ARQUITETURA E A SAÚDE DO USUÁRIO1
SOETHE, Andreza
Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, [Link]@[Link]
LEITE, Leandro S.
Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, arqlsleite@[Link]
RESUMO
Este artigo tem como objetivo discutir a maneira como a arquitetura é capaz de
influenciar a saúde e o bem-estar dos indivíduos. A pesquisa apresenta uma breve
revisão teórica sobre a relação existente entre a arquitetura e a saúde, o homem e o
ambiente e os aspectos ambientais que influenciam diretamente a saúde do usuário.
Como prática de pesquisa adota-se a revisão bibliográfica do tema e, a partir do
conteúdo apresentado, conclui-se sobre a importância do projeto arquitetônico em
termos de saúde e geração de bem-estar.
Palavras-chave: Arquitetura, Saúde, Bem-estar.
ABSTRACT
This article aims to discuss how the architecture is able to influence the health and well-
being of individuals. The research presents a brief literature review on the relationship
between architecture and health, the man and the environment and environmental
issues that directly influence the health of the user. As a practical research takes up the
bibliographic review and, from the content presented, we conclude about the
importance of architectural design in terms of health and the generation of welfare.
Keywords: Architecture, Health, Wellbeing.
1 INTRODUÇÃO
A arquitetura de ambientes assistenciais de saúde tem mudado seu foco de
atenção, visto que, por diversos motivos, o próprio modelo de atuação
médica tem passado por profundas transformações. Historicamente, edifícios
destinados à assistência em saúde tornaram-se locais privilegiados para a
prática médica. No entanto, um novo modelo centrado na promoção da
saúde vem ganhando força. Este novo modelo busca promover não só a
prevenção de doenças, como também a constituição de locais humanizados,
focados nas necessidades e qualidade de vida dos usuários. Nesse contexto,
surgem novos requisitos para a arquitetura destes espaços.
Desta forma, o artigo investiga a maneira como o ambiente interfere na saúde
do usuário e de que modo pode contribuir positivamente para o bem-estar e
1
Trabalho apresentado no IV SBQP 2015. Universidade Federal de Viçosa.
Disponível em: [Link]
processo de cura do mesmo. Para tal, realiza-se uma breve revisão teórica
sobre a relação existente entre a arquitetura e a saúde, contextualizando-a ao
longo da história até os conceitos atuais; o homem e o ambiente, sob a ótica
da Psicologia Ambiental; e a maneira como os aspectos ambientais interferem
na saúde e bem-estar dos usuários.
2 ARQUITETURA E SAÚDE
Muito antes que a medicina, a arquitetura foi a primeira arte a ocupar-se do
hospital. A ideia de que o doente necessita de cuidados e abrigo é anterior à
possibilidade de lhe dispensar tratamento médico. Segundo Costeira (2004) os
primeiros hospitais datam da Antiguidade, onde não se dispunha de
tecnologia médica sofisticada e a população buscava a cura por meio da
purificação e do bem-estar. Templos, conventos e mosteiros foram as primeiras
instituições a recolher doentes e dar-lhes atenção especial. A proposta dessas
estruturas era de oferecer cuidados ao corpo e à alma dos indivíduos,
incluindo a construção de termas, templos e espaços para meditação e
prece, junto aos oráculos e aos espaços de acolhimento.
Segundo Toledo (2004) foi somente a partir do século XVIII que a doença
passou a ser reconhecida como fato patológico, formando-se o conceito de
hospital. Neste novo contexto, as questões funcionais e espaciais tornaram-se
mais importantes, resultando em um aperfeiçoamento dos processos projetuais
das edificações hospitalares. Assim, a partir do século XIX a arquitetura
hospitalar passou a ser produzida de forma racionalista, transpondo para o
espaço os programas funcionais elaborados no final do século XVIII2 (TOLEDO,
2004).
Desta forma, consolidou-se no século XIX o sistema pavilhonar: grandes
pavilhões de enfermarias, constituídos por pé direito generoso, ventilação
cruzada e amplas janelas que possibilitavam a entrada de luz e sol. Na mesma
época, na América do Norte, o modelo passou a ser substituído pelo partido
arquitetônico de monobloco vertical: bloco compacto com vários pisos, que
foi impulsionado pelo desenvolvimento acelerado da construção (TOLEDO,
2004).
Para Toledo (2004), com a adoção do monobloco vertical ocorreu uma certa
ruptura entre a relação, que até então parecia existir, entre práticas médico-
hospitalares e o espaço arquitetônico. Pois sua adoção coincidiu com o
aumento de procedimentos tecnológicos no tratamento médico, colocando
em segundo plano aspectos do ambiente e transformando o espaço em mero
suporte físico das práticas curativas.
Oposto à essa realidade e com o intuito de reestabelecer a relação entre
arquitetura e saúde, surge o conceito de humanização, que é o resgate da
importância dos aspectos emocionais, indissociáveis dos aspectos físicos na
intervenção em saúde. Como lembra Vasconcelos (2004) a enfermeira
Florence Nightingale em suas publicações no século XIX, já enfatizava a
importância de atributos como ventilação adequada, saneamento, controle
do ruído e da luz para a qualidade do ambiente. Segundo Nightingale, o
2 No século XVIII pesquisas passaram a ser realizadas em hospitais europeus e os resultados
revelaram a precariedade das unidades pesquisadas, chamando a atenção para as elevadas
taxas de mortalidade dos pacientes (TOLEDO, 2004).
primeiro requisito de um hospital era que seu ambiente não fizesse mal aos
pacientes.
Hoje, o termo saúde tem um significado muito mais abrangente, ligado não só
aos serviços oferecidos pelo hospital, mas também às premissas que definem
qualidade de vida. Sob essa nova ótica, os parâmetros que indicam uma vida
saudável incluem a capacidade do ser humano de usufruir de educação,
cultura, trabalho e bem-estar em todos os níveis, além de uma vida produtiva
e de qualidade (COSTEIRA, 2004). Nesse panorama, Costeira (2004, p.77) diz
que:
[...] novas diretrizes precisam ser adotadas para os projetos de
estabelecimentos de atenção à saúde, com a mudança do
atual modelo para um novo, que atenda à verdadeira
promoção da saúde, e com projeto e implantação centrados
na figura do paciente, proporcionando, em seus ambientes, o
desenvolvimento de atividades que poderão cumprir seu papel
de prestação de cuidados para a cura de enfermidades,
agregando qualidade e um verdadeiro senso de humanismo
no contato com o usuário.
Entende-se que a elaboração do projeto de estabelecimentos assistenciais de
saúde, além de atender às demandas da tecnologia médica, deve
contemplar de forma fundamental, a satisfação do usuário, por meio do
conforto ambiental em seus diversos aspectos. “Estabelece-se, portanto, a
necessidade da prática de uma arquitetura especial. Uma arquitetura que
nasce do conceito mais primitivo da casa, do abrigo, dos valores topológicos
e psicológicos” (BITENCOURT, 2004, p. 29).
Assim, o planejamento das instituições de assistência à saúde
precisa estabelecer, ao lado da adequação funcionalista de
seus espaços e fluxos, dados de luz, cor, textura, conforto
acústico e climático, além de um sentido estético que remeta
ao paciente as sensações de acolhimento, segurança e
conforto psicológico. (COSTEIRA, 2004, p. 87).
Costeira (2004) também lembra do desenho de ambientes baseado em
evidências, da arquiteta Jain Malkin, que aponta resultados de eficiência
operacional e produtividade, para a área da saúde. Segundo Malkin apud
Costeira (2004), uma nova geração de estabelecimentos de assistência à
saúde está emergindo: santuários espirituais com jardins, fontes, luz natural,
arte e música, e que podem efetivamente melhorar os resultados de
tratamentos de saúde. Para o desenho baseado em evidências existem
requisitos fundamentais, descritos no Quadro 1.
Quadro 1 – Requisitos para o desenho baseado em evidências
Requisito Descrição
Eliminar os fatores ambientais estressantes, como ruído, falta de
1 privacidade, iluminação excessivamente forte, baixa qualidade
do ar interior.
Conectar o usuário com a natureza por meio de jardins
2 panorâmicos para o exterior, jardins internos, aquários, elementos
arquitetônicos com água, etc.
Oferecer opções e escolhas para o controle individual incluindo
3
privacidade versus ambiente social, controle da intensidade da
luz, escolha do tipo de música no ambiente, opções de posições
no sentar, silêncio e quietude versus áreas “ativas”.
Disponibilizar oportunidades de socialização por meio de arranjos
4 convenientes de assentos que promovam privacidade aos
encontros de grupos.
Promover atividades de entretenimento “positivas”, como arte
interativa, aquários, conexão com a internet, música ambiente,
5 acessibilidade a vídeos especiais com programas que possuam
imagens e sons reconfortantes e adequados à assistência à
saúde.
Promover ambientes que remetam a sensação de paz,
6 esperança, reflexão, conexão espiritual, relaxamento, humor e
bem-estar.
Fonte: Costeira, 2004. Elaborado pela autora.
Resumidamente, as bases dos conceitos apresentados para orientar a
arquitetura de ambientes de saúde, são consolidadas por Costeira (2004) em 6
(seis) recomendações (Quadro 2) a serem priorizadas nos projetos.
Quadro 2 – Recomendações para orientar a arquitetura de ambientes
de saúde
Recomendação Descrição
...o paciente, dotando os ambientes de acesso à unidade – as
“portas de entrada” – de aspectos de conforto, ampla oferta de
informações, sinalização conveniente, facilitação de fluxos, salas
Acolher... de espera acolhedoras, facilidades como comunicação
telefônica, cantina, atendimento pelo serviço social, áreas
especiais para crianças e agilidade nos acessos a ocorrências
muito graves ou muito complexas.
...os estabelecimentos, agregando ao projeto todas as premissas
para um grande conforto na distribuição de rede lógica, que
possa ser dimensionada e flexibilizada o suficiente para atingir
Informatizar...
pontos disseminados por todos os setores, postos de enfermagem,
salas de telemedicina, centros cirúrgicos, serviços de imagem e
laboratoriais, prevendo também sua expansão.
...a saúde da população por meio da integração dos mais
diversos programas de prevenção e promoção de saúde,
destinando áreas e espaços adequados para a educação de
Promover... saúde e o desenvolvimento de ações de treinamento,
convivência, didática e qualificação de médicos, enfermeiros,
atendentes e usuários, na direção de implementação das ideias
do movimento das cidades saudáveis.
...a concepção da estrutura física da unidade, dotando seu
desenho de atributos arquitetônicos para a sua futura ampliação,
incorporação de tecnologia, reformas e readequações, por meio
Flexibilizar... de modulação do desenho, racionalização de circulações,
setorização adequada de serviços, análise criteriosa do
programa arquitetônico e estabelecimento correto do perfil da
unidade.
...os ambientes, incorporando itens de conforto ambiental que
Humanizar...
sejam capazes de afastar os fatores estressantes inerentes aos
espaços hospitalares do passado, e tendo como principal foco
da atenção e de cuidados projetuais os desejos, as aspirações e
as necessidades do paciente e a sua total integração com a
natureza, o respeito à sua individualidade e a visão de conjunto
de sua saúde física, psicológica, social e espiritual.
...tecnologia, conforto ambiental e agilidade de fluxos com uma
criteriosa escolha na especificação de materiais construtivos e de
acabamentos, sistemas construtivos, modulação, durabilidade,
segurança e facilidade na sua manutenção, agregando
Compatibilizar...
conceitos de prevenção e controle de infecção hospitalar e de
biossegurança, dotando os estabelecimentos de potencial para
atingir muitos anos de uso, com ambientes satisfatórios, eficiente
e sólido.
Fonte: Costeira, 2004. Elaborado pela autora.
Sendo assim, a humanização de ambientes consiste na qualificação do
espaço construído a fim de promover ao seu usuário conforto físico e
psicológico, para a realização de suas atividades, através de atributos
ambientais que provocam a sensação de bem-estar. Mas não trata-se apenas
disso, envolve principalmente a forma como o usuário do espaço percebe
cada um dos elementos do ambiente e a forma como cada um desses
elementos vai influenciá-lo.
2.1 O homem e o ambiente
Apesar de viver-se essencialmente em ambientes edificados, e de a
capacidade para cria-los ser imensa, pouco tem sido feito no sentido de
ampliar o conhecimento sobre a influência desses ambientes sobre o
comportamento humano. Grande parte deste problema recai sobre a própria
indefinição sobre as áreas de conhecimento a que pertence o estudo desta
relação. No entanto, segundo Elali (1997) suas vertentes podem ser
encontradas em diversas áreas, dentre as quais: Psicologia e Arquitetura.
Felizmente, o gradual surgimento de trabalhos interdisciplinares tem introduzido
mudanças neste paradigma. Visto que, nem a Psicologia tradicional, nem a
Arquitetura consegue abarcar totalmente a relação pessoa-ambiente, surge
um espaço comum entre ambas: a Psicologia Ambiental (ELALI, 1997). Na
busca de uma definição para o termo, Pinheiro, Günther e Guzzo (2006, p. 7)
dizem que:
A Psicologia Ambiental estuda o homem em seu contexto físico
e social. Busca suas Inter-relações com o ambiente, atribuindo
importância às percepções, atitudes, avaliações ou
representações ambientais, ao mesmo tempo considerando os
comportamentos associados a elas. A Psicologia Ambiental se
interessa pelos efeitos das condições do ambiente sobre os
comportamentos individuais tanto quanto como indivíduo
percebe e atua em seu entorno. Os efeitos destes fatores,
físicos e sociais, estão associados à percepção que se tem
deles, e, neste sentido, estudam-se as interações.
A formação em Arquitetura, centrada na edificação, muitas vezes esquece o
vínculo desta com o homem. Deve-se refletir sobre a influência que a
Arquitetura exerce sobre a vida da população. Para Elali (1997, p. 353) o
principal objetivo da edificação.
[...] deve ser garantir a qualidade de vida da população. Sob
esta ótica, o edifício deixa de ser encarado apenas a partir das
suas características físicas (construtivas) e passa a ser
avaliado/discutido enquanto espaço “vivencial”, sujeito à
ocupação, leitura, reinterpretação e/ou modificação pelos
usuários, ou seja, ao estudo de aspectos construtivos e
funcionais do espaço construído acrescenta-se a análise
comportamental e social essencial à sua compreensão.
Como visto, pode-se afirmar que todo espaço possui uma função social. É no
espaço que o homem elabora conteúdos conscientes e inconscientes, através
das formas e funções de um ambiente, e dos registros e informações gerados
por tal. Desta forma, com a constante apropriação humana, o espaço
apresenta uma memória própria: uma história de vida, que abriga a produção
do passado, as experiências presentes e as expectativas futuras (COSTA, 2001).
Se a arquitetura possui o poder de influenciar o aparecimento de
enfermidades físicas e psíquicas, se pressupõem que também pode agir de
maneira contrária, e contribuir para com a saúde de seus usuários. Tais fatores,
segundo Vasconcelos (2004) – baseada nas ideias de Roger Ulrich – são os
responsáveis pela redução do estresse e promoção de bem-estar aos usuários.
São eles: controle do ambiente, suporte social possibilitado pelo ambiente e
distrações positivas do ambiente. Com estes três fatores, Ulrich propôs uma
estrutura de redução psicológica do estresse (VASCONCELOS, 2004).
2.1.1. Controle do ambiente
O controle pode ser definido como um recurso de regulação e flexibilização
do espaço. A falta de controle sobre o ambiente pode estar relacionada à
produção e ao aumento de estresse, pois as pessoas sentem a necessidade
de controlar o ambiente que as cerca.
Vasconcelos (2004) lembra que evidências científicas demonstram que locais
confusos, sem privacidade e que não permitem ao indivíduo controlar seu
ambiente imediato, prejudicam o usuário, reduzindo sua sensação de
autonomia. Isto pode lhe causar depressão, passividade, aumento da pressão
arterial e redução da funcionalidade do sistema imunológico. Assim, a
possibilidade de controle sobre o ambiente reduz o estresse, pois a simples
consciência de que se tem uma opção, por menor que seja, faz com que o
indivíduo sinta-se melhor. O controle sobre as características do ambiente
como iluminação, temperatura e ruídos, bem como a livre escolha sobre sua
apropriação territorial, através de sua configuração, mobiliário, interações
público/privado e acessibilidade, são capazes de refletir positivamente no
bem-estar do usuário, pois conferem-lhe autonomia.
2.1.2 Suporte social possibilitado pelo ambiente
Pessoas que mantém contato frequente com familiares, amigos ou grupos de
suporte social, obtém maiores benefícios para seu estado físico e emocional,
especialmente durante tratamentos de saúde. Estudos demonstram que
indivíduos com algum tipo de suporte social apresentam menores índices de
estresse e frequente sensação de bem-estar, se comparados àqueles que não
recebem apoio algum. (VASCONCELOS, 2004)
Neste sentido, Vasconcelos (2004) menciona um estudo realizado pela
Stanford University. No estudo ficou comprovado que pacientes participantes
de um programa de apoio pós-câncer de mama, viveram 4 (quatro) anos a
mais do que aqueles que não tiveram o mesmo nível de suporte durante o
processo de recuperação.
O ambiente, de diversas maneiras, é capaz de contribuir para o aumento da
interação entre as pessoas. Sendo confortável, aconchegante e com
mobiliário propício e flexível – que permita o rearranjo conforme as
necessidades do grupo que o utiliza – o ambiente torna-se favorável à
interação social. O projeto arquitetônico também pode encorajar o
desenvolvimento de um suporte social ao apresentar espaços específicos para
este fim. Como é o caso de ambientes para reuniões, formação de grupos,
espaços para lazer ou até mesmo para a oração (VASCONCELOS, 2004).
Espaços que forçam esta interação e não respeitam a escolha de
privacidade, não proporcionam bem-estar, deve-se dosar o nível de interação
social oferecido pelo projeto.
2.1.3 Distrações positivas do ambiente
Pesquisas na área da Psicologia Ambiental apontam que a sensação de bem-
estar é geralmente causada quando o ambiente físico oferece um grau
moderado de estimulação positiva: níveis de estimulação que não são nem
tão altos nem tão baixos (VASCONCELOS, 2004). Se o nível de estimulação é
muito alto, o acúmulo destes estímulos no usuário vai lhe causar estresse. Por
outro lado, se o nível de estimulação for muito baixo, ou nem existir, o indivíduo
estará mais propício à depressão ou a sentimentos ruins. Vasconcelos (2004, p.
43), com base em Ulrich, conclui que:
A distração positiva é, portanto, proporcionada por um
ambiente formado por elementos que provocam sentimentos
positivos no paciente, prendendo sua atenção e despertando
seu interesse para outras coisas além da sua doença, sem
cobrança ou estresse individual, o que reduz ou até mesmo
bloqueia os pensamentos ruins.
Dosar os estímulos, através dos elementos que compõem o ambiente, não é
uma tarefa fácil. Como princípio, deve-se conhecer bem o público ao qual se
destina o espaço e as atividades que serão realizadas. No entanto, estratégias
como visuais para a natureza e jardins, trabalhos de arte, mobiliário interativo,
presença de elementos como a água, iluminação e uso de cores, entre outros,
podem ser entendidas não só como componentes estéticos, mas sim como
parte integrante de ambientes que promovem a cura (VASCONCELOS, 2004).
No entanto, para integrar estes elementos ao projeto, é preciso conhecer e
compreender como estes geram efeitos sobre a saúde e o bem-estar dos
usuários, para enfim aplica-los de maneira correta aos estímulos desejados.
2.2. Efeitos ambientais sobre a saúde e o bem-estar
Voordt e Wegen (2013, p. 195) reforçam que segundo a Organização Mundial
da Saúde, “[...] saúde não é apenas ausência de doença e enfermidade, mas
um estado de bem-estar físico, mental e social ótimo”. Tendo em vista esta
definição e os conceitos apresentados até aqui, fica possível afirmar que as
características de uma edificação podem afetar a saúde e o bem-estar de
maneira positiva ou negativa.
São inúmeras as estratégias de projeto que podem ser utilizadas para
proporcionar bem-estar e efeitos positivos sobre a saúde do usuário. A
Psiconeuroimunologia é uma das áreas da ciência que estuda o efeito destes
elementos sobre o ser humano. De acordo com Vasconcelos (2004, p. 46),
baseada na definição de Gappell,
A Psiconeuroimunologia é a arte e ciência de criar ambientes
que ajudam a evitar doenças, acelerar a cura e promover o
bem-estar das pessoas. Estuda os estímulos sensoriais, os
elementos do ambiente que os causam, e as relações entre
estresse e saúde. Seus estudos demonstram que a variação na
quantidade de estímulos sensoriais é necessária, pois a
condição de monotonia permanente induz a distúrbios
patológicos.
O termo Psiconeuroimunologia (PNI) foi criado por Robert Ader para se referir
às emoções que estão em jogo na patogenia3 das doenças físicas, que se
associam às disfunções imunológicas. Refere-se especialmente a doenças
relacionadas ao estado de incapacidade do sistema imunológico, como:
câncer, infecções e doenças alérgicas. “Este campo emergente é promissor
na descoberta de como as emoções podem influenciar o início e o progresso
de doenças como o câncer”, diz Malkin (1991, p. 17, apud VASCONCELOS,
2004, p. 47). No centro desta teoria está a noção de que o fracasso das
defesas psicológicas é muitas vezes responsável pelo início e desenvolvimento
de doenças. (VASCONCELOS, 2004)
Vasconcelos (2004) cita os seis fatores, que segundo Gappell, influenciam o
bem-estar físico e emocional do ser humano: luz, cor, som, aroma, textura e
forma. Estes elementos possuem impacto tão grande no psicológico e no físico
dos indivíduos que podem ser considerados partes importantes do tratamento.
Além disso, a acessibilidade, o conforto térmico, a ergonomia e a integração
com espaços verdes são imprescindíveis em projetos que buscam a máxima
satisfação e bem-estar de seus usuários.
Para melhor compreensão o Quadro 3 apresenta os efeitos do ambiente sobre
a saúde humana, tendo como referência 4 (quatro) grupos de pessoas
relacionadas a ambientes destinados à saúde, na sequência traz
recomendações para projetos.
Quadro 3 - Efeitos ambientais sobre a saúde e o bem-estar
Paciente
Visitante
Vizinhos
Equipe
Fator Efeito favorável comprovado
Recomendações
s
ambiental sobre a saúde e o bem-estar
ILUMINAÇÃO E VISTAS
Recuperação mais rápida Inserção de aberturas que
do biorritmo depois de forneçam parte ou mesmo
X
anestesia. Melhor condição toda a iluminação
1. Boa luz
física. necessária. Deve-se
natural
considerar que as
Melhor absorção de variações da intensidade
X
vitaminas e sais minerais. luminosa ao longo do dia
3
Parte da Patologia que estuda a origem das doenças (MICHAELIS, 1998).
Aumento de produtividade podem impactar o
de 2% a 3%. conforto visual e térmico.
2. Vista da luz Melhor sensação de tempo, Inserção de aberturas para
X X X
natural clima e localização. a paisagem externa.
Reforço de identidade.
Melhora da atmosfera.
3. Iluminação Aumento da segurança X X X X Seguir a Norma NBR 5413 –
artificial dentro e em torno das Iluminação de Interiores.
apropriada edificações.
Aumento de produtividade. X
Redução da agitação. Uso de luz em tom
4. Uso de Aumento do caráter.
X X X amarelado, que
cores Reconhecimento e senso de proporciona a sensação
funcional e direção. de aconchego e
ergonômico
Aumento de produtividade. X relaxamento.
Projetar corretamente o
Melhora da atmosfera. nível de iluminação e
5. Qualidade
Apoio à função. X X X X proporcionar ambiente
da luz
Relaxamento. íntimo e aconchegante
através da mesma.
ATMOSFERA E IDENTIDADE
Reunião, distração,
relaxamento, regeneração,
recreação ativa, expressão X X X
cultural, redução do
Projetar locais para
6. Sala com estresse.
reuniões, formação de
propósitos
Conversas particulares, grupos, espaços para lazer
especiais X X X
privacidade, alívio mental. e oração.
Reflexão e oração, alívio
mental, força espiritual, X
consolo.
Projetar locais de trabalho
Menos perturbação, mais que respeitem a
7. Escritórios
concentração, 2% a 4% mais privacidade,
celulares (< 4 X
produtividade da mão-de- territorialidade e
pessoas)
obra. apropriação de cada
indivíduo.
Projetar espaços
8. Projeto confortáveis e com
Estímulo a reuniões,
adequado mobiliário flexível – que
distração, relaxamento ou
ao nível de X X X X permita o rearranjo
simplesmente privacidade,
interação conforme as necessidades
individualidade.
social do indivíduo ou do grupo
que o utiliza.
Visuais para a trabalhos de
Relaxamento, arte, mobiliário interativo,
9. Integração
contemplação, apreciação X X X presença de elementos
de artes
da organização. como a água, iluminação
e uso de cores.
Criar ilusões, influenciar
diretamente o espaço e
Fazer uso correto das cores,
10. Cores gerar efeitos diversos.
afim de que estas ajudem
adequadas Diminuir ou aumentar a X X X
a gerar os estímulos
aos estímulos capacidade de percepção,
necessários ao usuário.
de concentração e de
atenção.
SOM E VIBRAÇÕES
Menos perturbação do Escolha adequada de
sono. Menos irritação. móveis e revestimentos,
Menos estresse e problemas X afim de que estes não
de ritmo cardíaco. reflitam ou amplifiquem as
11. Paz e
Recuperação mais rápida. ondas sonoras. Sons
tranquilidade,
naturais, especialmente
menos Melhor concentração,
X X causados pela água e
poluição menos cansaço. vegetação em movimento,
sonora
possuem efeito calmante e
relaxante, e ajudam a
Aumento de produtividade. X
diminuir a intensidade de
sons indesejáveis.
Distração, relaxamento,
12. Música Prever circuito de música
menos necessidade de X
Ambiente ambiente.
analgésico.
AUTONOMIA
13. Controle
pessoal de Prever o máximo controle
Aumento da noção de
venezianas, X X do ambiente por parte de
controle e autonomia.
aquecimento seus ocupantes.
, etc.
AR
14.
Localização Menos risco de transferência Prever localização de
de de infecções. Menos instalações de controle do
instalações problemas de X X X ar em locais adequados,
delicadas em contaminação biológica, seguros, de fácil acesso e
lugares física e química. manutenção.
menos críticos
15.
Menos risco de transferência Prever locais adequados
Separação
de infecções. Menos para manuseio de
entre fontes
problemas de X X X produtos com odor
de
contaminação biológica, desagradável, indesejável
contaminaçã
física e química. ou que contaminem o ar.
o
Menos irritação das vias
aéreas. Menos infecções.
16. Menos X Minimizar ao máximo o uso
Menos problemas com
fontes de odores. de equipamentos ou
poluição do produtos que provoquem a
ar Risco menor de poluição do ar.
desenvolvimento de X X
doenças a longo prazo.
Aumento de produtividade
de 3% a 8%. Redução de X
faltas por doença.
Arranjos florais e
vegetações que
proporcionam fragrâncias
Impressão positiva do
17. Odor agradáveis. As plantas
espaço. Lembrança positiva X X X
agradável possuem a propriedade de
da estada.
purificar o ar, alegrar o
ambiente e promover o
contato com a natureza.
CLIMA
Uso de ventilação natural,
18. Ambiente Conforto, bem-estar, ganho telhados verdes, brise soleil,
interno de produtividade de 10% a vegetação, espelhos
X X X
uniformement 15%, redução de faltas por d’água e sistema de
e bom doença. climatização quando
necessário.
ACESSIBILIDADE
Capacidade de encontrar o Prever projeto de
19. Boa
caminho, aumento da X X sinalização e informação
sinalização
autonomia. visual
Melhor sensação de
20. Piso plano
equilíbrio. Movimentação Uso de piso antiderrapante
não X X X
mais segura. Menos quedas e linear o máximo possível.
escorregadio
acidentais.
21. Espaços Projetar espaços sem
livres de Mais segurança, aumento obstruções físicas e com
X X X
obstruções da autonomia. equipamentos que para
físicas autonomia do usuário.
22. Entrada Projetar espaços de
protegida do Segurança física, aumento transição como halls e
X X X
vento e da da autonomia. marquises, ao abrigo de
chuva intempéries.
ERGONOMIA
Prever mobiliário
23. Tamanho Postura correta,
adequado à
ergonômico relaxamento, menos
X X antropometria do usuário e
dos locais de problemas físicos, maior
com sistema de
trabalho produtividade.
regulagem.
Movimento sem obstrução,
24. Tamanho Projetar circulações em
menos acidentes, aumento
ergonômico X X X dimensões adequadas ao
da privacidade física e
das rotas fluxo de pessoas no local.
social.
ESPAÇO VERDE
25. Bom
Relaxamento, recreação,
acesso e X X X Projeto paisagístico.
melhora do estado físico.
jardins
26. Vista para Relaxamento, regeneração, Aberturas para visuais da
X X X
o verde + apreciação, recuperação paisagem e jardins. Uso de
objetos física mais rápida. vegetação em jardins
naturais internos.
Fonte: Vasconcelos, 2004; Voordt e Wegen, 2013. Adaptado pela autora.
Em alguns casos, uma estratégia pode ser responsável por mais de um efeito
positivo, além disso, é possível integrar estratégias e potencializar seus
resultados.
3 CONCLUSÃO
O projeto arquitetônico desempenha um papel fundamental em termos de
saúde e geração de bem-estar. Os conceitos aqui apresentados são válidos
não só para ambientes assistenciais de saúde, como para todos. A arquitetura
deve fugir da mera função de abrigar atividades e voltar-se para o usuário,
com foco em suas aspirações e necessidades, a fim de somar e contribuir em
termos de qualidade de vida.
REFERÊNCIAS
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revistas/read/arquitextos/02.013/884>. Acesso em: 30 ago. 2014.
COSTEIRA, E. M. A. O hospital do futuro: uma nova abordagem para projetos
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