O FAROL QUE NÃO ILUMINAVA NINGUÉM
No extremo norte de um arquipélago esquecido pelo mundo, havia um farol antigo chamado
Torre de Althar.
Ele ficava em uma ilha tão isolada que os pescadores a chamavam de o fim do mar.
Diziam que aquele farol já tinha guiado navios durante guerras, tempestades e invernos
intermináveis.
Mas fazia décadas que ninguém habitava a ilha.
Mesmo assim…
A luz continuava acendendo todas as noites.
Não era uma luz comum.
Parecia um brilho doentio, esverdeado, como fogo preso dentro de uma garrafa.
E o mais estranho: nenhum barco queria — ou conseguia — se aproximar.
As bússolas piravam.
O mar ficava pesado, quase imóvel.
E os sons… cessavam.
Um capitão chamado Orlem, homem teimoso como os antigos deuses, decidiu investigar.
Levou dois tripulantes e uma embarcação pequena, movida mais por coragem do que por
madeira.
Ao se aproximarem, viram que a luz não era constante.
Ela piscava como se imitasse respiração — longa e lenta.
Quase… viva.
Subiram à ilha e encontraram o farol intacto, exceto por uma coisa:
não havia porta.
Como se nunca tivesse existido entrada alguma.
Ainda assim, a luz estava lá no topo, respirando.
Orlem deu a volta na torre e encontrou uma pequena abertura na rocha, como um túnel
natural, levando para dentro do penhasco.
O som que vinha de lá não parecia vento…
Era um sussurro fundo, arrastado, como alguém repetindo uma frase antiga, em um idioma
esquecido.
Os homens decidiram entrar.
O túnel terminava em uma sala subterrânea, e no centro havia uma escada que subia direto
para o interior do farol — uma escada que não podia existir, pois do lado de fora não havia
construção nenhuma naquela direção.
Quando chegaram ao topo, esperavam encontrar a lâmpada velha.
Em vez disso, viram uma criatura presa dentro de uma redoma de vidro.
Ela tinha forma humana, mas a pele era translúcida, como água parada.
Os olhos eram dois pontos de luz verde, queimando como fósforos eternos.
Quando Orlem se aproximou, ela falou sem mover os lábios:
“Eu ilumino para que vocês não vejam.”
A frase ecoou por dentro da cabeça deles, e de repente o farol inteiro pareceu respirar.
As paredes vibraram.
O mar rugiu.
E a criatura ergueu o rosto para o capitão.
“Se a luz apagar… vocês verão.”
Orlem não teve coragem de perguntar o quê.
Ninguém teria.
Os homens fugiram pela mesma escada, embora ela parecesse mais longa do que quando
subiram.
E quando chegaram em seu barco e olharam para trás…
O farol estava apagado pela primeira vez em cem anos.
E então, lá no horizonte, algo enorme se moveu sob a superfície da água.
Grande demais para ser uma sombra.
Grande demais para existir.
A luz nunca mais acendeu.
Os pescadores dizem que, nas noites mais silenciosas, a ilha inteira parece… observar.
E todos concordam em uma coisa:
Melhor não descobrir o que era para permanecer oculto.