Direito Fiscal
Os Tributos
O conceito de tributos
Tributos- receitas criadas pelo Estado ou outras entidades públicas para a
satisfação de necessidades públicas e sem função sancionatória
Embora a CRP não tenha um conceito de tributos, o artigo 165º nº1 i) faz
referencia a:
- impostos
- taxas
- demais contribuições financeiras
Estas constituem tipos ou categorias de tributos.
A Lei Geral Tributária também não tem uma definição de tributos, mas o seu
artigo 3º classifica-os. Em particular, no seu nº1 a), distinguem-se os:
- tributos fiscais: criados com finalidades públicas não sancionatórias; em
regra, são finalidades de arrecadação de receitas
- tributos parafiscais: criados por entidades públicas de base não
territorial (associações públicas, fundações, etc.) e cujas receitas escapam
ao princípio da unidade orçamental (deve existir apenas um orçamento, um
único documento que englobe todas as receitas e despesas)
Os tributos fiscais também incluem os parafiscais, pois estes também
prosseguem finalidades públicas não sancionatórias.
A b) do artigo 3º LGT distingue os tributos estaduais dos regionais e locais,
que se referem às entidades de base territorial que no nosso ordenamento
têm soberania tributária e que são titulares de receitas tributárias.
O artigo 3º nº2 LGT contém a classificação dos tributos:
- impostos (aduaneiros e especiais)
- outras espécies tributárias criadas por lei (taxas e demais contribuições
financeiras a favor de entidades públicas)
Assim, o artigo 3º nº2 LGT e o 165º nº1 i) CRP contêm as três categorias de
tributos reconhecidos no ordenamento jurídico-constitucional português:
- impostos
- taxas
- contribuições especiais (categoria de contribuições financeiras)
Qualquer destas três categorias de tributos visa, em regra, assegurar a
satisfação das necessidades financeiras dos Estado e de outras
entidades públicas, finalidade essa que corresponde à função ou
definição clássica dos tributos.
Contudo, desde meados do século XX, juntaram-se outras finalidade,
ligadas à orientação de comportamentos, nomeadamente, a da
prossecução de fins ambientais ou alteração de comportamentos
individuais, com ou sem externalidades negativas.
Os impostos
Conceito e elementos essenciais
Imposto- prestação pecuniária, coativa (obrigatórios) e unilateral (não tem
nenhuma contraprestação) sem o carácter de sanção exigida pelo Estado ou
por outra pessoa de direito público, com vista à realização de fins públicos;
seguem o principio da não consignação da receita, não sabendo nós para
que fim esta receita é direcionada
Os impostos são tributos:
- carácter unilateral
Não têm contraprestação pública direta e imediata e servem as
necessidades financeiras gerais.
Distinguem-se das taxas, porque estas assentam na bilateralidade
(prestação pecuniária e direta e imediata contraprestação pública).
Distinguem-se das contribuições especiais, porque estas assentam
num sinalagma difuso (bilateralidade com externalidades), mas
também porque algumas contribuições especiais servem para
satisfazer exclusivamente as necessidades financeiras de um grupo.
- finalidades públicas não sancionatórias
A finalidade principal ou secundária será a arrecadação de receitas.
Contudo, os chamados impostos extrafiscais (ex.: imposto sobre o
consumo de sacos de plástico; imposto sobre empresas com atividades
poluidoras), orientadores de comportamentos individuais ou coletivos,
são ainda impostos, desde que se verifiquem as restantes
características do imposto.
Se a finalidade de alteração de comportamentos falhar, a arrecadação
de receitas torna-se o objetivo residual.
Classificações dos impostos no sistema fiscal português
Vamos classificar os impostos consoante:
- objeto sobre que recaem: impostos sobre o rendimento, o consumo e o
património
- função que desempenham no ordenamento jurídico-constitucional:
impostos reais e impostos pessoais; impostos proporcionais, progressivos e
regressivos
- o modo como atingem o objeto e o sujeito: impostos direitos e
indiretos
- o período temporal de nascimento e extinção: impostos de obrigação
única e impostos periódicos
Impostos sobre o rendimento, o consumo e o património
As grandes categorias de impostos que vigoram em Portugal são de
exigência constitucional (art. 104º CRP), incidindo sobre o:
- rendimento
Este organiza-se em:
- imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS)
- imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas (IRC)
Estes impostos consideram-se os mais justos, pois têm em conta não
só os rendimentos, mas também as despesas associadas à sua
obtenção (rendimento liquido) e incluírem alguns elementos
redistributivos associados ao Estado de Direito social, como a dedução
de despesas sociais, como a saúde e a educação.
Rendimento liquido- baseado na diferença entre proveitos e gastos da
atividade
- consumo
Estes incidem sobre o:
- consumo geral de bens e serviços (IVA)
- consumo especifico de certos bens (impostos especiais sobre o
consumo, ex.: tabaco, álcool)
Estes impostos consideram-se menos justos que os sobre o
rendimento, pois incidem sobre os sujeitos na mesma medida,
independentemente da capacidade económica de cada um.
- património
Estes são impostos sobre a riqueza, podendo ser:
- estáticos: incidem sobre a detenção de riqueza
- dinâmicos
Estes podem incidir sobre todo o património, imobiliário ou mobiliário
(impostos gerais sobre o património) ou apenas sobre uma parte
do património.
E, no acaso dos impostos dinâmicos, podem incidir sobre as
transmissões onerosas (ex.: Imposto sobre a Transmissão de Imóveis)
ou gratuitas (ex.: impostos sobre doações).
Imposto reais e impostos pessoais
Impostos reais- aqueles que se centram na manifestação da riqueza, sem
considerar outros elementos diferenciadores ligados à capacidade
económica do sujeito, como a situação conjugal
Impostos pessoais- têm em conta alguns elementos diferenciadores
relacionados com a capacidade contributiva do sujeito
O artigo 104º nº1 CRP refere que o imposto sobre o rendimento
pessoal será único. Contudo, esta unicidade é inviável, pelo que a
regra passou a ser o chamado “sistema dual”, em que os rendimentos
de capitais são sujeitos a uma taxa única e afastados da
progressividade.
O imposto pessoal também exclui de tributação o mínimo de
existência, em que até um determinado montante não há sujeição ao
imposto sobre o rendimento.
O imposto progressivo caracteriza-se pela aplicação de diversas taxas
por escalões, em que as taxas são maiores para os rendimentos mais
elevados.
Impostos proporcionais, progressivos e regressivos
Impostos proporcionais- os de taxa fixa, sob a forma de uma percentagem
Impostos progressivos- implicam a existência de taxas variáveis; a
progressividade implica um aumento da taxa tendo em conta o aumento do
rendimento e caracteriza-se pela existência de escalões
A progressividade nos impostos pessoais pode gerar fenómenos de
exilio fiscal.
A progressividade nos impostos reais estimula os fenómenos de fraude
fiscal.
Impostos regressivos- implicam a existência de taxas variáveis; tributação
mais elevada de uma menor capacidade contributiva ou tributações iguais
de diferentes capacidades contributivas
A regressividade é inconstitucional, pois é contrária ao principio da
igualdade.
Temos de distinguir:
- elementos regressivos: ex.: quociente familiar introduzido no
Código do IRS em 2015
- taxas regressivas: mais elevadas quanto menor for o rendimento
ou o património; são proibidas
- impostos regressivos: prestações fixas ou prestações tributárias
iguais; são proibidos
Impostos diretos e indiretos
Esta classificação está presente, por exemplo, no artigo 6º LGT.
O critério adotado é o financeiro.
Imposto direto- atingem as manifestações diretas ou imediatas da riqueza e
da capacidade contributiva (imposto sobre o rendimento e o
património)
Imposto indireto- incidem sobre manifestações indiretas ou mediatas da
riqueza e da capacidade contributiva (imposto sobre o consumo e a
despesa)
Impostos de obrigação única e impostos periódicos
Impostos de obrigação única- aqueles cujo facto tributário nasce e se
extingue com um ato ou negócio jurídico (ex.: consumo)
Impostos periódicos- aqueles cujo facto tributário se renova por diferentes
períodos fiscais (ex.: propriedade de um prédio urbano); o facto tributário
nasce e extingue-se ao fim de um determinado período fiscal
As taxas
Conceito e elementos essenciais
Taxa- tributo sinalagmático ou bilateral (têm uma contrapartida), podendo
prosseguir finalidades fiscais ou extrafiscais; têm um carácter imediato;
individualizado ou individualizável (não pode trazer externalidades)
Este compreende três tipos de situações (art. 4º nº2 LGT):
- contrapartida pela utilização de serviços públicos
- contrapartida pela utilização de um bem público ou semipúblico ou de um
bem do domínio público
- contrapartida pela remoção de um obstáculo jurídico
E, além disto, o tributo não pode ultrapassar a cobertura de custos, pelo que,
caso contrário, há um imposto oculto.
O regime geral das taxas das autarquias locais
O objeto das taxas
No caso das autarquias locais, o artigo 3º RGTAL indica sobre o que é que as
taxas devem incidir.
Há uma ideia de competência territorial e material das autarquias locais,
pelo que a titularidade dos serviços e bens tem de ser da autarquia e a
competência quanto à remoção de um obstáculo jurídico ao comportamento
dos particulares também tem de ser autárquica.
A finalidade das taxas e o princípio da justa repartição dos encargos
públicos
Tal como os impostos, as taxas podem ter finalidades fiscais e extra fiscais
(arts. 4º nº2 e 5º nº1 RGTAL).
As contribuições financeiras
Conceito
Esta é uma categoria residual que enquadra:
- tributos que não apresentem as características dos impostos, em especial a
unilateralidade e a cobertura da generalidade das despesas
- os tributos que não apresentem as características das taxas, em especial a
bilateralidade em sentido estrito
- os tributos a favor de entidades públicas de base não territorial com
características de sinalagma difuso (a contraprestação não ocorre no
momento, mas ocorre)
As contribuições especiais que têm sido criadas entre nós podem ser
agrupadas em algumas categorias:
- destinadas a financiarem serviços de interesses difusos: beneficiam
concretamente alguns grupos de destinatários, mas com externalidade
positivas (ex.: prevenção de riscos)
- contribuições especiais parafiscais: financiam entidades públicas de
base não territorial cuja atividade beneficia um grupo homogéneo de
destinatários
- contribuições com finalidades extrafiscais puras: destinadas a
modelar ou orientar comportamentos; só não se fala em imposto se os
montantes cobrados sejam afetos à compensação dos prejuízos causados
pela rigidez dos comportamentos que se pretendia orientar
Taxas de regulação económica e a proteção constitucional dos
contribuintes
Para não violarem os princípios constitucionais, as contribuições especiais
parafiscais devem respeitar os seguintes critérios materiais:
- os contribuintes devem constituir um grupo homogéneo
- a contraprestação deve ser suportada pelo grupo de beneficiários dos
serviços
- deve existir uma utilidade do grupo
- o montante deve suportar o teste da proporcionalidade
A quantificação das taxas de regulação económica
As taxas de regulação económica exigem uma quantificação através do
princípio da equivalência, implicando que:
- o benefício do grupo seja repartido igualmente por todos os beneficiários
- que haja correspondência entre o montante a cobrar e os custos da
entidade reguladora
Benefícios fiscais
Benefícios fiscais- desagravamentos fiscais que introduzem exceções à
incidência tributária e que prosseguem finalidades não fiscais (ex.: isenções
totais ou parciais)
Por serem exceções às normas de incidência, os benefícios fiscais violam o
principio da igualdade, tendo de ser justificados por princípios que se
sobreponham à igualdade e, em regra, devem ter duração limitada.
A relação jurídica tributária
Noções introdutórias
A relação jurídica tributária é uma relação de Direito Público entre sujeito
passivo e sujeito ativo e como tal confere-lhes direitos e deveres.
Sujeitos da relação jurídica tributária
O conceito de sujeito ativo encontra-se no artigo 18º nº1 LGT.
Sujeito ativo- titular do crédito tributário e de outras pretensões tributárias.
Contudo, o sujeito ativo pode ser distinto do sujeito que é titular da receita
tributária.
A referencia à representação abre a possibilidade de a exigência do tributo
ser efetivada por uma entidade pública (ou uma entidade privada) diferente
do sujeito ativo.
O conceito de sujeito passivo é mais amplo do que o adotado pelo artigo 18º
nº3 LGT.
Sujeito passivo- quem está obrigado ao cumprimento de uma prestação
tributária, podendo se tratar, além dos previstos na lei, de uma entidade
constituída segundo os requisitos legais ou em desrespeito destes
Ainda no nº4 do artigo 18º encontram-se as situações em que não se adquire
a qualidade de sujeito passivo.
Categorias de sujeitos passivos
São categorias de sujeitos passivos:
- contribuinte
- substituto
- substituído
- responsável tributário
Contribuinte, substituto e substituído tributário
Contribuinte- sujeito passivo obrigado por lei a pagar tributos ou outros
encargos legais a estes associados
Substituto tributário- sujeito passivo que está obrigado a cumprir prestações
materiais e formais da obrigação tributária em lugar do contribuinte
Substituído- contribuinte que paga os tributos através do substituto tributário
A responsabilidade tributária: caracterização, pressupostos e
procedimento
Responsável tributário- sujeito passivo que violou deveres legais e a quem é
exigido o pagamento de uma dívida tributária de outrem não
atempadamente paga
Enquanto na solidariedade a autoridade tributária pode escolher o
património de um dos sujeitos passivos responsáveis para saldar toda a
dívida, na responsabilidade subsidiária, a autoridade tributária tem de
respeitar uma hierarquia (tem de executar primeiro o património do
responsável primário ou do obrigado tributário, e na sua ausência, pode
executar o património do sujeito referido na lei).
Em regra, quando os pressupostos da responsabilidade tributária se
verifiquem em relação a mais de uma pessoa, todas são solidariamente
responsáveis pelo cumprimento da dívida tributária (art. 21º nº1)
A responsabilidade abrange toda a dívida tributária, os juros, multas e
demais encargos legais (art. 22º nº1 LGT).
Casos de responsabilidade tributária previstos na lei
Responsabilidade em caso de substituição tributária
A responsabilidade do substituto tributário pelo pagamento da divida
tributária do substituído ocorre se forem violados os seus deveres de
substituto tributário, ou seja:
- deveres de retenção
- entrega do imposto
Temos de distinguir as situações seguintes:
- não retenção na fonte do imposto por conta e consequente não entrega do
imposto (art. 28º nº2 LGT)
Aqui, cabe ao substituído a obrigação de pagar o tributo não retido, e
ao substituído a responsabilidade subsidiária.
Paga-se os juros compensatórios pelos danos causados.
- retenção na fonte mas não entrega do imposto (art. 28º nº1 LGT)
O substituído contribuinte fica desobrigado de qualquer obrigação, pois
existe uma presunção de que o substituído não sabe, nem tem a
possibilidade de saber, se o montante retido foi entregue ao fisco.
Assim, o substituto tributário é o único responsável pelo imposto retido
em não entregue por ele.
A professora considera que este se aplica tanto à retenção por conta
do imposto devido como à retenção definitiva, pois caso o legislador
entendesse o contrário, teria sido explicito.
- restantes casos (art. 28º nº3 LGT)
Cabe ao substituto a responsabilidade originária pelo pagamento do
tributo não retido e respetivos juros compensatórios, e ao substituído a
responsabilidade a titulo subsidiário.
A professora considera que este se aplica tanto à retenção por conta
do imposto devido como à retenção definitiva, pois caso o legislador
entendesse o contrário, teria sido explicito.
A averiguação da culpa dos gestores e responsáveis técnicos
A averiguação da culpa torna necessário indagar por que razão o património
da sociedade se tornou insuficiente ou inexistente para pagar a divida de
imposto.
Ou seja, cabe saber se o gestor ou responsável técnico contribuíram para
essa insuficiência ou inexistência.
No caso do IRC da sociedade, existe culpa do gestor para efeitos de
responsabilidade tributária se a não entrega do imposto foi acompanhada de
crime ou contraordenação fiscal.
Porém, mesmo na ausência destes, os deveres de diligencia do gestor em
relação ao cumprimento dos deveres tributários da sociedade têm de ser
tidos em conta para efeitos de responsabilidade tributária.
Cabe averiguar, então:
- se a insuficiência ou inexistência do património societário para pagamento
da divida de IRC se deveu a aplicações arriscadas desses montantes a outros
credores ou finalidades
- se o risco dessas aplicações era pequeno ou quase inexistente
Já no que diz respeito ao IVA cobrado e montantes retidos de IRS e
contribuições para a segurança social, o juízo de culpa é mais severo.
Nestes casos, entende-se que só excecionalmente pode ser afastada a culpa
dos gestores, ou seja, em casos em que o risco corrido era muito reduzido ou
quase nulo.
Constituição, alteração e extinção da relação jurídica tributária
Tatbestand sistemático de imposto
Este é o conjunto de pressupostos que a lei deve descrever para que ocorra
a obrigação tributária principal.
Estes elementos correspondem a:
- sujeito ativo e passivo
- facto tributário
- apuramento do valor fiscal
- taxa de imposto, coleta e deduções à coleta
Constituição da relação jurídica tributária
Quando o artigo 36º nº1 LGT refere a constituição do facto tributário, quer
dizer o preenchimento fáctico dos pressupostos legais.
A extinção da relação jurídica tributária
Noções introdutórias
A relação jurídica tributária extingue-se através da cobrança que assume as
modalidades de:
- pagamento voluntário ou coercivo
- caducidade da liquidação
- prescrição da dívida tributária
As modalidades de cobrança ou pagamento
Os termos pagamento e cobrança manifestam a mesma realidade de dois
pontos de vista diferentes.
Quanto ao pagamento, este é no ponto de vista no sujeito passivo. Já quanto
à cobrança, é no ponto de vista da administração tributária.
A falta de pagamento dentro do prazo legal não implica necessária e
imediatamente a cobrança coerciva.
Para que esta seja desencadeada é preciso um título executivo, previstos no
artigo 162º CPPT.
A cobrança coerciva está associada à execução do património do sujeito
passivo, ou seja, à penhora e alienação dos bens apreendidos.
O pagamento voluntário pode ocorrer durante o processo de execução (art.
264º CPPT).
Caducidade
A notificação da liquidação é necessária para tornar a dívida de imposto
certa e exigível.
As correções à matéria tributável, a fixação de rendimentos, as liquidações
adicionais e quaisquer atos suscetíveis de alterar a situação tributária do
sujeito passivo, têm de ser notificados.
Prescrição
O prazo de prescrição é o limite temporal para a possibilidade de cobrança
da dívida por parte da administração tributária.
O princípio da legalidade fiscal
Noções introdutórias
O princípio da legalidade fiscal assegura que a interferência na propriedade
privada resulta de discussão e aprovação parlamentar.
A lei é o ponto de partida para garantir a segurança jurídica, porque é
aprovada pelos representantes parlamentares.
A reserva material ou principio da tipicidade fiscal
Noções introdutórias
O principio da tipicidade fiscal não é violado com a vaguidade da lei, desde
que a orientação política quanto aos elementos essenciais do imposto seja
dada pelo Parlamento, e o Governo concretize as autorizações parlamentares
quanto a esses elementos essenciais, de forma que a carga fiscal seja
previsível e calculável.
Art. 103º nº2 CRP e os elementos essenciais dos impostos
O artigo 103º nº2 CRP enumera os elementos dos impostos e as matérias
que devem ser definidos por lei da AR, decreto-lei autorizado e decreto-
legislativo regional:
- incidência
- taxa
- benefícios fiscais
- garantias dos contribuintes
A incidência
A incidência pode ser:
- objetiva: diz respeito à realidade sobre a qual o tributo incide
- subjetiva: sobre quem é que incide o imposto
A taxa
Esta é a percentagem de imposto que incide sobre o rendimento.
Criminalização, agravação, descriminalização ou atenuação
A professora Ana Paula Dourado defende que a reserva de lei abrange a
atividade de criminalização ou agravação, e a da descriminalização ou de
atenuação.
Determinação e indeterminação
Conceito
O principio da legalidade fiscal exige que todas as leis em sentido formal
sejam suficientemente determinadas de modo que os particulares possam
entender e prever as atuações da administração tributária.
Contudo, estas exigências não implicam necessariamente a calculabilidade
do imposto pelo sujeito passivo.
Remissões da lei formal para regulamento ou decreto-lei não
autorizado
O principio da legalidade fiscal não impede as remissões expressas da lei
formal para regulamento ou decreto-lei não autorizado que desenvolvam
aspetos estritamente técnicos do regime.
Principio da proibição da retroatividade fiscal
Conceito e critérios
A regra do Direito Fiscal é a de que a lei nova se aplica para o futuro, sendo a
aplicação a factos passados proibida (art. 103º nº3 CRP).
Só existe retroatividade autentica se a lei nova for aplicada a um facto com
inicio no passado, inteiramente decorrido ao abrigo de uma lei antiga.
Já no caso de o facto ter iniciado no passado e ainda estar a decorrer, fala-se
em retrospetividade.
Leis procedimentais e processuais
O TC aplica a distinção entre retroatividade autêntica e retrospetividade.
O TC entende que não há um direito à não-frustração de expectativas
jurídicas ou a manutenção do regime legal em relações jurídicas duradouras
ou relativamente a factos complexos já parcialmente realizados, pelo que o
legislador não está impedido de alterar o sistema legal afetando relações
jurídicas já constituídas e que ainda subsistam no momento em que é
emitida a nova regulamentação, por ser uma necessária decorrência da
autorevisibilidade das leis.
Leis substantivas
Impostos de obrigação única e impostos periódicos
Impostos de obrigação única- o facto tributário se constitui e conclui com um
único ato ou contrato jurídico
Impostos periódicos- o facto tributário tem, normalmente, inicio no primeiro
dia do ano ou período fiscal e só está concluído no ultimo dia desse ano ou
período
No caso dos impostos de obrigação única, a proibição da retroatividade
implica o respeito pelos factos tributários passados, ou seja a não aplicação
da lei nova a esses factos.
No caso dos impostos periódicos, a proibição da retroatividade assume
contornos próprios, em que, desde que o ano fiscal esteja em curso, a
entrada em vigor de lei nova aplica-se desde 1 de janeiro.
Taxas liberatórias e as tributações autónomas
No caso de retenções na fonte sujeitas a taxas liberatórias (taxa de imposto
em que é retido na fonte, a título definitivo, o montante de imposto a
entregar ao Estado), o facto tributário é de obrigação única, não sendo
relevante o ano ou período fiscal, mas o dia em que ocorreu a obrigação de
imposto.
O factos tributários objeto de tributação autónoma constituem factos
tributários de obrigação única, pois esta incide sobre despesas avulsas.
Assim, uma lei nova só deve ser aplicada a factos tributários que ocorram
após a sua entrada em vigor.
Conceito de retroatividade para efeitos do IVA
No quadro do IVA o sujeito passivo não coincide com o consumidor final, pois
que, enquanto para este o IVA é um imposto de obrigação única, para o
sujeito passivo ele é um facto tributário de formação sucessiva.
Sendo o IVA suportado pelo consumidor final, a aplicação da lei nova no
tempo não pode colocar em causa o imposto já pago pelo consumidor final.
A proibição da retroatividade como manifestação do princípio da
segurança jurídica
A segurança jurídica no Direito Fiscal tem como vertente positiva o princípio
da confiança (art. 2º CRP) e como vertente negativa o principio da não
retroatividade fiscal (art. 2º e 103º nº3 CRP).
As normas fiscais mais favoráveis não estão compreendidas na proibição do
artigo 103º nº3, pois tais normas não são contrárias à segurança jurídica,
não violando a tutela da confiança do contribuinte.
Retrospetividade e principio da proteção da confiança
Principio da proteção da confiança: critérios jurisprudenciais de
densificação
Segundo o TC, para que o principio da confiança seja tutelado é necessário
que se reúnam dois pressupostos cumulativos:
- afetação de expectativas: será inadmissível quando constitua uma
mutação da ordem jurídica com que os destinatários das normas dela
constantes não possam contar
- a alteração não for ditada pela necessidade de salvaguardar
direitos ou interesses constitucionalmente protegidos que devam
considerar-se prevalecentes: aqui deve-se recorrer ao principio da
proporcionalidade (art. 18º nº2 CRP)
Estes dois critérios são densificados através de quatro requisitos:
- o legislador tem de ter tido comportamentos capazes de gerar nos privados
expectativas de continuidade
- estas expectativas devem ser legitimas, justificadas e fundadas em boas
razões
- os privados devem ter feito planos de vida tendo em conta a perspetiva da
continuidade do comportamento estadual
- não ocorram razões de interesse público que justifiquem a não
continuidade do comportamento que gerou a situação de expectativa
A lei retroativa interpretativa
Lei interpretativa- aprovada para esclarecer o sentido ambíguo de uma lei
anterior
A lei interpretativa é, por definição, retroativa.
Nos termos do artigo 13º CC, a lei interpretativa integra-se na lei
interpretada.
Isto acontece, pois a lei interpretativa escolhe um dos sentidos possíveis da
lei interpretada, não lesando a confiança legitima do contribuinte, até porque
não se considera que haja expectativas legitimas, pois os sujeitos passivos
não podem agir com nenhuma convicção sobre o regime dela decorrente, já
que não existe igualdade na aplicação da lei a casos idênticos.
Ao escolher um dos sentidos possíveis, a lei interpretativa cria segurança
jurídica para o futuro, e ao ser retroativa assegura uma aplicação igual da lei.
Cabe aos tribunais decidir se uma lei interpretativa é verdadeiramente
interpretativa ou inovadora, pois que, neste último caso, ela não pode ser
retroativa.
Princípio da tributação do rendimento real
Tributação do rendimento real e deveres declarativos e de
cooperação. A fiscalização
Rendimento real- rendimento tributável que resulta da diferença entre
proveitos e gastos e é apurado segundo métodos diretos (com base na
contabilidade e outros deveres de declaração do sujeito passivo)
A professora Ana Paula Dourado equipara o rendimento real a tributação
direta.
Métodos indiretos de tributação na LGT
Noções introdutórias
Estes são métodos subsidiários de determinação da matéria tributável, a
aplicar quando não é possível determinar com fiabilidade o rendimento real,
ou quando o sujeito escolhe ser tributado com base no regime simplificado
(art. 87º LGT).
A determinação da matéria coletável segundo os métodos indiretos é feita
com base em critérios fixados na lei, correspondendo ao tipo médio ou
frequente de rendimentos obtidos por sujeitos passivos que estão em
situação comparável.
Alguns dos critérios para aplicação dos métodos indiretos são os que estão
no artigo 90º LGT.
Já no caso do regime simplificado, aplica-se o artigo 31º nº1 CIRS.
Os pressupostos para a aplicação dos métodos indiretos
Os métodos indiretos só podem ser aplicados se estiverem verificados os
pressupostos dos artigos 87º ss. LGT.
Estes pressupostos reconduzem-se à violação de deveres formais ou dos
deveres de cooperação por parte do contribuinte, e uma discrepância não
justificada entre o valor declarado e os valores de referencia.
Em todos os casos previstos na lei, com exceção do 87º nº1 a), há uma
situação de non-liquet, ou seja, a tributação conforme à declaração
apresentada pelo sujeito passivo fracassa.
Assim, a aplicação de métodos indiretos só pode ter lugar quando a
administração tributária não consegue apurar o rendimento tributável
segundo os métodos diretos, através da informação insuficiente ou
deficiente fornecida pelo sujeito passivo.
As manifestações de fortuna como presunção de rendimento não
declarado
Estas encontram-se no artigo 87º nº1 d) e f).
As manifestações de fortunas e desvios do rendimento padrão são indícios
legais de que há uma ocultação material de informações.
Estas contêm uma presunção de que a informação sobre os rendimentos
efetivamente obtidos pelo sujeito passivo é deficiente ou insuficiente, a não
ser que haja uma justificação.
As manifestações de fortuna são acompanhadas por uma regra de ónus da
prova elidível.
A justificação parcial não afasta os pressupostos de aplicação dos métodos
indiretos. O STA entendeu que sendo a justificação parcial aceite, os métodos
indiretos só podem recair sobre a parte não justificada da manifestação de
fortuna.
O STA também entendeu que, no caso de uma sociedade comercial, cuja
insolvência foi declarada, não é possível a determinação da matéria
tributável por via de métodos indiretos.