A ética de Kant
Elementos biográficos
Immanuel Kant (1724-1804)
Kant foi um dos filósofos mais influentes de sempre. Desenvolveu as suas
ideias de forma sistemática, abrangendo quase todas as áreas centrais da
filosofia: ética, filosofia política, teoria do conhecimento, metafísica,
estética e filosofia da religião. Alemão, viveu toda a sua vida na cidade
prussiana de Konigsberg (hoje uma cidade russa chamada Kaliningrado),
em cuja universidade foi professor. Das suas obras mais importantes
destacam-se a Crítica da Razão Pura (1781), Prolegómenos a Toda a
Metafísica Futura (1783), Fundamentação da Metafísica dos Costumes
(1785), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica da Faculdade do Juízo
(1790).
Curiosidade:
Na obra A paz perpétua, de 1775, Kant escreveu que todos os países
deviam unir-se numa sociedade das nações, que asseguraria a
coexistência pacífica das diversas nações. Aproximadamente 125 anos
depois, a seguir à I Guerra Mundial, esta Sociedade das Nações foi
realmente fundada. Após a II Guerra Mundial foi substituída pela ONU.
A teoria ética de Kant
Um ética deontológica
Considera-se que a ética kantiana é deontológica porque defende que
o valor moral de uma ação reside em si mesma e não nas suas
consequências
Na sua intenção
Kant defendia que o valor moral das ações depende unicamente da
intenção com que são praticadas
Porquê?
Porque sem conhecermos as intenções dos agentes não podemos
determinar o valor moral das ações.
Uma ação pode não ter valor moral apesar das consequências serem
boas.
Quando é que a intenção tem valor moral ou é boa?
Quando o propósito do agente é cumprir o dever pelo dever.
O cumprimento do dever é o único motivo em que a ação se baseia.
Ex: Não roubar porque esse ato é errado e não porque posso ser
castigado.
O que é uma ação com valor moral?
É uma ação que cumpre o dever por dever.
Cumpre o dever sem «segundas intenções»
Deveres como não matar, não roubar ou não mentir devem ser
cumpridos porque não os respeitar é absolutamente errado.
Ações conformes ao dever VS. Ações feitas por dever
Objetivo desta distinção
Defender que o valor moral das ações depende unicamente da
intenção com que são praticadas
Mostrar que duas ações podem ter consequências boas e uma delas
não ter valor moral
Ações conformes ao dever VS. Ações feitas por dever
Ex.: dois comerciantes praticam preços justos e não enganam os
clientes.
Estão a cumprir o dever?
Aparentemente sim.
Suponhamos que um deles – João – não aumenta os preços apenas
porque tem receio de perder clientes. O seu motivo é egoísta: é o
receio de perder clientes que o impede de praticar preços injustos. A
sua ação é conforme ao dever mas não é feita por dever.
Suponhamos agora que o outro comerciante – Vicente – não aumenta
os preços por julgar que a sua obrigação moral consiste em agir de
forma justa. A sua ação é feita por dever.
As duas ações, aparentemente semelhantes, têm as mesmas
consequências, nenhum perde cliente, mas não têm o mesmo valor
moral.
Ações conformes ao dever
Ações que cumprem o dever não porque é correto fazê-lo, mas porque
se evita uma má consequência – perder dinheiro, reputação – ou
porque daí resulta uma boa consequência – a satisfação de um
interesse.
No exemplo anterior, João não age por dever.
Ex.: Não roubar por receio de ser castigado ou praticar preços justos
para manter ou aumentar a clientela.
Ações feitas por dever
Ações que cumprem o dever porque é correto fazê-lo. O cumprimento
do dever é o único motivo em que a ação se baseia.
O exemplo anterior, Vicente age por dever.
Ex.: Não roubar porque esse ato é errado em si mesmo ou praticar
preços justos simplesmente porque assim é que deve ser.
A lei moral e o dever
Lei que nos diz qual é a forma correta de cumprir o dever
Principio ético fundamental que exige que eu cumpra o dever por
dever, sem qualquer outra intenção ou motivo.
Normal geral de natureza puramente racional que exige que a vontade
domine as inclinações sensíveis (desejos, interesses e sentimentos) e
cumpra o dever de forma pura.
Ouvir a voz da lei moral é ficar a saber como cumprir de forma
moralmente correta o dever.
Essa lei diz-nos de forma muito geral o seguinte: «Deves em qualquer
circunstancia cumprir o dever pelo dever».
Esta exigência é um imperativo categórico ou absoluto porque não se
subordina a condições.
Normas como « não deves mentir», «não deves matar», Kant diz-nos
como cumprir esses deveres, qual a forma correta de os cumprir. Assim
sendo, é uma lei puramente racional e puramente formal.
Não é uma regra concreta como «não matarás!» mas um principio geral
que deve ser seguido quando cumpro essas regras concretas que
proíbem o roubo, o assassinato, a mentira,…
A lei moral é um imperativo categórico
A lei moral ordena – cumprir o dever pelo simples respeito pelo dever –
é para Kant, uma exigência que tem a forma de um imperativo
categórico.
Ordena que uma ação boa seja realizada pelo seu valor intrínseco, que
seja querida por ser boa em si e não por causa dos seus efeitos ou
consequências.
O cumprimento de deveres como não roubar ou não mentir é uma
obrigação absoluta.
Por que razão o cumprimento do dever é uma obrigação
absoluta ou categórica?
Se cumprir o dever dependesse dos nossos interesses ou sentimentos,
teríamos a obrigação, por exemplo, de cumprir a palavra dada apenas
em certas condições, mas não sempre.
Esta obrigação dependeria dos nossos desejos ou interesses pessoais e
a obrigação de cumprir a palavra desapareceria. Ora, não é isso que
acontece. Continuamos a ter a obrigação de cumprir a palavra dada
quer isso nos agrade quer não.
O CUMPRIMENTO DO DEVER COMO IMPERATIVO O CUMPRIMENTO DO DEVER COMO IMPERATIVO
CATEGÓRICO HIPOTÉTICO
1. O cumprimento do dever é uma ordem não 1. O cumprimento do dever é uma ordem condicionada
condicionada pelo que de satisfatório ou proveitoso pelo que de satisfatório ou proveitoso pode resultar
pode resultar do seu cumprimento. do seu cumprimento.
2. A palavra “imperativo” que dizer obrigação. Com a 2. A palavra “imperativo” que dizer obrigação. Com a
palavra “categórico”, Kant está a referir-se a palavra “hipotético”, Kant está a referir-se às
obrigações absolutas – que temos sempre. obrigações que adquirimos apenas na condição – ou
hipótese – de termos um certo desejo ou projeto, mas
3. A obrigação de salvar uma pessoa do afogamento, se não sempre.
estiver ao nosso alcance fazê-lo, não é hipotética. Não
depende de termos certos desejos, projetos ou 3. Só tenho a obrigação de estudar o código da estrada
sentimentos particulares. O mesmo acontece com a se quiser tirar a carta de condução. Se não for esse o
obrigação de não tratar os outros apenas como meios meu projeto ou o meu desejo, essa obrigação deixa de
e sim como pessoas. existir.
4. Praticar preços justos é uma obrigação absoluta. 4. Praticar preços justos é um dever se for do meu
interesse.
As duas mais importantes formulações do imperativo categórico
ou lei moral
Fórmula da lei universal
“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo
querer que se torne lei universal.”
Fórmula da humanidade
“Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como
na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca
simplesmente como meio.”
Qual a função destas duas fórmulas? Para que servem?
Para sabermos, em cada circunstância, se a ação que queremos praticar
está ou não de acordo com a moral, temos de perguntar se aquilo que
propomos fazer poderia servir de modelo para todos os outros e se não
os transforma em simples meios ao serviço dos nossos interesses.
Para Kant, a pessoa tem de ser tratada sempre como um fim em si
mesma e nunca somente como um meio, porque é o único ser de entre
as várias espécies de seres vivos que pode agir moralmente. O valor da
pessoa é absoluto.
Assim, a fórmula da humanidade, também conhecida por fórmula do
respeito pelas pessoas, exprime a obrigação moral básica da ética
kantiana.
Cumprimento do dever, imparcialidade e respeito pelas
pessoas
A ação moralmente correta é decidida pelo indivíduo quando adota
uma perspetiva universal.
Como?
Colocando de parte os seus interesses, a pessoa pensará como
qualquer outra que também faça abstração dos seus interesses
adotando, portanto, uma perspetiva universal.
A Boa Vontade
Agir moralmente significa agir com a intenção de respeitar
exclusivamente a norma geral que me diz que devo praticar apenas as
ações que todos os outros possam ter como modelo a seguir e que
dado serem puramente desinteressadas tratam os outros como fins e
nunca só como meios.
A vontade que decide agir por puro e simples respeito pelo que a lei
moral ou imperativo categórico exige tem o nome de boa vontade.
A BOA VONTADE
➢ É uma vontade que age de forma moralmente correta independentemente das
consequências da ação.
➢ É uma vontade que cumpre o dever respeitando absolutamente a lei moral, ou
seja, cuja intenção é cumprir o dever.
➢É uma vontade que age segundo regras ou máximas que podem ser seguidas por
todos.
➢É uma vontade que respeita todo e qualquer ser humano considerando-o uma
pessoa e não uma coisa ou um simples meio ao serviço de interesses.
➢É uma vontade autónoma porque decide cumprir o dever por sua iniciativa e não
por receio de autoridades externas ou da opinião dos outros.
VONTADE AUTÓNOMA VONTADE HETERÓNOMA
1. Vontade que cumpre o dever pelo 1. Vontade que não cumpre o dever
dever. É uma boa vontade. pelo dever. Não é uma boa vontade.
2. Uma vontade autónoma é uma 2. O cumprimento do dever não é
vontade puramente racional, que faz motivo suficiente para agir tendo de
sua uma lei da razão, que diz a si se invocar razões externas como o
mesma «Eu quero o que a lei moral receio das consequências, o temor a
exige». Ao agir por dever obedeço à Deus, etc. A vontade submete-se a
voz da minha razão e mais nada. autoridades que não a razão.
E se cumprir o dever de forma absoluta - sem outra
intenção – e tiver más consequências?
Kant responde que não é por isso que a ação se torna moralmente
errada. O que conta é a intenção.
Para Kant, o que importa é o modo como cumpro o dever – a intenção
– e não o que resulta da ação.
Críticas à ética de Kant
• Rigor formal, caráter absoluto e o afastamento das emoções;
• Permite, aparentemente, ações imorais;
• Não responde a dilemas morais
• Deveres incompatíveis;
• Não dá atenção às consequências.