— o peso do cisne
Lily Sterling sentia o coração pulsar em cada músculo
do corpo. Seu reflexo no espelho do estúdio mostrava uma
bailarina impecável: costas eretas, pernas esticadas como
lâminas afiadas, braços leves como penas. Mas dentro dela
havia um turbilhão. Não era apenas o cansaço dos ensaios.
Eram as vozes. Os sussurros que nunca cessavam. Os vultos
que caminhavam pelo canto da sala, sempre à espreita.
Desde a adolescência, Lily vivia com o diagnóstico que
preferia não nomear. Os médicos diziam que era esquizofrênia.
Ela dizia apenas que sua mente tinha duas realidades — a que
todos viam, e a que se infiltrava como sombra, pintando de
medo até os dias mais ensolarados. Os comprimidos que
engolia todos as manhãs e noites apagavam os vultos,
silenciaram os sussurros, mas também roubavam algo
precioso: sua leveza.
Dançar sob efeito da medicação era como carregar
correntes invisíveis. Seu corpo obedecia, mas sem a
intensidade, sem a precisão que a diretora exigia. E agora, Lily
tinha em mãos a chance de sua vida: o papel principal em "o
lago dos cisnes."
— você precisa estar perfeita, Lily — a voz severa da
diretora ecoava em sua cabeça como chicotes — não podemos
ter deslizes. Não neste teatro. Não com os investidores
presentes.
Eram dias de pressão insuportáveis. Ensaios de doze
horas. Uma carreira que, finalmente, depois de tantos anos de
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sacrifício. O mundo parecia olhar para ela — e Lily não podia
falhar. Então veio a decisão.
Naquela madrugada, sentada no chão frio do
apartamento, ela encarou a cartela de remédios. Os dedos
tremiam. Ela sabia o que estava em jogo. Com remédios, era
segura, mas não brilhava. Sem eles, podia voar. Com lágrimas
nos olhos, guardou as cartelas na gaveta.
— só por alguns dias — prometeu a si mesma — só até a
estreia.
No dia seguinte, Lily sentiu o corpo desperto como não
sentia há meses. Cada músculo parecia vibrar de energia. Nós
ensaios, saltava mais alto, girava mais rápido. Até a diretora
esboço um raro sorriso. Mas junto com a leveza , os fantasmas
retornaram. Um homem parado no canto do estúdio, de casaco
escuro, observando em silêncio. Uma voz feminina cantando
uma melodia que ninguém mais ouvia. Lily fechava os olhos
balançanva a cabeça, e voltava a dançar.
Ela precisava acreditar que tinha o controle