1 INTRODUÇÃO
As formas de relevo presentes na paisagem foram elaboradas, “esculpidas”, na
escala de tempo geológico recente (Cenozóico) e são o resultado da sucessão de estágios
evolutivos estabelecidos. Essa esculturação resulta da ação de processos relacionados ao
intemperismo e a morfogênese (PEUVAST & SALLES, 2001), cujo grau de atuação
varia de lugar para lugar em função das características geográficas, sobretudo climáticas
e geológicas. No caso das áreas subtropicais, em específico do interior do Estado do
Paraná, estudos relacionados a evolução das encostas no Segundo Planalto Paranaense,
têm revelado ciclos de morfogênese e pedogênese registrados na forma de depósitos
coluviais, colúvio-aluviais e paleossolos enterrados (PAISANI & OLIVEIRA, 1998;
CAMARGO FILHO, 2005; CAMARGO, 2005). Essas informações são importantes,
pois permitem indicar a sequência dos processos evolutivos das encostas.
O grupo de pesquisa Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e Formações
Superficiais, vem se interessando por essa temática, sobretudo para compreender quais
desses processos se destacaram na evolução da paisagem do Planalto Basáltico na região
sudoeste do Paraná e noroeste de Santa Catarina. Até o momento, estudos na escala
regional revelaram que a paisagem exibe 08 níveis remanescentes de superfícies
incompletamente aplainadas, cuja evolução está relacionada ao balanço morfogênese
versus pedogênese, com destaque para a última (PAISANI et al., 2008a).
Essas informações são importantes, deixando em aberto questões pertinentes a
escalas de análise maiores, como a evolução das encostas. Não se sabe se as encostas
dessa região teriam sua evolução comandada, prioritariamente, pelos processos
pedogenéticos ou pelos processos morfogenéticos. Somente estudos de detalhe a respeito
da gênese das formações superficiais encontradas no ambiente de encosta podem ajudar
a responder tal questão. Membros do grupo de pesquisa vêm desenvolvendo trabalhos
de caracterização de formações superficiais tendo como hipótese de análise a idéia de
rebaixamento dos topos planos das encostas por processos pedogeoquímicos. Até o
momento pouco se sabe a respeito do recuo das encostas, se associadas a tais processos
ou a processos morfogenéticos. Registros de formações superficiais que apontem a ação
da morfogênese na evolução das encostas são escassos. Em escala regional é mais
provável de ocorrerem na Superfície de Cimeira, Superfície I, mapeada por Paisani et al.
(2008a).
É possível que encostas estabelecidas em superfícies aplainadas em elaboração,
ombreiras dos atuais sistemas de drenagem da região, tenham estágios evolutivos
associados a processos morfogenéticos. De fato, em duas encostas do médio vale do rio
Marrecas identificou-se depósitos de colúvio que, à primeira vista, poderiam trazer
informações a respeito da evolução das encostas, mesmo que em escala local. Neste
contexto, o presente trabalho de pesquisa teve por objetivo geral levantar a evolução de
duas encostas no médio vale do Rio Marrecas, localizadas no perímetro urbano de
Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná, onde previamente havia se observado depósitos
de colúvio. Em sentido amplo, espera-se com os resultados dessa pesquisa contribuir
para a caracterização de depósitos de colúvio, fácies proximal, derivados da
remobilização de coberturas pedológicas lateríticas, bem como para compreender a
evolução das encostas do médio Vale do Rio Marrecas.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 COLÚVIO
2.1.1. Conceito de Colúvio
Devido a multiplicidade de autores e ramos da ciência que pesquisam sobre o
termo colúvio não se têm um consenso geral sobre seu significado. Dentre as definições
sucintas e mais completas tem-se a de Nemec & Kazanci (1999), na qual o colúvio é um
material típico de escoamento, geralmente constituído por material grosseiro e mal
selecionado, depositado em áreas baixas, sopé de encostas, podendo ocorrer também em
áreas de relevo escarpado.
Além das diferenças de utilização do termo colúvio entre os pesquisadores,
ocorre também uma variedade de concepções na literatura de diferentes países. Nos
trabalhos dos cientistas ingleses o colúvio possui amplo significado, sendo formado por
diversos processos que ocorrem em ambientes montanhosos, escarpados e de encostas.
French (1992 apud LEOPOLD & VÖLKEL, 2007), definiu colúvio como “material
solto, não estratificado, pobremente selecionado, apresentando uma heterogeneidade de
tamanho de grãos, sendo encontrados na base das encostas”.
Já na literatura alemã o significado do termo colúvio é traduzido como
“sedimentos das encostas” (LEOPOLD & VÖLKEL, 2007). De acordo com Starkel
(1987 apud LEOPOLD & VÖLKEL, 2007), os depósitos de encosta são rigorosamente
divididos pelos processos de formação, que podem ser pelas chuvas torrenciais,
depósitos glaciais e periglaciais, queda de blocos, processos eólicos entre outros. Três
fatores diferentes podem dar origem aos processos de formação do colúvio: vento, água
ou gravidade.
Os depósitos de colúvio estão associados, mais frequentemnte a áreas fonte de
sedimentos de relevo mais alto e tem sido reconhecidos pelos geomorfólogos como um
importante produto dos processos de perda de massa das encostas, incluindo as
avalanches que ocorrem nas montanhas. Blikra & Nemec (1998) afirmam que a maioria
dos autores definem o colúvio como depósito de material tipicamente grosseiro e mal
selecionado. Esses depósitos podem ocorrer nas partes inferiores de encosta, feições
escarpadas e montanhas (Figura 01), sendo oriundo de processos gravitacionais. Porém,
segundo Thomas (1994), o termo colúvio é impreciso, podendo ora ser referido ao
material e ora ao processo de sua formação.