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Iracema de José de Alencar:
Capítulo XV:
"- A virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos !"
"... e ele já quer que o sonho já feche suas pálpebras, e que o sonho o leve à
terra de seus irmãos !"
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo II
”Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu
Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais
negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no
bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas
do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé
grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com
as primeiras águas.”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo III
-Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do
Jaguaribe21, perto do mar, onde habitam os pitiguaras, inimigos de tua nação.
Meu nome é Martim22, que na tua língua diz como filho de guerreiro; meu
sangue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tua pátria. Já meus
destroçados companheiros voltaram por mar às margens do Paraíba, de onde
vieram; e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões
do Apodi. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os pitiguaras 23 de Acaraú,
na cabana do bravo Poti, irmão de Jacaúna, que plantou comigo a árvore da
amizade. Há três sóis partimos para a caça; e perdido dos meus, vim aos
campos dos tabajaras
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo V
-Tupã deu à grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras,
donde manam os córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o
algodão; e abandonamos ao bárbaro potiguara 34, comedor de camarão, as
areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem florestas. Agora
os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca
dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no
Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras.
Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu
ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo VIII
-Os guerreiros de meu sangue trazem a morte consigo, filha dos tabajaras. Não
a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fora do combate
eles deixarão aberto o camucim40 da virgem na taba de seu hóspede. A
verdade falou pela boca de Iracema. O estrangeiro deve abandonar os campos
dos tabajaras.”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo IX
“- A tarde é a tristeza do Sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem
manhã, até que venha para ela a grande noite.
O mancebo se voltara. Seu lábio emudeceu, mas os olhos falaram. Uma
lágrima correu pela face guerreira, como as umidades que durante os ardores
do estio transudam da escarpa dos rochedos.
Caubi, avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.
O seio da filha de Araquém arfou, como o esto da vaga que se franja de
espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um pálido
reflexo para iluminar a seca flor das faces. Assim em noite escura vem um
fogo-fátuo luzir as brancas areias do tabuleiro.
-Estrangeiro, toma o último sorriso de Iracema... e foge!”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo XI
“Os guerreiros tabajaras, acorridos à taba, esperavam o inimigo diante da
caiçara.
Não vindo, eles saíram a buscá-lo.
Bateram as matas em torno e percorreram os campos; nem vestígios
encontraram da passagem dos pitiguaras; mas o conhecido frêmito do búzio
das praias tinha ressoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não havia
duvidar.
Suspeitou Irapuã que fosse um ardil da filha de Araquém para salvar o
estrangeiro, e caminhou direito à cabana do pajé. Como trota o guará 51 pela
orla da mata, quando vai seguindo o rastro da presa escápula, assim estugava
o passo o sanhudo guerreiro.
Araquém viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e não se
moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem
referia os sucessos da tarde; avistando a figura sinistra de Irapuã, saltou sobre
o arco e uniu-se ao flanco do jovem guerreiro branco.
Martim a afastou docemente de si, e promoveu o passo.
A proteção, de que o cercava a ele guerreiro a virgem tabajara, o desgostava.”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo XXVII
“Instante depois ela esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade e
abandono, que passara na solitária cabana. Outra vez sua graça encheu os
olhos do cristão; a alegria voltou a habitar em sua alma.
Como a seca várzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matiza-se de
flores, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e sua
beleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos.
Martim e seu irmão haviam chegado à taba de Jacaúna, quando soava a
inúbia; eles guiaram ao combate os mil arcos de Poti. Ainda dessa vez os
tabajaras, apesar da aliança dos brancos tapuias do Mearim, foram levados de
vencida pelos valentes pitiguaras.
Nunca tão disputada vitória e tão renhida pugna se pelejou nos campos que
regam o Acaraú e o Camucim; o valor era igual de parte a parte, e nenhum dos
dois povos fora vencido, se o deus da guerra não tivesse decidido dar estas
plagas à raça do guerreiro branco, aliada dos pitiguaras.”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo XXXII
“Descamba o Sol.
Japi sai do mato e corre para a porta da cabana.
Iracema, sentada com o filho no colo, banha-se nos raios do Sol e sente o frio
arrepiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do esposo, a esperança
reanimou seu coração; quis erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro
senhor, mas os membros débeis se recusaram à sua vontade.
Caiu desfalecida contra o esteio. Japi lambia-lhe a mão desfalecida e pulava
travesso para fazer sorrir a criança, soltando uns doces latidos de prazer. Por
vezes, afastava-se para correr até a orla da mata, e latir chamando o senhor;
logo, tornava à cabana para festejar a mãe e o filho.
Por esse tempo pisava Martim os campos amarelos do Tauape 123; seu irmão
Poti, o inseparável, caminhava a seu lado.
Oito luas havia que ele deixara as praias da Jacarecanga. Depois de vencidos
os guaraciabas na baía dos papagaios, o guerreiro cristão quis partir para as
margens do Mearim, onde habitava o bárbaro aliado dos tupinambás.”
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Iracema de José de Alencar:
Capítulo XXXIII
“O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do
Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a
terra onde repousava sua amiga e senhora.
O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a
predestinação de uma raça?
Poti com seus guerreiros esperava na margem do rio. O cristão lhe prometera
voltar. Todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a
ver se branqueava ao longe a vela amiga.
Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora
de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias,
derramou-se por todo seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração:
era o fogo das recordações acesas.
A chama só aplacou quando ele tocou a terra onde dormia sua esposa; porque
nesse instante seu coração transudou, como o tronco do jataí nos ardentes
calores, e refrescou sua pena de lágrimas abundantes.”