Módulo 1: Introdução
Em seu sentido tradicional, a cidadania expressa um conjunto de
direitos e de deveres que permite aos cidadãos e cidadãs o direito
de participar da vida política e da vida pública, podendo votar e
serem votados, participando ativamente na elaboração das leis e do
exercício de funções públicas, por exemplo. Hoje, no entanto, o
significado da cidadania assume contornos mais amplos, que
extrapolam o sentido de apenas atender às necessidades políticas e
sociais, e assume como objetivo a busca por condições que
garantam uma vida digna às pessoas.
Entender a cidadania a partir da redução do ser humano às suas
relações sociais e políticas não é coerente com a
multidimensionalidade que nos caracteriza e com a complexidade
das relações que cada um e todas as pessoas estabelecem com o
mundo à sua volta. Deve-se buscar compreender a cidadania
também sob outras perspectivas, por exemplo, considerando a
importância que o desenvolvimento de condições físicas, psíquicas,
cognitivas, ideológicas, científicas e culturais exerce na conquista
de uma vida digna e saudável para todas as pessoas.
Tal tarefa, complexa por natureza, pressupõe a educação de todos
(crianças, jovens e adultos), a partir de princípios coerentes com
esses objetivos, e com a intenção explícita de promover a cidadania
pautada na democracia, na justiça, na igualdade, na equidade e na
participação ativa de todos os membros da sociedade nas decisões
sobre seus rumos. Dessa maneira, pensar em uma educação para a
cidadania torna-se um elemento essencial para a construção da
democracia social.
Entendemos que tal forma de educação deve visar, também, ao
desenvolvimento de competências para lidar com: a diversidade e o
conflito de ideias, as influências da cultura e os sentimentos e
emoções presentes nas relações do sujeito consigo mesmo e com o
mundo à sua volta.
Uma questão a ser apontada é que atualmente as crianças e os
adolescentes vão à escola para aprender as ciências, a língua, a
matemática, a história, a física, a geografia, as artes, e apenas isso.
Não existe o objetivo explícito de formação ética e moral das futuras
gerações. Entendemos que a escola, enquanto instituição pública
criada pela sociedade para educar as futuras gerações, deve se
preocupar também com a construção da cidadania, nos moldes que
atualmente a entendemos. Se os pressupostos atuais da cidadania
têm como base a garantia de uma vida digna e a participação na
vida política e pública para todos os seres humanos e não apenas
para uma pequena parcela da população, essa escola deve ser
democrática, inclusiva e de qualidade, para todas as crianças e
adolescentes. Para isso, deve promover, na teoria e na prática, as
condições mínimas para que tais objetivos sejam alcançados na
sociedade.
Mas como os valores são apropriados pelos sujeitos? Adotamos a
premissa de que os valores não são nem ensinados, nem nascem
com as pessoas. Eles são construídos na experiência significativa
que as pessoas estabelecem com o mundo. Essa construção
depende diretamente da ação do sujeito, dos valores implícitos nos
conteúdos com que interage no dia-a-dia e da qualidade das
relações interpessoais estabelecidas entre o sujeito e a fonte dos
valores.
Buscando atingir amplos espectros de atuação, entendemos que o
trabalho de educação em valores que visam à construção da
cidadania pode abarcar quatro grandes eixos temáticos que, de
maneira geral, configuram campos principais de preocupação da
ética e da democracia nos dias atuais.