Universidade do Sul de Santa Catarina
Cenários Futuros
Disciplina na modalidade a distância
Universidade do Sul de Santa Catarina
Cenários Futuros
Disciplina na modalidade a distância
Palhoça
UnisulVirtual
2011
Créditos
Universidade do Sul de Santa Catarina | Campus UnisulVirtual | Educação Superior a Distância
Avenida dos Lagos, 41 – Cidade Universitária Pedra Branca | Palhoça – SC | 88137-900 | Fone/fax: (48) 3279-1242 e 3279-1271 | E-mail: cursovirtual@[Link] | Site: [Link]/unisulvirtual
Reitor Coordenadores Graduação Marilene de Fátima Capeleto Patrícia de Souza Amorim Karine Augusta Zanoni
Ailton Nazareno Soares Aloísio José Rodrigues Patricia A. Pereira de Carvalho Poliana Simao Marcia Luz de Oliveira
Ana Luísa Mülbert Paulo Lisboa Cordeiro Schenon Souza Preto Mayara Pereira Rosa
Vice-Reitor Ana Paula [Link] Paulo Mauricio Silveira Bubalo Luciana Tomadão Borguetti
Sebastião Salésio Heerdt Artur Beck Neto Rosângela Mara Siegel Gerência de Desenho e
Bernardino José da Silva Simone Torres de Oliveira Desenvolvimento de Materiais Assuntos Jurídicos
Chefe de Gabinete da Reitoria Charles Odair Cesconetto da Silva Vanessa Pereira Santos Metzker Didáticos Bruno Lucion Roso
Willian Corrêa Máximo Dilsa Mondardo Vanilda Liordina Heerdt Márcia Loch (Gerente) Sheila Cristina Martins
Diva Marília Flemming Marketing Estratégico
Pró-Reitor de Ensino e Horácio Dutra Mello Gestão Documental Desenho Educacional
Lamuniê Souza (Coord.) Cristina Klipp de Oliveira (Coord. Grad./DAD) Rafael Bavaresco Bongiolo
Pró-Reitor de Pesquisa, Itamar Pedro Bevilaqua
Pós-Graduação e Inovação Jairo Afonso Henkes Clair Maria Cardoso Roseli A. Rocha Moterle (Coord. Pós/Ext.) Portal e Comunicação
Daniel Lucas de Medeiros Aline Cassol Daga Catia Melissa Silveira Rodrigues
Mauri Luiz Heerdt Janaína Baeta Neves
Aline Pimentel
Jorge Alexandre Nogared Cardoso Jaliza Thizon de Bona Andreia Drewes
Pró-Reitora de Administração José Carlos da Silva Junior Guilherme Henrique Koerich Carmelita Schulze Luiz Felipe Buchmann Figueiredo
Acadêmica José Gabriel da Silva Josiane Leal Daniela Siqueira de Menezes Rafael Pessi
Marília Locks Fernandes Delma Cristiane Morari
Miriam de Fátima Bora Rosa José Humberto Dias de Toledo
Eliete de Oliveira Costa
Joseane Borges de Miranda Gerência de Produção
Pró-Reitor de Desenvolvimento Luiz G. Buchmann Figueiredo Gerência Administrativa e Eloísa Machado Seemann Arthur Emmanuel F. Silveira (Gerente)
e Inovação Institucional Marciel Evangelista Catâneo Financeira Flavia Lumi Matuzawa Francini Ferreira Dias
Renato André Luz (Gerente) Geovania Japiassu Martins
Valter Alves Schmitz Neto Maria Cristina Schweitzer Veit
Ana Luise Wehrle Isabel Zoldan da Veiga Rambo Design Visual
Maria da Graça Poyer
Diretora do Campus Mauro Faccioni Filho Anderson Zandré Prudêncio João Marcos de Souza Alves Pedro Paulo Alves Teixeira (Coord.)
Universitário de Tubarão Moacir Fogaça Daniel Contessa Lisboa Leandro Romanó Bamberg Alberto Regis Elias
Milene Pacheco Kindermann Nélio Herzmann Naiara Jeremias da Rocha Lygia Pereira Alex Sandro Xavier
Onei Tadeu Dutra Rafael Bourdot Back Lis Airê Fogolari Anne Cristyne Pereira
Diretor do Campus Universitário Patrícia Fontanella Thais Helena Bonetti Luiz Henrique Milani Queriquelli Cristiano Neri Gonçalves Ribeiro
da Grande Florianópolis Roberto Iunskovski Valmir Venício Inácio Marcelo Tavares de Souza Campos Daiana Ferreira Cassanego
Hércules Nunes de Araújo Rose Clér Estivalete Beche Mariana Aparecida dos Santos Davi Pieper
Gerência de Ensino, Pesquisa e Marina Melhado Gomes da Silva Diogo Rafael da Silva
Secretária-Geral de Ensino Vice-Coordenadores Graduação Extensão Marina Cabeda Egger Moellwald Edison Rodrigo Valim
Adriana Santos Rammê Janaína Baeta Neves (Gerente) Mirian Elizabet Hahmeyer Collares Elpo Fernanda Fernandes
Solange Antunes de Souza Aracelli Araldi Pâmella Rocha Flores da Silva
Bernardino José da Silva Frederico Trilha
Diretora do Campus Catia Melissa Silveira Rodrigues Rafael da Cunha Lara Jordana Paula Schulka
Elaboração de Projeto Roberta de Fátima Martins Marcelo Neri da Silva
Universitário UnisulVirtual Horácio Dutra Mello Carolina Hoeller da Silva Boing
Jucimara Roesler Jardel Mendes Vieira Roseli Aparecida Rocha Moterle Nelson Rosa
Vanderlei Brasil Sabrina Bleicher Noemia Souza Mesquita
Joel Irineu Lohn Francielle Arruda Rampelotte
Equipe UnisulVirtual José Carlos Noronha de Oliveira Verônica Ribas Cúrcio Oberdan Porto Leal Piantino
José Gabriel da Silva Reconhecimento de Curso
José Humberto Dias de Toledo Acessibilidade Multimídia
Diretor Adjunto Maria de Fátima Martins Vanessa de Andrade Manoel (Coord.) Sérgio Giron (Coord.)
Moacir Heerdt Luciana Manfroi
Rogério Santos da Costa Extensão Letícia Regiane Da Silva Tobal Dandara Lemos Reynaldo
Secretaria Executiva e Cerimonial Rosa Beatriz Madruga Pinheiro Maria Cristina Veit (Coord.) Mariella Gloria Rodrigues Cleber Magri
Jackson Schuelter Wiggers (Coord.) Sergio Sell Vanesa Montagna Fernando Gustav Soares Lima
Marcelo Fraiberg Machado Pesquisa Josué Lange
Tatiana Lee Marques Daniela E. M. Will (Coord. PUIP, PUIC, PIBIC) Avaliação da aprendizagem
Tenille Catarina Valnei Carlos Denardin Claudia Gabriela Dreher Conferência (e-OLA)
Mauro Faccioni Filho (Coord. Nuvem)
Assessoria de Assuntos Sâmia Mônica Fortunato (Adjunta) Jaqueline Cardozo Polla Carla Fabiana Feltrin Raimundo (Coord.)
Internacionais Pós-Graduação Nágila Cristina Hinckel Bruno Augusto Zunino
Coordenadores Pós-Graduação Anelise Leal Vieira Cubas (Coord.) Sabrina Paula Soares Scaranto
Murilo Matos Mendonça Aloísio José Rodrigues Gabriel Barbosa
Anelise Leal Vieira Cubas Thayanny Aparecida B. da Conceição
Assessoria de Relação com Poder Biblioteca Produção Industrial
Público e Forças Armadas Bernardino José da Silva Salete Cecília e Souza (Coord.) Gerência de Logística Marcelo Bittencourt (Coord.)
Adenir Siqueira Viana Carmen Maria Cipriani Pandini Paula Sanhudo da Silva Jeferson Cassiano A. da Costa (Gerente)
Walter Félix Cardoso Junior Daniela Ernani Monteiro Will Marília Ignacio de Espíndola Gerência Serviço de Atenção
Giovani de Paula Renan Felipe Cascaes Logísitca de Materiais Integral ao Acadêmico
Assessoria DAD - Disciplinas a Karla Leonora Dayse Nunes Carlos Eduardo D. da Silva (Coord.) Maria Isabel Aragon (Gerente)
Distância Letícia Cristina Bizarro Barbosa Gestão Docente e Discente Abraao do Nascimento Germano Ana Paula Batista Detóni
Patrícia da Silva Meneghel (Coord.) Luiz Otávio Botelho Lento Enzo de Oliveira Moreira (Coord.) Bruna Maciel André Luiz Portes
Carlos Alberto Areias Roberto Iunskovski Fernando Sardão da Silva Carolina Dias Damasceno
Cláudia Berh V. da Silva Rodrigo Nunes Lunardelli Capacitação e Assessoria ao Fylippy Margino dos Santos Cleide Inácio Goulart Seeman
Conceição Aparecida Kindermann Rogério Santos da Costa Docente Guilherme Lentz Denise Fernandes
Luiz Fernando Meneghel Thiago Coelho Soares Alessandra de Oliveira (Assessoria) Marlon Eliseu Pereira Francielle Fernandes
Renata Souza de A. Subtil Vera Rejane Niedersberg Schuhmacher Adriana Silveira Pablo Varela da Silveira Holdrin Milet Brandão
Alexandre Wagner da Rocha Rubens Amorim
Assessoria de Inovação e Jenniffer Camargo
Gerência Administração Elaine Cristiane Surian (Capacitação) Yslann David Melo Cordeiro Jessica da Silva Bruchado
Qualidade de EAD Acadêmica Elizete De Marco
Denia Falcão de Bittencourt (Coord.) Jonatas Collaço de Souza
Angelita Marçal Flores (Gerente) Fabiana Pereira Avaliações Presenciais
Andrea Ouriques Balbinot Juliana Cardoso da Silva
Fernanda Farias Iris de Souza Barros Graciele M. Lindenmayr (Coord.)
Carmen Maria Cipriani Pandini Juliana Elen Tizian
Juliana Cardoso Esmeraldino Ana Paula de Andrade
Secretaria de Ensino a Distância Kamilla Rosa
Maria Lina Moratelli Prado Angelica Cristina Gollo
Assessoria de Tecnologia Samara Josten Flores (Secretária de Ensino) Simone Zigunovas
Mariana Souza
Osmar de Oliveira Braz Júnior (Coord.) Cristilaine Medeiros Marilene Fátima Capeleto
Giane dos Passos (Secretária Acadêmica) Daiana Cristina Bortolotti
Felipe Fernandes Adenir Soares Júnior Tutoria e Suporte Maurício dos Santos Augusto
Felipe Jacson de Freitas Delano Pinheiro Gomes Maycon de Sousa Candido
Alessandro Alves da Silva Anderson da Silveira (Núcleo Comunicação) Edson Martins Rosa Junior
Jefferson Amorin Oliveira Andréa Luci Mandira Claudia N. Nascimento (Núcleo Norte- Monique Napoli Ribeiro
Phelipe Luiz Winter da Silva Fernando Steimbach Priscilla Geovana Pagani
Cristina Mara Schauffert Nordeste)
Fernando Oliveira Santos
Priscila da Silva Djeime Sammer Bortolotti Maria Eugênia F. Celeghin (Núcleo Pólos) Sabrina Mari Kawano Gonçalves
Rodrigo Battistotti Pimpão Lisdeise Nunes Felipe Scheila Cristina Martins
Douglas Silveira Andreza Talles Cascais Marcelo Ramos
Tamara Bruna Ferreira da Silva Evilym Melo Livramento Daniela Cassol Peres Taize Muller
Marcio Ventura Tatiane Crestani Trentin
Fabiano Silva Michels Débora Cristina Silveira Osni Jose Seidler Junior
Coordenação Cursos Fabricio Botelho Espíndola Ednéia Araujo Alberto (Núcleo Sudeste) Thais Bortolotti
Coordenadores de UNA Felipe Wronski Henrique Francine Cardoso da Silva
Diva Marília Flemming Gisele Terezinha Cardoso Ferreira Janaina Conceição (Núcleo Sul) Gerência de Marketing
Marciel Evangelista Catâneo Indyanara Ramos Joice de Castro Peres Eliza B. Dallanhol Locks (Gerente)
Roberto Iunskovski Janaina Conceição Karla F. Wisniewski Desengrini
Jorge Luiz Vilhar Malaquias Kelin Buss Relacionamento com o Mercado
Auxiliares de Coordenação Juliana Broering Martins Liana Ferreira Alvaro José Souto
Ana Denise Goularte de Souza Luana Borges da Silva Luiz Antônio Pires
Camile Martinelli Silveira Luana Tarsila Hellmann Maria Aparecida Teixeira Relacionamento com Polos
Fabiana Lange Patricio Luíza Koing Zumblick Mayara de Oliveira Bastos Presenciais
Tânia Regina Goularte Waltemann Maria José Rossetti Michael Mattar Alex Fabiano Wehrle (Coord.)
Jeferson Pandolfo
Itamar Pedro Bevilaqua
Letícia Bizarro Barbosa
Marciel Evangelista Catâneo
Cenários Futuros
Livro didático
Design instrucional
Luiz Henrique Queriquelli
1ª edição revista
Palhoça
UnisulVirtual
2011
Copyright © UnisulVirtual 2011
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.
Edição – Livro Didático
Professores Conteudistas
Itamar Pedro Bevilaqua
Letícia Bizarro Barbosa
Marciel Evangelista Catâneo
Design Instrucional
Luiz Henrique Queriquelli
Assistente Acadêmico
Roberta de Fátima Martins (1ª edição revista)
Projeto Gráfico e Capa
Equipe UnisulVirtual
Diagramação
Adriana Ferreira dos Santos
Daiana Ferreira Cassanego (1ª edição revista)
Revisão
B2B
303.49
B46 Bevilaqua, Itamar Pedro
Cenários futuros : livro didático / Itamar Pedro Bevilaqua, Letícia
Bizarro Barbosa, Marciel Evangelista Catâneo ; design instrucional Luiz
Henrique Milani Queriquelli ; [assistente acadêmico Roberta de Fátima
Martins]. – 1. ed. rev. – Palhoça : UnisulVirtual, 2011.
124 p. : il. ; 28 cm.
Inclui bibliografia.
1. Futurologia. 2. Futuro – Sociedade. 3. Globalização. I. Barbosa,
Letícia Bizarro. II. Catâneo, Marciel Evangelista. III. Queriquelli, Luiz
Henrique Milani. IV. Martins, Roberta de Fátima. V. Título.
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul
Sumário
Apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Palavras dos professores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Plano de estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
UNIDADE 1 - Estudar o futuro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
UNIDADE 2 - Cenários ecológicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
UNIDADE 3 - Cenários econômicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
Para concluir o estudo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115
Sobre os professores conteudistas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
Respostas e comentários das atividades de autoavaliação. . . . . . . . . . . . . . 121
Biblioteca Virtual. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
Apresentação
Este livro didático corresponde à disciplina Cenários Futuros.
O material foi elaborado visando a uma aprendizagem
autônoma e aborda conteúdos especialmente selecionados e
relacionados à sua área de formação. Ao adotar uma linguagem
didática e dialógica, objetivamos facilitar seu estudo a
distância, proporcionando condições favoráveis às múltiplas
interações e a um aprendizado contextualizado e eficaz.
Lembre‑se que sua caminhada, nesta disciplina, será
acompanhada e monitorada constantemente pelo Sistema
Tutorial da UnisulVirtual, por isso a “distância” fica
caracterizada somente na modalidade de ensino que você
optou para sua formação, pois na relação de aprendizagem
professores e instituição estarão sempre conectados com você.
Então, sempre que sentir necessidade entre em contato; você tem
à disposição diversas ferramentas e canais de acesso tais como:
telefone, e‑mail e o Espaço Unisul Virtual de Aprendizagem,
que é o canal mais recomendado, pois tudo o que for enviado e
recebido fica registrado para seu maior controle e comodidade.
Nossa equipe técnica e pedagógica terá o maior prazer em lhe
atender, pois sua aprendizagem é o nosso principal objetivo.
Bom estudo e sucesso!
Equipe UnisulVirtual.
7
Palavras dos professores
Caro(a) estudante,
Nossa civilização está passando por um momento de intensas,
aceleradas e surpreendentes transformações. Um momento
de transição da era da informação e do conhecimento para
uma nova era. Qual futuro nos espera? Que futuro nossa
civilização está construindo? Velocidade, flexibilidade,
complexidade do ambiente continuarão caracterizando
este novo mundo? O futuro é imprevisível ou podemos
influenciá‑lo? Embora a ciência pretenda ser preditiva,
não é comum encontrar, nos cursos universitários, uma
reflexão sobre o que há por vir, sobre o futuro. A tradição
racionalista ocidental não vê ciência no imprevisível.
Esta é uma disciplina prospectiva, de aspecto inter e
multidisciplinar, que visa a preparar para navegar no
mar turbulento das crises e incertezas. Isso significa que
precisamos ter um olhar mais abrangente com relação
ao futuro, transformando‑o num campo de estudo que
suscite reflexões e encoraje mudanças, a fim de aprimorar
o bem‑estar da humanidade e a sustentabilidade da
vida no planeta. A falta de um pensamento de futuro
na sociedade é um dos principais fatores adversos para a
necessária adaptação às mudanças. Pensar longe se tornou
uma necessidade estrutural às sociedades em transição.
Nas unidades que seguem, vamos transformar o futuro
em uma questão filosófica. Buscaremos abordar o tema da
radicalidade, rigorosidade e totalidade, a fim de identificar
a presença desta temática na história da filosofia e as
possibilidades de antecipação e prognóstico do futuro.
Bons estudos,
Profs. Itamar Pedro Bevilaqua, Letícia Bizarro Barbosa e
Marciel Evangelista Catâneo.
Plano de estudo
O plano de estudos visa a orientá‑lo no desenvolvimento da
disciplina. Ele possui elementos que o ajudarão a conhecer o
contexto da disciplina e a organizar o seu tempo de estudos.
O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual leva
em conta instrumentos que se articulam e se complementam,
portanto, a construção de competências se dá sobre a
articulação de metodologias e por meio das diversas formas de
ação/mediação.
São elementos desse processo:
o livro didático;
o Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem (EVA);
as atividades de avaliação (a distância, presenciais e de
autoavaliação);
o Sistema Tutorial.
Ementa
Estudos do futuro: conceituação e métodos. Pensamento
antecipativo e prospectivo. O ciberespaço. Futuros alternativos
e novas imagens do futuro. Futuros prováveis, possíveis e
preferíveis. Futuros pessoais, organizacionais, comunitários,
nacionais e globais. A sociedade “multicivilizacional”. Tópicos
emergentes, capazes de transformar a sociedade (robótica,
telecomunicações, nanotecnologia, globalização, genética,
cooperação). Pensamento sistêmico e pensamento holístico.
Educação global, educação para a paz, educação ambiental e
educação para sustentabilidade.
Universidade do Sul de Santa Catarina
Objetivos da disciplina
Geral
Problematizar a relação entre escolhas humanas e futuro possível
a partir dos pontos de vista filosófico, ecológico e econômico.
Específicos
Identificar as contribuições dos filósofos ao longo da
história e refletir sobre a relação entre filosofia e futuro,
a fim de encontrar possibilidades de estudo, previsão e
antecipação do futuro.
Refletir acerca do mundo em que vivemos, seus limites
planetários, nossas posturas, valores e atitudes, as
ideologias que nos moldam e as principais ameaças e
riscos da sociedade contemporânea, a fim de encontrar o
papel do filósofo e do cidadão neste ambiente.
Analisar os principais problemas do sistema econômico
capitalista, a fim de identificar possibilidades de
transformações sistêmicas e outras lógicas econômicas.
Carga horária
A carga horária total da disciplina é 60 horas‑aula.
12
Cenários Futuros
Conteúdo programático/objetivos
Veja, a seguir, as unidades que compõem o livro didático desta
disciplina e os seus respectivos objetivos. Estes se referem aos
resultados que você deverá alcançar ao final de uma etapa de
estudo. Os objetivos de cada unidade definem o conjunto de
conhecimentos que você deverá possuir para o desenvolvimento
de habilidades e competências necessárias à sua formação.
Unidades de estudo: 3
Unidade 1 – Estudar o futuro
Na primeira unidade, você terá oportunidade de conceituar e
problematizar o futuro a partir de filósofos clássicos, cada qual
em seu momento na história da filosofia, e também a partir de
pensadores contemporâneos. Ao final, será possível estabelecer
uma relação entre escolhas humanas e futuro possível.
Unidade 2 – Cenários ecológicos
Com o estudo desta unidade, você poderá refletir, a partir de
uma visão holística, a respeito de temas como limites planetários,
ideologia do crescimento ilimitado, sociedade de risco e
sociedade de perigo.
Unidade 3 – Cenários econômicos
Na última unidade, você vai analisar aspectos econômicos que
podem auxiliá‑lo a questionar os cenários futuros. Conhecerá
os principais problemas do sistema econômico capitalista,
sua lógica de funcionamento, a racionalidade que o rege e as
consequências produzidas, a fim de refletir sobre as possibilidades
de transformações sistêmicas e outras lógicas econômicas.
13
Universidade do Sul de Santa Catarina
Agenda de atividades/Cronograma
Verifique com atenção o EVA, organize‑se para acessar
periodicamente a sala da disciplina. O sucesso nos seus
estudos depende da priorização do tempo para a leitura,
da realização de análises e sínteses do conteúdo e da
interação com os seus colegas e com o professor.
Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço
a seguir as datas com base no cronograma da disciplina
disponibilizado no EVA.
Use o quadro para agendar e programar as atividades
relativas ao desenvolvimento da disciplina.
Atividades obrigatórias
Demais atividades (registro pessoal)
14
1
UNIDADE 1
Estudar o futuro
Objetivos de aprendizagem
Refletir sobre a relação entre filosofia e futuro.
Identificar as contribuições dos filósofos para a
reflexão sobre o futuro nos diferentes períodos da
história da filosofia.
Associar as contribuições identificadas a possibilidades
de estudo, previsão e antecipação do futuro.
Problematizar a relação entre escolhas humanas e
futuro possível.
Seções de estudo
Seção 1 O futuro e a Filosofia
Seção 2 Conhecer o futuro
Seção 3 Prever o futuro
Seção 4 Antecipar o futuro
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
Nesta primeira unidade, nós vamos problematizar o futuro.
Vamos transformá‑lo, dentro de determinadas condições e
possibilidades, em uma questão filosófica, buscando radicalidade,
rigorosidade e totalidade na abordagem. Veremos, também, a
presença desta temática na história da filosofia e as possibilidades
de antecipação e previsão do futuro.
O futuro é o horizonte temporal mais temido, mas que também
mais força de atração exerce sobre os imaginários coletivos e
sobre as identidades dos indivíduos. Uma questão tão presente na
existência de todos nós quanto o presente.
O que é o futuro? O futuro é o tempo que sucede ao presente, o
que está por vir, numa concepção linear, mecânica. O futuro é
atemporal ‑ é o que “é”, e ainda não percebido, numa concepção
quântica. Manifesta‑se na percepção que temos do tempo que
passa na dinâmica do antes, do agora e do depois.
Seção 1 – O futuro e a Filosofia
Na representação de tempo do tipo linear e causal, o tempo
futuro sempre esteve entre as principais preocupações do ser
humano no exercício da sua racionalidade. Nesta seção, você
identificará as principais contribuições que os filósofos, de
diferentes períodos da história da filosofia, legaram-nos para a
reflexão sobre o futuro.
1.1 – O futuro na filosofia antiga
Mesmo antes de se deixar guiar pela razão, o homem grego, na
mitologia e nas tragédias, já demonstrava fascínio, curiosidade,
temor diante dos acontecimentos do porvir. Não há futuro
para o homem trágico diante do poder e tirania dos deuses que
escrevem e reescrevem o seu destino no sabor de suas vicissitudes,
16
Cenários Futuros
idiossincrasias e vontades. Os deuses gregos são passionais e
arbitrários quanto aos destinos dos homens, sempre sujeitado às
intenções maléficas ou benéficas dos deuses.
A filosofia clássica nasce sob este estigma: tirar o
presente e o futuro dos homens das mãos dos deuses e
buscar uma explicação racional e argumentada para a
existência humana na sua temporalidade.
Qual o futuro do homem? Qual a possibilidade de futuro para
homem? Na reflexão socrática, o conhecimento de si mesmo;
na reflexão platônica, o conhecimento da verdade; na reflexão
aristotélica, a cidadania.
As teorias que buscam respostas para essas indagações são
produzidas com um olhar no presente e outro num horizonte
que desponta, feito exercício de “futurição”: a projeção dos
acontecimentos futuros, enquanto se torna possível a previsão
deles. É próprio da filosofia esgotar as possibilidades de
conhecimento do “onde estamos” e, nesta atitude, lançar luzes
sobre o “para onde vamos”.
Os clássicos também nos mostram que o futuro não é
previsível. Assim como a paixão, não pertence ao mundo
racional e organizado, está no domínio do caos. Para estes, esta
imprevisibilidade fundamental do futuro não significa que não
nos devemos preocupar com ele e meramente apostar na sorte, na
providência divina ou no destino.
1.2 – Aristóteles e os futuros contingentes
Na sua lógica modal, Aristóteles se depara com a questão dos
enunciados sobre o futuro, qual a possibilidade de aferição lógica,
estrutura e valor de verdade destes enunciados. Aristóteles ensina
que o futuro será sempre contingente, dependente do presente:
o que será, o porvir é diferente do que está a ponto de acontecer
ou ocorrer. Sobre o que será, sobre o porvir, nada se pode dizer.
Não podendo ser verdadeira ou falsa qualquer proposição ou
enunciado que afirme que algo acontecerá ou que algo não
acontecerá no futuro.
Unidade 1 17
Universidade do Sul de Santa Catarina
Segundo a lógica aristotélica, o futuro não é lógico. Escapa à
racionalidade e ao alcance da reflexão filosófica. Ao filósofo resta
falar sobre futuros contingentes ou condicionados, ou um futuro
que está a ponto de potencialmente acontecer.
1.3 – Agostinho, o tempo e o futuro
Agostinho (354‑430), supremo representante da filosofia
patrística, ocupa-se da questão do tempo futuro. No livro XI de
suas Confissões, diz:
De que modo existem aqueles dois tempos – o passado
e o futuro –, se o passado já não existe e o futuro
ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre
presente e não passasse para o pretérito, já não seria
tempo, mas eternidade. Mas se o presente para ser
tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito,
como podemos afirmar que ele existe, se a causa de sua
existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para
que digamos, que o tempo verdadeiramente existe,
porque tende a não ser? (AGOSTINHO, 1973, 244).
Passado e futuro são compreendidos aqui como não presente,
negação de um presente que já não é (passado) ou ainda não é
(futuro). Fazem parte de um tempo contínuo e indivisível, que
só pode ser medido no tempo presente: “Quem pode medir os
tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda
não chegaram? Só se alguém se atrever a dizer que pode medir
o que não existe!” (AGOSTINHO, 1973, p. 246). Agostinho
é elucidativo quando afirma que, embora somente o presente
seja mensurável e perceptível, existem os fatos futuros e os fatos
pretéritos e é deles que falamos quando nos referimos ao passado
e ao futuro.
Essa também é a reflexão de Agostinho sobre os vaticínios
do futuro:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde
elas estão. Se ainda o não posso compreender, sei, todavia
que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras
18
Cenários Futuros
nem pretéritas, mas presentes. Pois, se também aí são
futuras, ainda lá não estão; e, se nesse lugar são pretéritas,
já lá não estão. Por conseguinte, em qualquer parte onde
estiverem, quaisquer que elas sejam, não podem existir
senão no presente. (AGOSTINHO, 1973, p. 246).
Na continuidade desta reflexão, Agostinho apresenta o futuro
como premeditação, como um prognóstico das coisas futuras com
base no conhecimento das coisas presentes, vejamos:
Sei com certeza que nós, a maior parte das vezes,
premeditamos as nossas ações futuras, e essa premeditação
é presente, ao passo que a ação premeditada ainda existe,
porque é futura. Quando empreendemos e começamos
a realizar o que premeditamos, então essa ação existirá,
porque já não é futura, mas presente. De qualquer
modo que suceda este pressentimento oculto das coisas
futuras, não podemos ver senão o que possui existência.
Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por
conseguinte, quando se diz que se vêem os acontecimentos
futuros, não se vêem os próprios acontecimentos, ainda
inexistentes – isto é, os fatos futuros –, mas sim as suas
causas, ou talvez os seus prognósticos já dotados de
existência. Portanto, com relação aos que vêem, esses
acontecimentos não são futuros, mas sim presentes.
(AGOSTINHO, 1973, p. 247).
Para o filósofo medieval não há tempos futuros nem pretéritos,
sendo‑nos possível falar em presente das coisas passadas,
presente das presentes, presentes das futuras. Os três tempos
existem na mente do ser consciente e em nenhum outro
lugar: lembrança presente das coisas passadas, visão presente
das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.
(AGOSTINHO, 1973, p. 248).
1.4 – A escolástica, Deus e o futuro
A filosofia medieval escolástica transforma a questão do futuro
numa questão teológica. Será que Deus conhece o futuro? E
o homem pode conhecê‑lo? O futuro do homem está ou não
predeterminado, estamos ou não predestinados para a salvação
ou condenação? Nesta reflexão filosófico‑teológica, a questão do
futuro se encontra com a questão da eternidade.
Unidade 1 19
Universidade do Sul de Santa Catarina
Tomas de Aquino defende que Deus é sempre presente, é eterno.
Só o homem tem passado, presente e futuro. Duns Escoto
(1266‑1308) defende que, em Deus, passado, presente e futuro
são eternos, o que nos permite a percepção destes diferentes
tempos na relação com Deus, que tem o tempo todo. Guilherme
de Ockham (1280‑1349) defende que Deus conhece todos
os futuros contingentes e é a causa ou não da sua realização.
O futuro possui causalidade divina, é vontade de Deus, é
determinado pelo que Deus quer e pelo que Deus não quer.
1.5 – O futuro é factível
Descartes e a dúvida metódica constituem um marco delimitador
do surgimento do espírito e da filosofia moderna. Ele faz do
cogito, “Eu penso, logo existo”, um princípio indubitável e
racional, a partir do qual deve ser avaliado todo conhecimento.
O pensar implica na existência de um sujeito que pensa. O
pensar é a prova indubitável e inabalável da existência do sujeito
que pensa. Uma ideia clara e distinta. Para pensar o futuro e
consequentemente a sua existência, precisamos ter uma noção
ou ideia do futuro. O futuro pode ser pensado, mas não como
uma ideia clara e distinta. Não é um conhecimento que nenhuma
dúvida possa abalar.
Na classificação das ideias propostas por Descartes, o futuro
não pertence ao grupo das ideias inatas, ideias claras e distintas,
presentes na mente humana desde o nascimento e desenvolvidas
pela razão ao longo da existência. O futuro pode ser classificado
como ideia adventícia, uma ideia que procede da experiência; e
também como uma ideia factível, forjada pelo sujeito racional.
É possível, então, dizer que o futuro advém ou não,
com base na experiência que vivenciamos. É possível
dizer que o futuro é factível, com base na nossa
imaginação, disposição, vontade, capacidade e
criatividade – possibilidade ou não de criá‑lo.
20
Cenários Futuros
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646‑1716) tem uma visão positiva
do presente, este é “o melhor dos mundos” – o intercâmbio
contínuo e eterno entre o uno e o múltiplo, o mais simples em
suas leis e o mais diverso em seus fenômenos. Uma harmonia
preestabelecida na natureza, que se movimenta segundo uma lei
de continuidade. Conforme esta lei, os corpos vão do pequeno
ao grande e vice‑versa, passando pelo nível médio, tanto no grau
quanto nas partes, e jamais um movimento nasce imediatamente
do repouso nem se reduz, a não ser por um motivo menor.
Nesta visão, a natureza nunca dá saltos, o presente não seria
senão a continuação de um estado anterior. Nas palavras de
Leibniz (1983, p. 170), “também o presente está prenhe do
futuro”. Segundo Abbagnano (2007, p. 555), Leibniz chama de
“futurição” a determinação dos acontecimentos futuros, sendo
atributo exclusivamente divino a sua previsão infalível.
1.6 – O futuro dos novos tempos
Para os tempos modernos, que advêm do renascimento e
iluminismo, o futuro é o suporte do progresso, um acelerador do
presente, que nos impulsiona em direção a novas conquistas. O
futuro não mais “a Deus pertence”: é uma conquista e construção
do homem no exercício da sua racionalidade. Um horizonte
temporal a partir do qual se subtrai, supera e ultrapassa o presente.
Na concepção moderna, o futuro não é algo que surge,
de forma independente e autônoma, ele é causado e
como tal pode ser conhecido, antecipado, controlado,
ou melhor, projetado e planejado.
“Seguir em frente”, progredir sem nunca tocar o ponto de origem,
sem retroceder ou se cerrar em círculo. Uma linha de pensamento
que será a marca mais profunda da civilização ocidental, que
fará deste projetar‑se para o futuro o eixo sobre o qual se
desenvolvem e circulam as grandes questões político‑ideológicas
das sociedades contemporâneas.
Unidade 1 21
Universidade do Sul de Santa Catarina
1.7 – O futuro na filosofia do século XX
As filosofias fenomenológicas e existencialistas são as que mais
se ocuparam da temática do futuro durante o século XX. De um
ponto de vista mais fenomenológico, isto é, a partir dos sentidos
que os próprios indivíduos atribuem à experiência, tanto o passado
como o futuro são constantemente presente. O que somos agora
resulta da convergência entre o percurso e a memória relativos ao
passado e à projeção no futuro. Diariamente “puxamos” esse futuro
ao presente, antecipando‑o, programando‑o.
Na reflexão filosófica de Martim Heidegger (1889‑1976),
o homem está no mundo, ele é o “ser‑aí” (dasein), ou
“ser‑no‑mundo”. Este é o fundamento do seu modo de ser.
A preocupação é a sua maneira de ser: tendência essencial
do “ser‑aí” para a proximidade consigo, com os outros, com
as coisas; relação que desvela e constitui a sua existência. O
“ser‑no‑mundo” se faz “ser‑com‑o‑mundo”, na sua relação com o
mundo; e “ser‑em‑comum”, na sua relação com os outros e com
as coisas. O dasein não só está no mundo, mas é essencialmente
constituído por este estar. Existir é “ser‑aí”, no mundo, com o
mundo, em comum com o mundo.
Para o filósofo, a resolução da vida compreende, em primeiro
lugar, o conhecimento da situação original na qual nos
encontramos enquanto existentes – facticidade marcada pelo fato
de havermos sidos jogados e abandonados no mundo para existir.
Eis a compreensão da maneira de ser do dasein como “poder‑ser”:
a existência nunca é alguma coisa dada de uma vez para sempre,
mas uma possibilidade projetada, um projeto.
No desenvolvimento do seu projeto de vida, o ser humano
estabelece relações com o mundo, o ambiente natural, social e
histórico onde está situado. Nesta relação, dá sentido à sua vida,
tendo o passado e o futuro constantemente presente. O que
somos agora resulta da convergência entre passado (memória) e a
projeção do futuro. Neste movimento, diariamente “puxamos” o
futuro ao presente, antecipando‑o, programando‑o.
22
Cenários Futuros
Nessa relação, que é a própria existência, o homem projeta a
sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Nesta
perspectiva, existir é uma busca permanente para realizar aquilo
que ainda não é. Em outras palavras, existir é construir um
projeto. Construir um projeto é construir o futuro.
Eis, para a filosofia existencialista, uma particularidade do existir
humano: uma existência que não se limita ou se esgota no tempo
dado, no presente. A compreensão e o sentido do dado implicam
a existência do devir, do ainda‑não, do futuro. Nós somos o que
somos e o que somos inclui o que esperamos; o que nos espera é
o que estamos preparando para nós e para o mundo. A ausência
do futuro ou um futuro deformado impossibilita a compreensão
do presente. Sem futuro, o mundo do presente oprime e perde o
sentido, a compreensão da nossa vida começa a declinar.
Você sabia?
Karl Jaspers (1883‑1969), filósofo alemão que antes de
se dedicar à filosofia foi médico e psiquiatra, define
a investigação filosófica como resolução da vida,
que se dá em três momentos: orientação no mundo,
esclarecimento da existência e metafísica.
Jaspers desenvolve um conceito de homem intitulado
“ser‑em‑situação”. Para ele, somos tomados de uma realidade
empírica que se mostra e se impõe a todos, filósofos ou não.
Realidade humana ou mundana, física e psíquica, a condição
do “ser‑em‑situação” é a vida temporal do homem como
desdobramento no tempo e espaço. Condição primária que
não comporta em si toda a existência e não é o verdadeiro ser
do homem.
Jasper diz que a verdadeira existência é a possibilidade
de transcender a situação na qual nos encontramos. O
“ser‑em‑situação” é o ponto de apoio da existência, um processo
que nunca chega ao fim, portanto, há a impossibilidade de
certezas absolutas, qualquer pretensão de certeza absoluta, seja
filosófica ou religiosa, é uma não verdade.
Unidade 1 23
Universidade do Sul de Santa Catarina
Aqui se dá o esclarecimento da existência: a existência
ainda não é, mas pode ser. O homem não é: está
sendo. O “está‑sendo” inclui a dimensão do futuro
como parte da existência do homem.
Segundo Jaspers, o homem é o único ser que não apenas é,
mas sabe que é. Essa possibilidade de existência consciente
permite ao homem aprofundar o conhecimento do seu mundo
e modificá‑lo segundo um projeto, que é a sua vida. Ele é o ser
não identificável como simples existência, porque é capaz de
determinar livremente o que vier a ser. Fora desta possibilidade,
não há existência autêntica, mas simples participação na massa
anônima: o homem deixa de ser ele próprio e atua segundo uma
vontade, que não é a sua.
A consciência da experiência existencial, do “ser‑em‑situação”,
mostra-nos os limites da existência concreta (entre estas
situações‑limites, a mais fundamental é a morte). A possibilidade
da transcendência nos impulsiona para além dos limites das
situações‑limite, e nos abre a possibilidade de “ser‑projeto”, um
ser para frente de si mesmo, que se lança em direção ao futuro e
neste movimento constitui a sua existência.
Na reflexão filosófica de Jaspers, a dimensão do futuro
(metafísica) dá sentido para o presente, impedindo que sejamos
devorados pelo “ser‑em‑situação” no encontro da dimensão
metafísica da existência.
Na perspectiva filosófica, o futuro não é uma simples decorrência
do presente e do passado, mas causa do próprio presente
enquanto direcionador e motivador do presente. Um objeto não
objetivado, real, mas ainda não realidade, que fundamenta a
existência humana como perspectiva, possibilidade, projeto.
O futuro é condição necessária para que os indivíduos
e as sociedades, no seu todo, possuam sentidos de
direção, sejam capazes de ultrapassar as barreiras do
passado e do presente concreto, gerir o imprevisto,
prevenir, antecipar e evoluir.
24
Cenários Futuros
Figura 1.1 ‑ COP15: a última convenção mundial, realizada em 2009, em Copenhague, para projetar o
futuro climático do planeta
Fonte: Inhabitat, 2011.
1.8 – A questão do tempo
Vimos que a questão do tempo sempre esteve presente na
reflexão dos filósofos na história da filosofia. Com o progresso
das ciências e universalização do seu método – observar,
experimentar, matematizar – a ciência e os seus inúmeros e
diversificados instrumentos de medição ocuparam‑se desta
questão, relegando à filosofia um papel meramente especulativo
em questão, segundo elas, eminentemente empírica. Mas veremos
que o tratamento dado à questão do tempo pela ciência e pela
filosofia é filosoficamente diferenciado.
No tempo da ciência mecanicista, o futuro é a continuidade
linear de um espaço (existência) que se desdobra no tempo.
O tempo se apresenta como algo superior, que exerce força
destruidora sobre o espaço, transformando‑o, consumindo‑o,
aniquilando‑o. Vencer o tempo, prolongar a existência, sobreviver
à sua força destruidora é o ideal perseguido por todos.
Com Einstein, tempo e espaços são relativos e, nesta relação,
determinamos a nossa posição no mundo. Einstein vivencia, na
virada do século XIX para o século XX, uma época de intensas
mudanças, de progresso acelerado, desenvolvimento industrial,
de urbanização desenfreada, aparecimento de novas tecnologias
produtivas, de comunicação e informação.
Unidade 1 25
Universidade do Sul de Santa Catarina
A teoria de Einstein traz uma solução para o
grande problema do seu tempo: compreender a
simultaneidade dos fenômenos no tempo, sincronizar,
ordenar e controlar tais fenômenos.
A compreensão da simultaneidade possibilita a sincronização
do tempo, necessária para a produção industrial, logística de
transportes, movimentação de tropas. Sincronizado, o tempo
se acelera e, neste movimento, traz uma percepção aguçada da
simultaneidade da vida e da existência: nós que nos encontramos
no mesmo espaço, partilhamos do mesmo tempo.
Essa equação determina, sem sombra de dúvida, “onde estamos”,
e, por isso, o sucesso obtido pela física de Einstein. No entanto,
nada diz sobre o “para onde vamos”. Mensura o presente,
determina a nossa posição, registra mudanças de posição, mas
nada diz sobre a orientação, a meta, o sentido que seguimos.
Será que existe um tempo para os físicos e outro tempo para os
filósofos? Vejamos no quadro que segue:
Einstein visita Paris em 1922, onde expõe para um seleto e
entusiasmado público no Collège de France suas já consagradas
e incompreendidas ideias. Em sua exposição do dia 6 de abril,
um dos ouvintes, o filósofo francês Henri Bergson, observou
que, apesar da euforia em torno da relatividade, o significado
filosófico do tempo não era contemplado pela teoria conforme
se supunha. Disse o ilustre ouvinte:
“[...] O que eu quero estabelecer é simplesmente o
seguinte: uma vez admitida a relatividade como
teoria física, nem tudo está terminado. Resta
determinar o significado filosófico dos conceitos
que ela introduz. Resta descobrir até que
ponto ela renuncia à intuição e até que ponto
ela permanece atada à intuição: resta fazer a
parte do real e do convencional nos resultados
aos quais ela chegou, ou, principalmente,
nos intermediários que ela estabeleceu entre
a posição e a solução do problema. Ao fazer
este trabalho no concernente ao tempo,
26
Cenários Futuros
perceberemos, creio, que a teoria da relatividade
nada tem de incompatível com o senso comum.”
Ao que Einstein respondeu:
“A questão se coloca então assim: o tempo
do filósofo é o mesmo tempo do físico? [...]
Ora, o tempo físico pode ser derivado do
tempo da consciência. Primitivamente os
indivíduos têm a noção da simultaneidade
de percepções; eles podem se entender entre
eles e concordarem sobre qualquer coisa que
percebem; esta seria uma primeira etapa em
direção ao tempo objetivo. Mas existem eventos
objetivos independentes dos indivíduos e, da
simultaneidade das percepções, nós passamos
às dos eventos propriamente ditos. E, de fato,
aquela simultaneidade não conduziu à nenhuma
contradição durante longo tempo devido à
grande velocidade da luz. [...] Não há, portanto,
um tempo dos filósofos; apenas existe um tempo
psicológico diferente do tempo dos físicos”.
Como vemos, Einstein foi perspicaz ao se esquivar da abordagem
filosófica do tempo, preferindo permanecer no terreno científico.
Mais do que isso, apesar da falsa ideia segundo a qual Einstein teria
descoberto a verdadeira natureza do tempo iluminando as trevas
onde a filosofia se encontrava, ele rejeitou o tempo dos filósofos.
Fonte: BARRETO, 2010.
No colóquio supracitado, Bergson afirma que a noção de tempo
da ciência em nada difere da noção do tempo do senso comum.
Falta para estas a perspectiva filosófica, única capaz de refletir
sobre um objeto não objetivado, uma realidade que ainda não é.
O físico Carlos Fiolhais (2007), em um recente artigo, apresenta
a polêmica sobre o tempo travada entre Bergson e Einstein.
Mostra que, na sua reflexão, Bergson parte da ideia metafísica
de que o tempo existe dentro de cada ser pensante: o tempo é
“duração”, sendo o devir, a mudança, a irreversibilidade, a sua
principal característica.
Unidade 1 27
Universidade do Sul de Santa Catarina
O tempo metafísico é um tempo psicológico, desigual conforme
os observadores e até, em condições diferentes, desigual para o
mesmo observador. Recorda o articulista que, por vezes, temos
a nítida sensação de que o tempo voa, enquanto noutras ocasiões
ele custa a passar. O que não o diferencia do tempo físico,
segundo a teoria de Einstein, mas não dá cabo à polêmica.
De um lado, o autor coloca Bergson com o seu “tempo‑duração”,
ligado à intuição dos homens ‑ concepção que, segundo
Fiolhais (2007), procura legitimar o tempo irreversível, por
ser a única concepção macroscopicamente aceitável. Do
outro, coloca Einstein, com o seu “tempo‑eternidade”, ligado
inextrincavelmente ao espaço e à matéria onipresentes – que
elimina a noção de tempo‑mudança por ser ilusória. Ele afirma
que, assim posto, o tempo de Bergson é bem mais temporal do
que o de Einstein.
Conclusão do autor: para Bergson, o “tempo é invenção ou
não é absolutamente nada”, querendo por invenção significar
mudança, inovação, criação. Para Einstein, “o tempo é ilusão”
(FIOLHAIS, 2007), querendo significar que a distinção
entre passado e futuro é espúria do ponto de vista da física
dos processos fundamentais. O problema do tempo persiste,
na sua reversibilidade para a relatividade de Einstein, na sua
irreversibilidade para a filosofia de Bergson.
Fiolhais (2007) demonstra que a teoria da relatividade possibilita
que o tempo seja medido com resultados diversos para cada
observador, mas inexoravelmente ele flui, reversivelmente
para todos, não existindo para ninguém diferença essencial
entre o ontem e o amanhã. É o que diz Einstein, em carta à
família do amigo falecido, citada por Fiolhais (2007), no seu
artigo: “Michael precedeu‑me por pouco, ao deixar este mundo
estranho. Isso não tem qualquer importância. Para nós físicos
convictos, a distinção entre passado, presente e futuro não passa
de uma ilusão, ainda que persistente”.
E, ainda, cita Leonardo Coimbra, com uma história que
corrobora com a definição de tempo‑eternidade:
28
Cenários Futuros
Lembramos um velho professor de Mecânica que
começava as suas lições universitárias por convidar o
curso a imaginar um comboio deslizando na linha,
dizendo depois solene: “suprimam o comboio, a
paisagem, a linha, o solo, etc., o que fica?” E o curso,
perplexo, debalde tratava de pensar o que ficaria. Depois
duma pausa misteriosa, era o professor que deste modo
respondia: “O Tempo!”. (FIOLHAIS, 2007).
Nesta pitoresca passagem, o tempo é apresentado
como o que fica depois de se ter retirado tudo: o
homem com a sua consciência, a matéria e o espaço.
A posição de Bergson é categórica: não há tempo sem o homem,
sem a atividade da consciência humana, sem a percepção
desta do movimento. Márcio Barreto, no artigo supracitado,
cita Bergson, que na “Invenção criadora”, sua mais festejada
obra diz: “O Universo dura. Quanto mais aprofundarmos
a natureza do tempo, melhor compreendemos que duração
significa invenção, criação de formas, elaboração contínua do
absolutamente novo”. Para Bergson, a física não consegue dar
conta do tempo, como “elaboração contínua do absolutamente
novo”. (BARRETO, 2005).
Segundo a filosofia de Bergson, o conhecimento do mundo se
dá em dois domínios: o domínio da matéria que é dimensional,
rígido, onde nós experimentamos a nossa inteligência prática; e o
domínio da vida e da consciência, no qual ocorre a duração, um
tempo interno (kairós), que é o domínio da intuição.
O conhecimento científico produz resultados significativos
e inquestionáveis no domínio da matéria – Bergson nunca
questionou a validade científica da teoria da relatividade.
Entretanto, a percepção científica do tempo se restringe a esse
domínio e não serve para dar ao tempo um significado filosófico.
O tempo filosófico não pode ser medido,
mensurado, controlado. Não é linear, homogêneo, nem
relativo a uma posição inicial de inércia.
Unidade 1 29
Universidade do Sul de Santa Catarina
O tempo é “duração”. A duração (durée), que se confunde com
a própria existência, não pode ser construída com instantes
imóveis, pois o essencial da duração é a constante mudança, o
fluxo ininterrupto do tempo criador de formas. Movimento no
qual também estamos incluídos, a duração (tempo) não pode ser
explicada, mas, sim, compreendida pela forma característica e
fundamental do modo de ser humano: a intuição. A “intuição” é
uma espécie de simpatia intelectual pela qual nos transportamos
ao interior de um objeto ou realidade para coincidir com aquilo
que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível.
Na filosofia de Bérgson, a intuição permite o entendimento do
tempo como duração, como uma representação de uma duração
heterogênea e qualitativa. Essa concepção se confronta com a
concepção em voga, positivista e científica de tempo e de espaço:
realidade homogênea, divisível em partes, distintas entre si
somente por ocuparem uma posição diferente: o passado era
considerado diferente do presente e do futuro apenas por ser
anterior a ambos.
Bergson recorre aos dados imediatos da consciência para mostrar
que esta concepção do tempo é insustentável. Para Bergson, o
tempo não é algo intermitente, mas algo contínuo e extenso.
Quando reexaminando os dados da consciência, constatamos que
eles não são homogêneos e verificamos que nenhum estado de
consciência se repete de modo idêntico. As fases da consciência
são momentos essencialmente heterogêneos, que se compenetram
reciprocamente e que não constituem um alinhamento de
elementos simples e reversíveis, mas uma sucessão sempre mais
rica e diversificada.
O tempo é a sucessão dos estados de consciência. Logo, uma
vez que a consciência é essencialmente duração, ela não pode ser
reduzida ao espaço. É um processo em contínuo enriquecimento
e não divisível.
30
Cenários Futuros
Seção 2 – Conhecer o futuro
Na tradição da racionalidade ocidental, quando pensamos em
“futuro”, pensamos na possibilidade de dominar esse tempo que
ainda não existe, pelo conhecimento e previsão. Sustentamos essa
pretensão de que somos capazes de, com base num conhecimento
acumulado sobre o passado e sobre o presente, prever, antecipar e,
de certo modo, assegurar um futuro que nos seja favorável.
Nos tempos atuais, esse esforço premonitório ganhou ares de
ciência. A futurologia se apresenta como a ciência que estuda o
futuro, mas não é uma ciência exata.
Alertam os especialistas: o trabalho do futurólogo não
é indicar o que vai acontecer, mas, sim, na construção de
cenários possíveis, o que pode acontecer.
O futurólogo constrói cenários possíveis, prováveis, desejáveis.
O seu trabalho, muitas vezes, confunde-se com planejamento
ou estratégia.
Todas as sociedades e empreendimentos humanos produzem
cenários e discursos sobre o futuro. O desconhecido que nos espera
provoca incerteza, dúvida, espanto. Essa gama de sentimentos
colocou em operação, primeiramente as forças pré‑monitoras da
religião e da magia e, em seguida, da filosofia, da ética, da política,
da sociologia, da economia. Encontramos vaticínios sobre o futuro
espalhados por toda a gama de saberes, do senso comum à ciência,
da técnica à arte.
O cinema, a literatura, a religião, as artes, a sociologia, a política,
a economia tratam deste objeto não objetivado com um misto de
fascínio e temor. É isto o futuro: um objeto não objetivado, sempre
onipresente, determinante; sempre distante e inatingível.
A ciência do futuro ainda é novidade nos meios acadêmicos, mas
em quase todas as áreas científicas existe algum conhecimento da
mesma. Vejamos alguns exemplos:
Unidade 1 31
Universidade do Sul de Santa Catarina
a sociologia estuda o movimento da sociedade diante das
mudanças e inovações incessantemente criadas;
a gestão dos negócios preocupa‑se com as próximas
necessidades do mercado consumidor;
a história busca fatores de repetição na história objetivando
determinar tendências para o desenrolar dos fatos;
a geografia, preocupada com as trasnformações do meio
habitat e o crescimento da população, tende a estabilizar,
e assim por diante.
O interesse das diversas ciências pelo futuro mostra que o escopo
destas não contempla apenas o conhecimento sobre o que fomos
e o que somos, mas, também, sobre o que podemos “vir‑a‑ser”;
considerando que grande parte desse futuro está já determinada
no tempo presente e no passado.
Abbagnano registra que o termo “futurologia” começou a ser
“empregado por O. K. Flechtheim, a partir de 1943, para designar
a ciência das perspectivas prováveis do futuro destino do homem,
da sociedade e da cultura”. Segundo este dicionário, o escopo
da futurologia se define nos seguintes termos: “essa ciência não
pretende tomar como base apenas os dados das ciências exatas,
mas introduzir hipóteses de grande alcance e teorias referentes às
perspectivas do universo, à futura evolução da Terra e do clima, da
flora e da fauna”. (ABBAGNANO, 2007, p. 555).
Seção 3 – Prever o futuro
Prever o futuro é futurar, predizer, prognosticar, supor,
conjecturar. Assim como a ciência, na concepção popperiana é
feita de conjecturas e refutações. O futuro possível de ser previsto
é um futuro feito de conjecturas gestadas no presente e que serão,
ao longo do tempo, testadas, confirmadas ou refutadas.
32
Cenários Futuros
As coisas futuras ainda não existem; e se ainda não
existem, não existem presentemente. De modo algum
podem ser vistas, se não existem. Mas podem ser
prognosticadas pelas coisas presentes que já existem e se
deixam observar. (AGOSTINHO, 1973, p. 247).
O futuro não se pode prever. Aqueles que se predispõem a
revelá‑lo não merecem crédito por parte dos futuristas, dos
adeptos e construtores do futuro. Ninguém sabe com total clareza
ou certeza o que irá acontecer no futuro.
Na mitologia grega, muitos são os personagens dedicados às
previsões e vaticínios sobre os desígnios dos deuses, sobre os
homens e sobre as surpresas do futuro. Nix, deusa da noite, gera
as Moiras (destino): Cloto (fiar), Láquesis (sortear) e Átropos
(afastar). Damas de aparência funesta, encarregadas do elaborar,
tecer e interromper o fio da vida de todos os seres. As três irmãs,
“fiandeiras do destino”, teciam o futuro dos deuses e dos homens
na “roda da fortuna”, um tear no qual os fios da existência eram
tecidos e enrolados. Esse movimento determinava, pela posição
que os fios ocupavam nessa roda, os momentos de fortuna ou de
má sorte de todos os seres.
Na Odisséia, Cloto é a que tecia (fiar), ela detinha o fuso,
manipulava‑o e estimulava o fio da vida a iniciar sua trajetória.
Láquesis avaliava os compromissos, as provas e as dores que
caberiam a cada ser, distribuindo, assim, entre os homens, seus
respectivos destinos. Ela também sorteava quem partiria para o
reino da Morte. Átropos tinha sob sua égide o poder de romper
o fio da vida com sua tesoura encantada. Na Grécia, seu nome
tinha o sentido de ‘não voltar’.
Figura 1.2 ‑ As Moiras, com o fio da vida. Alegoria, por Strudwick (1885)
Fonte: Infoescola, 2011.
Unidade 1 33
Universidade do Sul de Santa Catarina
Oráculos, pitonisas, sacerdotes, adivinhos, santuário e sortilégios
são palavras recorrentes na mitologia e traduzem a fé na
existência de um poder superior e na possibilidade de relações
recíprocas com este poder. Tirésias foi o maior deles. Cego,
recebeu de Zeus o dom da “manteia”, conhecia o passado, o
presente e o futuro. De Atena, ele recebeu o dom da adivinhação,
da interpretação do voo e da linguagem dos pássaros. No
templo de Apolo, em Delfos, grande era o sucesso das pitonisas,
mulheres com o poder de revelar o futuro ou de transmitir a
vontade dos deuses.
Cassandra recebeu de Apolo, em troca do seu amor, o dom da
profecia e da vidência. Recebido o dom, Cassandra não honrou
a sua palavra, rejeitando Apolo. Apolo, não podendo retirar‑lhe
a dádiva concedida, tirou‑lhe o dom da persuasão: embora suas
profecias fossem verdadeiras, ninguém acreditava nelas.
Os adivinhos, os intérpretes de sonhos e os sacerdotes
gozavam de grande prestígio na sociedade helênica e exerciam
grande influência sobre as pessoas. Foram todos suplantados,
rejeitados, preteridos pelo conhecimento filosófico, mas não
eliminados ou esquecidos.
Seção 4 – Antecipar o futuro
Nossa reflexão nos conduz a uma conclusão: é possível
conjecturar sobre os futuros possíveis e escolher um destes
cenários possíveis como foco das nossas escolhas e atitudes. A
filosofia nos chama à responsabilidade de escolher o futuro, sem
nenhuma garantia de vê‑lo realizado. Viver com essa consciência
é projetar um futuro desejado e tudo fazer para merecê‑lo, como
um processo que envolve e dá sentido à própria existência, da que
é e da que há de seguir.
Compreender o futuro, como processo, implica ultrapassar os
limites da linearidade e da causalidade e percebê‑lo sempre como
um tempo que se situa no encontro do presente e do futuro. Um
34
Cenários Futuros
intervalo dinâmico, onde sujeitos e sociedades se posicionam e
se reposicionam constantemente na busca da realização da vida
presente e futura.
Diferente da concepção linear, onde presente e futuro são
representados como pontos numa reta, a compreensão do futuro,
como um projeto escolhido e vivenciado por nós, implica o
entendimento deste como uma rede tecida por nós, resultante de
ações, cujos resultados nem sempre são previstos ou controlados
por nós, embora eles sejam fruto de nossa ação.
4.1 – O futuro entre nós
Alvin Toffler (3 de outubro de 1928), escritor e ensaísta
americano, notabilizou‑se por apontar tendência para o futuro.
No livro “O choque do Futuro”, publicado em 1970, Toffler
faz previsões de mudanças sociais e tecnológicas tão drásticas
que deixariam as pessoas confusas. Ele defende a necessidade
de conhecermos o movimento de mudança que toma conta
da civilização tecnológica, suas principais tendências e
transformações em curso, para não sermos surpreendidos por
elas. Segundo o autor, o conhecimento do choque do futuro
favorece a nossa adaptação às mudanças, independentemente da
nossa vontade. Afirma que é possível dividir a população da terra
segundo a perspectiva do tempo no qual vivem, vejamos:
Examinando as atuais populações do globo, descobrimos
um pequeno grupo que ainda vive caçando e colhendo
comida, tal como os homens faziam há milênios. Outros,
a vasta maioria da humanidade, não dependem da caça
de ursos ou da colheita de morangos, mas da agricultura.
Eles vivem, em diversos aspectos como os seus ancestrais
viviam séculos atrás. Estes dois grupos tomados em
conjunto compõem talvez 70% de todos os seres humanos
vivos. São os homens do passado. Em contraste, pouco
mais de 25% da população da terra podem ser encontrados
nas sociedades industrializadas. Essas pessoas vivem
vidas modernas. São produtos da primeira metade do
século XX, moldados pela mecanização e pela educação
de massa, criados com recordações do passado agrícola de
seus próprios países. São, na verdade, homens do presente.
Os remanescentes 2 ou 3% da população do mundo, no
Unidade 1 35
Universidade do Sul de Santa Catarina
entanto, já não são mais pessoas nem do passado, nem
do presente. Pois, no coração dos principais centros de
mudanças culturais e tecnológicas, em Santa Mônica,
Califórnia, em Cambridge, Massachusetts, em Nova
York, Londres e Tóquio, existem milhões de homens e
mulheres dos quais já se pode dizer que estão vivendo o
modo de vida do futuro. (TOFFLER, 1994, p. 43).
O autor caracteriza esta “nação internacional do futuro em nosso
meio” como aquela em que os indivíduos “já foram tragados por
um novo e acelerado ritmo de vida” e vivem hoje como milhões
viverão amanhã. Vivem com pressa e mais depressa, sentindo‑se
inclusive pessoas “ansiosas, tensas e pouco à vontade quando o
ritmo diminui”. (TOFFLER, 1994, p. 43‑4).
Segundo o futurista, tudo é transitório. Tudo é
presente. Tudo é futuro. A transitoriedade está nas
coisas, descartáveis, de existência fugaz. Está nos
lugares, constantemente e incessantemente mudados,
transformados. Está nos círculos migratórios de
parcelas da população pelo mundo, cada vez mais
feito de nômades. Está no homem localizado, que vive
em diferentes módulos (família, amizades, trabalho e
outros). Por fim, está nas informações, cada vez mais
imagem e menos conteúdo, favorecendo a apreensão
imediata em detrimento da compreensão.
Toffler (1994, p. 157) advoga que a “sedução da informação”
e o desprezo por tudo o que é estável e consolidado provoca a
antecipação sistemática do futuro, o que pode ser visualizado nos
“sinais indiscutíveis de uma estrutura social doente”:
O dilúvio de novidades que está a ponto de se despejar
sobre todos nós irá se espalhar das universidades e
centros de pesquisa para as fábricas e escritórios, do
mercado e dos meios de comunicação de massa para os
nossos relacionamentos sociais, da comunidade para o lar.
(TOFFLER, 1994, p. 196).
Vivemos um tempo de enfrentamento entre o rotineiro,
representado pelo que é estável e consolidado na sociedade,
na família, no ambiente; e o incomum, o inédito, o estranho,
36
Cenários Futuros
o irregular e imprevisível. É esta a revolução provocada pela
sedução da inovação: uma inserção maciça de velocidade e
novidade no tecido da sociedade.
Toffler (1994, p. 216) também apresenta, como sinais da
antecipação do futuro, a emergência da diversidade, de uma
“abundância paralisante de escolha” de subculturas, tribos e
estilos de vida. Segundo o autor, esta nova configuração social
desafia todos os mecanismos de integração conhecidos e até então
praticados entre os povos e contextos:
Quando a diversidade converge com a transitoriedade
e a inovação, a sociedade dispara como um foguete em
direção a uma crise histórica de adaptação. Criamos um
ambiente efêmero, desconhecido e complexo que ameaça
milhões de seres humanos com um colapso de adaptação.
Este é o choque do futuro. (TOFFLER, 1994, p. 260).
Sobreviver ao futuro é adaptar‑se. Adaptar‑se é superar o
choque do futuro que já está entre nós. Para muitos, isso é um
desafio intransponível, crise derradeira num cenário marcado
pela transitoriedade, que promove a emergência da adversidade
e multiplica ao infinito as possibilidades de escolha e a
responsabilidade do indivíduo pelas mesmas.
Entrevista com Alvin Toffler concedida à revista Veja
Por Rosana Zakabi
O Big Brother
Alvin Toffler é especialista em apontar tendências para o futuro,
tema de seus onze livros. Dois deles são best‑sellers, com enorme
influência ao redor do mundo: O Choque do Futuro, de 1970, e A
Terceira Onda, continuação escrita dez anos depois. O título do
primeiro refere‑se à previsão de mudanças sociais e tecnológicas
tão drásticas que deixariam as pessoas confusas. No segundo,
ele mergulhou na análise dessas mudanças. Com duas décadas
de antecedência, Toffler previu que as pessoas teriam PCs em
casa. Também prognosticou o surgimento e a expansão da TV a
cabo, por assinatura. Para escrever os dois livros, Toffler contou
com a ajuda da mulher, Heidi, que colaborou com as pesquisas
e editou os trabalhos. O primeiro emprego de Toffler, ainda
Unidade 1 37
Universidade do Sul de Santa Catarina
adolescente, foi como operário na indústria automobilística. Mais
tarde, graduou‑se em letras e literatura e iniciou os estudos de
fenômenos sociais. Foi editor da revista Fortune e hoje trabalha
como consultor de empresas e de órgãos do governo americano,
entre eles a Nasa. Da Califórnia, onde mora com sua mulher,
Toffler, aos 74 anos, concedeu a seguinte entrevista a VEJA:
Veja – As mudanças globais provocadas pelo ataque ao World
Trade Center arruinaram as previsões de muitos futurólogos.
O ataque era imprevisível?
Alvin Toffler – Os ataques realmente mudaram o mundo, mas
não eram imprevisíveis. Em meus livros lançados há trinta anos,
eu já falava sobre o possível crescimento do terrorismo e suas
conseqüências para o mundo. Em um deles, apontava o World
Trade Center como um dos pontos mais suscetíveis a ataques
terroristas. Mas previa um tipo de atentado diferente, não por
aviões, e sim um ataque eletrônico, com bombas acionadas
por meio de computadores ou algo assim. Não era o único que
acreditava nisso. Muitos consultores e especialistas já indicavam
essa tendência, mas ninguém levava a sério. Ninguém imaginava
que a situação poderia chegar a esse extremo.
Veja – Por que o terrorismo não recorre a armas de maior
sofisticação tecnológica?
Toffler – Por mais que ocorram ataques sem uso de tecnologia
sofisticada, foram os avanços da tecnologia que contribuíram
para o crescimento do terrorismo. Ao mesmo tempo que esses
avanços contribuem para o desenvolvimento da economia
e da sociedade, também podem ser usados com propósitos
criminosos e violentos e, assim, pôr tudo a perder. A tecnologia
deu novo incentivo à produção de armas. O problema não é
o fato de estarmos produzindo armas mais poderosas, e sim
que elas estão cada vez mais baratas e acessíveis. Hoje, armas
sofisticadas podem cair nas mãos de qualquer um e se tornar
uma ameaça à sociedade. Isso vale não apenas para grupos
extremistas, mas também para psicopatas como o americano
Timothy McVeigh, que explodiu um prédio e matou mais de 100
pessoas em Oklahoma.
Veja – O senhor acha que o terrorismo será um fator
determinante no modo como viveremos no futuro?
Toffler – Vários países, não apenas os Estados Unidos, terão cada
vez mais dificuldades em conciliar segurança com liberdade.
Com o objetivo de prevenir ataques terroristas, o governo
americano precisará ter mais informações de como as pessoas se
comportam, quem está fazendo o quê, quem está entrando onde,
38
Cenários Futuros
quem está freqüentando aulas de voo na Flórida, e assim por
diante. A necessidade de fazer isso põe em risco certas liberdades
civis que sempre foram colocadas em primeiro lugar nos Estados
Unidos e em muitos países. A tendência é que as pessoas tenham
cada vez menos liberdade de ir e vir sem ser vigiadas.
Veja – Como as pessoas serão vigiadas?
Toffler – Por meio de câmeras digitais, um dos grandes avanços
dos anos 90. Os preços foram baixando e hoje qualquer pessoa
pode ter uma. Elas já substituem o guarda de trânsito nas ruas
e avenidas. Se você ultrapassar o limite de velocidade, não é o
policial que vai pará‑lo. É a câmera que tira uma foto da placa de
seu carro e depois a multa chega a sua casa automaticamente. A
tendência é aumentar ainda mais o uso desse equipamento no
futuro. Surgirão modelos cada vez menores, mais baratos e mais
potentes. Nós vamos criar uma sociedade investigativa.
Veja – Uma sociedade investigativa?
Toffler – Exatamente. No fim dos anos 40, quando o escritor
inglês George Orwell criou o personagem Big Brother (O Grande
Irmão, em inglês) no livro 1984, ninguém imaginava que pudesse
existir na realidade um governo capaz de monitorar todo mundo
com o uso de câmeras. Não só isso está acontecendo hoje,
como em um futuro próximo homens e mulheres precisarão
se preocupar não apenas com o governo observando todos os
seus passos, mas também com o que eu chamo de Big Uncle (O
Grande Tio, em inglês). Ou seja, as grandes corporações coletarão
as imagens e as conversas da população com objetivos de
marketing. E passarão a vender as informações entre elas.
Veja – Isso quer dizer que seremos observados sem saber que
estamos sendo vigiados?
Toffler – Sim, isso fará parte do nosso dia‑a‑dia. As empresas vão
observar o que fazemos no supermercado, nas lojas, checando
absolutamente tudo: nosso comportamento nos corredores, em
frente às prateleiras, tudo o que perguntamos aos vendedores,
comentamos com nossa mulher, marido ou filhos. O objetivo
será saber mais sobre o consumidor e lhe servir melhor, reduzir
os custos com testes e pesquisas de opinião e obter lucros
vendendo as informações no mercado.
Veja – Se o senhor pudesse, o que mudaria nas previsões feitas
em seus livros?
Toffler – Manteria os temas centrais exatamente do mesmo jeito.
Em O Choque do Futuro, eu disse que as mudanças passariam a
acontecer de forma acelerada. E que as pessoas e as instituições
Unidade 1 39
Universidade do Sul de Santa Catarina
teriam dificuldades em lidar com essa rapidez. Todos se sentiriam
obrigados a ter respostas imediatas, ficariam confusos na hora
de tomar decisões e sofreriam muito por causa disso. Isso está
absolutamente correto. Mas eu mudaria alguns detalhes. Vários
exemplos que usei para ilustrar meu ponto de vista não se
tornaram realidade.
Veja – O que não aconteceu?
Toffler – Eu escrevi que quando tudo começasse a mudar de
modo acelerado muitas coisas se tornariam temporárias.
Isso está correto. Nós temos produtos descartáveis, idéias
descartáveis. Periodicamente, somos levados a jogar fora
estruturas empresariais inteiras. Somos obrigados a jogar amigos
fora. Escrevi que teríamos roupas descartáveis, feitas de papel.
Não precisariam ser lavadas, pois seriam descartadas depois de
usadas. Bem, isso não aconteceu. Eu também mudaria o que
disse sobre clones.
Veja – Por quê?
Toffler – Em 1970, ou seja, trinta anos antes de sair qualquer
publicação científica sobre a clonagem, eu disse que iríamos
clonar animais. Também disse que iríamos clonar humanos.
Acredito que isso vá acontecer um dia. Meu erro foi apenas
temporal. Pensei que a clonagem iria ocorrer em 1985, mas
demorou bem mais.
Veja – Em que área científica o senhor prevê mudanças mais
radicais no futuro próximo?
Toffler – Analisando as tecnologias que estão sendo
desenvolvidas nesse exato momento, posso dizer que os maiores
avanços serão no setor agrícola.
Veja – Como será esse processo?
Toffler – A agricultura do futuro não terá como prioridade
aumentar a quantidade de alimentos, e sim a criação de
tecnologias para melhorar a qualidade da produção agrícola.
Com os avanços nos estudos da genética, seremos capazes de
criar produtos cada vez mais resistentes e de custo mais baixo.
A China e a Índia, que têm as maiores populações do mundo,
grande parte delas vivendo em áreas rurais, estão investindo
pesado em tecnologia agrícola. Com esses avanços, acredito que
será possível erradicar a miséria em muitos países em algumas
décadas. É claro que essa é ainda uma idéia utópica, pois não é
possível fazer isso com as condições atuais de trabalho nas áreas
40
Cenários Futuros
rurais. Será preciso investir mais na educação para que esses
avanços realmente aconteçam.
Veja – Os alimentos transgênicos são o resultado de
avanços tecnológicos, mas enfrentam grande resistência dos
ambientalistas. Por que é assim?
Toffler – Ironicamente, as ONGs, que sempre se mostraram
preocupadas em combater a pobreza global e a fome, hoje são
as mais interessadas em atacar a produção de transgênicos. Na
Europa há ONGs tentando bloquear a importação de alimentos
transgênicos de países pobres da África. Com o boicote, esses
países foram forçados a diminuir a produção de alimentos.
Veja que tudo isso ocorre sem que haja evidências de que os
transgênicos trazem riscos para a saúde. Milhões de pessoas já
ingeriram esse tipo de alimento e não há comprovação alguma
de que tiveram a saúde prejudicada.
Veja – Quais são as conseqüências da batalha contra a
pesquisa genética na produção de alimentos?
Toffler – As campanhas promovidas por esses grupos e pela
mídia sensacionalista causam pânico desnecessário. Com
essa atitude, obrigam os países e as empresas a reduzir a
produtividade e a usar métodos primitivos na agricultura. Ou
seja, a frear o desenvolvimento econômico e tecnológico. Apesar
disso, eu tenho uma visão otimista no quadro geral. Os países
do Primeiro Mundo estão investindo bastante em tecnologia e
pesquisas de transgênicos. Acredito que aos poucos os alimentos
geneticamente modificados começarão a ser aceitos pela
sociedade e em um futuro próximo farão parte do dia‑a‑dia de
todas as pessoas.
Veja – As pesquisas espaciais, que tanto furor causavam há
trinta anos, hoje despertam pouca atenção. O senhor acha
que um dia conquistaremos o espaço?
Toffler – Nós colonizaremos outros planetas ou outros corpos
celestes. No futuro, vamos encontrar mecanismos que possam
tornar possível essa empreitada. Hoje ainda é inviável e não deve
ocorrer em vinte ou trinta anos. Mas vai acontecer.
Veja – O que faz o senhor ter tanta certeza disso?
Toffler – Minha mulher, Heidi, e eu acompanhamos há anos o
trabalho de um grupo de cientistas da Nasa. Eles querem saber
se os humanos podem viver no espaço. O objetivo é descobrir
se há possibilidade de as células permanecerem saudáveis num
ambiente sem gravidade. Ou seja, teoricamente, se suas células
fossem modificadas, o homem poderia sobreviver bem nesse
Unidade 1 41
Universidade do Sul de Santa Catarina
tipo de ambiente. Os estudos ainda estão em fase inicial, mas já
indicam que a conquista do espaço é um sonho possível.
Veja – O senhor previu que a tecnologia causaria mudanças
drásticas na família. A estrutura familiar realmente sofreu
alterações nas últimas décadas, mas o que a tecnologia tem a
ver com isso?
Toffler – As novas tecnologias nunca vêm sozinhas. É um pacote:
mudanças tecnológicas, seguidas de mudanças sociais, políticas
e culturais. Nos Estados Unidos, esse conjunto de mudanças
nas últimas décadas significou um novo modo de vida. A força
de trabalho que gerava riqueza passou do uso do bíceps para
o uso do cérebro. As pessoas depararam com um novo tipo
de economia que mudou praticamente todos os valores da
sociedade. Os computadores começaram a ser usados entre o
fim da década de 50 e o início dos anos 60. As feministas logo
perceberam que as novas tecnologias, que requeriam o uso
do cérebro em vez do uso dos músculos, tornariam possível a
ocupação de mulheres em postos de trabalho que antes eram
prioridade dos homens. Isso realmente aconteceu. Quanto mais
os computadores iam se expandindo, mais mulheres começavam
a trabalhar. Isso afetou a estrutura familiar e a criação dos filhos.
Veja – Isso foi inesperado?
Toffler – Ninguém imaginava. Anos antes de O Choque do
Futuro ser publicado, perguntei a vários especialistas qual seria
o futuro da família. Naquela época, os pais iam ao trabalho, as
mães ficavam em casa, e cada casal tinha dois filhos, em média.
Esse modelo predominava em todas as cidades industriais. Os
especialistas opinaram que nada iria acontecer à família, que
o núcleo familiar já estava estabelecido e ninguém poderia
mudá‑lo. Eu duvidei. Não se pode mudar a tecnologia, o
trabalho, a base econômica da sociedade sem esperar que
também haja mudança na estrutura familiar. Uma coisa é
conseqüência da outra. Hoje, a família tradicional é minoria, pois
a maioria das mães sai para trabalhar em vez de ficar em casa
tomando conta dos filhos 24 horas por dia. Essa foi a primeira
mudança em massa.
Veja – O senhor acredita que haverá outras mudanças na vida
da família?
Toffler – As mudanças que vemos hoje devem continuar
acontecendo. As famílias continuarão menores que no passado,
teremos pais solteiros, casais divorciados que se casam de
novo duas, três vezes. A sociedade começa agora a aceitar o
casamento de gays. O que nós vemos é uma diversificação
42
Cenários Futuros
da família. Nos últimos anos, os americanos começaram a
questionar os efeitos dessas mudanças no desenvolvimento de
seus filhos. Eles querem desacelerar o processo, mas eu não vejo
como voltar atrás.
Veja – O movimento zen, que inclui filosofia, meditação, ioga
e esoterismo, tem crescido nos últimos anos. É uma moda
passageira ou veio para ficar?
Toffler – Eu acho que alguns detalhes específicos são apenas
passageiros, mas há algo maior nisso tudo. O movimento zen
é um profundo ataque às idéias e aos valores do iluminismo.
O movimento iluminista, dos séculos XVII e XVIII, promoveu a
ciência, o ceticismo e o conceito do progresso. Foi o oposto da
religião. Naquele tempo, havia um grande abismo entre religião
e ciência. A tendência é que as duas coisas se aproximem cada
vez mais.
Veja – O que deve acontecer com as religiões?
Toffler – A característica das religiões é a mesma da família.
Elas estão se diversificando graças ao acesso cada vez mais fácil
à informação. Dentro da mesma religião haverá mais grupos
distintos, com idéias e comportamentos diferentes um do outro,
principalmente no catolicismo e no protestantismo. Aumentará
a competição entre as religiões e os grupos lançarão campanhas
de marketing para conquistar fiéis. Nós já vemos um pouco disso
hoje, mas com certeza será mais freqüente no futuro.
Fonte: Revista Veja, 2003.
Toffler publica “O choque do futuro” em 1970 e nos apresenta
um futuro ainda não perceptível no cotidiano de pessoas e
sociedades, mas já vislumbrado pelo olhar atento do futurista.
Em 2003, ele concedeu uma entrevista para a revista Veja, onde
revê, testifica e reafirma os seus enunciados e a sua percepção
aguçada das tendências de futuro. Vejamos:
Unidade 1 43
Universidade do Sul de Santa Catarina
4.2 – O futuro não existe mais
Mente provocadora do presente e instigadora do futuro no nosso
tempo, o sociólogo francês Jean Baudrillard (1929‑2007) é autor
de mais de 50 livros em que diagnostica o panorama da sociedade
contemporânea, seu aparato tecnoindustrial e os seus paradoxos:
delírio, desinformação, consumismo, vazio. Foi um verdadeiro
iconoclasta do sistema social vigente, que, segundo sua ótica,
é feito de ilusão e vazio de racionalidade; é um simulacro de
realidade: um mundo plural, híbrido, contaminado, fragmentado,
contínuo e descontínuo, confuso, aparente, fugaz.
Baudrillard caracteriza este futuro que já chegou como
o reino da ilusão e da desilusão, onde se dá a maior de
todas as mortes: a morte da realidade.
A primeira constatação deste “passamento” se dá na separação
entre espaço real e espaço virtual, que não deve ser confundida
aqui com o uso das novas tecnologias de informação para
organizar, desenvolver e dar sentido ao nosso projeto existencial. O
virtual é uma segunda realidade, que se expande geometricamente
sobre o real, substituindo‑o paulatinamente até a sua completa
extinção. Segundo o autor, esta revolução é geradora de uma crise
sem precedentes na história humana à qual sucederá um deserto de
realidade sobre o qual se projeta a virtualidade:
Nada mais de comum entre eles, nem de comunicação: a
extensão incondicional do virtual (que não inclui somente
as novas imagens ou a simulação a distância, mas todo
o cyberespaço da geofinança (Ignacio Ramonet) e o da
multimídia e das auto‑estradas da informação) determina
a desertificação sem precedentes do espaço real e de
tudo que nos cerca. Isso valerá para as auto‑estradas de
informação e também para as de circulação. Anulação
da passagem, desertificação do território, abolição das
distinções reais. O que até agora se limita ao físico e ao
geográfico, no caso de nossas auto‑estradas, tomará toda
a sua dimensão no campo eletrônico com a abolição das
distâncias mentais e a compressão absoluta do tempo. [...]
Estamos apenas na aurora do processo, mas os dejetos e
os desertos já crescem muito mais rápido do que a própria
44
Cenários Futuros
informática. Os dois universos, mesmo literalmente
separados entre eles, são igualmente exponenciais. Tal
distorção não cria, porém, nova situação política de
verdadeira crise, pois a memória apaga‑se ao mesmo
tempo que o real. Ela é apenas virtualmente catastrófica.
(BAUDRILLARD, 1997, p. 24).
O principal agente desta substituição do real pelo virtual é a
informação. Uma overdose de informação nos espera. E com
ela o fim de toda a informação. Uma reprodução, na existência
humana, do fenômeno cosmológico da massa crítica. Explica
Baudrillard, “se a massa do universo é inferior a certo limite, este
permanece em expansão e o big bang prolonga‑se ao infinito. Se o
limite é ultrapassado, o universo implode e contrai‑se: big crunch
aí também”. (BAUDRILLARD, 1997, p. 25). Qual a quantidade
de informação que precisamos ou suportamos? Segundo o
sociólogo francês, o fenômeno da massa crítica está por acontecer
na sociedade da informação:
Guardadas todas as proporções, a esfera da informação
corre o risco, na perspectiva do desenvolvimento
infinito de conexão universal de todas as redes que nos
prometem, de conhecer uma reversão brutal do mesmo
gênero. Com as auto‑estradas das informações, parece
que estamos fazendo tudo para ultrapassar o limiar
crítico. Onde os bons apóstolos só vêem a maravilhosa
expansão centrífuga, não estaríamos nos dirigindo para
tal saturação e densidade que daí resultaria a deflação
e o desabamento automático? Essa eventualidade não é
mais a da distorção entre uma esfera ultra‑sofisticada,
ultraconectada e o resto do mundo desertificado (o quarto
mundo informático), mas uma catástrofe intrínseca ao
universo virtual de ponta, implosão por ultrapassagem da
massa crítica. (BAUDRILLARD, 1997, p. 25).
Baudrillard (1997) deixa claro que a realidade virtual não se
constitui num poder real. O poder virtual, capitaneado pela
mídia, dá origem a um mundo feito de transparência, sem donos
e sem estratégia, que possibilitem previsão ou controle. Um
gigante com os pés de barro, constantemente derrubado pelo
mesmo poder que o ergue e sustenta. Uma potência midiática
e informacional utilizada por poderes e poderosos, mas não
controlada por estes.
Unidade 1 45
Universidade do Sul de Santa Catarina
Sentimos com razão medo de um forte crescimento do
poder da mídia, enquanto é precisamente a mídia que
desmaterializa todo poder – para o bem e para o mal.
Fatalidade do virtual: não poderia haver estratégia do
virtual, pois, doravante, só há estratégia virtual. Não
há, portanto, “donos do mundo”, mas somente donos
da transparência, e não é pelo fato de que o dinheiro,
os produtos e as idéias deles atravessam sem obstáculos
as fronteiras do mercado mundializado que devemos
nos inclinar diante dessa supremacia do virtual,
pois seria apenas nova forma de servidão voluntária.
(BAUDRILLARD, 1997, p. 27).
Segundo Baudrillard (1997, p. 59), na sociedade virtual, a
informação “ultrapassou a barreira da verdade para evoluir no
hiberespaço do nem verdadeiro nem falso, pois aí tudo repousa
sobre a credibilidade instantânea. Ou, antes, a informação
é mais verdadeira que o verdadeiro por ser verdadeira em
tempo real – por isso é fundamentalmente incerta”. O critério
da verdade ou da objetividade é substituído pelo critério da
verossimilhança existente e em determinados graus entre a
informação e a realidade.
Uma vez lançada a informação, enquanto não for
desmentida, será verossímil. E salvo acidente favorável,
nunca sofrerá desmentido em tempo real; restará
portanto credível. Mesmo desmentida, não será nunca
mais falsa, porque foi credível. Contrariamente à verdade,
a credibilidade não tem limites, não se refuta, pois é
virtual. (BAUDRILLARD, 1997, p. 60).
Segundo a análise de Baudrillard (1997), este movimento cria
uma espécie de verdade factual, um espaço, onde o verdadeiro e o
falso oscilam aleatoriamente, assim como o bem e o mal, o belo
e feio, a causa e o efeito. Uma realidade instável, dominada pelo
princípio da incerteza.
Que fazer? Para onde ir?
Não há respostas. Não há caminho. Feito “a mosca que se debate
contra o vidro sem saber o que a separa do mundo exterior”,
46
Cenários Futuros
nós não sabemos os limites entre a ilusão, a transparência, a
realidade, a virtualidade.
Não podemos imaginar nem imaginar o quanto o
virtual já transformou, como que por antecipação, todas
as representações que temos do mundo. Não podemos
imaginá‑lo, pois o virtual caracteriza‑se por não somente
eliminar a realidade, mas também a imaginação do
real, do político, do social – não somente a realidade
do tempo, mas a imaginação do passado e do futuro.
(BAUDRILLARD, 1997, p. 71‑72).
Baudrillard (1997, p. 71) ironiza, dizendo que a este tempo
que não nos pertence chamamos de “tempo real”. Um tempo
sem história, onde quem conduz a cena é a informação. Um
tempo sem pensamento, com a proeminência dos processos de
inteligência artificial, cada vez mais fora e distante do homem. E
arremata dizendo que nem mesmo a ilusão de nos “abrirmos ao
virtual” nos salva desta existência inautêntica:
Hoje, não pensamos o virtual; somos pensados pelo
virtual. Essa transparência inapreensível, que nos
separa definitivamente do real, nos é tão inteligível
quanto pode ser para a mosca o vidro contra o qual
se bate sem compreender o que a separa do mundo
exterior. (Ibid., p. 71)
Não pensamos, somos pensados. Segundo Baudrillard (1997,
p. 73), estabelece‑se sobre nós uma forma diferenciada de
dominação que impossibilita a compreensão do real e a
imaginação do futuro. Sem presente, perdemos também o futuro.
O pensamento histórico‑crítico é derrotado. A história, o passado
e o presente não nos pertencem mais. O tempo real, ditado
pela instantaneidade da informação e pela sociedade midiática,
impõe-se sobre o passado e sobre o presente, e sobre toda forma
ou possibilidade de articulação lógica da realidade e, digo eu, de
projeção do futuro.
A substituição do real pelo virtual provoca a destruição do
presente e do futuro. No livro “A Ilusão Vital”, Baudrillard reflete
sobre a alteração que esta transformação provoca na noção que
Unidade 1 47
Universidade do Sul de Santa Catarina
temos do tempo. O tempo não nos pertence mais. Nós não o
temos. Na realidade digital, a noção do tempo se inverteu:
o tempo é visto a partir de uma perspectiva de
entropia – a exaustão de todas as possibilidades ‑, da
perspectiva de uma contagem regressiva [...] para o
infinito. Não temos mais um olhar para frente, que
era a visão de um mundo de progresso ou produção.
(BAUDRILLARD, 2001, p. 41).
No dizer de Baudrillard (2001), uma contagem regressiva para
um apocalipse virtual que já está entre nós.
Na contagem regressiva, o tempo que sobra já é passado,
e a utopia máxima da vida cede espaço à utopia mínima
da sobrevivência. Estamos experimentando o tempo e a
história numa espécie de coma. É a histerese do milênio,
que se manifesta numa crise interminável. Não mais o
futuro que se estende à nossa frente, mas uma dimensão
anoréxica – a impossibilidade de ver além do presente.
Predição, a memória do futuro, diminui na mesma
proporção que a memória do passado. Quando existe uma
transparência geral, quando tudo pode ser visto, nada
mais pode ser previsto. (BAUDRILLARD, 2001, p. 43).
A contagem regressiva do tempo nos leva para o fim, mas o
que existe além do fim? Baudrillard (2001, p. 43) responde:
“além do fim estende‑se a realidade virtual o horizonte de
uma realidade programada”. Nesta, o que nos faz humanos e
construtores da história – memória, emoções, sexualidade e
inteligência – tornam‑se inúteis. Inaugura‑se a era do “transpolítico,
do transexual, do transestético, todas as nossas máquinas
desejantes tornam‑se pequenas, e então simplesmente irrisórias,
antes de desaparecerem na contagem regressiva das espécies”.
4.3 – O futuro duvidoso
O futuro não existe além do presente, existe com; existe em;
existe ou não no presente. Não se trata de um objeto concreto
manipulável, portanto, inalcançável para a nossa racionalidade
48
Cenários Futuros
e ciência. Ele pode ser pensado, transformado em objeto de
reflexão. Mas, para ser, ele precisa ser diferenciado do hoje. No
que, o futuro será diferente do hoje?
Podemos pensar o futuro como um processo realizado no tempo
da nossa duração, da nossa existência. Construído, destruído,
reconstruído a cada segundo que passa, na condução da nossa
existência que se confunde com a existência da humanidade
e do nosso mundo. Somos responsáveis pelo futuro e pelas
transformações em curso.
Urge pensar o futuro e discernir até que ponto tais
transformações são necessárias, seguras e benéficas para a
continuidade da vida em todas as suas manifestações. E mesmo
aparentemente singelas e simples reflexões sobre o tema podem
contribuir significativamente para a expansão deste entendimento
e responsabilidade. Vejamos no exemplo que segue.
O futuro é duvidoso
Por Márcia Tiburi, filósofa, escritora e artista plástica.
Antigamente se usava a frase “nunca se sabe o dia de amanhã”.
É curioso como essa expressão sumiu de nossas conversas e,
desse modo, do imaginário coletivo sempre expresso nos temas
cotidianos. O “dia de amanhã” era o jeito de falar sobre algo
concreto, mas sobre o qual nada se sabia. O “dia de amanhã” era
mais do que o dia que vem depois do “dia de hoje”. Era o cuidado
com o tempo vindouro.
O “dia de amanhã” representava um conceito de futuro de
que não dispomos mais desde que acreditamos no progresso
tecnológico e do capital. Com ele definia‑se a esfera da vida
do que chamamos “porvir”: o que ocorrerá. No passado as
pessoas acreditavam que era preciso uma preparação para esse
tempo com comportamentos e ações que levassem a bons
resultados. O futuro dependia da sorte, mas também do projeto.
A relação com o futuro definia a construção de algo que seria
importante “um dia”. Tal pensamento era possível porque havia
uma perspectiva no sentido técnico: um olhar que partia de um
ponto e queria alcançar outro. Hoje, podemos questionar se
não perdemos justamente o ponto ao qual queremos chegar.
Perguntar “aonde queremos chegar” com a vida que levamos
hoje faz parte do desejo de uma vida justa.
Unidade 1 49
Universidade do Sul de Santa Catarina
O futuro era algo para o qual era preciso preparação: para o
casamento, o trabalho, a vida social. A educação, antes de ser
disciplina do corpo e do espírito, era preparação para tudo isso.
Hoje, ninguém pensa em se preparar. Antes da preparação,
privilegia‑se hoje a competição geral para alcançar um lugar, se
possível o primeiro. O motivo da corrida ¬ de onde vem nossa
“correria” cotidiana ¬ é, porém, incerto para cada corredor.
O progresso decadente
O futuro, espécie de idéia concreta, nos escapa quando
surge a idéia abstrata do progresso. O ideal do progresso não
apenas substituiu a percepção do futuro, mas reprimiu sua
potencialidade. Sem pensar no futuro, aderimos cegamente à
decadência do progresso sem perceber sua contradição: que
dele também surja miséria e violência. A idéia de progresso
nos dá um lucro psicológico maior, por isso abandonamos o
pensamento sobre o futuro. Desistimos dele acreditando que,
com o progresso, superamos todo o mal que pode nos ocorrer
no futuro.
O futuro virou uma projeção fantasmagórica, como vemos nos
filmes de ficção científica que brincam com nosso imaginário
sobre o tempo que virá. É um jeito ingênuo de dominar o medo
do futuro. A tecnologia que nos faz superar a decadência física e
a doença mostra que podemos ser superiores ao que no futuro
é um dado certo: a morte. A crença de que seremos superiores a
ela é vendida com o mito do progresso. Promessa comprada e,
necessariamente, jamais cumprida.
Utopia
Ao longo dos tempos muitos sonharam com o futuro como
ideal de uma vida perfeita. Na qual toda miséria desapareceria
sob a ordem construída como plenitude material e espiritual.
Chamaram utopia ao que “não tem lugar”, o mundo de sonho
que não poderia ser encontrado em lugar e tempo conhecidos.
Na cultura judaico‑cristã, o mito de uma utopia passada, o paraíso
perdido onde Adão e Eva viveriam em paz com a natureza e
consigo mesmos, definia o desejo de uma vida sem conflito.
Platão, na República, desenhara o mesmo desejo de uma
sociedade baseada na vida justa. Thomas More, que cunhou o
termo, escreveu sua Utopia pensando na ausência de violência.
E, no século 19, enquanto Charles Fourier imaginava uma utopia
de prazeres físicos, Karl Marx defendia que a evolução da história
levaria a uma inversão do poder para favorecer os dominados.
Ernst Bloch, pensador judeu‑alemão que morreu em 1977,
pensava a utopia como uma espécie de sonho diurno que modela
a vida social, o sentido do que nos aguarda. Enquanto aqueles
50
Cenários Futuros
definiam suas utopias como mapas no qual se sabe o local
certo do tesouro, Bloch pensava o futuro como abertura para o
novo, como quando se ama um filho que nasce para a felicidade
independentemente de seus dotes intelectuais ou estéticos.
Profecia
Antonio Vieira, no século 17, escreveu uma curiosa História do
Futuro. Nela o futuro é matéria de profecia. E toda profecia é mais
que promessa, é julgamento sobre o que virá. Importa menos
a realização de sua profecia sobre as glórias de Portugal que o
conceito de futuro como tempo que está além da esperança.
Futuro é o que ocorrerá em função do que se constrói no
presente. A profecia diz respeito a uma aposta que se faz sobre o
incerto, sustentando que há algo de certo no incerto. O futuro é
lampejo do que projetamos.
Depois da Segunda Guerra, um filósofo japonês chamado
Nishitani falou de uma “vontade voltada para o futuro” que
deveria orientar nossa relação com o presente partindo do
passado. Hoje é necessário perguntar o que sabemos do futuro.
Diante da crise com a natureza, diante da miséria e da violência
crescentes, será que não seria justo voltarmos a pensar no dia de
amanhã que todos iremos partilhar? Basta olhar para o passado e
o presente para imaginar o certo no incerto.
Fonte: O futuro é duvidoso, [200?].
Agora que você já teve acesso a um panorama geral do
tratamento dado pela filosofia ao futuro, reflita sobre as seguintes
questões: qual o futuro da economia, do modo humano de
produzir e dividir riqueza, prover a subsistência e organizar a vida
produtiva das sociedades? Qual a nossa responsabilidade para
com a perpetuação da vida no planeta, a exigente e necessária
noção de sustentabilidade, que deve acompanhar as nossas
escolhas, para que a vida póstuma não seja inviabilizada por atos
que afrontam o meio que nos envolve e protege?
Unidade 1 51
Universidade do Sul de Santa Catarina
Síntese
Você viu nesta unidade que a questão do futuro e do tempo
sempre fez parte das preocupações humanas e da reflexão
filosófica ocidental. A razão visa, por meio do conhecimento,
transformar o caos em logos, e o futuro não escapa desta nossa
pretensão. Uma pretensão inglória, pois o futuro é o tempo da
incerteza e da indeterminação.
Podemos nos debruçar sobre o presente e reconhecer, conjecturar,
futurar, mas nunca prever o que ainda não é. Podemos listar
possibilidades, apontar tendências, fazer vaticínios e previsões,
mas estaremos falando muito mais do presente, com suas
grandezas e misérias do que sobre o futuro. Otimistas e
catastróficos partilham esta mesma condição que é condição
humana: nada de certo, nada de seguro, nada de confiável
podemos dizer sobre o futuro.
No século XX, com a crise de verdade que se abateu sobre
todos os metarrelatos explicativos e orientadores da realidade,
o futuro da humanidade ou da civilização passa a ser
vivenciado e experimentado como futuro do homem e do seu
projeto. Nós somos responsáveis pelo nosso futuro, pelo futuro
da vida e do planeta.
Você pôde compreender, ainda, que a aceleração da vida,
provocada pelo uso disseminado de novas tecnologias, ameaça
o nosso protagonismo, provocando uma espécie de servidão
voluntária, fascinados que somos pela informação e por tudo que
representa inovação.
Não estamos mais no controle da nossa existência. Nem nós, nem
ninguém. Um futuro que se anuncia, sem crise e sem conflito, de
intensas e sempre novas mudanças que levam inexoravelmente à
estagnação, da realidade, da vida. Mas também esta tendência
se submete ao poder do imponderável, não se constituindo em
verdade, sobrevivendo pelo grau de verossimilhança possível de
ser vislumbrada no presente.
52
Cenários Futuros
Atividades de autoavaliação
Para praticar os conhecimentos apropriados nesta unidade, realize as
atividades propostas.
1) Baudrillard nos mostra um futuro onde o ser humano se afasta cada vez
mais do mundo real e natural, e se concentra no mundo das imagens,
da televisão e dos meios de comunicação de massa, em que a imagem,
forma assumida pelas mercadorias, substituiria todas as outras formas
no processo de dominação ideológica. Ciente dessa concepção
condizente com o homem do século XXI, relacione‑a com a visão de
“homem‑projeto”, da filosofia existencialista do século XX.
Unidade 1 53
Universidade do Sul de Santa Catarina
2) Relacione estas palavras com as afirmações a seguir:
1. Adaptação 8. Agostinho 15. Aristóteles
2. Baudrillard 9. Bergson 16. Cassandra
3. Descartes 10. Escolástica 17. Futuro
4. Futurologia 11. Heidegger 18. Informação
5. Leibniz 12. Mitologia 19. Nix
6. Ockham 13. Pitonisas 20. Tirésias
7. Toffler 14. Verdade factual
( ) Para este pensador, o futuro pode ser pensado, mas não como uma
ideia clara e distinta. Não é um conhecimento que nenhuma dúvida
possa abalar.
( ) Segundo os filósofos clássicos, não pode ser previsto e é inapreensível
pela racionalidade.
( ) Com o seu poder sedutor e seu desprezo por tudo o que é estável e
consolidado, provoca a antecipação sistemática do futuro.
( ) É a única estratégia capaz de superar o choque provocado pelo dilúvio
de inovações e possibilitar a sobrevivência ao futuro.
( ) Mulheres da mitologia grega com o poder de revelar o futuro ou de
transmitir a vontade dos deuses.
( ) Na visão deste filósofo, a natureza nunca dá saltos, o presente não
seria senão a continuação de um estado anterior, e que também o
presente está prenhe do futuro.
( ) Afirma que existem milhões de homens e mulheres sobre os quais já
se pode dizer que estão vivendo o modo de vida do futuro.
( ) Considera que o futuro do homem está nas mãos dos deuses.
( ) Um espaço onde o verdadeiro e o falso oscilam aleatoriamente, assim
como o bem e o mal, o belo e feio, a causa e o efeito. Uma realidade
instável, dominada pelo princípio da incerteza que reduz o tempo
humano à instantaneidade.
( ) Afirma que ninguém pode medir os tempos passados que já não
existem ou os futuros que ainda não chegaram e se tais realidades
existem, onde existem, são do presente.
( ) Caracteriza o futuro que já chegou como o reino da ilusão e da
desilusão, onde se dá a maior de todas as mortes: a morte da
realidade.
( ) Ele defende o tempo e o futuro como realidades humanas: não há
tempo sem o homem, sem a atividade da consciência humana, sem a
percepção desta do movimento.
54
Cenários Futuros
( ) Defende que o futuro possui causalidade divina, não há tempo sem
o homem, e ele é determinado pelo que Deus quer e pelo que Deus
não quer.
( ) Transforma a questão do futuro numa questão teológica.
( ) Suas filhas são damas de aparência funesta, encarregadas do elaborar,
tecer e interromper o fio da vida de todos os seres.
( ) Ensina que o futuro será sempre contingente, dependente do
presente: o que será, o “por vir”, é diferente do que está a ponto de
acontecer ou ocorrer.
( ) Recebeu de Zeus o dom da “manteia”, conhecia o passado, o presente
e o futuro.
( ) Embora suas profecias fossem verdadeiras, por castigo dos deuses,
ninguém acreditava nelas.
( ) Ciência que estuda o futuro, visando à construção de cenários
possíveis sobre o que pode acontecer.
( ) Para este filósofo, a existência humana é “poder‑ser” – nunca é alguma
coisa dada de uma vez para sempre, mas uma possibilidade projetada,
um projeto.
Saiba mais
Para aprofundar as questões abordadas nesta unidade,
recomendamos as seguintes leituras:
BAUDRILLARD, Jean. A ilusão vital. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001.
BAUDRILLARD, Jean. Tela total: mito‑ironias da era virtual e
da imagem. Porto Alegre: Sulina, 1997.
TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 5. ed. Rio de Janeiro:
Record, 1994.
Unidade 1 55
2
UNIDADE 2
Cenários ecológicos
Itamar Pedro Bevilaqua
Objetivos de aprendizagem
Refletir acerca de nossos limites planetários.
Identificar posturas, valores e atitudes moldadas por
ideologias mal‑compreendidas.
Conhecer algumas das principais ameaças e riscos de
nossa sociedade contemporânea;
Contextualizar o papel do filósofo e do cidadão neste
ambiente de incertezas e angústias.
Seções de estudo
Seção 1 Onde estamos?
Seção 2 Ideologia do crescimento ilimitado
Seção 3 Ameaças e riscos ambientais contemporâneos
Seção 4 Sociedade de risco
Seção 5 Podemos fazer alguma coisa?
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
Basta que olhemos com um pouco mais de atenção à nossa volta,
que logo perceberemos o quão somos insignificantes. Diante da
grandeza do universo, não passamos de frágeis seres humanos,
lutando incessantemente pela nossa sobrevivência e satisfação de
nossos desejos e necessidades.
Nosso caminho existencial, no entanto, encontra‑se de tal forma
ensandecido, que não nos permite olhar com cuidado ao nosso
contexto planetário e tampouco à forma como “estamos” neste
mundo, durante nossa curta e limitada existência. Em outras
palavras, não nos permite questionar sobre:
Onde vivemos?
Quais são os valores pelos quais moldamos e
condicionamos nosso modo de agir?
Temos consciência dos riscos aos quais estamos
submetidos?
Qual a nossa participação na criação e manutenção
desses cenários?
O caminho que viemos adotando é o mais apropriado à
concreção de uma ética de vida que contemple todos os
Visão da realidade em seres, assim como apta à manutenção da vida?
totalidades integradas,
em que cada elemento de Quais as nossas esperanças, sonhos, desejos, temores?
um campo considerado
reflete e contém todas Podemos interferir neste cenário?
as dimensões do campo,
conforme a indicação Diante de questões tão abrangentes e complexas, não objetivamos
de um holograma,
aqui dar respostas definitivas a cada uma dessas inquietações e
evidenciando que a
parte está no todo, tampouco buscar soluções mágicas ou milagrosas.
assim como o todo
está na parte, numa Nossa intenção é propiciar a reflexão acerca de tais
inter‑relação constante, questionamentos, a partir de uma proposta de visão sistêmica
dinâmica e paradoxal. ou holística. Tal perspectiva não pretende ser completa ou
exauriente, já que estamos diante de um tema amplo e complexo,
mas capaz de nos instigar a conhecer, sentir e desfrutar um pouco
mais da vida e do meio que a abriga.
58
Cenários Futuros
Seção 1 – Onde estamos?
Como início da caminhada desta unidade, propomos a você um
desafio: imagine que estamos em uma nave interplanetária, tal
qual os tripulantes do seriado “Jornada nas Estrelas”, distantes
mais de 10 milhões de anos‑luz da terra (1023m), dirigindo‑nos a
ela e tendo à nossa frente o seguinte horizonte:
Figura 2.1 ‑ O planeta Terra visto a 10 milhões de anos‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
Diante deste quadro, qual a significância do planeta
terra no contexto universal?
Para esboçar uma resposta, e antes de continuar nossa viagem,
necessitamos pontuar alguns números e significados da astrofísica:
Unidade 2 59
Universidade do Sul de Santa Catarina
A quanto equivale um ano‑luz?
O Ano‑luz é uma medida de comprimento, que corresponde
à distância percorrida pela luz em um ano. Isso significa,
aproximadamente, 9,5 trilhões de quilômetros. Mais
precisamente, são [Link].068.016 de metros percorridos
com uma velocidade de 299.792.458 metros por segundo
durante 365 dias. Para ter uma ideia da rapidez, o tempo que
a luz leva para percorrer os 149.597.870 de quilômetros, que
separam a Terra do Sol, é de apenas 8,3 minutos.
Para enterder um pouco melhor estes números tão grandiosos,
compare as seguintes informações.
A luz leva pouco mais de 1 segundo para viajar da Lua até a Terra.
A luz leva cerca de 8,3 minutos para viajar do Sol até a Terra.
A sonda espacial que se encontra mais distante de nós,
Voyager 1, estava a 12,5 horas‑luz de distância da Terra em
janeiro de 2004.
A segunda estrela mais próxima conhecida (a mais próxima é
o Sol), Proxima Centauri, está a 4,22 anos‑luz de distância.
Nossa Galáxia, a Via Láctea, tem cerca de 100.000 anos‑luz
de diâmetro.
O universo observável tem um raio de cerca de
[Link] anos‑luz. Esse raio expande‑se em todas as
direções na velocidade de um segundo‑luz por segundo.
Como nossa galáxia tem 100.000 anos‑luz de diâmetro, uma
nave espacial hipotética, viajando próxima à velocidade da
luz, precisaria de pouco mais de 100.000 anos para cruzá‑la.
Feitos tais registros, continuemos nossa viagem.
60
Cenários Futuros
Figura 2.2 ‑ O planeta Terra visto a 1 milhão de anos‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
Figura 2.3 ‑ O planeta Terra visto a 100 mil anos‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
Unidade 2 61
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 2.4 ‑ O planeta Terra visto a 10 mil anos‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
Preste atenção às distâncias, que indicam “nossa localização”,
tendo por destino o planeta Terra.
Figura 2.5 ‑ O planeta Terra visto a mil anos‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
62
Cenários Futuros
Figura 2.6 ‑ O planeta Terra visto a um ano‑luz
Fonte: Elaboração do autor.
E então? Já conseguiu localizar “nossa casa”? Ainda
não? Então, vamos continuar nossa busca.
Figura 2.7 ‑ O planeta Terra visto a um bilhão de quilômetros (em destaque, as órbitas de Mercúrio,
Vênus, Terra, Marte e Júpiter)
Fonte: Elaboração do autor.
Unidade 2 63
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 2.8 ‑ O planeta Terra visto a 100 milhões de quilômetros (em destaque, as órbitas de Vênus,
Terra e Marte)
Fonte: Elaboração do autor.
A um milhão de quilômetros pode ser vista a órbita da lua e,
finalmente, nossa Terra.
Figura 2.9 ‑ O planeta Terra visto a 1 milhão de quilômetros
Fonte: Elaboração do autor.
64
Cenários Futuros
E, finalmente, aí está, tal qual a conhecemos, nossa “Mãe Terra”,
como a chamava Arnold Toembi , grande historiador britânico
recentemente falecido.
Figura 2.10 ‑ O planeta Terra visto a 100 mil quilômetros
Fonte: Elaboração do autor.
Neste momento, ao nos depararmos com nossa “insignificância”
planetária, é chegada a hora de refletir sobre a nossa condição de
ser e estar nesta vida.
Quem se aprofundou, por pouco que seja,
em cosmologia, naquilo que sabemos sobre a
evolução do Universo, sabe que o planeta Terra é
uma joia inestimável.
Lembramos um dos principais expoentes das ideias ecologistas
no Brasil da segunda metade do século XX, José Lutzemberger
(1990, p. 79):
Não é de se admirar que tenham se tornado místicos
alguns dos astronautas que, pousados na Lua, tiveram
o privilégio único de olhar de longe, muito longe, bem
alto num céu de negrura total, o nosso globo vestido
Unidade 2 65
Universidade do Sul de Santa Catarina
de seu tênue véu azul, manchado de nuvens brancas.
Logo se deram conta de sua incrível preciosidade,
fragilidade e vulnerabilidade. Vulnerabilidade não diante
de imaginárias invasões externas, mas vulnerabilidade
diante da patologia mental de sua própria população.
O momento daquela contemplação deve ter sido um
momento da mais suprema religiosidade.
Portanto, para fazer um exercício de reflexão acerca do nosso
contexto natural e social, você deve, antes de tudo, partir
de uma análise de nossa localização, nossos limites e nossas
condicionantes planetárias, com o objetivo de podermos
responder questões tais como:
Somos seres tão únicos, como estabelece o senso comum?
Quais elementos naturais permitem a existência da vida
em nosso “pequeno” planeta?
Estamos cuidando adequadamente de nossa “casa Terra”,
diante dos riscos e perigos que tanto nos ameaçam?
Podemos fazer alguma coisa?
Sabemos bem, e você já notou, que o desafio aqui proposto
é amplo e profundo. Seu tema foge de nossas preocupações
e reflexões cotidianas por todo um conjunto de razões, tais
como a sobrevivência diária, o imediatismo de nossos projetos,
as amarras do pensamento comum, linear e reducionista. No
entanto, isto não deve nos impedir de trilhar outros caminhos,
não é mesmo?
Dando sequência ao nosso desafio de tentar predizer nosso
futuro, vamos discutir um pouco acerca de alguns dos valores que
norteiam nossos pensamentos e ações, condicionadores de nosso
presente e, portanto, de nosso futuro.
66
Cenários Futuros
Seção 2 – Ideologia do crescimento ilimitado
O milênio passado, assim como vem sendo o atual milênio,
caracterizou‑se por profundas mudanças econômicas, políticas
e tecnológicas. Principalmente em seu último século, assistimos
à inserção, em grande escala, da robótica, da informática,
da nanotecnologia, da manipulação e alterações genéticas,
das telecomunicações, da globalização, assim como da
democratização informacional, com os fatos chegando ao
conhecimento da maior parte das sociedades em tempo real (via
redes de televisão e internet).
Estes acontecimentos, políticos e tecnológicos, possibilitaram
a percepção mais imediata dos limites, contradições e crises
geradas pelo sistema hoje predominante. Por outro lado, porém,
também criaram sistemas de ocultação e manipulação de dados
e valores. Um deles é o que Lago e Pádua (1985) chamam de
“ideologia do crescimento ilimitado”.
De tão ampla inserção no corpo social e político, não é
demasiado afirmar que a ideologia do crescimento ilimitado está
elevada à categoria de verdadeiro dogma, aceito por grupos de
esquerda e de direita, por “países pobres e ricos, e está na base de
quase todas as políticas econômicas postas em prática no mundo
atual”. (LAGO; PÁDUA, 1985, p. 46).
Antes de discorrermos a respeito daquilo em que consiste este
sistema, é importante que façamos um esclarecimento conceitual
acerca do termo ideologia, pois que tal compreensão e assimilação
semântica são fundamentais para a reflexão que virá a seguir.
Segundo a tipologia de Roy Macridis (1982), o conceito de
ideologia pode ser resumido nos seguintes pontos:
O termo “ideologia” tem numerosos significados
e conotações.
As ideologias moldam as nossas motivações, as nossas
atitudes e os regimes políticos sob os quais vivemos.
Elas dão formas a nossos valores.
Unidade 2 67
Universidade do Sul de Santa Catarina
Ideologia significa também aquilo que pode ser chamado
de “consciência de uma sociedade” num determinado
momento; os valores, crenças e atitudes que a mantém
unida; a imagem que os indivíduos têm em comum sobre
a sua sociedade.
A ideologia também fornece um “conjunto de
conceitos”, pelos quais as pessoas veem o mundo e
aprendem a seu respeito.
Em suma:
Uma ideologia consiste de um conjunto de ideias e
crenças através das quais percebemos o mundo exterior
e “atuamos sobre nossa informação”. É um meio
através do qual tentamos aprender e compreender o
mundo. Finalmente, as ideologias são orientadas para
a ação. Isto é, consistem de ideias compartilhadas por
muitas pessoas que agem juntas ou são influenciadas
a agir juntas de forma a alcançar fins postulados.
(MACRIDIS, 1982, p. 20).
Feitos tais registros, pedimos a você que retome os
principais pontos abordados até aqui e responda à
seguinte questão: como você vê o mundo?
Para responder a esta questão central, pense nas seguintes
perguntas subjacentes a ela:
Quais são os seus valores?
Com quais ideias e lutas políticas você mais se identifica?
Qual a sua razão de viver?
Com que tipo de pessoas você gosta de compartilhar suas
crenças e pensamentos?
Qual o seu ideal de vida?
68
Cenários Futuros
Enfim, tente estabelecer os valores, crenças e esperanças que
moldam e condicionam seu agir neste mundo. Feitos tais
esclarecimentos, nós podemos retornar ao tema desta seção.
A ideologia do crescimento ilimitado postula que
a única maneira de desenvolvimento econômico,
convivência social e de realização pessoal se situa
na busca crescente e acelerada da produção e no
consumo de bens materiais.
Em outros termos, prega e quer fazer crer que, pelas atuais
formas de trabalho e de organização social, inclusive todo o
aparato econômico e jurídico, é possível a todos os homens
satisfazerem suas necessidades e realizarem todos os seus
sonhos, bastando que a ideologia adotada – liberalismo ou
socialismo – produza os frutos de suas promessas.
Tal ideologia ou, melhor dizendo, tal “venda de esperanças”,
historicamente não leva em consideração a quantidade, a
qualidade e o tipo de distribuição, tampouco os limites e as
consequências que esse modelo de consumo material e de
extrema exploração da natureza vem causando ao meio ambiente
e à grande maioria da população mundial. Esta população não
tem acesso integral a este meio ambiente, isto é, aos bens de
consumo, a não ser como meio de produção.
Na prática, tal distribuição e apropriação, horizontalizada e
universal, é totalmente irrealizável diante dos limites materiais
da Terra e do modelo de produção e consumo hoje vigentes. Este
fato vem gerando cada vez mais exclusão e, via de consequência,
tornando agudos os conflitos sociais.
Não existe em nosso limitado mundo um estoque
infinito de matérias‑primas para saciar o mito – cada
vez mais hegemônico – de que a felicidade do homem
reside no consumo desenfreado de bens materiais.
Da mesma forma, a felicidade nunca se encontrará na irreal
“venda de promessas” de que, pelo trabalho e pela luta por
melhores condições de vida, todos, indiscriminadamente,
Unidade 2 69
Universidade do Sul de Santa Catarina
poderemos desfrutar de uma vida digna, segundo os padrões
do chamado 1º mundo. Esta ilusão gera necessidades artificiais
alimentadas por um complexo propagandístico, indutor de
atitudes consumistas, alienantes, cujos espaços totalitários
quase não nos permitem nenhuma reação. Para confirmar essas
afirmações, analise os gráficos a seguir.
Figura 2.11 ‑ População mundial
Fonte: Elaboração do autor.
Figura 2.12 ‑ Consumo dos recursos naturais
Fonte: Elaboração do autor.
70
Cenários Futuros
Figura 2.13 ‑ População mundial versus consumo dos recursos naturais
Fonte: Elaboração do autor.
A partir destes dados, podemos fazer algumas inferências
numéricas com relação ao consumo dos países mais ricos:
Os países do norte (EUA, Canadá e U.E.) absorvem 72%
a 76% de todos os recursos do mundo.
85% da renda mundial.
75% da energia.
85% da madeira.
75% dos metais.
Se todos os habitantes da Terra consumissem como os
dos países ricos, seriam necessários 4 planetas iguais ao
nosso para atender a todo este consumo.
Tais dados nos levam à preocupante conclusão de que o atual
modelo econômico e político, a persistir, vem demonstrando
ser totalmente insustentável. Ele é gerador, por suas próprias
contradições e exclusões, de um número de conflitos cada vez
mais generalizados e com potencialidade de se alastrarem de
Unidade 2 71
Universidade do Sul de Santa Catarina
forma incontrolável, tornando inúteis as tentativas de mediação
por parte dos Estados e suas instituições. Se este modelo
persistir, os principais atores da sociedade civil, que zelam pela
justiça – legisladores, advogados, juízes, ministério público,
etc. – ficarão inertes.
Nessa linha de preocupação, veio a lume, em 2001, um relatório
denominado “Tendências Globais”, em que os serviços de
inteligência dos EUA apontam as questões ambientais como um
dos pontos centrais da problemática e dos conflitos globais em
futuro próximo. Disponibilidade de água e alimentos, mudanças
climáticas, desastres “naturais” e disseminação de doenças,
segundo o relatório, são fatores que afetarão profundamente
a segurança dos EUA. E se é assim, pode‑se supor que
condicionarão as políticas daquele país, afetando o mundo, o
Brasil incluído.
Como disse o personagem Coringa, no filme Batman, o retorno
(1992), “crie fome suficiente e todos se tornam criminosos”. Ou
seja, a insana busca do homem pela satisfação individualista de
seus desejos – não apenas de suas necessidades básicas – desnuda
a triste, desesperada e contraditória face de nossa sociedade
neste início de milênio. Tal postura, que exclui e nega o outro,
é agravada pela ignorância e indiferença do homem aos limites
materiais do mundo físico.
Figura 2.14 ‑ Charge de Angeli sobre a pobreza
Fonte: Folha de São Paulo, [20??].
72
Cenários Futuros
Neste momento crucial para a humanidade, o binômio
“crescimento material versus preservação do meio ambiente”
ganha dimensões exponenciais, passando da preocupação de
uns poucos indivíduos à reflexão e ações de grande parte dos
governos do mundo. Diante deste cenário, é fundamental que
toda a sociedade, em especial os centros de ensino e de pesquisa
e administrações públicas encarregadas da satisfação do bem
comum, estabeleçam seus papéis e assumam o premente desafio
de tentar diminuir ou reverter as consequências do atual modelo
que, a persistir, revela‑se autodestrutivo.
Existem evidências palpáveis da profunda deterioração e
desequilíbrio dos sistemas ambientais, assim como dos sistemas
humanos, causados pelo atual modelo de produção e de consumo,
que nos permitem tomar consciência de uma verdadeira “crise
planetária”, como nos alerta Luis Jiménez Herrero, jurista
espanhol, ao afirmar:
O ecossistema da Terra, ao longo de sua evolução,
enfrentou várias vezes um fenômeno de mudança
ambiental global. Porém agora, a alteração do sistema
ambiental tem uma origem humana e, sobretudo, é o
alcance e a velocidade dos acontecimentos que conferem
uma nova dimensão ao processo de transformação
biológica, climatológica ou geológica que começamos a
perceber atualmente. [...] Existem evidências palpáveis
e claros sintomas da deterioração e desequilíbrio dos
sistemas ambientais e dos sistemas humanos que nos
permitem tomar consciência de uma crise planetária.
(HERRERO, 2000, p. 29).
Como exemplos deste contexto de ameaças, podemos mencionar:
as alterações climáticas (efeito estufa);
diminuição da camada de ozônio;
a contaminação atmosférica por CO2;
a perda da biodiversidade;
os desmatamentos;
Unidade 2 73
Universidade do Sul de Santa Catarina
o aumento exponencial do lixo urbano e industrial;
o acúmulo sem destinação segura dos resíduos nucleares;
o aumento da desertificação e a perda de terreno fértil;
a contaminação das águas;
o aumento da pobreza econômica;
a expansão de doenças mortais como AIDS e EBOLA;
a manipulação e monopólio da genética;
a disseminação do terrorismo;
o aumento desenfreado e exponencial do consumo de
entorpecentes (legais ou não);
a crescente tensão entre religiões e os povos do norte e
do sul.
Seção 3 – Ameaças e riscos ambientais contemporâneos
O aquecimento global já passou do ponto sem volta. A situação
se tornará insuportável lá por 2040. Até o fim do século, é
provável que cerca de 80% da população humana desapareçam.
A maioria das regiões tropicais, incluindo praticamente todo
território brasileiro, será demasiadamente seca e quente para ser
habitada. De acordo com esse prospecto, o mundo nos próximos
séculos não será agradável.
No quadro a seguir, você tem um panorama das principais
ameaças e riscos ambientais contemporâneos, com seus
respectivos dados e indicadores:
74
Cenários Futuros
Aquecimento global
Alterações climáticas
Diminuição da camada de ozônio
Diminuição atmosférica
Ameaças ao meio ambiente
Desmatamentos
Perda de biodiversidade
Ocupação pela soja
Aumento exponencial do lixo urbano e industrial
Contaminação das águas
Resíduos nucleares (Chernobyl)
Desertificação
Tensão norte‑sul
AIDS
Aumento da pobreza econômica
AIDS no mundo
No mundo vivem com o vírus mais de 40 milhões de pessoas.
Em 3003, ocorreram 3 milhões de mortes por AIDS – mais
de 8.000 por dia.
No mesmo período, o número de infectados foi de 5
milhões.
A UNICEF diz que, em 2010, mais de 18 milhões de menores
de 8 anos terão perdido um dos pais ou os dois por causa
da AIDS.
AIDS na África
A África é a região com o maior número de infectados – 26,6
milhões (1 pessoa a cada 5 vive com a doença).
Em Botsuana e na Suazilância, a taxa de infecção é de 39%.
A África está criando uma geração de “órfãos da AIDS” – a
epidemia já deixou 15 milhões de crianças órfãs.
Quase a metade dos bebês africanos está nascendo com
o vírus da AIDS, o que significa dizer que a saúde e toda a
força de trabalho do continente já estão comprometidas
por pelo menos uma geração.
Unidade 2 75
Universidade do Sul de Santa Catarina
AIDS no Brasil
No Brasil, desde 1980, quando o governo começou a
contabilizar os dados da doença, já alcançamos a cifra de
433.067 (até junho de 2006).
O custo da AIDS foi de R$ 254 milhões em 1997 – R$ 352
milhões em 1998 – R$ 621 milhões em 1999 – R$ R$ 831
milhões em 2000.
Manter um doente com AIDS custa cerca de U$ 20 mil por
ano, segundo a UNAIDS.
Vírus Malburg e “Gripe do Frango”
Mas não é só a AIDS que ameaça o mundo, a OMS alertou que
medidas urgentes devem ser tomadas com relação a uma
nova epidemia causada pelo vírus Malburg em Angola, que
já matou 174 pessoas entre 200 infectados, constituindo‑se
numa séria ameaça mundial.
Por outro lado, temos ainda a ameaça de deflagração de uma
pandemia (epidemia generalizada) da Gripe do Frango (vírus
H5N1), que pode vir a matar mais de 7 milhões de pessoas,
pois este vírus tem um alto grau de letalidade: a cada 10
contaminados, 6 morreram.
Água
Sem água não há vida.
A água é hoje um elemento escasso e, por isso, cada vez
mais caro, gerador de conflitos, que só tendem a se agravar.
Desequilíbrio demográfico
Hoje, somos mais de 6 bilhões de pessoas.
Cálculos do tamanho ideal da população mundial estão
entre 1,5 bilhão e 2 bilhões, com os atuais padrões de
consumo e tecnologias.
Desigualdade norte‑sul
Cerca de 1,2 bilhões de pessoas têm menos de U$ 1 por dia
para sobreviver.
1,3 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável.
1 criança nascida nos EUA, França ou Grã‑Bretanha vai
desperdiçar e poluir mais durante sua vida do que 50
crianças nascidas em países em desenvolvimento.
76
Cenários Futuros
A pandemia da AIDS permanecerá uma catástrofe global e se
intensificará rapidamente em novas regiões, a não ser que líderes
mundiais aumentem drasticamente o suporte a abordagens
comprovadas de prevenção e tratamento, e se comprometam com
objetivos claros para dominar a doença até 2015.
Atualmente, ameaça explodir, na Rússia e em outras
partes da ex‑União Soviética, Índia, China e Sudeste
Asiático, novos surtos da doença.
Figura 2.15 ‑ Predomínio do HIV entre adultos por país no final de 2005
Fonte: Unaids, [20??].
Outro grave problema de saúde pública, como você pôde ver no
quadro, é a água ou, melhor dizendo, a sua escassez. Sem água
não há vida. A água é hoje em dia um elemento escasso e muito
mal distribuído no planeta. Como consequência, é item cada vez
mais caro, convertendo‑se assim em um gerador de conflitos, que
só tendem a se agravar. Confira estes números:
97,2% da água da Terra são mares salgados.
2,15% da água doce (do total de 2,8% restantes)
encontram‑se nas calotas polares e geleiras.
Portanto, apenas 0,63% do total de água doce do mundo
estaria teoricamente “disponível” para consumo humano,
e, mesmo assim, distribuída de forma irregular e muitas
vezes de difícil acesso.
Unidade 2 77
Universidade do Sul de Santa Catarina
O Brasil, apesar de possuir 14% das águas doces do
mundo (sendo a amazônia a maior bacia fluvial do
mundo), enfrenta sérios problemas ligados à água.
23,8% de todos os brasileiros não têm água encanada
(mais de 36 milhões).
Somente 10% do esgoto gerado são tratados.
O desperdício de água é estimado em 40%.
Você sabia?
Tão grande é a importância da água, que, no Brasil,
desde 1997, possuímos uma nova legislação para
o assunto. A Lei n. 9.433, de 08 de janeiro de 1997,
instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, que
estabelece: “a água é um bem de domínio público;
[...] é um recurso natural limitado, dotado de valor
econômico” (Art. 1).
Por sua vez, observe o alerta do Ministro do Meio Ambiente
chinês Pan Yue, em entrevista ao periódico alemão Der Spiegel,
reproduzido na Revista Veja de 30 de março de 2005:
O milagre chinês acabará em breve, porque o meio não
consegue mais acompanhar esse ritmo. A chuva ácida
cai sobre um terço do território chinês, metade das águas
de nossos sete rios está completamente inutilizável,
enquanto um quarto da nossa população não possui
acesso à água potável (op. cit., p. 39).
Globalmente, ao longo das últimas décadas, a quantidade de
água potável disponível tem diminuído dramaticamente:
a poluição das águas mata hoje 2,2 milhões de pessoas
por ano;
mais de 75% da reserva mundial de peixes é sobre‑explorada;
o aumento no nível dos oceanos, causado pelo
aquecimento global, pode deslocar dezenas de milhões
de pessoas.
78
Cenários Futuros
Figura 2.16 ‑ Poluição hídrica de um córrego em uma das favelas indianas
Fonte: Galeria de Meg and Rahuh, [20??].
Todas essas crises, que têm seus maiores impactos na
empobrecida população dos países em desenvolvimento, estão
entre os problemas ambientais que, coletivamente, representam
uma barreira significativa à redução da pobreza. (Dados da
ONU, Nova Iorque, 17 de Janeiro de 2005).
Outro problema que aflige o mundo atual é a pobreza econômica
ou, mais especificamente, a desigual distribuição da riqueza.
Sobre tema tão candente e preocupante é importante nos
reportarmos ao chamado Informe Brundtland, de 1987.
Este documento, elaborado para a ONU por diferentes nações e
encabeçado pela Dra. Gro Harlem Brundtland, enfatizava que:
“a pobreza é causa e efeito principal dos problemas mundiais do
meio ambiente. É inútil, portanto, tratar de encarar os problemas
ambientais sem uma perspectiva mais ampla que abranja os
fatores que sustentam a pobreza mundial e a desigualdade
internacional” (CMMAD, 1988, p. 23).
Para uma melhor contextualização do tema, confira os dados
expostos a seguir e reflita a respeito:
Cerca de 1,2 bilhões de pessoas têm menos de U$ 1 por
dia para sobreviver.
Perto de 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de
U$ 2 por dia.
Unidade 2 79
Universidade do Sul de Santa Catarina
1 em cada 4 crianças sofre ou já sofreu de desnutrição.
1,3 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável.
Quatro em cada 10 pessoas no mundo não têm acesso
nem a uma simples latrina de fossa não asséptica, e são
obrigadas a defecar a céu aberto.
Aproximadamente 2 em cada 10 pessoas – mais de
1 bilhão de pessoas – não têm nenhuma fonte de água
potável segura. Como consequência, 3.900 crianças
morrem diariamente em razão desta crise humanitária,
totalmente evitável, porém silenciosa.
Mais de 1 bilhão de crianças, a metade dos menores do
mundo, é castigado pela pobreza, a guerra e a AIDS.
Atualmente, 900 milhões de pessoas vivem em
assentamentos precários (favelas e áreas de risco) em todo
o mundo.
A menos que a situação mude substancialmente,
1,5 bilhões de moradores de zonas urbanas serão
favelados em 2020. A maioria deles residirá em regiões
em desenvolvimento, que carecem de direitos básicos, tais
como “voz” política, moradia decente, esgoto, acesso à
água, a escolas, a cuidados médicos, e transporte confiável
e seguro para o trabalho. Apesar de que os especialistas
em desenvolvimento tendem a enfocar os problemas das
áreas rurais, os países em desenvolvimento enfrentam um
imenso desafio – uma oportunidade – no gerenciamento
do crescimento rápido dos centros urbanos.
Esses dados, divulgados pelo Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento Humano (PNUD), em 2005,
são verdadeiramente escandalosos – e por que não dizer
perversos? – diante da abissal desigualdade existente entre
países, ou entre a própria população de um país, quando se trata
de degradação ambiental, consumo e distribuição da riqueza.
Conforme endossa Herrero (2000, p. 33):
80
Cenários Futuros
O impacto ambiental da humanidade é exponencialmente
crescente, proporcionalmente muito maior que o próprio
crescimento da população e profundamente assimétrico
entre regiões ricas e pobres do mundo. Aproximadamente
20% da população dos países desenvolvidos se apropria de
80% de todos os recursos do planeta.
São questões socioambientais que, além de impactarem locais
regionalmente delimitados, afetam de forma direta (mesmo que
em diferentes níveis de incidência) a toda a humanidade, quer sob
o prisma ambiental, quer sob o enfoque social. A humanidade
está fazendo um saque a descoberto no grande (porém finito)
banco dos ecossistemas globais. O resultado é um colapso
futuro na capacidade do planeta de fornecer bens e serviços
naturais aos seres humanos, cujo primeiro efeito prático deve
ser a impossibilidade de atingir as metas das Nações Unidas de
combate à fome em 2015.
Quem diz isso desta vez não são os ambientalistas, mas um
grupo de 1.350 cientistas de 95 países, inclusive o Brasil. De
2001 a 2005, sob a égide da ONU, eles produziram o diagnóstico
mais completo já feito da saúde dos ecossistemas e de sua relação
com a manutenção da vida humana. As conclusões da chamada
“Avaliação Ecossistêmica do Milênio”, como quase tudo o que
diz respeito ao ambiente global, são desalentadoras: quase dois
terços dos chamados serviços ambientais estão em declínio
acelerado. Isso significa que a capacidade do planeta de fornecer
peixe e água, reciclar nutrientes do solo, minimizar o impacto de
desastres naturais (como o maremoto na Ásia) e controlar o clima
local está comprometida.
Pior ainda: as alterações feitas nos ecossistemas, especialmente
nos últimos 50 anos, estão provavelmente aumentando o
risco de mudanças abruptas, como explosão de epidemias,
eutrofização de águas costeiras e mudança climática regional,
induzida por desmatamento.
Unidade 2 81
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 4 – Sociedade de risco
No atual contexto socioambiental, um dos principais pensadores
que discutem a temática de riscos, ameaças e perigos é o alemão
Ulrich Beck (2006), que cunhou o termo “sociedade de risco”.
Seu conceito central, o de risco, contrapõe‑se ao de perigo.
O perigo se deve a processos da própria natureza, ou
seja, tem causas ligadas diretamente à natureza, tais
como: o surgimento de doenças, fome, fenômenos
naturais etc.
Para eliminar ou minorar esses perigos, o ser humano vem
desenvolvendo, ao longo dos tempos, um conjunto de técnicas e
mecanismos que pretendem dominar e pôr a natureza à mercê de
suas necessidades.
Este processo foi devidamente percebido por Ortega y
Gasset (1996). O filósofo espanhol alerta que tais alterações,
não obstante atingir alguns de seus objetivos, vêm gerando,
intrinsecamente ao seu processo, um conjunto de riscos que
não podem mais ser concebidos como perigos causados apenas
pela natureza (alheios, portanto, da intervenção humana),
senão decorrentes da ação deliberada do homem (fruto de seu
conhecimento e decisão).
Assim, o risco tem origem precisamente na decisão e na atividade
humana, tenha‑se ou não consciência dos seus possíveis efeitos.
Exemplo eloquente de como criamos cada vez mais
riscos é um fato ocorrido em abril de 2005, que
gerou grande apreensão nos meios científicos e
governamentais mundiais: a distribuição acidental a
mais de 3,7 mil laboratórios, em 18 países (inclusive o
Brasil), de diversos “kits” com o vírus cujo nome técnico
é H2N2, causador da mortal “gripe asiática”, que matou
mais de 4 milhões de pessoas em 1957. Ocorre que
este vírus é extremamente mortal e, segundo a OMS,
ninguém nascido depois de 1968 teria anticorpos.
Imaginem o perigo do bioterrorismo nos dias de hoje.
82
Cenários Futuros
Este conceito de risco adstrito à atuação humana e ao
desenvolvimento tecnológico permite destacar a crescente e talvez
já majoritária presença dos riscos frente aos perigos naturais.
Trata‑se de uma inflexão fundamental e muito recente. À medida
que nossa sociedade vai desenvolvendo uma quantidade cada vez
maior de novas técnicas, tentando domar e dominar a natureza,
também vai se transformando em uma sociedade de riscos. Ou
seja, nós mesmos criamos os instrumentos e as formas de nossa
própria destruição, tendo ou não consciência de tais riscos.
Isto traz à tona algumas reflexões de Edgar Morin (2000),
quando nos alerta:
A civilização nascida no Ocidente, soltando suas amarras
com o passado, acreditava dirigir‑se para o futuro de
progresso infinito, movido pelos avanços conjuntos
da ciência, da razão, da história, da economia, da
democracia. Entretanto, aprendemos com Hiroshima
que a ciência era ambivalente: vimos a razão retroceder e
o delírio staliniano colocar a máscara da razão histórica;
vimos que não havia leis da História que guiassem
irresistivelmente em direção ao porvir radiante; vimos
que em parte alguma o triunfo da democracia estava
assegurando em definitivo; vimos que o desenvolvimento
industrial poderia causar danos à cultura e poluições
mortais; vimos que a civilização do bem‑estar podia gerar
ao mesmo tempo mal‑estar. Se a modernidade é definida
como fé incondicional no progresso, na tecnologia,
na ciência, no desenvolvimento econômico, então esta
modernidade está morta.
O século XX pareceu dar razão à fórmula atroz segundo
a qual a evolução humana é o crescimento do poderio
da morte.
A morte introduzida pelo século XX não é somente a de dezenas
de milhões de mortos das duas guerras mundiais e dos campos
de extermínio nazista e soviéticos; é também a de dois novos
poderes de morte.
O primeiro é o da possibilidade de extinção global de
toda a humanidade pelas armas nucleares.
O segundo é a possibilidade de morte ecológica.
Unidade 2 83
Universidade do Sul de Santa Catarina
Beck (2006) dá sequência a este debate incitado por Ortega y
Gasset e Edgard Morin. No entanto, antes de verificar como
ele o faz, cabe aprofundar‑se um pouco mais em seu conceito de
“sociedade de risco”. Acompanhe.
Para Beck (2006), falar em sociedade de risco significa
dizer que vivemos em um mundo fora de controle. Não
há nada certo além da incerteza.
O termo risco, da maneira como é empregado pelo autor, tem
dois sentidos radicalmente diferentes:
1. Aplica‑se, em primeiro lugar, a um mundo governado
inteiramente pelas leis da probabilidade, onde tudo é
mensurável e calculável.
2. No entanto, esta palavra também é comumente usada
para referir‑se a incertezas não quantificáveis, a “riscos
que não podem ser mensurados” (BECK, 2006, p. 5).
O sentido assumido por Beck é o segundo. Portanto, quando se
fala em sociedade de risco, o termo risco é usado no sentido de
incertezas fabricadas.
Essas “verdadeiras” incertezas, reforçadas por rápidas inovações
tecnológicas e respostas sociais aceleradas, estão criando uma
nova paisagem de risco global. Em todas essas novas tecnologias
incertas de risco, estamos separados da possibilidade e dos
resultados por um oceano de ignorância.
Você sabia?
Há alguns anos, o Congresso dos EUA deu a uma comissão
científica a tarefa de desenvolver uma linguagem simbólica que
tornaria claro o perigo que um local de dejetos atômicos nos
EUA implicaria.
O problema a ser resolvido era o seguinte: como os conceitos
e símbolos poderiam ser constituídos de forma a comunicar
(algo) àqueles que vivessem daqui a dez mil anos. A comissão
84
Cenários Futuros
era formada por físicos, antropólogos, linguistas, pesquisadores
do cérebro, psicólogos, biólogos moleculares, gerontólogos,
artistas, etc.
Primeiro de tudo, eles deveriam esclarecer uma questão
simples: os EUA existiriam daqui a dez mil anos? A resposta
foi, claro, simples: “EUA para sempre!”. No entanto, a chave do
problema – como é possível hoje começar uma conversa para
dez mil anos no futuro – eventualmente provou ser insolúvel.
A comissão buscou por exemplos dos mais antigos símbolos
da humanidade, estudou as ruínas de Stonehenge (1500 a.C.)
e as pirâmides, pesquisou a recepção de Homero e da bíblia e
ouviu explicações sobre o ciclo de vida dos documentos. Isso, no
entanto, alcançou apenas algumas centenas de anos passados,
não dez mil.
Na velocidade de seu desenvolvimento tecnológico, o mundo
moderno aumenta a diferença global entre a linguagem de
riscos quantificáveis, no qual pensamos e agimos, e o mundo
de insegurança quantificável, que igualmente criamos. Com
nossas decisões passadas sobre energia atômica e nossas
decisões presentes sobre o uso de tecnologia genética, genética
humana, nanotecnologia e ciência informática, desencadeamos
consequências imprevisíveis, incontroláveis e certamente até
incomunicáveis que ameaçam a vida na Terra.
Risco é um conceito moderno. Pressupõe decisões
que tentam fazer das consequências imprevisíveis das
decisões civilizacionais decisões previsíveis e controláveis.
Se alguém, por exemplo, diz que o risco de câncer em
fumantes está em um certo nível, e o risco de catástrofe
em uma usina nuclear está em certo nível, isso implica
que riscos são consequências negativas permitidas
por decisões que parecem calculáveis, assim como a
probabilidade de doença ou acidente, e ainda assim não
são catástrofes naturais. A novidade da sociedade de risco
repousa no fato de que nossas decisões civilizacionais
envolvem consequências e perigos globais, e isso
contradiz radicalmente a linguagem institucionalizada
do controle – e mesmo a promessa de controle – que
é irradiada ao público global na eventualidade de
catástrofe (como em Chernobyl e também nos ataques
Unidade 2 85
Universidade do Sul de Santa Catarina
terroristas sobre Nova Iorque e Washington). Isso
constitui precisamente a “explosividade” política da
sociedade de risco. Esta “explosividade” tem seu centro
na esfera pública da sociedade de massas midiatizada,
na política, na burocracia, na economia, embora não seja
necessariamente contíguo a um evento específico ao qual
esteja conectada. A “explosividade” política não pode ser
descrita e mensurada nem na linguagem do risco, nem
em fórmulas científicas. Nela “explode” ‑ se me permite
a metáfora – a responsabilidade, reivindica racionalidade
e legitimidade pelo contato com a realidade. O outro
lado da presença admitida do perigo é a falência das
instituições cuja autoridade provém da maestria assumida
de tal perigo. Desse modo, o “nascimento social” de
um perigo global é tanto um improvável quanto um
dramático, mesmo traumático, fim do mundo. Na
experiência de choque irradiado pela mídia massificada,
torna‑se reconhecível que a dormência da razão cria
monstros. (BECK, 2006, p. 7).
Muitos dos riscos com os quais nos confrontamos são globais pela
sua própria natureza. Segundo Beck (2006), três dimensões de
perigo podem ser diferenciadas na sociedade global de risco, cada
uma seguindo uma diferente lógica de conflito. Essa reviravolta
ou reprime outros temas, destrói ou valoriza prioridades:
a primeira dimensão é a crise ecológica;
a segunda, a crise financeira global; e
a terceira – surgida a partir de 11 de setembro
de 2001 – é o perigo terrorista causado pela rede
transnacional terrorista.
Nessas três dimensões de perigo, e além de todas as diferenças,
um modelo comum de possibilidades e contradições políticas
pode ser visto na sociedade global em risco.
Algumas sociedades correm mais risco de colapso do
que outras?
O termo “sociedade global de risco” não deve ser confundido
com uma homogeneização do mundo, porque todas as regiões e
culturas não são igualmente afetadas por um conjunto uniforme
de riscos não quantificados e incontroláveis nas áreas de ecologia,
86
Cenários Futuros
economia e de redes terroristas. Ao contrário, riscos globais
são por si só desigualmente distribuídos. Eles se desdobram de
diferentes maneiras em cada contexto concreto, mediados por
históricos diferentes e padrões culturais e políticos.
Na assim chamada periferia, os riscos globais surgem não
como um processo interno, o qual pode ser combatido por
meio de decisões nacionais autônomas, mas como um processo
externo, que é propelido por decisões feitas em outros países,
especialmente no centro. As pessoas se sentem como reféns
indefesas desses processos, assim como correções são virtual e
nacionalmente impossíveis.
Apesar de tudo, há lugar para esperança. Em uma época em
que a crença nos governantes, na nação, na classe desaparece, a
sabida e reconhecida globalidade do perigo transforma‑se em
uma fonte de associações, abrindo novas perspectivas globais
políticas para a ação.
Seção 5 – Podemos fazer alguma coisa?
Os cenários aqui apresentados nos levam a uma profunda reflexão
e, até mesmo, em alguns momentos, a negar a gravidade de
tais fatos, tal qual um dos personagens do filme Matrix (1999),
que prefere ficar alienado aos fatos reais, preferindo a falsa
tranquilidade de um mundo de ilusão, quando afirma: “A
ignorância é uma dádiva divina”.
Diante deste quadro funesto, perguntamo‑nos:
Podemos fazer alguma coisa?
Qual o papel do filósofo no desnudar desta realidade?
Pode o filósofo interferir no rumo tomado
pela humanidade?
Que ações desenvolver para devolver a esperança
à sociedade?
Unidade 2 87
Universidade do Sul de Santa Catarina
A existência de estados democráticos, da crença cega na ciência
e de um grande aparato legal de proteção ambiental não são
capazes de, por si só, garantir que, no futuro que se apresenta
cada vez mais próximo, essa ideologia de crescimento ilimitado
entre em franca e irreversível derrocada, se não houver uma efetiva
mudança no comportamento das pessoas e se estas não passarem
a considerar o respeito ao meio como um respeito a si mesmo,
diretamente vinculado a sua própria sobrevivência e bem estar.
Pois, ao contrário, se o homem continuar a conceber o meio
ambiente como algo extrínseco e independente de si (visão
antropocentrista), servindo‑se dele apenas e tão somente para
seu deleite, não haverá chance à mudança. O interesse pela
preservação ambiental e, sendo assim, pela vida, deve ser, o mais
urgentemente possível, disseminado em toda a trama social.
Para interferir nesses fatos, devemos
conhecê‑los, devemos nos apropriar de seu
significado e consequências.
O respeito ao ambiente não pode ser consequência do medo
às penalidades contidas na lei, mas deve advir da consciência
e da percepção de sua importância para nossa sobrevivência e
bem estar. Creio, assim, que somente uma visão e uma prática
efetivamente ecológica da vida podem nos proporcionar um
melhor nível de convivência.
Não podemos esquecer jamais que o elemento motriz do homem
é sua visceral compulsão em manter‑se vivo, através da satisfação
de suas necessidades básicas – o que não inclui as advindas
da sociedade de consumo. Neste caminho‑esperança é que se
deposita toda a sua crença na vida em sociedade e é ele a razão
pela qual acredita no Estado e em suas leis. Caso venha a perder
a esperança, criado está o ambiente da completa desagregação
social e da própria sociedade da forma como a concebemos.
Como alerta Fritjof Capra (1999, p. 23):
À medida que o século se aproxima do fim, as
preocupações com o meio ambiente adquirem suprema
importância. Defrontamo‑nos com toda uma série de
problemas globais que estão danificando a biosfera e a
88
Cenários Futuros
vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo
se tornar irreversível.
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época,
mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos
isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão
interligados e são interdependentes.
A ecologia é um poderoso meio, que nos fornece a
oportunidade de olhar o mundo com outros olhos,
outros valores, outra perspectiva.
Ela nos permite saber que tudo e todos possuem um
importantíssimo valor para a manutenção da vida, da forma como
hoje a concebemos. Mais: ela nos permite perceber que qualquer
atitude local, por menor que seja, atinge também o global.
Assim, se eu mudo, se eu altero meus comportamentos e hábitos,
o mundo também muda.
Advogo, assim, a premente necessidade de uma redescoberta de
nossa Terra e de seus limites, assim como uma profunda crítica
e reflexão de nossas condutas e valores, ante as questões e riscos
que este novo milênio apresenta. Em termos de uma teoria
crítica, as questões ecológicas nos colocam ante um imperativo
deslocamento conceitual.
A ecologia demanda a adoção de valores menos
individualistas, de conceitos holísticos que
exprimam valores coletivos e solidários, e um olhar
menos arrogante e presunçoso à nossa frágil e
passageira existência.
Valores deste novo milênio que devem se inclinar ao fortalecimento
de ações globais, tendentes a minorar as desigualdades entre
os povos em busca da efetiva realização de uma comunidade
cosmopolita, fortalecendo e reinventanto novas gerações de
direitos, desta vez incluindo, além do próprio homem, também o
meio que lhe dá morada. É necessária uma reformulação de nossos
valores e crenças em direção de um sujeito coletivo de direitos e
de uma percepção coletiva de cidadania. Esta ideia se sintetiza no
binômio: autonomia com solidariedade.
Unidade 2 89
Universidade do Sul de Santa Catarina
O grande desafio posto pela ecologia, assim, é o de que devam
ocorrer mudanças na lógica predadora, posta em prática por
nossa sociedade materialista. É a transmutação dos valores, dos
hábitos e de nossas posturas de vida. Esta transmutação deve
se dar com o surgimento de novas culturas político‑jurídicas,
que deem sentido à vida a partir de conceitos de harmonia,
interdependência e solidariedade.
Nas palavras de Morin (2000, p. 113),
a finitude geográfica de nossa terra impõe a seus
habitantes o princípio de hospitalidade universal, que
reconhece ao outro o direito de não ser tratado como
inimigo. A partir do século XX, a comunidade de destino
terrestre impõe de modo vital a solidariedade.
Diante destas lições, urge mudarmos nosso modo de ver e estar
neste mundo.
Poucas pessoas se dão ao trabalho de estudar a origem
de suas próprias convicções. Gostamos de continuar a
crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade.
Por isso, a maior parte de nosso raciocínio consiste em
descobrir argumentos para continuarmos a crer no que
cremos. (ROBINSON, 1995, p. 45).
No umbral deste terceiro milênio precisamos redefinir nossos
tradicionais e vetustos valores e conceitos que tanto nos dividem
em fronteiras físicas, étnicas, políticas, religiosas, econômicas e
ambientais, excluindo‑nos, isolando‑nos e gerando cada vez mais
conflitos e desesperança. Temos que redesenhar um mundo que
possa ser mais justo e solidário, para que todos possam aqui viver
com um mínimo de dignidade, onde a felicidade de cada um só
se complete com a busca da felicidade do outro.
A complexidade, a amplitude e a rapidez dos acontecimentos,
os quais têm caracterizado nossa sociedade de alto
risco, permanentemente sob a ameaça de desintegração,
exigem muita prudência nas análises e tenacidade nos
encaminhamentos. Todavia, com a adoção e internalização de
90
Cenários Futuros
tais valores – principalmente os de interdependência, fragilidade
e solidariedade – podemos caminhar em direção a uma nova
forma de relacionamento global, transformando a letra fria
de tratados e encontros internacionais em uma práxis efetiva,
dinâmica e transformadora.
Se só há um único mundo, quando algo vai mal, tudo
vai mal. Antes sonhávamos com o futuro, agora temos
medo que ele chegue.
É fundamental que voltemos tanto os nossos sentidos quanto a
nossa racionalidade à efetiva percepção de que a terra é um bem
extremamente limitado fisicamente, cujos elementos naturais são
interdependentes e frágeis, consistindo em uma verdadeira “nave
espacial”, na ilustrativa metáfora de Kenneth Boulding.
Esta postura poderá nos conduzir à tomada de ações efetivas, no
sentido de evitar um conflito destrutivo, e, o mais importante,
de gerar um sentimento de comunidade mundial cuja tripulação
é muito heterogênea. Se alguém pode alterar o atual quadro de
alienação coletiva, profunda destruição de nosso entorno e de
injustiça social, por certo serão pessoas como você. Está em suas
mãos a responsabilidade de construir um novo futuro.
Unidade 2 91
Universidade do Sul de Santa Catarina
Síntese
Nesta unidade, você pôde refletir sobre futuros cenários
ecológicos a partir de diferentes perspectivas. Como ponto
de partida, buscou‑se entender onde estamos a partir de uma
concepção cosmológica, isto é, avaliação de qual é a dimensão da
Terra em relação ao Universo e qual é a dimensão do homem em
relação à Terra. Este exercício deixou evidente o quão vulnerável
e precioso é o nosso planeta.
Na segunda seção, você pôde constatar que, atualmente, a
chamada ideologia do crescimento ilimitado tenta impor‑se como
a única maneira de desenvolvimento econômico, convivência
social e de realização pessoal, baseada na busca crescente e
acelerada da produção e no consumo de bens materiais.
Em seguida, avaliamos alguns dos principais indicadores da
crise ecológica vivenciada atualmente, entre eles o aquecimento
global, as diversas ameaças ao meio ambiente, o vírus da AIDS
no mundo, na África e no Brasil, o vírus Malburg e a Gripe
do Frango, a escassez da água, o desequilíbrio demográfico e a
desigualdade norte‑sul.
Na quarta seção, foram apresentadas algumas das ideias de
Ulrich Beck, que podem ajudá-lo a pensar os riscos da sociedade
atual. Segundo este autor, a sociedade de hoje fabrica incertezas,
que são reforçadas por rápidas inovações tecnológicas e respostas
sociais aceleradas. Tais incertezas estão criando uma nova
paisagem de risco global. Em todas essas novas tecnologias
incertas de risco, estamos separados da possibilidade e dos
resultados por um “oceano de ignorância”, o que acarreta graves
consequências ecológicas.
Por fim, foi‑lhe apresentado um caminho para a reflexão a
respeito desses cenários: a noção de que, para interferir nesses
fatos, devemos conhecê‑los e apropriar‑nos de seu significado e
consequências.
92
Cenários Futuros
Atividades de autoavaliação
1) Com base nos estudos que você realizou nesta unidade, assinale os
enunciados a seguir com V (verdadeiro) ou F (falso).
( ) O homem é um ser único, o que justifica a amplitude e as
consequências de suas ações na transformação do planeta.
( ) A ideologia do crescimento ilimitado está elevada à categoria de
verdadeiro dogma, aceito por grupos de esquerda e de direita, por
países pobres e ricos, e está na base de quase todas as políticas
econômicas postas em prática no mundo atual.
( ) A pandemia da AIDS, por esforço de diversos líderes mundiais, que
vêm dando suporte a abordagens comprovadas de prevenção e
tratamento, será dominada até 2015.
( ) A noção de risco usada por Ulrich Beck refere‑se a incertezas não
quantificáveis, a riscos que não podem ser mensurados.
2) Sobre o conceito de ideologia do crescimento ilimitado, assinale a
alternativa verdadeira:
a) ( ) Pode‑se dizer que a ideologia do crescimento ilimitado está mais
associada ao socialismo.
b) ( ) Pode‑se dizer que a ideologia do crescimento ilimitado está mais
associada ao liberalismo.
c) ( ) A ideologia do crescimento ilimitado postula que a única
maneira de desenvolvimento econômico, convivência social e
de realização pessoal se situa na busca crescente e acelerada da
produção e no consumo de bens materiais.
d) ( ) Esta ideologia é contrária às atuais formas de trabalho e de
organização social, afirmando ser impossível a todos os homens
satisfazerem suas necessidades e realizarem todos os seus
sonhos segundo a lógica atual.
Unidade 2 93
Universidade do Sul de Santa Catarina
Saiba mais
Para saber um pouco mais sobre a destruição dos recursos
naturais de nosso planeta, sugerimos a leitura das seguintes
obras referenciais:
DORST, Jean. Antes que a Natureza Morra. Por uma Ecologia
Política. Trad. Rita Buongermino. São Paulo: Editora Edgard
Blucher, 1973.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do
futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
94
3
UNIDADE 3
Cenários econômicos
Letícia Cristina Bizarro Barbosa
Objetivos de aprendizagem
Questionar‑se acerca dos cenários futuros.
Analisar os principais temas que abordam o sistema
econômico capitalista.
Compreender as principais críticas ao sistema
hegemônico feitas por teóricos contemporâneos.
Identificar possibilidades de transformações sistêmicas.
Verificar possibilidades de estabelecimento de outras
lógicas econômicas.
Seções de estudo
Seção 1 O sistema econômico de mercado capitalista
Seção 2 A crítica dos mercados e os mecanismos de
integração da sociedade
Seção 3 Outra concepção de economia: os distintos
princípios de integração
Seção 4 Rumo ao estabelecimento de outras
lógicas econômicas
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
Nesta unidade, vamos analisar aspectos econômicos que podem
nos auxiliar a questionar os cenários futuros. Veremos os
principais temas envolvidos no sistema econômico capitalista, sua
lógica de funcionamento, a racionalidade que rege o sistema e as
consequências produzidas.
Na segunda seção, apresentaremos algumas das principais
críticas ao sistema hegemônico feitas por teóricos
contemporâneos que seguiram os preceitos de Karl Marx.
Analisaremos, por exemplo, porque Hinkelammert defende que
estamos num processo suicida.
Mais adiante, nos questionaremos sobre os caminhos tomados
por nós como sociedade, a fim de verificar se ainda há
possibilidade de transformações sistêmicas, abolição do sistema
de mercado, adoção de outras formas de integração etc. Por
último, discutiremos se a sociedade precisa de outras relações
sociais, além das relações mercantis, para existir. Consideraremos
outras propostas de economia, como a economia solidária.
Seção 1 – O sistema econômico de mercado capitalista
Estamos diante de uma era em que o sistema econômico
hegemônico é o capitalista. Toda a reprodução da vida tende
a passar pelo mercado, desde a comida que nos alimenta até
o nosso lazer. Ainda que existam outras formas de integração
econômica contemporâneas ao capitalista, como formas socialistas,
cooperativas e indígenas, o sistema capitalista é hegemônico.
Conforme o pensamento de Antonio Gramsci, em
uma hegemonia, certo tipo de vida e pensamento é
dominante e é difundido por toda a sociedade para
influenciar normas, valores e gostos, práticas políticas e
relações sociais. (KATZ, 2007).
96
Cenários Futuros
A teoria neoclássica compreende os mercados como
organizadores do processo de troca. Assim, a partir de uma
definição formalista, essa linha teórica entende a economia como
a ciência da alocação de recursos escassos entre as múltiplas
necessidades. Ela considera a riqueza social como “todas as
coisas tangíveis e intangíveis que são escassas, ou seja, por um
lado somos úteis e, por outro, existem à nossa disposição, em
quantidades limitadas”. (WALRAS, 1987, p. 155).
Economia é a ciência social que estuda a produção,
distribuição e consumo de bens e serviços. Ela estuda
as formas de comportamento humano resultantes
da relação entre as necessidades dos homens e os
recursos disponíveis para satisfazê‑las.
Assim, a escassez se torna um requisito necessário, levado em
consideração para se constituir em riqueza social. Caso contrário,
se eles são úteis, mas não escassos, não são considerados membros
da riqueza social. Esse argumento nos leva a dizer que: se
uma coisa é útil e escassa, então é preciosa e intercambiável, e,
portanto, torna‑se algo que deve ser apropriada.
O mercado aparece como o lugar onde os proprietários destas
coisas úteis e escassas contribuem para trocar por outros de
natureza similar. Por isso, entre esses elementos da riqueza social,
a Economia prevê
uma relação sólida que, independentemente da utilidade
direta que eles têm, cada um adquire uma propriedade
especial, o direito de trocarem um produto pelo outro nas
proporções pré‑determinadas. (WALRAS, 1987, p. 157). O produto passa a
ter valor de troca
somente quando
Dessa forma, os produtos não possuem valor antes de chegar vai ao mercado
ao mercado, o qual lhes confere valor de troca, justamente no para ser trocado
processo de intercâmbio. Walras (1987, p. 157) acredita que o por outro produto
valor de troca, uma vez determinado, é um fenômeno natural: ou por dinheiro.
“natural de origem natural, em sua aparência natural e em sua
essência”. A partir do mesmo raciocínio, os preços se tornam algo
natural também.
Unidade 3 97
Universidade do Sul de Santa Catarina
Os produtos teriam algum valor se não passassem pela
comercialização no mercado?
Todo produto tem valor, mesmo que não passe pelo mercado.
Nesse caso, falamos em valor de uso. Para dar substância às
suas teorias, a economia neoclássica parte de pressupostos
significativos sobre o comportamento dos agentes e do
funcionamento dos mercados.
Por um lado, os indivíduos (homines economici) são considerados
sujeitos racionais, que tomam as melhores decisões possíveis com
base em informações disponíveis. Nesse contexto, considera‑se
que os indivíduos, isoladamente, são egoístas, utilitários, não
são objeto de ligação com os outros e só se preocupam com
eles mesmos. Por outro lado, acredita‑se que os mercados são
eficientes alocadores de recursos.
Por sua vez, a teoria neoclássica postula que os mercados são
perfeitos: a existência de inúmeros compradores e vendedores
determina que os preços sejam fixados pela oferta e demanda,
mas nenhum deles conseguiu impor condições. Como corolário,
essa teoria defende que, se esses indivíduos forem deixados a
operar livremente, a economia vai chegar ao ideal. Esse ideal
remete ao princípio de Pareto.
Segundo a lei da eficiência ou princípio de Pareto,
chega‑se a uma situação econômica ótima quando
A lei foi sugerida por Joseph M. não é mais possível melhorar a situação, ou, mais
Juran, que deu o nome em honra ao genericamente, a utilidade de um agente, sem
economista italiano Vilfredo Pareto. degradar a situação ou utilidade de qualquer outro
agente econômico.
Voltando para a sociedade capitalista atual em que vivemos,
verificamos que muitos dos pressupostos dessa teoria não são
cumpridos. Os mercados têm um papel fundamental na formação
da nossa vida. A fim de alcançar o nosso sustento, ou seja, para
ter os bens necessários que precisamos para viver, é necessário
primeiro contribuir com o caráter de vendedores no mercado.
98
Cenários Futuros
É no mercado que nós obtemos nossas receitas, e é para ele que
voltamos, a fim de comprar os produtos que atendem às nossas
necessidades. Nesse sentido, vemos que grande parte da nossa
vida é mercantilizada e, assim, nossa renda é derivada da venda
de qualquer produto, não importa o quê. É por isso que, não
tendo os meios de produção necessários para produzir, o que nos
resta é vender a própria força de trabalho.
“Por força de trabalho entende‑se a capacidade
possuída pelo conjunto de indivíduos que participam
no decurso do processo econômico, detentores das
capacidades físicas e mentais já existentes no corpo
humano ou adquiridas através da experiência e da
formação de base acumulada de geração em geração,
e que o homem põe em movimento ao produzir
valores de uso.” (GOMES, 2008, p. 30).
Mas você sabe como a força de trabalho se torna uma
mercadoria? No modo capitalista de produção, os trabalhadores
encontram‑se duplamente livres, isto é, livres de todos os laços
de dependência pessoal e de qualquer posse. Assim, numa
economia onde é necessária a obtenção dos lucros da venda para
assegurar os bens necessários para reproduzir suas vidas, e não
tendo outros bens, esses indivíduos não têm outra alternativa
senão vender o seu trabalho e, por essa razão, tornam‑se uma
commodity (mercadoria).
Conforme argumenta Polanyi (1997), embora o trabalho não
tenha sido produzido para venda, torna‑se uma mercadoria
fictícia e é vendido em mercados como qualquer outra
mercadoria. Portanto, a vida é estruturada de acordo com o
mercado, o que significa que a produção das mercadorias não visa
a atender às necessidades das pessoas, mas tornou‑se um meio
para o lucro e a acumulação sem limites.
Em suma, os capitalistas estão em função da organização do
processo de produção e esperam recuperar seu capital com a
venda de bens produzidos, para obter uma soma maior do que
a investida inicialmente. Nesse contexto, a criação de valores de
troca é o que orienta a produção, independentemente do uso feito.
Unidade 3 99
Universidade do Sul de Santa Catarina
Esse sistema de produção, para o seu funcionamento, não exige
todo o pessoal que está disponível para venda. Há uma massa
marginal da população (NUN, 1999), que o sistema não requer
para sua operação e, portanto, não garante sua reprodução.
Dessa forma, o mercado tem uma racionalidade instrumental
(meio‑fim), que não leva em conta a necessidade de reproduzir
a vida de todos os povos. Após Franz Hinkelammert (2003),
podemos dizer que as operações desses mercados capitalistas não
têm uma racionalidade reprodutiva. O autor, assim como outros,
propõe uma crítica à operação lógica desses mercados.
Seção 2 – A crítica dos mercados e os mecanismos de
integração da sociedade.
Hinkelammert (2003) tem sido um dos principais autores a
criticar a racionalidade econômica, entendida como relação
meio‑fim instrumental, característica da sociedade capitalista. Os
pressupostos subjacentes a esta lógica consideram que os indivíduos
são homines economici racionais, que tomam as melhores
decisões possíveis com a informação disponível e, além disso, são
hedonistas. Assim, considera‑se que qualquer ato econômico
implica uma escolha determinada pela escassez; enquanto os
Buscam a satisfação de seu prazer.
indivíduos forem racionais, a lógica será a mais eficiente.
Nesta visão neoclássica, portanto, entende‑se que o indivíduo
deve ser orientado pelo seu interesse hedonista, que lidera
o mercado por meio da interação com outros indivíduos
semelhantes, com uma atribuição mais eficiente dos recursos.
Nesse sentido, Adam Smith foi o primeiro a dizer que o
mercado, com sua mão invisível, permite aos indivíduos,
seguindo seus próprios interesses, contribuírem para o interesse
geral. Assim, esta visão afirma que há uma ordem de mercado,
decorrente da ação fragmentada de indivíduos.
100
Cenários Futuros
O princípio da mão invisível, de Adam Smith,
rege que, num mercado livre, em que cada agente
econômico atua com vista apenas à persecução dos
seus próprios objetivos, é atingida uma situação
eficiente, que beneficia todos. O mecanismo de
mercado funciona como uma “mão invisível”, que
conduz os agentes econômicos para uma situação
ótima do ponto de vista da eficiência.
Esta ordem é vista por Adam Smith e pelos economistas clássicos
que o seguiram como efeito indireto da ação direta. Pensa‑se
que o mercado se autorregula e contribui para o interesse geral.
(HINKELAMMERT, 2003).
Agora, se olharmos para a realidade, nós veremos que um
mercado que se autorregula não existe. Ao contrário, o mercado
gera a exclusão e a pobreza, uma vez que as pessoas dependem
das mercadorias para satisfazer suas necessidades, para o seu bom
desempenho no mercado.
Precisamente em relação a isso, Hinkelammert (2003) afirma
que o mercado traduz a ética em uma ética da irresponsabilidade.
Essa crítica se deve ao fato de que os mercados são movidos
pela racionalidade, que é destrutiva das duas fontes de riqueza:
o ser humano e a natureza. Essa negligência à vida humana e à
natureza determina com que o mercado seja orientado por uma
ética da irresponsabilidade.
Por que é uma ética da irresponsabilidade?
Os seres humanos não são responsáveis pelos efeitos indiretos
das nossas ações, e foi atribuída ao mercado a responsabilidade
de agir no interesse geral. No entanto, o mercado não seria
um reflexo de nossas ações? A partir desse ponto de vista,
ao contrário do neoclássico, é preciso compreender os efeitos
indiretos que levam à ação direta. Muitas vezes, esses efeitos não
são intencionais, mas eles existem e devem ser levados em conta
tanto quanto à ética do mercado, que é destrutiva, devorando o
homem e a natureza.
Unidade 3 101
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para Hinkelammert (2003, p. 32, grifo nosso), “a racionalidade
meio‑fim é a irracionalidade do racionalizado, uma vez que é
a ineficiência da eficiência”. Perder o sentido da vida humana
é irracional, pois elimina o próprio objeto da ação, ou seja,
elimina o fim.
Portanto, torna‑se necessário substituir o mercado da ética da
irresponsabilidade, para garantir a vida de todos. Estamos a
falar de uma ética do bem comum, onde os efeitos indiretos
sobre a vida são considerados dentro das escolhas individuais
de todos. A partir dessa perspectiva, o sujeito racional é aquele
que está consciente da importância de cuidar da natureza
e leva em conta que a ação fragmentada pode resultar em
suicídio (na destruição de outros): “como o sujeito precede seus
propósitos, o circuito natural da vida humana precede o sujeito”.
(HINKELAMMERT, 2003, p.46).
Portanto, na racionalidade reprodutiva, a “outra” racionalidade,
delibera‑se sobre a racionalidade de meios‑fins e considera‑se
que esses devem ser compatíveis com a reprodução da vida dos
indivíduos. O verdadeiro critério de racionalidade é o da vida
ou morte. Os meios e fins da racionalidade, em todos os casos,
são incompatíveis com essa abordagem, porque “a racionalidade
de meios e fins esmaga a vida humana (e natureza), que mostra
seu caráter potencialmente irracional”. (HINKELAMMERT,
2003, p. 49).
O filósofo Mance (2002) contribui com seus desenvolvimentos
teóricos à medida que diz que é possível construir uma outra
economia, sob o paradigma da abundância, em contrapartida ao
paradigma da escassez, que rege o sistema econômico atual.
De acordo com Mance (2002), nesses mercados, regidos pelo
paradigma da abundância, os preços não serão regidos pelo
princípio da escassez (de oferta e demanda); o preço justo estaria
baseado nos custos de produção, permitindo aos participantes
obter uma margem adicional para ajudá‑los a continuar a
expansão da rede.
Sem dúvida, a premissa subjacente é que, com as novas
tecnologias e a riqueza acumulada no processo de produção
102
Cenários Futuros
capitalista, é possível gerar bastantes produtos, capazes de
satisfazer as necessidades de todos. No entanto, sob o sistema
de mercado que regula a sociedade, uma parte significativa da
população não chega a ter acesso a essa riqueza, pois ela não
tem poder aquisitivo suficiente. Nesse sentido, conforme Lisboa
(2004), nós acreditamos que o capitalismo se apresenta como um
sistema que produz de forma eficiente, mas apresenta problemas
na distribuição de resultados.
Assim, se a lógica proposta é o da reprodução ampliada da vida
(HINKELAMMERT, 2003), não do capital, a riqueza social
deve ser distribuída entre todos os membros da sociedade, de
forma igual, e não concentrada nas mãos dos donos do capital.
A tecnologia permite aumentar consideravelmente
a produtividade do trabalho e da riqueza. Ou seja,
exige menos tempo de trabalho para produzir a
mesma quantidade de produtos ou os mesmos valores
significativamente mais elevados. No entanto, uma vez
que o objetivo é o lucro e a acumulação de capital, o
resultado percebido é o desemprego em massa dos
trabalhadores, aumentando a proporção da regra de
mercado e, portanto, deixando de reproduzir suas vidas.
Confrontado com essa situação, Mance (2002, p. 127)
apresenta‑nos uma outra solução possível:
[…] os ganhos de valor econômico em um segmento
podem ser compartilhados com os segmentos anteriores
e posteriores dessas cadeias, permitindo a contratação
de mais trabalhadores nesses empreendimentos e a
redução da jornada de trabalho de todos ou a fissão de
alguns empreendimentos que passam, então, a produzir
menos, reduzindo‑se também a jornada de trabalho,
alcançando‑se, entretanto um faturamento mínimo que
seja sempre, em alguma medida, superior ao ponto de
equilíbrio de cada empreendimento.
Unidade 3 103
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 3 – Outra concepção de economia: os distintos
princípios de integração
Até agora, nós nos concentramos no estudo do mercado capitalista
e na sua crítica, considerando a necessidade de mudar a sua lógica
e ética da irresponsabilidade, que tenta levar em conta a satisfação
das necessidades de todas as pessoas, mas não consegue.
Seria necessário mudar a lógica de funcionamento do
sistema, fazendo com que a produção seja orientada
de acordo com os valores de uso e não valores de
troca e, por sua vez, que os frutos sejam distribuídos
equitativamente entre todos? Isso seria possível?
Até agora, só temos introduzido o mercado como único
integrador econômico da sociedade. Por isso, o fator hegemônico
está presente, quando concebemos o mercado como única
instituição de integração na sociedade capitalista. No entanto,
segundo Polanyi (1997), descobriu‑se que esse não é o único
princípio. Você pode encontrar outros princípios de integração
além do intercâmbio, dando à luz a possibilidade de assumir o
papel dominante, agora ocupado pelo mercado capitalista.
Na definição formalista, adotada pela teoria econômica
neoclássica, entende‑se o econômico como a alocação de recursos
escassos entre as múltiplas necessidades, em que a economia
está separada de qualquer outra área social, cultural, política
etc., automatizando‑a e tentando subsumir a sociedade à sua
lógica. No entanto, se partirmos de uma visão substantiva, nós
promovemos uma definição diferenciada da economia, o que
representa a existência de outras formas de integração para além
do comércio (intercâmbio).
A partir dessa perspectiva, a economia é entendida
como um processo institucionalizado de interação
entre o homem e a natureza para fornecer os recursos
materiais para atender às necessidades de todos.
Assim, entende‑se que a economia não é uma esfera
separada da sociedade, mas é incorporada em instituições
104
Cenários Futuros
econômicas e não econômicas, e é precisamente isso que lhe
dá unidade e estabilidade.
Nessa visão, a racionalidade substantiva é entendida não como
uma escolha entre meios e fins, mas como uma racionalidade
reprodutiva, pois visa ao sustento e à reprodução da sociedade.
Vemos que a vida individual na sociedade, sem construir
relacionamentos, é inviável. Torna‑se impossível compreender
seu comportamento de forma isolada. É preciso levar em conta os
laços sociais, que tiveram lugar entre membros das comunidades,
sem pensar apenas em termos egoístas e utilitaristas.
Nesse sentido, Polanyi (1997) defende que a principal
dificuldade do sistema de mercado é sua incapacidade de
satisfazer as necessidades humanas de uma forma estável. Para
ele, o problema reside no fato de que o mercado, na sociedade,
tornou‑se o único mecanismo de integração e isso vai contra a
racionalidade reprodutiva.
A solução é a abolição do mercado?
Não exatamente. O que explica Polanyi (1997) é que não
devemos deixar que o mercado se autorregule, porque isso
cria consequências nefastas. Devemos estabelecer outras
pautas de institucionalização do econômico (a reciprocidade, a
redistribuição etc.). Devemos intervir no mercado de trabalho,
para que os salários não tendam a chegar a zero e que a sociedade
não se autodestrua.
É difícil substituir o mercado como alocador de recursos, mas
também é perigoso para as pessoas que dele dependem para
satisfazer as suas necessidades.
Devemos encontrar um equilíbrio: devemos passar
de uma economia de mercado para uma economia
com mercado, onde as demais instituições
econômicas desempenhem um papel central e
onde as necessidades das pessoas não estejam
subordinadas à busca do lucro.
Unidade 3 105
Universidade do Sul de Santa Catarina
Entre as formas de integração que Polanyi (1997) descreve estão a
reciprocidade, a simetria, a redistribuição e a centralidade.
A Reciprocidade, que descreve a circulação de
mercadorias entre os membros de grupos organizados
simetricamente e está ligada à forma de organização dos
laços familiares e de parentesco.
A simetria funciona de tal forma que os membros devem
contribuir para a sociedade à qual pertencem para serem
respeitados por sua honra. A simetria é a instituição da
forma de integração chamada reciprocidade.
A simetria é a instituição que assegura que um receberá o
equivalente ao que aportou qualitativamente (independentemente
do montante). Quando esse princípio se amplia a mais
comunidades, forma‑se um tecido muito mais complexo que o
anterior. Ainda que por trás da reciprocidade esteja presente o
comércio de coisas, este não é o núcleo da ligação. O que está em
questão são os valores de uso trocados. O simbolismo das coisas
as quais têm um peso maior.
A reciprocidade, muito presente nas culturas
pré‑capitalistas, ainda faz parte das nossas relações.
Uma prática muito comum ainda é presentear o casal
que está prestes a contrair matrimônio e começando
a construir uma família. Esse mesmo casal, convidado
para outro matrimônio, irá presentear o novo casal. Não,
necessariamente, foi uma retribuição pelo presente
recebido, já que os noivos prestes a se casar podem
não ter comparecido ao casamento dos convidados. No
entanto, é uma retribuição à sociedade que mantém
esta convenção. Ninguém os obriga a presentear, mas
toda a sociedade tradicionalmente espera que esse
círculo de reciprocidade nunca se rompa.
A redistribuição nos leva à necessidade de centralidade e
organização sobre um indivíduo ou grupo de indivíduos, que irá
armazenar e distribuir as mercadorias para toda a comunidade.
A centralidade é a instituição da forma de integração chamada
redistribuição. Para funcionar, exige‑se a existência da
centralidade como instituição e mecanismo de movimento em
direção ao centro e de circulação sucessiva para fora.
106
Cenários Futuros
O Estado representa a centralidade dessa forma de
integração tão presente na nossa sociedade. Nas
culturas pré‑capitalistas, podemos citar os Incas, que
possuíam um sistema muito complexo de redistribuição
de tudo que era produzido pela comunidade.
Atualmente, não é diferente. Precisamos do Estado para tentar
equilibrar o sistema e redistribuir a riqueza produzida, justamente
porque o mercado não é capaz. O Estado pode fazer isso de duas
maneiras (DANANI, 2004):
Distribuição primaria: regulando as políticas econômicas.
Distribuição secundária: implementando políticas sociais.
Agora, depois de ver outras formas de integração, diferentes
da integração econômica meramente pelo mercado, você passa
a refletir sobre outras lógicas que podem reger essas formas de
integração em conjunto com o modo de pensar capitalista.
Seção 4 – Rumo ao estabelecimento de outras lógicas
econômicas
Lisboa (2007) nos explica que, inicialmente, os mercados foram o
local onde as mercadorias de primeira necessidade eram vendidas
a preços estabelecidos e em pequena quantidade. O autor afirma
que era principalmente um mecanismo de socialização: espaços
de encontro e de troca de informações. No entanto, com o
desenvolvimento do modo capitalista de produção, o mercado
começou a ocupar mais áreas de nossas vidas e nos tornamos
mais dependentes dele para nossa reprodução.
O autor nos esclarece que a existência de mercado não é um
fenômeno novo, que surgiu com o modo de produção capitalista.
Ao contrário, suas origens remontam a tempos imemoriais.
Assim, “o espaço do mercado, das trocas, é tão antigo quanto a
Unidade 3 107
Universidade do Sul de Santa Catarina
própria humanidade, é anterior ao capitalismo e, provavelmente,
deverá superá‑lo (se sobrevivermos)”. (LISBOA, 2007, p. 380).
Por conseguinte, conforme Lisboa (2007 ou 2004?), nós
podemos dizer que a aceitação do mercado pode ser controversa
quando pensamos em uma outra economia. Há aqueles que
o defendem, no entanto. Esse problema reside na confusão
que parece considerar como sinônimos capitalismo e mercado.
Para Lisboa, a transição do sistema capitalista de mercado para
outro sistema de mercado, com outras subjetividades, isto é,
outras práticas e diferentes formas de utilitarismo, requerem a
existência de mercados:
Superar a sociedade de mercado não significa, sob
qualquer forma, a ausência de mercados, como Polanyi
nos explica. O que nos leva a distinguir ‘sociedade
de mercado’ de ‘sociedade com mercado’. Tanto a
mercadofilia liberal, que pretende eliminar a política,
como mercadofobia, que inversamente visa eliminar o
mercado, são incapazes de perceber que o mercado é uma
realidade humana sempre politicamente construída [...]”.
(LISBOA, 2004, p. 300).
Vemos, portanto, que, para Lisboa, o problema não é em si
a existência de mercados, mas como se dá a sua utilização
para atender às necessidades e desejos. Isso é o que leva ao
consumismo, à lógica com a qual nos movemos nele e à
dependência desse meio para a nossa integração. Em suma, é isso
que faz a diferença ao pensar numa outra economia.
Antes do desenvolvimento do sistema capitalista, as economias
não estavam no centro da sociedade, mas, sim, incorporadas na
sociedade a serviço dela. Segundo Polanyi (1957, p. 349): “Na
verdade, a desintegração de uma economia de mercado uniforme
está a ponto de produzir novas formas de sociedade. Além disso,
o fim da sociedade de mercado não significa a absoluta ausência
de mercados”.
Nesse sentido, Lisboa (2004, p. 296) entende que os mercados
deixariam de ser “organismos de autorregulação econômica”,
orientados pelo sistema de preço para começar a ser orientado por
lógicas distintas com base na satisfação das necessidades legítimas
da sociedade.
108
Cenários Futuros
O capitalismo não poderia englobar toda a reprodução material
da vida social, por isso pode‑se dizer que não existe apenas
uma economia, senão economias, entre as quais se encontra a
economia solidária, que também pode e realmente se faz inserir
nos mercados.
Apesar de ser dito sociedade de mercado, o mercado não
regula uma grande parte das nossas vidas. Nem tudo está
no mercado a um preço determinado. Mesmo no coração
do capitalismo [esclarece Castoriadis] a sociedade não se
transformou em pura sociedade econômica, de forma que
as outras relações sejam dispensáveis. (LISBOA, 2004, p.
298).
Em conclusão, a sociedade precisa de outras relações sociais além
das relações mercantis para existir, outras propostas de economia,
como a economia solidária busca superar o mercado por meio de
sua própria transformação.
A emergência da economia solidária em espaços
mercantis não só significa a presença de outras
orientações de política econômica no mercado, além
das que simplesmente buscam a máxima valorização,
mas também representa um realinhamento profundo
das relações de força existentes no mercado atual
hegemonizado pela lógica capitalista, construindo a
possibilidade de uma maior democratização da economia
e, portanto, da sociedade. (LISBOA, 2004, p. 303).
Dado que o sistema capitalista utiliza as ferramentas do mercado
para reproduzir o capital, nesse contexto, a concorrência, por
exemplo, é considerada um dos seus males, pois exclui os
“perdedores” do mercado. Isso ocorre sob a lógica capitalista do
paradigma da escassez. No entanto, olhando para a concorrência
a partir de outra lógica, as consequências serão outras. Assim, o
autor explica:
A concorrência, quando se é orientada por um
ethos individualista e/ou possessivo e orientada pela
dimensão da responsabilidade ecológico‑social, ademais
de incentivar a inovação, proporcionar qualidade
e multiplicar as energias produtivas, não causa os
efeitos nocivos dos jogos de soma zero (mercado tipo
Unidade 3 109
Universidade do Sul de Santa Catarina
“ganha‑perde”) da economia de cassino em vigor hoje, o
que significa ir além das virtudes clássicas do mercado.
(LISBOA, 2004, p. 304).
Em suma, a construção de uma outra economia não implica apenas
produzir coletivamente, mas deve levar em conta as subjetividades
que os agentes apresentam, as formas pelas quais os indivíduos
estão integrados na sociedade, o papel dos mercados etc. Essa é
uma forte tendência para o futuro cenário econômico.
Síntese
Nesta unidade, analisamos os cenários econômicos que se
apresentam, para podermos nos questionar acerca dos cenários
futuros. Por meio da teoria neoclássica, nós observamos os
principais temas que envolvem o sistema econômico capitalista,
sua lógica de funcionamento, a questão hegemônica, a
racionalidade que rege o sistema e as consequências produzidas.
Fizemos uma pequena definição de economia, além de discutir a
questão do valor de uso e valor de troca.
Na segunda seção, você viu algumas críticas ao sistema
hegemônico feitas por teóricos contemporâneos que seguiram os
preceitos de Karl Marx. Hinkelammert, por exemplo, defende
que estamos num processo suicida, justamente porque o sistema
obedece a uma racionalidade econômica instrumental e utilitarista,
e que a mão invisível de Smith tende a se tornar ineficiente.
Na terceira seção, questionamo-nos sobre os caminhos
tomados por nós como sociedade, a fim de verificar se ainda há
possibilidade de transformações sistêmicas, abolição do sistema
de mercado, adoção da reciprocidade e redistribuição como outras
formas contemporâneas de integração etc. Essa transformação
de concepção passa pela análise da real separação teórica entre
“economia de mercado” e “economia com mercado”.
110
Cenários Futuros
Por último, discutimos a necessidade de outras relações sociais
além das relações mercantis para nossa existência, cogitando
outras propostas de economia, como a economia solidária.
Vimos, também, que nem a mercadofobia nem a mercadofilia
liberal nos serviria como caminhos para amenizar nossos
problemas sociais e de exploração da natureza.
Atividades de autoavaliação
Ao final de cada unidade, você realizará as atividades de autoavaliação.
O gabarito está disponível no final do livro didático. Mas, esforce‑se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
promovendo (estimulando) a sua aprendizagem.
1) Qual é a crítica que Hinkelammert faz ao sistema capitalista?
2) Relacione as formas de integração descritas por Polanyi com suas
instituições:
1. Mercado ( ) Reciprocidade
2. Simetria ( ) Redistribuição
3. Centralidade ( ) Intercâmbio
Unidade 3 111
Universidade do Sul de Santa Catarina
3) Vimos que o sistema de mercado é uma forma de integração econômica,
que foi adotado pelo sistema capitalista. Pesquise sobre outras formas
de economia (pré‑capitalistas, indígena, solidária, socialista etc.) e
descreva‑as, citando 3 (três) características de cada pelo menos.
Saiba mais
Se você desejar, aprofunde os conteúdos estudados nesta unidade
ao consultar as seguintes referências:
GOMES, Carlos. Antecedentes do capitalismo. Portugal:
Almada, 2008.
MANCE, Euclides André. Redes de Colaboração Solidária:
aspectos econômico‑filosóficos: complexidade e libertação.
Petrópolis/RJ: Vozes, 2002.
SANTOS, Boaventura de Souza (Org.). Produzir para viver:
os caminhos da produção não capitalista. Rio de Janeiro: Série
Reinventando a Emancipação Social: para novos manifestos, 2002.
112
Para concluir o estudo
Caro(a) estudante,
Ao concluir a leitura deste livro, esperamos que você esteja
apto(a) a conceituar e problematizar o futuro e seus possíveis
cenários. Com esta disciplina, quisemos oferecer‑lhe um
leque de possibilidades para refletir sobre tal temática, com
especial atenção ao tratamento dado a ela pela filosofia,
futurologia, ecologia e economia.
Você pôde perceber, a partir de filósofos clássicos e
pensadores contemporâneos, cada qual em seu momento
histórico, que o futuro decorre, em parte, de escolhas
humanas. Todavia, o homem tem, cada vez mais – por um
lado – escapado à responsabilidade de suas ações e – por
outro – perdido o contato com o mundo real, imergindo em
realidades falsas. Isso tem trazido sérias consequências à
condição humana.
Por conseguinte, o prejuízo dos homens repercute no meio
em que vivem e em toda sorte de relações que estabelecem,
inclusive nas relações econômicas. A partir daí, quisemos
levá‑lo a pensar sobre nossos limites planetários, a ideologia
distorcida que vigora e os riscos da sociedade atual.
Quisemos apresentar‑lhe alguns dos principais problemas do
sistema econômico capitalista, sua lógica de funcionamento,
a racionalidade que o rege e as consequências produzidas,
para que, com isso, você possa refletir sobre as possibilidades
de transformações sistêmicas, sobre outras lógicas ecológicas
e econômicas.
Os instrumentos estão à sua mão. Cabe a você manuseá‑los
para fazer do seu e do nosso futuro uma realidade filosófica.
Nossos melhores votos,
Profs. Itamar Pedro Bevilaqua, Letícia Bizarro Barbosa e
Marciel Evangelista Catâneo.
Referências
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riqueza social. Madrid: Alianza Editorial, 1987.
117
Sobre os professores conteudistas
Itamar Pedro Bevilaqua
Possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais, pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (1982), e mestrado em Direito, pela Universidade
Federal de Santa Catarina (1989). Atualmente é
Procurador da Prefeitura Municipal de Florianópolis,
Professor da Universidade do Sul de Santa Catarina
(Unisul) e Professor do Complexo de Ensino Superior
de Santa Catarina (CESUSC). Tem experiência na área
de Ciência Política, com ênfase em Políticas Públicas,
atuando principalmente nos seguintes temas: Direito
Administrativo, Direito Ambiental, Ciência Política,
Ecologia Política, Direito Comparado e Sociologia
Jurídica.
Letícia Cristina Bizarro Barbosa
Possui graduação em Relações Internacionais, pela
Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), e
é mestre em Economia Social, pela UNGS, de Buenos
Aires. Atualmente, é professora da UnisulVirtual e
colaboradora da Red de Investigadores en Economía
Social y Solidaria (RILESS). Também assumiu
as funções de editora da revista Otra Economía
e a de investigadora do Centro Cultural de la
Cooperación (CCC), em Buenos Aires. Tem experiência
na área de administração da produção e logística,
cooperação, economia solidária e gestão de projetos.
Marciel Evangelista Catâneo
Possui graduação em Filosofia, pela Universidade
Federal de Santa Catarina (1989), graduação em
Bacharelado em Teologia, pelo Instituto Teológico
de Santa Catarina (1988), e mestrado em Educação,
pela Universidade do Sul de Santa Catarina (2002).
Universidade do Sul de Santa Catarina
Atualmente, é professor da Universidade do Sul de Santa
Catarina (Unisul), atuando principalmente nas seguintes
disciplinas: Filosofia, Sociologia, Ciência Política, Políticas
Públicas, Ética e Sociologia das Organizações.
120
Respostas e comentários das
atividades de autoavaliação
Unidade 1
1) Para responder a esta questão, é preciso lembrar‑se de
que, segundo a concepção existencialista do século XX,
protagonizada por Heidegger, a existência nunca é alguma
coisa dada de uma vez para sempre, mas uma possibilidade
projetada, um projeto. No desenvolvimento do seu projeto
de vida, o ser humano estabelece relações com o mundo, o
ambiente natural, social e histórico onde está situado. Nessa
relação, ele dá sentido à sua vida, tendo o passado e o futuro
constantemente presentes. O que somos agora resulta da
convergência entre passado (memória) e a projeção do
futuro. Nesse movimento, diariamente “puxamos” o futuro ao
presente, antecipando‑o, programando‑o. A diferença entre
esta concepção e a concepção prevista por Baudrillard para o
homem do século XXI está justamente no contato do homem
com o mundo. O novo homem cada vez mais perde o contato
com o seu mundo, deixando de discernir o real do imagético e
perdendo, assim, a capacidade de se autoprojetar.
2) Gabarito: 3 ‑ 17 ‑ 18 ‑ 1 ‑ 13 ‑ 5 ‑ 7 ‑ 12 ‑ 14 ‑ 8 ‑ 2 ‑ 9 ‑ 6 ‑ 10 ‑ 19 ‑
15 ‑ 20 ‑ 16 ‑ 4 ‑ 11.
Unidade 2
1) F ‑ V ‑ F ‑ V.
2) Alternativa C.
Unidade 3
1) Trata‑se de uma crítica à racionalidade econômica, entendida
como relação meio‑fim instrumental. Essa racionalidade
é destrutiva das duas fontes de riqueza: o ser humano e a
natureza. O mercado que se regula não existe. Ao contrário,
o mercado gera a exclusão e a pobreza, já que as pessoas
Universidade do Sul de Santa Catarina
dependem dele para satisfazer suas necessidades. Assim, o seu
desempenho no mercado, por meio da venda de produtos, ajudará essa
pessoa a fazer a renda necessária para satisfazer as suas necessidades.
2) Gabarito: 2 ‑ 3 ‑ 1.
3) Para responder a esta questão, você pode dissertar sobre economia
solidária, economia indígena, socialismo ou alguma economia
pré‑capitalista, como a dos Incas, por exemplo. Deve buscar
informações sobre como se dá a produção nessa economia, se de forma
coletiva, de forma familiar ou individual, se as relações econômicas
são de parentesco, como as pessoas fazem para dividir os alimentos e
outros produtos de necessidade, entre outros aspectos.
122
Biblioteca Virtual
Veja a seguir os serviços oferecidos pela Biblioteca Virtual aos
alunos a distância:
Pesquisa a publicações on-line
<[Link]/textocompleto>
Acesso a bases de dados assinadas
<www. [Link]/bdassinadas>
Acesso a bases de dados gratuitas selecionadas
<[Link]/bdgratuitas>
Acesso a jornais e revistas on‑line
<www. [Link]/periodicos>
Empréstimo de livros
<www. [Link]/emprestimos>
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