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Arte Erótica vs. Scientia Sexualis

O texto discute a diferença entre a 'ars erotica', que enfatiza o prazer e a experiência sexual, e a 'scientia sexualis', que se concentra na confissão e na produção de discursos verdadeiros sobre o sexo na sociedade ocidental. A confissão, que se tornou um ritual importante, é utilizada para individualização e controle social, enquanto a sexualidade é vista como um campo vulnerável a intervenções médicas. Além disso, o autor menciona a influência da teoria malthusiana sobre a reprodução e a relação entre Oriente e Ocidente, destacando a continuidade da 'ars erotica' na civilização ocidental.
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Arte Erótica vs. Scientia Sexualis

O texto discute a diferença entre a 'ars erotica', que enfatiza o prazer e a experiência sexual, e a 'scientia sexualis', que se concentra na confissão e na produção de discursos verdadeiros sobre o sexo na sociedade ocidental. A confissão, que se tornou um ritual importante, é utilizada para individualização e controle social, enquanto a sexualidade é vista como um campo vulnerável a intervenções médicas. Além disso, o autor menciona a influência da teoria malthusiana sobre a reprodução e a relação entre Oriente e Ocidente, destacando a continuidade da 'ars erotica' na civilização ocidental.
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III

José de Souza Júnior1

Sociedades numerosas como a China, o Japão, a Índia, Roma, nação árabe-muçulmana,


que se dotaram da ars erotica. Na “arte erótica” (ars erotica) a verdade é uma prática e uma
experiência que é extraída do próprio prazer, que deve ser reconhecida segundo sua
intensidade, suas reverberações no corpo e na alma. Saber que deve recair na própria prática
sexual, “dessa forma constitui-se um saber que deve permanecer secreto” (Foucault, 1988:57).
Saber-secreto então mantido em discrição. O mestre, detentor dos segredos, que pode
transmitir de modo esotérico e ao cabo de uma iniciação, em que orienta com severidade, sem
falhas, o caminhar do discurso. Os efeitos dessa Arte Magistral devem transfigurar aquele a
quem recaem seus privilégios: a) domínio absoluto do corpo; b) gozo excepcional;
esquecimentos do tempo e dos limites, o exílio da morte e de suas ameaças.

Oposta à “arte das iniciações”, “arte erótica” e ao “segredo magistral” está a


“confissão”, na nossa civilização onde se pratica uma scientia sexualis, ciência sexual. As
sociedades ocidentais colocaram a confissão entre os rituais mais importantes que se espera a
“produção da verdade”, desde a Idade Média, com a condição de que o indivíduo passe a ser
autenticado pelo “discurso da verdade” que era capaz de ter sobre si mesmo: “a confissão da
verdade se inscreveu no cerne dos procedimentos de individualização pelo poder” (Foucualt,
1988:58). A confissão passou a ser uma das técnicas ocidentais mais valorizadas para produzir
a verdade. Confessam-se os crimes, pecados, pensamentos, desejos passados, o sonho, a
infância, as próprias doenças, as misérias. Confessam-se em público e em particular aos pais,
aos educadores, ao médico confissões impossíveis de se confiar a outrem: “quando confissão
não é espontânea ou imposta por algum imperativo interior, é extorquida; desencavam-na na
alma ou arrancam-na do corpo. A partir da Idade Média, a tortura a acompanha como uma
sombra, e a sustenta quando ela se esquiva: gêmeos sinistros” (Foucault, 1988:59). Os mais
“sangrentos poderes” tem necessidade de “confissões”, com isso o homem ocidental tornou-
se um “animal confidente”.

Em ruptura com a ars erotica, nossa sociedade constitui uma scientia sexualis que se
atribui a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo tentando ajustar a confissão ao
discurso científico. A scientia sexualis guarda como núcleo o rito da confissão obrigatória e

1
Professor de Geografia do Centro Federal de Educação Tecnológica Minas Gerais – Varginha – Diretoria da Unidade VIII.
exaustiva que constitui o Ocidente Cristão, como a primeira técnica para produzir a verdade. O
que se verifica através da medicalização são os efeitos recodificados da confissão na forma de
operação terapêutica. O que significa por isso que o “domínio sexual” será colocado no regime
que se situa entre o “normal” e o “patológico” da seguinte forma – o sexo aparece como
campo de alta fragilidade patológica e superfície de repercussão para outras doenças: “a
confissão ganhará sentido e se tornará necessária entre as intervenções médicas: exigida pelo
médico, indispensável ao diagnóstico e eficaz, por si mesma, na cura. A verdade cura quando
dita a tempo, quando dita a quem é devido e por quem é, ao mesmo tempo, seu detentor e
responsável” (Foucault, 1988:66). Esse rito da confissão desvinculou-se do sacramento da
penitência e emigrou para as relações familiares, enfim, para a medicina e a psiquiatria.
Produz-se, de fato, a sexualidade como correlato dessa prática discursiva que é a scientia
sexualis. Na intersecção entre a técnica de confissão e uma discursividade científica, a
sexualidade define-se como sendo um “domínio” penetrável por processos patológicos. A
sexualidade solicita intervenções terapêuticas e um campo de decifração de significações, ou
seja, um lugar de processos ocultos e uma palavra obscura que é preciso escutar?

O “discurso sexual”, apesar de se haver tentado reduzir todo o sexo à sua função
reprodutiva e à sua forma heterossexual adulta, à sua legitimidade matrimonial não explica os
objetos virados e os inúmeros meios postos em ação nas políticas sexuais concernentes aos
dois sexos, às diferentes idades, às classes sociais. Distinguem-se quatro conjuntos
estratégicos, embora não exista uma estratégica única e global válida para toda sociedade e
referente uniformemente a todas as manifestações do sexo: 1) a histerização do corpo da
mulher; 2) a pedagogização do sexo da criança; 3) socialização das condutas de procriação; 4) a
psiquiatrização do prazer perverso. Assim, quatro figuras se esboçam como objetos
privilegiados do saber: “a mulher histérica, a criança masturbadora, o casal malthusiano”
(Foucault, 1988:100), e especificamente como percorre através da “teoria de Malthus” as
exigências médicas psiquiátricas e porque se circunscreve em torno desse campo discursiva e
prática teórica demográfica e ao mesmo tempo sexual.

Para compreender o que houve entre a “scientia sexualis contra ars erotica sem
dúvida. Não obstante, é preciso notar que a ars erotica não desapareceu completamente da
civilização ocidental” (Foucault, 1988:69).

Atualmente o contato e a relação existente entre Oriente e Ocidente parecem produzir


um conflito religioso no quadro científico e informacional que não só delimitam uma
“cibercultura” (Lévy, 1999; Lemos, 2010) mas anunciam uma ciberjihad (Atwan, 2008), uma
“guerra santa” no espaço. Porém, sempre foi um projeto e uma problematização inteiramente
ligada e racionalizada por um grupo de “portuguesas” que se “lançaram na rota marítima” com
o “descobrimento do Brasil e a ocupação do território brasileiro, feitos a partir do século XVI”
que “foram um capítulo da expansão territorial portuguesa no Atlântico”, conforme Andrade
(2004): “o Brasil, descoberto oficialmente pelos portugueses em 1500, dispunha de grande
quantidade de terras a explorar (...). Portugal vivia ainda (...) o fascínio pelo controle do
comércio das riquezas da Índia e da África (...) ao se deliberarem a ocupar a costa brasileira”
(p.29). Portugal num sentido latu, mas especificamente e num sentido strictu, indicam os
herdeiros como os de Martim Afonso de Souza e Pero Lopes de Souza, além de outros grupos e
familiares lusitanos. Essa relação de forças e campo existente entre Oriente e ocidente se
definiu a partir destas Grandes Navegações.

Esta presença portuguesa em território brasileiro não exclui inteiramente comentários


e estudos diversos, dentre os quais, por enquanto, selecionam-se os de Paul-Michel Foucault
(2004) que concluiu sua Licenciatura em Psicologia e recebeu seu Diploma em Estudos
Superiores de Filosofia e os de Carl Gustav Jung (2011a) que decidiu pelo estudo da medicina
que concluiu em 1990.

A oposição entre a “arte erótica” e a “scientia sexualis” de que se trata o aspecto


diferenciador obteve certo impacto de uma teoria que busca “estudar as relações entre a
população e as leis do crescimento econômico”, escrita por Thomas Robert Malthus concluída
em 1798, segundo Scarlato (2005) “essa obra influenciou durante um século outros
pensadores, inclusive Charles Darwin, criador da mais conhecida teoria da evolução biológica”
(p.394). Objeto e domínio estratégico no campo do discurso sexual e psiquiatrizável está o
“casal malthusiano” enunciado por M. Foucault (1988).

A teoria de Malthus, que se baseou na lei dos rendimentos decrescentes, anunciava a


existência de uma tendência universal que expunha a população que cresce e reproduz
sexualmente em progressão geométrica e a produção de alimentação em progressão
aritmética. Conclui-se, dentre outros fatores, que o ingresso de trabalhadores no processo de
produção de alimentos, proporcional a esse ingresso: os alimentos não acompanham o
crescimento geométrico da população.

Primeiramente, este “animal confidente” que desfila como figura medicalizável, ao


reproduzir a população como num “casal malthusiano”, delimita a scientia sexualis na nossa
civilização ocidental (Foucault, 1988). Trata-se, neste caso, de compreender as figuras do
animus e da anima traduzidas por hun, que se separam, a partir do texto de Jung (2011b), após
a morte ao mostrar que para o Oriente e especialmente para a “consciência chinesa”, eles
seguem cada qual seu próprio caminho, embora sejam originalmente “um só ser, único,
verdadeiro e atuante” (p.45). Em seguida, após as questões apresentadas sobre o crescimento
populacional e a scientia sexualis, delimita-se a “lição sobre os sacrifícios” encontrados no
“Livro da Lei de Manu”, extraída do Brahmana, “um dos mais antigos tratados hindus” que se
afirma enigmático e inquietante para Canetti (1995).

Enquanto, os estudos psicanalíticos quando parecem se cruzar com os estudos sobre a


educação para produzir uma “visão psicanalítica” e “neopsicanalítica”, a partir do
“desenvolvimento sócio-afetivo e psicossexual da criança e do adolescente”, o que exclui a
psiquiatrização do adulto perverso, ressalta-se em ambos os casos a sua relevância à “teoria
malthusiana”.

Exemplificam-se os “estágios do desenvolvimento psicossexual” com a “etapa oral”


que se subdivide em dois subperíodos: o “período auto-erótico” (estende do nascimento até
aproximadamente dos 6 aos 18 meses). Enquanto, por volta dos três ou quatro anos, no
terceiro estágio, os impulsos se subordinam aos “órgãos genitais” no “estágio fálico”: “a
masturbação infantil, nesta época, é facilmente observável através de experiências
manipulatórias da criança” (Coutinho e Moreira, 1993:123). Não resta dúvida de que os
estágios que se seguem, o quarto período, “o estágio de latência” e, o quinto, “a fase genital”,
onde “todas as zonas erógenas emergentes nas fases anteriores ficam, segundo Freud
subordinadas à pulsão sexual volta para a reprodução” (Coutinho e Moreira, 1993:129).

Não se pretende revelar à série de fantasmas sexuais que relutam a se desenvolver nos
projetos e estudos psicológicos a partir do século XIX e XX, no campo discurso das ciências
humanas, mas afirmar o que os estudos psicológicos tentam responder às necessidades da
“teoria malthusiana”, quando o que está no centro das observações psicossexuais
corresponde, em primeiro lugar, a “fala” (mesmo vazia) na “fase oral” e ao prazer da criança
que passa da boca para a região anal no estágio anal-retenção e o controle das fezes e da
urina; em segundo lugar, a “fase genital” subordinando o corpo biológico à reprodução sexual.
Fantasias, Fantasmas e Espectros que não se referem a nada mais do que a “economia
malthusiana” entre a produção alimentar e a reprodução sexual, banquete e erotismo que não
passam de objetivos médicos ao encontro de um “animal confidente”.

Outro propósito se encontra no cumprimento dos seus deveres e com contatos muito
restritos, além da relação entre o esquizofrênico e o soldado. Crê-se que nada devem, além de
imagens conceituais e significativas, aos estágios psicossexuais. Rever a “geopolítica dos
trópicos” ao redor da esquizofrenia, entre o “luso e o trópico” na faixa tropical, sem excluir a
África, a “perspectiva dos próximos 25 anos vai depender muito da capacidade da China, Brasil
e Índia” (Mattos, 1984:108).

Imaginar “as potencialidades de Estados nacionais de grandes extensões como a China,


a Índia e o Brasil, além da Rússia” (castro, 2005115), não só se ressignifica no propalado BRIC,
como neste caso, tenta-se excluir os estudos psicanalíticos, ao passo que se crê exemplificar
comportamentos extáticos que se encontram em algumas obras e tratados religiosos, sem
abusar do hábito e comportamento esquizofrênico ligados à meditação, que em estado
constante, pode ser ilustrada no Bardo Tödol e no Shatapatha-Brahmana, assim como no
Jaiminiya- Brahmana, nos arredores do Tibete entre a China e a Índia, como prevê o “luso e o
trópico”.

A “arte erótica” ou a ars erotica não tem nada a dever a essa “ciência malthusiana” ou
a “scientia sexualis”, talvez nem quando se diagnostica sintomas e transtornos
esquizofrênicos. Não é possível atribuir, no pós-guerra, “as melhorias ligadas ao
desenvolvimento dos recursos da medicina” que se disseminaram pelos países emergentes
(Visentini, 2013), como o Brasil, a China e a Índia, a pretexto e como o bode expiatório da
“explosão demográfica”, o que se tenta fugir e escapar do “enfoque de uma análise alarmista e
catastrófica” (Almeida, 2010:115). Isso ainda se encontra em manuais, cartilhas e livros
didáticos.

Exclui-se deste processo provisoriamente, os avanços tecnológicos e interdisciplinares


associados à medicina e à scientia sexualis, para exemplificar o saber da “carnalidade da
carne” nos tratados hindus e o “símbolo do peixe” entre o “Ocidente Confidente” e o
“Oriente” (ao sul do Himalaia nos arredores do Planalto do Tibete). Nosso propósito, o que é
preciso deixar claro, não está numa relação forçosa que restringe o Budismo e o Hinduismo,
em especial (o Bardo Tödol e o livro da lei de Manu) a uma espécie de ars erotica, mesmo que
existam relações indiretas. Trata-se de relacionar estes rituais àquilo que se chama
esquizofrenia nos trópicos, neste caso, no Brasil. Esquizofrenia com uma malha mais cerrada,
com suas linhas e pontos mais estreitos não em relação à scientia sexualis, mas a algo que se
poderia denominar no Oriente, uma ars erotica, ou mais objetivamente, a cura e o êxtase.

Sobre os sacrifícios encontrados no Jaminiya-Brahamana, ensina-se o disfarce


sacerdotal que esclarece a seguinte proposição: “o que se fez neste mundo, recebe-se no
outro” (Canetti, 1995:326). Os homens comem os animais, no outro mundo, os animais
comem o homem: o gado abatido e comido assumiu a carne humana e faz agora com o
homem o que este fez agora o gado. Notável confirmação encontra-se no Livro da lei de Manu,
não é pecado comer a carne, àquele que se abstém de comê-la promete-se uma recompensa
especial:

A palavra carne em sânscrito, mamsa, pode explicada separando-se as sílabas: man


significa “a mim”; as significa “ele”. Mamsa significa, pois, “a mim-ele”: “a mim”, que
lhe comi a carne neste mundo, “ele” comerá no além. Isso é o que os sábios declaram
ser a “carnalidade da carne”, nisso consiste sua natureza carnal, o verdadeiro sentido
da palavra carne (Canetti, 1995:327).

Eu o como e ele a mim: o que significa a palavra – “o animal que se comeu guarda bem
que foi o que comeu”. Não é mais o gado que ele comeu que despedaçará o homem, mas sim
um homem com a alma do gado. Provavelmente esta concepção dos hindus comprova o
“devorado”, que tem de “devorar quem o devorou”. O “luso” entre o hindu (como o
devorado), nas Índias, e o índio, no território extremo sul da Venezuela até Chaco, na América
do Sul com o seu ritual de morte, o “canibalismo” (Clastres, 2004).

Algumas sociedades não enterram os mortos: elas os comem. Antropofagia como


tratamento diferenciado e destinado aos prisioneiros de guerra, entre os Tupi-Guarani o
exocanibalismo, em outras tribos como a yonomami, que comem os corpos dos próprios
parentes, endocanibalismo (Clastres, 2004):

Os Yanomami da Amazônia venezuelana queimam o cadáver numa fogueira; recolhem


os fragmentos ósseos que escaparam à combustão e os reduzem a pó. Este será mais
tarde consumido, misturado ao purê de bananas, pelos parentes do morto.
Inversamente, os Guayaki do Paraguai assam numa grelha de madeira o cadáver
retalhado. A carne (...) é consumida por toda a tribo, com exclusão da família do morto
(p.106-7).

O rito do canibalismo e a sessão de xamanismo, cantos de luta e banquete funerário


entre os Yanomami. Inquietude religiosa e mítica em exuberância ritual desenvolvida
particularmente na América do Sul.

Os judeus de Portugal foram convertidos a força ao cristianismo em outubro de 1497,


que repercutiu sobre a sociedade moderna portuguesa. A circulação de obras anti-judaicais no
Brasil Colônia como a “Sentinela contra Judeus, do espanhol Torrejoncillo, atingiu três edições
em português, sendo a primeira, de 1684 (Lisboa), custeada pelo mercador de livros Manoel
Lopes Ferreira” (Feitter, 2007:71). Neste sentido não se trata de um banquete funerário, mas
de um “alimento eucarístico”, o peixe e sua ambivalência simbólica, que não se trata mais
restrito ao tipo de “devorado” hindu envolto no saber da carnalidade da carne. De fato, o que
ocorre entre o “ambiente marinho” e “aquático” para um povo que percorre trajetórias que se
nomeiam como “navegações”, por meio céptico que pareça o interesse por “grandes
descobertas” entre os séculos XV e XVI, marcada pela “expansão marítima” das potências da
época (Portugal, Espanha, principalmente) em busca de rotas comerciais, sobretudo para as
Índias.

Alquimia medieval que não exclui o advento do Messias, que se divide em 12 partes –
duodécimo Zódion que corresponde ao “peixe”. São “monstros marinhos” servindo de
alimento até o fim do mundo. Como se referir a Beemot, que não é um animal marinho, mas
os “monstros marinhos” devem referir-se a uma dupla natureza de Leviatã. No livro d Jó,
Leviatã é encontrado na luta que trava com Beemot. Leviatã mostra o “grande peixe” que
conde em dois: ele, o contrário de Deus, a sua sombra o seu lado nefasto. Duplicação da
sombra, frequente nos sonhos, na cisão do monstro em dois novos contrários. Percebe-se,
pois “um par de monstros-irmãos adversários” o que “terra necessariamente de admitir que
Cristo substituir realmente a figura de Leviatã, sob a forma de peixe, e que os dois monstros
marinhos foram rebaixados à mera condição de atributo do diabo e da forma” (Jung,
2011c:143). Monstro antagônico em relação a Deus que se desdobra em uma imagem divina
incompleta: “enquanto Leviatã é um ser semelhante ao peixe e, por conseguinte, primitivo e
de sangue frio, habitando as profundezas do oceano, Beemot é um quadrúpede (semelhante a
um touro?) de sangue quente, que habita nas montanhas” (Jung, 2011c:143).

Não se trata especificamente mais de um tipo de relação que se estabelece com o


gado, como no Livro da Lei de Manu, a carne (mamsa). O que se percebe é uma relação entre
Leviatã (ser semelhante ao peixe) e Beemot (ser semelhante ao gado, touro) que estão
assimilados ao homem entre estágios da consciência. O que se pretende restringir é a ligação
entre o peixe e o Leviatã em seu aspecto pneumático, ou seja, como “alimento eucarístico”.
Rememora-se o “peixe” e o seu desempenho na tradição judaica numa relação com o culto
siro-fenício, quando o “peixe” na figura da deusa Atárgatis, que continha “peixes sagrados”
junto ao seu templo que não era a ninguém lícito tocar – templos onde se realizavam refeições
culturais. Ressalta-se a proibição aos sacerdotes egípcios comer peixes, eles se abstinham de
peixes do mar. Enquanto os habitantes de Siene, Elefantina e Oxirrinco cultuavam o peixe:
“costumava-se comer um peixe assado diante da porta de casa, no dia do primeiro mês do
ano. (...) este costume talvez houvesse preparado o caminho que conduziu ao peixe
eucarístico” (Jung, 2011c:145). Situação ambivalente em relação ao peixe se reflete em dupla
natureza: é impuro e sinal de ódio, mas é objeto de culto religioso. Considerado um símbolo da
alma, o peixe pode ser visto através de uma representação em um sarcófago onde a múmia
jaz: “por sobre a múmia adeja um peixe em lugar do habitual pássaro-alma” (Jung, 2011c:146).
Trata-se do Oxirrinco, um dos três peixes mais detestados do mundo, que se afirmam terem
comido o falo de Osíris despedaçado por Tifão (o elemento passional da alma titânico
irracional e irrefletido). O peixe aparece como símbolo da alma no Egito, ambivalência que
aparece na figura Tifão. Seth, deus da morte, da destruição, do deserto opositor de seu irmão
Osíris, estritamente ligado a Hórus, auxiliador dos mortos, que ajuda a Osíris a escalar o céu,
em companhia de Her-ur. Há uma rivalidade entre Heru-ur e Seth, pois o primeiro é um deus
diurno e o segundo um noturno. Dupla de deuses representa a oposição que existe em Osíris
tal como Beemot e Leviatã. Dois opostos que se unem quando se trata de ajudar o Uno a
chegar à quaternidade; representada e personificada também pelos quatro filhos de Hórus:
Mestha, Hápi, Tuamulef e Qebhsennuf. Quatro filhos que são inimigos de Seth, mas
intimamente ligado a ele. Formam uma imagem análoga das quatro pilastras celestes que
sustentam a laje quadrangular de ferro. A laje se apóia, em seus quatro colunas que
correspondem aos quatro pontos cardeais.

Dadas as relações entre Israel e Egito é provável que haja uma conexão entre os
referidos símbolos, na tradição árabe distingue-se uma região em torno do Polo Norte uma
figura semelhante ao peixe. O Polo Norte é visível e em sua volta se encontra as Benât Na’sh
menores e as estrelas opacas que formam a imagem do peixe, no centro do qual está o Polo
Norte que para os egípcios era a região de Tifão e a morada dos quatro filhos de Hórus,
encontravam-se dentro do corpo do peixe.

As representações babilônicas do significado do Norte nos mostram o motivo pelo qual


a visão divina vem do Norte, mas este região significa também o “lugar de origem de todo o
mal”: concidentia oppositorium que constitui a norma na concepção primitiva de Deus.
Influenciado pela Alquimia e pela Cabala que se traçou uma imagem paradoxal de Deus na
qual a natureza divina possuir ambos os aspectos – o bom e o mau. O conceito cristão de Deus
esteve, para Jung (2011c), em conexão com o inferno. Trata-se de uma reconstituição
consciente da imagem divina primitiva razão pela qual se chega a paradoxos tão chocantes
como, por exemplo, a ideia do Deus de amor que arde no fogo do inferno. Imagem
contraditória da Região Norte, sede dos deuses supremos e do opositor. O cubo do mundo, o
que se percebe, que é também o inferno.
O que haveria de ter entre o “cubo do mundo” como o “inferno”, no Ocidente cristão,
com “o demônio” que “pode agir como súcubo – forma feminina tomada pelo demônio para
copular com um homem – ou como o íncubo – forma masculina de que se utiliza para copular
com uma mulher” (Mainka, 2003:28). O demônio é, de fato, considerado um anjo e não pode
possuir um corpo, o que faz com que ele não tenha condições de gerar uma criança, enfim, de
se reproduzir. Assim os “demônios assumem a forma de súcubos a fim de recolher sêmen
durante o ato sexual, para então fazer uso deste sob a forma de íncubo, o que possibilitaria
engravidar a mulher com quem se relacionassem” (Mainka, 2003:28). A criança eventualmente
gerada deste ato é considerada do homem e não do diabo, do homem cujo sêmen foi
utilizado. Acrescentar que “os demônios agiriam dessa forma nem para terem przer sexual”
tampouco porque, “por serem espíritos” e não possuírem carne nem sangue, mas para infligir
o mal aos homens que se entregam mais aos vícios, “a vícios contra a natureza, isto é,
sodomia ou ato sexual fora do canal vaginal, uma vez que estes seriam atos dignos de tamanha
abominação que os próprios demônios se envergonhariam em cometê-los” (Mainka, 2003:28).

No livro “O Martelo das Feiticeiras”, escrito em 1484, no período da eclosão das rotas
marítimas e Grandes Descobrimentos, pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger,
no Maleus Maleficarum: “durante a prática sexual o demônio é visível somente à bruxa. Com
relação aos circunstantes, quase sempre operam na invisibilidade: as bruxas têm sido vistas
(...) deitadas de costas (...) nuas até o umbigo; e, pela disposição de seus órgãos próprios ao
ato venéreo e ao orgasmo (...) é óbvio que estão a copular com um íncubo” (Mainka, 2003:43).
Magos e Bruxas já pactuavam com o demônio e cooperavam intimamente com ele para
realizar o mal e se infligir males sobre a humanidade. Avaliam-se os efeitos concretos da
“bruxaria” que acontecem a partir de um “pacto real com o diabo”: “não consideram (...) a
bruxaria mera ilusão, fantasia ou imaginação, pois o diabo teria poder sobre a mente humana
para gerar tais acontecimentos psíquicos” (Mainka, 2003:26). Uma das principais
características das “grandes perseguições às bruxas”, nas comunidades atingidas desenvolveu-
se uma “verdadeira histeria de massas”:

As grandes caças às bruxas nos séculos XV e XVII realizaram-se num clima de supremo
pânico e histeria ilimitada. (...) A histeria geral era completada, portanto, por uma
histeria patológica de pessoas singulares, seja entre as vítimas, seja entre os caçadores,
isto é, os acusadores, os juízes e os carrascos (Mainka, 2003:17).
As manifestações de feitiçaria e bruxaria são características da Antiguidade, Idade
Média quanto esta dos Tempos Modernos, devido a ligação estreita com a imaginação com o
sobrenatural e irreal com as ilusões e as magia, segundo Mainka (2003:13) “assim como a
sexualidade, o crime e a morte, o fenômeno da bruxaria”.

Como compreender a “atividade repressora da Inquisição num sistema de


retroalimentação (feedback) múltiplo que agravava” mais a “patologia do Self cultural”
passando seu dinamismo de neurótico a psicopático – “corrupção moral da prática religiosa” –
e a psicótica – “paranoide e delirante” até dissociar a Igreja desde a Reforma no século
dezesseis e retirou a liderança civilizatória da Igreja no século dezenove:

A popularização e atuação crescente dos símbolos do Demônio e das bruxas (...). A


repressão da mulher e ataque a ela como bruxa, devido à projeção nela dos arquétipos
da Grande Mãe e da anima, necessitam ser compreendidos junto com a histeria, que é
um quadro patológico formando basicamente pela disfunção dos arquétipos
matriarcais e de alteridade. A atmosfera persecutória, dramática e animista medieval
favoreceu a eclosão de quadros histéricos que eram identificados como bruxaria pelos
vizinhos ou até mesmo familiares, como relata o Malleus em inúmeros exemplos
(Kramer e Sprenger, 2009:38).

Refere-se a energia que emanava da dissociação do “símbolo de Cristo” e da “Igreja”


dos “símbolos do Demônio” e de suas “bruxas”, ou seja, a “Demonologia” como fenômeno da
“sombra patológica do Self cultural” (Kramer e Sprenger, 2009:37) patrocinada pela Inquisição.

A “bruxaria” e a “histeria” parecem figurar no Ocidente não exatamente como efeito,


mas como uma das causas implicadas na scientia sexualis. Observa-se não a anima como
fenômeno ligado apenas a ars erotica, mas de revelar a “experiência extática” ligada a
existência de uma “figura feminina” no inconsciente, nome feminino anima, psique, alma. O
conceito de anima é, análogo na concepção chinesa, algo que pode ser experimentado,
“estados afetivos que são experiências imediatas”, onde o “caráter afetivo” do homem tem
“traços femininos”, fato psicológico, que deriva da “doutrina chinesa da alma-po” e a “própria
concepção de anima”, ou “ainda como o depósito de todas as experiências que o homem já
teve da mulher. Por isso, a imagem da anima é, em geral, projetada numa mulher”, segundo
Jung (2011b:46) “a relação que a anima tem como o espectro, na concepção chinesa, é
interessante para os (...) controls mediúnicos” que “são muitas vezes do sexo oposto”.
Anima fenômeno ou experiência extática, quando o caráter afetivo do homem tem
traços femininos, no Oriente e a “histeria”, no Ocidente, que diferentemente das mulheres
tentam “bancar o homem (...) por serem por isso homossexuais ou em ex-sexo, também elas –
sendo-lhes daí difícil não sentirem o impasse que”, de acordo com Lacan (2008:91), “não há
necessidade de se saber Outro para sê-lo”.

19-21/03/2013

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