Instituto Técnico Profissional Samora Machel
Medicina Geral
Módulo: Pediatria
TMG -1 (Tarde) 2° Ano
Tema:
Patologias mais frequentes nas crianças de estado nutricional, foro oftalmologia e estomatologia
Formanda:
Leila Bernardo Marrengula
Formador:Domingos Ajane
Marracuene, Outubro de 2025
ÍNDICE
Introdução............................................................................................................................................................3
Objectivos............................................................................................................................................................4
Objectivo geral.................................................................................................................................................4
Objectivos específicos.....................................................................................................................................4
Parte I - Estado nutricional..........................................................................................................5
Definição..............................................................................................................................................................5
Classificação........................................................................................................................................................5
Epidemiologia .....................................................................................................................................................5
Causas .................................................................................................................................................................5
Quadro clínico.....................................................................................................................................................6
Diagnóstico..........................................................................................................................................................6
Métodos preventivos............................................................................................................................................6
Exames auxiliares de diagnóstico........................................................................................................................7
Tratamento farmacológico e não farmacológico.................................................................................................7
Parte II — Foro oftalmologia (problemas oculares mais frequentes em crianças).................8
Definição e importância.......................................................................................................................................8
Principais patologias............................................................................................................................................8
Epidemiologia.....................................................................................................................................................9
Causas .................................................................................................................................................................8
Quadro clínico.....................................................................................................................................................9
Diagnóstico..........................................................................................................................................................9
Métodos preventivos............................................................................................................................................9
Tratamento farmacológico e não farmacológico...............................................................................................10
Parte III — Foro estomatologia (saúde oral)............................................................................10
Definição e importância.....................................................................................................................................10
Principais patologias..........................................................................................................................................11
Epidemiologia ...................................................................................................................................................11
Causas ...............................................................................................................................................................11
Quadro clínico...................................................................................................................................................11
Diagnóstico........................................................................................................................................................12
Métodos preventivos..........................................................................................................................................12
Tratamentos farmacológicos e não farmacológicos..........................................................................................12
Conclusão..........................................................................................................................................................13
Referências bibliográficas.................................................................................................................................14
Introdução
As doenças que afectam o estado nutricional, a saúde ocular e a saúde oral das crianças têm
impacto directo no desenvolvimento físico, cognitivo e social. Em Moçambique, factores
socioeconómicos, acesso limitado a cuidados de saúde, práticas alimentares, condições sanitárias
e a distribuição desigual de recursos contribuem para a prevalência dessas patologias. Este
trabalho apresenta uma visão abrangente das principais patologias nestas três áreas - estado
nutricional, oftalmologia e estomatologia - abordando definição, classificação, epidemiologia (no
contexto moçambicano), quadro clínico, diagnóstico, métodos preventivos, exames auxiliares,
tratamentos farmacológicos e não farmacológicos, e conclui com recomendações.
Objectivos
Objectivo geral
Descrever e analisar as patologias mais frequentes nas crianças relacionadas com o estado
nutricional, oftalmologia e estomatologia no contexto moçambicano, propondo medidas
de prevenção e intervenção.
Objectivos específicos
Identificar as principais doenças nutricionais em crianças e explicar a sua fisiopatologia e
impacto.
Descrever as condições oftalmológicas mais comuns em idade pediátrica, sinais e
métodos de detecção precoce.
Listar as patologias orais mais frequentes em crianças e medidas de prevenção domiciliar
e institucional.
Apresentar estratégias de diagnóstico, terapêutica e prevenção adaptadas à realidade
moçambicana.
Propor recomendações práticas para profissionais de saúde, escolas e famílias.
Parte I - Estado nutricional
Definição
Estado nutricional refere-se ao equilíbrio entre ingestão e necessidades de nutrientes que permite
crescimento, saúde e actividade. Em pediatria, é avaliado por indicadores antropométricos (peso,
altura/comprimento, perímetro braquial), e por marcadores bioquímicos quando disponíveis.
Classificação
Desnutrição proteico-energética (DPE): inclui magreza aguda (emaciação), atraso do
crescimento (nanismo/baixo comprimento para a idade) e formas mistas.
Deficiências de micronutrientes: ferro (anemia), vitamina A, iodo, zinco, entre outras.
Excesso nutricional: sobrepeso e obesidade infantil.
Epidemiologia
Em Moçambique, como noutros países de baixa e média renda, a desnutrição crónica continua a
ser um problema importante, sobretudo em áreas rurais e em estratos sociais vulneráveis.
Deficiências de micronutrientes (em especial ferro e vitamina A) são recorrentes e a obesidade
tem aumentado em zonas urbanas por mudanças alimentares e sedentarismo.
Causas
Alimentação inadequada (quantidade e qualidade insuficientes).
Desmame precoce ou aleitamento materno ineficaz.
Insegurança alimentar familiar.
Doenças infecciosas recorrentes (diarreia, malária, parasitoses intestinais).
Baixas condições de saneamento e higiene.
Carência de micronutrientes (ferro, vitamina A, zinco, iodo).
Desconhecimento dos cuidadores sobre nutrição infantil.
Pobreza e dificuldade de acesso a alimentos diversificados.
Obesidade: consumo excessivo de alimentos processados e sedentarismo.
Quadro clínico
Desnutrição aguda: perda de peso rápido, apatia, irritabilidade, queda da massa muscular,
imunodepressão e susceptibilidade a infecções.
Desnutrição crónica: estatura baixa para a idade, desenvolvimento cognitivo
comprometido.
Anemia por deficiência de ferro: palidez, fadiga, taquicardia, atraso no desenvolvimento.
Deficiência de vitamina A: cegueira nocturna, xeroftalmia e, em casos graves, ulceração
corneana.
Obesidade infantil: excesso de peso, risco de doenças metabólicas futuras.
Diagnóstico
Avaliação antropométrica: peso para a idade, altura para a idade, peso para a altura,
índice de massa corporal (IMC) ajustado para idade; perímetro braquial superior em
lactentes e crianças pequenas.
História clínica e inquérito alimentar: padrão de alimentação, aleitamento materno,
frequência de refeições, consumo de alimentos ricos em ferro e vitamina A.
Exames laboratoriais (quando disponíveis): hemograma (para identificar anemia), ferro
sérico, ferritina, vitamina A sérica, iodúria (avaliação do estado em populações), glicose,
perfil lipídico em casos de obesidade.
Métodos preventivos
Promoção do aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses e alimentação
complementar adequada e segura após essa idade.
Educação alimentar e nutricional dirigida a cuidadores e escolas.
Monitorização do crescimento nas consultas de saúde infantil (Caderneta da Criança) e
encaminhamento precoce.
Melhorias em saneamento, água potável e vacinação (reduzem infecções que agravam o
estado nutricional).
Exames auxiliares de diagnóstico
Hemograma completo, ferritina, avaliação de vitamina A (quando possível), iodúria,
testes bioquímicos conforme a suspeita clínica.
Tratamento farmacológico e não farmacológico
Tratamento da desnutrição aguda
Não farmacológico: terapêutica nutricional escalonada (reanimação com soluções de
reidratação oral ou intravenosa se desidratação; alimentação progressiva com fórmulas
terapêuticas prontas para uso - RUTF - em casos de desnutrição severa, quando
disponíveis), controlo de infeções, cuidados integrados.
Farmacológico: tratamento de infecções associadas (antibióticos quando indicados),
correcção de hipoglicemia e outras alterações; suplementação de micronutrientes
conforme protocolos.
Tratamento de deficiência de ferro
Suplementação oral de ferro, investigação e tratamento da causa (parasitoses intestinais,
alimentação inadequada), promoção de consumo de alimentos ricos em ferro e vitamina
C para melhorar absorção.
Suplementação de vitamina A
Administração de doses terapêuticas em surtos e rotina conforme recomendações do
Ministério da Saúde/OMS.
Manejo da obesidade
Intervenções não farmacológicas prioritárias: educação alimentar, aumento da actividade
física, redução de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas; acompanhamento por
equipa multiprofissional.
Farmacoterapia raramente indicada em pediatria e apenas em casos seleccionados por
especialista.
Parte II — Foro oftalmologia (problemas oculares mais frequentes em crianças)
Definição e importância
Doenças oculares na infância podem comprometer o desenvolvimento visual, escolar e social. A
detecção precoce permite intervenções que previnem perda visual permanente.
Principais patologias
Erros refractivos (miopia, hipermetropia, astigmatismo): muito comuns; quando não
corrigidos, podem causar ambliopia.
Conjuntivite: infecciosa (bacteriana, viral) ou alérgica — causa comum de procura de
cuidados de saúde.
Ambliopia (olho preguiçoso): perda da acuidade visual numa das vistas durante a
infância, frequentemente secundária a erros refractivos não corrigidos, estrabismo ou
opacidade ocular.
Estrabismo: desalinhamento ocular; pode provocar diplopia e ambliopia.
Trauma ocular: lesões relacionadas com acidentes domésticos ou escolares.
Infeções oculares graves (Exː ceratite, endoftalmite neonatal): menos comuns mas
potencialmente devastadoras.
Doenças congénitas (Exː catarata congénita, glaucoma congénito): raras, mas
importantes pela necessidade de intervenção precoce.
Epidemiologia
Os erros refractivos e a conjuntivite são causas frequentes de consulta em pediatria e serviços de
oftalmologia. Deficiências de vitamina A persistem em zonas vulneráveis, especialmente onde a
vigilância nutricional e a suplementação são insuficientes. Trachoma tem áreas de ocorrência
histórica em África; dados locais devem ser consultados nos programas nacionais de saúde
ocular.
Causas
Deficiência de vitamina A.
Erros refractivos hereditários ou não corrigidos.
Infecções bacterianas, virais ou alérgicas (conjuntivites).
Estrabismo congénito ou adquirido.
Condições congénitas (catarata, glaucoma congénito).
Falta de higiene ocular e exposição a poeiras.
Quadro clínico
Erros refractivos: dificuldade em ver ao quadro na escola, queixas de dor de cabeça e
fadiga visual.
Conjuntivite: olhos vermelhos, prurido (alérgica), secreção purulenta (bacteriana) ou
serosa (viral).
Ambliopia: redução da visão em um olho, sem alteração detectável na parte anterior do
olho; frequentemente detectada quando a criança tem dificuldade na escola.
Estrabismo: olhos desalinhados, imagens duplas ou cobertura de um olho.
Diagnóstico
Exame clínico oftalmológico: avaliação da acuidade visual adaptada à idade (cartões de
visão, preferências visuais em lactentes), teste de alinhamento ocular, exame de segmento
anterior com lâmpada de fenda quando disponível, fundo de olho em casos indicados.
Avaliação de reflexos pupilares, teste de luz vermelha para detectar opacidades como
catarata.
Exame por optometrista ou oftalmologista pediátrico quando necessário.
Métodos preventivos
Rastreamento visual nas consultas de puericultura e em meio escolar.
Promoção do aleitamento materno e nutrição adequada (prevenção da deficiência de
vitamina A).
Programas de imunização e educação para prevenção de traumas oculares.
Educação sobre higiene para reduzir conjuntivites infecciosas.
Exames auxiliares de diagnóstico
Testes de acuidade visua , exame com lâmpada de fenda, autorefractor/retinoscopia para
medir refracção, oftalmoscopia directa/indirecta, fotografia de segmento anterior, exames
laboratoriais em infeções quando indicado.
Tratamento farmacológico e não farmacológico
Erros refractivos: correção com óculos; em alguns casos ortóptica ou cirurgia refractiva
apenas em idades avançadas e casos seleccionados.
Conjuntivite bacteriana: colírios ou pomadas antibióticas tópicas conforme prescrição;
viral é geralmente de suporte (compressas, higiene); alérgica: anti-histamínicos
tópicos/ou sistémicos.
Ambliopia: oclusão do olho dominante, correção óptica e terapia visual; tempo e adesão
são críticos.
Estrabismo: exercícios ortópticos, correção óptica, e cirurgia em casos que não
respondam ao tratamento conservador.
Deficiência de vitamina A: suplementação imediata e medidas nutricionais.
Trachoma: estratégia SAFE (Surgery, Antibiotics, Facial cleanliness, Environmental
improvement) quando aplicável como política de saúde pública.
Parte III — Foro estomatologia (saúde oral)
Definição e importância
A saúde oral na infância influencia nutrição, fala, autoestima e sucesso escolar. As doenças orais
são altamente prevalentes globalmente e requerem respostas preventivas e terapêuticas precoces.
Principais patologias
Cárie dentária (cárie precoce da infância): a doença crónica mais comum na infância;
associada à ingestão frequente de açúcares e higiene oral insuficiente.
Gengivite e doenças periodontais iniciais: inflamação gengival por má higiene ou
factores locais.
Candidíase oral: comum em lactentes, especialmente com uso prolongado de chupeta ou
transmissão da microbiota materna.
Epidemiologia
A cárie dental é uma condição frequente entre crianças urbanas e rurais, sendo fortemente
influenciada por hábitos alimentares (consumo de açúcar), práticas de higiene oral e acesso a
cuidados dentários. A disponibilidade limitada de serviços de odontologia preventiva e curativa
em algumas áreas rurais contribui para elevada carga de doença.
Causas
Má higiene oral (escovagem irregular ou incorreta).
Consumo frequente de alimentos e bebidas açucaradas.
Instrução insuficiente em saúde oral por parte dos pais ou cuidadores.
Falta de consultas preventivas de odontopediatria.
Candidíase oral: uso prolongado de antibióticos, chupetas contaminadas ou
imunodeficiência.
Traumatismos dentários por quedas ou acidentes.
Quadro clínico
Cárie: manchas brancas iniciais, dor dentária, perfurações, presença de abscessos e
dificuldade alimentar.
Gengivite: gengivas vermelhas, inchadas, sangramento ao toque ou escovagem.
Candidíase: placas brancas removíveis, desconforto ao alimentar-se.
Traumatismo dental: mobilidade, perda do dente, dor.
Diagnóstico
Exame clínico oral completo: inspeção visual, sondagem leve para identificar cáries
cavitadas, avaliação da oclusão e exame de tecidos moles.
Radiografias dentárias quando disponíveis para avaliar extensão de lesões e presença de
infecções periapicais.
Métodos preventivos
Escovagem com fluoreto duas vezes ao dia, supervisão parental até idade apropriada.
Redução do consumo frequente de alimentos e bebidas açucaradas; promoção de
alimentação saudável.
Educação em saúde oral nas escolas e em cuidados primários.
Atenção à higiene de mamadeiras e chupetas; incentivo ao aleitamento materno.
Exames auxiliares de diagnóstico
Radiografias periapicais para diagnosticar lesões interproximais; testes microbiológicos
raramente necessários em rotina.
Tratamentos farmacológicos e não farmacológicos
Cárie inicial não cavitada: medidas de remineralização (fluoreto tópico, orientação
dietética), restaurações em cavitações.
Cárie avançada: obturações, tratamento endodôntico de dentes decíduos quando indicado,
exodontia em casos irreversíveis.
Infecções orais: antibióticos quando há evidência de propagação sistémica ou abscesso;
drenagem de abscessos quando necessária.
Candidíase oral: antifúngicos tópicos (nistatina) ou sistémicos em casos extensos.
Traumatismos: reimplante (no caso de avulsão do dente permanente) seguindo protocolos
de urgência; proteção e encaminhamento especializado.
Conclusão
No contexto moçambicano, as patologias relacionadas com o estado nutricional, a saúde ocular e
a saúde oral em crianças são interligadas e frequentemente amplificadas por determinantes
sociais da saúde: pobreza, insegurança alimentar, acesso desigual a serviços de saúde, educação
limitada e infra-estrutura sanitária insuficiente. A resposta exige intervenções integradas:
promoção da nutrição materno-infantil, rastreios escolares e em centro de saúde para visão e
dentição, programas de suplementação e fortificação, reforço dos serviços de saúde primária e
educação comunitária. A implementação de políticas baseadas em evidências, aliada a formação
contínua de profissionais e maior acesso a serviços preventivos, reduzirá significativamente a
carga destas doenças e melhorará o desenvolvimento das crianças em Moçambique.
Recomendações práticas
Implementar rastreios regulares do crescimento, visão e saúde oral nas consultas de
puericultura e nas escolas.
Manter programas de suplementação de vitamina A e fortificação alimentar, conforme
políticas nacionais.
Promover aleitamento materno e práticas alimentares saudáveis.
Capacitar técnicos de saúde e professores para identificar sinais de alerta e realizar
encaminhamentos.
Desenvolver campanhas comunitárias de higiene, saneamento e prevenção do consumo
excessivo de açúcar.
Referências bibliográficas
World Health Organization (WHO). Childhood undernutrition and health (documentos e
guias técnicos).
World Health Organization. Visual impairment and blindness — Preventing blindness in
children.
World Health Organization. Oral health: key facts and guidelines.
Ministério da Saúde, República de Moçambique — Direcção Nacional de Saúde Pública
(documentos e programas sobre nutrição e saúde infantil).
UNICEF — relatórios sobre nutrição infantil e suplementação de vitamina A em países
africanos.
Textbooks: Nelson Tratado de Pediatria (capítulos sobre nutrição e doenças infecciosas),
Oftalmologia Pediátrica (textos de referência) e Odontopediatria (capítulos sobre cárie e
prevenção).