Módulo 3: Inclusão social e
educação
INCLUSÃO ESCOLAR: DESAFIOS E POSSIBILIDADES
A escola é uma realidade histórica em processo contínuo. É preciso
que seja entendida como uma instituição voltada para a realização
da prática pessoal e social, contextualizada nas dimensões espacial
e temporal, revestida de caráter contraditório e complexo. É preciso
privilegiar sua abordagem como processo, não produto acabado. A
escola não é, e, sim, está sendo.
Nesse contexto concreto é que a questão da inclusão escolar e
social deve ser pensada. De forma provocativa, Boaventura Souza
Santos assim se expressa: Temos o direito a ser iguais quando a
diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a
igualdade nos descaracteriza.
Identidades e alteridades são construções históricas e, enquanto
oportunizadas no contexto da escola, precisam ser esmiuçadas. Até
que ponto as diferenças são vistas como fator positivo no cotidiano
da sala de aula? Afinal de contas, a provocação pode ser traduzida
por uma questão muito forte: todas as pessoas são realmente bem-
vindas à escola?
A resposta pode ter múltiplos aspectos. Um jurista pode trazer a
contribuição de todos os instrumentos legais que dão suporte à
garantia de acesso e permanência na escola para todos os alunos.
De um outro patamar, a questão aparece enquanto possibilidade de
fato de termos as condições administrativas e pedagógicas de um
fazer escola que oportunize a educação de todos com qualidade.
Vale aqui dizer que essa discussão está plantada no terreno da
escola regular, dita Escola de Todos, pois no âmbito da escola
especial existe uma tarefa de Atendimento Educacional Especial
prevista por lei e em caráter complementar à escola regular e não
como algo substitutivo.
Portanto, no âmbito da escola comum, a resposta à questão –
“Todas as pessoas são bem-vindas?” – passa pela análise de sinais
inclusivos existentes ou não na realidade que aí está.
Nesse sentido, é pertinente verificar em que medida a escola
contempla:
• Elaboração e fortalecimento dos Projetos Político-Pedagógicos,
incentivando a ação colegiada e o diferencial da respectiva
comunidade.
• Sala de aula – como eixo de ensino e aprendizagem para todos,
criando oportunidades constantes de estudo e pesquisa.
• Trabalho com as diferenças em sala de aula, no contexto da
diversidade cultural: ações que desenvolvam o trabalho com as
diferenças e os variados ritmos de aprendizagem, com alunos
deficientes ou não.
• Articulação teoria e prática: organização de grupos de estudos
contínuos para planejamento, troca de experiências e
monitoramento do processo.
• Trabalho transdisciplinar, como forma de leitura e compreensão
da realidade, com a contribuição das diferentes áreas e a escolha
de temas culturais desdobrados em roteiros semanais e diários de
trabalho do professor com os alunos.
• Transformação das dinâmicas e das metodologias utilizadas em
sala de aula: organização dos tempos e espaços com características
individuais, em dupla, em pequeno grupo e em grande grupo,
viabilizando a ocorrência não apenas de ensino, mas de
aprendizagens que ocorrem nas interações professor e alunos.
• Reorganização do tempo e espaço de forma flexível. O Projeto
escolar pressupõe flexibilidade de horários (aulas geminadas, aulas
curtas, etc.) e ocupação de outros espaços que permitam ritmos e
atividades diversificados.
• Investimentos na infraestrutura material: transporte, merenda e
equipamentos escolares e pedagógicos, como suporte necessário a
todas as atividades em andamento.
• Revisão do processo de avaliação e de seus resultados:
adequação e coerência em relação ao regime de progressão
continuada, organizada em ciclos, quanto aos ritmos de
aprendizagem e ao desenvolvimento humano. Cada escola deve
sistematizar instrumentos de avaliação compatíveis com a
flexibilidade e diversidade.
• Formação em serviço: a aprendizagem permanente não para e o
desafio de uma educação de qualidade está sempre presente para
que os estudos contínuos aconteçam sempre.
Esses sinais, existentes ou não na realidade escolar, denotam
prioridades em relação à inclusão. Eles precisam ser repensados
dia-a-dia para que os discursos não sejam abstrações vazias na
escola regular, dita de todos, mas que se reveste de padronizações
engessantes, que cabem no modelo do regular, e que excluem de
maneira velada as diferenças existentes.
O regular, ao invés de ser uma categoria historicamente construída,
passa a ser um produto pronto, eterno, imutável e universal. Em sua
inflexibilidade, torna-se inquestionável, e a escola o vai
reproduzindo, de forma mecânica, como um padrão, um modelo a
ser seguido e copiado.
A escola regular busca, muitas vezes, anular diferenças, padronizar
e modelizar, excluindo, assim, quem não cabe em seus parâmetros.
Significa a instauração de critérios que dividem e compartimentam,
gerando dualidades que evidenciam tipos estanques. O regular diz
respeito a alguns, mas o perigo mora exatamente aí, já que a escola
é de todos.
Percebe-se então que o regular existe nas minúcias do dia-a-dia. Ele
pode ser claramente percebido quando se tem uma atitude crítica e
atenta para a compreensão da realidade. O regular se manifesta no
jeito de repassar os conteúdos escolares; na sistematização
fragmentada nos cadernos dos alunos e das alunas; na organização
do tempo, padronizando os horários de aulas iguais para todas as
idades; no enfileiramento de carteiras, no espaço das salas de aula,
limitando a criatividade; na invariância das possibilidades.
Tudo isso denuncia o regular instalado, além dos livros didáticos
sacramentados como verdades eternas, constituindo-se em
verdadeiras bíblias didáticas, e os planos de aula, únicos e
inflexíveis, insistindo em domar a diversidade.
No quesito avaliação, os exemplos são ainda mais pródigos: critérios
únicos, instrumentos padrão, rótulos e discriminações, valorização
dos erros e castigos e outros, sinalizando a busca insistente da
homogeneidade, em detrimento da heterogeneidade e das
diferenças humanas.
Promover mudanças, no sentido de substituir padrões de
regularidade tão arraigados, demanda algumas providências de
ordem teórica e prática. É preciso contemplar perspectivas que
coloquem uma dimensão histórica na construção do regular
instalado, de forma a permitir que as diferenças sejam percebidas
como enriquecimento e não como obstáculos a um padrão único
inexistente, mas tantas vezes proclamado. É preciso também que
esse espírito de mudança renove a operacionalização no âmbito da
sala de aula, buscando a perspectiva de valorização da diferença,
ao invés da homogeneização.
Ações são possíveis e elas se situam em diferentes níveis: no
âmbito da sala de aula, do projeto da escola ou em dimensões mais
amplas pertinentes à esfera de políticas inclusivas a serem
adotadas. Algumas prioridades podem ser delineadas, tais como:
• A transformação da escola, em face das demandas do mundo
atual, para atender às diversidades culturais e à necessidade de
novos conhecimentos, não é mera exigência legal, modismo, ou
vontade isolada. É uma responsabilidade inerente à cidadania,
porque a escola de qualidade é a que contempla as diferenças, pois
só assim será a escola de todos, sendo a inclusão uma
consequência natural.
• As políticas públicas em educação precisam priorizar a abertura
de oportunidades para que todos tenham acesso de fato a um
ensino e a uma aprendizagem de boa qualidade.
• A discussão de propostas para uma escola inclusiva e, portanto,
para uma sociedade inclusiva deve ser preocupação da escola dita
regular e não apenas uma prerrogativa da escola especial.
• As políticas públicas devem garantir que o atendimento
educacional especializado aconteça em salas multifuncionais
nas escolas, em caráter complementar às aulas do turno regular,
mas jamais substituindo a escolarização básica a que todos têm
direito.
• A formação em serviço e a aprendizagem permanente devem ser
ações propulsoras de uma Escola para Todos, sempre pronta a
acolher, de fato, diferenças e deficiências.
• A formação em serviço é necessária a cada professor, no coletivo
da troca interativa de experiências. O esquema de utilização de
“representantes” ou de “multiplicadores” é inoperante, porque
ninguém pode estudar ou aprender no lugar do outro.
• Os investimentos financeiros com formação em serviço são
prioridades passíveis de serem atendidas, por não constituírem os
gastos que mais oneram o orçamento da educação.
• As políticas públicas precisam garantir e dar sustentação
pedagógica ao trabalho com a heterogeneidade, as diferenças e a
diversidade, o qual deve ser interpretado como enriquecimento
cultural e não como obstáculo às práticas escolares.
• As políticas públicas não são meros decretos apriorísticos para
manter, de forma abstrata, a realidade em movimento. Elas só se
sustentam na medida em que cada pessoa e cada escola
compreenderem que fazer política é ato individual e coletivo, que
não se delega a instâncias representativas desvinculadas do aqui e
do agora.
• A escola de qualidade, que todos querem para os próprios filhos e
para todos, é aquela que pratica cidadania e contempla as
diferenças; nesse sentido, somente quando a inclusão se der, de
fato, é que a escola regular será realmente a Escola de Todos.