2. Hemorragia no segundo trimestre (semanas 14 a 28) (OMS, 2023).
Estas hemorragias são menos frequentes e podem ser uma continuação de condições pré-
existentes ou o início de complicações placentárias.
Possíveis causas:
Plastinia prévia precoce (diagnosticada por ecografia).
Descolamento prematuro da placenta (casos raros).
Ameaça de parto prematuro.
3. Hemorragia no Terceiro Trimestre (Após a 28ª Semana) (FIGO, 2022)
São emergências obstétricas que colocam em risco a vida materna e fetal.
Principais Causas:
Placenta prévia:
Inserção anormal da placenta que cobre parcial ou totalmente o orifício interno do colo do
útero.
Hemorragia vermelho vivo, indolor e recorrente.
Útero flácido, sem aumento do tónus uterino.
Descolamento prematuro da placenta:
Separação parcial ou completa da placenta antes do parto.
Hemorragia escura, dor abdominal intensa, aumento do tónus uterino, sofrimento fetal.
Ruptura uterina:
Rotura da parede uterina, geralmente durante o trabalho de parto.
Dor súbita, deformação uterina, choque materno, cessação das contrações.
Classificação Sumária
1.6 CAUSAS DA GESTORRAGIA
Entre as causas que podem originar a gestorria na primeira metade da gestação, é inevitavel
nao mencionar os seguintes aspectos relavantes sobre a mesma tematica, dentre as quais
podemos destacar:
ABORDO EXPONTANEA:
A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua abortamento como uma interrupção da
gravidez antes da 20a semana de gestação ou com peso abaixo de 500 gramas, podendo ser
classificado como precoce (até a 13ª semana) ou tardio (entre a 13ª e a 20ª semana), (Santos
apud Flávia, 2023). Outra classificação é de acordo com o tipo de abortamento, que pode ser
espontâneo, quando é uma consequência involuntária, ou induzido, quando é uma decisão
colocada em prática. O aborto, por sua vez, é o produto eliminado no abortamento, sendo
possível diferenciá-los por definição. Contudo, ainda é coloquial usar um termo referindo-se
ao significado do outro, (Bacelar apud Flávia, 2023).
A perda gestacional espontânea pode ser diagnosticada através de sinais e sintomas (como
sangramento, dor e febre), exame físico ginecológico (exame especular e o de orifício interno
do colo uterino), e exames complementares (como exames de sangue e ultrassonografia). Por
meio do diagnóstico pode-se definir o abortamento como: inevitável, completo, incompleto,
infectado, retido, recorrente ou ameaça (Marquardt apud Flavia, 2023).
Alterações anatômicas estão entre as principais causas de aborto espontâneo e podem ser
classificadas como congênitas ou adquiridas. As malformações müllerianas recebem destaque
como representantes de anomalias anatômicas congênitas. Já entre as adquiridas podem ser
representadas por: pólipos endometriais, aderências intrauterinas e leiomiomas (Cavalcante,
2020).
Causas genéticas afetam cerca de 45 a 70% de abortamentos espontâneos esporádicos e ocorre
com maior frequência entre gestantes com idade avançada (Hodžić, 2018), em que é comum
defeitos cromossômicos como: trissomias autossômicas, poliploidias e monossomia do
cromossomo X (Rogenhofer, 2020). Fatores masculinos também tem grande impacto em
perdas gestacionais, porque metade da genética do embrião é proveniente da parte paterna,
fato que influencia na proliferação placentária, na capacidade de invadir as células
trofoblásticas e na modulação da proliferação (Cavalcante, 2020). Outro fator que apresenta
certa recorrência de forma similar nos casos de perda gestacional espontânea está relacionado
a distúrbios hormonais. Distúrbios hormonais podem estar associados com o abortamento
devido à íntima associação do sistema endócrino com a capacidade reprodutiva feminina e
afetam de 8 a 12% dos casos de abortos espontâneos do tipo de repetição (Hamadi, 2022).
GRAVIDEZ ECTÓPICA:
O conceito de gravidez ectópica se refere à gestação em que o óvulo se implanta e se de
senvolve fora da cavidade normal do útero. Essa designação engloba diversos cenários, indo
além da gravidez extrauterina, abrangendo também a gravidez cervical, intersticial e aquela
que ocorre em uma cicatriz de cesárea (VIANA & GEBER, 2024).
Apesar do aumento na incidência de gravi dez ectópica, a taxa de mortalidade decorrente dessa
condição diminuiu significativamente nas últimas décadas. No entanto, ainda é a principal
causa de morte materna no primeiro trimestre da gravidez.
A gravidez ectópica geralmente se encontra associada a fatores de risco que causam lesão
tubária ou alteração no transporte ovular. Alguns dos factores de risco aventados como
responsáveis pelo crescente número de casos de gravidez ectópica (ROCHA et al., 2014).
A Doença Inflamatória Pélvica: Infecções genitais, principalmente causadas por Chlamy dia
trachomatis e Neisseria gonorrhoeae, po dem levar a notáveis modificações nas tubas uterinas.
Além de obstruir essas estruturas e es sas infecções frequentemente resultam em re dução da
quantidade e da movimentação dos cí lios, união das dobras da mucosa com estreita mento da
luz tubária, formação de pequenos di vertículos e danos às fímbrias (ZUGAIB, 2023).
GRAVIDEZ MOLAR (DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL):
Após a fecundação, várias etapas acontecem até o início da gestação. Utilizamos otermo
Doença Trofoblástica Gestacional para nomear uma falha no momento da fertilização. Esse
erro leva a um desenvolvimento placentário anormal e causa falência no desenvolvimento
fetal, ou seja, o embrião não se desenvolve e as células do tecido trofoblástico continuam a
se dividir
desordenadamente e formam um aspecto de “cacho deuva’’. A DTG constitui um grupo de
doenças da placenta conhecidas como Mola Hidatiforme Completa (MHC) e Mola
Hidatiforme Parcial (MHP), capazes de evoluir para formas invasoras e/ou malignas, como as
neoplasias (MONTENEGRO e REZENDE;2017); (NISHIOKA, 2019).
Como a Gravidez Molar (GM) é um estado de gestação agravado, logo é conhecida por elevar
exageradamente os níveis de hCG. Em 1959 foi criada a 33° Enfermaria da Santa Casa de
Misericórdia do Rio de Janeiro, sob a chefia de Jorge de Rezende. Sob a direçãodo professor
Ericsson Linhares, nela foi instalado um laboratório de hormônios com a finalidade de dosar
os níveis de hCg (BELFORT e BAPTISTA; 2010).
As mulheres diagnosticas com essa doença apresentam uma sintomatologia abundante, como
hemorragia vaginal em mais de 95% das pacientes, útero aumentado para a idade gestacional,
vômitos intensos e recorrentes devido às intensas alterações endócrinas, sendo vulnerável ao
emagrecimento e desidratação, cistos teca-luteínicos dosovários resultantes da hiper
estimulação pelo hCG, pré-eclâmpsia, hipertireoidismo e embolização trofoblástica
(BELFORT; BRAGA; 2004), (MONTENEGRO; REZENDE; 2017).
SANGRAMENTO DE IMPLANTAÇÃO:
O sangramento na primeira metade da gestação é uma condição clínica relevante que afeta até
30% das gestantes, sendo uma das principais causas de consultas de emergência em serviços
obstétricos. Este fenômeno pode ser desencadeado por uma variedade de fatores, que vão
desde causas fisiológicas benignas, como o sangramento de implantação, até complicações
graves, como o aborto espontâneo, a gravidez ectópica e a doença trofoblástica gestacional. A
presença de sangramento durante esse período da gravidez pode gerar grande ansiedade e
incerteza para a gestante, além de representar um desafio diagnóstico e terapêutico para os
profissionais de saúde (AMIRO et al., 2019).
A compreensão das diferentes etiologias é fundamental para orientar a abordagem clínica,
uma vez que o manejo adequado depende do diagnóstico preciso e precoce de cada condição.
A identificação dos fatores de risco, como a história obstétrica, presença de doenças crônicas
maternas e hábitos de vida, é essencial para a estratificação do risco e a definição do plano de
cuidados. A ultrassonografia transvaginal e a dosagem sérica do hormônio β-hCG são
ferramentas diagnósticas de primeira linha, permitindo a diferenciação entre as diversas
causas de sangramento e a identificação de gestações de risco (EATON et al., 2016).
Nos casos de sangramento de implantação, a conduta geralmente é expectante, uma vez que
não há risco significativo para a continuidade da gestação. Por outro lado, condições como a
gravidez ectópica e a mola hidatiforme requerem intervenção imediata para evitar
complicações maternas graves, como ruptura tubária e disseminação metastática da doença
trofoblástica. O aborto espontâneo, por sua vez, deve ser manejado de acordo com a
apresentação clínica e as preferências da paciente, podendo envolver desde a conduta
expectante até a intervenção cirúrgica (MASCARENHAS et al., 2021).
1.6-CONSEQUÊNCIAS DA GESTORRAGIA
A gestorragia pode trazer repercussões maternas e fetais, sendo potencialmente grave se não
diagnosticada e tratada precocemente.
1.6.1- CONSEQUÊNCIAS MATERNAS:
1. Hemorragia aguda e choque hipovolêmico: De acordo com Cunningham et al. (2022),
perdas sanguíneas intensas podem levar à instabilidade hemodinâmica e choque, sendo
uma das principais causas de mortalidade materna no mundo.
2. Anemia: Mesmo sangramentos leves e repetidos podem causar anemia ferropriva, com
repercussões na oxigenação tecidual materna e fetal (Rezende & Montenegro, 2022).
3. Distúrbios de coagulação: Em casos graves, como no descolamento prematuro de
placenta (DPP), pode ocorrer coagulação intravascular disseminada (CIVD) devido ao
consumo de fatores de coagulação (Williams Obstetrics, 2022).
4. Infecção e sepse: Quando associada a aborto infectado ou procedimentos invasivos
inadequados, a gestorragia pode evoluir para sepse (Ministério da Saúde, 2013).
5. Necessidade de intervenção cirúrgica: Hemorragias graves podem exigir cesariana de
urgência ou histerectomia, comprometendo a fertilidade futura (ACOG, 2017).
6. Impactos psicológicos: A perda gestacional pode causar ansiedade, depressão e luto
patológico, conforme observado por WHO (2016) em estudos sobre saúde mental
materna.
1.6.2- CONSEQUÊNCIAS FETAIS
As repercussões fetais da gestorragia são igualmente importantes:
1. Aborto espontâneo e morte fetal intrauterina: Sangramentos intensos no primeiro ou
segundo trimestre podem resultar na perda do concepto (NICE, 2021).
2. Prematuridade: Episódios recorrentes de sangramento aumentam o risco de parto
prematuro, o que eleva a morbimortalidade neonatal (Rezende & Montenegro, 2022).
3. Restrição de crescimento intrauterino (RCIU): Ocorre pela redução do fluxo sanguíneo
placentário em casos de DPP ou placenta prévia (Cunningham et al., 2022).
4. Sofrimento fetal agudo e hipóxia: O descolamento prematuro de placenta pode
interromper o suprimento de oxigênio fetal, levando a asfixia perinatal (Williams
Obstetrics, 2022).
5. Anemia fetal: Em condições como vasa prévia ou hemorragias fetomaternas, o feto
pode perder sangue e desenvolver anemia (ACOG, 2018).
1.6.3- IMPACTOS OBSTÉTRICOS GERAIS
A gestorragia está associada a:
1. Aumento da morbimortalidade materna e perinatal.
2. Necessidade de internação hospitalar prolongada.
3. Risco aumentado de complicações obstétricas em gestações futuras (como placenta
prévia e DPP recorrente) (Rezende & Montenegro, 2022; WHO, 2016).