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A Jornada de um Paladino Caído

Sobre Paladinos

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A Jornada de um Paladino Caído

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.

O
PALADINO
SEM
PODERES

Conteúdo publicado pela Iniciativa T20


Não oficial e não canônico
ABRAÃO MACIEL

Capítulo 1

CONFISSÃO

2
A

s ruas de Norm estavam cheias.


Tendo tantos cavalos quanto homens, a cidade
que abrigava Ordem da Luz transbordava aço e
tradição. Cavaleiros brilhantes andavam expansivos,
como se ocupassem mais espaço do que o
necessário. Uma jovem escudeira, que acompanhava
um cavaleiro orgulhoso, ajudava um idoso a
atravessar a rua movimentada, para mostrar serviço
ao seu senhor.
O dono de uma estrebaria negociava o lote de
ferraduras com o novo ferreiro. Os dois homens, na

3
tentativa de conquistar a confiança um do outro,
trocavam gentilezas, prazos e preços que não
costumavam oferecer, mas era prejuízo imediato que
valeria a pena caso fechassem negócios duradouros.
Apoiadas no parapeito de suas janelas, vizinhas
conversavam umas com as outras sobre a mais
recente tendência de vestidos que a próxima estação
prometia trazer.
Os comerciantes gritavam seus preços a plenos
pulmões, disputando clientela, enquanto ofereciam
amostras das frutas mais doces aos filhos dos
potenciais compradores.
Um rapaz de armadura velha e postura de servo
fitava a grande estátua de Khalmyr, o Deus da Justiça
como que em transe.
— Ó o pesado! — Gritou um homem que
transportava uma pilha de caixas, tirando o jovem de
sua contemplação. Ao ter sido arrancado de seus
pensamentos, ele se lembra o porquê de estar em
Norm, e volta a caminhar em direção ao Castelo da
Luz.
No trajeto, vê um senhor sentado num canto,
usando roupas velhas e rasgadas, e cheirando mal.
— Me ajude por favor meu jovem! Tenho fome —
Disse o pedinte, com uma voz quebrada de
desespero, levando na direção do rapaz um caneco
de metal, que tremia junto com as mãos. Ele era
magro e pálido, parecia mais velho do que realmente
era, e tinha um olhar ávido de quem não tem opção,
que só a miséria podia produzir.
O cavaleiro se sensibiliza ao ver o homem
naquela situação. Também já estivera muito perto de
ter que pedir nas ruas, e sabia como era humilhante
sentir a dor da fome sem saber quando poderia

4
comer novamente. Ele puxa seu saco de moedas —
que já vira dias melhores — e deixa alguns trocados
no caneco do homem que, ao ouvir o tilintar,
agradece profusamente.
Depois de caminhar por mais alguns metros, o
rapaz chega numa tenda de frutas próxima, escolhe
algumas das maiores e mais bonitas que conseguiu
encontrar e as entrega ao vendedor para que as
embrulhe.
— Este aí não tem jeito. Não vale a pena ajudar
— Disse o comerciante, apontando discretamente
para o mendigo — Já vi gente dar mais dinheiro que
você, e ele comeu por um dia, e o resto gastou em
bebida.
Ouvia com atenção o que diz o vendedor,
enquanto pegava a sacola com frutas, e puxava mais
uma vez seu saco de moedas.
— Houve um mago que ofereceu uma proposta
para ele ser sua cobaia em experimentos arcanos.
Ouvi falar que era uma grana preta. Mas ele recusou.
O rapaz olhou espantado pela proposta
absurda.
— Teve até um cavaleiro que o chamou para
ser escudeiro. — Continuou o comerciante — Ele
aceitou, mas não durou muito tempo no trabalho.
Bebeu cada centavo que recebeu.
Em silêncio, o jovem se perguntou se alguém já
havia tentado ajudar o homem a se livrar de seu
vício, e se amaldiçoou por estar sem seus poderes.
Suas bênçãos de Khalmyr poderiam ao menos aliviar
um pouco a dependência daquele senhor.
— É um caso perdido. Não vale a pena tentar.
— Terminou o vendedor, contando os tibares que
ganhou pelas frutas.

5
— Não me arrependo — Respondeu o rapaz,
sorridente, enquanto guardava sua bolsa de moedas
que, depois das frutas, tinha menos dinheiro do que o
caneco do mendigo.
Saiu de perto das barracas e voltou até o
senhor, carregando a sacola de frutas.
— Isso é pra você, amigo — Falou o cavaleiro,
entregando as frutas ao homem, que esticava as
mãos para pegar, despejando agradecimentos.
— Sinto muito não poder fazer mais do que isso
— Disse, retraído, preso no pensamento de que, se
ainda tivesse seus poderes, poderia fazer mais.
— Você me já ajudou muito, senhor —
respondeu o pedinte, referindo-se ao cavaleiro como
senhor, apesar de ser bem mais velho. — Você falou
comigo. A maioria das pessoas quando me veem,
viram o rosto, não olham para mim. Fazem como se
eu fosse invisível.
Olhou para o rapaz com sorriso de gratidão.
— Obrigado por me mostrar que eu ainda estou
aqui — Terminou o homem, o cumprimentando e se
despedindo.

O rapaz de armadura enferrujada continua indo


até seu objetivo com pressa e apreensão, pois além
de ter hora marcada, tinha medo do que encontraria
lá.
O Castelo sede da Ordem da Luz era uma
cidade em si mesma. Lá havia todo o necessário para
a vida de um cavaleiro: Dormitórios, armeiros,
estábulos, campos de treinamento e outras
instalações. A disposição de recursos não era
diferente para as necessidades religiosas. O castelo

6
abrigava sua própria igreja de Khalmyr, e era aquele
o destino do rapaz.
Ele não se destacaria perante os outros
homens da região, não fosse sua postura. Diferente
de todos, que andavam de queixos erguidos e peito
orgulhoso, aquele rapaz, mesmo de armadura e
símbolo de Khalmyr, andava encolhido, como se
tivesse a necessidade de ocupar menos espaço,
como se devesse algo — e devia.

Ao chegar na entrada da igreja de Khalmyr, o


rapaz congela. Ele tira seu elmo e o segura próximo
ao peito, buscando conforto. Olha para baixo, e vê
que seus pés estão a um passo de entrar o solo
sagrado. Mira o salão interno, observando com
cuidado a simetria eclesiástica do local.
Ensaiou um passo — desistiu. Tentou treinar na
mente o que diria quando encontrasse o sacerdote —
impossível se concentrar. Fingiu olhar para os lados;
ajeitou a armadura; desamassou o símbolo sagrado
na túnica. Não precisava de nada daquilo. Estava, na
verdade, reunindo coragem para entrar.
Sentia-se culpado. Pronto a pedir perdão por
seus erros, pronto a aceitar qualquer missão sagrada
para reparar o que fez — mas percebeu que ainda
estava do lado de fora da igreja.
Por fim, o jovem engole seco, fecha os olhos,
respira fundo e dá um passo à frente. Dentro.
Sensação acachapante, de alguém que não se sentia
digno de pisar naquele chão.

7
Sem coragem para voltar atrás, ele caminha
por entre as simétricas fileiras de bancos da igreja,
com olhos no chão. As grandes pilastras que
sustentavam o local eram em par, como era quase
tudo ali. O local era tão simétrico e espelhado, que
era impossível distinguir o lado direito do lado
esquerdo da igreja. A distribuição era tão exata, que
som dos passos produzido pelas escarpes de metal
enferrujado ecoavam alto no salão, anunciando de
longe a chegada do visitante.
Ouvindo o caminhar, um homem alto de
armadura dourada e reluzente se levanta da primeira
fileira de bancos, e segue até uma cabine metálica,
adornada com símbolos que remetiam a justiça,
verdade e heroísmo.
Chegando no final do salão, o rapaz contempla
a única coisa que não tinha par na igreja: Uma
enorme balança de mitral no centro do púlpito,
representando o próprio Khalmyr, que mesmo em
Ordine, seu mundo simétrico de pares e duplas, era
apenas um.
Ele se coloca em um só joelho, apoiando-se na
espada, em posição de servidão. Um gesto religioso.
Ao se levantar, deposita em um prato da balança
seu escudo, e noutro sua espada.
Iguais.
Um devoto do Deus da justiça, deveria ter seu
escudo e espada de mesmo peso, representando o
dever de sempre agir e lutar em equilíbrio.
O jovem respira fundo mais uma vez, e entra
também na cabine de metal, no lado oposto ao que o
homem de armadura dourada entrara.
— Justifique-me padre, pois eu pequei. — disse
o rapaz em voz de culpa.

8
— O que fizeste contra O Mais Justo, meu filho?
— falou o sumo-sacerdote.
— Menti, Sir. Fui injusto, e também negligente.
Pensei estar fazendo o que era certo, mas aos poucos
fui sentindo a bênção de Khalmyr se esvair.
— E qual é o seu nome, paladino?
O rapaz surpreendeu-se com o respeito. O título
de fato lhe pertencia, mas ouvi-lo chamado pelo
próprio Alenn Toren Greenfeld, era uma honra
enorme. Sir Alenn Toren, além de atual sumo-
sacerdote de Khalmyr, era também o Alto
Comandante da Ordem da luz. Um homem ocupado,
contudo, fazia questão de tratar pessoalmente de
paladinos que perdiam seus poderes, pois sabia que
a penitência não era fácil, e que a maior provação
era interna.

— Garlan, Sir. Sem sobrenome.


— Feriu o código de maneira severa, Garlan.
Cometeu as três principais ofensas, as quais eu não
posso justificar — Disse Alenn Toren, de maneira
formal, como a religião exigia para a ocasião.
— Serei punido, Sir? — Perguntou Garlan.
— Já foi punido. Não é parte da Ordem da Luz,
ou de outra ordem de cavalaria. Não quebrou
nenhum outro código de conduta, além do de
Khalmyr. Para um guerreiro sagrado como você, a
perda do favor do Deus da Justiça já é punição
suficiente.
O rapaz levou os olhos ao chão, frustrado com
a resposta. Esperava uma punição. Queria ser punido
para se reconciliar com seu Deus, e para poder tirar o
sentimento de culpa que lhe pesava o peito. Contudo,

9
o sacerdote traria uma solução diferente do que
Garlan esperava.
— Há alguma maneira para que eu volte a ser
abençoado, Sir? Alguma maneira de recuperar meus
poderes? — Garlan olhou aflito.
— Primeiro, deve se confessar.

10
CAPÍTULO 2

MENTIRA
Antes.
Há pouco mais de três anos, Garlan decidira
empregar uma jornada. Não tinha um destino, mas
tinha propósito: fazer o bem.
Garlan era filho de açougueiros. Estava longe
de ser rico, mas nunca passara necessidades — não
até decidir empregar uma jornada, da qual nem ele
entendia o motivo. Sempre sentira que podia fazer
mais. Sentia uma necessidade de ajudar os outros,
mesmo quando ajudar os outros significava
prejudicar a si mesmo. No reino onde morava, Ahlen,
sua bondade era vista como pura ingenuidade — o
que nunca o fora. Sempre teve consciência de que
poderia estar sendo passado para trás, mas mesmo
assim, não hesitava em oferecer amparo, porque
caso não fosse enganação, aquelas pessoas
continuariam precisando de ajuda.
Por diversas vezes, sua fé nas pessoas já o
prejudicou, pois em Ahlen, o altruísmo não era bem-
vindo.
Descobriu-se herói aos dezesseis anos, quando
enfrentou sozinho um grupo de goblinóides que

11
tentavam sequestrar uma menina em sua cidade.
Mally era filha de uma das prostitutas da região, e
apesar de ser o oposto da mãe, era tratada quase da
mesma forma.
Ela foi arrastada pelos cabelos; aos gritos, em
plena luz do dia, mas por medo ou desprezo,
ninguém fez nada.
Ninguém além de Garlan.
O menino pegou a espada velha de seu pai e
decidiu que Mally não seria levada; e não fora.
Garlan não venceu os goblinóides. Pelo
contrário, apanhou muito, mas conseguiu bater o
suficiente para fazer com que as criaturas
desistissem de levar a menina.
Ficou de cama por semanas até se recuperar
completamente. Fora taxado de idiota,
inconsequente, e também foi acusado de ter feito
aquilo apenas para chamar atenção, mas não se
arrependeu.
Naquele dia, Garlan entendeu que a coisa que
mais queria em sua vida era ajudar. Desde então
nunca parou de fazer todo o bem que era capaz,
sempre.
Quando chegou aos vinte e um anos decidiu ir
em viajem com o mesmo propósito que sempre o
impulsionou. Deu um aperto de mão forte no pai, que
não entendia, mas respeitava a decisão do filho.
Beijou a testa da irmã mais nova; fez o irmão
adolescente jurar que ajudaria o pai no açougue e,
sob as lágrimas e soluços da mãe, partiu.
Apesar de Ahleniense, Garlan sempre viveu em
Khalmyr e, com o tempo, percebeu que chamar o
nome do deus em momentos de necessidade o
ajudavam. Depois, entendeu que se tratava da

12
bênção de seu deus padroeiro, que lhe concedia
poderes e um ímpeto ainda maior de fazer o que era
certo. Foi então que descobriu que havia um nome
para aquilo que havia se tornado: Um paladino.

Caminhando por todo o reinado, salvando


pessoas de situações de perigo, fazendo o bem
sempre que podia — e não podia, Garlan começou a
entender melhor seus poderes divinos. Viu a
extensão de sua bênção curativa, quando ajudou
uma Centaura a dar à luz. Sozinha e longe de sua
tribo, a pobre mulher havia sido roubada por Kobolds,
e ao tentar resistir, foi atacada e teve duas patas
quebradas. Garlan curou suas patas, amenizou as
dores e manteve a mãe viva, deixando-a o mais
confortável que a situação permitia, com seu dom de
cura.
Depois, o paladino aprendeu também como
utilizar sua aura sagrada. Uma emanação divina que
guerreiros abençoados podem emitir, que acalma e
conforta aqueles ao seu redor, deixando-os mais
confiantes e seguros.
E por fim, Khalmyr lhe garantia força, nas não
força física. Força divina. Força concedida apenas
àqueles que dedicam sua vida a combater a
maldade. Garlan descobriu, depois, que outros
paladinos gostavam de chamar essa benção
específica de golpe divino. Clamando por sua
divindade, era capaz de canalizar um poder sagrado
que tornava seus golpes devastadores, sobretudo
contra criaturas das trevas.
Porém o favor do deus não vinha sem
sacrifícios. Aqueles que fossem escolhidos, se

13
quisessem manter suas bênçãos, teriam de seguir de
maneira rígida os dogmas e costumes.
Khalmyr, pregava a justiça, a verdade, e a
bondade. Quebrar esses preceitos poderia significar
uma redução no favor divino, e talvez até a perda
total das habilidades santas.

Seguindo sua jornada sem destino, Garlan


cavalgava sob as planícies verdes de Namalkah. Sua
simpatia e vontade de ajudar os outros haviam lhe
rendido mais um presente; dado por um fazendeiro
que salvara.
O homem havia caído em um lago de ácido,
que servia de lixão para os moradores da região.
Antes que o líquido corroesse a carne do coitado,
Garlan saltou dentro do lago borbulhante e com
dificuldade conseguiu o tirar de lá. O ácido enferrujou
ainda mais sua armadura, que já era velha, e ele saiu
com queimaduras graves, mas o outro estava à beira
da morte, pois passara alguns minutos dentro do
lago, tendo sua carne derretida aos poucos. O
paladino colocou-o nas costas da égua do próprio
fazendeiro e montou o animal, que logo entendeu o
perigo e disparou. Garlan cavalgou como se fosse ele
o ginete da égua; ambos acostumando-se rápido ao
jeito de guiar, e ser guiado.
Chegando na propriedade do fazendeiro, o
paladino pôs-se a usar o poder curativo Khalmyr. A
égua, inteligente e ciente do estado de seu dono, foi
até a porta da casa chamar atenção da família, que
veio em socorro. Garlan conseguiu fazer parar o
corroer do ácido, e restaurar boa parte da carne do

14
homem, mas estava ele mesmo parte derretido pelo
líquido corrosivo.
O fazendeiro se chamava Edgar e, em
agradecimento, acolheu Garlan em sua casa até que
se recuperasse totalmente. Conviveu junto à sua
família por alguns dias e o homem fez questão de
ensiná-lo a cavalgar como um namalkahniano.
Aprendeu a cuidar de equinos e fez amizade com a
velha égua Jamile, que cavalgou no dia que resgatara
Edgar.
Mesmo depois de recuperado, as cicatrizes de
queimadura lhe pareciam estranhas, e o cabelo
crescia ralo em algumas partes da cabeça, mas
tivera de se acostumar.
Quando fora partir, o senhor havia decidido
que não poderia o deixar ir sem um presente por tê-
lo livrado da morte. Mesmo sob recusa, o homem
insistiu que o rapaz levasse consigo Jamile, que
também se afeiçoara ao paladino depois do
incidente. Garlan aceitou; relutante, mas contente
por poder levar consigo o animal com o qual fizera
uma amizade rápida e sincera. Apesar da idade, a
égua era capaz de realizar seus trabalhos
normalmente. Era de pelo marrom, cauda preta e
possuía um olhar esperto como o de gente. E como
último conselho, Edgar ensinou a Garlan que jamais
deveria usar esporas.

Semanas depois, seguindo viajem, parou em


Suth Eleghar, a cidade Namalkahniana mais próxima
da fronteira com a Supremacia Purista. Dirigiu-se a
menor estalagem que encontrou, porque não podia

15
pagar por nada melhor. Amarrou Jamile no palanque,
e a égua pôs-se a tomar água. Dentro da estalagem,
Garlan buscou por seu saco de moedas.
Quase sem peso.
Aproximou-se do balcão, pediu um prato de
comida quente para si, e cenouras para dar de comer
a Jamile. Deitou-se na cama do quarto mais simples
da estalagem, mas já era melhor que o relento dos
últimos dias. Pôs-se a pensar sobre o que vivera até
então, sobre os pequenos milagres de cura que
realizara, sobre as pessoas que tirara do perigo, e
sobre as novas cicatrizes que ainda doíam.
Dormiu.
Acordou com o barulho de gritos na taverna, e
desceu para ver o que acontecia. Apoiado sobre o
balcão, um homem chorava e gritava, perguntava
aos céus o porquê de algo, enquanto as pessoas ao
redor tentavam o consolar.
Garlan se aproximou devagar ouvindo as falas
desencontradas.
— Por que elas? Por que não eu? — disse o
homem aos prantos.
— Ninguém conseguiu encontrar aquele par de
gurias? — Disse outro homem, com armadura de
ginete e postura de liderança.
— Nem cheiro das orelhudas até a fronteira,
patrão. Dessas aí não se sabe mais o rumo. —
respondeu um subordinado.
— Sangue de Alihanna... — sussurrou o chefe
ginete, preocupado — Será que as gurias foram parar
nos lados dos puristas?
Namalkah e a Supremacia Purista eram reinos
inimigos. Na verdade, a inimizade começara pelo

16
lado da Supremacia, invadindo territórios; e os
Namalkahnianos se defenderam.
Depois de diversos conflitos, a fronteira entre
os reinos vive uma tranquilidade frágil. Tropeiros
seriam caçados e mortos caso fossem vistos nas
terras da Supremacia, e o contrário também valia
para os Puristas.
— Não temos mais por onde revirar mato,
patrão. Procuramos por três dias. Elas não estão para
o lado de cá. — disse o tropeiro, com pesar.
O homem no balcão não parava de chorar,
pensando no destino das meninas.
Garlan se aproximou, discreto.
— O que houve, senhor? — disse, finalmente
entrando na conversa.
— Minhas duas filhas sumiram. Meus tesouros
sumiram há dias e ninguém as encontra em canto
nenhum. — Respondeu o homem, ainda em prantos.
— Posso ajudar a encontrá-las.
Um dos ginetes suspirou da ingenuidade de
Garlan.
— Você não é daqui não né, patrício? —
Perguntou o tropeiro.
— Cheguei a pouco tempo em Namalkah,
senhor.
— Então deixe eu contar uma coisa, rapaz:
Gente daqui não entra nas terras da Supremacia
Purista. Se as meninas foram mesmo para lá, não
tem mais como achar elas —Explicou o chefe ginete.
A Supremacia Purista era uma nação de modos
rígidos, tradição militar e ódio. Ódio contra tudo que
não fosse humano. Seus principais objetivos eram o
extermínio de todas as outras raças para além dos
humanos, e estabelecer a dominância de sua cultura

17
sob as outras. Um lugar de rigidez pétrea, de
preconceito indistinto e de vida cinza.
— Elas são elfas... — Disse o pai, explicando o
perigo — Duas elfas de cabelos verdes como grama,
uma tem seis e a outra oito anos.
Garlan finalmente entendeu o desespero do pai
e a preocupação dos tropeiros. No território da
Supremacia Purista, duas crianças elfas eram o
mesmo que duas lebres perdidas numa floresta de
lobos e caçadores.
— Não podemos abandonar elas. Parar as
buscas é o mesmo que deixá-las para morrer — Disse
o paladino.
— Continuar as buscas é condenar nossos
homens à morte, patrício —Explicou o chefe tropeiro.
— Não podemos entrar em território purista.
Seríamos mortos ou capturados assim que nos
vissem. E do jeito que eles são paranoicos, um grupo
de ginetes revirando os cantos poderia ser visto
como espionagem. Não podemos arriscar criar um
conflito maior.
— Então vou sozinho. Não trajo roupas
Namalkahnianas. Um homem viajando sozinho não
deve trazer problemas para vocês.
— Você tem coragem, rapaz — Começou o
ginete. — Vejo que carrega o símbolo de Khalmyr.
Usa espada na cinta, tem um escudo pendurado nas
costas e se mete em confusão sem pensar duas
vezes. Imagino que não seja só um soldado religioso.
É um daqueles campeões do seu deus?
— Sim, sou um servo abençoado de Khalmyr,
senhor. — Respondeu Garlan, feliz em ser
reconhecido como — Um paladino.

18
— Isso. Um desses — Falou o tropeiro, com
sarcasmo leve, devido a rigidez da fala do rapaz. —
Vamos ver até onde essa coragem vai te levar,
patrício.
Apresentaram-se. O Chefe ginete era Bertold, e
explicou que seus homens procuravam as meninas
há dias. Já tinham perdido as esperanças, mas
continuavam a procura-las por pena do pai das
meninas, Lotric.
Lotric era um humano, e teve um curto
casamento com elfa que morrera à poucos mais de
um ano. Lotric não era pai biológico das meninas,
mas as criou junto da mãe desde que a mais velha
tinha três anos. Elas eram seu mundo.
Lotric, desesperado, aceitou sem questionar a
ajuda de Garlan, e depois descreveu cada detalhe da
aparência das meninas, de forma que fosse
impossível não as reconhecer de imediato. O pai
suplicava para que paladino resgatasse as crianças, e
prometia dar-lhe tudo o que tinha, caso o fizesse.
Garlan tentou tranquilizar o homem, garantindo
que traria suas filhas de volta, mas também temia
não conseguir. Deixou emanar sua aura sagrada, que
acalmou o homem desesperado e o fez sentir
confiança no rapaz. A aura do paladino não era capaz
de transformar um agressor em aliado, mas fazia o
ambiente ficar mais acalentador e confortável.

Depois de alguns minutos de apresentações,


organização de equipamentos e orações à Khalmyr,
Garlan subiu em Jamile, e ouviu as instruções do

19
Bertold sobre o território em que iria entrar. E sobre
onde poderiam estar as meninas.
— Escute rapaz, não disse nada a Lotric para
não o deixar ainda mais assombrado, mas acho que
sei qual pode ser o paradeiro das orelhudinhas.
Garlan ouviu com atenção.
— Sua coisa com não humanos não se resume
só a matar. Eu já ouvi que, alguns dos fidalgos de lá
gostam de manter alguns não humanos como...
Servos, as escondidas — Explicou Bertold,
preocupado. — Elfos, qareen, medusas... Até
minotauros. Eles os acham exóticos, como
brinquedos.
O paladino empalideceu
— Eles fazem leilões na calada da noite. Acho
que eles as encontraram antes de nós, e podem estar
querendo as vender dentro em pouco. Se minha
cabeça ainda funciona, eles resolvem tudo naqueles
salões de guerreiros. Talvez possam as apresentar lá.
— Tenho que ser rápido... — Disse o paladino,
entre dentes, mal conseguindo conter o pensamento
de quais horrores poderiam fazer com as meninas,
caso não fosse.
— São poucos os nobres de Drekellar, então
deverá ser fácil encontrar os suspeitos, difícil vai ser
tirar as pobrezinhas das garras deles.
— Preciso tentar. Tem mais algo que possa ser
de ajuda saber?
— Eles não gostam de Khalmyr lá, rapaz. São
do tipo que usa esporas e não dão nome aos cavalos.
Acho melhor tirar este símbolo para chamar menos
atenção.
O paladino o fez, com tristeza, pois
genuinamente amava seu tabardo. Um manto branco

20
com o símbolo da espada sob a balança costurado
em azul. Era simples, mas fora um presente dado por
sua mãe, logo que Garlan saíra em viajem.
— Não gosto de esconder quem sou. Mas temo
que seja o melhor a fazer para evitar problemas.
Muito obrigado, Bertold.
— Não tem por onde, rapaz — Respondeu o
Chefe ginete. — Cavalgue calmo e discreto, você é
um praticamente um soldado montado, e
principalmente, é humano. Se não demonstrar
insegurança, nervosismo e tiver uma língua afiada,
pode enganar os facínoras.
— Não quero enganar ninguém, senhor. Serei
discreto, mas se for abordado, tenho de dizer a
verdade. Não tenho outra escolha, é o modo de
Khalmyr — Explicou Garlan, lembrando Bertold de
que era um paladino e que, se mentisse, poderia
deixar de ser.
O tropeiro respirou fundo.
— Então só posso lhe desejar boa sorte, rapaz.
Que seu trote seja manso.
O paladino partiu.

Depois de alguns quilômetros de planícies


verdes e céu azul, o chão começou a enegrecer
conforme Garlan cavalgava, e o céu ficava cada vez
mais cinza. A natureza leve de Namalkah era
rapidamente esmagada pela praticidade pesada das
estradas feitas para marcha. Onde antes haveriam
lindas árvores e bosques, reinava na vastidão o
desmatamento. Onde antes poderiam existir lagos
límpidos, haviam poços de água parada. As nuvens

21
de formas imaginativas eram substituídas por blocos
uniformes de fuligem e chuva condensada,
esperando a hora certa de regar o solo com o que
sobrava de pior das oficinas de guerra.
Essa era a Supremacia Purista. Inconfundível.
Garlan se aproximou de um posto avançado, um dos
primeiros da região que dividia Namalkah e a
Supremacia. Haviam fileiras de pessoas montadas e
carruagens, todos sendo entrevistados antes de
entrar ou sair do território purista. Alguns eram
apenas abordados com perguntas, e quando o
soldado responsável se satisfazia, eram liberados a
seguir viajem. Outros, quando pareciam um pouco
mais suspeitos, tinham suas carroças verificadas,
algumas bolsas abertas e cargas verificadas. Ainda
outros, quando fossem encontradas irregularidades,
eram imediatamente algemados e levados ao quartel
ao lado. Mas todos, sem exceção, tinham seus elmos
levantados, capuzes retirados, e seu rosto e traços
fulminados pelos soldados, afim de terem certeza
que ninguém que não fosse humano entrasse.
Não havia como evitar aquele posto, pois se
fosse visto tentando cruzar território por outra rota,
seria caçado. E se fosse questionado durante sua
estadia na supremacia, deveria apresentar o
documento de aprovação que só se conseguia ao
passar pela verificação.
Finalmente, chegou sua vez.
Garlan montava Jamile discreto, silencioso e
atento. Havia deixado seu tabardo com o símbolo de
Khalmyr em Suth Eleghar, na posse de Lotric,
prometendo devolver-lhe as filhas, para que só assim
recuperasse o item. Fitou sério o soldado, que
devolveu o olhar.

22
— De onde vem, estrangeiro? — Perguntou o
purista.
Analisou Garlan, certificou-se de que não tinha
orelhas pontudas ou traços não humanos.
— Estou vindo de Namalkah, senhor —
Respondeu, sucinto.
— Quanto tempo passará aqui?
Olhou também Jamile. Não sabia identificar se o
animal era de Namalkah ou não, mas entendia que
era obediente e focado; o que era bom.
— Não mais que alguns dias. Depois retornarei.
— O que veio fazer em nosso reino?
Garlan sentiu a espinha tremer. Não podia dizer
ao que veio, mas jamais iria mentir.
— Vim encontrar duas pessoas. Voltarei junto
delas.
Olhou para o rapaz, que tinha uma expressão
calma e despreocupada, como de alguém que já
passara por aquele procedimento centenas de vezes;
o que era bom. Garlan nunca estivera ali antes.
— Leva consigo objetos, cargas ou seres
considerados ilegais na Supremacia Purista? —
Perguntou o soldado.
— Não.
Verificou com os olhos rápidos o equipamento
do rapaz. Espada, escudo e armadura; a última,
poderia ser melhor cuidada, mas também era bom.
Reparou na postura do cavaleiro, que naqueles
dias ainda eram de rigidez e disciplina.
Decidiu.
— Bem-vindo, estrangeiro.
Alívio. O primeiro passo havia sido dado,
entrara no território purista; entrara em Drekellar.

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Trotando pela cidade, Garlan notava o quanto a
vida naquela região era militarizada. Mesmo sendo
uma cidade do interior, tudo parecia trabalhar em
função do exército, cada detalhe pensado para
manter a máquina de guerra funcionando. As casas
eram divididas, numeradas e classificadas. Em suas
portas haviam todas as informações que o exército
poderia precisar: Quantos homens, mulheres,
crianças e servos viviam na propriedade; Suas
idades; Seus postos no exército ou funções como
açougueiro, armeiro e médico. (continua)

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