Módulo 5: Ética e educação
TEXTO EXTRAÍDO DOS PARÂMETROS CURRICULARES
NACIONAIS – MEC/SEF
O ser humano vive em sociedade, convive com outros seres
humanos e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte
pergunta: “Como devo agir perante os outros?”. Trata-se de uma
pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora,
essa é a questão central da Moral e da Ética.
Moral e ética, às vezes, são palavras empregadas como sinônimos:
conjunto de princípios ou padrões de conduta. Ética pode também
significar Filosofia da Moral, portanto, um pensamento reflexivo
sobre os valores e as normas que regem as condutas humanas. Em
outro sentido, ética pode referir-se a um conjunto de princípios e
normas que um grupo estabelece para seu exercício profissional
(por exemplo, os códigos de ética dos médicos, dos advogados, dos
psicólogos, etc.). Em outro sentido, ainda, pode referir-se a uma
distinção entre princípios que dão rumo ao pensar sem, de
antemão, prescrever formas precisas de conduta (ética) e regras
precisas e fechadas (moral). Finalmente, deve-se chamar a atenção
para o fato de a palavra “moral” ter, para muitos, adquirido sentido
pejorativo, associado a “moralismo”. Assim, muitos preferem
associar à palavra ética os valores e regras que prezam, querendo
assim marcar diferenças com os “moralistas”.
Como o objetivo deste trabalho é o de propor atividades que levem
o aluno a pensar sobre sua conduta e a dos outros a partir de
princípios, e não de receitas prontas, batizou-se o tema de Ética,
embora frequentemente se assuma, aqui, a sinonímia entre as
palavras ética e moral e se empregue a expressão clássica na área
de educação de “educação moral”. Parte-se do pressuposto de que
é preciso possuir critérios, valores, e, mais ainda, estabelecer
relações e hierarquias entre esses valores para nortear as ações em
sociedade. Situações dilemáticas da vida colocam claramente essa
necessidade. Por exemplo, é ou não ético roubar um remédio, cujo
preço é inacessível, para salvar alguém que, sem ele, morreria?
Colocado de outra forma: deve-se privilegiar o valor “vida” (salvar
alguém da morte) ou o valor “propriedade privada” (no sentido de
não roubar)?
Seria um erro pensar que, desde sempre, os seres humanos têm as
mesmas respostas para questões desse tipo. Com o passar do
tempo, as sociedades mudam e também mudam os seres humanos
que as compõem. Na Grécia antiga, por exemplo, a existência de
escravos era perfeitamente legítima: as pessoas não eram
consideradas iguais entre si, e o fato de umas não terem liberdade
era considerado normal. Outro exemplo: até pouco tempo atrás, as
mulheres eram consideradas seres inferiores aos seres humanos, e,
portanto, não merecedoras de direitos iguais (deviam obedecer a
seus maridos). Outro exemplo ainda: na Idade Média, a tortura era
considerada prática legítima, seja para a extorsão de confissões,
seja como castigo. Hoje, tal prática indigna a maioria das pessoas e
é considerada imoral. Portanto, a moralidade humana deve ser
enfocada no contexto histórico e social. Por consequência, um
currículo escolar sobre a ética pede uma reflexão sobre a sociedade
contemporânea na qual está inserida a escola; no caso, o Brasil do
século XX.
Tal reflexão poderia ser feita de maneira antropológica e
sociológica: conhecer a diversidade de valores presentes na
sociedade brasileira. No entanto, por se tratar de uma referência
curricular nacional que objetiva o exercício da cidadania, é
imperativa a remissão à referência nacional brasileira: a
Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em
1988. Nela, encontram-se elementos que identificam questões
morais.
Por exemplo, o art. 1° traz, entre outros, como fundamentos da
República Federativa do Brasil, a dignidade da pessoa humana e o
pluralismo político. A ideia segundo a qual todo ser humano, sem
distinção, merece tratamento digno corresponde a um valor moral.
Segundo esse valor, a pergunta de como agir perante os outros
recebe uma resposta precisa: agir sempre de modo a respeitar a
dignidade, sem humilhações ou discriminações em relação a sexo
ou etnia. O pluralismo político, embora se refira a um nível
específico (a política), também pressupõe um valor moral: os seres
humanos têm direito de ter suas opiniões, de expressá-las, de
organizar-se em torno delas. Não se deve, portanto, obrigá-los a
silenciar ou a esconder seus pontos de vista; vale dizer, são livres.
E, naturalmente, esses dois fundamentos (e os outros) devem ser
pensados em conjunto. No art. 5°, vê-se que é um princípio
constitucional o repúdio ao racismo, repúdio esse coerente com o
valor dignidade humana, que limita ações e discursos, que limita a
liberdade às suas expressões e, justamente, garante a referida
dignidade.
Devem ser abordados outros trechos da Constituição que remetem
a questões morais. No art. 3°, lê-se que constituem objetivos
fundamentais da República Federativa do Brasil (entre outros):
I) construir uma sociedade livre, justa e solidária; (...) III) erradicar a
pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e
regionais; IV) promover o bem de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação. Não é difícil identificar valores morais em tais
objetivos, que falam em justiça, igualdade, solidariedade, e sua
coerência com os outros fundamentos apontados. No título 11, art.
5°, mais itens esclarecem as bases morais escolhidas pela
sociedade brasileira: I) seres humanos e mulheres são iguais em
direitos e obrigações; (...) III) ninguém será submetido à tortura nem
a tratamento desumano ou degradante; (...) VI) é inviolável a
liberdade de consciência e de crença (...); X) são invioláveis a
intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas (...).
Tais valores representam ótima base para a escolha de conteúdos
do tema Ética. Porém, aqui, três pontos devem ser devidamente
enfatizados. O primeiro refere-se ao que se poderia chamar de
“núcleo” moral de uma sociedade, ou seja, valores eleitos como
necessários ao convívio entre os membros dessa sociedade. A partir
deles, nega-se qualquer perspectiva de “relativismo moral”,
entendido como “cada um é livre para eleger todos os valores que
quer”. Por exemplo, na sociedade brasileira não é permitido agir de
forma preconceituosa, presumindo a inferioridade de alguns (em
razão de etnia, raça, sexo ou cor), sustentar e promover a
desigualdade, humilhar, etc. Trata-se de um consenso mínimo, de
um conjunto central de valores, indispensável à sociedade
democrática: sem esse conjunto central, cai-se na anomia,
entendida seja como ausência de regras, seja como total
relativização delas (cada um tem as suas, e faz o que bem
entender); ou seja, sem ele, destrói-se a democracia, ou, no caso do
Brasil, impede-se a construção e o fortalecimento do País.
O segundo ponto diz respeito justamente ao caráter democrático da
sociedade brasileira. A democracia é um regime político e também
um modo de sociabilidade que permite a expressão das diferenças,
a expressão de conflitos, em uma palavra, a pluralidade. Portanto,
para além do que se chama de conjunto central de valores, deve
valer a liberdade, a tolerância, a sabedoria de conviver com o
diferente, com a diversidade (seja do ponto de vista de valores,
como de costumes, crenças religiosas, expressões artísticas, etc.).
Tal valorização da liberdade não está em contradição com a
presença de um conjunto central de valores. Pelo contrário, o
conjunto garante, justamente, a possibilidade da liberdade humana,
coloca-lhe fronteiras precisas para que todos possam usufruir dela,
para que todos possam preservá-la.
O terceiro ponto refere-se ao caráter abstrato dos valores
abordados. Ética trata de princípios e não de mandamentos. Supõe
que o ser humano deva ser justo. Porém, como ser justo? Ou como
agir de forma a garantir o bem de todos? Não há resposta
predefinida. É preciso, portanto, ter claro que não existem normas
acabadas, regras definitivamente consagradas. A ética é um eterno
pensar, refletir, construir. E a escola deve educar seus alunos para
que possam tomar parte nessa construção, serem livres e
autônomos para pensarem e julgarem.
Mas será que cabe à escola empenhar-se nessa formação? Na
história educacional brasileira, a resposta foi, em várias épocas,
positiva. Em 1826, o primeiro projeto de ensino público apresentado
à Câmara dos Deputados previa que o aluno deveria ter
“conhecimentos morais, cívicos e econômicos”. Não se tratava de
conteúdos, pois não havia ainda um currículo nacional com elenco
de matérias. Quando tal elenco foi criado (em 1909), a educação
moral não apareceu como conteúdo, mas havia essa preocupação
quando se tratou das finalidades do ensino. Em 1942, a Lei Orgânica
do Ensino Secundário falava em “formação da personalidade
integral do adolescente” e em acentuação e elevação da “formação
espiritual, consciência patriótica e consciência humanista” do aluno.
Em 1961, a Lei de Diretrizes e Bases do Ensino Nacional colocava
entre suas normas a “formação moral e cívica do aluno”. Em 1971,
pela Lei n. 5.692/71, institui-se a Educação Moral e Cívica como área
da educação escolar no Brasil.
Porém, o fato de, historicamente, verificar-se a presença da
preocupação com a formação moral do aluno, ainda não é
argumento bastante forte. De fato, alguns poderão pensar que a
escola, por várias razões, nunca será capaz de dar uma formação
moral aceitável e, portanto, deve abster-se dessa empreitada.
Outros poderão responder que o objetivo da escola é o de ensinar
conhecimentos acumulados pela humanidade e não se preocupar
com uma formação mais ampla de seus alunos. Outros ainda,
apesar de simpáticos à ideia de uma educação moral, poderão
permanecer desconfiados ao lembrar a malfadada tentativa de se
implantarem aulas de Moral e Cívica no currículo.
Mesmo reconhecendo tratar-se de uma questão polêmica, a
resposta dada por estes Parâmetros Curriculares Nacionais é
afirmativa: cabe à escola empenhar-se na formação moral de seus
alunos. Por isso, apresenta-se uma proposta diametralmente
diferente das antigas aulas de Moral e Cívica e explica-se o porquê.
As pessoas não nascem boas ou ruins; é a sociedade, quer queira,
quer não, que educa moralmente seus membros, embora a família,
os meios de comunicação e o convívio com outras pessoas tenham
influência marcante no comportamento da criança. E, naturalmente,
a escola também tem. É preciso deixar claro que ela não deve ser
considerada onipotente, única instituição social capaz de educar
moralmente as novas gerações. Também não se pode pensar que a
escola garanta total sucesso em seu trabalho de formação. Na
verdade, seu poder é limitado. Todavia, tal diagnóstico não justifica
uma deserção. Mesmo com limitações, a escola participa da
formação moral de seus alunos. Valores e regras são transmitidos
pelos professores, pelos livros didáticos, pela organização
institucional, pelas formas de avaliação, pelos comportamentos dos
próprios alunos, e assim por diante. Então, ao invés de deixá-las
ocultas, é melhor que tais questões recebam tratamento explícito.
Isso significa que essas questões devem ser objeto de reflexão da
escola como um todo, ao invés de cada professor tomar
isoladamente suas decisões. Daí a proposta de que se inclua o tema
Ética nas preocupações oficiais da educação.
Acrescente-se ainda que, se os valores morais que subjazem aos
ideais da Constituição Brasileira não forem intimamente legitimados
pelos indivíduos que compõem este País, o próprio exercício da
cidadania será seriamente prejudicado, para não dizer, impossível. É
tarefa de toda a sociedade fazer com que esses valores vivam e se
desenvolvam. E, decorrentemente, é também tarefa da escola.