Introdução à Filosofia para o 1º Ano
Introdução à Filosofia para o 1º Ano
Além disso, vamos tentar desfazer aquela visão preconceituosa que algu-
mas pessoas ainda têm sobre afilosofiaser uma“viagem”, coisa de quem não tem
o que fazer, e que fica apenas divagando sobre questões inúteis ou impossíveis
de serem respondidas.
Situar a Filosofia como uma das dimensões para compreender e transformar o homem e o mundo;
Distinguir o pensamento mítico do pensamento filosófico, identificando elementos que indiquem aruptu-
ra e a continuidade entre Mito e Filosofia.
Já dizia Wittgenstein que “a Filosofia não é uma doutrina, mas uma atividade”. E ele estava certo. Diferentemen-
te das outras disciplinas, a Filosofia não se encontra limitada por seu objeto de estudo, mas revela-se como uma forma
especial de pensamento que, apesar de, em si mesma, não possuir um conteúdo (pré)determinado, pode pôr-se a
refletir e a questionar todos os segmentos da atividade humana.
O termo grego Filosofia (philosophia) é a expressão do amor ao conhecimento e da busca incansável do ho-
mem pelo sentido e fundamento de todas as coisas.
Por um lado, distingue-se da religião, uma vez que não assenta suas bases na fé ou na crença, mas na razão. Por
outro, não deve ser confundida com a opinião, pois prima pelo rigor e profundidade em suas argumentações.
Mas essa atividade da razão humana não existiu desde sempre: a Filosofia é um produto da genialidade grega.
E no princípio, o Mito
Ninguém precisaserfilósofoparafazerperguntas,concorda?Fazpartedenossapróprianaturezaestanecessida-
de de se obterrespostas e, se possível, certezas arespeitodascoisase de nósmesmos. Dessa forma, bastapesquisarmos
um poucoparaencontramosumasériedeperguntasfundamentaisqueacompanham ossereshumanosdesdesempre.
De onde viemos? Como surgiram todas as coisas? Por que e como acontecem os fenômenos naturais? Qual o
sentido de nossa existência?
Nesta seção, iremos acompanhar a passagem do modelo de explicação que chamamos mítico ao modelo ra-
cional, proposto pelos primeiros filósofos. Mas você sabe o que é um Mito?
O Mito, assim como a Filosofia e a Ciência, constitui uma tentativa de se responder àquelas perguntas sobre as
quais falamos anteriormente a partir da ação de agentes sobrenaturais. Assim, uma catástrofe causada por uma
tempestade em um vilarejo poderia ser entendida como uma forma de punição em razão de uma desavença entre
alguma divindade e seus habitantes. Do mesmo modo que um ato heróico em uma guerra seria o indício de uma certa
ascendência divina. Em outras palavras, aos olhos do Mito, toda a realidade existente remete, necessariamente, a uma
força, a um deus ou uma criatura com habilidades sobre-humanas.
Pois bem, antes do nascimento da Filosofia, a concepção de mundo dos gregos era totalmente ligada ao Mito.
Certamente você já deve ter ouvido falar na Mitologia Grega, não é mesmo? Vamos conhecer um pouco sobre ela?
Você perceberá que conhecer omodo peculiar dos gregos de entender a si mesmos e aomundo será de grande ajuda
em nossa aula sobre Filosofia.
É importante que desfaçamos, antes de mais nada, a ideia comumente passada de que existia uma única
Grécia na antiguidade. Na verdade, existiam muitas Grécias. Divididos em um grande número de pólis (ou Cidades-
-Estado), seus habitantes compartilhavam poucas coisas além de uma língua em comum. Dependendo da cidade, a
mulher eravista como igual ou inferior ao homem. A educação era voltada para a prática política ou militar e oconta-
to com o estrangeiro poderia ser estimulado ou evitado. Cada cidade possuía o seu deus protetor e, ao seu lado, um
Mito rememorado pelos seus habitantes e que marcava a sua superioridade sobre os demais. Não havia igualmente
uma capital, apesar da superioridade evidente das duas pólis mais famosas do mundo antigo: Atenas e Esparta.
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Mas então, frente a tantas diferenças, o que une os gregos? Em primeiro lugar, como já dissemos, a existência
de uma única língua capaz de produzir um sentimento de pertença e, ao mesmo tempo, que seja flexível o suficiente
para dar conta dessa multiplicidade de vozes.
A língua − não só a grega, lógico – é um importante elemento de coesão cultural. E, no caso grego, nutriu-se
das histórias míticas contadas inicialmente pelos poetas e, mais tarde, pelos filósofos. Imagine aprender a ler a partir
das histórias contadas por Homero, ogrande poeta grego do século VIII a.C.? Devia ser incrível, não concorda? Mas, é
importante ressaltar que não se tratavam de textos ao estilo das nossas conhecidas cartilhas, mas livroscomoa Ilíada
e a Odisséia que retratam, em detalhes, acontecimentos históricos, permeados de seres divinos e lições de moral. O
Poema épico de 15.693 versos, escrito por Homero, que narra a história da Guerra de Tróia (Ílion, em grego).
Poema épico de 12.110 versos, atribuído Homero, que conta as aventuras do herói grego Odisseu (ou Ulisses) em seu retorno a
Apesar de não haver uma unidade nas histórias e da própria caracterização de suas divindades, a Mitologia grega
assenta as suas bases em fontes como as obras dos poetas Homero e Hesíodo e do filósofo Platão. Era baseada na crença
de um panteão de divindades chamadas olimpianas, governadas por Zeus. De modo geral, cada deus re- presentava
uma aspecto da realidade. Havia, assim, um deus da guerra (Ares), um dos mares (Poseidão), uma deusa do amor
(Afrodite), uma outra protetora dos casamentos (Hera) ou mesmo da sabedoria (Atená).
A própria Terra, o Céu e os Mares eram vistos como entidades dotadas de vontade.
Figura 1: A pintura de Giorgio Vasari and Gherardi Christofano (séc. XVI) retrata a mutilação de Urano (O Céu) por seu filho
Cronos (O Tempo). Assim, a partir do estratagema de Gaia (Terra), os Titãs assumem o poder.
A religiosidade grega fazia-se sentir em toda a parte, como por exemplo, nos jogos olímpicos. Você sabia que,
na época dos jogos, ficava proibida qualquer hostilidade entre as cidades gregas? Declarar guerra contra outra pólis
ou mesmo assaltar um atleta a caminho dos jogos seria visto como crime contra os deuses. No mínimo, fascinante!
Por essemotivo, durante muitos anos, os historiadores foram unânimes em apontar osurgimento da Filosofia
como produto do que chamaram de o“milagregrego”. Não conseguiam entender como os filósofos puderam romper
radicalmente com as explicações míticas que traziam tanto sentido ao mundo grego.
Segundo os historiadores, a Filosofia teria surgido pela primeira vez na Grécia, por volta do século VI a.C., na
antiga cidade da Ásia Menor chamada Mileto, tendo como protótipo o pensamento de Tales (c. 624/5 a.C.- 556/8 a.C.).
Inventor, astrônomo e matemático – você deve lembrar do seu famoso teorema −, Tales é o resultado de toda uma série
de fatores que lhe permitiram registrar seu nome na história como sendo o primeiro filósofo.
Antes de mais nada, Mileto era uma cidade que mantinha vínculos comerciais bem estreitos com o Oriente,
como com o Egito e cidades do sul da atual Itália. A sua localização geográfica privilegiada permitiu contato com
essas culturas e assim ofortalecimento da economia milésia através do comércio, ocorreujuntamente com atroca de
conhecimentos e com a inevitável relativização de valores.
A própria religião grega, politeísta e antropomórfica, revelava-se mais aberta a novas leituras e manifesta-
ções que as posteriores crenças em uma única divindade.
Aliado a esses fatores, temos aquele que é apontado como o de maior relevância em fazer da Grécia o berço
da Filosofia: a invenção da política.
A pólis teria surgido, dois séculos antes de Tales nascer, nas comunidades da Ásia Menor. A maioria delas não
era verdadeiramente “democrática” como alguns gostam de afirmar, mas a vida em seu interior girava em torno das
decisões de instituições que funcionavam como espécies de conselhos e assembleias, ora do povo, ora aristocratas
ou dos magistrados. E em que isso ajudaria a Filosofia? Simples: a prática do diálogo e o estímulo ao exercício da
discussão, inerentes ao debate político, criaram as condições ideais para essa nova forma de pensar a realida-
de que toma como princípio não mais a fé nos deuses, mas a razão humana. Por isso, frequentemente ouvimos
que a “Filosofia é filha da pólis”.
Mas seria um equívoco pensarmos que bastou a Filosofia surgir no século VI a.C. para que os gregos abando-
nassem as suas crenças. Obviamente, o processo de dessacralização do saber não ocorreu de uma hora para outra, mas
foi resultado de um longo processo histórico no qual, aos poucos, foi-se percebendo que as histórias contadas pelos
antigos poetas não mais eram suficientes para dar conta do real. Ainda assim, por muito tempo, o Mito coexistiu com
pensamento filosófico, mantendo-se presente até mesmo nos escritos de filósofos de renome como Platão (c. 428/7
a.C.-348/7 a.C.).
A predominância da razão (chamada de logos pelos gregos) na explicação da realidade que percebemos nos
dias de hoje tem sua origem na Filosofia, quando, pela primeira vez, ocorre um distanciamento da concepção mítica
da realidade em direção a uma explicação que parte da observação e do raciocínio.
Dissemos anteriormente que a tradição conferiu a Tales de Mileto o título de primeiro filósofo da história. No
entanto, muito pouco restou de suas ideias. Sabe-se que foi o responsável por inaugurar uma nova forma de pensar,
caracterizada pela recusa dos modelos mágico-religiosos tradicionais e pela exaltação da razão como a principal forma
de compreensão da realidade.
A palavra Filosofia só apareceu tardiamente com Heráclito de Éfeso (c. 535 a.C.-475 a.C.) ou Pitágoras de Samos
(c. 5701/0 a.C.-497/6 a.C) como forma de saber humano caracterizado pela busca incessante de respostas.
Etimologicamente, a palavra Filosofia significa amor ou amizade (philia, em grego) à sabedoria. O filósofo,
portanto, seria o amante do saber, um protótipo de sábio, sempre disposto a apontar problemas e propor soluções às
diferentes questões da vida e do mundo.
A despeito das inúmeras definições e matizes que a Filosofia possa ter, parece ser um consenso entre os
profissionais que dela se ocupam dizer, à exemplo de Wittgenstein, que “A Filosofia não é uma doutrina, mas uma
atividade”. Atividade esta, de origem grega e de natureza racional, expressa por meio de um posicionamento crítico
frente à realidade.
O Valor da Filosofia
O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua
própria incerteza. O homem que não tem umas tintas de filosofia caminha pela
vida afora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habitu-
ais de sua época e do seus país, e das convicções que cresceram no seu espírito
sema cooperação ou o consentimento deuma razão deliberada. Para tal homem
o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais
não levantam problemas e as possibilidades infamiliares são desdenhosamente
rejeitadas. Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos
damos conta (...) de que até as coisas mais ordinárias conduzem a problemas
paraosquaissomente respostas muito incompletas podemserdadas. Afilosofia,
apesar de incapaz de nos dizer com certeza qual é a verdadeira resposta para as
dúvidasque ela própria levanta, écapazdesugerirnumerosas possibilidades que
ampliam nossos pensamentos, livrando-os da tirania do hábito. Desta maneira,
embora diminua nosso sentimento de certeza com relação ao que as coisas são,
aumenta em muito nosso conhecimento a respeito do que as coisas podemser;
ela remove o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a
empreender viagens nasregiões da dúvidalibertadora; e vivifica nosso sentimen-
to de admiração, ao mostrar as coisas familiares num determinado aspecto não
familiar. (RUSSELL, B. Os Problemas da Filosofia, Capítulo XV)
Os problemas da Filosofia
Como vimos anteriormente, a Filosofia constitui, ao mesmo tempo, uma atividade e uma atitude racional de
busca do conhecimento verdadeiro. Nesse sentido, qualquer tema, a princípio, pode ser objeto da reflexão de um
filósofo, não é mesmo?
De qualquer forma, basta um estudo mais atento da própria História da Filosofia para percebermos que alguns
desses problemas mostram-se recorrentes e, apesar de distintos, nos permitem extrair características em comum. Em
outras palavras, os filósofos, de modo geral:
preocupam-se com a questão da fundamentação das ideias e práticas (as chamadas “condições de
possibilidade”);
acabam por desenvolver um sistema conceitual a partir do qual pretendem explicar determinados fenô-
menos ou atividades;
partem de observações críticas sobre os demais pensadores a fim de justificar a sua “solução” aos proble-
mas encontrados.
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) disse, pela primeira vez, que a Filosofia deveria se ocupar de três
perguntas fundamentais, a saber:
No entanto, segundo Kant, essas três questões podem – e devem – ser reduzidas a uma outra que questiona
sobre o que é o homem.
De certa forma, esta é uma maneira bem interessante encontrada pelo filósofo de abordar os campos de in-
vestigação filosófica, umavez que cada uma dessas perguntas representariauma área específica da própria Filosofia.
Os períodos da Filosofia
A divisão em períodos históricos, como tudo o mais no campo da Filosofia, é palco de grandes polêmicas. No
entanto, afim de deixarmos de lado – pelo menos provisoriamente – essecomplicado debate, optamos por apresen-
tar uma versão bastante simplificada a partir da linha do tempo abaixo:
1) Filosofia Antiga (VI a.C.-VI d.C.): Composta pela escola pré-socrática (de Tales a Empédocles), pelos filó- sofos
chamados “clássicos” (Sócrates, Platão e os Sofistas), pelo período sistemático representado por Aristóteles e,
finalmente, pelo período helênico das escolas epicuristas, estoicas, céticas e cínicas tanto gregas quanto romanas.
2) Filosofia Cristã (I d.C.-XIV d.C.): Composta pela Patrística (que abrange desde os primeiros escritos cristãos
até a filosofia de Sto. Agostinho de Hipona) e todo o período medieval ou escolástico, cujo principal representante foi
S. Tomás de Aquino.
3) Filosofia Moderna (XIV d.C.-XIX d.C.): Iniciada pelos filósofos renascentistas como René Descartes, segui-
dos pelos Iluministas como Immanuel Kant.
4) Filosofia Contemporânea (a partir do final do séc. XIX d.C.): Marcada pela reflexão dos filósofos como
Karl Marx e Friedrich Nietzsche até os dias de hoje.
A Filosofia tem, portanto, quase 27 séculos de história. Uma história fascinante cheia de discussões acaloradas
e teorias que pretendem dar conta, senão da totalidade, da maior parte das questões que assolam o espírito humano.
Quetalconhecermosum poucomaissobreoquepensaramalgunsdospersonagensresponsáveisportudoisso?
Seção 02
Os primeiros filósofos
A tradição costuma atribuir a expressão “pré-socráticos” a todos os pensadores que antecederam o grande
filósofo da cidade de Atenas chamado Sócrates (c. 470/69-399 a.C.). Essa anterioridade, em sua grande maioria, é
histórica. No entanto, alguns pré-socráticos – como Demócrito de Abdera (c. 460 a.C.-370 a.C.) – parecem ter vivido na
mesma época que o filósofo ateniense. De qualquer forma, pode-se afirmar com uma certa convicção que nenhum
deles conseguiu alcançar a profundidade e, muito menos, o grau de abstração típico do pensamento socrático.
Nesse sentido, a anterioridade é, sobretudo, filosófica. A maioria desses pensadores fez da questão da origem
(archê) e da natureza (physis) o seu objeto de reflexão, mas, por outro lado, também foram incapazes de romper definiti-
vamente com a estrutura típica do discurso mítico. Veja o exemplo de Parmênides de Eléia. Considerado o“pai” da lógica
pela descoberta dos princípios de identidade e da não contradição, escreveu todo o seu discurso sob a forma de poemas
e dedicou os 32 versos de seu proêmio a uma espécie de hino de exaltação à deusa da justiça e da verdade, Diké:
Mesmo hoje em dia, a lógica sustenta-se a partir de dois grandes princípios ou leis gerais, que têm nos
escritos de Parmênides a sua formulação básica. A máxima “o Ser é e o Não Ser não é” afirma a identi-
dade de toda coisa consigo mesma. Por outro lado, o princípio da não contradição já se fazia presente na
proposição “ou uma (coisa) é ou não é”. Mais tarde, com Aristóteles e os medievais, acrescentou-se um
terceiro princípio chamado do terço excluso que nada mais é do que uma consequência óbvia do
segundo, uma vez que nega a existência de um terceiro elemento além da afirmação e da negação.
A fim de facilitar o primeiro contato com esses filósofos, optamos por dividi-los em 3 grandes grupos ou esco-
las, sabendo, por outro lado, que longe de ser perfeita, esta divisão deixa de lado pontos divergentes de suas teorias
a favor de uma pretensa unidade.
Na escola jônica, agrupamos os pensadores que elegeram um único elemento como princípio fundante do
real. São eles: Tales(AÁgua), Anaximandro (OIlimitado), Anaxímenes (OAr), Heráclito (OFogo), Xenófanes (ATerra).
Aqueles pertencentes à escola italiana de Pitágoras (O Número), Parmênides e seus discípulos Zenão e Melisso
(O Ser) desenvolvem teorias bem complexas tomando como base princípios abstratos e que virão, mais à frente, in-
fluenciar o pensamento de grandes nomes como Sócrates e Platão.
Por fim, os filósofos pluralistas (ou de 2ª fase) que defenderam que a realidade é o resultado de dois ou mais
elementos. São eles: Anaxágoras (A multiplicidade e o Espírito), Empédocles (Os 4 elementos) e os atomistas Leu-
cipo e Demócrito.
O período clássico
Chamamos de período clássico da Filosofia, toda a produção intelectual grega compreendida entre os anos de
500 a.C. e 338 a.C. e que tem em Sócrates a sua figura mais importante. Historicamente, os gregos viviam em seu período
de apogeu econômico marcado pela disputa entre a democracia ateniense e a oligarquia espartana.
A Filosofia viu em Atenas o espaço ideal para o seu florescimento, mas foi apenas com Platão, principal discí-
pulo de Sócrates, que atingiu o seu ponto mais alto.
Enfim Sócrates
Sócrates foi um ateniense exemplar. Apesar de sua origem humilde (filho de um escultor e de uma parteira),
serviucomosoldado de infantaria na Guerra do Peloponeso, vindo a dedicar-se à Filosofia através dos ensinamentos
de Anaxágoras e Arquelau. Segundo a tradição, Sócrates teria despertado para a sua verdadeira vocação ao ver um
parto feito por sua mãe, passando a chamar o seu próprio método de maiêutica (em grego esse termo significa darà
luz, parto). Paraele, atarefa do filósofo não seriafazer de seus alunos depósitos doconhecimento de seumestre, mas,
ao contrário, permitir o nascimento das ideias já existentes.
Saiba mais em: [Link]
Por meio de perguntas sobre os fundamentos das coisas e de sua famosa ironia, Sócratestornou-se o modelo de
filósoforecorrenteainda nos diasde hoje. Eternamentedistraídocom suasreflexões, possuía uma legiãode jovenssegui-
doresque, juntamentecom ele, perambulavampelasruas da Cidade de Atenasparaouvir as suas preleçõessobreética.
Figura 4: Sócrates filosofando ao ar livre com seus alunos. Pintura de Johann Friedrich Greuter:“Sócrates e
seus estudantes”.
Diferentemente dos seus antecessores, Sócrates fora capaz de apresentar argumentos consistentes, mesmo que
por vezes inconclusivos, sobre uma infinidade de temas, em especial os relacionados à virtude e ao questiona- mento
da natureza humana.
A sua visita à sacerdotisa (ou Pitonisa) do mais famoso Oráculo daquela época fez de Sócrates o homem mais
sábio do mundo. Humilde, aceitou as palavras do deus como reflexo de sua própria consciência diante de suas limi-
tações. “A verdadeira sabedoria – dizia o filósofo – consiste em se saber que nada se sabe”. Essa é de uma das
máximas mais famosas da história que traz consigo a concepção que identifica a Filosofia não como posse e sim
como uma busca incessante da verdade.
Figura 5: As Ruínas do Templo de Apolo em Delfos/ Pintura de Michelângelo – Síbila Délfica (1509) – Edição de Emmanuel
Fraga.
O oráculo de Delfos era um dos mais famosos de toda a Grécia antiga. Diversas figuras importantes para lá se
dirigiam a fim de conhecer as enigmáticas previsões do deus Apolo ditas através de sua Pitonisa. Conta a tradição que
nas paredes do Templo havia um grande número de provérbios e máximas. Uma delas teria inspirado o próprio Sócrates
e sua filosofia:“Conhece-te a ti mesmo!”
Outra passagem famosa de Sócrates aconteceu em tempo de sua condenação. O jovem e desconhecido poeta
Meleto apresentou ao tribunal as seguintes acusações contra ele:
Apesar de sua articulada defesa, Sócrates, com 70 anos, é condenado à morte, por envenenamento por cicuta,
no ano de 399 a.C..
Para Platão, a morte de seu amado professor representou a perda não só para aqueles que tiveram a chance de
conhecê-lo, mas para toda a Atenas, uma vez que ele: “foi o melhor e também o mais sábio e mais justo dos ho- mens.”
(Fedon, LXVI)
Diante de seus discípulos mais próximos, Sócrates encarou a morte com dignidade. Após recusar as diversas
propostas de fuga da prisão, manteve a sua ironia ao pronunciar suas últimas palavras: “Críton, dê um galo ao deus
Asclépio – do qual somos todos devedores”.
Diferentemente dos primeiros filósofos, cujo interesse girava em torno da natureza (physis) de questões mais
gerais de ordem metafísica, os Sofistas eram mestres das artes do discurso. Enquanto isso, profissionais do ensino
cobravam caro pelos serviços prestados à educação dos mais jovens que almejavam ingressar na carreira política.
A aparente despreocupação com a busca da verdade e o fato de serem, em sua maioria, estrangeiros, cons-
tituíram os principais motivos que fizeram da escola sofística uma espécie de antagonista das ideias filosóficas, em
especial as de Sócrates.
Assim como ofilósofo ateniense, os sofistas deixaram pouquíssimos escritos. No entanto, sabe-se que os seus
discursos caracterizavam-se por uma espécie de relativismo e convencionalismo, expressos em sua concepção de
linguagem entendida exclusivamente como discurso de convencimento.
Perspectiva filosófica que defende que várias (ou mesmo todas) as perspectivas a cerca da verdade são relativas a sua época e
local de produção.
Teoria que defende a ideia de que os valores, os costumes e a verdade são frutos de um acordo coletivo.
Entre os sofistas mais famosos afiguravam-se Protágoras de Abdera (481 a.C.-420 a.C.) e Górgias de Leôn- cio
(483 a.C.-376 a.C.). O primeiro ficou célebre pelas implicações de sua máxima: “O homem é a medida de todas as coisas,
das que são que elas são, das que não são que elas não são”. O segundo pelo seu “Tratado do Não Ser” e “Elogio de
Helena”.
Na polêmica obra “Tratado do Não Ser”, Górgias pretendeu desconstruir todos os principais pressu-
postos metafísicos através de três afirmações categóricas:“nada existe; mesmo se o ser existisse, então
seria incognoscível; e se fosse cognoscível, então este conhecimento (do Ser) seria incomunicável”.
Muito se discute sobre eles ainda hoje. Eles eram filósofos ou apenas enganadores – à exemplo da opinião de
Platão presente em seus muitos diálogos dedicados a esses pensadores.
A filosofia de Platão
Platão (437 a.C.-347 a.C.) foi o mais famoso discípulo de Sócrates e professor de Aristóteles.
Em sua fase inicial, seus escritos têm na figura de Sócrates o seu principal protagonista e caracterizam-se pela
crítica ao conhecimento sensível e pela tentativa de reprodução do pensamento socrático. Mais tarde, Platão − mes-
mo que a partir dos ensinamentos do mestre – desenvolve as suas três teorias principais, a saber:
a teoria das ideias ou formas (apresentada de modo didático no diálogo “Fédon”) que defende a existência
de 2 mundos distintos: o sensível e o inteligível;
ateoria da linhadividida (explicitada na obra“República”), na qual propõe uma hierarquia entre as diferen-
a teoria da reminiscência da alma, delineado no “Fedro”. A partir do Mito da parelha alada, Platão justifica a
educação como um processo de relembramento (anamnese, em grego), uma vez que, enquanto almas,
havíamos contemplado todas as ideias existentes, mas que foram esquecidas no ato da encarnação.
É importante ressaltar que as duas primeiras teorias foram uma espécie de resposta aos problemas deixados
pelos pré-socráticos Heráclito e Parmênides, isto é, o impasse entre o mobilismo universal e o imobilismo. E a última,
um recurso à crença pitagórica da mentempsicose e ao papel de “parteiro” do educador, defendido por Sócrates.
O pensamento platônico éconsiderado um marco na história da Filosofia, tanto pelasua complexidade quanto
pela abrangência de temas, e sua influência se fez sentir não somente na Grécia, com a sua Academia, mas durante
todos os longos séculos da Filosofiacristã.
A Academia, fundada por Platão por volta de 387 a.C. em Atenas, é considerada a primeira escola de Filosofia.
Seu principal aluno, Aristóteles, ingressou na Academia com apenas 17 anos de idade e lá permaneceu por 20 anos,
vindo mais tarde (em 335 a.C.) a fundar a sua própria escola chamada Liceu. Devido à influência pitagórica, a Acade- mia
de Platão atribuía uma grande importância ao estudo da Matemática e, em seu pórtico de entrada, havia uma inscrição
que dizia: “Que não entre quem não souber Geometria”.
A fim de superar a posição dos filósofos monistas quanto ao problema do Ser e do
movimento, do uno e do múltiplo, Platão constrói sua teoria das ideias. A partir de então,
defende a existência de dois mundos, a saber: um que respeita as características do Ser de
a nossa mente produziu o mundo das ideias, que nada mais são do que concei-
Conclusão
Já dizia um ilustre filósofo alemão que “não se aprende Filosofia e sim a filosofar”. Por outro lado, sem conhecer
um pouco de sua história, esta fascinante arte de admirar-se e refletir sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca
Em razão disso, aprendemos que a Filosofia é, ao mesmo tempo, um produto grego e de todo aquele que,
assim como Tales, procura por respostas. E, mesmo tendo entrado em contato com diversas teorias − por vezes con-
traditórias − percebemos que une os seus autores é uma certa inquietação em relação a (quase) tudo.
Esse espírito questionador, crítico e curioso estava presente em todos os filósofos que foram abordados nesse
primeiro módulo, não é mesmo? E em você? Esperamos sinceramente que sim...
Existem diferentes formas de explicação da realidade, tais como o Mito, a Ciência e a Filosofia.
Até a época do nascimento da Filosofia, a concepção grega do mundo baseava-se na crença de seres
e forças sobrenaturais.
Entre as condições históricas para o surgimento da Filosofia na Grécia estão a questão cultural e a
organização política.
A Filosofia surge no século VI a.C., na cidade de Mileto, antiga colônia grega da Jônia.
A Filosofia, antes de mais nada, revela-se como uma espécie de atitude de natureza racional e crítica de
busca das origem e fundamentos dascoisas.
Tradicionalmente divide-se a história da Filosofia em 4 grandes períodos ou fases: antiga, cristã, moderna
e contemporânea.
Sócrates é considerado o mais importante representante do período clássico, ao lado de seu aluno Platão.
A Filosofia socrática dedicou-se à reflexão sobre a natureza humana, do conhecimento e do ensino da vir-
tude (ética).
A máxima socrática “só sei que nada sei” foi a fórmula encontrada pelo filósofo a fim de definir a sabedoria
como uma forma de reconhecimento de nossas ignorâncias.
Os sofistas foram mestres das artes do discurso e do convencimento e defendiam, em sua maioria, uma
posição contrária a de Sócrates no que diz respeito à busca da verdade.
Platão foi o principal discípulo de Sócrates e, em seus diálogos, dedicou-se a desenvolver e aprofundar o
pensamento de seu professor.
Referências
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BLACKBRUN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. Trad. de Desidério Murcho et all . Rio de janeiro: Zahar,
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CORDI, Cassiano, SANTOS, Antônio Raimundo, BÓRIO, Elizabeth Maia et all. Para filosofar. São Paulo: Scipio-
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LAÊRTIUS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução: Mário da Gama Kury. Brasília; Editora
da UnB, 1988.
OSBORNE, Richard. Filosofia para principiantes. Trad. de Adalgisa Campos da ilva. Rio de Janeiro: Objetiva,
1998.
PLATÃO. A República. Trad. de Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2004.
PRÉ-SOCRÁTICOS, Sócrates, Platão e Aristóteles – São Paulo: Nova Cultural, 1996 (Coleção Os Pensadores)
Imagens
Atividade 02
Resposta Correta: B.
Apesar de considerar o mundo inteligível (das ideias) verdadeiro, Platão jamais de-
fendeu que o mesmo seria uma cópia do mundo concreto como consta na letra A.
Mesmo entendendo as ideias como fundamento do mundo sensível, Platão não foi
tão radical a ponto de negar algum nível de realidade às coisas como sugere a resposta C.
Para Platão, as ideias possuem uma existência própria e independente dos con-
ceitos que formulamos em nossas mentes. Por esse motivo, não poderíamos assinalar a
letra D como correta.
Ciências Humanas e suas Tecnologias • Filosofia
O que perguntam por aí?
“Zeus ocupa o trono do universo. Agora o mundo está ordenado. Os deuses disputaram entre si, alguns triunfa-
ram. Tudo o que havia de ruim no céu etéreo foi expulso, ou para a prisão do Tártaro ou para a Terra, entre os mortais. E
os homens, o que acontece com eles? Quem são eles?”(VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. Trad.
de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 56.) O texto acima é parte de uma narrativa mítica.
Considerando que o Mito pode ser uma forma de conhecimento, assinale a alternativa correta.
d. O Mito busca explicações definitivas acerca do homem e do mundo, e sua verdade independe de provas.
Gabarito: D
A sabedoria de Sócrates, filósofo ateniense que viveu no século V a. C., encontra o seu ponto de partida na afir-
mação “sei que nada sei”, registrada na obra Apologia de Sócrates. A frase foi uma resposta aos que afirmavam que ele
era o mais sábio dos homens. Após interrogar artesãos, políticos e poetas, Sócrates chegou à conclusão de que ele se
diferenciava dos demais por reconhecer a sua própria ignorância.
a. Aquele que se reconhece como ignorante torna-se mais sábio por querer adquirir conhecimentos.
b. É um exercício de humildade diante da cultura dos sábios do passado, umavez que afunção da Filosofia
c. A dúvida é uma condição para o aprendizado e a Filosofia é o saber que estabelece verdades dogmáti-
d. É uma forma de declarar ignorância e permanecer distante dos problemas concretos, preocupando-se
apenas com causas abstratas.
Gabarito: A
Gabarito:
A verdade do Mito não pode ser contestada, enquanto a verdade filosófica é construída a partir do de-
bate racional.
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Questão 1
Fonte: [Link]
Como é chamada esta forma de explicar a realidade e qual a sua principal característica?
Questão 2
“Aos olhos do mito, uma catástrofe causada por uma tempestade em um vilarejo poderia ser entendida como
uma forma de punição, em razão de uma desavença entre alguma divindade e seus habitantes. Do mesmo modo que
um ato heroico em uma guerra seria o indício de uma certa ascendência divina. Em outras palavras, aos olhos do mito,
toda a realidade existente remete, necessariamente, a uma força, a um deus ou a uma criatura com habilidades sobre-
humanas”.
Fonte: [Link]
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Questão 3
A Filosofia apresenta-se como um distanciamento da concepção mítica da realidade em direção a uma expli-
cação, fundada:
a. em argumentos sofísticos;
c. na observação e no raciocínio;
d. na existência da realidade.
Questão 4
O sociólogo e filósofo alemão Georg Simmel afirma que um dos primeiros problemas da Filosofia é o de inves-
tigar e estabelecer a sua própria natureza. Talvez a Filosofia seja a única disciplina que se volte para si mesma dessa
maneira. No entanto, mais importante do que procurar uma definição para ela, é compreendê-la enquanto uma ATI-
VIDADE. Com suas palavras, escreva sobre a atividade filosófica e sua importância enquanto reflexão crítica.
Questão 5
Parafinsdidáticos, a História da Filosofiaé dividida em épocas ao longo de seus 27 séculos. Cheia de discussões e
teorias, a Filosofia tem como finalidade responder a questões que assolam o espírito humano.
Questão 1
Esta forma de explicação da realidade é chamada Mito e sua principal característica é explicar os fenôme-
nos naturais e sociais a partir de seres sobrenaturais.
Questão 2
A B C D
Questão 3
A B C D
Questão 4
Resposta pessoal.
Questão 5
Os primeiros filósofos tentaram explicar a diversidade e a transitoriedade das coisas do universo, redu-
zindo tudo a um ou mais princípios elementares, os quais seriam a verdadeira natureza ou ser de todas as coisas.
Como alguns exemplos temos: Tales (A água), Anaximandro (O ilimitado), Anaxímenes (O ar), Heráclito
(O fogo), Xenófanes (A terra) etc.
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