravam pelo salão. — Mas ainda tenho muito a ensinar.
A festa continuava ao redor deles, cada risada, cada canção e cada brinde criando uma
atmosfera mágica. Sirius e Severus, entre passos de dança e olhares intensos, sentiam o peso
de semanas de ansiedade e provas derreterem. Cada gesto, cada toque era carregado de tensão
liberada, prazer e cumplicidade silenciosa, como se aquele fosse o único momento que
realmente importava.
E então, quando a música mudou para uma melodia mais lenta, Sirius segurou Severus pelos
ombros, aproximando-se ainda mais. Os olhares se encontraram, intensos, carregados de
promessas e desejo contido, e o resto do mundo desapareceu. Cada respiração, cada toque,
cada leve sorriso se transformou em dança silenciosa e íntima, mesmo em meio à multidão
animada.
— Me promete uma coisa? — Severus falou depois de se afastar, olhando fundo nos olhos de
Sirius.
O grifinório arqueou uma sobrancelha, o coração acelerando sem querer. — Depende... — ele
murmurou, tentando soar despreocupado, mas a seriedade no olhar de Severus o desmontava
por dentro.
— Que, não importa o que aconteça... isso vai durar para sempre. Nós dois. — A voz de
Severus saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de um peso que Sirius não conseguia
ignorar.
Por um instante, Sirius ficou em silêncio. O ar parecia denso demais entre eles, cada batida
do coração ecoando como trovão dentro do peito. Depois, segurou o rosto pálido entre as
mãos, os polegares roçando de leve nas maçãs do rosto de Severus, e respondeu com uma
convicção que nem sabia que tinha:
— Eu juro, Sev. Nem se o mundo inteiro tentar me arrancar de você.
O grifinório puxou o sonserino para perto e selou a promessa com um beijo apaixonado. Foi
um beijo urgente, cheio de tudo que eles não conseguiam dizer em palavras: medo, desejo,
esperança. Severus fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, deixou-se acreditar
que podia ser amado sem condições.
Severus não resistiu, correspondendo com delicadeza, deixando que a música, a festa e a
magia de Hogwarts os envolvesse completamente. Por um instante, nada mais importava:
nem provas, nem competição de bebida, nem fofocas no balcão. Apenas eles dois, dançando,
rindo e se perdendo no momento, celebrando não só o fim das provas, mas o início de algo
que ambos sabiam que nunca poderiam deixar escapar.
---
Nota da autora:
😏💀
"Olha só... eles estão tão felizes! Quero eles mortos! Hahaha... calma, calma, só estou
brincando... ou será que não?
Chapter 24: Lição 24
O céu noturno estava claro, iluminado por uma lua cheia que derramava sua luz prateada
sobre o caminho de pedra entre Hogsmeade e Hogwarts. Sirius e Severus caminhavam lado a
lado, braços entrelaçados de vez em quando, ainda rindo das pequenas confusões da festa no
Três Vassouras. O ar fresco carregava o cheiro da neve próxima, do calor do castelo e da
magia de Hogwarts — parecia que tudo conspirava para que aquele momento fosse perfeito.
Severus sorria de um jeito raro, um sorriso que Sirius quase nunca tinha visto. Havia algo no
brilho dos olhos dele, uma mistura de empolgação e nervosismo, que fazia o coração de
Sirius disparar.
— Oh, não me diga que vai me dizer que finalmente aprendeu a cozinhar feijões de forma
comestível — Sirius brincou, rindo, sentindo a mão de Severus apertar a sua de leve.
Sirius parou no meio do caminho, olhos arregalados. — Você está falando sério? Isso é...
incrível!
— Eu sei — Severus respondeu, com um brilho nos olhos que quase fez Sirius esquecer de
respirar. — Mas... há um detalhe.
Sirius engoliu em seco. A distância parecia impossível por um instante, mas então ele olhou
para Severus, viu o brilho nos olhos dele e o sorriso tão raramente livre, e a certeza surgiu:
— Eu sei que vai amar — disse Sirius, encostando a testa na dele, sorrindo. — Mas... eu vou
sentir sua falta.
Severus sorriu, passando os dedos pelos cabelos de Sirius. — Também vou sentir a sua. Mas
uma semana vai passar rápido. Além disso... isso vai ser importante para mim.
Ao chegarem a Hogwarts, o castelo parecia ainda mais majestoso sob a lua. Subiram as
escadas, rindo das histórias da festa, comentando cada momento engraçado, mas ambos
sabiam que uma nova etapa se aproximava — uma que testaria não só a carreira de Severus,
mas também o vínculo deles.
A semana passou rápido demais. Severus mergulhava no estágio, aprendendo técnicas novas,
trabalhando com poções que antes só existiam em livros raros, e a empolgação dele chegava
a Sirius em cada carta e ligação mágica. Sirius tentava acompanhar, mas os treinos de auror o
mantinham ocupado, e ele só podia imaginar o quanto Severus estava feliz explorando o
trabalho dos sonhos.
Uma semana virou duas. Duas semanas viraram um mês. Cada carta que Sirius recebia
carregava não apenas relatos de conquistas, mas também um pouco da energia, da alegria e
da intensidade de Severus. Cada foto, cada mensagem, fazia o peito de Sirius apertar de
orgulho e saudade ao mesmo tempo.
— Um dia — Sirius murmurava, olhando para uma carta — vamos rir de como isso parecia
impossível.
— E vou te provar que você vai amar cada minuto do meu trabalho — Severus respondia,
numa carta diferente, com um toque de brincadeira e segurança. — Mas não se preocupe...
sempre volto para você.
Seis semanas se passaram, depois dois meses. Um mês tornou-se meio ano, e o tempo parecia
encolher e esticar simultaneamente. Cada um seguia sua rotina, mas uma parte do coração
permanecia com o outro. A vida continuava — treinos, estudos, trabalho, responsabilidades
— mas o elo formado no último ano de Hogwarts resistia.
Mesmo com os desafios, as lembranças do último ano se tornavam cada vez mais preciosas.
Cada beijo roubado, cada abraço apertado nos corredores, cada risada compartilhada — tudo
gravado como pequenas âncoras que sustentavam o relacionamento à distância.
— Lembro daquele baile no Três Vassouras — Sirius escreveu — de como você riu quando
tropeçamos na dança. Nunca vou esquecer.
— Nem eu — respondeu Severus. — Você me manteve são naquele caos. Você me manteve
feliz.
Severus tornou-se um potionista renomado, com experiências pelo mundo, enquanto Sirius
avançava no Ministério, construindo sua carreira de auror. O último ano de Hogwarts deixou
uma lembrança doce e intensa de um amor improvável, mas impossível de ser esquecido.
---
10 anos depois
O ar daquela manhã carregava o cheiro fresco de outono, com folhas secas rodopiando
preguiçosamente pelo chão de paralelepípedos. Sirius Black caminhava com passos
calculadamente lentos, os olhos voltados para baixo, não porque estivesse distraído, mas
porque o pequeno Harry Potter, com seus sete anos de pura curiosidade e cabelos rebeldes,
estava contando — com gestos exagerados e olhos brilhantes — a incrível história de como
havia "derrotado" um monstro imaginário no quintal na noite anterior.
— E aí, tio Sirius, ele fugiu porque eu usei o feitiço... ! — Harry gesticulou com tanta
animação que quase acertou a perna do padrinho. — Na verdade, eu ainda não sei o feitiço de
verdade, mas quando eu gritei "BUM", ele se assustou e saiu correndo.
Sirius soltou uma risada genuína. — Aposto que foi isso mesmo, pequeno maroto. Com um
grito desses, até um trasgo adulto teria saído correndo.
Era uma cena quase tranquila demais para os padrões de Sirius. Sua única missão naquela
manhã era simples: levar o afilhado à escola preparatória de jovens bruxos. Não era
Hogwarts, mas era o primeiro passo para que uma criança ainda tão nova aprendesse a
controlar seus poderes, conhecer feitiços simples, e, principalmente, gastar energia suficiente
para dar um descanso aos adultos ao redor.
Sirius se sentia... bem. Quase normal. Mas, como ele mesmo costumava dizer: normalidade e
ele nunca foram grandes amigos.
A escola surgiu à frente, com seu portão de ferro delicadamente entalhado com símbolos de
estrelas e luas. O movimento era grande — crianças de todas as idades, rindo, tropeçando,
algumas chorando, enquanto pais e responsáveis se despediam. Sirius abaixou-se para ajeitar
a gravata torta de Harry (não que fosse realmente necessária, mas gostava do gesto
dramático) e, ao levantar o rosto, o mundo pareceu congelar.
Do outro lado da rua, parado como se fosse parte de um quadro, estava Severus Snape. A
mesma figura alta, ombros retos, vestes negras impecáveis que contrastavam com a luz
dourada da manhã. Ao seu lado, segurando a mão de um menino loiro da mesma idade de
Harry, estava Draco Malfoy, filho da sua prima Cissa, tão loiro que parecia refletir o sol.
Severo.
O nome veio como um sussurro na mente, carregado de lembranças que ele passara anos
tentando esquecer: risadas abafadas na noite, discussões que queimavam como ferro em
brasa, beijos urgentes como se o mundo pudesse acabar a qualquer momento. E o fim...
cortante, feito lâmina.
Os olhos de Severus encontraram os dele, e foi como se um feitiço antigo tivesse sido
quebrado e lançado ao mesmo tempo. Não havia tempo para disfarces; era tarde demais.
Simultâneo. Um choque gelado atravessou os dois, mas por baixo havia algo morno,
incômodo, quase familiar: o resquício de um sentimento que nunca morrera.
Harry piscou, confuso, olhando do padrinho para o homem de preto. — Você conhece ele, tio
Sirius?
— Conheço... — respondeu Sirius, sem desviar os olhos de Snape. O tom era baixo, quase
íntimo, mas carregado de histórias que Harry era jovem demais para entender.
Draco apertou a mão de Severus e olhou para o amigo recém-conhecido. — Oi, eu sou Draco.
As crianças se estudaram por um momento, mas o silêncio entre os adultos parecia tão denso
que até elas sentiram. Harry olhou para o padrinho, depois para Severus, e franziu a testa. —
Por que vocês estão olhando assim?
— Como se… estivessem brigando sem falar nada. — Harry fez um gesto vago, ainda
aprendendo a explicar sentimentos complexos.
Draco, sempre mais direto, disse: — Ou como se gostassem, mas não quisessem admitir.
O silêncio ficou tão pesado que até o vento pareceu prender a respiração.
— Sim, Harry — respondeu Sirius, erguendo o queixo como se fosse um duelo silencioso. —
Vamos entrar, antes que alguém ache que estamos atrapalhando o trânsito.
As crianças trocaram um último olhar curioso antes de serem conduzidas para lados opostos.
Mas Sirius, mesmo andando, sentia o peso do olhar de Severus queimando suas costas.
Fim da parte 1
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Nota da autora:
Se você chegou até aqui sem tropeçar nas lágrimas, engasgar de rir ou sofrer um ataque
😎
de curiosidade insana, meus parabéns: você é oficialmente mais resistente que feitiço de
proteção de Hogwarts!
Ah, e só pra constar: nenhuma coruja, auror ou potions master foi maltratado na criação
desta história... mas alguns corações podem ter sido sutilmente roubados. Então, cuidado
ao virar a próxima página — não me responsabilizo por batimentos acelerados, suspiros
inesperados ou a súbita vontade de sair correndo para Hogsmeade à meia-noite.
Agora, respira fundo, pega uma varinha — ou um café mesmo, que funciona quase tão
bem — e vem comigo para a próxima parte. Prometo que vai valer a pena.
😏💀
Ps: Se algum Maroto ou Sonserino se oferecer para me caçar depois disso... só digo uma
coisa: não matem a autora!
Chapter 25
Severus Snape empurrou a pesada porta da Mansão Malfoy com a lentidão calculada de
quem carrega pensamentos demais para os ombros, mas músculos de menos para a carga. O
som grave das dobradiças ecoou pelos corredores como um lamento metálico. A casa estava
mergulhada em silêncio — não o silêncio pacífico de mosteiros, mas um silêncio amplo e
quase sufocante, que reverberava pelo mármore como se amplificasse o vazio. Não havia o
tilintar de pratarias sendo polidas, nem o arrastar apressado dos elfos domésticos, nem o
sopro de vozes distantes. Apenas o som seco de suas botas tocando o chão, compassadas
demais para alguém que, por dentro, se sentia prestes a desmoronar.
Para Severus, aquele silêncio não era repouso. Era espelho. Lembrava-lhe de seus próprios
corredores internos: longos, frios e povoados por memórias que se recusavam a morrer. Ele
caminhava com um propósito simples — encontrar Narcisa. A amiga sempre se refugiava,
nesse horário, na terceira sala à esquerda, onde o ritual se repetia: uma xícara de chá
delicadamente equilibrada, as costas eretas na poltrona de veludo, e uma revista de fofocas
bruxas, que Severus tolerava apenas por consideração à amiga. Às vezes, quase achava
reconfortante que o mundo pudesse se resumir, para alguns, a quem beijou quem em
determinado baile.
Mas, ao empurrar a porta da sala, não encontrou a costumeira cena entediante. O que viu o
fez hesitar.
Lucius Malfoy estava inclinado sobre Narcisa, os lábios próximos demais do ouvido da
esposa, sussurrando algo que fez seus olhos claros se curvarem em riso. E Narcisa, elegante
como sempre, mas com uma leveza rara, deixou escapar uma gargalhada cristalina, cheia de
intimidade. Um segundo depois, ela se inclinou e beijou Lucius com a naturalidade de quem
esqueceu que havia mundo além daquela sala.
Severus congelou. Não era ciúme, não era inveja. Era desconcerto. Na escola, os dois mal se
suportavam: rivais, debochados, serpentes disputando território. E agora, ali, formavam um
par cúmplice, sólido, íntimo. O tempo era mesmo perverso na forma como reorganizava
afetos.
Ele respirou fundo, pigarreou com a urgência de quem precisava rasgar o ar pesado.
— Narcisa. Lucius.
A voz cortou a cena como lâmina. Narcisa quase deixou cair a xícara de chá, levou a mão ao
peito e soltou um “Por Salazar!” teatral, como se tivesse sido pega em delito. Lucius, por sua
vez, recompôs-se num instante, ajeitando o colarinho com a calma estudada de quem nunca
se permite perder a compostura.
— Severus — disse Narcisa, recobrando-se, embora ainda corada. — Você tem o dom de me
matar do coração.
Ele arqueou uma sobrancelha, mas não comentou. Para quebrar o clima, lançou mão do
primeiro assunto neutro que lhe ocorreu.
Narcisa relaxou os ombros. O riso nervoso cedeu lugar ao brilho materno em seus olhos.
— Ah, ele estava animadíssimo! Mal conseguiu comer o café da manhã de tanta ansiedade.
Ficava correndo de um lado para o outro, conferindo os livros, arrumando os lápis,
perguntando se poderia mostrar o novo feitiço que aprendeu ontem… Até quis levar a coruja
que ganhou na semana passada, para apresentar aos colegas. — Ela sorriu com ternura. —
Não parava de repetir: “Padrinho vai me levar, não é? Eu não quero me atrasar!”
Lucius, sempre mais contido, interveio com aquela voz arrastada que fazia cada palavra soar
ensaiada:
— É natural. O início de um novo ano é sempre excitante para uma criança. Preparação
sólida antes de começar a escola. Não esperaria menos do meu filho.
Severus assentiu, mas o nó em sua garganta não desapareceu. Talvez por isso, sem medir,
deixou escapar a frase que fervia em sua mente desde cedo.
— E lá… vi alguém que não esperava ver. Sirius.
O nome caiu na sala como uma maldição esquecida. Narcisa arregalou os olhos, quase
derramando o chá. Lucius ergueu o queixo, atento.
Um lampejo atravessou a mente de Severus. Um flash cruel: o instante em que seus olhos
encontraram os de Sirius mais cedo naquele dia. O choque foi mútuo, tão nítido que o tempo
pareceu se arrastar. Anos de distância comprimidos em segundos, cada ruga e cada sombra
revelando que, apesar de tudo, ambos ainda se reconheciam. Não houve palavras. Apenas o
silêncio cheio de tudo o que não fora dito.
— Mas… meu primo nunca foi de seguir regras. Contudo, crianças? — Ela balançou a
cabeça. — Isso não faz sentido.
Severus demorou a responder. Finalmente, disse num tom baixo, quase um fio:
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi pesado, cheio de significados. Narcisa observava-
o como quem lê entrelinhas; Lucius estudava-o como se avaliasse um tabuleiro de xadrez.
Por dentro, Severus lutava com os próprios fantasmas. A raiva ainda estava lá — viva,
pulsante —, mas junto dela vieram outros resquícios: desejo mal enterrado, arrependimentos,
nostalgia. Ele não estava preparado para aquele reencontro. Não depois de tantos anos. Não
quando acreditava ter fechado aquela porta.
— O passado só pesa se você o deixa atravessar o presente. É escolha, Severus. Sempre foi.
— Você não precisa fingir que não doeu. Só precisa decidir o que vai fazer com essa dor.
Severus baixou os olhos. A sinceridade dela feria mais do que qualquer ironia de Lucius.
— Não sei se consigo. — Sua confissão saiu crua, desarmada. — Mas não posso continuar
fugindo.
Por um instante, a sala pareceu suspensa no tempo. O chá esfriava nas xícaras, a luz filtrava-
se preguiçosa pelas cortinas, e Severus percebeu que, apesar do peso em seu peito, não estava
sozinho.
Aceitou a xícara que Narcisa lhe ofereceu, mesmo já fria. Não pelo gosto, mas pelo gesto.
Por estar ali, em companhia.
Ao se levantar para sair, Narcisa estendeu-lhe a mão. Ele a segurou, e o aperto foi breve, mas
sólido. Um lembrete de que, por mais que o passado voltasse para assombrar, ainda havia
laços que permaneciam firmes.
Severus caminhou novamente pelos corredores silenciosos da mansão. Mas agora, cada passo
parecia menos incerto. Não havia respostas definitivas, apenas a estranha certeza de que o
reencontro com Sirius não poderia ser ignorado. O tempo, afinal, não apaga nada — apenas
espera a hora certa para devolver o que é seu.
---
O sol ainda piscava timidamente pelas cortinas quando Draco se lançou da cama, os cabelos
despenteados saltando junto com ele. A animação era quase palpável: hoje começava um
novo ano escolar, e o mundo parecia inteiro à sua espera.
Na mesa de cabeceira, sua varinha infantil brilhava como um tesouro. Pequena, leve, perfeita
para mãos de criança, com feitiços programados para efeitos visuais — bolhas cintilantes,
faíscas coloridas e objetos que dançavam com um leve toque. Draco agarrou-a com firmeza,
os olhos iluminados.
— Hoje vai ser incrível! — murmurou para si mesmo, correndo pelo quarto.
— Não se preocupe, Padrinho! — respondeu Draco, rindo, enquanto lançava uma bolha azul
que subiu até o teto e estourou com um “pop” suave. — Olha! Consegui!
Severus arqueou uma sobrancelha, tentando parecer sério, mas não conseguiu evitar um leve
sorriso.
— Sim, você conseguiu. Agora, pelo amor de Merlin, não destrua mais nada.
Draco pulou animado, quase derrubando o lápis que tentava dançar sobre a mesa:
— Ele está dançando sozinho! Padrinho, olha! — exclamou, correndo de um lado para o
outro, varinha em punho.
Tentou então fazer faíscas coloridas piscar no ar. Uma pequena explosão dourada iluminou o
quarto, e Draco bateu palmas:
— Draco! — Severus avisou, cruzando os braços. — Devagar. Você vai tropeçar se correr
desse jeito.
A bolha flutuou lentamente pelo ar, refletindo a luz do sol nascente. Draco saltou, tentando
tocá-la sem sucesso, e caiu de costas no tapete, rindo alto.
— Está tudo bem? — perguntou Severus, correndo até ele.
— Sim! — Draco gritou, rolando no chão de tanta alegria. — Olha a varinha, Padrinho! Cada
efeito é mágico!Pansy vai surtar quando descobrir que eu tenho uma e ela não.-O menino riu.
Severus suspirou novamente, desta vez deixando escapar um sorriso quase imperceptível.
Draco, empolgado, levantou-se rapidamente e apontou a varinha para uma pequena poça de
água:
Quando finalmente Severus chamou para que se apressassem, Draco guardou a varinha com
cuidado, segurando-a como se fosse o objeto mais precioso do mundo. Mas mesmo no
caminho da escola, a cabeça dele ainda estava nas bolhas que flutuavam, nas faíscas que
piscavam e nos lápis dançantes. Cada pequeno gesto da manhã tinha se transformado em pura
magia infantil — risadas, descobertas e encanto que só uma criança de oito anos podia sentir.
Radiante, Draco seguiu adiante, já planejando novas travessuras e experimentos, cada passo
cheio da promessa de aventuras e descobertas que fariam aquele dia especial.
--
Nota da autora:
Draco Malfoy não conseguia tirar aquilo da cabeça. O encontro daquela manhã ainda ecoava
em sua mente, repetindo cada detalhe com uma intensidade que o deixava inquieto. Seu
padrinho, normalmente calmo e seguro, havia se comportado de um jeito estranho, como se
tivesse visto um fantasma — ou pior, um segredo que não podia ser contado. E Draco,
curioso e teimoso como só um Malfoy de 8 anos podia ser, decidiu que descobriria o que
estava acontecendo.
—Pansy!— chamou, puxando a amiga pelo braço no recreio. Ela estava distraída,
equilibrando um pedaço de bolo de lanche na mão e seu inseparável caderno de desenhos na
outra.
—O que foi agora, Draco?— Pansy perguntou, franzindo o cenho. —Se for mais alguma das
suas ideias malucas, juro que vou te ignorar.
—Não é uma ideia maluca. É uma missão.— Draco baixou a voz, como se a própria
gravidade da situação pudesse fazer os outros ouvirem. —Vi para onde o garoto de olhos
verdes foi. Vamos descobrir o que ele está fazendo.
Pansy suspirou, sabendo que resistir era inútil. Apesar de ser dramática, chorona às vezes, e
se irritar com Draco quando ele jogava lama no vestido dela, ela era a parceira perfeita para
aventuras.
—Tá, tá… mas se eu me sujar, você me deve um chocolate, hein!— resmungou Pansy. Draco
sorriu — seu plano já estava funcionando.
Eles fugiram pelo pátio, desviando de crianças e professores distraídos. O coração de Draco
batia rápido, uma mistura de excitação e nervosismo. Finalmente, chegaram à porta de uma
pequena sala lateral, onde Harry Potter estava entrando com cuidado, segurando algumas
partituras e um bloco de notas de música.
—Perfeito. Agora é só entrar sem fazer barulho.— Draco fez um gesto dramático com a mão,
como se estivesse comandando uma tropa secreta. Pansy rosnou baixinho, revirando os olhos,
mas seguiu o plano.
Draco empurrou a porta devagar, e Pansy quase perdeu o equilíbrio, tropeçando na cadeira
mais próxima e derrubando uma flauta com um estrondo surdo. Harry se assustou, e algumas
partituras voaram pelo ar.
Draco tentou segurar Pansy, mas os dois se enroscaram nos próprios pés, caindo em um
amontoado desengonçado no chão.
Harry não conseguiu conter a risada. Primeiro uma risadinha tímida, depois gargalhadas altas
que ecoaram pelas paredes da sala de música.
—Vocês dois parecem… um desastre ambulante!— disse Harry, ainda rindo, tentando
recolher as partituras espalhadas.
—Nós… não estávamos tentando derrubar nada!— Draco respondeu, vermelho de vergonha
e raiva contida.
—Claro que não, foi só um… movimento estratégico de entrada secreta.— Pansy acrescentou
rapidamente, tentando soar convincente, mas a voz trêmula entregava o contrário.
Draco olhou para Pansy, apertando os olhos. Pior espiã do mundo, pensou.
—Tá, então… vocês também estão tentando descobrir alguma coisa?— Harry perguntou, os
olhos verdes brilhando de curiosidade.
—Sim!— Pansy respondeu antes de pensar. —Nós… estamos investigando sobre o padrinho
de Draco.
Draco bateu a mão na testa, exasperado. —Pansy! Você arruinou todo o plano!—
Ela revirou os olhos, mas não conseguiu conter um sorriso tímido. —Ah, qual é, Draco! Foi
só uma coisinha!
Harry riu tanto que quase caiu sobre as partituras novamente. —Vocês dois são incríveis!
Nunca vi ninguém tentar espiar e acabar se traindo tão rápido.
O silêncio que se seguiu foi leve, quase confortável. Draco percebeu que, pela primeira vez,
não estavam sozinhos em suas curiosidades; Harry também queria descobrir o que havia
acontecido naquela manhã com seus padrinhos. E isso tornava a missão mais empolgante.
—Então… que tal descobrirmos juntos?— Draco sugeriu, hesitante, mas com um brilho de
entusiasmo nos olhos.
—Sim!— Harry disse, sorrindo, claramente animado com a perspectiva. —Mas prometo que
dessa vez ninguém tropeça em ninguém.
—Não prometo nada.— Pansy respondeu, piscando com malícia, enquanto recolhia algumas
partituras do chão.
— Ninguém morre esmagado por uma flauta, Parkinson! — Draco rebateu, inflando o peito.
— E, além disso, foi só um erro de cálculo.
— Bom, já que vocês estão tão determinados a descobrir, talvez seja melhor a gente se unir.
Eu também acho que tem algo estranho acontecendo.
— Exatamente! Vi o jeito como meu padrinho ficou hoje de manhã. Ele parecia… sei lá,
como se tivesse visto alguém do passado.
— O meu também. Eles trocaram um olhar esquisito, como se escondessem alguma coisa.
— Ótimo, dois padrinhos misteriosos e três crianças intrometidas. Isso só pode terminar mal.
Antes que Pansy retrucasse, a porta da sala de música rangeu. Os três prenderam a respiração.
Um vulto passou pelo corredor. Passos rápidos, ecoando nas pedras do castelo.
E, como sempre, apesar de todas as reclamações, ela foi a primeira a correr para fora da sala.
Draco e Harry se entreolharam, meio incrédulos, e dispararam atrás dela.
O corredor estava quase vazio, mas ao fundo, perto da escadaria, a capa escura de alguém
desaparecia no andar de cima.
Eles subiram correndo, tropeçando nos degraus. Harry quase escorregou, mas Pansy o puxou
pelo braço no último instante. Ao chegarem ao patamar, se depararam com… nada.
— Eu sabia! Eles têm passagens secretas por toda parte. Aposto que foi por aí que ele
escapou.
Foi então que um barulho metálico ecoou atrás deles — como se uma porta escondida tivesse
se fechado. Os três se viraram ao mesmo tempo, corações acelerados.
---
✨ Nota da Autora ✨
😅
Três crianças, zero noção de perigo e uma flauta quase fatal. Padrinhos misteriosos,
passagens secretas e uma amizade nascendo no meio do caos. O que pode dar errado?
(Resposta: tudo).
Chapter 27: Lição
Sirius tinha um plano. Um plano excelente, praticamente perfeito, que ele vinha moldando
em sua mente há semanas com uma obsessão quase deliciosa. Ele pediria Remus Lupin em
casamento. Cada detalhe já estava ensaiado, desde a forma como seguraria as mãos de Remus
até a frase exata que diria — aquela que faria o coração do amigo disparar e a realidade
parecer tão leve quanto uma nuvem.
No entanto, naquela noite, ele não conseguia se concentrar no plano. Não realmente. O
reencontro com Severus Snape duas semanas atrás ainda pulsava em sua mente, insistente,
como se cada lembrança fosse um pequeno choque elétrico. Cada gesto de Severus, cada
olhar e cada silêncio pesado, ficava martelando em sua cabeça, confundindo a excitação do
pedido com uma nostalgia perigosa que ele não sabia onde encaixar.
Por isso, Sirius se encontrava naquela sala iluminada suavemente, cheia de amigos de Lily,
com uma taça de vinho na mão, tentando se distrair. James estava ao seu lado, o braço
apoiado casualmente sobre o encosto da cadeira, olhos brilhando de cumplicidade e
antecipação. “Agora, Sirius, agora é o momento perfeito”, sussurrou ele, inclinando-se para
frente como se compartilhasse um segredo sagrado. Sirius assentiu, o coração batendo forte,
os lábios prestes a pronunciar o que havia ensaiado dezenas de vezes.
Enquanto isso, Remus conversava animadamente com Marlene McKinnon — o que era, para
Sirius, deliciosamente irônico. A mesma Marlene que, na adolescência, o havia olhado com
ódio mortal agora ria, gesticulava e inclinava-se para Remus com uma intimidade calma e
confiante. Sirius observava cada sorriso, cada gesto, sentindo uma pontada de ciúme
misturado a uma estranha curiosidade.
Ele respirou fundo, engoliu o nervosismo e começou a se levantar, pronto para atravessar a
sala e criar coragem para falar com todos. Mas então, como se o universo decidisse brincar
com ele, a porta se abriu.
O mundo de Sirius parou. Cada risada, cada conversa, cada luz na sala parecia desacelerar,
derretendo ao redor dele. Ele viu tudo em câmera lenta: Lily Potter, sorrindo com aquele
brilho caloroso no olhar, caminhando na direção de Severus, braços se abrindo em um abraço
que era ao mesmo tempo familiar e carregado de história. O silêncio parecia mais alto do que
qualquer música ou murmúrio de fundo, e Sirius sentiu uma pontada de estranha melancolia.
Ele sabia que, ao longo dos anos, Lily e Severus haviam reconstruído a amizade, mas vê-los
assim — tão próximos, tão confortáveis um com o outro — era algo que ele não tinha
esperado.
O aroma do vinho e o calor da sala desapareceram para Sirius; só restava aquela cena, cada
detalhe gravado em sua memória com precisão dolorosa: o jeito que Severus encolheu os
ombros de forma quase imperceptível, a maneira como os dedos de Lily tocaram o braço
dele, o riso baixo e genuíno que escapou entre eles. Sirius engoliu em seco, a taça pesando na
mão, e sentiu uma mistura de nostalgia, desejo e... confusão.
Ele piscou, tentando focar, lembrando do pedido que ainda precisava fazer, da vida que
esperava construir com Remus. Mas, por alguns segundos que pareceram uma eternidade,
Sirius apenas observou, silencioso, testemunhando a cena que, de certa forma, desafiava a
ideia de controle que ele sempre teve sobre tudo em sua vida.
James, percebendo o olhar fixo e a respiração presa do amigo, apenas deu um tapinha em seu
ombro e murmurou: “Ok, talvez espere só mais um segundo.” Sirius sorriu de canto, sem
conseguir desviar os olhos, e sentiu que, de alguma maneira, aquele encontro inesperado
estava prestes a mudar algo dentro dele.
--
A cozinha da casa estava iluminada apenas por uma luz suave sobre a mesa, dando à cena
uma intimidade quase estranha ainda mais que a festa rolava a solta na sala. Lily falava
animadamente sobre maternidade — tema que Severus, sentado à sua frente, escutava com a
habitual expressão indecifrável. De tempos em tempos, ele franzia o cenho, claramente
perdido em meio a termos e preocupações que não lhe diziam respeito.
— Eu sei que você não entende muito bem — Lily riu, mexendo o cabelo ruivo que caía
sobre os ombros. — Mas eu precisava comentar com alguém.
Severus abriu a boca para responder, talvez com um comentário seco, quando a porta rangeu.
Severus piscou, surpreso. Havia dois anos desde a última vez que vira o antigo companheiro
de quarto, e a familiaridade do nome dito em voz alta trouxe um arrepio inesperado.
Severus notou. Seu olhar escuro se estreitou, acompanhando o gesto com uma estranheza que
não se preocupou em disfarçar.
Depois de alguns minutos, Regulus se despediu com a mesma calma com que havia entrado.
Antes de sair, porém, inclinou-se e depositou um beijo breve na têmpora de Lily.
Severus acompanhou a cena com olhos atentos. Quando a porta se fechou, permaneceu
encarando Lily em silêncio.
— O que foi? — ela perguntou, corando sob o olhar dele.
— Não é da minha conta, eu sei — Severus começou, a voz baixa mas cortante — e você
também sabe que não sou um grande admirador de Potter. Mas… não deveria deixar Regulus
ser tão afetivo com você.
Lily ruborizou ainda mais. Tentou sorrir, ajeitou o copo entre as mãos, mas o desconforto era
evidente.
— O quê?
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Severus piscou, incrédulo, como se tivesse
ouvido mal.
A revelação ainda pairava no ar como fumaça densa. Severus permanecia sentado, imóvel, os
braços cruzados com rigidez e o olhar fixo em Lily. Ela mordia o lábio inferior, tentando
manter a calma, mas o rubor que ainda tingia suas bochechas denunciava o peso da confissão.
O tom dele não era acusatório, mas carregava uma sombra de incredulidade. Lily suspirou,
ajeitando uma mecha rebelde atrás da orelha.
— Harry ama o Regulus — disse, com um sorriso pequeno, quase tímido. — No começo, foi
estranho, eu não vou negar. Ele é uma criança, percebe as coisas de maneira muito direta. Ele
já entendia que James e eu nos amávamos, isso nunca mudou, nunca esteve em dúvida. Mas
quando Regulus começou a passar mais tempo em casa… foi natural.
— Natural?
— Sim. — Lily sustentou o olhar dele. — Regulus nunca tentou ser um substituto de nada.
Ele não é um “segundo pai”, nem um intruso. Ele é apenas… parte de nós. Harry demorou
um pouco, fez perguntas, claro, mas no fim acabou se apegando de um jeito bonito. Eles
jogam xadrez juntos, conversam sobre Quadribol. Ele se sente protegido, e isso, Sev, é o que
importa para mim.
— Então… — começou, a voz lenta, arrastada — você ama Potter, e Potter ama você, e
ambos… decidiram amar Regulus? Assim, tão simples?
— Não foi tão simples assim. Eu nunca deixei de amar James, nunca houve dúvidas sobre
isso. Mas… me apaixonei por Regulus também. E James também. Passamos noites
conversando, tentando entender se isso era possível, se não estaríamos nos destruindo. E a
resposta foi que não. Que, de algum modo… nos completava.
— Não é magia — retrucou Lily, firme. — É escolha. Todos os dias. Não é perfeito, não é
fácil, mas é real. E somos felizes.
Severus ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo as palavras. Seus olhos escuros,
porém, endureceram quando ela acrescentou:
O nome caiu entre eles como uma pedra em um lago, gerando ondas invisíveis. Lily o
encarou com mais cautela desta vez.
— Ele surtaria se descobrisse. — Sua voz estava baixa, quase conspiratória. — Você conhece
Sirius, sabe como é. A ideia de que o melhor amigo dele está dormindo com o irmão
caçula…
Ela não completou a frase, mas ambos sabiam a explosão que viria.
Severus inspirou fundo, o rosto mantendo a máscara habitual, mas o maxilar travado
denunciava uma tensão mais profunda. Lily percebeu, e então arriscou:
— Como você está?
— Já faz anos que você não volta. — Ela pousou a mão sobre a mesa, hesitante, como se
pudesse alcançar o passado através do gesto. — Anos sem ver o Sirius.
— Eu sei que já passou bastante tempo — continuou Lily, a voz mais suave. — Mas ainda é
estranho, não é?
Severus respirou fundo. As lembranças eram como farpas: Sirius rindo alto pelos corredores,
a intensidade de um beijo roubado, a dor de uma separação abrupta. Tudo ainda estava ali,
escondido sob camadas de orgulho e silêncio.
— Ele nunca esqueceu de você, sabe? — disse baixinho, sem ter certeza se deveria. — Mas
nunca admitiria.
Severus permaneceu imóvel, apenas o brilho fugaz nos olhos denunciava a tempestade
interna.
— Não faz diferença — respondeu, a voz seca, cortante. — O que havia… morreu há muito
tempo.
Lily suspirou, mas não insistiu. Apenas tomou um gole do vinho esquecido e deixou o
silêncio preencher o espaço outra vez, pesado, cheio de segredos que nenhum deles estava
pronto para enfrentar.
--
O jardim dos Potter estava estranhamente silencioso. Não havia crianças correndo, nem vozes
altas dos convidados da festa. Apenas o som suave do vento brincando com os lírios brancos
que se enfileiravam perto da cerca de madeira.
Lírios.
Lily.
A casa dos Evans, a menina de cabelos ruivos que corria com ele pelos campos, o riso leve
que contrastava com os becos sombrios de Cokeworth. Tudo parecia de outra vida.
— Você? — a voz de Sirius Black soou como um trovão, carregada de incredulidade e raiva.
Os olhos cinzentos faiscavam. — O que diabos você está fazendo aqui?
Severus ergueu uma sobrancelha, mantendo o tom frio que lhe era tão natural.
— Não é óbvio? — disse calmamente. — Estou no aniversário da minha amiga. Lily me
convidou.
O silêncio que se seguiu era cortante. Eles se encaravam como dois duelistas prontos para
lançar a primeira maldição.
— Talvez não, — Severus rebateu, a voz baixa, mas afiada como lâmina — mas eu me
lembro muito bem de quem você era. Do quanto adorava o jogo, a provocação… e de como
sabia me arrastar junto nessa sua tempestade.
Os dois estavam perigosamente próximos agora. O ar entre eles parecia eletrificado, como
nos velhos tempos em Hogwarts. Olhares que desafiavam, respirações curtas, e aquela
maldita sensação de que, se um deles desse um passo a mais, o passado inteiro os engoliria.
Por um instante, Sirius pareceu fraquejar. O cinza dos olhos suavizou, quase revelando
saudade.
— Não tente inverter isso, Snape. Você me deixou. Você partiu quando eu mais precisava.
E então, um barulho veio da casa — gargalhadas, uma porta batendo, vozes se aproximando.
O feitiço invisível que os prendia se rompeu.
Sirius abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram antes de saírem.
E naquele breve instante, ele percebeu: Severus estava mentindo. Os olhos escuros não
escondiam tão bem assim.
Antes que pudesse reagir, Snape já havia virado as costas, caminhando com passos firmes em
direção à saída do jardim.
Sirius ficou ali, parado, com o coração pulsando no ritmo insuportável daquilo que não queria
admitir: aquela atração elétrica, aquela saudade raivosa… nada disso havia morrido.
---
✨ Nota da autora:
Olha, eu juro que não planejei esse capítulo virar um festival de revelações estilo novela das
nove, mas parece que meus personagens têm vida própria e gostam de jogar bomba
emocional na minha cara.
🌚
E sim, Sirius e Severus quase se engolindo no jardim não estava no roteiro... mas quem sou
eu pra impedir dois adultos traumatizados de tomarem decisões questionáveis?
Chapter 28
Anos atrás
Severus estava exausto. O trabalho vinha consumindo suas forças dia após dia, sugando-o
como uma poção mal preparada que exige mais do que pode devolver. Amava o que fazia,
não podia negar — havia prazer no estudo, na pesquisa, na alquimia que transformava
ingredientes brutos em algo poderoso. Mas o preço era alto. Eram noites em claro, pressões
insuportáveis, e a sensação constante de que o corpo e a mente conspiravam para implodir.
Naquela noite, ao empurrar a porta de sua pequena casa, tudo o que ele queria era silêncio.
Atirou-se no sofá surrado, afundando no tecido gasto que parecia finalmente acolhê-lo. Os
olhos pesavam, o corpo doía. Ele se permitiu fechar as pálpebras, apenas por alguns
segundos, e quase escorregou no conforto fugaz do sono.
Um bater insistente na janela. Severus soltou um suspiro irritado. Empurrou-se para frente,
abriu o fecho e deixou a coruja entrar. O bicho, impaciente, lançou-lhe um olhar acusatório
antes de deixar cair a carta e bater asas de volta à noite.
Os dedos longos desfizeram o lacre com rapidez. Leu cada linha como quem bebe de um
veneno inevitável. Palavras corridas, um tom nervoso, frases que oscilavam entre o sarcasmo
e a vulnerabilidade que Sirius nunca admitia em voz alta. Severus quase sorriu em alguns
trechos — até que chegou ao final.
Ele lembrava das longas conversas com Sirius, quando o outro cuspia ódio em cada menção
ao pai. “Orion Black é um tirano, Sev. Nunca foi meu pai, apenas o carcereiro que me criou.”
Ele dizia isso como quem escarra sangue, mas, no fundo, havia algo ali. Dor disfarçada de
desprezo.
Pediu dispensa ao chefe na manhã seguinte. O homem não gostou, como sempre, argumentou
que ele era insubstituível nas pesquisas em andamento, que uma ausência causaria atrasos.
Severus respondeu com aquele tom frio e intransigente que raramente falhava: “Ou o senhor
me libera, ou terá que encontrar outro para refazer suas fórmulas.” Relutante, o chefe cedeu.
O céu parecia compartilhar da tragédia. Cinza, pesado, cuspindo uma garoa fina que colava
no rosto como lágrimas alheias. Severus caminhava devagar pelo cemitério, a capa escura
absorvendo a umidade. A cada passo, a sensação de estar fora de lugar aumentava. Ele não
era um Black, não era parte daquela família corrompida pelo orgulho e pela tradição. Mas
estava ali por Sirius.
Ao longe, distinguiu as figuras reunidas. Regulus, rígido, ao lado da mãe. Walburga mantinha
a postura ereta, fria, como se o luto fosse apenas mais uma máscara social. Narcisa,
impecável como sempre, sustentava o braço de Lucius, que parecia feito de mármore. Mais
afastados, James e Lily.
E, no centro, Sirius.
Ele estava abraçado a Remus Lupin.
Severus parou. O coração disparou, e não pelo luto. Os dois pareciam próximos demais. O
jeito como Remus apoiava a mão nas costas de Sirius, como o rosto dele repousava próximo
ao ombro do outro… não era apenas amizade. Não podia ser.
Severus sentiu o ar faltar. De repente, a viagem, a dispensa, a pressa, tudo parecia um erro
grotesco. O pai de Sirius estava morto — e Sirius encontrava conforto em outro. Não nele.
Virou-se de costas.
— Severus.
A voz o deteve.
Congelou no lugar, os punhos cerrados. Lentamente, virou-se. Narcisa estava ali. A prima, a
amiga improvável, com os olhos claros e astutos fixos nele.
— Não parece. — Lançou um olhar rápido na direção de Remus. — Já tem quem o console.
— Você ainda é o mesmo orgulhoso de sempre. — Deu um passo mais perto, a voz baixando.
— Mas eu conheço meu primo. O que você viu não muda nada. Ele está despedaçado por
dentro. Você acha que Remus pode remendar isso?
Severus sustentou o olhar dela, mas não respondeu. O peito queimava de raiva e ciúme, mas
também de uma dor que não admitiria.
— Severus, — ela continuou, o tom mais suave — você é o único que realmente pode
alcançá-lo.
Ele fechou os olhos por um instante, como se buscasse fôlego. Quando voltou a encará-la, o
rosto estava frio, impenetrável.
— Talvez. — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Mas não hoje.
Um estalo seco ecoou quando ele aparatou, desaparecendo da cena como se nunca tivesse
estado ali.
Narcisa permaneceu parada, a chuva molhando seus cabelos perfeitos, observando o espaço
vazio onde Severus estivera. Soltou um suspiro longo, desapontado.
— Teimoso até o fim… — murmurou, antes de voltar lentamente para junto da família.
E, em algum lugar distante, Severus caminhava sozinho sob o céu cinzento, carregando nos
ombros o peso do que poderia ter sido — e do que, por orgulho ou medo, ele escolhera
abandonar.
---
Atualmente
O tique-taque do relógio na parede era o som mais irritante do mundo, na opinião de Sirius
Black.
Ele estava sentado à sua mesa no Departamento de Aurores, cercado por pilhas de relatórios
que pareciam se multiplicar sozinhos — como coelhos ou inferi, dependendo do humor. O
cheiro de tinta fresca misturado ao café frio era quase poético… se poesia envolvesse
desespero e burocracia.
— Merlin me livre… Se eu tivesse querido passar a vida escrevendo, tinha virado escritor,
não caçador de criminosos mágicos.
— Se for outro relatório, juro que me transformo em cachorro e fujo pro campo.
— Relaxa, Black, ainda não cheguei nesse nível de crueldade. — A voz bem-humorada veio
acompanhada de um vulto ruivo entrando na sala. Anthony Moore, do Departamento de
Controle de Artefatos Mágicos, apareceu segurando dois copos de café. — Achei que talvez
você precisasse de uma dose extra de sanidade líquida.
— Café forte. Do jeito que você gosta. — Ele se encostou na mesa, cruzando os braços. —
Ouvimos sobre sua última missão. Ouvi dizer que você praticamente desarmou um
contrabandista só com o olhar.
— “Desarmou com o olhar” é um jeito elegante de dizer que ele tropeçou no próprio pé, caiu
e me poupou trabalho. — Sirius sorriu de lado, aquele sorrisinho característico que mesclava
charme e deboche. — E você? Desarmando colares amaldiçoados e penteadeiras possuídas?
— Eu chamo de “sistema de organização criativa”. — Sirius apontou para uma pilha mais
alta. — Essa aqui é a parte que eu finjo que já li. Essa outra, a parte que eu juro que vou ler. E
aquela no canto... é a esperança perdida.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio — o tipo de pausa confortável entre colegas que já
dividiram mais do que uma patrulha arriscada. Então, Anthony pigarreou, com aquele tom
que denunciava um pedido prestes a ser feito.
— E você não pode ir… por quê? — Sirius cruzou os braços, desconfiado.
— É aniversário da minha esposa hoje. — Anthony coçou a nuca, meio sem graça. — Eu
prometi que estaria em casa mais cedo, e… bom, se eu faltar, ela me transforma num sapo.
Daqueles que coaxam desafinados.
Anthony tinha sido um bom parceiro, e a ideia de negar por puro tédio não soava certa. Além
disso… qualquer coisa era melhor do que ficar ali, preso com relatórios.
— Certo, certo. — Sirius se levantou, pegando a capa e a varinha. — Mas se eu morrer, diga
a Potter que foi por uma boa causa. Ou melhor, diga que foi culpa sua.
— Fechado. — Anthony estendeu a mão, aliviado. — Eu te pago uma cerveja na próxima ida
ao Três Vassouras.
Pegou o pergaminho com o endereço e guardou no bolso da capa. — E essa loja é o quê,
afinal? Uma daquelas lojas de antiguidades artesanais que explodem, ou mais um antro de
malucos vendendo artefatos falsos?
— Nenhum dos dois. — Anthony hesitou por um instante, franzindo a testa. — É uma loja
nova… de poções e objetos mágicas. O dono é novo no Beco, meio reservado, mas
aparentemente confiável. Só precisa confirmar se tudo tá regularizado. O nome é Moonlight
& Alchemy.
— Moonlight & Alchemy… parece o tipo de lugar onde os objetos olham de volta pra você.
— Pode ser. — Anthony deu de ombros, sorrindo. — Mas, de verdade, deve ser tranquilo.
Uma visita rápida e você tá livre.
— Tranquilo. Claro. Como toda missão que começa com “é só uma visita rápida”.
E, com isso, o auror mais problemático do Ministério saiu pelos corredores com a capa
tremulando atrás de si — sem a menor ideia de que aquele favorzinho inofensivo estava
prestes a arrastar seu nome (e talvez seu coração) para uma confusão muito maior do que
imaginava.
---
O vento soprava fino, trazendo consigo o cheiro de pergaminho úmido, chá e lembranças.
Sirius caminhava com as mãos nos bolsos, o passo lento e o olhar curioso — mas havia algo,
uma estranha inquietação no ar, como se o destino o puxasse por uma coleira invisível.
O letreiro prateado cintilava sob o reflexo da luz bruxuleante. Havia algo de íntimo naquele
nome, como um segredo sussurrado no escuro. Sirius riu sozinho, murmurando:
O ar lá dentro era denso, perfumado por poções em ebulição, ervas secas e algo indefinível
— cheiro de magia antiga. As prateleiras altas estavam repletas de frascos translúcidos,
líquidos de cores impossíveis, objetos encantados, cristais que pulsavam como corações.
Sirius passou os olhos por tudo, curioso, até que uma voz o cortou.
Ele se virou.
E o tempo parou.
Severus Snape estava atrás do balcão, a sombra viva de uma lembrança que Sirius jurava ter
enterrado. O mesmo olhar escuro, afiado como lâmina, o mesmo porte ereto e contido. Mas
havia algo diferente — um cansaço bonito, um amadurecimento que tornava cada traço mais
profundo. Ele usava um avental de couro escuro sobre uma camisa preta, as mangas
arregaçadas, revelando veias e músculos que o tempo só aprimorara.
— Inspeção de rotina. — A voz saiu rouca, quase trêmula, e ele odiou isso. Limpou a
garganta e tentou recuperar o tom leve. — Você que é o dono? Moonlight & Alchemy…
devia ter adivinhado. Sempre teve talento pra nomes dramáticos.
Severus não reagiu de imediato. Limitou-se a cruzar os braços, analisando-o com aquele
olhar clínico e silencioso que parecia despir a alma alheia.
— Alguns hábitos deveriam ser mortos. — Severus respondeu seco, pegando uma pena e um
pergaminho, como se o simples ato de escrever fosse um escudo. — O que exatamente veio
fazer aqui, Black?
— Já disse. Fiscalização. — Sirius deu alguns passos, fingindo examinar um frasco que
borbulhava azul. — Nada pessoal. Ou talvez… um pouco.
— Imagino que não tenha vindo sozinho nessa “fiscalização”. Onde está o seu querido
Potter? Costuma acompanhá-lo nas tarefas, não?
A menção ao nome foi como uma faca cuidadosamente afiada. Sirius sentiu o golpe, mas
disfarçou com um sorriso insolente.
— Está em casa. Trabalhando no que ele faz de melhor — sendo sensato. — Pausou,
inclinando a cabeça. — Eu, por outro lado, sou o irresponsável que aceita favores alheios.
— É isso? Nenhum “olá”, nenhum “há quanto tempo”? Depois de… o que foi que tivemos?
— Poético, como sempre. — Deu alguns passos até o balcão. — E você? Continua dormindo
com as garrafas de poções? Ou já encontrou alguém que aguente sua mania de perfeição?
— Eu prefiro a companhia de coisas que não mentem. — Severus respondeu, frio. — Poções
são previsíveis. Pessoas, não.
— Ainda assim, você me ensinou a não confiar nas aparências. — Sirius apoiou as mãos no
balcão, inclinando-se um pouco, invadindo o espaço dele. — E, veja só, cá estamos. Eu
fiscalizando, você fingindo que não liga. Que reviravolta deliciosa.
Severus ergueu o olhar, e o que havia ali não era indiferença — era raiva contida,
ressentimento, e algo muito mais perigoso: saudade.
— Você não mudou. — A voz dele era baixa, cortante. — Continua brincando com tudo o
que sente. Fingindo que não importa, quando no fundo está morrendo de medo de admitir.
— E você continua achando que entende todo mundo, como se o mundo fosse um caldeirão
que obedece suas fórmulas. Mas nem tudo ferve quando você quer, Sev.
O apelido escapou.
Severus fechou os olhos por um segundo, o peito subindo devagar, traído por um suspiro.
Quando os abriu, havia algo quebrado neles.
— Por quê? — Sirius deu um passo a mais, a voz rouca. — Porque te lembra quem você era
comigo?
Severus o encarava como se lutar contra si mesmo, e Sirius… Sirius queria odiá-lo, mas tudo
nele gritava o oposto. As mãos tremiam, o coração batia alto demais. Cada centímetro
daquele rosto — o nariz, os olhos, a boca — ainda estava gravado nele, como uma maldição
antiga.
— Sirius… — Severus começou, mas a voz falhou. Ele se virou de costas, buscando o
controle. — Você devia ir.
Sirius o olhava com um misto de desafio e dor, como alguém que não sabe se quer ser
perdoado ou punido.
— Eu sei. — Severus respondeu, num sussurro quase carinhoso. — Mas está aqui por mim.
Até que Sirius recuou meio passo, respirando fundo. O disfarce de auror voltou — o humor
rápido, a leveza ensaiada.
— Tudo parece em ordem, professor. Nenhum artefato suspeito, nenhuma explosão iminente.
— Forçou um sorriso. — Loja aprovada.
Sirius hesitou.
Olhou uma última vez para ele, e a voz saiu rouca, cansada.
— Cuide-se, Sev.
Do lado de fora, Sirius caminhava pelo Beco com passos largos, a respiração presa na
garganta. O ar frio não ajudava. Queria rir, queria gritar, queria apagar o gosto de um nome
que ainda queimava como fogo.
E o vento pareceu responder, arrastando o som da voz de Severus como um eco distante,
impossível de esquecer.
---
Nota da Autora
Sim, meus caros leitores, eu prometi a mim mesma que “esse capítulo ia ser leve”.
Sirius entrou na loja achando que era uma missão simples e saiu com o emocional em
frangalhos, o ego derretendo e o “Sev” entalado na garganta.
Enquanto isso, Severus… bom, Severus finge que tá ótimo, mas por dentro tá gritando em
voz baixa e chorando em poção calmante.
💋
— Com amor e sarcasmo, a autora emocionalmente instável que ainda acredita em redenção
e beijo mal resolvido.
Chapter 29: Lição
O som da porta batendo ecoou pelo apartamento silencioso. Sirius largou as chaves na
mesinha da entrada e suspirou. O plantão no Departamento de Aurores tinha sido longo,
cansativo e cheio de burocracia — o tipo de dia que fazia qualquer um duvidar da própria
vocação.
Mas, naquele momento, bastou um cheiro de alho dourando na manteiga e uma voz rouca
cantando baixinho para que tudo o resto desaparecesse.
De calças de pijama, camiseta velha demais pra ter cor definida e os cabelos despenteados, o
lobo cantarolava algo dos anos setenta enquanto mexia distraidamente uma panela. A
melodia era suave, familiar — algo dos Beatles, talvez — e Sirius ficou parado na porta,
observando.
Aquele era o tipo de paz que ele jamais imaginou ter um dia.
Ele não era mais o adolescente rebelde que fugia de casa ou o homem atormentado que
olhava para o passado e via apenas sombras e o olhar frio de um ex-amor nas masmorras.
Severus Snape pertencia a outro tempo, outro Sirius. Agora ele tinha Remus — o amigo de
todas as horas, o parceiro, o riso fácil no meio do caos.
— Merlim, Sirius! — ele exclamou, levando a mão ao peito. — Quer me matar de susto?
— Só se for de amor — respondeu Sirius, com aquele sorrisinho insolente que Remus fingia
odiar. — E de fome. Esse cheiro tá me torturando.
— Macarrão feito por você é banquete — retrucou, já atravessando a cozinha para abraçá-lo
por trás. — E, pra sua informação, o Ministério devia estudar esse seu molho. Aposto que é
mais eficaz que veritaserum.
Remus soltou um riso baixinho e tentou disfarçar o rubor. Ainda assim, inclinou-se um pouco
contra o peito do namorado.
Aquele tipo de conforto não era novidade — eles se entendiam num gesto, num silêncio, num
suspiro. O amor deles tinha crescido entre risadas e cicatrizes, entre longas conversas e cafés
frios esquecidos na mesa.
— Tira a capa e senta — disse Remus, empurrando-o levemente. — Você parece exausto.
— E você parece um sonho. — Sirius piscou, mas obedeceu. — Plantão infernal, preso até
tarde, e tudo que eu pensava era “Merlim, espero que o Moony tenha feito algo comestível.”
Remus riu e serviu duas taças. A conversa fluiu leve enquanto jantavam — piadas sobre
colegas de trabalho, o caos que era a correspondência da semana, e até um debate acalorado
sobre quem ganharia uma briga entre Minerva e Moody (“Minerva. Ela tem olhar de quem
derruba auror só com uma sobrancelha levantada”, concluiu Sirius, com convicção).
Entre risadas, ele olhava para Remus com aquele carinho tranquilo, mas havia algo crescendo
dentro dele — uma urgência silenciosa, um pensamento que vinha rondando há semanas.
Quando as taças já estavam quase vazias e o prato principal reduzido a migalhas, Sirius se
ajeitou na cadeira, o olhar sério agora.
— Moony…
— O que foi?
Sirius respirou fundo. O coração parecia bater no ritmo errado, mas ele não era de fugir.
Nunca foi.
— Casa comigo.
O garfo de Remus parou no ar. O silêncio que se seguiu foi quase cômico.
— …O quê? — ele sussurrou, como se tivesse entendido errado.
— Casa comigo. — Sirius repetiu, firme, mas com um sorriso leve. — A gente já vive junto,
já sabe os piores hábitos um do outro — inclusive aquele de esconder os chocolates no
armário de poções, senhor Lupin —, então… por que não oficializar?
Remus piscou algumas vezes, como se precisasse que o universo se realinhasse antes de
responder. Depois, um sorriso largo se abriu em seu rosto.
Sirius sentiu o coração explodir de felicidade. Ele ficou completamente feliz… mas, no
instante em que ouviu o “sim” de Remus, um fantasma atravessou sua mente: o rosto de
Severus apareceu, nítido e inesperado, como se observasse tudo silencioso, um sussurro do
passado que não queria desaparecer. Sirius piscou, surpreso com a intensidade da lembrança,
mas o calor do abraço de Remus rapidamente o puxou de volta para o presente.
— Eu te amo — murmurou Remus, ainda segurando suas mãos. — E quero tudo isso com
você.
Sirius sorriu, apertando os dedos dele com força, sentindo a vida inteira se condensar naquele
momento.
— Eu também te amo, Moony. — Ele se inclinou e o beijou, calmo, doce, com gosto de
vinho e promessa.
Do lado de fora, o mundo seguia com seu caos habitual. Dentro daquele apartamento, porém,
havia uma trégua. Um lar. Dois homens que tinham atravessado o inferno e ainda conseguiam
rir um do outro.
E, talvez, isso já fosse o bastante.
Ou não..
---
A carta chegou numa coruja desajeitada, que quase caiu na janela de Malfoy Manor. Draco
teve que se esticar todo para pegá-la antes que o pobre bicho batesse de cara no vidro.
— Outra da minha equipe secreta — murmurou Draco, ajeitando o roupão de seda que
parecia grande demais pra ele.
Ele abriu o envelope com um estalo e um brilho curioso nos olhos cinzentos.
Primeira atualização da investigação: Sirius e o Sr. Snape não se odeiam tanto assim.
Ontem, quando fui ao Ministério, Sirius me deixou esperando na recepção (de novo!) e
adivinha quem apareceu? Snape!
Eles se olharam tipo... tipo quando minha mãe olha pro meu pai depois que ele faz piadas
ruins.
Eu juro que vi o Snape revirar os olhos e o Sirius… sorriu. SORRIU!
— Agente Potter
A menina que iria passar a noite na mansãoa pareceu pela porta do quarto, com o cabelo
cheio de laços cor-de-rosa e um olhar entediado.
— Sim! E dessa vez, Potter viu um sorriso! — Draco respondeu, dramático. — Sorrisos são
provas perigosas, Pansy.
Agente Potter,
Recebi sua observação com interesse (e um pouco de nojo — sorrir para o meu padrinho?
Arrepiante).
Fiz uma descoberta igualmente perturbadora: minha mãe me mostrou umas fotos antigas e,
entre elas, havia uma do meu padrinho (Snape) e do seu (Sirius) RINDO JUNTOS.
Rindo, Potter.
Você tem noção da raridade disso? Snape não ri. Ele faz caretas com som.
Além disso, minha mãe ficou meio... estranha quando perguntei sobre a foto. Disse apenas
“Foi outra época, querido” e mudou de assunto.
— Agente D. Malfoy
— “Rindo juntos”? — murmurou, deitado de barriga no tapete da sala. — Isso é... estranho
até pra padrões adultos.
Lily, que passava por ali, arqueou uma sobrancelha.
Eu posso tentar pegar a ficha de Sirius no escritório dele (se o tio Remus não me pegar
antes).
Draco, veja se Snape guarda coisas estranhas no laboratório dele, voce comentou que ele esta
hospedado na sua casa e nossa chance.
Pansy, você... pode distrair adultos com charme.
— Distrair adultos com charme? O Potter acha que sou uma planta decorativa!
Dentro, havia uma foto amarelada de Sirius e Severus sentados lado a lado, rindo de algo fora
do quadro. Sirius parecia mais novo, despreocupado, e Snape... estava quase bonito.
— Isso é perturbador. — Draco olhou a foto como se ela pudesse morder. — Meu padrinho e
o de harry...
— Fofos?! — Draco quase engasgou. — Parkinson, retire o que disse antes que a imagem me
assombre pra sempre.
Enquanto isso, em outro lugar de Londres, Sirius estava deitado no sofá com Remus, lendo o
Profeta Diário, quando espirrou do nada.
Agente Potter,
O mais estranho é que minha mãe disse que eles “eram próximos por um tempo”.
— Agente D. Malfoy
Tenho certeza de que Sirius e Snape tiveram uma amizade secreta no passado.
Talvez algo trágico, tipo uma parceria de poções que deu errado.
— Agente Potter
No dia seguinte, Harry esperou o momento certo — quando Remus foi preparar o chá e
Sirius estava distraído.
— Tio Sirius? — começou, inocente. — O senhor conhecia o Sr. Snape há muito tempo, né?
Sirius congelou no meio de um gole.
— Tipo... amigos?
Harry piscou.
Harry sorriu.
Missão cumprida.
À noite, Draco recebeu uma coruja ofegante com o relatório final de Harry. Ele e Pansy leram
juntos, rindo até doer a barriga.
— Então, o padrinho dele engasgou duas vezes? — Pansy gargalhava. — Isso é praticamente
confissão!
— Está claro como poção em frasco limpo: Sirius Black e Severo Snape têm um passado
misterioso.
Nenhum dois dois podiam imaginar que o segredo dos dois poderia criar um laço inseparável.
---
— Estamos fechados — disse, com a voz monótona que usava para espantar clientes
curiosos.
— Ah, e desde quando o grande Severus Snape se esconde atrás de um balcão?
Aquela voz — insolente, suave e impregnada de ironia — fez o sangue de Severus gelar por
um instante. Lentamente, ele se virou. E lá estava ele.
Barty Crouch Jr., vivo, sorrindo, com o mesmo ar de quem acabara de sair de uma enrascada
e ainda achava graça disso.
— Quando Narcisa e Regulus disseram que você estava na cidade, achei que era mais uma
das suas mentiras teatrais — murmurou, cruzando os braços. — Mas aqui estamos.
— E você continua igual. Cínico, mal-humorado e com essa voz que faz qualquer insulto
parecer poesia.
— Admito que senti falta das suas... observações afiadas — provocou Barty, aproximando-se
com passos lentos. — E do modo como você finge que não gosta de mim.
— Não é fingimento — rebateu Snape, frio como sempre. Mas o brilho nos olhos o traiu.
— Claro que não. Afinal, nós dois sabemos que entre fingir e fazer há uma linha tênue... e
nós já a cruzamos antes.
— Duas vezes — corrigiu Barty, com um sorriso diabólico. — E na segunda, você não estava
tão bêbado assim.
— Eu estava sob efeito de uma poção experimental — respondeu Snape, erguendo um frasco
como se o examinasse com seriedade. — Uma experiência que, diga-se de passagem, jamais
pretendo repetir.
— Ver até onde você ainda aguenta fingir — sussurrou o outro, sua voz quase encostando na
nuca do ex-amante. — E, quem sabe, pedir desculpas por ter desaparecido.
Severus girou o corpo com um movimento rápido, o olhar como uma lâmina.
— Desculpas? Por fingir a própria morte? Por se meter com magia ilegal? Ou por me deixar
lidar com o circo que veio depois?
Barty o observou em silêncio por alguns segundos. Aquele olhar ainda o desconcertava.
— Por tudo isso — disse por fim, sério, e por um instante, a máscara de deboche caiu. —
Mas não voltei pra pedir perdão, Sev. Voltei porque ouvi que você finalmente decidiu parar
de se esconder do mundo.
— A pior de todas.
O silêncio se estendeu. Apenas o tilintar do vidro e o cheiro de ervas secas preenchiam o ar.
Até que Barty, com aquele instinto de autodestruição que Severus lembrava bem, deu um
passo adiante.
Mas o tom já não era tão gelado. Barty percebeu. E sorriu, aquele mesmo sorriso que um dia
fizera Severus perder a cabeça numa noite chuvosa em Edimburgo.
— Você sabe que eu sou uma lembrança inconveniente — sussurrou Barty, o hálito quente.
— Mas também sabe que as melhores lembranças são as que queimam um pouco.
Severus o fitou — o rosto bonito, os olhos brilhando com malícia e tragédia, o tipo de olhar
que prometia o inferno com um toque de prazer.
— Você é uma lembrança que deveria ter morrido junto com a sua reputação — respondeu
Snape, com veneno.
— Felizmente — Barty corrigiu, e então, com o atrevimento que sempre o definira, tocou o
punho da camisa de Severus. — Você ainda usa perfume de mirra e raiz de verbena.
— É o cheiro da loja.
— Claro que é.
— Trabalho demais e distração de menos — zombou Barty. — Aposto que até hoje você fala
sozinho enquanto mexe nos caldeirões.
— Eu não.
Por um instante, eles ficaram imóveis. Dois fantasmas de uma época que não voltava mais,
presos entre lembranças e veneno.
Foi Severus quem quebrou o feitiço primeiro, afastando-se com frieza controlada.
— Vá embora, Crouch.
— Ah, mas as melhores poções precisam ser mexidas de vez em quando — disse Barty, já
indo em direção à porta. — E eu sempre tive um talento especial pra mexer com as suas.
Mas Severus ficou parado por um bom tempo, o coração batendo rápido demais para quem
dizia não sentir nada.
Suspirou, ajeitando as mangas da túnica e murmurou para si mesmo, com ironia cansada:
— Ultimamente, meu passado parece empenhado em me assombrar... e eu, pelo visto, sempre
tive um gosto desastroso por garotos complicados.
O vidro tilintou no balcão. Do lado de fora, o vento riu.
Do outro lado da cidade, uma criança escrevia :O passado deles é um mistério. E, de fato,
era. Um mistério que ainda não tinha decidido se queria ser lembrando ou repetido
---
Nota da autora:
Pois é, meus caros leitores — respirem fundo, porque este capítulo foi praticamente um
combo de fofoca, drama e investigação de nível internacional. Tivemos pedido de casamento,
mini-detetives Potter–Malfoy–Parkinson em ação e, pra fechar com chave de veneno, o
retorno triunfal de Barty “problema em forma humana” Crouch Jr.
Sim, foi um capítulo longo. Sim, Severus provavelmente vai precisar de uma poção calmante
(ou duas). E sim, Sirius vai jurar que o anel de noivado foi ideia dele — quando todo mundo
sabe que foi o desespero de quem ouviu o nome Snape ecoando de novo no universo.
Enquanto isso, as crianças estão convencidas de que estão prestes a resolver o maior mistério
da era pós-Hogwarts… mal sabem que o buraco é muito mais embaixo (e que o buraco já
teve nome, sobrenome e uma noite em Edimburgo).
Enfim — se o caos tivesse uma trilha sonora, este capítulo seria o álbum inteiro.
Nos próximos episódios: mais segredos, mais olhares suspeitos e possivelmente mais gente
do passado aparecendo só pra testar a paciência de Severus Snape.
Ass:
A autora, que jura que não planejou nada disso, mas o destino (e um pouco de drama)
simplesmente aconteceu.
PS; Barty na foto lá em cima
Chapter 30: Lição
O som do sino ecoou pelo pátio ensolarado, misturando-se às vozes agitadas das crianças
correndo em direção ao portão. Lily Potter ajeitou os cabelos ruivos presos num coque
apressado e tentou parecer calma - embora já estivesse com um olho no relógio e outro na
saída da escola.
Do outro lado da calçada, uma mulher loira impecavelmente vestida desceu de um carro preto
lustroso. Narcisa Malfoy.
Por um breve momento, ficaram ali, paradas, avaliando-se. O passado entre suas famílias não
era exatamente simples - nem hostil, mas... digamos, delicado.
Antes que qualquer conversa pudesse começar, duas vozes infantis cortaram o ar.
- Mãe! - gritou Harry, correndo pelo portão, os óculos tortos e a mochila balançando nas
costas. Ao lado dele, Draco Malfoy ria alto, segurando algo que parecia um pequeno caderno
cheio de anotações e desenhos confusos.
- Eu te disse que o Sirius não podia ter feito aquilo! - Draco argumentava, teatral.
- Pode sim, ele é auror! - Harry rebateu.
- Isso não significa que ele é inocente! - retrucou Draco, dramático.
Ambas tinham certeza de que os meninos sequer sabiam o nome um do outro até uma semana
atrás.
- Mãe! Você não vai acreditar no que aconteceu hoje! - Harry surgiu correndo, o rosto
iluminado de empolgação. - Tivemos uma apresentação de mágica e eu quase fiz o feitiço
funcionar!
- Tá, talvez tenha saído um pouquinho de fumaça... mas foi de propósito! - disse ele,
gesticulando com tanto entusiasmo que quase acertou a mochila na própria cabeça.
Lily riu, segurando os ombros do filho.
- Harry, amor, respira antes que você exploda em glitter mágico.
- Ótimo - respondeu ela, sorrindo. - Mas devagar, tá? Quero entender antes de você lançar
outro feitiço acidental.
- Ah, Merlin... - murmurou Narcisa, ajeitando os cabelos, como se uma "teoria" entre duas
crianças de oito anos exigisse controle emocional. - Que tipo de teoria, querido?
Os dois meninos trocaram um aceno misterioso, daqueles que só crianças com planos sérios
conseguem fazer.
- Pelo visto - respondeu Narcisa, com o tom cuidadosamente neutro. - É... surpreendente.
Um silêncio desconfortável pairou, até que Harry o quebrou do jeito mais direto possível:
- Mãe, posso convidar o Draco pra ir lá em casa hoje? A gente precisa... brincar.
- Por favor, mãe! - ele implorou, os olhos verdes faiscando. - A gente tem coisas importantes
pra fazer!
- Totalmente científicas - reforçou Harry. - A gente vai investigar... digo, estudar umas coisas.
Lily olhou para Narcisa com aquele sorriso diplomático de mãe que sabe que há algo por trás,
mas prefere fingir que acredita.
- Bom, se não for incômodo, ele pode ir.
Narcisa abriu a boca para responder, pronta para inventar qualquer desculpa possível - lições
de etiqueta, piano, astronomia ou um jantar importante -, mas Draco se adiantou:
- Eu juro que me comporto, mamãe.
- Por favor! - insistiu ele, apertando a mão dela com força. - Eu prometo não sujar nada, não
discutir com ninguém, não transformar o gato em nada...
Narcisa suspirou.
Aquela súplica tinha o mesmo tom que Lúcifer devia usar antes de pedir uma alma.
- Muito bem - cedeu ela, por fim. - Mas apenas por algumas horas.
- Então... - Lily começou, tentando manter a conversa leve. - Eu imagino que o Draco goste
de... hm, quadribol?
Draco, que até então parecia ocupado demais vibrando com o convite, olhou para Harry e
murmurou baixo:
- A gente pode continuar o plano.
- Claro - respondeu Harry no mesmo tom conspiratório. - Operação "Mistério dos Padrinhos"
continua.
Lily, distraída, não ouviu. Narcisa, por outro lado, estreitou os olhos.
- Operação o quê?
- Eu trouxe tudo! - Draco disse, tirando da mochila o pequeno caderno rabiscado. - Fiz uma
lista de suspeitos e possíveis provas.
E os dois riram, cúmplices, enquanto o carro se afastava pela rua dourada de fim de tarde -
dois garotos prestes a mergulhar em um mistério que nem os adultos ousavam revisitar.
---
Regulus Black estava sentado na mesa do canto - a mesma de sempre, junto à janela que
emoldurava o movimento lento da rua trouxa. A cafeteria tinha cheiro de baunilha e café
recém-moído, um tipo de aconchego que ele jamais admitiria em voz alta que gostava.
O bolo de limão com cobertura açucarada estava perfeitamente cortado, a xícara de café
fumegante a meio caminho entre doce e amargo - como se o universo tivesse aprendido a
equilibrar o gosto conforme a precisão obsessiva do jovem Black.
Um livro de capa gasta repousava aberto diante dele, O Morro dos Ventos Uivantes, que ele
fingia ler há semanas. O pé balançava impaciente sob a mesa. Ele lia uma linha, duas, mas o
olhar fugia para a janela a cada minuto.
Foi então que o sino sobre a porta tilintou com força, e uma voz arfante o tirou da leitura.
- Ou - James inclinou-se sobre a mesa, um sorriso travesso surgindo - vai presumir que estou
tentando te recrutar pra tocar uma banda punk com ele.
O silêncio se instalou por um segundo, mas era o tipo de silêncio que dançava entre eles:
leve, provocante, cheio de algo que escapava entre palavras e olhares.
- Sim, e eu podia jurar que você sabia usar uma capa de invisibilidade com eficiência.
- Ei! - James riu, balançando a cabeça. - Você sabe que não dá pra esconder nada do Sirius
por muito tempo. Ele fareja drama no ar.
- Deve ser genético - Regulus respondeu, com um meio sorriso que fez o canto da boca de
James subir ainda mais.
Um garçom trouxa apareceu, perguntando se James queria algo. Ele pediu o mesmo café de
Regulus, o que fez o Black erguer uma sobrancelha.
- Imitação é a forma mais baixa de bajulação, Potter.
- Ou a mais eficaz. - James piscou. - Quero entender como funciona a mente do homem que
divide o coração da minha esposa.
- Eu sou absurdamente sentimental. Lily diz isso toda vez que eu tento cozinhar pra vocês.
James gargalhou alto, chamando atenção de uma senhora na mesa ao lado. Regulus baixou o
olhar, disfarçando o sorriso que ameaçava escapar.
- Você devia ser preso por atentado gastronômico.
James riu ainda mais. O som era vivo, contagiante. Regulus fingiu que não gostava - mas
gostava. Gostava do jeito como James iluminava o ambiente, do contraste entre o caos dele e
a calma meticulosamente construída que Regulus tentava sustentar.
- Sabe - James disse, mexendo o café distraidamente - às vezes eu penso que estamos vivendo
um daqueles romances que você lê.
- O tipo em que todos se amam, mesmo quando o mundo acha que é impossível. - James o
encarou, mais sério agora. - Eu sei que o segredo é cansativo...
- Ele vai entender. - James sorriu com aquela confiança quase mágica. - Ele ama a liberdade
mais do que qualquer coisa. E o que é isso, senão liberdade?
Regulus o olhou demoradamente. O silêncio entre eles se esticou, terno, quase doce.
- Você é insuportavelmente idealista, Potter.
- Eu sei. É por isso que eu me apaixonei por ela. E por você. - James deu um sorrisinho
suave. - Vocês são opostos, e ainda assim... fazem o mesmo feitiço em mim.
Ele não respondeu. Apenas desviou o olhar, o que, vindo de Regulus, era o mesmo que
admitir.
James se inclinou sobre a mesa, como se fosse apenas despedir-se. Mas antes que Regulus
pudesse reagir, ele encostou os lábios de leve no canto da boca dele - rápido, furtivo, mas o
suficiente pra deixar o ar carregado de eletricidade.
- O quê? - James sorriu, recuando. - Achei que precisava de um incentivo pra terminar o
livro.
- Eu vou te matar.
- Já ouvi isso antes - respondeu, piscando, antes de sair pela porta com o mesmo caos com
que entrou.
Regulus ficou ali por alguns segundos, sentindo o cheiro de café e o leve gosto de riso que
James deixara no ar. Depois suspirou, fechando o livro sem sequer marcar a página.
- Idiota adorável... - murmurou, antes de chamar o garçom e pedir outro pedaço de bolo.
Afinal, se o caos vinha com cobertura de limão, ele podia suportar mais um pouco.
---
Sirius sabia que era errado. Sabia muito bem que não deveria estar ali.
Diabos - qual era o problema dele?
Não fazia nem vinte e quatro horas desde que tinha olhado nos olhos de Remus e feito a
proposta mais importante da sua vida.
Uma promessa. Uma tentativa de paz.
Mas, aparentemente, o universo achou divertido ver Sirius Black parado em frente à loja de
poções de um ex que ele nunca conseguiu enterrar de verdade.
O vidro da vitrine refletia seu próprio rosto - o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão
cansada e aquele olhar que ele fingia não reconhecer: o de quem ainda queria o que não podia
ter.
Certo. Ele iria embora.
Esqueceria o passado.
Encerraria o ciclo.
Mas, quando tomou a decisão, a porta da loja se abriu, e uma voz que ele conhecia melhor do
que a própria consciência soou, arranhando cada nervo adormecido do seu corpo.
- Black? - o tom era frio, mas a surpresa estava ali, escondida na fresta da sílaba.
Sirius congelou.
E por um segundo, a rua, o vento, o mundo inteiro pareceu parar.
Severus Snape estava diante dele. O mesmo olhar cortante, os mesmos traços que o tempo só
tinha tornado mais perigosamente belos.
As mangas da túnica estavam arregaçadas, revelando braços pálidos e firmes, manchados de
respingos de alguma poção. O cheiro - Merlin, o cheiro - era o mesmo que Sirius lembrava:
fumaça, canela e alguma coisa proibida.
- O que faz aqui? - Severus arqueou uma sobrancelha. - Houve algum problema com os
papéis?
A voz dele tinha aquele timbre preguiçoso e ácido que sempre parecia uma provocação.
Sirius, que jurou que já não sentia nada, sentiu tudo de uma vez.
- Passando - Snape ecoou, com um meio sorriso que não alcançava os olhos. - No meio da
tarde, na frente da minha loja, olhando pra vitrine como se esperasse que ela te mordesse.
Que coincidência impressionante, Black.
- Eu posso estar onde eu quiser - retrucou Sirius, tentando recuperar a compostura. - A cidade
não é sua, Snape.
- Infelizmente - o outro respondeu com a voz baixa, quase um ronronar. - Porque, se fosse,
você estaria proibido de entrar.
- Você sempre foi péssimo mentiroso - murmurou Snape, perto demais. - Ainda acha que
consegue me enganar?
- Claro que não - Snape respondeu, inclinado o suficiente para que o hálito quente tocasse o
pescoço dele. - Assim como não olhou pra mim nos últimos dois minutos como se estivesse
prestes a cometer um crime.
Ele ia responder - talvez um insulto, talvez um beijo, o Merlin que decidisse - quando a porta
voltou a se abrir com violência.
- Ora, ora, ora. - A voz de Barty Crouch Jr. cortou o ar como uma navalha. - Se não é o
cãozinho arrependido e o mestre de poções com saudade de um escândalo.
- Tive que preencher uns formulários. - Barty deu de ombros, o sorriso preguiçoso e maldoso
estampado no rosto. - Aparentemente, o Ministério adora lembrá-lo dos meus antecedentes
criminais.
Sirius bufou. - É, deve ser difícil tentar limpar a ficha quando ela é mais suja que o Caldeirão
Furado.
- Ainda falo melhor que você, Black - retrucou Barty, sorrindo. - E pelo menos eu sei o que
quero.
- Os dois, talvez - respondeu o ex-foragido, com um brilho perigoso nos olhos. - Um não
precisa excluir o outro.
- Não briguem na minha loja - disse Snape, cortante, mas o tom traiu a tensão. - Crouch, vá
preparar o estoque. Black, vá embora antes que eu mude de ideia e jogue você num caldeirão
fervendo.
Sirius abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Severus - aquele olhar antigo, cheio de
coisas não ditas - o prendeu por um instante.
E foi o suficiente para deixar o ar denso outra vez.
- Isso não acabou, Snape - murmurou ele, com um sorriso torto. - E você sabe que não
acabou.
O canto da boca de Severus se ergueu. - Você nunca soube quando parar, não é?
- E você nunca soube me deixar ir. - Sirius deu as costas, mas a voz soou rouca, quase um
sussurro. - Aposto que ainda sonha comigo.
Snape não respondeu.
Mas o leve estremecer dos dedos - aquele gesto involuntário - disse mais do que mil palavras.
Quando a porta se fechou atrás de Sirius, Barty falou, com o tom carregado de veneno e
ironia:
- Ele ainda te afeta.
- Só estou dizendo - o outro provocou. - Que talvez o auror perfeito não seja tão imune
quanto gosta de parecer.
Severus virou-se, e o olhar que lançou a ele foi tão frio que o fez recuar meio passo.
Mas, quando ficou sozinho, o sorriso se desfez.
E o que restou foi o eco da respiração de Sirius, o cheiro distante de couro e fumaça - e a
constatação amarga de que certos fantasmas nunca se exorcizam por completo.
---
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