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Trauma e Inocência na Infância

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**Oito anos atrás**

— Aperta a porra do gatilho.

A voz do meu pai ecoava na sala estreita e mal iluminada, um rugido de impaciência que se
misturava aos gritos desesperados do homem estirado em uma poça de sangue. Meu
coração batia descompassado, a adrenalina correndo pelas veias enquanto eu sentia o
peso da arma em minha mão, os dedos escorregando sobre o metal frio, encharcados de
suor. Meus olhos flutuavam entre a arma e a figura ensanguentada no chão, tão machucada
que seu rosto se tornara uma máscara de dor e medo, quase irreconhecível.

Não havia tempo para pensar. A pressão aumentava, como se o próprio ambiente estivesse
me sufocando. Com um movimento brusco, apertei o gatilho, e a explosão do disparo
reverberou em meus ouvidos. O corpo do homem caiu, e a cabeça dele explodiu em um
espiral de carne e sangue, espalhando-se pelo piso rachado da sala. O riso histérico do
meu pai cortou o ar, uma mistura de euforia e desdém, enquanto ele apertava meu ombro,
um gesto que deveria ser de apoio, mas só fazia aumentar minha repulsa.

— Porra, eu só tenho sete anos... – sussurrei para mim mesmo, a realidade do que havia
feito afundando em meu estômago como um peso insuportável.

Ao chegar em casa, tranquei-me no quarto, mas o relógio pendurado na parede me


lembrava que estava na hora de ir para a escola. Bufei, uma onda de frustração subindo em
meu peito, desejando poder socar aquele maldito relógio e jogá-lo na lata de lixo. A dor
latejante na minha cabeça parecia se intensificar à medida que eu vestia o uniforme, a
insignificante armadura de um garoto que deveria ser normal. Meu pai, um idiota
desprezível, pagava uma escola particular para os filhos da elite, onde a única coisa que eu
sabia fazer era sofrer as humilhações constantes dos outros alunos, que eram tão ricos
quanto cruéis.

Calcei meus tênis surrados e joguei a mochila nas costas, descendo as escadas e batendo
a porta com força ao sair. Caminhei pelas ruas que ainda não estavam iluminadas pelo sol,
o dia nascendo lentamente. As luzes alaranjadas dos postes lançavam sombras longas e
distorcidas sobre o chão, onde mendigos se aninhavam em papelões ou dormiam em
bancos de praças, como se o mundo lá fora não existisse para eles.

Ignorando-os, continuei a andar, cada passo parecendo se arrastar por uma eternidade. A
escola era longe, e a jornada me deixava cada vez mais exausto, como se estivesse
carregando não apenas a mochila, mas todo o peso da minha vida.

Finalmente, ao chegar, encontrei um abrigo embaixo de uma árvore. Apoiei a cabeça contra
o tronco e fechei os olhos, buscando um momento de paz em meio ao caos que se
desenrolava em minha mente. Todas as noites, meu pai me arrastava para um galpão
velho, me obrigando a tirar vidas inocentes. O sangue do homem que havia matado ainda
parecia estar em minhas mãos, uma lembrança vívida da sua pele gélida sob o toque. Eu
podia ouvir os pássaros cantando, mas isso não aliviava a dor que corroía minha cabeça.
Os gritos da escola, as risadas e as bolinhas de papel que voavam pela sala eram um eco
distante, um barulho que eu ansiava em silenciar. O desejo de me isolar era uma fuga da
realidade, um jeito de escapar de um mundo que não parecia me aceitar.

— Olá.

A voz de uma garota cortou meus pensamentos, fina e delicada, como um sussurro no
vento. Levantei a cabeça para encará-la. Ela tinha cabelos ruivos, olhos castanhos e
bochechas rosadas que pareciam brilhar sob a luz do sol. Seus pequenos dedos seguravam
um pote, e, quando olhei, vi que havia dois sanduíches dentro.

— Mamãe fez dois sanduíches hoje de manhã para o café. A gente pode comer juntos.

O oferecimento era inocente, mas a ideia de compartilhar um momento com alguém me


incomodava. Neguei com a cabeça, tentando afastá-la discretamente. A solidão era meu
único refúgio, mesmo que meus pensamentos nunca estivessem em silêncio.

— Aceite, mamãe fez com amor.

Ela insistiu, e a visão dos sanduíches realmente despertou uma fome reprimida. Com
relutância, cedi e peguei um, observando o sorriso vitorioso que se formou em seus lábios
rosados. Sua pele era branca como papel, e eu me perguntava se era seguro para ela ficar
sob o sol por tanto tempo.

— Qual seu nome? E por que você não fala?

A pergunta dela era incessante, e eu queria gritar para que ela me deixasse em paz. No
entanto, as palavras simplesmente não saíam.

— Meu nome é Hades. Hades Maverick.

Tentei soar rude, esperando que ela percebesse meu desejo de ficar sozinho.

— Uau, eu sou Elizabeth Morgan.

Ela estendeu a mão, mas olhei para seus dedos delicados e sua expressão animada, sem
me mover. O toque físico me repelia, e não havia como explicar isso a ela.

Parece que ela compreendeu, pois se levantou, batendo o vestido para tirar a sujeira da
grama. Observei cada movimento, uma tentativa de entender a estranheza que era sua
presença. Pegou o pote entre nós e começou a se afastar.

— Vem, a aula vai começar.

Talvez ela não tivesse entendido a mensagem. Segurei a vontade de xingá-la. Ela era como
uma bonequinha de porcelana, frágil e inocente, que quebraria se eu deixasse escapar um
palavrão.
Com relutância, segui seus passos pequenos, percebendo que era consideravelmente mais
baixa do que eu. Eu, com apenas sete anos, era o mais alto da turma, o mais forte e, sem
dúvida, o menos idiota. Todos os outros eram monótonos e cheios de vida, enquanto eu
apenas desejava escapar.

Claro! Vamos dar continuidade à história, aprofundando a relação entre Hades e Elizabeth,
e explorando mais suas emoções e o ambiente ao redor.

---

A sala de aula era uma cacofonia de risadas, gritos e papéis voando. Assim que entrei, o ar
pareceu se tornar mais denso, como se cada respiração fosse uma luta. Olhei para os
rostos animados dos meus colegas, todos tão imersos em suas pequenas conversas e
dramas diários. Era como se eu estivesse em um outro mundo, um mundo onde eu não
pertencia.

Elizabeth se sentou ao meu lado, sua presença um contraste com a escuridão que me
envolvia. Ela parecia tão à vontade entre os outros, rindo e fazendo piadas, enquanto eu me
sentia como uma sombra, um espectador de uma vida que não era a minha. Tentava me
concentrar no que a professora dizia, mas a dor pulsante na minha cabeça dificultava.

— Você está bem? — Elizabeth sussurrou, inclinando-se em minha direção. Seus olhos
castanhos eram preocupados, e eu me senti invadido por essa atenção.

Neguei com a cabeça, olhando para o quadro-negro. A última coisa que eu queria era que
ela se preocupasse comigo. Mas seu olhar permanecia fixo em mim, como se ela pudesse
ver através da minha fachada de indiferença.

A aula se arrastou, mas eu mal prestei atenção. Enquanto os outros riam e trocavam
provocações, a imagem do homem caindo, o sangue se espalhando pelo chão, martelava
em minha mente. Cada risada parecia um eco distante, uma lembrança do que eu havia
feito, do que meu pai havia feito comigo.

O sinal soou, e a sala se encheu de movimento. Elizabeth pulou de sua cadeira, como um
filhote de pássaro pronto para voar. Eu a observei, incapaz de entender como ela podia ser
tão leve, tão despreocupada.

— Vamos brincar durante o intervalo! — ela exclamou, com um brilho nos olhos. Aquilo me
deixou confuso. Brincar? O que isso significava para alguém como eu?

Eu hesitei, mas antes que eu pudesse protestar, ela puxou minha mão. Aquele toque fez
meu corpo se encolher, mas não consegui me libertar. Segui-a relutantemente até o pátio,
onde outras crianças estavam jogando bola e se divertindo.

O sol brilhava intensamente, e eu sentia a pressão da luz sobre minha pele, como se cada
raio fosse um lembrete do que eu queria esquecer. Elizabeth me arrastou para o grupo, e
antes que eu percebesse, ela estava me apresentando como se eu fosse parte daquilo. A
rejeição que eu sentia era esmagadora, mas havia uma parte de mim que queria
simplesmente me fundir àquela normalidade.

— Este é Hades! Ele é novo aqui! — ela disse, sua voz radiante e cheia de entusiasmo. O
olhar de curiosidade e desprezo dos outros me atingiu como uma pedra. Sentindo-me
vulnerável, afastei-me um pouco, meu instinto natural de proteção surgindo.

— Vamos jogar! — disse um garoto alto com um sorriso largo. Ele segurava uma bola de
futebol, e os outros começaram a se juntar. O entusiasmo deles me deixava ainda mais
isolado, como uma ilha em um mar de alegria.

— Não... — murmurei, mas Elizabeth não parecia ouvir. Ela estava ocupada se divertindo,
rindo e interagindo. Uma parte de mim queria se juntar a ela, mas outra parte queria apenas
se esconder.

No entanto, antes que pudesse me afastar completamente, ela se virou para mim, com um
olhar que misturava determinação e doçura.

— Hades, vem! Você pode jogar também. Eu prometo que vai ser divertido.

A maneira como ela falava era contagiante, e por um breve momento, a dor na minha
cabeça parecia diminuir. Lutei contra o impulso de me juntar a eles, mas a visão dela
sorrindo para mim era difícil de ignorar.

Com um suspiro resignado, decidi entrar no jogo. A cada passada, senti uma pequena
fração de alívio. A bola passou por mim, e, sem pensar, eu a chamei. O que se seguiu foi
uma sequência de risadas e gritos, e pela primeira vez em muito tempo, eu senti uma
leveza que não conhecia.

Mas mesmo enquanto corria e brincava, a sombra da noite anterior pairava sobre mim, um
lembrete constante de que aquela felicidade era temporária, uma ilusão que eu não
merecia.

Após um tempo, o jogo terminou, e eu me afastei para pegar ar, tentando afastar os
pensamentos sombrios. Elizabeth se juntou a mim, seu sorriso ainda radiante.

— Você jogou muito bem! — ela disse, sua voz cheia de alegria. — Eu sabia que você tinha
um bom potencial!

Agradeci com um aceno de cabeça, mas o brilho nos olhos dela me incomodava. Era como
se ela visse algo em mim que eu não conseguia enxergar. O que ela via? Uma criança
normal? Um amigo? Eu não sabia como ser isso.

O intervalo acabou, e enquanto caminhávamos de volta para a sala, eu a observei.


Elizabeth era um enigma. Como alguém que tinha uma vida tão normal, tão despreocupada,
poderia estar perto de mim, de alguém como eu? A dúvida me assombrava, mas a conexão
que eu sentia com ela era inegável.
O resto do dia foi uma batalha entre minha nova amizade e os fantasmas do meu passado.
Cada risada que eu ouvia na escola era uma lembrança dos gritos que ecoavam em minha
mente. Mas, mesmo assim, a presença de Elizabeth me trouxe uma luz, uma pequena
esperança de que talvez houvesse uma maneira de escapar do ciclo de violência e dor que
meu pai impunha.

Enquanto o dia se arrastava, eu percebi que, por mais que quisesse me fechar em um
casulo, algo dentro de mim queria se abrir, mesmo que lentamente. E, talvez, apenas talvez,
a vida pudesse ter algo mais a oferecer do que o que eu conhecia.

Claro! Vamos dar uma atmosfera mais sombria e intensa à história, inspirando-nos na ideia
de uma “Devil Night”, onde a tensão e a violência se entrelaçam com os momentos de
conexão e vulnerabilidade. Aqui está a continuação:

---

**Oito anos atrás**

O ambiente na sala de aula pulsava com a energia da infância, mas dentro de mim havia
um vazio que parecia gritar mais alto que as risadas ao meu redor. A hora do intervalo se
aproximava, e com ela, uma expectativa maligna que eu conhecia bem. O que começava
como uma simples liberdade poderia rapidamente se transformar em um campo de batalha,
onde os fracos eram humilhados e os fortes reinavam.

Quando o sinal soou, um turbilhão de crianças invadiu o pátio, como se fossem almas
perdidas em busca de diversão. Elizabeth parecia brilhar no meio daquela escuridão, sua
presença vibrante um contraste com a nuvem que sempre pairava sobre mim. Mas,
conforme ela me puxava para o centro da agitação, uma sensação de desconforto se
apoderou de mim.

— Vamos brincar de pega-pega! — ela exclamou, os olhos brilhando com a inocência de


quem não conhecia o que eu carregava. Mas a palavra “brincar” parecia uma piada cruel,
uma provocação a um menino que só conhecia a violência como uma forma de vida.

O jogo começou, e eu a segui, correndo entre os outros, mas a adrenalina não era a
mesma. Em vez de alegria, cada risada era um eco de risos distantes que eu havia ouvido
na escuridão daquelas noites infernais. O meu pai, com sua risada histérica, enquanto a
vida se esvaía de mais um corpo. A imagem do homem agonizando voltava a assombrar
minha mente, como uma sombra que se recusava a desaparecer.

Eu não queria que Elizabeth visse isso. Não queria que ela soubesse quem eu realmente
era.

Em um momento de distração, ela se virou para mim, seus cabelos ruivos dançando ao
vento. — Hades! Você está muito devagar! — disse ela, piscando com um sorriso inocente,
como se nada em sua vida pudesse ser sombrio.
Mas então, algo em mim se rompeu. A raiva acumulada, o peso da violência que eu
conhecia, tudo se condensou em uma explosão de emoções que eu não conseguia
controlar. Sem pensar, eu gritei.

— Você não entende! Não é assim que as coisas funcionam!

A alegria ao nosso redor imediatamente se silenciou, e todos os olhares se voltaram para


mim, perplexos e intimidados. O riso se transformou em murmúrios nervosos, e o
desconforto pairou no ar como uma tempestade prestes a eclodir. Elizabeth recuou, seu
sorriso desvanecendo-se enquanto a confusão tomava conta de seu rosto.

— Hades, eu só... — ela começou, mas eu não queria ouvir. A voz dela se tornara um eco
distante, perdida em um mar de memórias que não me deixavam em paz.

— Você não sabe nada! — berrei, a frustração crescendo em mim como um incêndio
incontrolável. O impulso de me afastar, de escapar daquele lugar e das pessoas que não
compreendiam, era avassalador.

Eu saí correndo, ignorando os olhares perplexos dos outros, a sensação de seus olhares
como facadas nas costas. O pátio se afastou enquanto eu me afastava, a distância entre
mim e Elizabeth se expandindo. Eu precisava sair. Precisava sentir o vento em meu rosto,
mesmo que isso significasse fugir da única pessoa que parecia ver algo em mim.

Quando cheguei ao fundo do corredor, encostei-me na parede, os batimentos do meu


coração ecoando em meus ouvidos como um tambor. O mundo ao meu redor parecia girar
enquanto a raiva e a dor lutavam por controle dentro de mim. Em um momento de
desespero, eu me deixei escorregar até o chão, os joelhos encolhidos e a cabeça enterrada
entre as mãos.

Então, a porta se abriu. Era Elizabeth. Seus olhos estavam cheios de uma preocupação que
eu não conseguia compreender.

— Hades, por favor... — ela disse, sua voz suave, como um bálsamo para a ferida que eu
carregava. Ela se agachou ao meu lado, mas eu a afastei, temendo que seu toque pudesse
me destruir. A conexão era uma linha fina entre o conforto e a dor, e eu não sabia qual dos
dois eu queria.

— Por que você se importa? — eu perguntei, minha voz falhando. — Ninguém se importa.
Ninguém entende.

— Eu quero entender! — ela insistiu, o olhar intenso e determinado. — Você não precisa
passar por isso sozinho.

Aquelas palavras penetraram em mim como uma flecha, desafiando a armadura que eu
construí ao longo dos anos. E então, a realidade da minha vida pesou ainda mais sobre
mim, a escuridão crescendo como uma sombra ao redor de meu coração. Eu queria gritar,
queria que ela soubesse que a escuridão não era algo que eu poderia simplesmente deixar
para trás.
— O que você sabe sobre a escuridão? — eu murmurei, meu tom um desafio. — Sobre o
que acontece quando a noite cai?

Ela hesitou, a expressão suavizando. — Não sei, mas quero aprender. Não quero que você
fique sozinho.

As palavras dela estavam carregadas de um significado que eu não podia ignorar. Era um
convite, um pequeno raio de esperança em um mundo onde eu me sentia perdido. Mas o
medo de deixá-la entrar era ainda maior.

— Você não sabe a que está se metendo, Elizabeth. O mundo não é como você imagina. É
cheio de monstros, e eu sou um deles.

Ela se aproximou mais, seus olhos nunca se afastando dos meus. — E se eu quiser ficar? E
se eu não me importar com os monstros?

Naquele momento, eu me vi diante de um dilema. Poderia eu realmente permitir que alguém


se aproximasse de mim, mesmo com toda a escuridão que carregava? Poderia eu abrir a
porta para a luz, mesmo sabendo que isso poderia me levar à ruína?

Enquanto a tensão aumentava entre nós, percebi que havia uma escolha a ser feita. E, de
alguma forma, aquela escolha poderia mudar tudo.

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