leu.
— Oh... sim, é claro. Achei muito interessante, Data. Sua utilização de
palavras foi muito... diferente. — Num ímpeto de sinceridade, Riker
acrescentou — Mas esse tipo de cena de amor... bem, não é exatamente o
estilo que eu escolheria para minha leitura pessoal. Creio que prefiro ... um
estilo mais masculino de contar histórias, se é que se pode dizer assim.
— Como qual?
— Bem, Riverton é um de meus favoritos. E, naturalmente, Hemingway.
Adeus às Armas e Por Quem Dobram os Sinos... são livros excelentes. Sem
sombra de dúvida ele foi um mestre.
— Compreendo... — disse Data. — Obrigado, comandante. Deu-me
muito em que pensar. Talvez eu reescreva alguns trechos...
Riker deu um tapinha nas costas do andróide.
— Continue tentando, Data — disse ele, num tom de alegre incentivo de
homem para homem. — Tenho certeza de que todos os grandes autores
aprenderam a importância de refazer o que escreveram.
O comandante seguiu pelo corredor, caminhando para a engenharia, com
um incômodo sentimento de culpa e uma pontada de pena no peito. Não podia
dizer-lhe que era uma droga, disse a si mesmo. Isso o teria deixado arrasado.
Riker suspirou, lembrando-se da primeira vez em que se encontrara com Data.
Pobre Pinóquio...
— Mensagem do Comando da Frota Estelar, capitão Picard — disse o
alferes Whitedeer.
— Obrigado, alferes — respondeu Picard. — Eu a receberei em minha
sala.
Erguendo-se, ele atravessou a ponte e entrou em seu santuário privativo.
Parou por um instante diante da janela, com seu esguio e elegante corpo
delineado contra a escuridão e as listras formadas pelas estrelas que passavam.
O capitão era calvo, tinha um nariz proeminente e penetrantes olhos castanhos.
Seu rosto majestoso não ficaria mal em um imperador romulano, mas a dureza
de suas feições eram atenuadas por um leve toque de bom humor em volta dos
olhos e dos lábios.
Naquele momento, porém, o capitão não estava nem um pouco bem
humorado. Sentando-se diante do terminal do computador, ordenou a
Whitedeer que lhe repassasse a mensagem.
O capitão enrijeceu os lábios enquanto passava os olhos pela mensagem.
A Marco Polo, uma nave mercante registrada na Federação, havia entrado no
Setor 3SR-5-42 no dia anterior e já estava seis horas atrasada em relação ao
horário em que deveria chegar à doca da estação espacial de Thonolan IV.
A nave estava definitivamente atrasada, e os transmissores sub-espaciais
de Thonolan IV haviam informado terem perdido contato com o cargueiro.
Aparentemente o contato simplesmente tinha sido interrompido. Não houve
qualquer indicação prévia de que o cargueiro tivesse encontrado qualquer
coisa fora do comum.
A Enterprise tinha ordens de procurar e resgatar também a Marco Polo.
Jean-Luc Picard ergueu os olhos da tela e fitou seu santuário privativo,
soltando um suspiro. Em seus muitos anos no espaço, ele havia desenvolvido
uma certa ... intuição, que jamais expressara abertamente. Em geral, ele
tomava toda as suas decisões por meio do raciocínio, mas sempre havia
aquelas raras situações em que a razão se mostrava inadequada e se fazia
necessário confiar na intuição.
Picard sentiu um súbito pressentimento que lhe provocou calafrios na
espinha. Será esta nossa última missão? pensou ele, perturbado, correndo os
olhos pela magnífica nave que lhe fora confiada. Ele observou seu peixe
colorido e exótico nadando no aquário redondo, então se ateve no modelo da
Stargazer. Depois de perder a Stargazer, jamais posso voltar a perder minha
nave. Seria como perder minha própria vida.
Ele suspirou. Ouviu então a campainha da porta e ergueu o rosto.
— Entre! — chamou Picard.
Ao identificar a pessoa que estava à porta, ele sorriu.
— Estava esperando que viesse.
A conselheira da nave Deanna Troi sorriu suavemente para o capitão, com
seus exóticos, negros e compreensivos olhos betazóides.
— Sempre que o senhor fica tão perturbado quanto está agora, não posso
deixar de perceber seus sentimentos — relembrou-lhe ela com sua voz
melodiosa e gentil. Ela era uma mulher atordoantemente bela, com um corpo
perfeito e longos cabelos negros presos por uma fiara cravejada de jóias.
— Estou ciente disso — disse ele. — Outra nave desapareceu, conselheira.
Desta vez foi um cargueiro com registro da Federação. A Marco Polo.
— Uma notícia perturbadora — disse ela, fitando-o intensamente com
seus olhos cor de ébano. — Mas não é a única coisa que o preocupa. Algo o
intriga...
Picard assentiu com a cabeça.
— A Marco Polo estava levando um carregamento de sementes para
Thonolan IV. Sementes de feleen que foram especialmente modificadas para
poderem crescer no solo thonolano, que é mais rico em potássio do que o de
outros planetas andorianos.
— E daí? — perguntou ela, quando o capitão interrompeu o que dizia,
permanecendo em profundo silêncio, imerso em seus pensamentos.
Ele assustou-se, como se desse conta naquele instante da presença da
conselheira.
— Como?... Oh, sim, perdoe-me, conselheira. O que me intriga é não
conseguir imaginar por que alguém desejaria roubar essa nave em particular.
Eles não poderiam vender seu carregamento roubado em nenhum outro lugar.
As sementes de Feleen não teriam nenhum valor cm outro planeta.
Simplesmente não cresceriam. E se os ladrões tentassem vendê-las para os
thonolanos, estariam se denunciando como os atacantes da Marco Polo.
— O senhor está baseando suas suposições na hipótese que os
desaparecimentos foram causados por piratas ou algo do gênero?
— Sim, essa era minha suposição. Mas tudo mudou agora — disse Picard,
preocupado. — Fui forçado a descartar essa teoria como pouco provável. Por
maiores que sejam as fraquezas morais dos ladrões, suas ações geralmente são
extremamente práticas.
— E o que nos resta então?
— Não sei. Não consigo imaginar os romulanos afastando-se tanto assim
de seu espaço para atacar abertamente as naves da Federação. Isso seria uma
declaração de guerra, e eles não têm demonstrado estarem preparados para
iniciar um conflito neste momento.
— Ferengi? — sugeriu Troi, hesitante. Picard sacudiu negativamente a
cabeça.
— Eles nunca capturariam uma nave com um carregamento que lhes fosse
inútil. Isso seria contrário a suas convicções mais profundas e seu desejo de
lucro.
— Então com o que ficamos? — perguntou a conselheira, como se já
soubesse a resposta.
O capitão assentiu com a cabeça.
— Se não é alguém nem algo que conhecemos, então por definição deve
ser algo alienígena. É bem possível que seja algo que nunca vimos antes.
Talvez algo hostil ... e, pelo que parece, mortal.
— Um fenômeno natural?
— Algum tipo de fenômeno espacial desconhecido, talvez? — Picard
tamborilou os dedos na superfície polida da mesa. — É possível...
— Mas não é essa sua opinião — disse Troi, lendo-lhe a hesitação com a
experiência de uma bem treinada obscrvadora.
— Não sei! — disse Picard, traindo momentaneamente sua frustração,
mas voltando imediatamente à sua calma habitual. — Não é essa minha
opinião, Deanna. Na verdade... meus instintos, como creio que você os
chamaria, me dizem que devemos nos preparar para cumprir o objetivo
principal desta nave.
— Contato com civilizações alienígenas.
— Sim. Contudo, neste caso em particular, esses alienígenas atacaram
oito naves. Não pretendo deixar que a Enterprise seja a nona.
A conselheira assentiu com a cabeça, compreensivamente.
— É um mistério, capitão. Digno do seu Dixon Hill, pelo que me parece.
Um leve sorriso esboçou-se no canto dos lábios do capitão.
— Ah, sim. Quem sabe eu conseguiria investigar melhor o problema se
pusesse meu chapéu e o sobretudo.
Troi sorriu maliciosamente, fazendo os olhos negros faiscarem.
— Nesse caso, senhor, seria mais do que justo permitir que o comandante
Data usasse aquele chapéu de caça ridículo e seu cachimbo fedorento.
Picard abriu um sorriso e abanou o ar em frente do nariz, fazendo uma
careta ao lembrar-se do cheiro do cachimbo.
— Posso admitir o chapéu — disse ele. — Mas aquele cachimbo é uma
ameaça ao sistema ambiental. Pode descartar Dixon Hill também. Tenho que
resolver este problema como Jean-Luc Picard.
O rosto do capitão tomou-se mais sombrio e duro.
— E pode estar certa de que o farei, conselheira — acrescentou em voz
baixa.
Três
— Entrando no Setor 3SR-5-42, capitão — anunciou o alferes honorário
Wesley Crusher. A tripulação da ponte ergueu os olhos de suas tarefas para as
estrelas que riscavam a tela com as cores do arco-íris.
— Reduzir a velocidade para dobra um, Sr. Crusher.
— Sim, senhor.
O jovem timoneiro tocou o imenso painel de controle, e a enorme nave
obedientemente diminuiu sua desabalada carreira.
— Dobra um, capitão.
Jean-Luc Picard recostou-se em sua cadeira de comando no centro da
ponte, com a conselheira da nave Deanna Troi em sua posição costumeira à
sua esquerda.
— Muito bem, Sr. Crusher.
Picard voltou o rosto para seu oficial andróide, que estava sentado junto ao
painel de operações ao lado de Wesley.
— Sr. Data, em nossa velocidade atual, quanto tempo levaremos para
chegar à última posição registrada da Marco Polo.
— Uma hora e dezessete minutos, capitão — disse Data. Seu rosto
estranhamente pálido parecia ainda menos humano sob as luzes intensas da
ponte. — Estou realizando uma varredura com os sensores de longo alcance,
conforme ordenado, senhor.
— Obrigado, Sr. Data. E quanto tempo levaremos para nos aproximarmos
da PaKathen!
— A última posição registrada dessa nave fica relativamente próxima das
coordenadas onde foi perdido o contato com a Marco Polo. Cerca de meio
ano-luz. Não posso ser mais preciso que isso, porque a PaKathen não estava
transmitindo quando desapareceu, de modo que a localização exata da nave
klingon não é conhecida.
— Compreendo... — O capitão pensou por um instante, depois se
aprumou na cadeira de comando. — Sr. Crusher, prepare um padrão de busca
sub-luz que inclua os dois grupos de coordenadas, com uma margem de erro
de meio ano-luz. Providencie para que ela seja realizada no mínimo de tempo
de busca e com o máximo de economia de combustível.
— Sim, capitão! — respondeu Wesley, entusiasmado. O jovem
adolescente imediatamente começou a trabalhar no computador, assumindo a
expressão absorta que costumava surgir em seu belo rosto sempre que resolvia
um problema abstrato. Ele se parece tanto com o pai. Pensou Picard. Jack
costumava assumir essa mesma expressão quando tinha um problema para
resolver. E quanto mais difícil era o desafio, mais ele o apreciava.
Um discreto e carinhoso sorriso esboçou-se no rosto do capitão enquanto
observava o jovem de cabelos castanhos inclinado com tanto empenho sobre o
painel do computador. Percebeu então que Troi o observava com um sorriso
compreensivo, e rapidamente voltou à sua expressão de costume.
— Sr. Data — disse bruscamente. — Já conseguiu a informação a respeito
da Marco Polo que pedi?
— Sim, capitão — disse o andróide, voltando o rosto para seu oficial
comandante. — Devo colocá-la na tela principal?
— Sim, por favor, Sr. Data.
Data apertou um botão no painel de operações, e o desenho esquemático
de uma nave apareceu no lugar do espaço estrelado na tela principal. A nave
era um cargueiro grande, que não tinha as formas esguias da Enterprise.
Abaixo do pequeno setor do disco, os compartimentos de carga da nave
davam-lhe a aparência de estar prenhe.
— A Marco Polo é um cargueiro classe um, capitão. — disse Data,
passando a falar como se estivesse dando uma aula. — E uma nave construída
para transportar produtos agrícolas e artigos de luxo. Tem uma tripulação de
quarenta e três pessoas. Seus compartimentos de carga têm a capacidade de
— Conheço muito bem a capacidade de carga de um cargueiro classe um,
Sr. Data — interrompeu o capitão. — Qual a idade desse cargueiro em
particular?
— Ele foi originalmente lançado há noventa e três anos, senhor, mas foi
completamente remodelado há trinta e um anos.
— Ainda assim é bem antigo — disse o capitão, mais para si mesmo,
cocando o queixo, pensativo. — Numa nave tão velha como essa, deve haver
muitos vazamentos iônicos dos motores.
— Creio que tem razão, capitão.
— Poderemos rastrear uma trilha iônica, então. Procure identificá-la com
os sensores, Sr. Data.
— Sim, capitão.
— Selar, eu vou ter que deixar você, a Dra. Crusher e meus amigos em
breve? — perguntou Thala, hesitante. — Meus parentes vão vir e me levar
embora daqui?
A médica vulcana ergueu uma sobrancelha ao ouvir a pergunta da menina.
Ela e a criança andoriana estavam sentadas no alojamento da médica,
ouvindo um dos compositores humanos favoritos de Selar, Johann Sebastian
Bach. Na opinião da vulcana, Bach era o gênio humano que melhor tinha
compreendido o valor da moderação, da ordem, do controle das emoções e sua
canalização para a criação da beleza. Ouvir Bach muitas vezes ajudava Selar a
resolver seus problemas, mais do que qualquer compositor de músicas para
harpa vulcana.
Thala também gostava de música clássica humana, mas de um tipo muito
diferente. Seu compositor favorito da Terra era Elvis Presley.
Esticando o braço para o controle do computador, Selar diminuiu o
volume da música.
— Por que pergunta isso, Thala?
— Porque você e a Dra. Crusher disseram que meus parentes em meu
planeta natal haviam decidido o que fariam comigo, e que eu não poderia mais
morar aqui na nave. Mas isso já faz muitos dias, e nenhuma de vocês me disse
nada a esse respeito desde então.
Os olhos cegos da menina ficaram fitando por sobre o ombro esquerdo de
Selar, mas a médica leve a perturbadora impressão de que a menina conseguia
perceber seus pensamentos melhor do que qualquer pessoa com visão normal.
Sua suspeita foi confirmada pouco depois, quando Thala acrescentou:
— Sei que você tem estado preocupada comigo ultimamente.
— Você tem estado... freqüentemente... em meus pensamentos — disse
Selar. — É verdade que tenho me preocupado com seu futuro.
— Por quê?
A vulcana ergueu-se e caminhou lentamente pelo alojamento, pensativa.
Thala é uma criança cheia de imaginação, apesar de todo o seu lado prático.
Ela pode muito bem estar imaginando uma situação bem pior do que a
realidade. Não posso mentir para ela, pois sou vulcana. Selar parou diante do
pequeno nicho com as cortinas vermelhas e o tradicional incensório. Procurou
escolher bem as palavras
— Quando você ficou sabendo que teria que deixar a Enterprise e
possivelmente voltar para seu planeta natal, onde moram seus parentes que
você nunca conheceu, lembra-se do que disse, Thala?
— Sim — respondeu a menina com firmeza. — Eu disse que não desejava
ir morar com estranhos, mesmo que fossem meus parentes.
— Isso mesmo. Bem, quando a Dra. Crusher entrou em contato com seu
clã, aparentemente seus parentes tiveram a mesma reação.
Selar voltou-se para encarar a menina, esperando ver o desapontamento
tomar-lhe o rosto. Mas Thala permaneceu impassível como uma vulcana
adulta.
— Bem, não os culpo por não me quererem. Não os quero também —
disse Thala. — Eu não os conheço.
— É verdade — concordou Selar.
A criança pensou por instante, depois sorriu.
— Se eles não me querem, então isso quer dizer que posso ficar com você
na nave, Selar?
— Ainda não sei o que vai acontecer, Thala — disse a vulcana, com tato.
— Pode ser que nem eu mesma permaneça na Enterprise.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Thala, desconcertada.
— Ofereceram-me um cargo em meu planeta natal, na Academia Vulcana
de Ciências, de chefe de pesquisas. E um cargo muito bom, e estou pensando
em aceitá-lo.
Pela primeira vez em semanas a criança mostrou-se realmente
desapontada.
— Você vai embora! Oh, não! Se você partir, nunca mais a verei de novo!
— Ela começou a embalar-se na cadeira, abraçando-se a si mesma. Os
andorianos não choram, pois não possuem duetos lacrimais, mas um som
discreto e raspado soou do fundo de sua garganta.
Selar enrijeceu os lábios e hesitou, perguntando-se se deveria chamar
Beverly para cuidar da situação. Ela não se sentia capacitada a lidar com
transtornos emocionais. Era óbvio que Thala estava sofrendo ao pensar que
teria de separar-se dela. Toda aquela situação estava deixando a vulcana mais
perturbada do que ela gostaria de admitir.
Depois de um longo minuto de hesitação, ela percebeu que não poderia
ficar lá sem fazer nada. Aproximou-se da criança e colocou, hesitante, a mão
em sua cabeça, entre as antenas, sentindo a maciez de seu cabelo e o calor de
sua pequena cabeça. Sentiu algo torcer dentro de si ao perceber a dor que a
criança sentia.
— Thala — disse ela suavemente, procurando transmitir calma e consolo
da melhor maneira possível. — Por favor, não fique assim. Você fará novos
amigos, aonde quer que vá...
— Mas você não estará lá — soluçou a criança.
— Thala, escute o que vou dizer — Selar continuou a sussurrar, mas sua
voz assumiu certo tom de autoridade. — Está-me ouvindo?
— Sim...
— Dou-lhe minha palavra que não deixarei a Enterprise antes que você
tenha encontrado um lugar para morar. Está bem? Não aceitarei esse cargo até
que tenham sido feitos os acertos para que você seja levada em segurança para
seu novo lar, onde quer que seja. — Ela pensou no que um atraso prolongado
significaria para suas chances de assumir o cargo e afastou a idéia com
determinação. Alguém tinha que assumir a responsabilidade de providenciar
para que Thala fosse bem tratada, e ela era sua médica e professora. Era seu
dever.
— Promete...?
— Acabei de fazê-lo.
A menina ergueu seus dedinhos azuis e apertou a mão da vulcana.
— Obrigada, Selar.
— Procure não se preocupar. A Dra. Crusher e eu vamos fazer todo o
possível para assegurar seu bem-estar.
— Eu sei.
Selar ouviu o pequeno tremor na voz da criança, mas vendo que Thala
estava tentando controlar suas emoções, não fez caso disso. A vulcana
também procurou ignorar o alívio que ela mesma sentiu ao tomar essa decisão.
O alívio de poder adiar o dia em que teria de encarar sua família, Sukat e a
família dele, em Vulcano.
— Não sei não, Sonya — disse Geordi La Forge para a jovem de pele
azeitonada que estava verificando as leituras dos motores de dobra da
Enterprise sob sua supervisão. — Essa nova tarefa está-me dando calafrios.
As naves estão ali em um momento e desaparecem no outro. Não gosto disso.
A alferes Gomes afastou uma mecha de seu cabelo escuro que lhe caía até
os ombros e fez uma anotação no diário de engenharia.
— Deve ser apenas um renegado ferengi, piratas ou coisa parecida. Talvez
sejam klingons fora-da-lei. Você vai ver. Assim que eles verem a Enterprise
em suas telas, vão morrer de medo e fugir às pressas.
— Pode ser... — disse La Forge. — Eu concordaria plenamente se aquela
nave klingon não tivesse desaparecido. Atacar uma nave cheia de klingons
não é algo que a maioria dos piratas pensaria em fazer, mesmo em seus sonhos
mais desvairados. E você conhece o desprezo que os klingons sentem pelos
ferengis. Elas lutariam até a morte para evitar a desonra de perderem para
aqueles gnomos gananciosos.
— Bem, talvez tenha sido outra nave cheia de klingons.
— A última coisa que klingons renegados gostariam de fazer seria atrair a
atenção de uma nave klingon oficial. O império enviaria uma esquadra inteira
para vingar a perda de um cruzador, se isso fosse necessário.
Gomez ergueu o rosto, pensou um momento, depois deu de ombros.
— Você tem razão. É mesmo uma missão estranha, não é?
— É, sim. Faz-me lembrar as histórias que li a respeito da Velha Terra,
quando havia navios que cruzavam os mares.
Gomez, que nunca tinha visto a Terra, tendo nascido em uma colônia,
ficou curiosa.
— Que tipo de histórias?
— Há centenas de anos, contava-se lendas a respeito de locais que eram
armadilhas para marinheiros incautos. Você podia ficar presa pelas calmarias
na região da Latitude do Cavalo...
— Não sabia que havia cavalos no oceano — interrompeu Gomez. Pensei
que eles fossem mamíferos herbívoros e terrestres.
— Não havia cavalos no oceano — disse Geordi. — Apenas
cavalos-marinhos.
— Cavalos-marinhos? São cavalos que moram no mar?
— Não cavalos-marinhos não são eqüinos. São... droga, não sei o que são.
Moluscos, talvez, ou crustáceos...
— Baleias? As baleias corcundas que estão sempre sendo mencionadas
nos artigos sobre repopulação?
Geordi estava começando a sentir-se como quando conversava com Data.
— Não, Sonya. Esses são cetáceos. Animais marinhos inteligentes.
Cavalos-marinhos são pequenas criaturas aproximadamente deste tamanho —
mostrou o tamanho com o indicador e o polegar — que não têm nada a ver
com os cavalos de quatro patas.
— Certo, já entendi. Continue. Os marinheiros se perdiam...
— Isso. Os navios costumavam desaparecer, e eles tinham todas aquelas
lendas para explicar o por quê. Havia de tudo, desde dragões marinhos que
comiam os navios ate a queda da borda do oceano. Eles costumavam marcar
as regiões inexploradas em suas cartas de navegação com o aviso: "Aqui
habitam monstros".
Gomez deu uma risadinha.
— E a verdade a respeito desses desaparecimentos misteriosos era que a
tripulação apenas tinha decidido amotinar-se e passar a ter uma vida boa em
uma ilha tropical, com lindas mulheres quase sem roupa, certo?
— Claro, isso acontecia muitas vezes. Mas havia lugares que eram
realmente perigosos para os navios. Um dos mais perigosos era o Mar de
Sargaços.
— Sargaços?
— Sargaços é um tipo de alga que cresce desde o fundo do oceano até a
superfície. Um navio pode estar navegando livre como um pássaro num
minuto e de repente ser apanhado na rede de sargaços, ficando totalmente
impedido de prosseguir. A alga enrola-se na quilha do navio, que fica preso,
para nunca mais libertar-se.
— O navio não poderia cortar simplesmente as algas.
— Os infelizes marujos tentavam de tudo para libertarem-se: arrastar o
navio com barcos a remo, cortar as algas, tudo o que conseguiam imaginar.
Suponho que alguns conseguissem escapar, mas geralmente os que ficavam
presos não tinham qualquer chance de libertar-se. Os navios e a tripulação
permanecia ali, indefesos e aprisionados, até não haver mais água potável nem
comida. Às vezes os homens conseguiam sobreviver meses com água de
chuva e peixes, mas... — Ele sacudiu a cabeça, imaginando a situação. —
Acabavam ficando loucos e voltavam-se para o cani...
Ele interrompeu abruptamente o que dizia, percebendo como era
desagradável o quadro que estava pintando.
— De qualquer forma, era horrível. Os navios que voltavam ao porto
contavam ter encontrado cascos apodrecidos cheios de esqueletos espalhados
pelo convés...
Geordi percebeu Sonya estremecer subitamente, vendo a cor do corpo
dela mudar de aspecto, dando-se conta de que tinha realmente assustado a
moça.
— Ei. Chega de histórias arrepiantes — disse ele, dando um tapinha
amigo nas costas da colega.
— É melhor nos apressarmos na preparação do relatório de consumo de
combustível — disse ele bruscamente, mudando de assunto — antes que
Wesley nos chame. Wes anda tão entusiasmado para impressionar o capitão
com a eficiência de seu padrão de busca, que é capaz de descer até lá
pessoalmente para contar cada átomo usado para fornecimento de energia.
— Certo, chefe — disse Gomez, com um sorriso trêmulo. — Por falar
nisso — disse ela enquanto andavam até o outro lado do convés da engenharia
— se decidir que está entediado com o serviço a bordo de uma nave estelar,
podia muito bem seguir carreira como escritor de histórias de terror.
Geordi deu uma risadinha.
— Vou deixar isso para o Data.
A Dra. Beverly Crusher sentou-se diante da tela de comunicação de seu
consultório, esforçando-se para não deixar transparecer a raiva que estava
sentindo. Sua chamada para Thonolan IV não estava indo muito bem.
— Deixe-me ver se entedi direito, administrador Thuvat — disse ela. —
Você aceita receber a menina cm sua base, mas somente se tivermos tentado
entrar em contato com todos os possíveis parentes em todos os planetas
colonizados pelos andorianos e ela for recusada por todos eles? Isso pode
levar meses!
— É possível. — O rosto azulado do administrador ficou um pouco mais
roxo e ele retorceu as antenas de impaciência. — Mas regras são regras. Não
devemos deixar passar a menor chance de que alguém de sua família a aceite.
Possivelmente encontraremos um lugar para acolhê-la em uma de nossas
colônias agrícolas remotas, onde qualquer mão de obra, por mais incapacitada
que seja, será de grande ajuda. Diga-me, a menina sabe costurar? Cerzir? Eles
dizem que... — franziu ainda mais os lábios — pessoas cegas são geralmente
muito hábeis com as mãos. Talvez essa criança possa ser treinada cm algum
tipo de trabalho manual que não exija o uso da visão... — Ele suspirou,
deixando transparecer seu desprezo.
Beverly Crusher respirou fundo e contou até dez, primeiro em sua própria
língua, depois em alemão, em seguida cm Vulcano.
— Administrador Thuvat. Parece achar que Thala é mentalmente
retardada além de cega. Isso definitivamente não é verdade. Ela é uma criança
extremamente brilhante. Com a devida educação, poderá ser bem sucedida cm
muitas carreiras: trabalhar com computadores, por exemplo, ou direito, física,
como professora, escritora, centenas de coisas! E se receber uma prótese
visual adequada, poderá realizar qualquer tarefa da mesma forma que uma
pessoa não incapacitada. Nosso engenheiro chefe a bordo da Enterprise, o Sr.
La Forge, é cego de nascença e exerce uma carreira extremamente bem
sucedida como oficial da Frota Estelar!
— Mmmm... — foi a única resposta que Thuvat deu ao discurso
inflamado da médica. O andoriano hesitou, percebendo evidentemente que
Crusher não estava satisfeita com o curso que a conversação havia tomado. —
Compreenda, doutora, que não me cabe tomar essa decisão. Asseguro-lhe que
faremos tudo o que for exigido de nós nessas circunstâncias. Simplesmente
estou-lhe informando quais são as normas referentes às crianças órfãs.
— Suponha que ninguém da família de Thala, em qualquer dos planetas
andorianos, queira aceitá-la. Nesse caso, o que aconteceria? — perguntou
Crusher com rispidez.
— Então seguiremos as normas, naturalmente, e encontraremos um lugar
para ela em Thonolan IV.
— Um lugar — repetiu Beverly, lentamente. — O que significa isso? De
que tipo de lugar estamos falando?
— Existem muitas instituições cm nossas maiores cidades que cuidam
daqueles que não se enquadram em nossa sociedade. Esses indivíduos
desafortunados recebem comida, abrigo e cuidados nesses lugares.
Cuidados! Crusher quase engasgou de indignação ao imaginar a situação.
Ele parece que está falando de animais rejeitados!
— E quanto a uma adoção? — perguntou ela, esforçando-se para controlar
o tom de voz.
Thuvat surpreendeu-se com a sugestão.
— Suponho que seja possível — conseguiu dizer, por fim. — Talvez
possamos encontrar algo...
E claro que sim, pensou Beverly, com amargura. Alguma gentil família
que precise de alguém para tricotar suéteres ou o equivalente andoriano,
sentada à beira da lareira, agradecida por receber as sobras da casa.
Maldito seja você! Sentiu uma pontada no coração de imaginar Thala, ou
qualquer outra criança, vivendo em um lar onde não era benquista.
— Administrador Thuvat — disse ela, por fim. — posso fazer um pedido
para que essa pesquisa seja efetuada pelas agências da Federação. Mas
francamente acho que isso vai levar muito tempo. Talvez se você realizar as
pesquisas, consiga alcançar resultados mais rápidos.
Thuvat suspirou.
— Possivelmente. Farei o que puder, se esse for o seu pedido. — Ele
estava visivelmente ansioso para que ela não o fizesse. De repente, pareceu ter
uma idéia. — Diga-me, doutora, será que os pais dessa infeliz criança tinham
alguma propriedade de valor? Isso pode fazer diferença ao procurarmos uma
família que queira adotá-la.
Essa foi a última gota. Beverly Crusher lutou silenciosamente consigo
mesma para não dar vazão a sua vontade de dizer umas verdades, então
sacudiu a cabeça, pesarosamente.
— Sinto dizer que não, administrador — mentiu ela. — Há apenas um
pequeno fundo de auxílio que será entregue a Thala pessoalmente quando
ficar adulta.
— Oh, isso é uma pena — o interesse momentâneo do administrador
arrefeceu-se. — Bem, sinto dizer que tenho outros compromissos. Algo mais
que queira dizer? Deseja que eu solicite a pesquisa de registros?
— Não, obrigada, administrador — disse a médica. — Detestaria dar-lhe
mais preocupações. Vou deixar que o pessoal da Federação cuide disso.
— Ótimo. Desejo-lhe boa sorte na resolução de seu problema.
— Muitíssimo obrigada, administrador Thuvat que todos os seus
problemas sejam pequenos como este — disse Beverly, com fingida doçura.
O andoriano não percebeu o sarcasmo.
— Obrigado — disse ele. — Adeus, doutora.
Com uma pancada violenta, a médica interrompeu a ligação com
Thonolan IV.
— Maldito verme burocrata — murmurou ela, depois que a tela estava
apagada. Suspirando, Beverly passou a mão no cabelo, depois inclinou a testa
sobre o dorso das mãos. Começou em seguida um exercício de
meditação-relaxamento.
Preciso contar a Selar. Vulcana ou não, isso vai deixá-la perturbada. Que
confusão. Pobre Thala...
Na ponte da Enterprise, Wesley Crusher subitamente aprumou-se em sua
cadeira.
— Capitão, estou captando uma trilha iônica — disse ele, sem conseguir
disfarçar seu entusiasmo.
— Muito bem, Sr. Crusher — disse Picard para o ar, e o computador
automaticamente retransmitiu sua voz. — Imediato, o Sr. Crusher parece ter
encontrado algo promissor.
— Estou a caminho — respondeu a voz de Will Riker.
O capitão esperou até seu segundo em comando chegar, enquanto Wesley
trabalhava febrilmente no computador. Riker olhou para o painel por cima do
ombro do jovem oficial, depois acenou silenciosamente com a cabeça,
demonstrando sua aprovação. Wesley corou de satisfação.
— Parece ser o que estávamos esperando encontrar — disse Riker. — É
exatamente o tipo de trilha que seria deixada por uma nave como a Marco
Polo.
— Ela foi arrastada para fora de seu curso, capitão — disse Wesley — por
algum tipo de ... ahn... campo de... energia.
— Um raio trator? — perguntou Riker, olhando para o tenente Worf, que
permaneceu junto ao painel de segurança e comunicações, na parte de trás da
ponte. O chefe de segurança klingon cerrou os lábios, mas o restante de suas
feições permaneceram impassíveis.
— Não, senhor — disse Wesley, sacudindo a cabeça, perplexo. —
Aparentemente teve o mesmo efeito que um raio trator, mas esse tipo de
energia... bem, não é nada que eu já tenha visto antes.
— Confirmado — disse Data, em resposta ao olhar inquiridor de Riker. —
Não é semelhante a nada que já foi encontrado no espaço da Federação, dos
romulanos ou dos klingons.
— Um novo tipo de campo de energia ... — Picard ergueu-se e caminhou
até a tela principal. — Destrutivo? Algum sinal de fragmentos que possam
indicar uma explosão ou uma batalha?
— Não, senhor — respondeu Crusher. — Parece um raio trator, mas é
baseado cm um tipo inteiramente diferente de energia. Ele simplesmente
arrastou a nave para fora do curso.
— E quanto à PaKathen? — rosnou Worf. — Algum sinal dessa nave?
— Não, tenente — o jovem oficial enrugou a testa. — Mas as naves
klingons são construídas de modo a não deixarem uma trilha iônica que
indique sua localização. Portanto ela pode também ter sido arrastada para fora
do curso.
— É também inteiramente possível que os dois desaparecimentos não
tenham qualquer relação entre si — disse Picard, fitando as profundezas do
espaço, com a luz das estrelas refletindo cm seu rosto austero.
— É possível, mas estatisticamente improvável — acrescentou Data,
solícito.
— Qual é a potência desse campo, Sr. Crusher? Será que a Marco Polo
conseguiria libertar-se dele?
— Duvido, capitão — o rosto magro do jovem estava bastante sério. —
Um cargueiro nunca teria tanta força, senhor.
— E quanto à Enter...
O capitão interrompeu subitamente o que dizia quando sua nave
literalmente deu uma guinada no espaço. Apesar do campo gravitacional
artificial, dos estabilizadores, dos escudos contra meteoros e de todos os
dispositivos de proteção que a enorme nave estelar possuía, por um momento
a Enterprise corcoveou sob seus pés, como um cavalo xucro. O alerta
vermelho disparou automaticamente.
Picard quase perdeu o equilíbrio, mas a nave estabilizou-se novamente,
impedindo-o de cair. O capitão voltou-se para encarar a tripulação da ponte e
com admirável sangfroid completou sua frase.
— A Enterprise conseguiria libertar-se desse campo de energia
desconhecido?
— Não se sabe, capitão — disse Data. — Mas suspeito que iremos
descobrir a resposta muito cm breve, senhor. O campo, ou seja lá o que for,
acabou de nos prender.
Quatro
— Podemos nos libertar? — perguntou Picard.
— Não sei, capitão — disse Data. — Certamente não sem danificar os
motores de dobra. Este raio trator é muito mais poderoso do que jamais
encontramos.
Houve um momento de silêncio depois do andróide ter falado. Picard
então olhou para o oficial klingon.
— Tenente, peça ao Sr. La Forge que venha para a ponte. Quero que ele
assuma o posto de engenharia.
— Sim, capitão.
Não levou muito tempo para o jovem oficial aparecer. Assim que a nave
se deparou com o campo de energia desconhecido, Geordi somente
permaneceu na engenharia o tempo suficiente para verificar se a Enterprise
havia sofrido algum dano. Depois, antecipando a ordem do capitão, seguiu
imediatamente para a ponte de comando. La Forge já estava no turboelevador
quando lhe foi repassada a ordem do capitão.
Assim que o engenheiro chegou à ponte, ele olhou em volta para
identificai' os presentes, cujos espectros de cor eram tão característicos de
cada pessoa para o oficial cego quanto seus rostos o seriam para um tripulante
com visão normal.
— Quero sua opinião sobre o que acabamos de encontrar, Sr. La Forge —
disse o capitão.
— Sim, senhor. — La Forge dirigiu-se imediatamente para o painel da
engenharia na parte de trás da ponte. Ao examinar as leituras, espantou-se
com o que viu. — Eu achava que já tinha visto de tudo — murmurou para si
mesmo, sacudindo tristemente a cabeça.
— Alguma conclusão, Sr. La Forge? — perguntou o capitão. Geordi
aprumou-se e resistiu ao ímpeto de cocar a cabeça.
— Fomos envolvidos por uma forma desconhecida de energia, de origem
artificial. Está começando a arrastar a nave pelo mesmo caminho seguido pela
Marco Polo. E ê extremamente potente.
— Artificial... — repetiu Picard, pensativo. — Isso nos deixa duas
possibilidades. Ou este campo representa algum tipo de descoberta científica
recente de seres já conhecidos, ou..
Ele olhou para o segundo em comando de modo significativo, e Riker
concluiu seu pensamento:
— Ou ela é gerada por algo que nunca vimos antes. Algo alienígena.
— Qual é nossa posição atual, Sr. Crusher? — perguntou Picard,
voltando-se para seu oficial mais jovem.
— Estamos sendo arrastados, senhor, como o Sr. La Forge disse. Nossa
velocidade está aumentando gradativamente à medida que o campo sobrepuja
nossa inércia.
— Se continuarmos nesse passo, qual é a velocidade provável que
chegaremos a alcançar? — perguntou Riker.
Wesley franziu a testa. Geordi viu a face do menino mudar de cor quando
seus músculos se contraíram.
— Bem, isso depende do que está nos puxando. Melhor dizendo, depende
da distância que estamos de nosso destino. Eu diria que vamos atingir a
velocidade mínima de impulso cm cerca de duas horas.
— Quanto tempo ele levou para nos envolver?
— Três vírgula um segundos, senhor.
— Capitão — disse La Forge — já tenho força de dobra a nosso dispor,
por isso podemos tentar nos libertar.
— Acha que conseguiremos, Sr. La Forge? O engenheiro chefe hesitou.
— Não tenho certeza, capitão. Isso exigirá uma potência considerável, se
a força que nos está arrastando permanecer constante... — sacudiu a cabeça.
— Bem, talvez.
— Muito bem — disse Picard, pensando em silêncio por um instante. —
Tenente Worf, é possível fazer contato com o Comando da Frota Estelar?
— Negativo, capitão — a voz grossa do klingon não denotava qualquer
pesar. Não existe nada que Worf aprecie mais do que a chance de enfrentar
todos os inimigos com as próprias mãos, pensou Geordi. Já faz algum tempos
que não encontramos um problema de verdade, e ele está ansioso por isso.
— O campo está impedindo todas as transmissões e recepções em todas as
freqüências do subespaço, senhor. Até que consigamos nos libertar será
impossível qualquer comunicação, exceto em distâncias muito curtas.
O capitão voltou-se para o primeiro oficial.
— O que recomenda, Imediato?
— Recomendo que tentemos nos libertar agora, capitão. Depois
procuremos seguir o campo de energia até sua fonte usando nossos sensores.
Picard pensou em silêncio por um instante, depois sacudiu a cabeça.
— Não. Ainda não é o momento de procurarmos nos libertar. Recebemos
ordens de encontrar e resgatar a Marco Polo e a PaKathen, e a melhor chance
que temos de encontrá-las será deixando que sejamos arrastados até o lugar
para onde foram levadas.
— Quer dizer... permitir que sejamos aprisionados na armadilha? —
perguntou Riker lentamente.
O silêncio e a tensão na ponte tornaram-se quase tangíveis de tão intensas.
Picard assentiu com a cabeça.
— Se tentarmos nos libertar agora e fracassarmos, teremos forçado nossos
motores de dobra além de sua capacidade, sem termos alcançado nosso
objetivo. Creio que se preservarmos nossa energia permitindo que essa "força
desconhecida" nos dê uma carona até conseguirmos identificar seu ponto de
origem em nossos sensores, poderemos então tentar nos libertar para
investigar e talvez resgatar as duas naves.
Riker acenou com a cabeça, admirado. Picard voltou-se para o oficial
klingon.
— Tenente Worf, é possível lançarmos uma bóia com velocidade
suficiente para que se liberte do campo?
O chefe da segurança fez alguns cálculos.
— Sim, capitão, creio que isso será possível.
— Prepare um resumo de nossa situação e lance a bóia, tenente.
— Sim, senhor.
— Quero todos os sensores ajustados na potência máxima em todas os
comprimentos de onda, Sr. Data — ordenou Picard. — Quero ser
imediatamente informado se algum sinal de nosso destino for detectado. Por
favor informe seu substituto que continue monitorando todos as faixas do
espectro.
— Isso não será necessário, capitão — disse Data.
— O que quer dizer com isso? — disse o capitão, consultando Riker com
o olhar. — Seu turno está prestes a terminar, não é mesmo?
— Sim, senhor — concordou o andróide, ao mesmo tempo que o primeiro
oficial confirmava o fato. — Mas estou preparado para permanecer em
serviço durante toda a duração deste alerta.
O capitão fitou a tela, pensativo.
— Isso não será necessário — disse ele, depois voltou-se para o andróide,
com as feições um pouco abrandadas. — Porém considero sua disposição de
trabalhar além de seu turno algo muito louvável. Pode permanecer em serviço,
se desejar, comandante. Não creio, contudo, que encontraremos qualquer tipo
de perigo hoje... ou pelo menos nas próximas horas.
— Meus instrumentos confirmam essa conclusão, capitão. Não há
qualquer sinal de nosso... — pensou um pouco — inimigo até onde meus
sensores podem captar, o que significa que o contato com nosso destino
desconhecido não poderá ocorrer nas próximas seis horas, pelo menos.
— Seis horas — repetiu Picard, secamente. — Temos tempo para respirar,
Sr. Data. Devemos procurar desfrutar essa trégua enquanto durar.
Apesar dos riscos envolvidos na missão que a nave havia recebido, o
alferes interino Wesley Crusher estava de bom humor quando entrou na sala
de recreação principal da nave, que se chamava Ten-Forward. O capitão
Picard havia aprovado seu padrão de busca, e ele fora elogiado na frente do
comandante Riker quanto ao modo criativo que havia entrelaçado as linhas de
busca de modo a economizar combustível e tempo. Apesar de o capitão
sempre reconhecer o mérito merecido, um elogio público de Jean-Luc Picard
era tão raro a ponto de ser algo memorável e que devia ser saboreado com
gosto...
Sorrindo discretamente ao recordar-se desse fato, o jovem passeou pela
sala de recreação. O Ten-Forward era um salão grande e pouco iluminado,
com mesas com luminárias, sofás e cadeiras espalhados, muitos deles
voltados para as diversas janelas, que mostravam as estrelas em movimento,
oferecendo um maravilhoso cenário de fundo. Conversas particulares criavam
um efeito sonoro que suplantava a música ambiente. Distraidamente, Wesley
identificou a música como sendo um dos poemas tonais da compositora
vulcana T’Nira.
— Quer tomar alguma coisa, Wes?
O jovem saiu de seu devaneio, percebendo que havia cruzado o salão e
sentado-se junto ao bar sem tomar consciência do que fazia. Guinan estava
diante dele, inclinada sobre a superfície polida do balcão, com um discreto e
bem conhecido sorriso nos lábios. Sua pele morena era talvez um pouco mais
clara que a de Geordi, e suas feições era bastante humanas... mas
curiosamente desprovidas de pelo. Acima de seus lábios carnudos, os olhos
castanhos de Guinan brilhavam debaixo de sobrancelhas quase inexistentes de
tão finas. Wesley chegava a perguntar-se se Guinan teria algum cabelo no alto
da cabeça ou apenas um rabo de cavalo comprido. Mas não havia como saber.
A atendente sempre usava chapéus chamativos que complementavam suas
roupas esvoaçantes.
— Oh, oi, Guinan. Pode me fazer um daquele com frutas?
— Você quer dizer o Fomalhaut Frenzy? Aquele verde e cor de rosa?
— Isso. E um sanduíche, por favor. De queijo suíço com bacon e tomate.
— Já está saindo — disse ela, virando-se para programar o processador de
alimentos.
A atendente do Ten-Forward era um enigma para a maioria da tripulação
da nave. Ninguém sabia exatamente de que planeta ela tinha vindo. Jean-Luc
Picard havia pessoalmente escolhido Guinan para dirigir o salão de
entretenimento de sua nave. Obviamente ele já a conhecia, mas se sabia algo a
respeito dela, obviamente não tinha intenções de contar a ninguém.
Guinan colocou o sanduíche e a bebida diante do jovem oficial e sorriu, de
modo bondoso e enigmático, fazendo Wesley perguntar-se, não pela primeira
vez, qual seria a idade dela. Fisicamente ela parecia ter a idade de Geordi,
trinta e poucos anos, mas Wes sabia que ela devia ser mais velha que isso.
Precisar quão mais velha era realmente um mistério. Às vezes, ela parecia
quase tão jovem quanto ele, mas outras vezes, especialmente quando ele
olhava no fundo daqueles olhos castanhos, Wesley sentia que ela já havia
vivido centenas de anos e visto praticamente tudo que havia para se ver.
— Você parecia muito feliz da vida quando entrou aqui — disse ela,
enquanto ele atacava a comida com o entusiasmo típico dos adolescentes.
O jovem oficial assentiu com a cabeça, com a boca cheia.
— Estava sim, quero dizer, ainda estou. O capitão deu-me uma tarefa e
quando terminei ele disse que eu havia feito um excelente trabalho. E mais —
fez uma pausa para dar ênfase — ele disse isso na frente do comandante
Riker!
Guinan fez cara de ter ficado impressionada.
— Que elogio, hein? Então, qual é a situação de nossa missão? Wesley
deu de ombros.
— O capitão disse que estamos num período de trégua. Há um campo
trator alienígena de alguma espécie que está nos arrastando para um destino
desconhecido. Mas por enquanto, o capitão quer que ele nos arraste, para ver
aonde está nos levando. Ele acha que teremos tempo para nos libertar mais
tarde.
Guinan encheu de novo o copo do rapaz, sem que ele pedisse.
— O capitão geralmente tem bons motivos para as decisões que toma.
— É claro — disse Wesley, mordendo o último bocado. — Ótimo
sanduíche — disse ele, de modo quase incompreensível. — Obrigado,
Guinan.
— Quer outro?
Wes pensou por um instante, depois suas feições normalmente sérias
abriram-se em um amplo sorriso.
— Por que não?
Depois de ter terminado o segundo sanduíche tão rapidamente quanto o
primeiro, Wesley recostou-se na cadeira e ficou observando a atendente servir
ao tenente Worf uma porção generosa de gagh klingon. Wesley deu uma
olhada no prato, depois desviou rapidamente o rosto. Ainda não conseguia se
acostumar com a idéia de comer algo que se movia.
O comandante Riker deve ter nervos de aço, pensou ele, reprimindo uma
expressão de nojo, para ter conseguido servir em uma nave klingon e comer
no refeitório deles. Também deve ter um estômago de ...
Foi interrompido por uma voz.
— Olá, Wesley.
Wes girou na cadeira e viu Data de pé a seu lado. O andróide carregava
uma porção de folhas de papel que pareciam estar preenchidas com letras
escritas à mão.
— Oh, olá, Data. Sente-se.
— Obrigado, Wesley. Farei isso.
Guinan perguntou com o olhar se algum dos dois queria algo (Data não
precisava comer ou beber como os humanos, mas podia fazê-lo e às vezes
acompanhava os amigos em um brinde), mas ambos os oficiais acenaram
negativamente.
Wes olhou com curiosidade para as folhas que o amigo carregava.
— O que está levando aí, Data?
— É um trecho do romance que estou escrevendo, Wesley — respondeu o
andróide. — Vim aqui pedir-lhe que o leia e me dê sua opinião a respeito. Fiz
várias modificações nele, desde que pedi ao comandante Riker que me
dissesse o que achava da minha história.
Wesley ficou em dúvida, surpreso com o pedido.
— Ahn... não sei. O meu forte são a engenharia e a ciência, não a literatura.
Fiz um teste sobre os poetas do século vinte na semana passada e errei todas as
questões em que tinha que identificar as referências míticas e bíblicas da obra
de T. S. Eliot. Não acho que esteja qualificado para ser crítico literário.
— Mas Wesley, este é um romance que foi escrito para agradar o público
em geral — argumentou Data. — Você certamente conseguirá dizer-me se ele
o deixa emocionado, se o faz querer ler mais... se contém os elementos
adequados para um livro popular. Sua opinião e crítica serão tão boas quanto a
de qualquer outra pessoa.
— Oh — disse Wes, sem conseguir pensar em nada que pudesse refutar
esse comentário. — Está bem. Vou ler. Qual é o enredo?
— É uma história de aventura e romance, nos primeiros dias das viagens
interestelares. Esta cena mostra um casal na noite anterior à partida do homem,
que irá comandar uma nave pioneira nas trilhas estelares.
— Tudo bem.
Data entregou as folhas ao rapaz. Wesley começou a ler:
As montanhas da lua estavam iluminadas pelo raiar do sol, que durava
vários dias, exceto nos lugares cobertos pela escuridão jamais tocada pela
luz, pois na lua algumas noites não têm fim. Juan observou o sol e depois
olhou para o rosto da mulher inglesa, Maggie, pensando em muitas coisas.
Bueno, pensou ele, muito bom. E bom que ela esteja aqui comigo, pois esta
pode ser a última vez que nos veremos por muito tempo. Talvez para sempre.
— Não temos muito tempo — disse ele, percebendo que ela sabia que ele
dizia a verdade Sentiu a pressão da mão dela apertando a sua até ficar
branca como a luz do sol no alto das montanhas pontiagudas, fazendo-o
desejá-la urgentemente, intensificando a necessidade que tinha dela,
enchendo todo o seu ser com a dolorosa agonia do desejo.
— Maggie, oh, Maggie — disse ele, ansiosamente
— Sim. Sim. sim — disse ela com grande emoção.
A superfície macia do carpete da estação espacial, o discreto sibilo dos
filtros do sistema de ar condicionado, os odores dos produtos de limpeza e o
toque dos dedos dela em sua pele; tudo isso ele jamais esqueceria enquanto
vivesse, por mais longa que fosse sua vida. Rara ela, havia o brilho do sol
refletindo no topo esparramado das montanhas, com uma luz tão intensa que
era dolorosa de se ver, obrigando-a a fechar os olhos, mas mesmo assim
incomodando-a tanto a ponto de deixá-la ofuscada, tanto pela luz do sol
quanto pela presença dele. Rara ele, tudo era escuridão e uma onda de calor
semelhantes as de quando a galáxia foi criada, antes que qualquer coisa
existisse. O tempo parou e ele sentiu a galáxia mover-se e estremecer sob
seus pés, girando e fugindo para longe
Depois disso, ele recompos-se e sorriu para ela debilmente.
— Eu amo você. Não posso suportar o fato de ter que deixá-la, mas você
sabe que preciso fazê-lo. Sentiu a galáxia mover-se?
— Sim — disse ela. — Sinto o mesmo e sempre sentirei.
Wesley chegou ao fim do trecho e parou de ler. Sentiu o rosto quente, não
sabia dizer se pelo tema da conversa ou porque tinha vergonha de Data. O
rapaz ficou contente por o salão ser mal-iluminado. Isto aqui é horrível, mas o
que posso dizer para ele ? pensou consigo. Data é meu amigo e parece óbvio
que é algo importante para ele. Não posso ferir seus sentimentos!
— Então? — perguntou o andróide, que o observava atentamente sob sua
calma costumeira. — O que achou, Wesley?
— Bem, parece-me bem ... clássico... no estilo — disse o jovem,
escolhendo cuidadosamente as palavras. — De fato, se não me tivesse dito
que foi você quem o escreveu, diria que era um trecho de um romance de
Hemingway — um dos ruins, pensou sem dizer.
Data pareceu satisfeito.
— Era o tipo de clima que eu estava querendo criar, Wesley — admitiu.
— Ernest Hemingway é o escritor favorito do comandante Riker.
— Talvez seja melhor mostrar isso para ele, então.
— Talvez depois de terminarmos nossa missão. Mas diga-me, Wesley,
pareceu realístico para você? Achou emocionante?
Wes sentiu o rosto em chamas novamente. Procurou as palavras, sem
jeito.
— Ahn... Bem, Data, não posso dizer que tenho muita... ahn... experiência
no assunto, para dizer a verdade. — pigarreou — Se achei... emocionante...
ahn, bem... acho que sim. Quero dizer... todas essas partes a respeito do que
Maggie está pensando e sentindo... bem, eu não sou urna garota, uma mulher
— seu rosto iluminou-se — Talvez precise da opinião de uma mulher. Afinal
de contas, elas lêem mais romances e histórias de amor do que os homens,
certo?
— Creio que sim — disse Data, apanhando as folhas de volta. — E uma
boa sugestão, Wesley. Vou pô-la cm prática assim que puder.
Wesley ficou imensamente aliviado por ter-se livrado do problema.
Escorregou para fora do banco e ficou de pé.
— Acho que vou passear na engenharia — disse ele. — Já fazem quase
oito horas desde que encontramos o campo. Talvez alguma coisa esteja
finalmente acontecendo. Geordi está monitorando a situação e deve saber o
que está acontecendo.
— Vou acompanhá-lo até o turboelevador — disse Data.
Os dois deixaram a sala de recreação e Wesley avistou uma figura
conhecida saindo do turboelevador.
— Olá, Thala — chamou ele.
A menina andoriana parou e esperou que eles a alcançassem. Ela estava
vestindo, como sempre, uma de suas reluzentes redes sensoras sobre seu
macacão bege. Vendo seu rosto delicado e anguloso, com o suave tom azulado
da pele e as antenas, Wesley lembrou-se novamente do antigo mito terreno das
fadas.
Quando o alferes honorário se aproximou, a menina ergueu a cabeça,
quase como se o pudesse vê-lo. Wesley sabia que ela estava "vendo" o
formato de seu corpo delineado pela energia térmica que emanava dele, em
tons de cor alienígenas fornecidos pelas antenas sensoras que captavam as
cores dos objetos.
— Olá, Wesley! — disse ela quando pararam à sua frente. — Quem está
com você? Meus sensores me dizem que há alguém, mas as leituras térmicas
são esquisitas.
— É o tenente comandante Data — disse Wesley. — Ele é um andróide.
— Olá, Thala — disse Data, formalmente. — Como vai você? A menina
inclinou a cabeça na direção da voz.
— Vou bem, obrigada. É um prazer conhecê-lo. Nunca encontrei um
andróide antes. Já vi robôs, mas eles não se parecem com você.
— Não ficaria surpreso — disse Data — pelo que sei, ainda sou único.
Wesley conhecera Thala havia alguns anos, pois ela já havia viajado na
Enterprise quando ele e a mãe dela integraram-se à tripulação. Quando o pai
da menina, Thev, morreu, o jovem oficial havia conversado com a menininha
andoriana, procurando consolá-la, pois ele próprio havia enfrentado a mesma
perda. Os rituais fúnebres do povo da menina eram muito diferentes dos
humanos, mas Wesley, sua mãe e a tenente Selar haviam participado do
"canto da morte" de Thev e das exéquias da sacerdotisa.
— Eu sei — disse Thala, em resposta ao comentário de Data. — O Dr.
Soong o construiu. Ouvi uma fita a esse respeito. Você é tão forte como
dizem?
— Sou bastante forte — admitiu Data.
— Pode erguer-me com uma mão só? — perguntou, curiosa.
— Naturalmente — disse o andróide, demonstrando. Thala
surpreendeu-se de ser erguida no ar, mantida suspensa por vários segundos
depois colocada gentilmente de volta ao chão de modo a sequer balançar
quando tocou o solo.
— Wesley! — exclamou ela, sem fôlego. — Viu só?
— Eu vi — disse o alferes interino, com um sorriso nos lábios. — Data,
você e um exibido!
— Faz de novo? — pediu ela, voltando-se para o andróide.
— Agora não — disse Data. — Outra vez, quem sabe.
— Vou ficar esperando! — O rostinho dela ficou sério de repente, como
se tivesse lembrado algo. — Wesley, vamos ancorar em alguma base estelar
em breve?
— Não sei, Thala — respondeu o rapaz. — Neste instante estamos no
meio de uma missão, por isso acho que não estaremos indo para uma base
estelar por no mínimo uma semana.
O seu rosto azulado não mudou de expressão, mas seus ombros
encurvaram-se um pouco.
— Oh. Ouça, Wesley, pode me fazer um favor?
— Claro. O que é?
— Avise-me assim que estivermos indo para uma base estelar. Você cuida
do leme na maior parte do tempo, por isso deve ser o primeiro a saber, não é?
— Se eu estiver em serviço — disse ele — prometo que ligo para sua
cabine, está bem?
— Obrigada, Wesley — disse ela, depois voltou-se para Data. —
Obrigada por erguer-me no ar!
— De nada — disse Data, depois os dois oficiais continuaram a seguir
pelo corredor.
— Ela uma boa menina — comentou Wesley quando chegaram ao
turboelevador e o chamaram. — Minha mãe está preocupada com o que vai
acontecer com ela — disse ele, suspirando. — A vida é bem complicada, às
vezes, não é?
Data encarou-o com sua expressão costumeira de andróide.
— Para os humanos, certamente que sim. — concordou. — Posso apenas
invejar-lhes a riqueza de vida. A maior parte do tempo, minha vida parece
demasiadamente simples em comparação.
O turboelevador chegou, eles entraram e foram rapidamente levados para
outro lugar.
Thala observou o contorno oscilante do andróide e a silhueta de Wesley
Crusher, que era mais sólida e de carne e osso, entrarem no turbo elevador e
desaparecerem. Depois, ele voltou-se e dirigiu-se a seu alojamento, uma suíte
que antes compartilhava com o pai, mas que passara a ser somente seu. Pelo
menos por enquanto. Thala não tinha qualquer ilusão de que continuaria a ser
só dela por muito tempo. Em breve seria enviada para longe da nave estelar e
de todos os que conhecia, e isso deixava-a cheia de temores e de determinação
em decidir seu próprio futuro.
Apesar de a menina nunca ter pisado em solo andoriano, ela sabia melhor
que qualquer humano ou Vulcano que uma pessoa como ela jamais seria
bem-vinda entre os andorianos. Thala havia estudado a história e os costumes
de seu planeta por muitos anos. Ela também aprendera muito a respeito de seu
povo da boca do pai, enquanto crescia, quando Thev falava francamente com
seus companheiros de tripulação, sem perceber que a filha estava ouvindo. A
audição de Thala era excepcionalmente aguçada, até mesmo para uma
andoriana, para compensar sua falta de visão.
Era engraçado notar, ponderou a menina, que muitas pessoas pareciam
imaginar que por ser cega ela deveria ser surda também. Ela ficou imaginando
se as pessoas surdas seriam tratadas como se fossem cegas também.
Com resolução, ela voltou a atenção para a tarefa que tinha pela frente.
Wesley dissera que estavam em uma missão que ocuparia a Enterprise por
pelo menos mais uma semana. A Dra. Crusher dissera que ela não iria para
Thonolan IV, por isso Thala pretendia estar pronto para a próxima vez que a
nave atracasse, fosse onde fosse.
Cruzou seu alojamento, evitando a mobília mais pelo hábito do que pelos
sinais captados por sua rede sensora, até chegar a uma pequena estatueta que
representava uma antiga deusa andoriana. A escultura era feita de pedra lisa e
fria, muito semelhante, ao tato da menina, com os ornamentos de jade do cabo
de uma adaga cerimonial vulcana que Selar lhe havia mostrado.
Excetuando-se o fato de que Thala fora informada que aquela estátua era
amarela, enquanto que o cabo da adaga de Selar era vermelho.
Vermelho... amarelo... a menina andoriana lembrou-se de que Selar havia
tentado aperfeiçoar olhos que lhe permitiriam conhecer o significado real
dessas palavras. Ela apertou a estátua nas mãos, até recuperar o controle das
emoções.
Por que nasci assim? pensou pela milésima vez. Ser cega de nascença já
era ruim demais, mas ser cega de nascença e andoriana ao mesmo tempo...
Thala sentiu uma súbita saudade de Thev. Ele havia admiravelmente
vencido os preconceitos que lhe foram ensinados desde a infância. Tivera
grande afeição pela filha e a havia encorajado a desenvolver talentos que a
preparariam para viver longe de seu povo. Thev havia planejado
estabelecer-se com ela em Delma, um planeta do setor Vega, assim que
terminassem sua viagem diplomática. Naquele planeta havia muitas
oportunidades para pessoas inteligentes, e todos eram julgados pelo que
podiam fazer e não pelo que não podiam fazer.
Thev e Selar haviam ensinado a Thala que seu defeito seria um problema
apenas se ela o considerasse assim. Foi um choque terrível para menina
quando lhe contaram que o pai havia morrido.
A nave borg havia aberto um rombo enorme na Enterprise, e Thala fora a
única não tripulante na área em que o casco fora rompido e o setor sofrerá
descompressão. Thala sabia que o pai estava morto, mas por vezes se via
atormentada pela idéia de que ele aproveitado o ataque borg como meio de
fugir do fardo que era ter uma filha cega.
Era difícil prantear um corpo ausente. Selar a havia consolado dizendo-lhe
que Thev, com toda a certeza, não tivera tempo de perceber o que lhe
acontecera. Seu fim devia ter sido praticamente instantâneo. Foi por meio de
Selar que Thala ficou sabendo que seu pai havia morrido. Selar foi direta e
sincera, mas sob a impassividade vulcana, era possível sentir-lhe a
preocupação e a bondade.
Desde a morte de Thev, Selar tinha estado com ela todos os dias, às vezes
por uns poucos minutos, quando tinha muitos pacientes, mas nunca deixou de
vê-la. Em breve, porém, mesmo que Thala recebesse permissão de ficar na
Enterprise, Selar já não estaria mais lá. Essa idéia era suficiente para fazer
com que a menina andoriana tivesse vontade de gritar.
Depois de um momento, porém, a menina engoliu em seco e endireitou os
ombros com determinação. Sc ficasse pensando em Selar, não conseguiria
fazer o que precisava ser feito.
Agarrando a estatueta com uma mão e a base na outra, Thala girou os
punhos. A escultura abriu-se cm duas. Era oca por dentro. Ela segurou a parte
de cima, derramando seu conteúdo na mão.
Sentiu nas mãos o frio metal, as duras superfícies facetadas das jóias e as
redes das antenas de sua mãe. Cuidadosamente, Thala contou as jóias
novamente.
Dezesseis cristais solares rigellianos, variando cm tamanho de um quarto
de quilate até quase dois quilates. As pedras não era extremamente raras, mas
ela ficara sabendo que eram perfeitas e de excelente coloração: um laranja
avermelhado brilhante, a cor de uma das estrelas do sistema Rigel. Estavam
engastadas em um oriri antigo feito de uma liga de ouro, cobre e irídio, muito
apreciado por seu povo.
A menina andoriana tinha uma vaga idéia do valor das jóias e do metal na
praça, mas tinha certeza de que dariam o suficiente para comprar sua
passagem até Vulcano e sustentá-la naquele planeta até que encontrasse
trabalho.
Thala planejava trabalhar como escriba-tradutora. Ela falava três línguas
fluentemente: andoriano, Vulcano e a língua da Terra. Sempre haveria
necessidade de pessoas que podiam transcrever e traduzir. Apesar da invenção
do Tradutor Universal, um século antes, muitos mercadores vulcanos e
terráqueos ainda preferiam utilizar um ser vivo como intérprete durante as
negociações. Eles alegavam que as traduções feitas por intérpretes vivos
reproduziam melhor os subcontextos e inflexões da pessoa que falava:
elementos essenciais durante uma barganha.
Assim que estivesse cm Vulcano e ganhasse o suficiente para sustentar-se
sem precisar trabalhar por dois anos, Thala tinha apenas uma vaga idéia de
quanto tempo levaria para alcançar esse objetivo, então ela começaria a
freqüentar a Academia de Ciências de Vulcano. Então poderia encontrar Selar
novamente. Elas seriam... amigas.
Thala tentou imaginar quanto tempo isso levaria e sentiu um nó na
garganta. Mas estava decidida. Nada a impediria de levar adiante seu projeto.
Ela não iria para um planeta andoriano.
Em seu planeta natal ela só poderia esperar encontrar uma existência vazia,
desprovida de amigos, em uma instituição ou cercada de outros que, como ela,
haviam sido ensinados a não tentarem superar suas deficiências. Os
andorianos que eram portadores de doenças debilitantes ou outras
imperfeições ou ferimentos somente eram considerados honrados se não
incomodassem os outros com sua presença ou necessidades.
Uma instituição seria seu destino mais provável, mas se fosse
extremamente bem afortunada, num sentido irônico e pessimista da palavra,
poderia não ser enviada a uma instituição, mas ser adotada por um dos clãs
que haviam perdido grande parte de sua população nas sangrentas lutas
internas de seu planeta. Sua cegueira não era de causa genética, o que a
tornava apta para ser adotada, porque em um ano ou mais ela teria idade
suficiente para ter filhos. Ela seria colocada em um dos haréns do clã,
fertilizada com bebês do sexo masculino por machos selecionados cm
intervalos clinicamente seguros, e depois seus filhos seriam levados para
serem treinados como guerreiros.
Thala achava que seu povo tinha razão em uma coisa, pelo menos. A
morte era mil vezes preferível a qualquer desses destinos.
Ela ficou pensando e planejando, fazendo uma lista mental de o que
poderia levar e o que deixaria para trás, enquanto passava as finas correntes do
oriri de uma mão para a outra.
— Doutora Crusher? — uma voz hesitante fez-se ouvir junto à porta do
consultório de Beverly, que sempre ficava aberta.
A oficial médica chefe ergueu o rosto.
— Data? Precisa de alguma coisa?
— Estou incomodando? — perguntou ele, com uma ansiedade quase
humana em seu rosto anormalmente pálido.
Se não achasse isso impossível, diria que ele está nervoso, pensou
Crusher. Depois disse:
— Não, de modo algum. Entre, por favor. Ele entrou e parou junto à porta.
— Não quero atrapalhar seu trabalho, doutora.
— Não estou fazendo nada de importante no momento, Data — disse ela.
— Sente-se, por favor. O que o preocupa?
Ela reclinou-se na cadeira, pensando que nunca tinha visto Data tão
inseguro.
O andróide sentou-se, com as feições serenas, mas algo nele continuava
agitado.
— Dra. Crusher... — disse ele, depois calou-se.
— Data, quando estamos apenas conversando, por que não me chama
apenas de Beverly? — disse ela, com um olhar inquiridor — Porque,
corrija-me se eu estiver errada, mas não creio que tenha vindo até aqui por um
motivo oficial.
— Tem razão — disse Data. — Muito bem, Beverly... — Ele fez uma
pausa, depois prosseguiu rapidamente, quase de modo apressado. — Preciso
da opinião sincera de uma mulher a respeito de algo que escrevi e imaginei
que talvez pudesse me conceder esse favor.
— Algo que você escreveu? — Ela ficou surpresa, mas procurou não
demonstrar. — Quer dizer... escreveu um livro?
— Sim, doutora. — disse ele, puxando de dentro do uniforme um maço de
folhas dobradas com um texto manuscrito. — Fiz vários esboços de um
romance a respeito dos primeiros dias da exploração espacial e um caso de
amor entre o capitão de uma nave e a mulher por quem ele está apaixonado.
Esta cena passa-se na lua da Terra, na véspera de sua partida. — Ergueu os
olhos para ele, esperançoso. — Reescrevi o livro para que tivesse um estilo
mais masculino, por sugestão do comandante Riker. Depois, quando pedi a
Wesley que lesse a cena, ele sugeriu que, como a cena incluía o ponto de vista
de uma mulher, eu pedisse a opinião de alguém do sexo feminino.
— Ele sugeriu especificamente que viesse me ver? — perguntou Crusher,
pensando que teria de conversar com o filho a respeito de passar a batata
quente para os outros, mas Data negou.
— Não, senhora. — Contudo, você e a conselheira Troi são as duas
mulheres com quem trabalho mais de perto, e como ela não está disponível,
sobrou-me apenas você.
— Compreendo... — Beverly conseguiu sorrir. — Bem, Data, sinto-me
honrada em saber que considera minha opinião importante, mas devo dizer
que não tenho muita experiência como crítica literária.
— Não tem problema, doutora... Beverly. Meu romance foi escrito para
um público leigo e não erudito. — Ergueu o maço de folhas. — Quer que eu o
leia para você?
— Não. Acho melhor ler por mim mesma — disse ela, estendendo a mão.
Ela apanhou as folhas, começou a ler, bastante ciente do olhar esperançoso de
Data. Isso dificultava-lhe a concentração, para dizer o mínimo.
Ela leu a cena duas vezes, uma para analisar a fluência e o ritmo, outra
para examinar o estilo e o conteúdo. Depois, ergueu o rosto.
— Não sei o que dizer, Data — disse ela, com sinceridade. Porque não
posso dizer-lhe a verdade, ou seja, que está horrível!
— Diga-me apenas se a deixou emocionada — pediu Data. — É dessa
maneira que uma mulher se sente durante um encontro com alguém do sexo
oposto?
Nenhuma mulher que eu conheço reagiria assim, pensou Crusher, séria.
Parece uma fantasia juvenil de um rapaz sobre os sentimentos de uma
mulher... Quando ele diz que a presença de Juan e o sol a incomodavam, acho
que usou uma palavra bem apropriada.
— Bem — começou a dizer, com tato — toda mulher anseia em encontrar
sua alma gêmea, alguém que realmente precise dela e que expresse seu amor
por ela e... ahn — ela olhou para as folhas — ahn, Juan... certamente parece
estar fazendo justamente isso — disse ela, não convencendo nem a si mesma.
—Mas uma cena de amor em uma cabine pressurizada não me parece ser
um local muito romântico. Quero dizer, com o cheiro dos produtos de limpeza
e o sibilo do ar condicionado... coisas que são muito banais para serem
consideradas românticas. Talvez devesse mudar o local em que se passa a
cena.
Data mostrou-se entusiasmado.
— Finalmente uma crítica concreta! Agradeço muito sua sugestão,
doutora. Posso mudar o local para algo mais romântico. O herói e heroína
poderiam encontrar-se no Jardim Botânico Lunar.
— Hmmm ... — murmurou Crusher, dando de ombros — Pode ser que
funcione. Além disso, Data, ahn, apesar de eu gostar de literatura comercial
como todo mundo... — sorriu, sem jeito — não conte para ninguém, mas eu
tenho uma coleção inteira das obras de Jacqueline Susann... bem, seja como
for, para eu me envolver emocionalmente com os personagens, prefiro
histórias de amor em que as pessoas não caiam no chão juntas e ahn... tenham
relações, mas que conversem entre si. Histórias em que as pessoas
desenvolvam um relacionamento por algum tempo até que ele se transforme
em amor.
— Pode me dar algum exemplo? — pediu ele.
— Bem, minha autora preferida é Jane Austen. Seus personagens sempre
expressaram seus sentimentos de modo bastante claro e espirituoso, fazendo a
emoção transparecer, sem mencionar seu estilo refinado que me dá tanto
prazer de ler.
— Jane Austen — repetiu Data, pensativo. — Vou pensar no que disse,
Beverly. Agradeço por ter-se dado ao trabalho de ler o que escrevi.
— Oh, de nada — disse ela, incomodada por saber que não havia
expressado sua "opinião sincera", como ele havia pedido. — Talvez seja bom
pedir a opinião de outra mulher... talvez mais de uma — sugeriu ela,
imaginando que se Data consultasse muitas pessoas, poderia chegar à
conclusão certa sozinho.
— Farei isso — disse Data, solenemente, juntando as folhas de seu
manuscrito. — E vou pensar sobre no que consiste o amor numa obra de
ficção.
— Talvez devesse ler E o Vento Levou — sugeriu Beverly. — E Jane Eyre.
Ou Chamas da Escuridão de Hightower.
— Já os li — respondeu Data. — Mas vou revê-los, pode estar certa.
— Muito bem — disse ela, procurando lembrar-se de outros exemplos de
romances populares. Nesse momento, a tenente Selar parou junto à porta,
hesitou, depois começou a afastar-se.
— Selar! — chamou Crusher, com certo alívio. — Tudo bem. o tenente
comandante Data e eu já estávamos terminando nossa conversa. Pode entrar.
O andróide ergueu-se e cumprimentou a médica vulcana que entrava.
— Obrigado novamente, doutora. Vou lembrar-me de seus comentários
— prometeu ele. Depois saiu, levando o manuscrito.
— Não quis interromper — disse Selar. — Estes relatórios do estoque de
medicamentos poderiam ter esperado até que estivesse desocupada, Beverly.
Crusher reclinou-se na cadeira e suspirou.
— Eu queria ser interrompida — disse ela. — Eu precisava de alguém que
viesse me socorrer. Não estava gostando do papel de crítica literária.
Selar apenas ergueu uma sobrancelha.
— Comandante Riker — disse o tenente Worf, subitamente. — Estou
recebendo uma transmissão, senhor.
— Uma transmissão? — Riker aprumou-se na cadeira de comando de um
salto. — De onde está vindo? Pode identificar a origem, tenente?
— Está vindo de um ponto a aproximadamente cinco anos-luz de distância,
comandante — disse o klingon em sua voz retumbante. — Sua origem,
porém... não consigo identificar com precisão. O sinal é fraco, mas creio ser
da Marco Polo.
— Pode ampliar o sinal para torná-lo mais claro? O sinal repetiu-se?
— Não, comandante, foi uma única transmissão. Vou tentar amplificar o
registro para podermos compreender, senhor, mas... — o klingon parou de
falar enquanto trabalhava, enrugando a testa.
— Riker para o capitão Picard.
— Picard falando.
— Senhor, acho que encontramos algo. O tenente Worf acredita estar
recebendo uma transmissão da Marco Polo. Ele está tentando amplificar o
sinal neste momento.
— Estou a caminho, Imediato.
Quando o capitão chegou à ponte, o oficial klingon já havia conseguido
amplificar o fraco sinal.
— Na tela, tenente — ordenou o oficial superior.
— Senhor, não há visual, apenas áudio, capitão.
Picard ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas assentiu com a cabeça.
— Muito bem, Sr. Worf. Toque a parte de áudio.
— Sim, capitão. — O chefe da segurança tocou um controle e um ruído
crepitante com muita estática encheu a sala. Worf piscou os olhos e ajustou o
controle de volume.
Ouviu-se uma voz, tão rouca e ofegante que fez Riker ter dúvidas se seria
humana:
— ... invadidos... não identificado... — estática — ... os sintomas variam...
oito suicídios, três assassinatos... estamos indefesos... — A voz passou a
gaguejar, quase soluçando — Oh, meu Deus, os sonhos estão nos matando!
Por favor, socorro... mas... Oh, meu Deus! Não pode ser! Não! Para trás!
Chega de mortes, por favor...
Ouviram-se alguns soluços inarticulados, depois apenas estática.
— É só isso, tenente? — perguntou Picard. Riker, que estava agarrado ao
espaldar da cadeira ao lado, ficou espantado ao ver a calma demonstrada pelo
capitão, mas então percebeu a tensão em seus ombros e a rigidez de seu
queixo. Ele também ficou perturbado, pensou o comandante. Mas tem muito
autocontrole para deixar transparecer.
Wesley Crusher, por outro lado, que estava de serviço no leme, tinha o
rosto pálido e assustado. Riker não tinha como censurar o pobre menino.
Havia tamanho desespero e agonia naquela voz rouca e suplicante.
O capitão ergueu um pouco a voz.
— Doutora Crusher, queira comparecer à sala de conferências, por favor
— disse ele, erguendo-se. — Comandante Riker, tenente Worf, conselheira,
Sr. Crusher... reunião. — Voltou-se para o andróide — Sr. Data, assuma o
leme.
Quando sentaram-se ao redor da mesa comprida e lustrosa, Picard
ordenou que a mensagem fosse tocada mais duas vezes. Depois olhou em
volta, com o rosto sério.
— Opiniões?
— Eles mencionaram uma invasão — disse Worf. — Devemos estar
prontos para atacar a força alienígena.
A Dra. Crusher sacudiu negativamente a cabeça.
— Não concordo. Parecia mais tinham contraído algum tipo de doença
desconhecida. Pode-se chamar isso de invasão. Lembrem-se de que falaram
em sintomas.
— Concordo que estejamos lidando com algum tipo de problema médico
e não militar — disse a conselheira Troi. — Será algum tipo de praga que
ataque a mente das pessoas? Ele disse que os sonhos os estavam matando...
Wesley Crusher parecia céptico mas interessado. Era óbvio que seu ágil
cérebro juvenil estava especulando a respeito da idéia.
— Um tipo de doença que provoca sonhos mortíferos? — perguntou ele,
lentamente. — Isso é possível?
— Os pesadelos podem causar grande estresse ao corpo — disse Crusher.
— Eles aceleram o coração, causam a secreção de adrenalina e fazem subir a
pressão arterial.
— Posso garantir que sim — disse Riker. — Quando fui picado por aquele
inseto alienígena e a equipe médica precisou usar pesadelos para matá-lo em
minhas células, senti como se tivesse lutado vinte rodadas de anbo-jyutsu
contra o campeão da galáxia! Todos os músculos de meu corpo ficaram
doloridos, e eu me senti exausto.
— Mas os sonhos podem matar? — perguntou Picard.
— É possível, sob certas circunstâncias — respondeu Crusher. — Uma
pessoa com um coração fraco ou com uma doença debilitante pode sofrer
tamanho choque em decorrência de um pesadelo a ponto de vir a morrer.
— Mas a julgar pela transmissão, parece evidente que toda a tripulação
havia sido afetada — disse Riker. — É difícil acreditar que todos sofressem do
coração. Além do que, isso não explicaria os suicídios e assassinatos que
foram mencionados.
— Os sonhos são ligados ao nosso inconsciente — explicou a conselheira
Troi. — Talvez estejam sofrendo algum tipo de invasão mental alienígena que
os esteja fazendo matarem-se uns aos outros. Essa invasão mental também
poderia ser descrita como um pesadelo.
— É possível — disse o capitão, pensativo. — Já aconteceu antes.
Riker olhou em volta da mesa e percebeu que todos se lembravam, como
ele, da ocasião em que um capitão ferengi ávido de vingança havia usado uma
máquina alienígena para provocar esse efeito na mente de Jean-Luc Picard. As
lembranças de sua nave perdida, a Stargazer, haviam atormentado o capitão
em sonhos bastante vividos.
— Se for algum tipo de invasão mental, será que isso significa que
estamos enfrentando uma ameaça ferengi? — disse Riker, depois sacudiu
negativamente a cabeça. — Não. Não parece do estilo deles, senhor.
— Concordo, Imediato. A natureza desse campo de energia faz-me supor
que estamos enfrentando uma força ou um ser desconhecido ou alienígena.
Picard ergueu-se lentamente e inclinou-se sobre a mesa, apoiando-se nos
braços estendidos.
— Creio que é hora de tentar livrar-nos desse campo. Devemos estar
suficientemente próximos da Marco Polo para conseguirmos localizá-la em
nossos sensores. — Aprumou-se e depois olhou para Riker. — Imediato,
quero o Sr. La Forge na ponte para cuidar do posto da engenharia.
— Entendido, capitão.
Picard voltou o olhar para o restante da tripulação da ponte.
— Todos a seus postos.
A sala de conferências esvaziou-se rapidamente.
Poucos minutos depois, Geordi La Forge estava observando os controles
de seu posto na ponte e acenou com a cabeça.
— Temos força de dobra à disposição, senhor. A seu comando. Picard
acenou com a cabeça para o jovem oficial do leme.
— Siga para nosso novo curso, Sr. Crusher. Ativar.
Atento a seus controles, Wes ativou os poderosos motores da nave. A
Enterprise começou a vibrar quase imperceptivelmente, enquanto os
monitores de navegação mostravam que ela estava desviando-se do curso
anterior.
— Pronto, capitão — disse o jovem timoneiro, sem tirar os olhos dos
instrumentos. — Estamos nos libertando...
Ele deixou a frase no ar quando a Enterprise subitamente sacudiu, quase
tão violentamente quanto no primeiro encontro com o campo de energia
alienígena.
— Capitão — disse Geordi, tenso. — O campo está ficando mais forte,
quanto mais energia usamos para nos libertar, mais forte ele nos segura! Se
isso durar muito tempo, vamos sobrecarregar os motores de dobra e estaremos
realmente em apuros!
Picard olhou para Riker.
— Desligar os motores — sua voz estava tensa de raiva. Mas somente
alguém que conhecesse o capitão tão bem quanto o comandante Riker teria
percebido quão irado estava Jean-Luc naquele momento.
Riker olhou para os instrumentos por cima dos ombros de Data.
— O campo não apenas aumentou sua potência o suficiente para nos
segurar, senhor — informou Riker. — Ele mudou de lugar junto conosco, para
manter-nos no centro.
— Como uma aranha que não quer deixar sua presa escapar — disse
Picard, sombrio. — Não gosto disso, Imediato.
— Nem eu, capitão.
Data subitamente endireitou-se em sua cadeira.
— Capitão, estou captando algo parado à nossa frente. Creio termos
finalmente chegado a nosso destino, senhor.
Jean-Luc Picard semicerrou as pálpebras e sussurrou algo baixinho.
— Como disse, capitão? — perguntou Data. — Não entendi sua ordem.
— Eu disse: "aumente a potência dos escudos, Sr. Worf" — sua voz estava
extremamente tensa.
Will Riker procurou manter o rosto impassível, para não mostrar que sabia
que o capitão estava mentindo. Ele tinha ouvido o que o oficial comandante
havia dito na primeira vez. Picard não dissera "aumente a potência dos
escudos" .
O que ele havia murmurado era uma interjeição em sua própria língua.
Jean-Luc havia dito: "Merde".
Fitando a tela e imaginando o que iria acontecer em seguida, Riker não
podia deixar de concordar com seu capitão.
Cinco
— Aumentada a potência dos escudos, capitão — disse o oficial klingon.
— Em nosso aceleração atual, qual é o horário previsto de chegada a
nosso destino, Sr. Data?
— Nossa velocidade aumentou até quase a velocidade máxima de impulso,
senhor. Iremos encontrar a fonte desse campo em... vinte e dois minutos,
capitão.
— Por que não conseguiu determinar nosso destino mais cedo por meio
dos sensores, Sr. Data? — Picard estava apenas perguntando, sem acusar.
— Não sei, senhor — respondeu o andróide, parecendo perplexo. — É
possível que o campo de energia alienígena distorça a leitura de nossos
sensores.
— O que dizem nossos sensores a respeito de nosso... — o capitão hesitou,
depois continuou com certa ironia — nosso anfitrião, Sr. Data?
— O objeto localizado no centro do campo de energia parece ter
aproximadamente cinco quilômetros de comprimento.
Picard contraiu discretamente os lábios. Isso significava que aquela coisa
tinha o tamanho de uma base estelar.
— Qual é seu formato, Sr. Data?
— Creio que seja aproximadamente retangular, senhor, mas o campo de
energia continua a distorcer as leituras, o que torna difícil determinar os
parâmetros exatos. Não consigo identificar a substância de que o objeto é
construído. As únicas ligas e materiais registrados pelos sensores são das
naves que cercam o artefato alienígena.
— Naves? — perguntou bruscamente o capitão. — Mais de uma? Quantas
são?
— Não estou bem certo, capitão. Algumas delas estão tão juntas umas das
outras que fazem com que suas leituras se encontram sobrepostas. No entanto,
estimo que haja pelo menos uma centena.
— Uma centena? — Seria talvez uma armada alienígena? — Elas são
semelhantes entre si no desenho e na construção, comandante?
— Não, senhor. Elas diferem muito umas das outras.
— Estão atracadas?
— Não, senhor. Parecem estar paradas, mas ... à deriva.
Será possível que aquela coisa tenha capturado tantas naves assim?
Picard lançou um olhar para Riker, que ergueu as sobrancelhas.
— Compare essa quantidade com o número de naves que desapareceram
neste setor.
— Algo entre quatorze e vinte naves com registro da Federação passaram
por este setor e aparentemente desapareceram, capitão. Não posso ser mais
preciso porque vários cargueiros particulares de pequeno porte não tiveram o
cuidado de entrar em contato com todos os portos de controle. Presume-se que
suas atividades não sejam plenamente condizentes com as leis da Federação.
— Você quer dizer que são contrabandistas, Data — disse Geordi do outro
lado da ponte.
— Exatamente.
— Entendo — disse Picard. — Já podemos vê-las na tela?
— Ainda não, senhor. Mas poderemos dentro de dez minutos.
O tempo arrastou-se lentamente, enquanto a tripulação da ponte
aguardava calada em seus assentos. Picard olhou em volta, notando a tensão
nos ombros de La Forge, Worf e Riker, apesar de eles não demonstrarem
qualquer outro sinal de nervosismo, por serem muito bem treinados. Deanna
Troi estava tranqüila, com as mãos cruzadas sobre a saia turquesa, mas Picard
percebeu a preocupação que transparecia de seus olhos escuros. Wesley
Crusher ainda estava bem pálido, mas as mãos do jovem oficial moviam-se
seguros em seu painel de controle.
Ele ainda vai ser um capitão de nave estelar, pensou Picard, não pela
primeira vez. Ou seja, se não decidir tornar-se engenheiro ou cientista. Por
um instante fugaz, Jean-Luc lembrou-se do ser que chamavam de Viajante e
sua profecia de que Crusher tinha um futuro grandioso pela frente. Mas
somente se sobreviver para cumprir seu destino, pensou o capitão, com
amargura. E a essa altura dos acontecimentos, começo a duvidar se algum de
nós estará vivo amanhã..
— Sr. Worf — disse ele — está captando algum transmissão da PaKathen
ou da Marco Polo!
— Negativo, senhor — respondeu o klingon, em sua voz tonitruante, um
minuto depois. Picard suspirou. — Continue tentando entrar em contato com
eles em intervalos regulares, tenente. — Para o caso de algum deles estar vivo
para responder...
— Entendido, capitão.
— Senhor — disse Data, voltando-se subitamente no assento para encarar
o capitão com seus olhos estranhamente amarelos. — Creio que temos contato
visual.
— Na tela — ordenou o capitão. — Sr. La Forge, se conseguirmos uma
boa imagem daquela coisa, quero que a examine em todo o espectro de luz
visível.
O engenheiro chefe assentiu.
— Sim, senhor, capitão.
Data operou febrilmente os controles, e a visão das estrelas fixou-se.
— O objeto bem no centro da tela é nosso destino, senhor — informou
Data. — Ele pode ser visto porque está bloqueando a visão de parte da
nebulosa Eta Carinae. O objeto por si só é iluminado... mas a esta distância,
visto contra as estrelas, ele aparece escuro.
Picard fixou os olhos na tela. Depois de fitá-la por algum tempo,
conseguiu identificar uma pequena mancha delineada contra o brilho da
nebulosa.
— Ampliação fator dez, Sr. Data.
A tela oscilou, então o objeto apareceu bem maior, mas ainda muito
pequeno para identificarem-se os detalhes. Era simplesmente uma mancha
escura no espaço.
O capitão da Enterprise esperou mais cinco minutos, até que Data
informou que a distância até o artefato era cem mil quilômetros. Picard então
ordenou:
— Ampliação, fator cem, Sr. Data.
A tela oscilou novamente, então o artefato alienígena apareceu como uma
forma pouco iluminada, apesar de estar borrada devido à grande ampliação.
Como Data havia predito, ele era grosseiramente retangular, apesar de grande
parte de sua superfície estar escondida pelos cascos de naves de todos as
formas e tamanhos que ali flutuavam.
Picard examinou-as, tentando identificá-las pelo formato, mas ainda
estavam muito distantes e havia muitas delas. Devem ser naves à deriva que
foram trazidas para cá ao longo dos anos, pensou ele. Deve haver naves com
centenas de anos ali, lembrou-se subitamente. Mon Dieu, pode haver naves
que tenham milhares de anos... ou milhões.
— Elas estão presas — ouviu Geordi sussurrar. — E nós também vamos
ficar presos... como no mar de sargaços...
Jean-Luc Picard imediatamente relembrou a referencia, concordando que
era bem apropriada.
— Sr. Crusher, consegue fixar as órbitas das naves, de modo a estabelecer
um curso até as proximidades da PaKathen e da Marco Polo']
— E o que venho tentando fazer, capitão — respondeu o jovem alferes
interino. — Podemos manobrar de modo limitado, desde que não tentemos
nos livrar do campo. Creio que conseguirei traçar um curso.
— Muito bem. Faça isso. Mantenha os escudos na potência máxima, Sr.
Worf. Vamos ter que procurar não colidir com alguma das naves à deriva.
Quando a nave estelar aproximou-se até cinqüenta mil quilômetros do
artefato, Wesley Crusher informou: