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História da Terapia de Aceitação e Compromisso

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) foi proposta por Steven Hayes na década de 1980 e é uma abordagem da terceira geração das terapias comportamentais e cognitivas, focando na aceitação de pensamentos e sentimentos para promover mudanças comportamentais. A ACT se baseia na Teoria dos Quadros Relacionais, que explora a relação entre linguagem, cognição e sofrimento psicológico. A intervenção clínica em grupo utilizando a ACT mostrou resultados positivos em pacientes com ansiedade, sugerindo a eficácia da abordagem, embora mais estudos controlados sejam necessários.

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História da Terapia de Aceitação e Compromisso

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) foi proposta por Steven Hayes na década de 1980 e é uma abordagem da terceira geração das terapias comportamentais e cognitivas, focando na aceitação de pensamentos e sentimentos para promover mudanças comportamentais. A ACT se baseia na Teoria dos Quadros Relacionais, que explora a relação entre linguagem, cognição e sofrimento psicológico. A intervenção clínica em grupo utilizando a ACT mostrou resultados positivos em pacientes com ansiedade, sugerindo a eficácia da abordagem, embora mais estudos controlados sejam necessários.

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O QUE É A TERAPIA DE ACEITAÇÃO E COMPROMISSO E SUA

HISTÓRIA

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT – em inglês, Acceptance and Commitment


Therapy) existe desde a primeira metade do século XX. Essa terapia é classificada como
comportamental, pois ela é proveniente dos princípios básicos das terapias de aprendizagem (HAYES
et al., 2011). Segundo Costa (2012), essa terapia foi proposta pelo psicólogo norte-americano Steven
Hayes e alguns colaboradores, no final da década de 1980, mais precisamente no ano de 1987, e
historicamente tem sido regularmente situada na lista das terapias cognitivas e comportamentais da
terceira geração. Conforme Hayes (2004); Hayes; Pistorello (2011); Higuera (2006), bem como Saban
(2015) – inclusive também como visto no prefácio do livro “Introdução à Terapia de Aceitação e
Compromisso”, escrito por Steven Hayes e Jacqueline Pistorello –, a ACT é uma terapia de liderança
no movimento denominado “terceira geração” ou forma contextual das Terapias Comportamentais e
Cognitivas.
Primordialmente, o livro pioneiro escrito a respeito da terapia de aceitação e compromisso é da
autoria de Hayes, Strosahl e Wilson e data de 1999. A obra, preliminarmente, possui uma discussão
dos autores relacionada ao sofrimento humano, explicitando os efeitos positivos e negativos da
linguagem. Além disso, também são apresentados os fundamentos teóricos e filosóficos da ACT e
tratado o contextualismo funcional e o comportamento governado por regras, de forma que citam,
ainda, a armadilha do sistema socioverbal debatendo, especificamente, “razões são causas”,
“pensamentos e sentimentos são boas razões”, “pensamentos e sentimentos são causas” e “deve-se
controlar sentimentos e pensamentos” (HAYES; STROSAHL; WILSON, 1999).
Entretanto, devemos lembrar que o rigor experimental dessa fase preliminar, ou primeira onda
das terapias comportamentais, também limitou o estudo das terapias de questões humanas menos
objetivas, as quais foram relegadas para tradições menos empíricas (HAYES et al., 2011).
Nesse sentido, torna-se relevante ressaltar que, em conformidade com Zettle (2005), a história
da ACT se divide em três períodos, ou ondas. O primeiro período ocorreu entre os anos de 1970 e
1980 do século XX. À época, a ACT foi denominada de distanciamento compreensivo, apontando
uma extensão e composição da terapia cognitiva. O desenvolvimento da ACT teve por motivação a
“sensação de que o papel que o comportamento verbal e a linguagem desempenhavam na iniciação,
manutenção e tratamento do comportamento anormal”, conforme Zetell (2005, p. 78), era
imprescindível para uma clínica comportamental mais fundamentada, considerando a aplicação dos
princípios do comportamento verbal e outras abordagens clínicas. Apesar de 15 anos de estudos de
reinterpretação, tanto a concepção comportamental da cognição quanto as abordagens cognitivas se
revelam modelos de desempenho cognitivo falho (ZETTLE, 2005).
Já o segundo período da ACT transcorreu entre os anos de 1985 e 1999 do Século XX, à época
do desenvolvimento da TQR – Teoria dos Quadros Relacionais. Segundo Hayes et al. (2001), é
considerado como um enfoque comportamental pós-skinneriano da cognição e da linguagem
humana. A TQR ampliou as concepções de Skinner a respeito do comportamento verbal e seguimento
de regras, bem como fundamentou o modelo e as intervenções da TQR. Também nesse período, o
nome distanciamento compreensivo foi alterado para terapia de aceitação e compromisso. Tal
modificação objetivou distinguir a ACT do cognitivismo. O termo distanciamento foi cedido da teoria
de Aaron Beck – e da conotação dissociativa do seu nome original (BARBOSA; MURTA, 2014).
Todavia, o terceiro período ou última onda ocorreu entre o ano 2000 e os dias de hoje. O livro
“Terapia de Aceitação e Compromisso: uma abordagem experiencial à mudança do comportamento”,
publicado por Hayes e colaboradores, no final da década de noventa do último século, foi o marco
inicial dessa fase de disseminação. A partir daí, a ACT tem sido reconhecida e investigada tal como
uma abordagem contextualista fundamentada na TQR, conforme apontam Barbosa e Murta (2014).
Quanto à produção científica relacionada à TAC, até o ano de 2012, era de mais de sessenta livros,
publicados em mais de dez idiomas e aproximadamente sessenta e três estudos clínicos aleatorizados,
com a abrangência de diversos temas, tais quais: ansiedade, preconceito, manejo de diabetes,
enfrentamento do câncer, desempenho desportivo e transtorno da personalidade borderline (HAYES;
PISTORELLO; LEVIN, 2012).
Desta forma, a ACT correlaciona processos de aceitação e atenção a processos de compromisso
e mudança de comportamento para a constituição de uma flexibilidade psicológica. Essa abordagem,
como já mencionado, é fundamentada na TQR, um pressuposto da linguagem e cognição preciso e
empiricamente sólido, o qual se estende até à psicopatologia. Sendo assim, a ACT é o singular tipo
atual das Terapias Comportamentais e Cognitivas que está ligada ao seu próprio, e potente, programa
de pesquisa básica em linguagem e cognição humana: A Terapia de Quadros Relacionais (HAYES et
al., 2001).
É de suma importância, nessa esfera, colocar que a TQR amplia a concepção de Skinner sobre
o comportamento verbal, pois a Terapia dos Quadros Relacionais é uma abordagem comportamental
da linguagem e da cognição humanas (HAYES et al., 2001). A TQR é o resultado de um programa
de investigação a respeito do papel da linguagem na origem, desenvolvimento e tratamento do
sofrimento psicológico (ZETTLE, 2005).
De acordo com a TQR, o centro da linguagem e da cognição é a:
“Habilidade aprendida e controlada contextualmente de arbitrariamente relacionar eventos
mutuamente e em combinação e de mudar a função de eventos específicos baseando-se em suas
relações com outros eventos” (HAYES et al., 2006, p. 5).
Assim, de acordo com Barbosa e Murta (2014), as habilidades assimiladas e controladas
contextualmente são comportamentos operantes, ou seja, suscetíveis de influência por meio de
manejo de variáveis ambientais. Correlacionar eventos aleatoriamente significa pensar: somos
capazes de derivar relações extraordinárias, fundamentadas em propriedades sem referência formal.
Enfim, correlacionar eventos é modificar suas funções. Um exemplo é chegar a casa imbuído de bons
sentimentos e ser tomado de sofrimento ao descobrir que as chaves foram esquecidas no trabalho.
Sendo assim, as funções de chegar à casa variam de acordo com a relação estabelecida.
Portanto, a Teoria dos Quadros Relacionais ainda oferta um esclarecimento do pressuposto de
universalidade do sofrimento: pensamentos e sentimentos disfuncionais originam de processos
psicológicos normais, como a sequência de regras (HAYES et al., 2011). A conduta de acatar regras
não é regulada por circunstâncias ambientais, mas por circunstâncias especificadas verbalmente que
causam maior ligação com os efeitos de longo prazo. Em contrapartida, pode ampliar a rigidez
comportamental, diminuir a sensibilidade às dicas ambientais e gerar transtorno e sofrimento. Esse
último processo é chamado fusão e retrata o comportamento controlado por regras verbais, pouco
sensível às funções das contingências ambientais (KAUFMAN et al., 1966). Por exemplo, isso
acontece com a mãe que necessita ir para o trabalho e sente-se culpada em deixar o filho na residência
(BARBOSA; MURTA, 2014).
Desta forma e em conformidade com Barbosa; Murta (2014), o ciclo do sofrimento emocional,
que teve início com a fusão cognitiva, completa-se com a evitação experiencial, ou inclinação de
evitar pensamentos, sentimentos e sensações não agradáveis, bem como as circunstâncias que os
acarretam (HAYES et al., 1996). Nesse contexto, o modo de entender o processo se dá mediante o
exemplo do marido que, para evitar problemas conjugais, dedica-se ao trabalho. Esse afastamento da
esposa pode levá-la a outras queixas, acarretando o maior afastamento do cônjuge. Assim sendo,
quanto maior a evitação, maior é a restrição à experiência individual. Isso ocorre porque o sofrimento
pode aumentar, à medida que as opções diminuem, de modo que o indivíduo é impelido a acatar
normas disfuncionais ainda mais rigorosamente.
Diante do breve relato histórico e da conceituação básica da ACT, relacionando as falas de
teóricos renomados no assunto, como Steven C. Hayes, torna-se mister complementar este capítulo
citando que a ACT se baseia em um modelo terapêutico compatível com o behaviorismo radical, do
psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, e com a análise do comportamento. Vale destacar que,
entre as concepções filosóficas em comum com o Behaviorismo Radical, ressalta-se: a visão de
comportamento como um fenômeno relacional e a visão do pensamento/cognição como evento
comportamental, e não causal (BARBOSA; MURTA, 2014).
No que concerne ao contextualismo funcional, é preciso citar que “a terapia comportamental
desistiu do behaviorismo muito facilmente” (JACOBSON, 1997, p. 437). No final do século XX,
Neil Jacobson acreditava que somente a retomada e a elaboração das raízes filosóficas poderiam
resgatar a força da análise do comportamento. Seria necessário restabelecer as bases do behaviorismo
em uma filosofia da ciência abrangente e capaz de unificar intervenções então desconexas. O caminho
recomendado por Jacobson era o contextualismo. Conforme Hayes (1992); Pepper (1942) e Reese
(1988), a ACT está baseada em uma filosofia da ciência denominada contextualismo funcional, a
qual objetiva a predição e a influência do comportamento com precisão, escopo e profundidade,
estendendo a base funcionalista do behaviorismo radical.
Nesse contexto, predição e influência são um objetivo único: o cumprimento de somente uma
dessas atividades não configura uma análise funcional. Ademais, uma análise contextualista implica
que a ação não pode ser considerada isoladamente. Todo ato está incluso em um contexto situacional
e histórico, de forma que “o comportamento humano nunca ocorre no vácuo” (TÖRNEKE, 2010, p.
12) e todo organismo comunica-se em e com um contexto. A validade da análise é determinada pela
sua funcionalidade, sendo vista como real quando sua meta é obtida (HAYES, 1993; TOURINHO;
NENO, 2003).
Assim, como a meta é utilizada para validar a análise, ela própria não pode ser analisada
(HAYES et al., 1988). Dessa maneira, as metas são pré-analíticas: antecedem a análise e não
necessitam de justificativas. Metas ontológicas, as quais possuam valor em si mesmas, retratariam
uma forma de dogmatismo (HAYES, 1993) ou um problema ético (VANDENBERGHE, 2005).
Finalmente, a concepção de o contextualismo implicar causalidade é outra característica específica
dessa corrente (HAYES; BROWNSTEIN, 1986; HAYES; HAYES, 1992).
Portanto, em uma análise funcional, causa é o evento que concede uma intervenção bem-
sucedida. Nesse ponto de vista, detectar pensamentos e sentimentos como causas de outros
comportamentos não seria uma análise não correta, mas parcial. Afinal, o objetivo da análise é a
predição e a influência, o que requer variáveis manipuláveis. Todavia, alguns eventos privados são
comportamentos e, por isso, não podem ser diretamente manipulados, somente variáveis contextuais
têm essa propriedade. Por isso, conceder a causa de um comportamento a outro anterior cria a
necessidade de detectar as variáveis contextuais que provocaram o primeiro. Assim, uma explicação
baseada em pensamentos e sentimentos seria uma explicação incompleta, pois não atenderia aos
propósitos da ciência adotados pelos analistas do comportamento (BARBOSA; MURTA, 2014).

INTERVENÇÃO CLÍNICA EM GRUPO BASEADA NA TERAPIA DE ACEITAÇÃO E


COMPROMISSO

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) sugere a aceitação de pensamentos e


sentimentos e a identificação de probabilidades referentes a eles, tornando possíveis modificações de
comportamento que possam alterar as consequências dessas ações.
(HAYES, 2008; SABAN, 2015).
Para percebermos isso, e em conformidade com Chagas et al. (2013), o que pretendemos é
relatar a ocorrência de uma experiência de intervenção clínica em grupo baseada na ACT, voltada
para pacientes com reclamação de ansiedade, tendo como cenário a clínica-escola de uma
universidade pública. Duas psicólogas conduziram o grupo, acompanhadas por três alunas do curso
de Psicologia, que fizeram o respectivo registro dos pacientes. Assim, seis participantes foram
selecionados para compor o grupo a partir de triagens já presentes na clínica. Foram realizadas
entrevistas individuais com os participantes do estudo.
Após as entrevistas, os participantes foram chamados para a intervenção. Em treze sessões
terapêuticas realizadas com os participantes, foram trabalhadas questões relacionadas à ansiedade
como resposta adaptativa, incapacidade de controlar sentimentos e pensamentos, consequências do
comportamento de esquiva experiencial, aceitação, metas e valores de vida, bem como enfrentamento
de situações. Para isso, foi enfatizada a busca pela utilização de atividades práticas e metáforas na
maioria das sessões. A maior parte dos participantes do estudo narrou passar a acatar sentimentos e
pensamentos, de modo a enfrentar e se expor a circunstâncias que, em momento anterior, vinham
evitando.
Notamos, então, que essa intervenção clínica em grupo tem um caráter exploratório descritivo
da aplicação dos conceitos da ACT em grupo. A partir disso, sugerimos que estudos controlados sejam
realizados para avaliar a eficácia deste exemplo de intervenção (CHAGAS et al., 2013).
No capítulo um desta unidade e em conformidade com Hayes et al. (2011), vimos que a Terapia
de Aceitação e Compromisso (ACT) surgiu na década de 1980, mais precisamente no ano de 1987,
em um contexto intitulado de Terapias de Terceira Onda. Nesse período, os pesquisadores do
comportamento passaram a aceitar tanto a subjetividade, eventos como pensamentos e sentimentos
do cliente, quanto à relação terapêutica (COSTA, 2012; SABAN, 2011).
Na clínica, é habitual que os pacientes mostrem como objetivo a necessidade de se desprender
dos seus pensamentos e sentimentos tidos como aversivos. Esses eventos, no entanto, são enfocados
por terapeutas da terceira onda como fenômenos físicos, ou seja, manifestações do organismo à frente
de circunstâncias específicas, e não como causa de comportamentos (CHAGAS et al., 2013).
Destarte, propõem que não se deve procurar alterar ou adaptar esses acontecimentos, tal como
aconselhavam as Terapias de Segunda Onda. A alternância a isto é acatar os pensamentos e
sentimentos, sem tentar contê-los, verificar as circunstâncias referentes a eles e propor modificações
de comportamentos que verdadeiramente possam mudar tais circunstâncias. (VANDENBERGHE;
SOUSA, 2006).
É importante enfatizar que o termo Mindfulness é definido como uma maneira específica de
atenção plena e concentração na ocasião atual, proposital e sem juízo. Isto é, expressa estar
completamente em convívio com a existência da ocasião, sem estar absorto nela. Somente no decorrer
da última década obteve destaque nas literaturas comportamentais e cognitivas, enquanto em
momento anterior estava latentemente aplicado nas práxis clínicas dessas tradições
(VANDENBERGHE; SOUSA, 2006; CHAGAS et al., 2013).
Dessa forma, há duas categorias de combinação do organismo com o ambiente: o
comportamento respondente e o comportamento operante que estão presentes nos acontecimentos
como emoções e sentimentos. Por exemplo, o medo poderia ser esclarecido como um conjunto de
explicações das glândulas e músculos lisos à frente de algum objeto receado, comportamentos
respondentes, e ainda uma baixa possibilidade de proximidade do objeto, comportamento operante
(SKINNER, 1986; SKINNER, 1995).
Em conformidade com Chagas et al. (2013), corroboram Zamignani e Banaco (2005) quando
citam que, na hipótese de ocorrência de ansiedade, os comportamentos respondentes ou respostas
fisiológicas são bastante similares aos apontados no medo, contudo, essas respostas aparecem
também na falta do objeto receado.
Entretanto, existem estímulos que indicam a probabilidade do aparecimento do estímulo
aversivo. Alguns estímulos podem ter obtido este cunho pré-aversivo com base em processos de
condicionamento respondente, de forma que estímulos neutros são pareados com estímulos aversivos.
Ademais, os estímulos podem obter esse cunho mediante processos de difusão ou semelhança de
estímulos (CHAGAS et al., 2013).
Com o início do comportamento verbal, os homens passam a organizar redes de relações
arbitrárias no meio de estímulos que não foram continuadamente pareados. Tal processo pode
acontecer até mesmo com estímulos verbais, tais como pensamentos, lembranças e sentimentos, os
quais podem ser relativos a estímulos aversivos, como circunstâncias, locais e indivíduos. Por meio
desse processo, um acontecimento verbal, assim como um sentimento ou um pensamento, pode
ganhar um cunho aversivo por si mesmo (FRIMAN et al., 1998).
Nesse sentido, o cunho aversivo, obtido mediante experiências privadas da pessoa, pode
conduzir à chamada esquiva experiencial, que acontece à época que a pessoa se coloca em atitude de
evasão ou fuga dessas experiências. Por conseguinte, o indivíduo passa a se afastar não apenas do
acontecimento que inicialmente lhe acarretava sensações aversivas, como também das sensações que
passavam a ser tidas como aversivas em si mesmas. A conduta de afastamento é desfavoravelmente
fortalecida, uma vez que minimiza de forma temporária as sensações aversivas. O problema da
esquiva experiencial é que não existe modificação nas circunstâncias de que esses acontecimentos
são produto, não conduzindo à dessensibilização do organismo aos estímulos aversivos e pré-
aversivos (BLACKLEDGE; HAYES, 2001).
Todavia, com o intuito de efetuar a análise de comportamento, verificamos que as interações
do indivíduo com o meio, ao longo de sua vida, desenvolvem comportamentos típicos dos transtornos
psiquiátricos. Dessa forma, são fruto da história de reforço e das circunstâncias da atualidade. A
esquiva experiencial explica a maior parte dos comportamentos típicos dos transtornos de ansiedade.
Pessoas com padrões de ansiedade procuram se afastar não apenas de acontecimentos que
preliminarmente foram aversivos, mas também, especialmente, das sensações de ansiedade em si.
Quando estas pessoas procuram por terapia, frequentemente, aguardam se libertar das sensações de
ansiedade (MORIYAMA; AMARAL, 2007).
A principal proposta da ACT seria conduzir a pessoa a acatar as sensações de ansiedade; dentre
outros episódios privados tidos como aversivos e ter o compromisso de mudar comportamentos de
esquiva de uma sucessão de acontecimentos. Desse modo, seriam modificadas as circunstâncias
verdadeiramente responsáveis pelas sensações aversivas (HAYES, 1987).
Diante disso, o método aplicado durante a intervenção clínica em grupo apresentou os seguintes
itens, relacionados a seguir, em conformidade com Chagas et al. (2013).
» Objetivo (da intervenção): relatar e discutir uma experiência de intervenção clínica baseada
na ACT, aplicada em um grupo terapêutico cujos participantes possuíam como queixa primordial o
manejo da ansiedade.
» Critério de inclusão dos participantes: a seleção de seis participantes se deu por meio dos
relatos das triagens da Clínica Psicológica. Seis participantes foram selecionados.
» Instrumento de pesquisa: entrevistas individuais foram realizadas com os seguintes tópicos:
› dados da vida atual, como descrição dos aspectos da família, afetividade/vida conjugal,
escola/trabalho, atividades física e lazer, rotina;
› dados referentes à ansiedade, como diagnóstico psiquiátrico/medicação, início, frequência,
situações/contexto em que se sentiam ansiosos, comportamentos emitidos nessas situações e suas
consequências.
Assim, com base nas entrevistas individuais, foi possível obter dados relevantes sobre os
participantes.
» As variáveis de exposição foram as seguintes: queixas dos participantes entrevistados
relacionadas a medo, ansiedade em interagir com pessoas e em situações de interação social,
principalmente diante de figuras de autoridade, perda fácil de paciência, transtorno de pânico e medo
de viajar de avião.
» O procedimento: realização de treze sessões, com uma hora e meia de duração cada, sendo
conduzidas por duas psicólogas, uma graduanda do curso de Psicologia e duas outras graduandas que
registravam as sessões, a partir de observação atrás do espelho.
» Cenário: sala de grupo da clínica-escola de uma universidade pública, que possuía uma sala
de espelho unidirecional, permitindo a observação das sessões em tempo real.

2.1. Objetivos das treze sessões


» Sessão um: levantar com os participantes as formas como vinham lidando com a ansiedade e
expor o objetivo do tratamento, que é ensiná-los novas formas de lidar com esse e outros sentimentos.
» Sessão dois: expor os mecanismos fisiológicos da ansiedade, refletindo sobre a importância
desta resposta para a sobrevivência da espécie e a impossibilidade de controlá-la.
» Sessão três: levar os participantes à reflexão sobre a impossibilidade de controlar sentimentos
e pensamentos e as consequências que as tentativas de controle acarretavam.
» Sessão quatro: promover a aceitação de sentimentos e pensamentos, por meio de exercícios
práticos.
» Sessão cinco: levar os participantes a refletir sobre as perdas e os ganhos que evitam as
situações as quais consideravam aversivas e poderiam acarretar e leválos à compreensão da diferença
que existe entre a pessoa e seus comportamentos, enfocando principalmente pensamentos e
sentimentos.
» Sessões seis e sete: promover com os participantes uma análise sobre as consequências de
seus comportamentos de evitar sentimentos e pensamentos, considerando suas metas e valores de
vida.
» Sessão oito: fazer com que os participantes reflitam sobre as mudanças que observaram em
seus comportamentos, assim como suas consequências, após todas as discussões promovidas no
grupo.
» Sessões nove e dez: discutir a noção do “aqui e agora”, que se refere a estar presente,
experienciando, de fato, os momentos que se está vivendo.
» Sessão onze: promover a reflexão sobre a necessidade de aceitação de pensamentos e
sentimentos.
» Sessões doze e treze: retomar as discussões realizadas no grupo, questionar os participantes
sobre as mudanças de comportamento em ambiente natural, relacionando-as às suas metas de vida
(CHAGAS et al., 2013).
Assim, de acordo com Chagas et al. (2013), por meio das treze sessões, foram verificadas as
seguintes conclusões: os participantes que permaneceram no grupo do início ao fim tiveram mudanças
em seus comportamentos de esquiva. Os integrantes passaram a se expor a uma soma de situações,
das quais vinham se esquivando.
Portanto, a aplicação dos princípios da ACT em grupo possui um destaque especial, pois as
exposições dos participantes, feitas no decorrer das sessões, eram essencialmente referentes a
interações sociais entre eles mesmos (CHAGAS et al., 2013). Ademais, e ainda em conformidade
com Chagas et al. (2013), as sugestões de modificações feitas dentre os participantes pareciam ser
aceitas mais facilmente do que o eram quando provinham das terapeutas.
Dessa forma, a intervenção clínica foi feita da seguinte maneira: um participante servia de
modelo para o outro, assim como reforçava os relatos de mudanças em ambiente natural. A
experiência de implementar a ACT em grupo trouxe o benefício de atender diversos indivíduos
simultaneamente, de maneira mais rápida, visto que a demanda da clínica psicológica é abundante e
o tempo de o indivíduo aguardar por assistência individual costuma ser lento (CHAGAS et al., 2013).
Assim, o ato de uns participantes terem procurado as terapeutas, depois do encerramento do
grupo, sugere duas possibilidades. Primeiro, significa que essa busca deve ser motivada durante a
implementação da intervenção proposta, visto que poderia retratar um comportamento de exposição
dos participantes os quais pediram as sessões. Segundo, pode demonstrar que o procedimento poderia
ser melhorado a partir de correções de alguns conceitos depois do término da intervenção. Em relação
a isso, propõe-se que sejam realizadas sessões de follow-up em grupo ou individuais, depois de seis
meses e após um ano de encerramento da intervenção. Ademais, a execução de sessões individuais
com participantes que perderam sessões ou que estavam tento problemas em seguir o grupo parece
ter tido grande destaque (CHAGAS et al., 2013).
Ainda no mesmo nível, Chagas et al. (2013) relata que esta intervenção se caracteriza como um
estudo exploratório descritivo da aplicação dos princípios da ACT em um grupo de participantes com
queixa de ansiedade. Propõe-se que sejam feitas intervenções sobre a eficácia deste modelo de terapia
em grupo para pacientes com essa e outras queixas. Dessa forma, a maior parte dos clientes, bem
como os participantes do grupo, procuram na terapia extinguir ou reduzir sentimentos e pensamentos
tidos como negativos (HAYES, 1987).
Por fim, devemos destacar, em última análise, que a ACT, proveniente da expressão original
em inglês “Acceptance and Commitment Therapy”, foi elaborada a partir da releitura contextualizada
do processo psicoterapêutico (HAYES, 1987). Assim, um dos principais alvos dessa abordagem é a
redução da esquiva experiencial, a qual é encarada pela teoria como um dos maiores princípios do
sofrimento humano. A ACT propicia uma atitude de aceitar pensamentos e emoções como
efetivamente são, e não como aparentam ser. Uma vez livre do enfrentamento contra as próprias
avaliações, pensamentos e sentimentos, os indivíduos podem agir de forma produtiva sobre seu sítio
(VANDENBERGHE; SOUSA, 2006).

O QUE SÃO ATENÇÃO FLEXÍVEL, ACEITAÇÃO, DESFUSÃO COGNITIVA E SELF COMO


CONTEXTO PARA ACT?

Conforme exposto nos capítulos anteriores, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)


apresenta como conceito principal a flexibilidade psicológica como um modelo simplificado do
funcionamento humano e de extrema relevância clínica. Segundo Hayes, Strosahl e Wilson (2021,
p.100), um modelo unificado é:
um conjunto de processos coerentes que se aplica com precisão, escopo e profundidade a uma
ampla gama de problemas clinicamente relevantes e a problemas do funcionamento e da
adaptabilidade humanos.
3.1. Flexibilidade psicológica
A adaptabilidade humana é centrada na noção de flexibilidade psicológica, que tem sua
existência estabelecida em contraponto com o sofrimento humano.
Mas afinal, o que seria essa flexibilidade na ciência psicológica?
É a capacidade de entrar em contato com o momento presente e as experiências internas e, de
acordo com o contexto, persistir ou alterar a busca de objetivos e valores pessoais.
Nesta perspectiva, a rigidez psicológica seria a fonte geradora de sofrimento e do
funcionamento humano desadaptado.
O modelo de flexibilidade psicológica sustenta que a dor é uma consequência natural do viver,
mas que as pessoas sofrem desnecessariamente, quando seu nível geral de rigidez psicológica as
impede de se adaptar a contextos internos e externos. [...]. Ocorre sofrimento desnecessário quando
processos verbais/cognitivos tendem a restringir os repertórios humanos em áreas essenciais ao longo
do emaranhado cognitivo e da esquiva experiencial. (HAYES; STROSAHL; WILSON, 2021, p.105),
Desta forma, a abordagem clínica resultante desta modalidade terapêutica tem o foco na
ampliação da flexibilidade psicológica por meio de intervenções direcionadas aos processos
psicológicos de mudança: atenção flexível ou presente, aceitação, desfusão cognitiva, estar presente,
eu como contexto, valores e ações comprometidas. Tais aspectos compõem o chamado Hexágono da
Flexibilidade Psicológica (Hexaflex).
Cabe dizer que esse foi um rótulo pejorativo, mas que acabou sendo aceito, por permitir avaliar
as funções dos comportamentos que compõem o repertório comportamental (inclusive com a
identificação das variáveis mantenedoras do comportamento) e da interrelação do indivíduo com o
seu contexto.
Além disso, é um recurso visual para organizar, sintetizar e esclarecer o que está contribuindo
para um quadro de sofrimento, de modo que os processos à sua esquerda são considerados de
mindfulness e aceitação, enquanto os localizados à direita são relacionados a compromisso e ativação
comportamental, conforme exposto na figura a seguir.
Figura 1. Modelo de Flexibilidade Psicológica.
Atenção Flexível
ou Momento
Presente

Aceitação Valores

Flexibilidade
Psicológica

Desfusão Ações com


Compromisso

Self como contexto


Fonte: Saban, 2011.
O conceito de atenção flexível é central por ser um dos processos de flexibilidade psicológica
estudado na ACT. O aumento do contato com o momento presente permite libertar-se das
preocupações com eventos passados ou projetando cenários negativos futuros, pois o esforço contínuo
para evitar problemas pode levar ao enrijecimento da atenção, da mesma forma que a manutenção de
uma perspectiva no aqui agora permite que o sujeito se comporte de modo mais flexível.
Já quando falamos de aceitação, é comum que haja certa confusão com tolerância passiva e
resignação. Todavia, tais perspectivas passam longe na proposta da Terapia de Aceitação e
Compromisso (ACT), uma vez que está ligada com a disponibilidade para lidar com os eventos
internos tal qual aparecem, tendo um caráter totalmente
funcional. Desta forma, as reações de desconforto podem ser percebidas no seu estado
construtivo, a partir do enfrentamento e superação de dificuldades com aumento da variabilidade
comportamental.
Outro aspecto relevante neste processo de flexibilidade psicológica é a desfusão cognitiva, que
libera o indivíduo da literalidade do pensamento e do aspecto verbal, ampliando a cognição a partir
da perspectiva da experiência e da contextualização. As intervenções clínicas visando a sua promoção
baseiam-se em exercícios para a redução dos impactos de eventos internos, bem na alteração de seu
contexto funcional.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) não só estimula a desfusão de pensamentos, mas
também enfatiza o desenvolvimento de outra noção de identidade: o self como contexto ou
observador que se baseia na experiência consciente (eu-aqui-agora) e implica a flexibilização das
crenças sobre si próprio. Podemos esclarecer melhor esse aspecto, lançando mão da conceituação
definida por Barbosa e Murta (2014, p. 41):
A noção de self como conteúdo representa a integração de diversos autoconceitos fundamentais
para o indivíduo. [...] Eventos que ameaçam os conceitos pessoais de self podem ser interpretados
como um risco ao próprio indivíduo, levando ao sofrimento e à evitação experiencial.
Considerando ainda as contribuições do contextualismo funcional, a realização de valores e
cumprimento de metas são os indicadores de êxito no processo de flexibilidade psicológica. No
entanto, não podemos desconsiderar que a meta final do processo é regular os comportamentos, tendo
por base os valores. Portanto, fica claro que os valores não são coisas a serem alcançadas, mas padrões
internos desenvolvidos a partir de padrões dinâmicos de comportamento.
Por outro lado, convém ressaltar que nada disso é possível sem ações comprometidas. É preciso
firmar um forte compromisso com o caminho a percorrer, focando na autorresponsabilização, na
congruência e no planejamento de metas a curto, médio e longo prazos.
Para cada um dos desses processos de mudança, há uma modalidade inversa que promove a
inflexibilidade e favorece o desenvolvimento e a manutenção de estados psicopatológicos, conforme
exposto na figura a seguir.
Figura 2. Modelo de inflexibilidade psicológica.
Atenção inflexível

Perturbação dos valores;


Esquiva
dominância de valores
experiencial
“pliant”, fusionados ou
evitativos

Inflexibilidade
Psicológica

Fusão Inação;
cognitiva impulsividade
ou persistência
evitativa

Apego ao self
contextualizado
Fonte: Hayes, Strosahl e Wilson (2021).
Saban (2011) reforça que a modalidade terapêutica permite que eventos privados sejam
vivenciados na sua essência, como pensamentos, sentimentos, sensações e memórias. Vivenciar
aspectos negativos nem sempre é tão simples como um evento privado negativo, por isso é preciso
treinar essa capacidade por meio da mudança de contexto, esclarecimento de valores, planejamento e
execução de ações que visem solucionar problemas ou evoluir em objetivos futuros.

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