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Crise da Democracia Brasileira: Análise Jurídica

O artigo discute a crise da democracia brasileira, analisando suas causas e implicações a partir de uma perspectiva jurídico-institucional. Os autores argumentam que a crise não se limita a problemas políticos internos, mas também reflete tendências globais de autoritarismo e desconfiança nas instituições democráticas. A análise sugere que, embora haja sinais de disfuncionalidade, não há uma alternativa clara para a superação da crise, o que levanta preocupações sobre o futuro da democracia no Brasil e em outras partes do mundo.
Direitos autorais
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Crise da Democracia Brasileira: Análise Jurídica

O artigo discute a crise da democracia brasileira, analisando suas causas e implicações a partir de uma perspectiva jurídico-institucional. Os autores argumentam que a crise não se limita a problemas políticos internos, mas também reflete tendências globais de autoritarismo e desconfiança nas instituições democráticas. A análise sugere que, embora haja sinais de disfuncionalidade, não há uma alternativa clara para a superação da crise, o que levanta preocupações sobre o futuro da democracia no Brasil e em outras partes do mundo.
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DOI: 10.1590/s0103-4014.202539113.

004
Democracia

Crise da democracia brasileira


e arranjos jurídico-institucionais
MURILO GASPARDO, I
MARIA PAULA DALLARI BUCCI, II
VANESSA CORSETTI GONÇALVES TEIXEIRA, III
CAROLINA GABAS STUCHI, IV
JOSÉ DUARTE NETO, V
RUBENS BEÇAK, VI
DANIEL CAMPOS DE CARVALHO VII

Introdução

N
os últimos anos, a ideia de que os regimes políticos liberal-demo-
cráticos “maduros” encontram-se em crise em razão da emergência de
líderes, ideias e movimentos autoritários, populistas e nacionalistas têm
ocupado uma posição central nos debates políticos, jornalísticos e acadêmicos,
notadamente no âmbito da ciência política, mas também da sociologia, da econo-
mia e do direito. O mesmo ocorre a propósito de democracias mais recentemente
estabelecidas, como a brasileira. Exemplo disso é o fato de que se empregarmos
o termo “crisis of democracy” na base Scopus, encontramos 950 documentos
desde 1980 e observamos um crescimento substancial de sua frequência a partir
de 2004 e, especialmente, entre 2008 e 2021.
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Year
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Fonte: Gerado pela base de indexação bibliográfica Scopus.


Gráfico 1 – Quantidade de documentos encontrados ao longo do tempo na base
Scopus a partir da busca com o termo “crisis of democracy”.

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Esse debate envolve, pelo menos, três conjuntos de questões: (1) a exis-
tência ou não de uma crise da democracia e sua caracterização; (2) suas causas e
explicações; (3) as alternativas para sua superação. Todas elas incluem a indaga-
ção sobre o caráter global da crise e suas especificidades em cada Estado. Dentro
desse grande quadro, indagamos: qual é a dimensão jurídico-institucional da
crise contemporânea da democracia brasileira? Quais são suas especificidades em
face do contexto global?
Há um vasto campo a ser explorado por uma perspectiva interdisciplinar
envolvendo o direito. É verdade que as respostas usualmente apresentadas pelo
direito são insatisfatórias, sobretudo por adotarem uma abordagem eminente-
mente dogmática. Entretanto, considerar as relações dos arranjos jurídico-insti-
tucionais com as demais dimensões explicativas da crise abre uma possibilidade
analítica mais rica para o problema.
Neste artigo, discutiremos, inicialmente, o próprio conceito de crise da
democracia liberal-representativa e sua aplicação ao contexto político brasilei-
ro e global contemporâneo para, em seguida, explorar as diferentes dimensões
explicativas para a crise em suas implicações recíprocas com os arranjos jurídi-
co-institucionais. Defendemos a tese de que o dilema institucional brasileiro
não se limita aos problemas inerentes à convivência do presidencialismo com
um sistema partidário hiperfragmentado. Assim, é necessário compreender os
arranjos jurídico-institucionais como fator explicativo para a crise do regime
político brasileiro de forma mais abrangente e em toda sua complexidade,
considerando-se, por exemplo, as limitações e contradições do sistema de controle
de poder contra os abusos do chefe do Executivo, o processo orçamentário e
a inadequação da arquitetura institucional vigente para responder aos desafios
impostos pelas transformações tecnológicas e socioculturais em curso.
Caracterização da crise contemporânea da democracia
Democracia é um conceito controverso, que passou por profundas trans-
formações ao longo da história. Há definições normativas e outras que se pre-
tendem descritivas, formais e substantivas. Held (2006), por exemplo, desenvol-
veu uma classificação de diferentes modelos clássicos (ateniense, republicanismo,
democracia liberal e democracia direta), de variantes do século XX (elitismo
competitivo, pluralista e deliberativo) e discutiu a necessidade de repensar a
democracia em razão da globalização. Quando nos referimos à democracia nes-
te artigo, estamos tratando do modelo liberal-representativo, o qual, em linhas
gerais, consiste em um regime político que combina eleições livres, periódicas e
competitivas dos representantes políticos com um conjunto de garantias jurídi-
co-institucionais da liberdade (Estado de Direito).
A afirmação de que a democracia está em crise, por sua vez, é recorrente
ao longo da história. Para não retornar demasiadamente no tempo, desde o final
dos anos 1970 e início dos 1980, passou-se a tratar de uma “crise de governabi-
lidade das democracias”, no contexto da “crise do Estado de Bem-estar social”,

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a qual estaria relacionada com a incapacidade de os governantes atenderem às
crescentes exigências dos cidadãos (Huntington et al., 1975; Pasquino, 1992).
Mais recentemente, autores como Chevallier (2009, p.190-2) passaram a se re-
ferir a uma “crise do liame político”, com crescente desconfiança dos cidadãos
em face dos representantes políticos. Com olhar específico sobre a América do
Sul, há quinze anos Borón (2007, p.27-9) já fazia uma análise crítica sobre seu
processo de redemocratização e uma referência à “crise de legitimidade” que
afetaria, em diferentes graus, todos os governos da região. Avanços e retroces-
sos, limites e contradições também sempre foram uma constante na história
da democracia, inclusive a mais fundamental delas: a existência de um regime
fundado na igualdade política em um sistema econômico caracterizado pela de-
sigualdade.
Apesar disso, após o final da II Guerra Mundial e, especialmente, na se-
quência da “Queda do Muro de Berlim”, observou-se, no Ocidente, grande
expansão e consolidação da democracia liberal-representativa. No Brasil, o pro-
cesso de redemocratização dos anos 1980 significou, em tese, a derrota do au-
toritarismo, com a construção de um pacto político que combinou elementos
do liberalismo político com a social-democracia, representado pela Constituição
Federal de 1988, com seu conjunto de direitos civis, políticos e sociais acom-
panhados de garantias para sua efetivação. Nesses 36 anos não faltaram turbu-
lências e muitos problemas permaneceram, sejam políticos (dois processos de
impeachment, corrupção sistêmica, patrimonialismo etc.), sociais (desigualdades
extremas, insuficiência e ineficiência em serviços públicos, violência urbana e no
campo etc.), bem como no âmbito das liberdades civis (homofobia, feminicídio,
violência policial etc.). Porém, também havia vários elementos indicativos de
um processo de consolidação democrática, por exemplo: respeito às regras e
aos resultados eleitorais, com alternância de poder entre partidos com projetos
distintos; funcionamento independente das instituições do “sistema de Justiça”;
estabilização monetária a partir do “Plano Real”; redução relativa da pobreza,
da fome e das desigualdades, com a organização de sistemas federativos estrutu-
rados para políticas públicas como de saúde e educação; crescimento econômico
e protagonismo internacional.
Ocorre que, em termos globais, e tendo como um dos marcos a eleição
de Donald Trump nos Estados Unidos da América, em 2016, alguns cientistas
políticos, como Levitsky e Ziblatt (2018), passaram a tratar da emergência de
uma forma contemporânea de autoritarismo, com quatro características: (1) a
“rejeição das regras democráticas (ou compromisso débil com elas)”; (2) a “ne-
gação da legitimidade dos oponentes”; (3) a “tolerância ou encorajamento à
violência”; (4) a “propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive
a mídia”. O autoritarismo estaria acompanhado pelo nacionalismo que, por sua
vez, tem como elementos fundamentais: (1) a xenofobia e a culpabilização dos
imigrantes por todos os males econômicos e sociais; (2) as restrições à globaliza-
ção econômica e a rejeição a organizações de governança internacional e trans-

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nacional. Nesse contexto, sem a ocorrência de golpes militares e outras formas
violentas, mas pela ação de líderes eleitos e se valendo de meios formalmente
legais, as democracias poderiam morrer.
Trump não seria um fenômeno isolado, mas parte de uma espécie de re-
volta de parcelas significativas das sociedades contra o establishment político, o
modelo democrático vigente, a globalização econômica e a diversidade cultural.
Outros exemplos notáveis seriam: a vitória da proposta do Brexit no referendo
do Reino Unido, em 2016; a ascensão ao poder de líderes autoritários, como
Orbán (Hungria, 2010), Erdogan (Turquia, 2014) e Duterte (Filipinas, 2016);
o avanço de partidos, lideranças e movimentos nacionalistas, xenófobos e autori-
tários em diversas partes da Europa Ocidental, como na França (Marine Le Pen)
e Alemanha (Partido Alternativa para a Alemanha) (Przeworski, 2020; Castells,
2018; Held, 2016; 2017).
No Brasil, as manifestações de junho de 2013 podem ser consideradas um
ponto de inflexão, compreendendo, em meio às suas demandas difusas, uma de-
monstração de profundo descontentamento com os partidos, o sistema político
e a cultura política. (Nobre, 2013). Na sequência, o que se observou (não como
relação de causalidade) foi a passagem de um momento de grande confiança
no progresso do país para uma prolongada crise econômica e política, a qual
foi agravada pela pandemia de Covid 19, destacando-se, dentre outros fatos: a
“Operação Lava-jato”, que representou a quebra de um sistema corrupto, mas,
por outro lado, de regras e procedimentos consagrados no universo jurídico; o
controverso processo de impeachment de Dilma Rousseff; os retrocessos sociais
e a crise ética no governo Temer; o Judiciário, em particular o STF, com uma
postura errática e incapacidade de garantir segurança jurídica e estabilização de
expectativas, não obstante o importante papel que desempenhou e desempenha
na resiliência do Estado de Direito e da democracia em face do processo de
autocratização que o Brasil enfrentou; a eleição de Jair Bolsonaro presidente da
República, com um discurso autoritário e populista, e com o mandato marcado
por inépcia administrativa, confrontos com as instituições (Congresso, STF, im-
prensa, universidades, instâncias de participação social etc.), posições autoritá-
rias, contestação do resultado das eleições de 2022 em que foi derrotado, e até
mesmo uma tentativa de golpe de Estado, conforme resultados de investigações
da Polícia Federal e processos em tramitação no STF.
Mas esse quadro nos permitiria afirmar que está em curso uma crise da de-
mocracia nos Estados Unidos, em diversos países da Europa e da América Latina
(AL), inclusive no Brasil? Ou se trataria apenas de uma mudança da correlação
de forças na sociedade, com a consequente alternância de poder com hegemonia
do campo conservador (ou reacionário)? O que há de novo no momento que
atravessamos?
Eatwell e Goodwin (2018) argumentam que, na verdade, o avanço do
“nacional populismo”1 não seria propriamente uma ameaça à democracia, mas

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sim uma espécie de “mecanismo corretivo” por meio do qual as pessoas estão
expressando seu descontentamento com o funcionamento das instituições
representativas e o distanciamento dos representantes. Todavia, advertem que a
situação é muito diferente em democracias consolidadas e naquelas com tradições
democráticas mais frágeis. Sobre o Brasil, na análise de Avritzer (2018, p.274-
5), não estaríamos atravessando propriamente uma crise, nem diante de uma
espécie de “derrapada em um longo processo de construção democrática”, mas
sim um “movimento pendular” de longa duração, no qual oscilam momentos
de progressão (1946, 1985-1988) e regressão democrática (1954, 1964).
Tomamos como referência a posição de Przeworski (2020) sobre o as-
sunto. Crises indicam, por um lado, situações que exigem uma decisão; e, por
outro, a insustentabilidade do status quo sem que exista uma alternativa a ele
consolidada. Pode-se afirmar que existe uma crise contemporânea da demo-
cracia porque há sinais de que, embora as instituições democráticas continuem
a operar, correm o risco de entrar em colapso ou de se tornarem incapazes de
produzir os resultados para os quais foram estabelecidas (processar os conflitos
sociais de forma pacífica). Esses sinais seriam, por exemplo, o já mencionado
“avanço de partidos e atitudes xenofóbicos, racistas e nacionalistas”, o “rápi-
do desgaste dos sistemas partidários tradicionais” e o “declínio no apoio à de-
mocracia em pesquisas de opinião pública”. Mais concretamente, e a partir de
uma concepção “minimalista” ou “eleitoral” de democracia, Przeworski (2020,
p.12-15) refere-se à crise como o risco de que “as eleições se tornem não com-
petitivas ou inconsequentes para quem quer que permaneça no poder”, o que
pode “incluir violações das pré-condições para eleições competitivas” (perda da
independência do Judiciário, repressão, severa desigualdade etc.), mas não se
refere propriamente a elas.
Se, por um lado, há esse risco de agravamento da disfuncionalidade da de-
mocracia e de incapacidade de as instituições cumprirem seu papel de mediação
dos conflitos sociais, por outro, não há uma alternativa de reformulação demo-
crática à vista: por isso a democracia no Brasil e em diversas partes do mundo
está em crise. O desfecho da crise pode ser tanto a ruptura do regime democráti-
co (ou sua permanência formal esvaziada de substância), como a emergência de
alternativas políticas e institucionais que possibilitem sua superação.
A eleição de Biden para a presidência dos Estados Unidos em 2020 e a de
Lula no Brasil em 2022 constituíram importantes episódios de reversão de pro-
cessos de autocratização (V-Dem, 2024). Porém não podem ser considerados
evidências de superação da crise da democracia – a vitória de Trump nas eleições
de 2024, as primeiras medidas de seu governo e a persistência da força do “Bol-
sonarismo” no Brasil são prova disso. Como ressalta Przeworski (2020, p.9), as
razões para preocupação não se encontram apenas na ascensão de determinados
líderes ao poder, mas sobretudo nas “condições econômicas, sociais e culturais”
que possibilitaram isso. Os resultados eleitorais de 2020 e 2022 não levaram ao

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desaparecimento do “claro déficit global de desempenho da governança demo-
crática”, nem da “distância já intolerável entre os sistemas de representação e a
sociedade” descritos por Abranches (2018, p.10). Essa também é a posição de
Rosanvallon (2020), para quem a derrota de Trump em 2020 não significou
um sinal de enfraquecimento do populismo – inclusive porque ele obteve dez
milhões de votos a mais em 2020 do que em 2016. Diamond (2020) também
entende que, apesar da derrota de Trump, a democracia dos Estados Unidos
continuava com sérios problemas e a superação da crise dependeria, dentre ou-
tros fatores, do aprendizado do Partido Democrata a partir dos fatores que o
levou à sua última derrota, bem como do enfrentamento de grandes dilemas
institucionais, como o do “colégio eleitoral”. Como o resultado das eleições dos
Estados Unidos de 2024 demonstraram, os problemas da democracia estaduni-
dense não foram superados durante o governo Biden. O mesmo raciocínio pode
ser aplicado para as eleições brasileiras de 2022: ela não representou o fim da
crise da democracia brasileira, ainda que seja acompanhada pela responsabiliza-
ção penal de todos os que, de diferentes formas, atentaram contra a democracia
e o Estado de Direito.
Isso posto, passamos a fazer um mapeamento sobre as principais explica-
ções para a crise da democracia encontradas na literatura contemporânea. Elas
são muitas e não excludentes, com possíveis implicações recíprocas e inconclusi-
vas. Przeworski (2020, p.57ss.) realizou uma espécie de inventário desse deba-
te, considerando quatro grupos de explicações: (1) econômicas (estagnação de
renda, desigualdade e severa limitação à mobilidade social); (2) divisões sociais
(“polarização, racismo e hostilidade”); (3) políticas (“estratégias dos partidos
tradicionais”); e (4) institucionais. Propomos uma classificação que, além dos
quatro grupos destacados por Przeworski, considera também as dimensões ex-
plicativas que denominamos de “global” e “tecnológica”. Na próxima seção,
abordaremos o problema na perspectiva dos arranjos jurídico-institucionais e,
na seguinte, discorreremos sobre as outras cinco dimensões em suas correlações
com os arranjos.
A perspectiva dos arranjos jurídico-institucionais
Embora os arranjos jurídico-institucionais não possam ser considerados
determinantes, são relevantes para a qualidade e a legitimidade dos regimes de-
mocráticos, condicionam e estimulam determinados comportamentos políticos,
conferem alguma ordem e previsibilidade para as disputas de poder e podem
constituir uma explicação importante para as crises da democracia.
Os arranjos jurídico-institucionais compreendem as normas e práticas ju-
rídicas que estruturam as instituições e regem os processos políticos nas demo-
cracias. A análise sobre esses arranjos não deve ser dominada apenas pelas ideias
de “falhas” ou “patologias”, como se as instituições sempre fossem dotadas de
intencionalidades positivas em termos de realização de valores democráticos,
de maneira que o problema seria de erros técnicos. Isso porque instituições po-

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dem ser desenhadas, ainda que de forma disfarçada, com o propósito de limitar
a democracia, bem como manejadas com o intuito de conferir uma pretensa
legitimidade democrática para práticas autoritárias. Por outro lado, os arranjos
devem ser considerados em sua complexidade, ou seja, procurando-se conhecer
também seus aspectos positivos; caso contrário, teríamos um conhecimento ma-
niqueísta e, paradoxalmente, despolitizado.
Os regimes democráticos de uma forma geral, e o brasileiro em particular,
apresentam três pilares estruturantes em termos de arranjos jurídico-institucio-
nais. (1) o sistema partidário-eleitoral (e formas complementares de participa-
ção); (2) o sistema de governo; e (3) o Poder Judiciário independente e a ga-
rantia do Estado de Direito. No Brasil e em outros países podemos acrescentar
a federação.
Na ciência política brasileira, a categoria presidencialismo de coalizão tem
sido utilizada desde o advento da Constituição de 1988 para analisar a relação
entre desenho jurídico-institucional e o funcionamento da democracia, consi-
derando a combinação dos pilares “sistema de governo” e “sistema partidário-
-eleitoral”. No contexto contemporâneo é recorrente a afirmação de que tal
modelo de relações políticas teria chegado ao seu limite.
Cunhado por Abranches (1988), o conceito descreve a combinação entre
presidencialismo e governo por coalizão multipartidária. O fenômeno foi ob-
jeto de diversos estudos empíricos, empreendidos, dentre outros, por Limongi
e Figueiredo (1998, 2001, 2003, 2008), que contestaram a tese do risco de
ingovernabilidade apresentada por Abranches e demonstraram a viabilidade da
governabilidade e estabilidade da democracia no arranjo estabelecido pela Cons-
tituição de 1988, o qual se diferencia do regime de 1946, especialmente pelo
“poder de agenda” conferido ao Presidente da República por meio das Medidas
Provisórias e do pedido de “regime de urgência” nas votações, combinado com
a centralização dos trabalhos legislativos no colégio de líderes partidários.
Revisitando o fenômeno, Abranches (2018) destaca que todos os males da
política brasileira têm sido atribuídos ao presidencialismo de coalizão, mas não
derivam dele, e sim das “maneiras ilegítimas de formar alianças e coalizões”, as
quais também poderiam ser constituídas por métodos legítimos, de maneira que
o problema estaria na cultura política brasileira. Limongi e Figueiredo (2017)
também retomam o tema, ponderando que, embora no Brasil coexistam crises,
presidencialismo e coalizões, não seria possível estabelecer uma relação causal
entre os fenômenos, pois a crise atual seria pouco influenciada pelo desenho
institucional, mas sim resultante de escolhas políticas. Portanto, com diferentes
perspectivas, tanto Abranches como Limongi e Figueiredo não estabelecem uma
relação de causalidade entre presidencialismo de coalizão e crise da democracia
brasileira. Para o primeiro, o problema estaria na cultura política nacional, parti-
cularmente suas notas distintivas do patrimonialismo e do “baixo engajamento
cívico”; para os últimos, nas escolhas políticas, especialmente aquelas realizadas

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pelo PT e pelo PSDB enquanto estiveram no poder (forma de compor alianças
para a governabilidade). Para Limongi, decisões do STF também teriam con-
tribuído para esse quadro, ao interferirem na dinâmica do jogo político, como
nas decisões sobre a cláusula de barreira e a fidelidade partidária com perda de
mandato excepcionada pela hipótese de criação de partido novo, o que acabou
reforçando a fragmentação partidária.
Sem se referir diretamente a esses autores, Nobre (2020, p.67-70) defende
a necessidade de rever a tese de que o presidencialismo de coalizão estava funcio-
nando bem até 2014, pois isso “torna em boa medida casuísticas suas explicações
de por que, afinal, deixou de funcionar”; assim, “retroagir as dificuldades atuais
até o desenho constitucional” poderia ser entendida como uma “explicação ad
hoc, especialmente desenhada para tentar justificar a posteriori déficits e falhas
nas bases de funcionamento do modelo”. O correto seria buscar explicações em
“uma ruptura de fundo, aparentemente irreconciliável, entre diferentes estratos
sociais e econômicos”, “uma ruptura em relação à cultura política democrática”.
Escolhas políticas, cultura política e conflitos sociais são fatores funda-
mentais para explicar a crise contemporânea da democracia brasileira, mas os
arranjos jurídico-institucionais também são. Entretanto, o dilema institucional
brasileiro não se limita à combinação entre presidencialismo e sistema partidário
hiperfragmentado. A perspectiva analítica informada pelo direito pode trazer
elementos relevantes para compreender as múltiplas e complexas correlações
entre os arranjos jurídico-institucionais e as demais dimensões explicativas da
crise. Isso tanto em termos das macroestruturas do regime político brasileiro,
como de regras mais específicas – por exemplo, as regulamentações das mídias
digitais com seus impactos sobre a formação da opinião pública e as referentes
ao processo orçamentário, que acabam por conformar as relações institucionais
entre os partidos no Congresso e deles com o Poder Executivo. No último
caso, pode-se, inclusive, aplicar, por analogia, a ideia da “autonomia relativa do
Direito”, em que a regra obrigatória que passou a conformar as relações institu-
cionais entre partidos no Congresso contribui de forma específica para moldar e
realimentar essas relações.
Por sua vez, uma análise restritiva à dimensão jurídico-institucional da
crise tenderia a levar a respostas inadequadas ou insuficientes, como se pode
observar nos recorrentes projetos de reforma política. Veja-se, por exemplo, a
proibição das coligações proporcionais, a instituição de cláusula de desempenho
e o sempre presente debate sobre a substituição do voto proporcional pelo voto
distrital ou pelo voto distrital misto. Tais medidas, não obstante sua importância,
pouco dizem sobre a correlação entre as instituições e as dimensões tecnológica
e sociocultural da crise da democracia. É preciso ampliar o olhar, por exemplo,
para os arranjos pertinentes aos requisitos de exercício da cidadania (liberdade
de expressão, acesso à informação e condições de participação). Nesse sentido,
existem experimentos de novos formatos de representação, como os denomi-

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nados “mandatos coletivos” (Lereno; Bucci, 2020), que ocorrem à margem da
institucionalidade jurídica, bem como mudanças jurídico-institucionais, como
as cotas eleitorais de gênero, que desafiam a compreensão da política a partir de
um entendimento jurídico aprofundado.
Ressaltamos três elementos específicos do sistema institucional brasileiro
de “freios e contrapesos” que revelaram seus limites para fazer frente a situações
extremas de ameaças ao Estado de Direito e à democracia: a concentração de
poderes no presidente da Câmara dos Deputados para abertura do processo
de impeachment contra o presidente da República; a titularidade exclusiva do
procurador-geral da República para a propositura de Ação Penal contra o pre-
sidente da República, autoridade pela qual é nomeado; a hiperindependência
de jure e de facto do Supremo Tribunal Federal para remodelar instituições de
Estado (firmadas em normas constitucionais e legais), moldar a agenda de go-
verno e destituir e restringir o exercício constitucional de representantes eleitos
ou agentes investidos dentro da discricionariedade interna de outros Poderes.
Nos dois primeiros casos, a prevalência do poder unipessoal sobre o colegiado
(do plenário da Câmara no primeiro caso e, por exemplo, do Conselho Superior
do Ministério Público no segundo) pode inviabilizar por completo o controle
sobre crimes comuns e de responsabilidade do presidente da República.
O caso do Supremo Tribunal Federal é mais emblemático. Diversamente
dos órgãos de representação que se caracterizam pela escolha do povo por elei-
ções (legitimidade), a marca dos Tribunais Constitucionais e das Cortes de Justi-
ça consiste na independência. Independência de jure, identificado com o aparato
normativo e institucional que permite o exercício livre de suas atribuições, sem
interferências ou embaraços, e a garantia do cumprimento e obediência de suas
decisões. Independência de facto, ou seja, efetividade máxima e real de se decidir
de forma independente e de se lograr a obediência de suas decisões. Uma das
condicionantes institucionais que garantem a independência está no processo
de investidura de seus membros e no tempo de investidura. Métodos diferentes
empregados na designação de membros de Tribunais Constitucionais trazem
perspectivas qualitativas não somente sobre a legitimidade da investidura, ao
oferecer variáveis para se avaliar a maneira de se implicar a ideologia dos que
nomeiam e daquela professada pelos nomeados, como refletem a independência
de facto e o seu impacto na relação com os demais poderes.
Dimensões explicativas econômica, política, sociocultural,
global e tecnológica da crise da democracia
e suas relações com os arranjos jurídico-institucionais
Não é novo o debate sobre os limites impostos à democracia pela desi-
gualdade de renda e riqueza, pelo “poder do dinheiro” (Bobbio; Viroli, 2002).
Mais recentemente, ganhou força a hipótese de que a atual crise de regimes
democráticos maduros tem como explicação principal o aumento da desigual-
dade (Bourguignon, 2015; Piketty, 2014; Stiglitz, 2012), em conjunto com o

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desemprego e a queda da renda de parcelas significativas de suas populações.
Com os atuais níveis de desigualdade, democracias como a dos Estados Unidos
transformaram-se em verdadeiras “plutocracias”, pois o poder das elites finan-
ceiras sobre os processos eleitorais, a agenda legislativa e a formação da opinião
pública suplanta o princípio de “um homem, um voto” (Gilens; Page, 2014).
Por sua vez, há um processo de retroalimentação entre desigualdade extrema e
esvaziamento da democracia: elites financeiras distorcem o processo democráti-
co a favor de normas e políticas que lhes favorecem, ampliando a desigualdade;
e a ampliação da desigualdade aumenta seu poder. Além disso, há uma crescente
fissura entre os que são beneficiados pela globalização, automação e digitaliza-
ção da economia, e os que são excluídos, notadamente a classe trabalhadora dos
países industrializados que se depara com desemprego e diminuição de renda.
Isso gera frustração, ressentimento e revolta – transformados em votos, como
nos casos do Brexit e de Trump (Mounk, 2019; Held, 2017; Castells, 2018).
Esse contexto teria levado, na expressão de Abranches (2018, p.66), à “quebra
do contrato social que sempre foi o coração da ordem liberal-democrática e ti-
nha o compromisso de impedir que aqueles em desvantagem diante das forças
de mercado não fossem deixados para trás”.2
Embora não exista linearidade negativa no período pós-democratização,
a dimensão econômica também é primordial para compreender o que se passa
com a democracia no Brasil e nos demais países da América Latina. Por um lado,
durante o período pós-democratização, eles conheceram uma real melhoria em
termos de inclusão, redução da pobreza e relativa da desigualdade – embora isso
não tenha atingido o topo da pirâmide social brasileira (Morgan, 2017; Me-
deiros; Souza; Castro, 2015), e na provisão de serviços para a concretização de
direitos (Arretche; Marques; Faria, 2019). Por outro lado, a desigualdade estru-
tural permaneceu (Souza, 2015; Nobre, 2013; Singer, 2009) e nos últimos anos
passou a crescer, bem como a pobreza e a precarização das condições de vida.
Os elementos que expressam uma relação de causalidade entre desigualda-
de e crise da democracia estão especialmente presentes nos contextos em que se
encontram os países latino-americanos, já que a dependência externa e os óbices
ao desenvolvimento econômico e social colocariam um complicador para as op-
ções políticas de médio e longo prazo. Na mesma medida em que os mercados
latino-americanos oscilam, também as políticas de redistribuição e diminuição
da desigualdade se colocam como uma opção difícil para os governos que, ao
tentar equilibrar as contas, fazem recair os ajustes sobre os mais pobres. E isso
tem uma face jurídica, manifestada, por exemplo, no modelo tributário regres-
sivo combinado com as regras de ajuste fiscal nas despesas com políticas sociais
(“Novo Regime Fiscal”, “Arcabouço Fiscal” etc.). Há, portanto, um conjunto
de elementos jurídicos fundamentais que atuam na manutenção e aprofunda-
mento das desigualdades no Brasil e que estão na raiz da crise da democracia, no
âmbito da Constituição Econômica, do desenho jurídico das políticas públicas e

10 ESTUDOS AVANÇADOS 39 (113), 2025 e39113051


do regime tributário-financeiro – os quais não exploraremos neste artigo. Des-
tacamos, porém, a dimensão jurídica de uma questão mais diretamente relacio-
nada com o processo político-eleitoral: o financiamento de campanhas.
Era usual encontrarmos na literatura jurídica e política a crítica ao sistema
de financiamento privado das campanhas eleitorais no Brasil como fator gerador
de corrupção e “captura do processo político pelo poder econômico”, de desi-
gualdade de condições nas disputas eleitorais. Nesse contexto, o Supremo Tri-
bunal Federal decidiu por maioria de oito votos a dois, em 2015 (Ação Direta
de Inconstitucionalidade 4650), que as doações de pessoas jurídicas de direito
privado para partidos políticos e candidatos seriam inconstitucionais por “ofen-
sa aos princípios fundamentais democráticos e de igualdade política”. Assim, o
financiamento de campanhas ficou restrito às doações por pessoas naturais e uso
de recursos próprios dos candidatos, em ambos os casos até o limite de dez por
cento de sua renda anual.
Ocorre que essa decisão não impediu a distorção do processo político por
fortunas pessoais de candidatos, nem daqueles com acesso privilegiado a orga-
nizações com grande capacidade de formação de opinião e direcionamento de
votos, como igrejas, sindicatos e mídia. Além disso, a “classe política” encontrou
um caminho para compensar a ausência de doações de pessoas jurídicas com a
criação do “Fundo Eleitoral”. Em tese, esse fundo público poderia promover
uma equalização das condições de disputa política, porém, o que se observa na
prática é que a distribuição desses fundos não é equitativa, tendendo a se con-
centrar na elite dirigente dos partidos, naqueles que já detém mandato eletivo
econstituindo um fator a mais de fortalecimento do “Centrão”, ou seja, do
núcleo de poder fisiológico e patrimonialista do Congresso Nacional brasileiro.
Isso a despeito da cautela dos analistas políticos que rejeitam a ideia de alterar
as regras do sistema eleitoral até que os efeitos da EC 97/2017, que proibiu as
coligações nas eleições proporcionais e restabeleceu a cláusula de desempenho
com implantação gradual até 2030, se façam sentir plenamente.
Na dimensão política, compreendida em sentido estrito como as esco-
lhas estratégicas dos atores políticos (especialmente partidos e lideranças que
exercem mandatos), há alguns fenômenos que podem ajudar a explicar a atual
crise da democracia que, embora não sejam novos, assumiram maior intensidade
ou, pelo menos, mais visibilidade perante os cidadãos: (1) representantes eleitos
exercem seus mandatos em função dos próprios interesses, como se constituís-
-sem uma espécie de “classe” apartada do restante da sociedade; (2) represen-
tantes não defendem os interesses do conjunto da população, mas de uma pe-
quena elite, particularmente da elite financeira, como se percebeu nas políticas
adotadas para responder à Crise de 2008; (3) a revelação de numerosos casos
de corrupção, que combinam financiamento eleitoral ilegal, enriquecimento dos
representantes e defesa dos interesses de grandes empresas (corruptores) (Cas-
tells, 2018); (4) ausência de alternativas partidárias substantivas.

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Desde o início dos anos 1970 e, de forma mais abrangente, a partir do
final da “Guerra Fria”, o neoliberalismo tornou-se hegemônico, sem que proje-
tos alternativos fossem capazes de rivalizar com ele, o que restringiu a amplitude
das escolhas político-democráticas. Consequentemente, houve uma tendência
de alinhamento ao centro dos partidos políticos com chances reais de obter
maiorias parlamentares e de conquistar a direção dos governos nacionais, tanto
em sistemas presidencialistas como em parlamentaristas. Cresce, assim, a percep-
ção de que os diferentes partidos e lideranças do establishment (tanto à direita
como à esquerda) não oferecem alternativas reais nem são capazes de apresentar
respostas satisfatórias para os problemas. Isso, somado à insatisfação popular
com as condições socioeconômicas, aos problemas do sistema partidário-elei-
toral e à ausência ou fragilidade de bons mecanismos institucionais de controle
da política e dos políticos ao longo dos mandatos, abriu espaço para a ascensão
da extrema direita, ou para candidatos que se apresentam como “antissistema”
e “anti-institucionais”, seja pela criação de novos partidos ou pelo domínio dos
existentes.
Fenômenos semelhantes são observados no Brasil, especialmente o movi-
mento de alinhamento programático dos dois partidos que haviam protagoniza-
do as disputas políticas desde os anos 1990 (PT e PSDB), seu relativo declínio
nas últimas eleições (ressaltando-se que a situação atual dos dois partidos é mui-
to distinta), e a percepção de uma corrupção generalizada entre os partidos po-
líticos tradicionais, o que teria levado à busca por alternativas “fora do sistema”.
Soma-se a isso a ideia de “criminalização da política” como espécie de “efeito
colateral” da “Operação Lava Jato”. Não obstante as reações à “Lava Jato” (no
Supremo Tribunal Federal, por exemplo) e da “política tradicional” (nas elei-
ções de 2020), os problemas de fundo permanecem.
Esses problemas se manifestam de forma destacada no domínio do Con-
gresso Nacional, por agrupamentos pouco representativos predominantemente
fisiológicos, o que não se explica apenas em razão das questões inerentes à cultu-
ra política brasileira, mas também dentro do quadro estabelecido pelos arranjos
jurídico-institucionais, especialmente pelo processo orçamentário. Na tradição
constitucional brasileira, entre a sistemática orçamentária da “solução populista”
própria da Constituição de 1946 ou a “solução autoritária” típica da ordem de
1967, a “participação responsável” delineada na Constituição de 1988 (Rocha,
2008, p.58) parece não estar suficientemente enraizada, em que pese a existên-
cia de relevante experiência de cooperação entre Executivo e Legislativo, com a
convergência de agendas durante boa parte do período democrático das últimas
décadas (Limongi; Figueiredo, 2008).
A partir de 2015, o orçamento impositivo, que vinha sendo ensaiado
como resposta à dinâmica dos contingenciamentos orçamentários pelo Executi-
vo fundada na Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar n.101/2001)
(Lima, 2003), termina por ser aprovado, definindo uma alteração profunda do

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balanço de poderes em relação ao orçamento. A EC n.86/2015 reduz a dis-
cricionariedade do Executivo e determina a execução obrigatória de emendas
individuais de parlamentares, até o limite de 1,2% da Receita Corrente Líquida
(RCL) prevista no projeto da lei orçamentária anual. A EC n.100/2019 apro-
funda mais essa redução, ao determinar a execução obrigatória de emendas de
bancadas de parlamentares de Estados ou do Distrito Federal até o limite de
1% da RCL realizada no exercício anterior. No mesmo ano, a EC n.105/2019
amplia a discricionariedade dos parlamentares com a prerrogativa de destinar
os recursos a estados, ao distrito federal e aos municípios. Além dessas, há uma
quarta mudança, que, diferentemente das anteriores, não se operou no nível
macro institucional, ao expandir a dotação orçamentária destinada às emendas
de Relator (RP9) (“orçamento secreto”), pelo desvirtuamento do instituto pre-
visto na Resolução n.1 do Congresso Nacional, que fora criado para pequenas
correções na política orçamentária e passou a prever novas programações orça-
mentárias e volumes elevados de recursos – questão que se encontra judicializa-
da no STF e marcada por confronto entre o Tribunal e o Congresso Nacional.
A alteração da relação entre Executivo e Legislativo sobre o orçamento foi de tal
ordem que se configura como um dos principais desafios para o restabelecimen-
to das condições de governabilidade após as eleições de 2022.
Algumas tentativas de explicar a crise da democracia representativa se pau-
tam pela ideia de que, a partir do surgimento dos novos movimentos sociais
(Taylor, 2009; Gohn, 1997; Kymlicka, 1996), existiria certa dificuldade para
organizar a diversidade de pautas com a criação de um projeto integrador de so-
ciedade e país. Por outro lado, também estaria em curso uma espécie de “reação
conservadora” ao crescimento do pluralismo cultural nas sociedades, seja em
razão das migrações ou da ascensão de movimentos feministas, negros e LGB-
TQIA+, como as organizações “Students for Liberty” e “Atlas Network”, que
atuam na propagação de ideias neoliberais, conservadoras ou reacionárias. Esse
tipo de polarização, embora possa se articular com as dimensões econômica e
política, tem uma natureza sociocultural, remetem a fissuras profundas na socie-
dade quanto a valores e identidades. Há quem também vincule esse fenômeno
com a própria globalização (Castells, 2018): se os integrantes das elites globais
compreendem-se como “cidadãos do mundo” e o restante das pessoas sente
que não controla nem seus Estados nem o mercado, elas buscam refúgio em seu
território, em sua religião, em diferentes grupos identitários, de maneira que “à
fratura social se une a fratura cultural”, e “a identidade política dos cidadãos,
construída a partir do Estado, vai sendo substituída por identidades culturais
diversas, portadoras de sentido para além da política”.
No Brasil, nas últimas décadas, houve um crescimento dos movimentos
por reconhecimento (feminista, negro, LGBTQIA+ etc.), os quais tiveram um
papel fundamental na ampliação dos direitos civis e sociais, como nos casos da
união civil de pessoas do mesmo sexo e das políticas de ações afirmativas, valen-

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do-se, para tanto, inclusive, da judicialização. No âmbito dos direitos políticos,
a despeito das dificuldades de implementação, deve-se destacar as cotas eleito-
rais de gênero (para número de candidaturas, tempo de televisão e acesso aos
recursos do “Fundo Eleitoral” e do “Fundo Partidário”) e raça (para acesso aos
recursos do “Fundo Eleitoral”). Observam-se, também, experimentos de novas
formas de representação política, como os “mandatos coletivos” e a formação e
articulação de lideranças políticas por movimentos como o “Agora!”. Por outro
lado, temos o avanço das denominações religiosas evangélicas neopentecostais,
com ampliação de sua base social, crescente influência política e uma agenda
conservadora de costumes que se contrapõem radicalmente à dos referidos mo-
vimentos (Machado; Burity, 2014).
Os partidos políticos, que organizavam a conflituosidade social a partir da
contraposição “capital – trabalho” e diferentes concepções sobre o papel do Esta-
do, têm grandes dificuldades para cumprir seu papel em face do acréscimo dessas
demandas por reconhecimento, de uma conflituosidade baseada em diferenças
de valores e identidades socioculturais. Outras instituições de mediação política
(eleições, parlamento) também enfrentam dificuldades para processar conflitos
dessa natureza. Observa-se, nesse sentido, uma sub-representação de alguns seg-
mentos, especialmente negros e mulheres. Ocorreram alguns avanços – como
uma proporcionalidade mínima (um terço) para candidaturas e distribuição de
recursos do Fundo Eleitoral, bem como a aprovação da Lei n.14.192/2021, que
estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra
a mulhe. Entretanto, ainda não foram suficientemente eficazes para a ampliação
da participação política dos referidos grupos sociais, dentre outras razões porque
isso também depende da garantia de direitos de cidadania no âmbito privado que
constituem requisitos para acesso aos espaços públicos.
Uma quinta dimensão explicativa para a crise contemporânea da democra-
cia seria um processo de retroalimentação entre impasses na governança global
e nacional. De acordo com essa perspectiva, tanto os Estados nacionais como as
organizações de governança global e regional parecem incapazes de responder
satisfatoriamente aos grandes desafios contemporâneos nos campos econômico,
ambiental e de segurança. Sintetizado pelo conceito de gridlock, esse fenômeno
se explica, dentre outros fatores, pelo caráter cada vez mais multipolar e frag-
mentado da governança global, o que implica dificuldades decisórias, sobreposi-
ção de funções entre várias instituições (overlaps) e, ao mesmo tempo, questões
em relação às quais não se sabe quem tem responsabilidade por enfrentar (gaps).
Soma-se a isso a percepção de que as medidas adotadas para fazer face aos pro-
blemas econômicos são submissas a autoridades externas (como a Comissão Eu-
ropeia e o Banco Central Europeu, no caso da União Europeia), que padecem
de déficit democrático, privilegiam os interesses da elite financeira e precarizam
as redes de proteção social. Nesse contexto, há uma propensão de os eleitores
buscarem soluções radicais e simplistas apresentadas por líderes populistas que se
apresentam como contrários à integração regional e “antiglobalistas”. A eleição

14 ESTUDOS AVANÇADOS 39 (113), 2025 e39113051


de líderes nacionalistas, por sua vez, amplia os impasses já existentes na gover-
nança global e a incapacidade de as organizações internacionais e transnacio-
nais oferecerem respostas aos problemas que favoreceram a emergência de tais
líderes e a fragilização da capacidade de as instituições democráticas nacionais
mediarem conflitos, em um processo de reforço recíproco (Held, 2016; 2017;
Hale; Held; Young, 2013; Castells, 2018).
No Brasil, onde as questões migratórias não têm a mesma dimensão do
que ocorre no mundo desenvolvido, não há um processo de integração regional
comparável com a União Europeia, nem uma percepção geral significativa de
que os problemas econômicos estariam atrelados à globalização, em princípio,
essa dimensão de retroalimentação entre impasses na governança global e na-
cional não seria tão relevante para explicar a crise da democracia. Entretanto, no
governo Bolsonaro, o posicionamento contrário à integração regional (veja-se
a participação do Brasil no processo de implosão da Unasul) e hostil a organi-
zações internacionais como a ONU e a OMS, com todas as suas consequên-
cias socioeconômicas e políticas, a dimensão global também ganhou relevância.
Além disso, há linhas de estudos acadêmicos correlatas com essa abordagem que
discutem, a partir de categorias como as relações “centro-periferia” e “neocolo-
nialismo” (as quais rivalizam com as interpretações sobre os impasses da gover-
nança global de matriz liberal), como a posição do Brasil na “economia-mundo”
bloqueiam sua soberania e, por consequência, limitam sua democracia (Martins,
2011; Casanova, 2003).
Por fim, o “mundo midiático multimodal”, que combina comunicação
de massa (grande mídia) e “autocomunicação de massa” (internet, redes sociais
virtuais) exerce uma influência crescente nos processos políticos. Se, por um
lado, amplia as fontes de acesso à informação e as possibilidades de expressão de
opinião, por outro, temos: (a) o domínio da imagem, de mensagens extrema-
mente simplistas e dos apelos emocionais; (b) o domínio das narrativas sobre os
fatos, desafiando dados, estatísticas, a autoridade dos especialistas e da ciência,
e a disseminação de desinformação, como no caso emblemático da Cambridge
Analytica; (c) a “política do escândalo”, a qual inspira um sentimento de des-
confiança e reprovação moral sobre o conjunto dos políticos e da política; (d)
a “política do medo”, ou seja, “a utilização deliberada do óbvio desejo que as
pessoas têm de proteção para estabelecer um estado de emergência permanente
que corrói e, por fim, nega na prática as liberdades civis e as instituições demo-
cráticas”3 (Castells, 2018). Consequentemente, os debates políticos se tornam
cada vez mais rasos, polarizados e irracionais, eleições são manipuladas e o papel
dos representantes e das instituições representativas na mediação dos conflitos
sociais é drasticamente reduzido.
Isso tudo fornece elementos para os “engenheiros do caos” transforma-
rem a natureza do próprio “jogo democrático”, e facilita a ascensão dos po-
pulistas, inclusive porque tanto eles como as redes sociais atuam conforme a
mesma lógica de negação da intermediação, seja das instituições políticas ou da

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imprensa. Entretanto, se a captação de apoio dos descontentes pelos populistas,
em grande medida, só é possível em razão dessas novas formas de comunicação,
as origens da revolta têm substratos materiais: o medo da piora das condições
materiais de vida e da perda de identidade cultural. Além disso, as redes poten-
cializam a desconfiança sobre representantes e instituições, mas há problemas
reais na sua origem: a corrupção e distanciamento das lideranças (Empoli, 2019,
p.13-14; 84; 97-100).
Especialmente a partir das eleições de 2018, a influência das redes so-
ciais e da desinformação sobre os processos políticos, bem como a “política
do medo” (por exemplo, no que se refere à violência urbana) passaram a ser
objeto de intensos debates no Brasil. É notável também a influência do sistema
midiático sobre as decisões dos tribunais, que muitas vezes buscam legitimidade
na “opinião pública”, fora da racionalidade jurídica com a qual se esperava
que operassem. A agenda midiática da corrupção, que é internacional, e o fato
de as sessões de alguns tribunais serem televisionadas são outros exemplos de
como as transformações tecnológicas nas comunicações também podem estar
contribuindo para levar a democracia brasileira à situação de crise.
No âmbito legislativo, o “Marco Civil da Internet” (Lei n.12.965/2014)
e a “Lei Geral de Proteção de Dados” (Lei n.13.709/2018) são os recursos
disponíveis até o momento no Ordenamento Jurídico Brasileiro para tentar
fazer frente a esse novo contexto. No Supremo Tribunal Federal (STF), por
sua vez, temos o controverso “Inquérito das fake news” (Inquérito 4781), sob
a relatoria do Ministro Alexandre de Moraes, sobre redes articuladas que pro-
movem a disseminação de desinformação e a instabilidade da democracia. Ao
tomar posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022,
o mesmo ministro Alexandre de Moraes também ressaltou que “a intervenção
da Justiça Eleitoral será mínima, porém célere, firme e implacável no sentido de
coibir práticas abusivas ou divulgações de notícias falsas ou fraudulentas”. E, de
fato, a atuação da Justiça Eleitoral no combate à desinformação foi muito rele-
vante nas eleições de 2022.
O fato, entretanto, é que ainda não dispomos de um aparato jurídico-
-institucional eficiente para inibir e reprimir a disseminação de desinformação.
Isso se explica, dentre outras razões, pelo seguinte: (1) embora o exercício da
liberdade de expressão não autorize a propagação de mentiras e do discurso do
ódio, na prática, não é simples o controle prévio das informações e opiniões
publicizadas em razão do risco de se incorrer na prática da censura; (2) quando
alguma medida é adotada, em geral, a desinformação já produziu os efeitos pre-
tendidos, isso porque a temporalidade das respostas institucionais não consegue
acompanhar a velocidade de circulação de mensagens pelas diferentes mídias.
Assim, a corrupção da democracia pela desinformação é um dos maiores de-
safios para a integridade dos processos políticos em nosso tempo, e não temos
uma resposta satisfatória para o problema, cuja solução vai requerer um grande

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esforço coletivo de juristas, da comunidade acadêmica, dos líderes políticos e
da sociedade como um todo. Além disso, trata-se de um problema transnacio-
nal, de colossal envergadura, considerando que nenhuma estrutura regulatória
sediada nos Estados-nação, tampouco as da União Europeia, conseguiram até
o momento fazer frente ao poder do oligopólio de empresas de mídias sociais
que, entre outras coisas, tem afetado profundamente o jogo eleitoral. Esse vazio
também pode ser percebido pela lente dos arranjos jurídico-institucionais, no
caso, pelo aspecto da omissão ou inoperância.
Se o modelo liberal-representativo tem como um de seus pilares a forma-
ção e a expressão da opinião e seus arranjos jurídico-institucionais não estão se
mostrando aparelhados para conviver com o “mundo midiático multimodal”,
parece ainda não haver alternativas no horizonte.
Considerações finais
A democracia brasileira atravessa uma crise e não se trata de um fenômeno
isolado, mas que também se manifesta em outros países, inclusive em demo-
cracias consideradas “maduras”, com explicações de múltiplas dimensões e, em
grande medida, imprecisas.
Entretanto, a discussão que desenvolvemos sobre as diferentes dimensões
explicativas da crise da democracia liberal-representativa que atravessamos de-
monstra que as análises disponíveis ainda apresentam um significativo caráter
exploratório e grande dose incerteza – o que não poderia ser diferente, pois se
trata de um fenômeno complexo e em movimento. O mesmo pode ser afirmado
com relação à identificação de elementos comuns nos diversos países onde a cri-
se se manifesta, os quais permitiriam a referência a uma crise global, e daqueles
que seriam específicos de cada Estado, como o Brasil.
Nesse sentido, Przeworski (2020, p.75) ressalta que “as tendências gerais
escondem nítidas diferenças entre determinados países. Sejam quais forem os
fatores globais que afetam as democracias, digamos uma depressão econômi-
ca mundial, seus efeitos se manifestam de maneira diferente, dependendo das
condições específicas de cada país”. Além disso, “diferença e semelhança são
questões de grau, e não sabemos até que ponto uma diferença em particular tem
importância”. Quanto ao Brasil, de uma perspectiva estrutural (e não conjuntu-
ral), considere-se, por exemplo, sua posição na “economia-mundo” (condição
semiperiférica) (Stuchi, 2018), o caráter incompleto de sua transição democrá-
tica e o fato de que a peça central do liberalismo político, o Poder Legislativo,
nunca funcionou plenamente.
Observamos também que diversas questões presentes nas cinco dimensões
explicativas não institucionais da crise da democracia representativa dialogam
com o papel desempenhado pelos arranjos jurídico-institucionais na estruturação
e no funcionamento dos regimes democráticos, seja por confluírem para alguma
espécie de anti-institucionalidade, por ressaltarem disfuncionalidades das insti-
tuições liberal-representativas ou por demonstrarem como não estão preparadas

ESTUDOS AVANÇADOS 39 (113), 2025 e39113051 17


para processarem conflitos em um contexto de exacerbação das desigualdades e
piora nos padrões de vida, globalização, polarização sociocultural, mundo mi-
diático multimodal e fragilização do sistema partidário tal como era conhecido.
Isso nos leva ao reconhecimento da centralidade dos arranjos jurídico-
-institucionais para a compreensão do que se passa com o regime político brasi-
leiro e com as democracias liberal-representativas em geral. Porém, uma análise
restritiva da dimensão jurídico-institucional da crise tende a levar a respostas
inadequadas ou insuficientes. É preciso considerar o problema da democracia
da perspectiva jurídico-institucional de forma sistemática e em sua complexi-
dade e não de maneira restrita aos temas usualmente explorados dos sistemas
partidário-eleitoral e de governo e do papel e da atuação do Poder Judiciário.
Enfrentar esse problema é uma tarefa prioritária e imprescindível de engenharia
jurídico-institucional e construção política para os próximos anos no Brasil.
Agradecimentos – Este artigo é resultado de projetos de pesquisa financiados pela
Fapesp (Processo 2020/03785-2) e pelo CNPq (Processo 404237/2021-5).

Notas
1 O uso do termo populismo tem uma longa história que remonta ao século XIX e à
questão da legitimação popular do poder na democracia moderna. Mais especificamen-
te, “a ideia de que ‘o povo’ pode recuperar com autoridade o poder do governo para
reconstituir instituições, ou tirar o poder de elites corruptas ou egoístas, seria o terreno
a partir do qual os primeiros movimentos que poderiam ser propriamente chamados
‘populista’ surgiram no século XIX”. Se hoje o termo é usualmente empregado de for-
ma pejorativa, essa não era sua conotação em seus primórdios (Kaltwasser et al., 2017,
p.16-17). Trata-se, pois, de um conceito muito controverso – veja-se, por exemplo,
as abordagens ideacional (Cas Mudde), político-estratégica (Kurt Weyland) e socio-
cultural (Pierre Ostiguy). Mudde e Kaltwasser (2012, p.8) apresentam um “conceito
mínimo” de populismo de acordo com o qual se trata de “uma ideologia tênue que
considera a sociedade em última análise separada em dois grupos homogêneos e anta-
gônicos, ‘o povo puro’ e ‘a elite corrupta’, e que argumenta que a política deve ser uma
expressão da volonté générale (vontade geral) do povo”. Para um aprofundamento da
discussão conceitual e diversos estudos de casos sobre populismo, cf. Kaltwasser et al.
(2017); Luna; Kaltwasser (2014); Mudde; Kaltwasser (2017; 2012). Trata-se, pois,
conforme a perspectiva adotada, de um fenômeno político que pode representar tanto
uma ameaça quanto um corretivo para a qualidade da democracia. Para Mounk (2019,
p.8), por exemplo, “o que define o populismo é essa reivindicação de representação
exclusiva do povo – e é essa relutância em tolerar a oposição ou respeitar a necessidade
de instituições independentes que com tamanha frequência põe os populistas em rota
de colisão direta com a democracia liberal”. Para uma abordagem alternativa (e não
negativa) do “populismo”, cf. Laclau (2013).
2 Tomando como base a “Crise de 2018” e seus impactos nas democracias, Diamond
(2020, p.18) pondera que existe uma correlação entre as condições econômicas e es-
tabilidade dos regimes democráticos, mas tais circunstâncias importam em particular
para democracias mais jovens e de baixa renda. Por sua vez, “onde a governança é
ruim – em particular, onde a corrupção e o abuso de poder são galopantes, e onde

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a desigualdade é extrema e está se intensificando – pode não importar muito para a
democracia que a economia como um todo está se expandindo. Na medida em que as
democracias dependem para sua sobrevivência do apoio ou, pelo menos, da aquiescên-
cia dos governados, a má governança mina aquele apoio e inclina as democracias para
o risco de calamidade. Os dados da pesquisa e as tendências objetivas sugerem que em
a curto prazo, os fatores políticos podem ser mais importantes do que os econômicos
em determinar o destino de novas e frágeis democracias”.
3 Runciman (2018) salienta que nossas instituições políticas ainda não foram capazes de
oferecer respostas satisfatórias para esses novos problemas, de desenvolver arranjos ins-
titucionais que possibilitem a submissão das “máquinas” e das pessoas que as controlam
à política democrática, e fazer bom uso delas para o aperfeiçoamento da democracia.
Cf. Mounk (2019).

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resumo – Nos últimos anos, a ideia de que os regimes políticos liberal-democráticos


“maduros” encontram-se em crise pela emergência de líderes, ideias e movimentos
autoritários, populistas e nacionalistas tem ocupado uma posição central nos debates
políticos, jornalísticos e acadêmicos. Neste artigo, discutiremos a dimensão jurídico-
-institucional da crise contemporânea da democracia brasileira e suas especificidades
em face do contexto global. Para tanto, analisamos o próprio conceito de crise da de-
mocracia liberal-representativa e sua aplicação ao contexto político brasileiro e global
contemporâneo e, em seguida, exploramos as diferentes dimensões explicativas para a
crise em suas correlações com os arranjos jurídico-institucionais.
palavras-chave: Arranjos jurídico-institucionais, Crise, Democracia liberal-representa-
tiva, Direito, Interdisciplinaridade.
abstract – In recent years, the idea that “mature” liberal-democratic political regimes
are in crisis due to the emergence of authoritarian, populist and nationalist leaders, ideas
and movements has occupied a central position in political, journalistic and academic
debates. In this article, we will discuss the legal-institutional dimension of the contem-

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porary crisis of Brazilian democracy and its specificities in the face of the global context.
In order to do so, we analyze the very concept of crisis of liberal-representative democ-
racy and its application to the contemporary Brazilian and global political context, and
then we explore the different explanatory dimensions for the crisis in its correlations
with the legal-institutional arrangements.
keywords: Legal-institutional arrangements, Crisis, Liberal-representative democracy,
Law, Interdisciplinarity.

Murilo Gaspardo é vice-diretor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp/


Câmpus de Franca – SP e professor associado da mesma instituição. Livre-docente
(Unesp), doutor, mestre e bacharel em Direito pela USP. @ – [Link]@[Link]
/ [Link]
Maria Paula Dallari Bucci é professora associada do Departamento de Direito do Es-
tado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Livre-docente (Unesp),
doutora, mestre e bacharela em Direito pela USP. @ – mariapaula@[Link] /
[Link]
Vanessa Corsetti Gonçalves Teixeira foi pós-doutoranda na Faculdade de Ciências
Humanas e Sociais da Unesp/Câmpus de Franca - SP. Doutora, mestre e bacharela em
Direito pela USP. @ – [Link]@[Link] /
[Link]
Carolina Gabas Stuchi é secretária adjunta do Patrimônio da União do Ministério da
Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, e professora adjunta da Universidade Fede-
ral do ABC. Doutora e bacharela em Direito pela USP. @ – carolinastuchi@[Link] /
[Link]
José Duarte Neto é professor do Departamento de Direito Público da Faculdade de
Ciências Humanas e Sociais da Unesp/Câmpus de Franca - SP. Doutor em Direito pela
USP, mestre e bacharel em Direito pela Unesp. @ – [Link]@[Link] /
[Link]
Rubens Beçak é professor associado do Departamento de Direito Público da Faculdade
de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Livre-docente pela Unesp,
doutor, mestre e bacharel em Direito pela USP. @ – [Link]@[Link] /
[Link]
Daniel Campos de Carvalho é assessor de Relações Institucionais do Gabinete da Reito-
ria da Unifesp e professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da mesma
Universidade. Doutor, mestre e bacharel em Direito pela USP. @ – dccarva@[Link]
/ [Link]
Recebido em 29.6.2022 e aceito em 26.10.2022.

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências


I,III,V

Humanas e Sociais, Franca, São Paulo, Brasil.


II
Universidade de São Paulo, Faculdade de Direito, São Paulo, Brasil.
IV
Universidade Federal do ABC, São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil.
VI
Universidade de São Paulo, Faculdade de Direito, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.
VII
Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil.

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