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A Última Noite de Ayla Skyzanner

Era o capítulo 2 de um livro meu. Também nao acho que seja relevante para qualquer um.

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tsk silva
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Ela caiu sobre os joelhos, as pernas fraquejando com o peso subitamente

imensurável de sua consciência. Aquilo era um corpo humano. Destroçado. O estômago


revirou, como se o pão mofado daquela manhã finalmente começasse a fazer mal. E
então, tudo o que ela comeu e não comeu saiu de sua boca em um avalanche, o gosto
amargo apenas piorando a crise. A poça de fluidos amarelos tomou um tom brilhante
em cima da areia grossa.
Aquele ser foi morto porque era um herege. Herege porque os Zênitas - residentes
do Palácio e escolhidos pelos Deuses - assim o disseram.
Aquela desgraça agora estava em cima do altar porque os Deuses deram a
autoridade aos Zênitas. Por que eles permitiram uma atrocidade naquele nível? O̶s̶
̶D̶e̶u̶s̶e̶s̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶d̶e̶v̶e̶r̶i̶a̶m̶ ̶s̶e̶r̶ ̶b̶o̶n̶s̶?̶
O cheiro doce do apodrecer piorou com outra rajada de vento, o que fez Ayla
vomitar novamente. As contrações dolorosas tomaram seu abdômen. Algumas vozes em
sussurros foram dispersados pelo vento. Sons que poderiam tê-la avisado do perigo
atrás de si. Mas, ela não ouviu. Ah, sim... foi ali. Onde tudo deu errado.
Um forte chute acertou as costas da garota miseravelmente curvada, o que a fez
cair com o rosto sobre o próprio vômito e areia. O cheiro voltou ao seus sentidos,
com seu estômago embrulhando novamente. Quem diabos havia feito isso? Ela se
levantou enquanto limpava o rosto com o pulso simultâneamente. E, então, usou a
força em seus quadris para arremessar o punho com a maior velocidade e eficácia
possível no que ela acreditava ser o rosto do malfeitor. Mas, alguns poucos
centímetros antes de encontrar a face dele, o alto homem se moveu. Rápido para que
nem os olhos treinados de Ayla pudessem notar seu erro.
Seu punho foi parado por uma mão grande e fria, apesar do calor do deserto.
Alguns poucos rastros de sangue ainda manchando o redor das unhas. Um som baixo de
algo se quebrando foi ouvido, mas para Ayla foi como um estrondo repercutindo todos
os seus ossos. Ao mesmo tempo, a dor tomou seu punho.
Antes de seus olhos fecharem com a súbita dor, ela viu a insígnia pairando em
sua frente, uma formada por arabescos coloridos e um pássaro branco no centro. O
abençoado símbolo dos Zênitas. Sua mente disparou em pensar o que fazer. Talvez não
houvesse mais nada para salvar sua vida.
Ayla se jogou sobre os joelhos na areia grossa e abaixou a cabeça, as pequenas
pedras perfurando a pele e pintando a areia em sangue. Ela mordeu os lábios para
evitar o grito de dor. E, finalmente, quando lágrimas ameaçavam cair, aquela mão
fria soltou seu punho que começava a inchar.
Dor. Ela não conseguia sentir nada além da dor. O calor sufocante, a ameaça à
sua frente, a falta de sons percorrendo a viela.
- Você vomitou ao ver uma obra dos Deuses e tentou atacar um de seus servos. - A
voz rouca foi a única coisa que passou pelo seu entorpecimento. Uma voz
malditamente fria contrastando com os arredores quentes.
Não foi uma pergunta, mas uma afirmação fria e precisa. O sangue de Ayla gelou
enquanto encarava o sangue na bota do homem sem realmente ver aquilo.
- Sim, honroso, tenho crises de contrações no estômago. A visão do sacrifício
foi uma mera coincidência. E eu cogitei fazer isso pois desconhecia sua glória.
Ele permanecia imóvel pela posição das botas.
- Os Deuses não toleram mentirosos. - Ela sentiu um arrepio descer sua nuca.
Aquele ser não tinha alma humana. Não podia ter. - Qual seu nome e onde mora?
- Ayla Skyzanner. Orfanato Ouro Fosco. - Ela falou o mais rápido possível, a voz
falhando miseravelmente nas últimas palavras.
E então ela sentiu o ar se tornar inalcansável, a cabeça afundando na areia por
um peso doloroso. O homem havia colocado seu pé em cima da menina. Ela tentou se
mover em um ato de reflexo, os braços se debateram em desespero. Porém, o ato de
rebeldia mal durou dois segundos, com o peso sumindo de repente e voltando logo em
seguida, mais forte que anteriormente. Estrelas piscaram sob as pálpebras de Ayla e
ela parou com os pulmões queimando.
- Eu, Arin Van'Martre, Zênita do Exército, declaro Ayla Skyzanner como herege,
devendo ser morta amanhã ao meio dia na praça da Fé. Caso você não compareça às 10
horas, considerarei todos do Orfanato Ouro Fosco hereges, e os matarei. Irei te
procurar logo após e também ceifarei sua vida depois de 10 dias de tortura.
Ele pressionou a cabeça de Ayla uma última vez antes de sair entre olhares
confusos e assustados da multidão ali reunida.
[...]
A pequena menina de cabelos negros azulados permaneceu ali por horas, desde
quando o Sol brilhava no centro até os parcos raios de luz que cruzavam o
horizonte. Ela pensou sobre tudo e nada. Um estado de inanimação. E, provavelmente
teria permanecido ali caso súbito pensamento sobre Michael não passasse por sua
cabeça. Sobre as pessoas importantes para si.
Acima de tudo, ela se recusava a fugir, as pessoas do orfanato não mereciam
morrer por sua causa. Também não poderia levá-los para uma vida de fugitivos por
causa dela. Eles não deviam nada ao império, apenas ela, por... vomitar vendo um
corpo destroçado. Assim como o de Ayla ficaria.
Ela balançou a cabeça, finalmente notando o frio da noite que atingia seus
ossos. Ele precisava ver Michael e as crianças. Antes de morrer.
Ayla tinha certeza de que eles ao menos se despediriam naquela situação.
Ela moveu as pernas adormecidas até ficar em pé, a dor voltando aos seus
sentidos aos poucos. Ayla então pegou uma de suas poções, a de curar ferimentos
superficiais e a bebeu, o sabor amargo tomando sua boca. A menina ainda tinha que
fazer algo antes de deixar sua vida se esvair. Algo antes de entregar sua alma aos
gloriosos Deuses e encontrar a paz eterna. Uma herege sequer encontraria a paz
eterna? Sua alma ao menos teria a chance de redenção?

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