**Capítulo 1**
O encontro aconteceu sem aviso, como tantas coisas que
mudam o curso da vida.
Era um dia comum, sem grandes expectativas. Ela caminhava
pelo ambiente, observando detalhes que normalmente
passariam despercebidos—o ritmo das vozes ao fundo, o
cheiro amadeirado de algum perfume desconhecido, a luz
filtrada pelas janelas, desenhando sombras delicadas no
chão.
Foi então que seus olhos o encontraram pela primeira vez.
Não havia introdução ensaiada, nem qualquer aviso de que
aquele instante marcaria algo dentro dela. Apenas a
naturalidade de dois estranhos se cruzando e, por alguma
razão inexplicável, sentindo como se já se conhecessem há
muito tempo.
Ele era alto e vestia preto. O cabelo cortado baixo
realçava seus traços fortes, e os olhos—quase castanhos
claros, com um brilho sutil—pareciam sempre atentos,
analisando o mundo ao redor sem pressa.
A conversa surgiu com facilidade. Nenhuma palavra parecia
forçada, nenhum silêncio se tornava desconfortável. Havia
algo ali, um entendimento tácito, uma sintonia que não
exigia esforço. Como se, de alguma forma, ele soubesse
exatamente como ocupar o espaço ao redor dela sem ser
invasivo.
E era apenas o começo.
Os dias passaram sem que ela percebesse que estava
esperando por eles.
Não havia intenção clara, nem desejo consciente de que
aquilo se tornasse algo além de uma convivência natural.
Mas ele estava ali. E cada interação, por menor que fosse,
carregava uma presença que, aos poucos, começou a se
destacar mais do que deveria.
A conversa fluía com uma facilidade incomum, como se
tivessem aprendido a se entender antes mesmo de se
conhecerem. Havia algo nele—algo na maneira despreocupada
com que caminhava pelo espaço, na leveza dos gestos, no
jeito simples com que deixava seus pensamentos escaparem
entre frases que pareciam casuais, mas que ela nunca
esquecia.
Ela começou a notar pequenas coisas. O jeito como ele
inclinava a cabeça ao ouvir, como se absorvesse cada
palavra com atenção genuína; o tom exato de sua voz,
firme, mas com uma leveza que tornava tudo confortável; a
maneira despreocupada com que movimentava as mãos ao
falar, como se cada gesto carregasse parte da história que
estava contando.
A conversa desenrolava-se com a leveza de quem se entende
sem esforço, como se houvesse entre eles uma sintonia
antiga. Então, o telefone dele vibrou—uma notificação
chegando.
A luz da tela iluminou seu rosto, e foi ali, naquele
instante fugaz, que ela viu o que poderia abalar qualquer
mulher em outra circunstância. Mas não era outra. Era ela.
E ela sabia exatamente o que sentiu ao perceber que o
papel de parede do celular era ele… e, talvez, sua esposa.
Fingiu naturalidade no olhar, disfarçando o impacto. Mas,
por dentro, nada parecia natural.
Os olhares começaram a se repetir. Primeiro,
fugazes—momentos em que seus olhos se encontravam por
acaso e se afastavam depressa, como se ambos soubessem que
estavam pisando em um território que exigia cuidado.
Depois, vieram os olhares mais demorados, aqueles que
carregavam perguntas silenciosas e respostas que não
podiam ser dadas.
Ela começou a perceber que estava diferente.
O mundo ao redor seguia o mesmo, mas sua percepção havia
mudado. Pequenos detalhes que antes passariam
despercebidos agora tinham significado: o tempo que ele
levava para responder, a escolha das palavras, os momentos
de silêncio entre uma frase e outra. Tudo parecia estar se
desenhando de forma leve, como uma história que se escreve
sozinha.
E foi assim que, sem perceber, ela começou a esperar por
ele antes mesmo de saber que estava esperando.
Começou a perceber a própria ansiedade disfarçada quando o
relógio se aproximava de determinados horários. O som de
passos no corredor ganhava novos significados. Um vulto
escuro à distância a fazia erguer os olhos com mais
esperança do que gostaria de admitir.
Ela tentava manter a naturalidade, fingir que não se
importava tanto, mas a verdade era que bastava ouvi-lo rir
para que algo em seu peito reagisse—como se seu corpo
inteiro reconhecesse aquela frequência, aquele timbre.
E mesmo que estivessem cercados por outras pessoas, era
nele que sua atenção se fixava, como se tudo ao redor
perdesse a cor.
Às vezes, bastava um comentário dele para que o dia dela
parecesse melhor. Outras vezes, um simples gesto—como o
modo em que ele segurava uma caneta ou cruzava os braços
ao pensar—era suficiente para roubar-lhe a concentração.
E, estranhamente, ela não achava isso ruim.
Sentia-se viva.
Como se estivesse descobrindo uma parte de si mesma que há
muito tempo permanecia adormecida—uma parte que gostava da
leveza do inesperado, da sutileza de um olhar e da
expectativa que nasce entre dois corações que ainda não se
tocaram, mas já se procuram.
Ela não sabia o que aquilo se tornaria.
Não fazia planos, nem criava esperanças. Apenas se
permitia sentir.
Mesmo que, no fundo, já soubesse que aquilo não era apenas
mais um encontro qualquer.
Era o início de algo que, em breve, não conseguiria mais
ignorar.
**Capítulo 2**
A naturalidade com que tudo aconteceu foi o que a
surpreendeu.
As interações entre eles não eram calculadas. Não houve um
momento exato em que algo mudou—mas, em algum ponto, a
proximidade tornou-se evidente.
Ele já não apenas estava ali. Ele ocupava aquele espaço.
As conversas começaram a ganhar novas camadas, como se
algo invisível tivesse sido acrescentado entre as
palavras. Antes, tudo fluía com leveza e descontração.
Agora, havia pausas—momentos que carregavam um significado
que nenhum dos dois ousava nomear.
Os olhares, antes rápidos, tornaram-se mais demorados.
Ela começou a perceber que sabia exatamente quando ele
estava por perto, mesmo sem olhar. Era um reconhecimento
silencioso, quase instintivo, que fazia com que sua
respiração mudasse de ritmo sem que percebesse.
E então vieram os toques.
Nada grandioso. Apenas gestos que poderiam ser casuais, se
não fossem sentidos de maneira diferente.
Um toque de ombro ao passar. Um roçar de dedos ao entregar
algo. Uma mão que se apoiava na mesa, perto demais da
dela.
Ela percebeu que começou a antecipar esses momentos.
Se antes os encontros eram naturais e espontâneos, agora
havia algo a mais. Uma expectativa, uma tensão que se
insinuava nos detalhes. Uma consciência do que estavam
vivendo, sem jamais falarem sobre isso.
Era sutil.
Discreto.
Mas real.
E ela sabia—sabia que estava cruzando uma linha invisível,
mesmo sem intenção.
Flertar sem ser notado exigia habilidade.
Entre eles, o jogo era quase imperceptível para quem não
prestasse atenção.
As conversas se mantinham inteligentes, envolventes,
sempre dentro dos limites aceitável—mas carregava uma
tensão que só os dois sentiam.
Era como jogar xadrez sem peças no tabuleiro.
— Você sempre observa tudo ao redor, não é? — ela
comentou, sem realmente perguntar.
Ele sorriu de canto.
— Observar é subestimado. As pessoas falam demais, mas
esquecem que os detalhes estão no que não é dito.
— E o que você já percebeu até agora?
Ele se inclinou levemente para frente. O espaço entre eles
diminuiu, mas ninguém ao redor notaria.
— Que você faz perguntas esperando um desafio. E que, no
fundo, sempre quer uma resposta direta.
Ela sentiu a respiração mudar. Ele a lia com precisão
cirúrgica, e isso a intrigava.
— Então me responda.
— Depende da pergunta.
O olhar dele permaneceu fixo, intenso, mas sem exagero.
Natural, como se soubesse exatamente até onde poderia ir
sem ultrapassar limites.
— O que você realmente quer saber? — ele provocou.
Ela segurou um sorriso.
O flerte era imperceptível, mas presente. Nenhuma palavra
era explícita, nenhuma resposta era exagerada. Mas tudo,
absolutamente tudo, carregava uma intenção.
Era uma dança que só os dois conheciam.
E, como toda dança bem ensaiada, havia um compasso
invisível que guiava cada passo. Um ritmo silencioso que
fazia com que se encontrassem nos momentos exatos, como se
o acaso tivesse se tornado cúmplice daquilo que ainda não
se podia nomear.
Ela começou a reparar que, nos dias em que ele não
aparecia, o ambiente perdia cor.
As conversas ao redor pareciam mais monótonas, os gestos
mais automáticos.
Era como se ele tivesse se tornado o ponto de luz de um
cenário que antes era apenas comum.
E ele também notava.
Nos pequenos gestos dela, na forma como sua postura mudava
levemente quando ele chegava, na maneira como seu olhar
ganhava brilho, mesmo quando ela tentava disfarçar.
Eles jogavam com limites invisíveis, testavam até onde
podiam ir sem ultrapassar a fronteira do óbvio.
Certa vez, ao cruzarem no corredor estreito, seus braços
se tocaram por um segundo a mais do que o necessário.
Um segundo apenas, mas foi o suficiente para que ambos
parassem.
Não fisicamente, mas por dentro.
Seu texto continua incrível, Werllandya! Fiz uma revisão
cuidadosa para manter a intensidade da narrativa,
garantindo fluidez, clareza e impacto emocional. Aqui está
a versão revisada e formatada para livro:
---
### **Capítulo 3**
O jogo evoluiu.
Se antes tudo era apenas insinuação e olhares trocados,
agora a intimidade entre eles começava a ganhar
território. Nenhuma palavra era dita de maneira
descuidada. Cada frase parecia intencional, como se os
dois já soubessem o que estavam fazendo, mesmo sem
admitir.
Os encontros tornaram-se inevitáveis. O tempo que passavam
próximos parecia sempre curto, como se a presença um do
outro carregasse algo que tornava difícil se afastar.
— Você sempre tem uma resposta na ponta da língua? — ela
perguntou, sem realmente esperar uma negativa.
Ele a observou por um instante antes de responder.
— Só quando a pergunta vale a pena.
Ela sorriu.
O flerte era mais direto agora, mas ainda dentro do limite
do que poderia ser apenas uma conversa.
— E como você decide o que vale a pena?
Ele se aproximou alguns centímetros. Não o suficiente para
ser óbvio, mas o suficiente para ser sentido.
— Simples. Pelo impacto que causa.
Ela prendeu a respiração por um segundo.
Aquela resposta não era apenas uma frase casual. Era um
reconhecimento do que estava acontecendo entre eles, uma
confissão velada de que tudo aquilo não era mais apenas um
jogo.
Ele estava deixando claro que sabia.
E ela também sabia.
O jogo nunca foi ingênuo.
A linha entre o que era permitido e o que não deveria
acontecer estava ali, nítida, mas sendo testada a cada
conversa, a cada olhar que durava mais do que o
necessário.
O assunto surgiu sem rodeios. Porque era assim que
conversavam—sem máscaras, sem medo das respostas.
— Você já traiu alguém? — ela perguntou, sem desviar o
olhar.
Ele não recuou.
— Não. Mas já estive perto.
Ela arqueou a sobrancelha, esperando mais.
— O que te fez parar?
Ele soltou um breve riso, quase como se reconhecesse a
ironia da própria resposta.
— A escolha. No fim das contas, sempre chega um momento em
que você decide. Ou cruza a linha, ou dá um passo para
trás.
Ela absorveu aquilo em silêncio.
— E o que define essa escolha?
Ele a encarou, e o olhar foi suficiente para que ela
soubesse que aquela conversa não era sobre histórias
passadas. Era sobre o presente.
— Talvez o que vem depois. O que muda. O que não pode ser
desfeito.
Ela sorriu de leve.
— E você já está preocupado com o depois?
O sorriso dele não desapareceu, mas também não aumentou.
— Talvez eu devesse estar.
E ali, entre palavras ditas e não ditas, a linha foi
testada mais uma vez.
Eles permaneceram em silêncio por alguns segundos, mas não
era um silêncio desconfortável.
Era denso.
Carregado de pensamentos que nenhum dos dois ousava
verbalizar.
Havia algo no ar, como se o tempo tivesse diminuído a
velocidade só para dar espaço ao que ainda não havia
acontecido, mas era inevitável.
Ela desviou o olhar, mas só por um instante. Logo voltou a
encará-lo, como se buscasse respostas que ele não estava
disposto a dar—pelo menos não ainda.
**Capítulo 4**
A conversa tornou-se algo diferente naquela manhã.
Até então, tudo era jogo.
Provocações bem calculadas, insinuações disfarçadas,
olhares que diziam mais do que palavras.
Mas agora, era uma troca sem filtros, sem proteção.
Ele a observou por um instante antes de perguntar:
— Você já ficou com alguém comprometido?
Ela não desviou o olhar.
— Já.
Não havia hesitação na resposta, nem justificativa. Apenas
um fato.
Ele soltou um breve sorriso.
— E faria de novo?
Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa, olhando para ele
como se estudasse a pergunta.
— Talvez. Mas em outro momento.
A resposta pairou no ar por alguns segundos, carregada de
significados que ambos entenderam sem precisar explicar.
— O que te leva a fazer isso? — ele perguntou, direto.
Ela inspirou lentamente.
— O que te leva a trair?
Ele não respondeu de imediato.
Era a primeira vez que falavam sobre isso de forma clara.
Até então, tudo era velado, como se fingissem que o que
estavam vivendo não fosse exatamente o que parecia.
Mas agora, o assunto estava sobre a mesa.
— O que me leva a trair? — ele repetiu, como se testasse o
peso das palavras. Depois, recostou-se e a encarou. — A
sensação de querer algo que não posso ter.
Ela sorriu de leve.
— Então, talvez sejamos parecidos.
E a linha que separava o que poderia ou não acontecer
entre eles ficou ainda mais tênue.
Ele percebeu antes mesmo que ela soubesse.
Havia algo sutil nela—uma hesitação quase imperceptível
sempre que alguém se aproximava demais, uma distância
mantida com elegância, como se o toque físico sempre foi
um limite que ela raramente ultrapassava.
Nunca foi dito. Nunca foi explicado.
Mas ele notou. E, aos poucos, isso começou a mudar.
No começo, eram pequenos gestos. Um toque breve no braço,
uma aproximação sem intenção, um contato que deveria ser
casual, mas que carregava algo a mais.
Ela não recuava.
Pelo contrário, aceitava a proximidade como se fosse
inevitável. Como se, com ele, essa barreira deixasse de
fazer sentido.
Naquela manhã, o mundo parecia existir apenas ao redor
deles.
A conversa fluía sem esforço, entre olhares demorados e
sorrisos que diziam mais do que palavras.
Até que aconteceu.
Naquela tarde, ao retornar do café.
Sem aviso. Sem hesitação.
—————————
O café estava quase vazio naquela hora da tarde.
Um lugar discreto, longe da movimentação habitual, onde as
conversas se misturavam ao som abafado das xícaras sendo
colocadas sobre a madeira das mesas.
Ela escolheu aquele café justamente porque precisava de um
espaço para pensar.
Mas, quando viu Sofia atravessar a porta, percebeu que sua
pausa solitária não duraria muito.
— Você me chamou aqui e nem pediu nada pra beber? — Sofia
provocou, deixando a bolsa de lado e puxando a cadeira à
frente dela.
— Pedi um café. Não tomei. — A resposta veio sem
entusiasmo.
Sofia levantou a sobrancelha e se inclinou para frente,
apoiando os braços na mesa, como quem estava prestes a
destrinchar um mistério.
— Isso tem nome. — Fez uma pausa e concluiu: — Pensamento
excessivo.
Ela soltou um breve sorriso, mas o peso nos ombros ainda
estava ali.
— Eu só... acho que passei do limite.
Sofia entrelaçou os dedos, esperando por mais.
— O que aconteceu?
Ela desviou o olhar, observando a rua do lado de fora.
Não queria ter que explicar, porque explicar significava
reviver. Mas Sofia sempre foi o tipo de amiga que não
aceitava meias palavras.
— Eu cedi.
As palavras soaram baixas, mas carregadas de significado.
Sofia manteve o silêncio por um instante, talvez esperando
que ela se explicasse melhor.
Quando percebeu que não viria mais nada, falou:
— Você queria que acontecesse?
Ela inspirou, soltando o ar devagar.
Não tinha resposta simples para isso.
— Queria... — admitiu. — Mas agora, não sei.
Sofia recostou-se, cruzando os braços, como quem já
conhecia aquele tipo de dilema.
— Você não tá arrependida — analisou. — Tá com medo do que
vem depois.
Ela passou a ponta dos dedos pela borda da xícara,
sentindo o calor remanescente do café esquecido.
— Talvez.
— Definitivamente. — Sofia corrigiu, com um pequeno
sorriso de quem sabia exatamente onde aquilo ia parar.
Ela fechou os olhos por um segundo, tentando organizar os
pensamentos, mas tudo ainda parecia embaralhado.
Desde aquela manhã, não conseguia fugir do que havia
acontecido.
Nem das palavras que escaparam antes que pudesse
controlá-las.
— Eu estraguei tudo — disse, baixinho.
Sofia riu de leve.
— Você nunca estraga nada. Só percebe que está mais
envolvida do que imaginava.
Ela não respondeu. Porque, no fundo, sabia que era
verdade.
O silêncio entre elas foi quebrado pelo som de uma risada
distante, vindo de outra mesa.
O mundo ao redor seguia, indiferente ao turbilhão que
tomava conta dela por dentro.
— O que você vai fazer agora? — perguntou Sofia,
observando-a atentamente.
Ela encarou a xícara novamente, como se na cerâmica
estivesse alguma resposta que ainda não conseguia ver.
— Não sei. Mas acho que já tomei uma decisão, mesmo sem
querer.
Sofia soltou um suspiro leve, mexendo no próprio café
antes de dizer:
— Você nunca toma decisões sem querer. Só não admite.
Ela sorriu de canto.
Sofia conhecia bem suas hesitações, talvez até melhor do
que ela própria.
E, naquele instante, percebeu que já sabia o que viria
depois.
**Capítulo 5**
Ela não pretendia estar ali.
O pedido foi inocente o suficiente. Havia deixado algo em
uma das salas e pediu para que ele buscasse. Mas, quando
ele sugeriu que fossem juntos, algo dentro dela hesitou.
Ainda assim, ela foi.
O espaço estava silencioso. Um ambiente comum, sem
testemunhas, sem olhares atentos—apenas os dois e uma
tensão que havia sido construída dia após dia.
Ela tentou recuar. Tentou manter a razão à frente da
vontade.
Mas não por muito tempo.
Antes que pudesse se afastar, sentiu as mãos dele
envolvendo sua cintura, o calor do toque firme e decidido,
como se ele já soubesse que não haveria resistência real.
O beijo aconteceu sem hesitação.
Explêndido. Sentido. Desejado.
Não havia urgência, apenas certeza. Um encaixe perfeito
entre vontades que já existiam muito antes de serem
admitidas.
O mundo ficou pequeno—um espaço reduzido à presença dos
dois, onde nada mais fazia diferença.
E, naquele instante, sem plateia, sem testemunhas, ela
percebeu que nunca havia imaginado que sentiria aquilo.
Que aquilo aconteceria.
Mas aconteceu.
E agora, nada seria como antes.
Quando se afastaram, ele não disse nada. Apenas a olhou, e
naquele olhar não havia cobrança, nem expectativa.
Havia presença.
Estava ali, inteiro, como se dissesse com os olhos: *Não
me arrependo.*
E ela entendeu.
O beijo ainda queimava na memória, mas ela evitava
encará-lo de frente.
O afastamento foi sua primeira resposta.
Um instinto de proteção contra algo que ameaçava sair do
controle.
Não que não quisesse—na verdade, queria demais. Mas era
justamente por isso que precisava parar.
Se seguisse adiante, se cedesse completamente, não sabia
onde aquilo poderia levar.
E se não conseguissem interromper a tempo?
E se alguém os visse?
E depois, o que restaria?
Foi nesse turbilhão de pensamentos que, sem pensar nas
consequências de suas palavras, ela disse:
— Alguém deveria ter aparecido… pra me tirar dessa
situação.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ele a olhou, e, pela primeira vez desde o início de tudo,
havia algo diferente em seu olhar.
Não era desejo, não era provocação.
Era incredulidade.
— *Tirar você dessa situação?* — ele repetiu, testando as
palavras como se precisasse ter certeza de que havia
escutado certo.
Ela não respondeu.
Ele se inclinou ligeiramente, como se buscasse uma
explicação.
— *Por quê?* — perguntou, direto.
Ela não disse nada.
Não porque não tivesse resposta, mas porque sabia que,
para ele, qualquer justificativa não faria sentido.
E então, ele soltou um breve suspiro, desviando o olhar
por um instante antes de declarar, com uma firmeza que ela
não esperava:
— Eu não vou mais atrás de você.
A frase caiu entre eles como uma sentença.
Ela permaneceu em silêncio.
Ele continuou:
— Vou tirar meu cavalo do campo. Acabou.
E, sem esperar qualquer resposta dela, ele se afastou,
encerrando o jogo que por tanto tempo haviam jogado.
Ela não tentou impedi-lo.
Apenas permaneceu ali, sozinha, mergulhada em seus
próprios pensamentos.
Não era que não tivesse gostado.
Não era que não quisesse.
Pelo contrário, queria tanto que o medo de onde aquilo
poderia levar a fez hesitar.
Era isso que *pra me tirar dessa situação* realmente
significava.
Mas ele não entenderia.
E ela não se deu ao trabalho de explicar.
Ainda sentia o toque dele em sua pele, como um eco que se
recusava a desaparecer.
O cheiro de sua presença parecia impregnado no ar, como se
até o ambiente soubesse que algo ali tinha se quebrado.
Ela permaneceu parada por mais alguns minutos, em
silêncio, tentando entender o que havia feito.
A culpa se instalava aos poucos, não como um golpe, mas
como uma maré que vinha silenciosa e constante, cobrindo
tudo.
A verdade é que não queria ter dito aquilo.
Mas as palavras saíram antes do pensamento, impulsionadas
pelo medo.
E agora, estavam entre eles como um muro intransponível.
**Capítulo 6**
O silêncio após suas palavras foi denso, quase palpável.
Ele não desviou o olhar.
Estava parado ali, encarando-a, como se esperasse alguma
explicação que não veio.
E então, com a mesma firmeza de quem tomava uma decisão
definitiva, disse:
— Eu sou um homem de palavra. Você vai perceber isso.
A voz dele não carregava raiva, apenas certeza.
Uma certeza que fez algo dentro dela afundar.
O clima ao redor mudou. O ar ficou pesado, estranho.
Ela sentiu na pele que tudo havia saído do seu controle.
Não era isso que queria dizer.
Não era assim que queria que ele interpretasse.
Mas, no fundo, sabia que havia falado daquela forma porque
não queria abrir espaço para mais proximidade.
Porque precisava de um limite.
E, ainda assim…
Quando viu que ele realmente acreditava naquelas
palavras—que, para ele, aquilo significava um ponto
final—sentiu o golpe de uma despedida que não tinha
planejado.
Por um momento, pensou em desfazer o mal-entendido.
Em explicar o que realmente quis dizer.
Mas a sensação de algo irreversível já havia tomado conta
do ambiente.
Então, não disse nada.
No fundo, esperava que ele insistisse.
Que desafiasse sua fuga, que dissesse que não a deixaria
escapar tão fácil.
Mas ele não disse.
E isso, mais do que qualquer outra coisa, doeu.
E ele, cumprindo o que prometeu, virou as costas e saiu.
Ficou ali, sozinha, com a certeza de que não havia mais
caminho de volta.
Os dias passaram, e, com eles, o que antes era uma conexão
intensa se tornou apenas um breve aceno, um cumprimento
sem peso.
*"Bom dia", "Boa tarde", "Boa noite"*—palavras mecânicas,
vazias, ditas sem emoção e sem sequer um olhar prolongado.
Agora, sim, pareciam dois estranhos.
Ela sentia isso de forma dolorosa.
Antes, havia toque, olhares, provocações disfarçadas na
escolha de palavras.
Agora, havia nada.
E no vazio deixado por ele, nasceu um desejo que ela não
esperava.
A rejeição fez com que sua vontade se tornasse
insuportável.
Ver que ele não a queria mais, que não ia atrás, que
realmente cumpria sua palavra... tudo isso apenas
reforçava o quanto ela o queria.
E, junto com o desejo, veio o arrependimento.
Cada palavra mal colocada voltava à sua mente como uma
lembrança amarga.
Se ao menos tivesse explicado, se ao menos tivesse sido
mais clara.
Mas não—ela tinha deixado que ele fosse embora sem tentar
consertar.
Mas agora já era tarde.
Porque ele estava determinado a manter sua decisão.
E isso era a prova de que, desta vez, a história não
estava mais nas mãos dela.
O bar estava cheio, mas a mesa de Sofia e dela parecia um
universo isolado do restante do ambiente. O som das
conversas misturava-se ao tilintar dos copos e, mesmo
rodeada de vozes, ela se sentia sozinha.
Sofia percebeu o olhar perdido antes mesmo que ela
dissesse qualquer coisa.
— Você tá remoendo isso, né? — perguntou, quebrando o
silêncio entre elas.
Ela soltou um suspiro e mexeu distraidamente no guardanapo
ao lado do copo.
— Ele parou de me olhar. — As palavras saíram quase num
sussurro, carregadas de um peso que só ela parecia sentir.
Sofia cruzou os braços, observando-a com atenção.
— Você disse que queria que ele parasse.
Ela assentiu, mas sem convicção.
— Eu disse. Mas agora… parece errado.
Sofia soltou um pequeno riso, como quem já previa aquela
reviravolta.
— Você queria que ele insistisse?
Ela hesitou por um segundo antes de responder:
— Não sei. Talvez. Eu só… não achei que fosse doer tanto
quando ele realmente me deixasse em paz.
Sofia apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se para
frente.
— E agora? O que você quer?
Ela olhou para o copo à sua frente, como se houvesse
alguma resposta escondida ali.
— Eu queria desfazer tudo. Queria voltar e dizer que não
era isso que eu queria dizer.
Sofia permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de
responder:
— Você sabe que não tem como voltar, né?
Ela fechou os olhos por um instante e sorriu de forma
triste.
— Sei.
Sofia deu um gole em sua bebida antes de continuar:
— Você pode não voltar, mas pode seguir em frente. Então,
eu te pergunto de novo… o que você quer fazer agora?
O peso da pergunta pairou sobre a mesa.
Ela sabia a resposta, mas dizê-la em voz alta tornava tudo
mais real.
— Eu quero que ele me olhe de novo.
Sofia soltou um leve suspiro e sorriu.
— Então talvez seja hora de parar de fingir que não quer.
O silêncio entre elas foi quebrado pelo burburinho do bar.
Mas dentro dela, algo finalmente começava a se
reorganizar.
Agora, ela só precisava descobrir como fazer isso.
**capitulo 7**
Foi preciso uma conversa. Um olhar externo. Alguém que
dissesse em voz alta aquilo que, no fundo, ela já sabia:
“Você vai continuar parada, lamentando o que aconteceu? Ou
vai fazer alguma coisa?”
A pergunta ecoou dentro dela.
Era verdade. O arrependimento não a levaria a lugar algum.
Se queria algo, precisava se mover.
E foi assim que tomou a decisão.
Não seria impulsiva, nem correria atrás como se estivesse
desesperada. Se havia algo que aprendera ao longo dos dias
de silêncio, era que ele valorizava palavras ditas com
firmeza — e gestos que sustentassem essas palavras.
Ela queria conquistá-lo de volta. E faria isso sem perder
a classe.
O primeiro passo era simples: estar presente. Sem forçar,
sem exagerar. Apenas deixar que sua presença fosse
sentida.
O segundo: lembrá-lo, de forma sutil, do que já haviam
sido. Pequenos gestos, olhares, escolhas de palavras que
despertassem memórias, sem que parecessem óbvios demais.
E, por fim, ela precisava fazê-lo ver que, apesar do que
aconteceu, o desejo ainda estava ali — intacto.
Ela não sabia quanto tempo levaria.
Mas, pela primeira vez desde que ele se afastou, sentia
que tinha um plano.
Havia dias em que o silêncio pesava mais do que outros.
E eram nesses momentos que ela se pegava revivendo
detalhes, pequenas cenas que antes pareciam corriqueiras,
mas que agora carregavam um significado impossível de
ignorar.
Como naquela manhã.
O dia poderia ter sido como qualquer outro, se não fosse o
perfume.
Ele não parecia alguém que prestava atenção nos detalhes,
mas percebeu.
— Você trocou de perfume?
Ela confirmou com um aceno leve. Ele franziu as
sobrancelhas, interessado.
— É bom… prende.
E então, sem hesitar, pediu:
— Posso sentir melhor?
Foi apenas um gesto — um movimento natural, quase casual.
Mas, quando ele se aproximou, seu rosto tão perto que a
respiração quente roçou sua pele, algo dentro dela
despertou de um jeito que não conseguiu controlar.
O arrepio veio imediato, percorreu sua espinha e explodiu
em sua pele.
Ele não se afastou de imediato. Ainda tomado pelo cheiro,
respirou novamente, mais lento, como se absorvesse cada
nota do perfume.
— Você passa na roupa ou na pele?
A voz soou próxima demais. Íntima demais.
— Na pele. Atrás da nuca, orelhas, nas dobras dos braços…
nos punhos.
Ele sorriu, como se apreciasse a resposta.
— Você sabe como passar perfume.
E então, sem aviso, sua mão pousou sobre a dela.
A pressão foi suave — mais um toque do que um aperto —
como se quisesse transmitir algo sem precisar de palavras.
E, naquele instante, a linha entre eles ficou ainda mais
difusa.
Agora, com ele distante, era tudo o que lhe restava.
As lembranças. Os ecos desses momentos. Os detalhes que
faziam sua pele arder por algo que não deveria querer.
Mas queria.
Queria a intimidade. Queria as conversas ditas em meio a
olhares profundos. Queria tê-lo perto novamente.
Mesmo sabendo que não era certo.
Mas havia algo naquela troca que transcendia o certo e o
errado. Era como se seus corpos, seus instintos, suas
memórias tivessem criado um idioma próprio — um idioma que
dispensava lógica e obedecia apenas ao sentir.
E foi então que ela entendeu: reconquistar alguém não é
sobre palavras grandiosas, nem sobre recomeçar como se
nada tivesse acontecido.
É sobre reaparecer como se, apesar de tudo, o sentimento
tivesse resistido.
Ela não queria pressa. Queria que, quando ele voltasse —
se voltasse — fosse por escolha. Por desejo. E, acima de
tudo, por lembrança.
A lembrança de quem ela era.
De quem eles foram.
E do que, talvez, ainda poderiam ser.
Capítulo 8
Os dias seguiam previsíveis, repetitivos.
Ele estava lá. Sempre estava. Nos mesmos lugares, nos
mesmos horários, como se nada tivesse mudado. Mas tudo
havia mudado.
Não havia mais olhares prolongados. Não havia mais
palavras carregadas de duplo sentido. Apenas breves
cumprimentos — formais demais, impessoais demais. Como se,
de alguma forma, tivessem conseguido apagar tudo o que
haviam vivido.
E, ainda assim, bastava vê-lo para sentir algo diferente
no peito.
Era estranho como sua simples presença tornava os dias
mais fáceis, mais leves. O peso do silêncio diminuía por
um instante sempre que cruzavam o mesmo espaço, sempre que
ela sabia que ele ainda estava por perto.
Mas a falta de interação… essa incomodava.
Não era só a ausência de palavras, mas a distância que se
mantinha mesmo quando ele estava a poucos passos. A
sensação constante de que algo que antes existia com tanta
naturalidade havia sido arrancado sem aviso.
E, pior ainda, a certeza de que foi ela mesma quem
permitiu que isso acontecesse.
Agora, restava apenas o vazio — essa barreira invisível
que crescia entre eles.
E, com cada dia que passava, essa barreira se tornava
insuportável.
O que ninguém te conta sobre o amor
Amar alguém que não se pode ter é um jogo perigoso. Mas
amar, no geral, já é.
O amor não pede licença. Ele chega sem aviso, se instala
no peito e bagunça tudo. Transforma o olhar, a respiração,
o ritmo dos dias. O amor torna a presença
insuportavelmente necessária.
Há um peso em amar. Um querer estar perto que, quando
negado, se torna uma dor que pulsa no fundo do peito. É
como se o coração aprendesse um novo idioma — um que só
entende quando está ao lado de quem desperta esse sentir.
E o que fazer quando essa presença não é sua? Quando o
espaço que você quer ocupar não lhe pertence?
E quando esse querer esbarra em algo que não pode ser
movido? Quando, por mais que o desejo exista, há um limite
invisível que não se pode atravessar?
A resposta nunca é simples. Nunca há um certo e errado
absoluto.
Há apenas o sentir — o querer, o desejar, o evitar e, por
fim, o aceitar.
Porque amar alguém é um tipo de amor que ensina sobre
limites. Sobre vontade. Sobre respeito.
Mas, principalmente… sobre o peso de não poder ter aquilo
que mais se quer.
O plano era simples, mas exigia paciência.
Ela não podia simplesmente aparecer e forçar uma conversa.
Não podia quebrar o distanciamento de maneira brusca.
Precisava ser sutil.
Nos primeiros dias, seu esforço concentrou-se em estar
presente da forma certa.
Um olhar mantido por um segundo a mais.
Uma escolha de palavras que deixava margem para lembranças
do que já haviam sido.
Pequenos gestos que, se ele percebesse, despertariam algo
dentro dele.
Mas ele permanecia firme.
Os cumprimentos continuavam breves, sem emoção, sem
desvio.
Ele não recuava, mas também não se aproximava.
Isso a frustrava, mas não a fazia desistir.
Então veio a segunda estratégia: mexer com sua percepção.
Se antes ele sempre sabia onde encontrá-la, agora ela
fazia questão de mudar os padrões.
Estava presente em lugares inesperados, surgia em momentos
que ele não poderia prever. Criava situações em que, por
mais que tentasse evitar, ele acabava notando sua
presença.
E notava.
A primeira vez em que isso aconteceu, ela percebeu o leve
franzir da testa dele — como se, por um instante, tivesse
sido pego de surpresa.
E aquele pequeno detalhe foi suficiente para incentivá-la
a seguir em frente.
A barreira entre eles ainda existia, mas, pela primeira
vez desde o afastamento, ela sentiu que alguma coisa
estava se movendo.
Pequena. Sutil.
Mas, ainda assim, se movendo.
Capítulo 9
Como um vento que sopra sem aviso, tudo mudou.
Ela não sabia dizer exatamente quando, nem como, mas
aconteceu.
O distanciamento que antes parecia inquebrável começou a
se desfazer em pequenas brechas.
Primeiro, olhares que duravam um pouco mais.
Depois, sorrisos que surgiam sem esforço.
Até que, sem perceber, eles estavam flertando novamente.
No início, eram brincadeiras leves, discretas, como se
ainda testassem o terreno. Mas, com o tempo, a barreira
que antes os separava foi se tornando irrelevante.
Agora, não havia mais palavras camufladas.
Ela não se escondia.
E ele… bem, ele parecia notar.
Os diálogos eram mais intensos.
As provocações, mais diretas.
O jogo entre eles voltava a ter vida, trazendo consigo
aquela eletricidade que, por tanto tempo, ela pensou ter
perdido.
A cada dia, a conexão se fortalecia.
Dessa vez, sem hesitação.
O que não se pode esquecer
Há coisas que, com o tempo, parecem se dissolver na
memória — como se nunca tivessem sido tão intensas quanto
no instante em que aconteceram.
Mas outras… outras permanecem.
O que passou entre eles não foi apenas desejo.
Não foi apenas brincadeira, nem momentos roubados no meio
da rotina.
Foi algo que se infiltrou nas entrelinhas. Algo que ficou,
mesmo quando tudo deveria ter se apagado.
E é importante lembrar disso.
Porque o que surge depois de um afastamento não é apenas a
ausência — é a lembrança do que já foi.
A consciência de que certas conexões não desaparecem só
porque se tenta ignorá-las.
Por isso, nada disso era fácil.
Porque o sentir ainda estava lá.
Porque, apesar de todas as razões que diziam que não
deveria querer, ela queria.
E porque, no fundo, ele também sabia disso.
Mas havia algo mais.
Desde o começo, ele percebeu — ela não era uma pessoa que
gostava de toque físico.
Nunca buscou isso, nunca fez questão. Não era sua
linguagem de afeto.
E, durante muito tempo, ela achou que jamais sentiria
falta desse tipo de proximidade.
Mas, com ele, algo mudou.
Nas conversas, nas trocas silenciosas, ela começou a
entender que ele também não era alguém dado a gestos
exagerados.
Ele não era do tipo que precisava de contato constante.
Não era afeito a declarações dramáticas.
E, ainda assim, havia algo entre eles — algo que acontecia
no espaço entre um olhar e outro, na forma como um gesto
simples podia carregar intensidade.
Aquilo, sem que percebesse, tinha se tornado parte dela.
E agora, com a distância, a falta desse tipo de intimidade
era mais um peso difícil de carregar.
Por isso, quando ele começou a se aproximar novamente —
mesmo que de forma sutil — ela sentiu o próprio coração se
reconfigurar.
Não houve uma grande cena. Nenhuma confissão repentina.
Apenas a sensação de que o tempo, de alguma forma, havia
lhes devolvido a possibilidade de tentar outra vez.
Dessa vez, com menos medo.
Capítulo 10
Ela nunca foi do tipo que buscava contato físico. Nunca
sentiu necessidade de toques, abraços prolongados ou
gestos de carinho que exigissem proximidade constante.
Mas com ele… algo diferente aconteceu.
Nos momentos em que estavam a sós, o toque se tornou parte
da dinâmica entre eles. No início, de forma sutil — um
roçar de mãos sem muita intenção, um gesto quase casual.
Mas, aos poucos, tornou-se mais presente.
O curioso é que ela não evitava.
Se fosse qualquer outra pessoa, talvez recuasse. Mas com
ele, não havia desconforto. Pelo contrário, a proximidade
despertava nela algo novo — uma vontade inesperada de
prolongar o momento, de aprofundar a conexão que se
estabelecia no silêncio entre um toque e outro.
E ele?
Bem, ele parecia perceber isso.
Mais do que isso — parecia querer.
Buscava seu toque em pequenos gestos, em um pedido ou
outro, como se testasse até onde poderia ir.
E ela, sem precisar que ele insistisse, ultrapassava
qualquer limite que antes acreditava existir.
Não apenas atendia ao que ele pedia, mas excedia o
carinho.
Deslizava os dedos devagar sobre sua pele, deixava que sua
mão repousasse sobre o rosto dele por tempo demais, os
cheiros que depositava discretamente em sua nuca —
pequenos gestos que carregavam uma intensidade que os dois
compreendiam sem precisar de palavras.
Eles tinham uma troca.
E, depois de tudo, sozinha com seus pensamentos, ela se
perguntava:
Como alguém que nunca fez questão do toque poderia sentir
falta dele?
Mas não de qualquer toque.
Do toque dele.
Ele não apenas gostava do toque dela — ele o desejava.
Procurava-o sempre, de maneira sutil, como quem sabe
exatamente onde encontrar conforto sem precisar pedir.
Ela percebeu isso há muito tempo.
Notava a forma como ele se inclinava ligeiramente ao
sentir o deslizar de seus dedos, como sua respiração se
tornava mais pausada quando ela aplicava pressão nos
pontos certos.
Ele relaxava sob seus cuidados, entregava-se ao alívio que
só ela parecia conseguir proporcionar.
No início, os toques eram ocasionais — um gesto simples,
quase sem compromisso.
Mas, com o tempo, tornaram-se uma necessidade velada entre
eles. Um entendimento tácito de que, mais do que bem-estar
físico, ali existia algo que transcendia a
superficialidade de uma massagem.
Para ela, não era apenas sobre aliviar tensões ou dissipar
o peso de um dia difícil.
Era sobre a conexão.
Sobre o que cada toque carregava.
Era sobre sentir.
Sobre permitir-se estar naquele momento por inteiro.
E, talvez sem perceber, ele também fazia parte disso.
Porque, com eles, tudo sempre foi intenso.
Não bastava o toque — havia algo mais ali, algo que
ultrapassava o simples contato da pele.
Um gesto que começava inocente, mas que, aos poucos,
despertava outras sensações.
O calor do toque dela deslizava sobre seus ombros,
avançava pela nuca, espalhava-se como uma corrente
silenciosa que atravessava o espaço entre eles.
Ele sabia.
E ela sabia que ele sabia.
Era apenas uma massagem.
Mas entre eles, nada nunca foi só isso.
Capítulo 11
A vida tem um jeito curioso de surpreender.
Muitas coisas chegam sem aviso — ora de forma sutil, ora
como um furacão que devasta certezas antes inabaláveis.
Ela sempre se orgulhou de conhecer a si mesma.
Nunca foi do tipo que se deixava enganar — nem pelo mundo,
muito menos pelos próprios sentimentos. Mas, de alguma
forma, enganou-se.
Foi assim que aconteceu.
Enquanto tudo se desenrolava, ela repetia para si mesma,
com uma convicção quase arrogante:
“Eu não estou apaixonada.”
Dizia isso sem hesitação, como quem reafirma uma verdade
absoluta.
Não havia espaço para dúvidas, nem brechas para
questionamentos. Era uma certeza tão bem construída que se
tornou quase um mantra.
E, se por acaso, a ideia insistia em rondar sua mente, ela
reforçava:
“Isso está longe de ser uma paixão — muito menos amor.”
Ela acreditava nisso. Afinal, se havia algo que sempre
soube sobre si mesma, era reconhecer o momento exato em
que se apaixonava — e aquilo, fosse o que fosse, não se
encaixava na definição.
Para ela, tudo não passava de um acordo silencioso entre
os dois.
Um escape, um passatempo, qualquer coisa…
“Menos” algo profundo.
Gostava da companhia dele, apreciava sua presença, mas
recusava-se a admitir que aquilo pudesse significar algo
além.
Negava.
Ignorava.
Porque admitir seria abrir uma porta que ela não estava
pronta para atravessar.
Mas sentimentos nunca pedem permissão para existir.
Eles simplesmente acontecem.
E, às vezes, são percebidos tarde demais.
Ela sempre foi observadora.
Os detalhes nunca lhe escapavam — o jeito como ele franzia
a testa quando pensava, o brilho sutil nos olhos ao falar
sobre algo que o movia.
Cada traço dele tinha uma peculiaridade que ela notava sem
esforço, sem sequer perceber que estava prestando atenção
demais.
E, aos poucos, percebeu que não era apenas atenção.
Era admiração.
Ele era lindo — e ela sabia disso antes mesmo de admitir.
Mas não era só sobre aparência. Era sobre presença, sobre
gestos, sobre a forma como as conversas entre eles a
faziam enxergar o mundo sob uma nova perspectiva.
A troca que tinham a transformava.
Porque, sem notar, ele a fez se ver diferente.
Fez com que ela se reconhecesse mais mulher — como se algo
dentro dela finalmente tivesse despertado.
Como se agora pudesse enxergar a si mesma com novos olhos.
Talvez isso devesse ser um sinal.
Mas ela recusava-se a interpretar dessa forma.
Porque, mesmo com tudo ali, mesmo com os indícios óbvios,
mesmo com cada detalhe gritando o que ela evitava
reconhecer…
Ela insistia:
“Não estou apaixonada.”
Dizia com convicção.
Reafirmava.
Repetia quantas vezes fossem necessárias.
Esperava os pequenos gestos — o cuidado quase
imperceptível, a forma como ele lembrava de detalhes que
nem ela sabia ter contado.
E, ainda assim, negava.
Dizia a si mesma que era só carinho, só um vínculo leve,
sem raízes.
Mas, no fundo, já sentia o chão ceder.
Não era mais sobre o que ela queria sentir.
Era sobre o que já sentia.
Mas encarar isso exigia coragem — não aquela coragem que
se grita ao mundo, mas a silenciosa, que encara o espelho
e aceita as próprias vulnerabilidades.
E ela ainda não tinha essa força.
Ainda não estava pronta para se despir das armaduras que
passou anos construindo.
Então, seguia fingindo que tudo estava sob controle.
Mesmo sabendo, bem lá no fundo, que já havia perdido o
domínio há muito tempo.
Porque há coisas que não se comandam.
Há emoções que atravessam até mesmo as barreiras mais
altas.
E o que sentia por ele — por mais que negasse — já era
maior do que ela imaginava ser capaz de sentir.
Ainda não era uma confissão.
Porque aceitar a verdade mudaria tudo.
E, por ora, ela não estava pronta para isso.
Capítulo 12
Entre eles, tudo sempre veio envolto em brincadeiras.
Os convites eram lançados sem grandes pretensões,
disfarçados pelo tom despreocupado de momentos de
descontração.
Mas havia algo ali — uma intenção velada, um significado
que escapava ao limite da brincadeira e roçava o
território da verdade.
Eles sabiam.
Porque, por mais que rissem e tratassem aquilo como algo
passageiro, as palavras carregavam um peso perceptível.
E, quando a resposta vinha rápida, sem hesitação —
“Vamos.”
“Eu aceito.”
— tudo parecia estar prestes a acontecer.
Mas nunca acontecia.
Ficava no ar, pairando entre eles como uma promessa não
cumprida.
Por quê?
Era medo?
Receio?
Ou talvez uma barreira invisível que, por mais que
quisessem atravessar, os mantinha exatamente onde estavam?
Havia algo que sempre os impedia — um fator desconhecido
que os segurava, mesmo quando tudo parecia pronto para
acontecer.
Mas até quando isso se sustentaria?
Até quando ficariam presos ao jogo de palavras, sem dar um
passo adiante?
Sem saber, tiveram seu último momento juntos.
Se ela soubesse que seria o último… teria sido diferente?
Mas era o último de verdade?
Ou apenas um intervalo antes de um reencontro inevitável?
A pergunta pairava no ar, sem resposta.
Tudo aconteceu naturalmente.
Sem planos. Sem hesitação.
Não houve palavras de despedida, nem promessas quebradas —
apenas o fluxo incontrolável do desejo que os guiava, como
uma melodia surgida do próprio silêncio entre eles.
Os toques antes sutis agora transbordavam intensidade.
Um calor que os envolvia, queimando como um fogo que
consumia qualquer pensamento racional.
Seus corpos vibravam juntos, arrepiavam-se ao toque, como
se cada gesto fosse uma nota perfeita numa dança que nunca
precisou ser ensaiada.
E, naquele momento, não eram apenas dois.
Eram movimento.
Eram ritmo.
Eram uma valsa descompassada que, paradoxalmente,
encontrava sua perfeição na entrega absoluta.
Se houvesse um salão ao redor, teria sido um espaço vazio,
iluminado apenas por uma luz suave no centro — como se o
mundo ao redor tivesse desaparecido, deixando apenas a
essência deles ali, pulsando na mesma sintonia.
Dois panos suspensos no ar.
Levitando com o vento.
Flutuando sem resistência.
Era isso.
Era a última vez.
Ou talvez apenas mais um momento… antes de tudo recomeçar.
Capítulo 13
Naquela noite, ao voltar para casa, sentiu-se diferente.
Cada fração de segundo parecia puxá-la de volta para
aquele momento —
Como se seu corpo ainda estivesse lá.
Como se sua pele ainda guardasse o calor do toque dele.
Como se o espaço ao seu redor estivesse impregnado da
presença que, agora, já não estava mais ali.
Era uma intensidade que a invadia sem pedir permissão.
E junto dessa intensidade… vinha a verdade.
Talvez agora, o mundo fora da sua bolha gritasse para ela,
tentando forçá-la a enxergar o que antes insistia em
ignorar.
Mas, mesmo assim, ela silenciava.
E não era um silêncio qualquer.
Era o tipo de silêncio que carrega peso — aquele que não
ecoa do lado de fora, mas se instala dentro.
Preenchendo todos os cantos com uma quietude incômoda.
Seu coração batia em um ritmo estranho, como se buscasse
acompanhar algo que já não estava mais ali.
Tentou se distrair.
Andou pela casa como quem procura um motivo para não
pensar.
Dobrou roupas que já estavam dobradas.
Abriu a geladeira sem fome.
Passou os dedos pelos livros da estante sem realmente
vê-los.
Mas tudo nela ainda estava lá.
Com ele.
Como se, em algum ponto da noite, tivesse deixado uma
parte de si no olhar dele, no toque breve, na palavra dita
sem intenção.
E agora, de volta à sua realidade conhecida, sentia-se
estrangeira dentro da própria rotina.
Era como se nada mais coubesse exatamente no lugar.
A cama parecia grande demais.
A luz do abajur, fraca demais.
E o silêncio…
Alto demais.
Mesmo com tudo evidente, com cada indício estampado diante
de seus olhos, ainda se agarrava à razão.
Tentando controlar algo que há muito tempo escapara de seu
domínio.
Tentara ser racional.
Por mais que tivesse falhado algumas vezes, por mais que
seu próprio coração sabotasse sua lógica em momentos
inesperados, ela se recusava a se permitir sentir.
Porque aceitar aquilo seria admitir que tudo o que vivera
estava além do que julgava ser verdade.
E mais do que isso — seria reconhecer que, por mais
intenso que fosse, aquele sentimento estava sobreposto a
uma mentira.
Ela não podia se dar ao luxo de mergulhar nisso.
Então fechou os olhos.
Respirou fundo.
E fingiu que ainda acreditava em sua própria negação.
No dia seguinte, lá estava ela — no mesmo lugar de sempre,
seguindo a rotina de sempre.
Mas algo estava diferente.
Ela não o sentia.
Olhou ao redor, tentou encontrá-lo nos detalhes que já
conhecia tão bem.
Mas sua presença — antes tão marcante, tão inevitável —
simplesmente não estava ali.
E foi estranho.
Porque ele sempre esteve.
Porque sua existência naquele espaço era quase uma certeza
absoluta, um acontecimento diário, como algo impossível de
ignorar.
Era como expor diamantes ao sol — ninguém passaria sem
notar.
Mas naquele dia, não havia brilho algum.
Até o final do dia, ele não apareceu.
E no próximo dia… também não.
E no outro.
E nos dias que vieram depois, como uma sequência
inevitável de ausência que se impunha sem explicação.
E então, restou apenas o vazio.
Como se, de alguma forma impossível,
ele nunca tivesse existido ali.
Capítulo 14
Foi então que:
O dia não estava completamente ensolarado, mas a luz do
sol marcava presença, atravessando a cidade com um brilho
morno. E o vidro da cafeteria ainda carregava pequenas
gotículas do ar-condicionado indecisas sobre permanecer ou
escorrer. O cheiro de café e livro antigo pairava no ar,
enquanto eu folheava distraída uma página qualquer.
Então, olhei para fora.
E o vi.
Alto, de pele parda, cabelos pretos bem cortados, olhos
levemente castanhos que tinham a profundidade de um
segredo não revelado. O sorriso era o mesmo—marcante,
certeiro, como se ele soubesse de algo que ninguém mais
sabia. A camisa preta desenhava seus ombros largos, seu
corpo relaxado transmitia uma confiança natural.
Eu não soube como reagir. Meu corpo soube antes de mim.
Meu coração perdeu o compasso, minhas mãos tremeram contra
a xícara de café, e a verdade que eu havia passado anos
evitando veio com um golpe cruel.
Existia paixão.
Como pude deixar que esse sentimento viesse à tona só
agora?
Por que não senti isso nos momentos em que tivemos?
Por que só agora, quando uma distância considerável existe
entre nós?
Meu peito se apertava em um desespero silencioso—um grito
contido, abafado pela razão que insisti tanto em
preservar. Mas agora, não havia lógica que justificasse.
Não havia desculpa que apagasse a certeza que queimava em
mim.
Eu não conseguia me mexer.
Não conseguia raciocinar.
Não conseguia nem ao menos me entender.
Ele estava ali.
E eu...
Agora, eu sabia.
Os dias passaram, e algo dentro dela começou a se
transformar.
Desde aquele encontro inesperado, cada pensamento parecia
carregado de um peso novo, uma consciência que antes
tentava ignorar.
Mas a vida seguiu—como sempre segue.
Ela manteve sua rotina, seu trabalho, suas
responsabilidades. Fez de tudo para não se perder em
devaneios sobre o que poderia ter sido, sobre o que não
foi.
Com o passar do tempo, o trabalho tornou-se seu refúgio,
sua fuga perfeita.
Se ocupava o suficiente para não ter tempo de pensar, para
não dar espaço às lembranças que, vez ou outra, ameaçavam
invadir sua mente. Saía cedo, voltava tarde, encarava
tarefas como se fossem um escudo contra qualquer resquício
do passado.
Mas nenhum ser humano é de ferro.
Naquela tarde, Aísha colidiu com sua própria exaustão.
O peso dos dias acumulados cobrava seu preço, e pela
primeira vez em muito tempo, ela percebeu que precisava de
um respiro—um momento que fosse apenas dela, longe dos
papéis que desempenhava todos os dias.
Então, saiu do trabalho e foi até um restaurante discreto
da cidade, um bar tranquilo, onde a luz era baixa e os
murmúrios das conversas se misturavam ao som suave da
música ambiente.
Sentou-se no balcão.
Em companhia da solidão, pediu um vinho e observou o
líquido escarlate deslizar pelo copo antes de tomar o
primeiro gole.
O silêncio lhe fazia companhia.
Até que, por acaso, seu olhar vagou pelo espaço e
encontrou uma silhueta conhecida.
Era um gesto automático, um movimento distraído, mas o
impacto veio antes mesmo da compreensão.
Os copos de whisky sobre a mesa eram detalhes
insignificantes perto do que realmente importava.
Era Vicente.
O tempo não o havia transformado tanto—continuava alto, os
traços marcantes ainda imutáveis. Mas havia algo diferente
nele, um cansaço discreto estampado no olhar, como se
carregasse o peso de pensamentos que não compartilhava com
ninguém.
Ela hesitou por um instante, mas então, sem pensar,
aproximou-se.
—Vicente?
Ele levantou os olhos, surpreso.
—Aísha...
Os dois se encararam em um momento silencioso, como se
tentassem decifrar o que aquela súbita reaproximação
significava.
Ela sorriu de leve, e ele, sem hesitar, a convidou a
sentar.
E então, tudo aconteceu como antes.
A conversa fluiu, sem pressa, sem esforço.
Ele falou sobre seu dia cansativo, sobre o estresse em sua
relação, sobre como algumas coisas na vida simplesmente
não saem como planejamos.
Ela ouviu, absorveu cada palavra, e sem perceber, os dois
começaram a lembrar dos momentos que tiveram juntos—como
se fossem pedaços soltos de um tempo que nunca deveria ter
sido deixado para trás.
O passado estava ali.
Vivo.
Pulsando entre os dois.
Foi quando decidiram ir a outro lugar.
E naquele instante, sem saber, estavam prestes a dar
início a uma nova história.
Capítulo 15
Em uma quarto silencioso, iluminado apenas pelas luzes
suaves da cidade que invadiam as frestas da cortina.
A conversa fluía fácil, sem barreiras, como se o tempo não
tivesse apagado a familiaridade entre eles.
Até que Vicente, num instante de vulnerabilidade, deixou
escapar:
—Sinto falta da forma como você me fazia relaxar.
Aísha parou por um momento.
Não foi apenas a frase, mas a sinceridade por trás dela—um
desejo oculto, um resquício de algo que nunca desapareceu
completamente.
Ela não hesitou.
Com movimentos sutis, preparou o ambiente, sem precisar
dizer mais nada. Suas mãos conheciam o caminho, seu toque
tinha propósito. Mas, por mais que fosse quase um gesto
caridoso, havia verdade no que fazia.
Ela queria estar ali.
E ele não recusou.
Deixou-se levar pela sensação familiar, pelo toque que lhe
trazia um alívio que ninguém mais sabia proporcionar.
E então, inevitavelmente, as coisas simplesmente
aconteceram.
O desejo veio sem controle, sem justificativa. Os toques
tornaram-se intensos, profundos, como se não houvesse
amanhã. Como se, naquele instante, fossem tudo o que
existia.
E, por um momento, foram.
Mas ao amanhecer, a realidade voltou com força.
Aísha abriu os olhos e soube, sem precisar de tempo para
refletir, que aquilo não poderia acontecer novamente.
Levanta devagar, observa Vicente dormindo, as marcas
daquela noite ainda presentes na pele dele, no espaço
entre eles.
Ela pega um papel e escreve, sem hesitar:
"A noite foi boa. Mas não voltará a acontecer.
Há sentimentos que prefiro evitar,
E mantê-los enterrados é o que me resta."
Sem olhar para trás, deixa o bilhete sobre a mesa de
cabeceira.
Respira fundo.
E então, sem permitir que o momento a segure, atravessa o
corredor do hotel e desaparece.
Ela saiu sem olhar para trás.
O ar fresco da manhã a envolveu, mas não foi o suficiente
para dissipar a sensação de conflito que pulsava dentro
dela.
Ainda sentia o toque dele na pele, o calor da noite
passada como um vestígio que não desapareceria tão
facilmente.
Mas aquilo precisava ser deixado para trás.
Passou o dia tentando ignorar os pensamentos que insistiam
em voltar. O bilhete que deixara era sua última palavra
sobre o assunto, sua decisão final.
E então, conforme os dias passaram, ela voltou para sua
rotina de sempre—o trabalho, a ocupação constante, tudo o
que pudesse distrair sua mente e impedi-la de cair na
armadilha da saudade.
capitulo 16
A noite caiu suave sobre a cidade, trazendo consigo o
frescor de um vento leve que dançava entre as ruas
movimentadas. Vicente estacionou o carro em frente ao
restaurante, um lugar discreto, escondido entre edifícios
históricos e árvores cujos galhos se estendiam sobre as
calçadas, criando sombras que pareciam esconder segredos.
Ele saiu do veículo ajeitando o relógio no pulso, como se
isso pudesse lhe dar alguma firmeza. Camila, elegante e
tranquila, deslizou para fora do carro e repousou a mão em
seu braço. Seu perfume doce se misturou com o aroma
amadeirado que escapava do interior do restaurante. O
lugar tinha uma atmosfera íntima. Luzes baixas pendiam em
lâmpadas envelhecidas, projetando um brilho dourado que
dançava nas paredes de madeira rústica. Plantas se
espalhavam estrategicamente, algumas suspensas no teto,
criando um ambiente de aconchego e mistério. Eles foram
conduzidos a uma mesa mais afastada, perto de uma
divisória de madeira que proporcionava alguma privacidade.
Camila escolheu o vinho com um sorriso casual, enquanto
Vicente se ocupava em absorver os detalhes ao redor,
tentando silenciar a inquietação que teimava em crescer
dentro dele. Então aconteceu. A porta do restaurante se
abriu e, por um instante, Vicente sentiu que o tempo
desacelerava. O salto fino tocou o chão com precisão.
Vestido vermelho. Postura impecável. Aísha entrou no
restaurante como se o próprio ambiente conspirasse para
destacá-la entre os demais. Mas não estava só. Um homem
(gabriel) caminhava ao seu lado—terno bem cortado,
presença firme. A mão dele pousou brevemente na base das
costas de Aísha, um gesto que fez Vicente apertar a borda
da taça de vinho, sua mente se tornando um turbilhão. Ela
viu Vicente. Ele viu Aísha. Uma troca de olhares que foi
breve, mas densa, carregada de tudo o que não poderia ser
dito. Aísha piscou, retomando a postura. Seguiu até sua
mesa, como se nada ali a afetasse. Mas suas mãos, que
repousavam sobre a taça de vinho, tremeram por um
instante. Vicente percebeu, e o incômodo se espalhou por
seu peito, uma mistura perigosa de ciúme e desejo
reprimido. Camila percebeu a mudança súbita no humor do
marido e inclinou a cabeça, estudando-o com leve
curiosidade. "Está tudo bem?", perguntou, sua voz como um
sussurro gentil. Vicente forçou um sorriso e ajeitou os
talheres.
"Claro, só estou pensando na sobremesa."
Sua voz saiu firme, mas distante. Enquanto o jantar
seguia, ele tentava ignorar o fantasma da presença de
Aísha. Mas cada risada dela, cada gesto calculado com seu
acompanhante, era uma estocada silenciosa. Uma batalha
invisível acontecia entre os dois—olhares furtivos,
respirações contidas, tensão não resolvida. Quando Camila
pediu a conta, Vicente sentiu um alívio estranho, como se
estivesse sendo libertado de um jogo que não queria
admitir estar jogando. Ao sair do restaurante, sentiu um
olhar ardendo em suas costas. Ele se virou ligeiramente.
Aísha não sorriu, não reagiu. Apenas observou, seus olhos
carregando tudo que não poderia ser dito. Vicente caminhou
para fora, Camila segurando sua mão, sem perceber que
naquela noite, o que havia permanecido em silêncio era
mais ensurdecedor do que qualquer palavra. A porta do
apartamento se fechou atrás de Vicente com um estrondo
seco. Ele percorreu o espaço escuro e silencioso, seus
passos rápidos ecoando pelo piso frio. A noite que deveria
ter sido tranquila havia se transformado em um inferno
interno, e agora, preso nessa inquietação, ele puxou o
celular do bolso e discou o número de Aísha. Uma. Duas.
Três chamadas. Nenhuma resposta. A imagem dela no
restaurante, elegante e indiferente ao seu olhar, queimava
em sua mente como uma ferida exposta. Ele apertou o
celular com força, a mandíbula cerrada. Ligou de novo.
Nada. Aísha ainda estava no restaurante. Ele sabia disso.
Ela estava ignorando-o deliberadamente, jogando um jogo
cruel que o fazia perder o controle sobre si mesmo.
"Atende!" rosnou, sua voz rasgando o silêncio da sala.
Finalmente, uma mensagem chegou.
"Cheguei em casa. Boa noite, Vicente."
Fria. Distante. Como se toda aquela tensão entre eles
nunca tivesse existido. Vicente encarou as palavras na
tela como se fossem um desafio. O sangue fervia em suas
veias, e sem pensar duas vezes, pegou as chaves e saiu. O
carro rugiu na estrada enquanto ele atravessava a cidade,
a raiva misturada ao desejo pulsando no peito. Quando
chegou ao prédio de Aísha, nem se deu o trabalho de
avisar. Subiu as escadas em ritmo feroz, o coração
disparado. O som da campainha preencheu o corredor quando
ele pressionou o botão com força, mas antes mesmo que ela
pudesse abrir, ele bateu na porta com a mão cerrada. A
porta se abriu lentamente, revelando Aísha em um robe de
cetim escuro, os cabelos ainda levemente presos do jantar.
Os olhos dela encontraram os dele, e em um segundo, toda a
contenção caiu.
"Você ignorou minhas ligações,"
ele disparou, a voz áspera, cheia de um desejo que lutava
contra a raiva. Ela cruzou os braços, sustentando o olhar.
"Achei que fosse melhor assim." O riso seco dele cortou o
ar.
"Melhor? Me ver ali, sentado com minha esposa enquanto
você fingia que não me conhecia?"
Aísha respirou fundo, a tensão crescendo no pequeno espaço
entre eles.
"E o que você queria que eu fizesse, Vicente? Que eu
atravessasse o restaurante e me jogasse aos seus pés?"
Ele avançou um passo, sua presença preenchendo a entrada
do apartamento.
"Eu queria que você sentisse o que eu senti. Que não
estivesse tão… plena."
Aísha piscou devagar, e por um momento, o jogo virou. O
desejo entre eles ganhou espaço, absorvendo a raiva,
transformando tudo em algo ainda mais perigoso. Vicente
levantou uma mão, hesitando por um instante antes de tocar
sua pele.
"Diga que você não sentiu nada,"
ele desafiou. Os olhos de Aísha brilharam à luz baixa do
corredor, sua respiração entrecortada. Mas ela não
respondeu. Porque ambos sabiam a verdade.
—O Dia Seguinte
Aísha e Gabriel A manhã começou com o som suave da xícara
deslizando sobre a mesa do café. Gabriel observava Aísha
com curiosidade, notando a distração no olhar dela
enquanto mexia devagar no café sem realmente beber.
—Você está em outro mundo — ele disse, com um meio
sorriso.
Ela piscou algumas vezes, voltando ao presente.
—Só pensando em algumas coisas.
Gabriel apoiou os cotovelos sobre a mesa, estudando-a.
—É sobre ontem?
O tom dele carregava uma insinuação que fez Aísha respirar
fundo antes de responder.
—Talvez.
Gabriel não insistiu. Apenas sorriu com aquele jeito calmo
de quem parecia sempre entender mais do que demonstrava.
—Espero que tenha sido uma noite boa, então.
Ela sentiu o peso nas entrelinhas daquela frase. Boa foi
pouco. Foi intensa, perigosa, impossível de ignorar. Mas
ao invés de responder, apenas desviou o olhar para a
janela, o sol refletindo contra o vidro em um brilho
discreto.
No fundo, sabia que Gabriel estava se aproximando de um
território que, por mais seguro que parecesse, não era
onde seu coração repousava.
Vicente e Camila O som do chuveiro desligando foi o único
ruído na casa naquela manhã. Camila saiu do banheiro
enrolada na toalha, secando os cabelos devagar, enquanto
Vicente ajeitava a gravata diante do espelho.
—Você dormiu estranho — Camila comentou, observando-o pelo
reflexo.
Vicente ajustou a postura, tentando mascarar qualquer
vestígio de inquietação.
—Tive um dia cansativo.
Camila estreitou os olhos por um instante, como quem
buscava algo além da resposta superficial. Então, cruzou
os braços e mudou de assunto com um tom casual demais:
—Você viu quem estava no restaurante ontem?
O corpo de Vicente enrijeceu por um segundo, mas ele
manteve a expressão neutra.
—Não reparei muito.
Camila soltou um pequeno riso.
—Ah, mas eu vi. Era Aísha, não era?
Silêncio.
Camila deu um passo à frente, apoiando-se no encosto da
cadeira, como se analisasse a reação do marido.
—Ela parecia bem acompanhada. Engraçado, não achava que a
visse com alguém daquele jeito.
Vicente engoliu seco, tentando parecer desinteressado.
—É mesmo?
Camila inclinou a cabeça.
—Você nunca fala sobre ela, mas sei que a conhecem. Sempre
achei curioso isso.
Vicente pegou o relógio e prendeu no pulso com um gesto
firme.
—Não tem nada para falar.
Camila sorriu devagar.
—Que bom.
O jogo estava começando a mudar.
Vicente ajeitou a manga da camisa com calma, mas por
dentro, sentia uma inquietação discreta. Camila havia
introduzido Aísha na conversa de maneira calculada, como
quem jogava uma peça no tabuleiro sem revelar sua
estratégia.
—Como você conhece Aísha? — Ele perguntou, tentando
parecer despreocupado.
Camila sorriu levemente e cruzou os braços.
—De quando ela trabalhava com você.
Vicente sentiu um leve aperto no peito, mas manteve o
olhar firme.
—E como isso aconteceu?
Camila inclinou a cabeça, os olhos atentos demais para
serem inocentes.
—Em uma das vezes que fui ao seu escritório. Eu lembro bem
do dia. Você estava ocupado demais para me receber
imediatamente, então fiquei na recepção por alguns
minutos. Aísha estava lá, resolvendo algumas coisas.
Acabamos conversando, e me surpreendi com o jeito
dela—inteligente, articulada. Ela parecia entender muito
do seu trabalho.
Vicente inspirou fundo, ajeitando o relógio.
—Sim, ela era boa no que fazia.
Camila continuou observando-o, e então, com um tom casual,
perguntou:
—Por que vocês não trabalham mais juntos?
O tempo pareceu desacelerar por um instante. Vicente olhou
para Camila, avaliando se a pergunta era apenas
curiosidade ou se escondia algo mais profundo.
—Ela quis seguir outro caminho — respondeu, medindo cada
palavra.
Camila deu um pequeno sorriso, jogando o cabelo para trás.
—Que curioso. Pelo jeito que ela falava do trabalho,
parecia gostar muito.
O silêncio entre eles se instalou como um peso invisível.
Camila não disse mais nada, mas Vicente sentiu que havia
algo por trás daquela conversa, algo que talvez estivesse
apenas começando a emergir.
Capítulo 17
O sol da manhã iluminava o café aconchegante onde Aísha e
Gabriel se encontravam. O aroma de grãos moídos
misturava-se ao leve murmúrio das conversas ao redor,
criando um ambiente tranquilo—mas dentro dela, nada
parecia verdadeiramente calmo.
Gabriel brincava com a colher dentro da xícara,
observando-a com um sorriso discreto.
—Está pensativa de novo.
Aísha desviou o olhar da janela, forçando um sorriso leve.
—Talvez seja só o sono.
Ele riu baixo, apoiando-se na mesa.
—Ou talvez seja outra coisa.
Ela inspirou fundo.
—Não quero falar sobre ontem.
Gabriel assentiu devagar, sem insistir.
—Tudo bem. Só queria garantir que você está bem.
Aísha soltou um suspiro e apoiou os cotovelos na mesa.
—Estou tentando estar.
Ela queria acreditar nisso. Queria que a companhia de
Gabriel fosse suficiente para dissipar qualquer resquício
do que havia acontecido na noite anterior.
Mas a verdade?
Seus pensamentos ainda estavam em Vicente.
Vicente e Seu Cotidiano O escritório estava movimentado,
como sempre. Vicente digitava alguns e-mails enquanto a
voz de Camila ecoava pela chamada de vídeo que ela fazia
do outro lado da sala, sua presença parecendo maior do que
deveria.
Ele tentou se concentrar, mas sua mente teimava em voltar
para aquela madrugada.
A tensão na porta do apartamento de Aísha.
O cheiro dela.
A voz hesitante, mas intensa.
A forma como seus olhos não mentiam, mesmo quando ela
tentava se afastar.
Vicente apertou os dedos contra a mesa, incomodado por
quanto aquilo ainda o afetava.
Então, o telefone vibrou.
Uma mensagem curta.
De Aísha.
Ele travou a respiração antes de abrir.
"Não devíamos continuar com isso."
Seu coração acelerou.
Ele encarou a tela, absorvendo as palavras.
Então, contra qualquer racionalidade, digitou a única
resposta que fazia sentido naquele momento.
"Muito tarde para isso." "Precisamos conversar."
O celular vibrou e Aísha viu o nome dele na tela.
A resposta veio rápida.
"Sim. Mas para acabar com tudo."
Vicente encarou a mensagem por alguns segundos antes de
responder.
"Vou ao seu encontro. Mas não para isso."
Ela suspirou, fechando os olhos. Era sempre assim. Ele
nunca aceitava um ponto final, nunca deixava que ela
seguisse adiante.
Mas mesmo sabendo disso, marcou a hora e o lugar.
Vicente e Camila Ao chegar em casa, Vicente já tinha em
mente o que vestiria para aquela noite. Mas antes que
pudesse sequer tirar o paletó, encontrou a mesa
cuidadosamente arrumada, velas acesas, e Camila diante
dele—vestido justo, maquiagem impecável, um olhar que
denunciava intenções mais profundas.
—Achei que merecíamos um jantar especial hoje.
Vicente hesitou. A mente ainda estava no compromisso com
Aísha, mas Camila sorria como quem já sabia que ele não
negaria.
E ele não negou.
Sentou-se, jantou, conversou—tentou não parecer ausente.
Mas quando a noite avançou e Camila deslizou os dedos por
seu braço, a escolha foi feita por ele.
Enquanto isso, Aísha esperava.
Aísha no Bar O relógio já marcava 20h40, e nada de
Vicente.
Ela observava o ambiente ao redor, tentando ignorar o peso
da decepção crescente. O mesmo jogo, a mesma história—ele
nunca vinha quando precisava vir.
O tempo passou.
Sem mensagens. Sem explicações.
E então, ela aceitou o que já sabia.
Ele não viria.
Aísha deixou uma nota sobre a mesa e saiu. O ar fresco da
noite acertou seu rosto, mas não dissipou o peso no peito.
Então, sem pensar, pegou o celular e ligou para Gabriel.
Gabriel e Aísha Gabriel atendeu no segundo toque.
—Vem pra cá. — Foi tudo o que ela disse.
Ele não hesitou.
Quarenta minutos depois, ele estava à sua porta.
Os olhos de Gabriel estudaram Aísha, percebendo algo mais
profundo na sua expressão.
—Ele não apareceu.
Ela assentiu devagar.
Gabriel, sem dizer mais nada, segurou sua mão.
E naquela noite, sem intenção de nada além de afogar sua
frustração, Aísha encontrou em Gabriel uma distração que,
por mais que não fosse Vicente, preencheu o espaço que ele
deixara vazio.
Capítulo 18
Vicente no trabalho de Aísha A manhã mal tinha começado
quando Aísha ouviu passos firmes atravessando a recepção.
O som ecoou no corredor e, antes que pudesse se preparar,
ele apareceu.
Vicente.
O olhar dele carregava uma mistura de tensão e urgência,
como quem queria resolver algo antes que escapasse por
completo.
—Preciso falar com você.
Aísha cruzou os braços, mantendo o semblante frio.
—Você deveria ter falado ontem.
Ele respirou fundo, tentando controlar a impaciência.
—Eu sei. Camila preparou um jantar e… eu não podia
simplesmente sair.
Ela soltou um riso seco.
—Você sempre tem uma desculpa.
Vicente se aproximou, abaixando o tom de voz.
—Eu não estou dizendo que não queria ir. Mas havia um
motivo.
Aísha o encarou por um longo instante, e então, sem aviso,
soltou:
—Tudo bem. Eu também tive uma noite boa.
A mudança na expressão de Vicente foi instantânea.
—O quê?
O silêncio se instalou entre eles, carregado de algo
perigoso.
—Gabriel foi até minha casa — completou Aísha, sem recuar.
Vicente se afastou um passo, como se precisasse de espaço
para processar aquilo. Mas sua reação veio antes do
pensamento.
—Camila é minha esposa — disparou, a voz carregada de algo
afiado. — Eu tenho que estar com ela nesses momentos. Eu a
amo, e não posso e nem vou deixá-la sozinha quando ela faz
algo para mim.
Aísha sentiu as palavras cortarem mais fundo do que
esperava.
—Eu não esperava que você deixasse sua esposa — disse,
tentando manter a firmeza. — Mas um aviso? Um mínimo de
consideração?
Vicente não respondeu. E para ela, aquele silêncio dizia
mais do que qualquer justificativa.
Ela o encarou por mais alguns segundos, então respirou
fundo e apontou para a saída.
—Vá embora, Vicente.
Ele hesitou.
—Aísha…
Ela não deixou que ele continuasse.
—Eu disse para sair.
Vicente a observou por um instante, o peito pesado, e
então, sem mais palavras, virou as costas e foi embora.
Aísha toma uma decisão Ela sentiu o peso daquele momento
como uma corrente invisível puxando-a para baixo.
Então, sem aviso, decidiu.
A tarde chegou, e sem que ninguém soubesse, Aísha
organizou tudo rapidamente.
Passagens compradas. Mala arrumada. Celular desligado.
Ninguém saberia para onde foi.
E talvez fosse melhor assim.
—Memórias Perdidas
A luz do fim de tarde atravessava a cafeteria, pintando
sombras suaves sobre a mesa de madeira escura. O aroma do
café recém-feito misturava-se com o perfume cítrico de
Sofia, que girava distraidamente a colher dentro da xícara
enquanto olhava para Aísha.
—Você sempre fala desse curso de massagem, mas nunca se
inscreve. — Sofia sorriu de canto, apoiando o queixo na
mão.
Aísha soltou um suspiro e mexeu no próprio café sem muita
convicção.
—Porque nunca dá tempo. Meu trabalho exige muito, e agora…
bom, agora nem sei mais se faria sentido.
Sofia arqueou uma sobrancelha.
—Sentido? Desde quando algo que você gosta precisa de
justificativa?
Aísha sorriu levemente, mas não respondeu.
Era verdade. Desde que descobriu o prazer nos toques, nas
reações silenciosas que um simples deslizar de dedos sobre
a pele podia causar, ela sabia que queria aprofundar esse
conhecimento. Não apenas o aspecto técnico, mas a conexão
que isso criava.
Só que a vida sempre exigia que deixasse esse desejo para
depois.
Até agora.
Viagem:
O avião tocou suavemente a pista de um aeroporto envolto
pelo calor tropical. Aísha respirou fundo ao sair,
sentindo o vento morno abraçá-la. O cenário era exatamente
o que imaginou—praias de areia clara, resorts discretos
que se camuflavam entre palmeiras e um céu que parecia
infinito.
Ela não tinha planejado essa viagem com antecedência.
Apenas decidiu e veio.
Agora, seu destino era uma pequena ilha onde, por algumas
semanas, se dedicaria ao curso que por tanto tempo adiou.
Aprenderia técnicas, mas também se permitiria respirar
longe de tudo.
Longe de Vicente.
Longe do que aconteceu.
Mas será que a distância apagaria o que ainda queimava
dentro dela?
A empolgação de Aisha era palpável, não só por tudo que
aprenderia , mas por tudo que a aquela ilha tinha a lhe
oferecer, pois ela também estava ali como hóspede, ao
chegar em um dos resorts o que ficaria hospedada, ela
recebe uma lista de alto ajuda de atividades e passeios
que a ilha oferecia.
Entre as opções, havia mergulho em recifes coloridos,
trilhas guiadas por moradores locais, sessões de meditação
à beira-mar e um evento exclusivo chamado "Histórias da
Ilha".
Curiosa, Aísha percorreu a lista com os dedos, imaginando
como cada experiência poderia contribuir para os dias que
viriam. Ela queria absorver tudo, viver cada momento sem
reservas. Escolheu alguns passeios sem pensar duas vezes e
já marcava na mente quais seriam os primeiros. Mas antes
de qualquer aventura, precisava se instalar.
Ao caminhar pelo resort, sentiu o perfume suave do mar
misturado ao frescor da vegetação ao redor. O lugar era
discreto, aconchegante, e perfeitamente integrado ao
ambiente natural. Cada detalhe parecia cuidadosamente
pensado para que os hóspedes se sentissem parte daquele
paraíso.
Quando entrou no quarto, uma brisa cálida atravessou a
janela aberta, carregando um aroma de jasmim. Ela soltou a
mala no chão e percorreu o espaço com os olhos. Era ali
que começaria sua jornada, longe de tudo o que queria
esquecer, mas também mais perto do que precisava
descobrir.
Aisha deita para descansar da viagem longa, algum tempo
depois ao desperta, percebe que já é noite e que não dá
pra ficar de parada, ela se arruma e sai de seu quarto,
quando logo estranha a pequena movimentação de algumas
pessoas seguindo na mesma direção, e ela decide
acompanhar, no final da caminhada , Aisha se deparada com
uma estrutura feita de palha e luminárias feitas de bambu
e as pessoas entrando, é quando ela avista a placa “
histórias da ilha “ ao entrar ela se deparada com luzes
suave e efeitos brilhantes que passam um ar de mistério e
fascinação ao que irá ser contado, o palco decorado com
folhas, flores e objetos que fazem um som que frisa ainda
mais o mistério e a forma como a história estava sendo
contada, como se ele cantasse e recitasse ao mesmo tempo,
Aisha se acomodou em um dos bancos de madeira dispostos em
círculo, observando cada detalhe ao seu redor. O ambiente
parecia encantado, como se a própria ilha contasse seus
segredos através da voz do narrador. Um homem de cabelos
grisalhos, pele marcada pelo sol e olhos profundos começou
a entoar um cântico suave, sua voz embalando a plateia
como uma maré calma.
Cada palavra parecia carregar séculos de história,
misturando realidade e lenda em uma narrativa
hipnotizante. Ele falava sobre espíritos antigos que
protegiam a ilha, sobre tesouros que nunca foram
encontrados e sobre um amor impossível que, segundo os
mais velhos, ainda vagava por aquelas terras.
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele. Não era medo,
mas uma estranha sensação de pertencimento, como se
aquelas histórias tocassem algo dentro dela que ainda não
havia sido explorado. Então, entre uma pausa e outra, ela
percebeu algo incomum—um olhar fixo entre a plateia,
alguém que parecia igualmente absorvido pela magia do
momento.
Aísha ajustou-se no assento, completamente absorvida pela
atmosfera do lugar. O narrador pausou, respirou fundo, e
então sua voz ecoou na estrutura de palha com um peso
quase sagrado:
**“Há muito tempo, antes dos primeiros viajantes pisarem
nesta terra, a ilha pertencia apenas ao vento e ao oceano.
Mas então vieram os guardiões—não conquistadores, mas
aqueles que a ilha escolheu. Eles não tomaram a terra,
eles a ouviram. E a terra os aceitou. Desde então, geração
após geração, os filhos desses primeiros guardiões
carregam uma promessa: proteger os segredos que o próprio
mar lhes confiou.”**
Um leve arrepio percorreu os ombros de Aísha. O silêncio
reverente da plateia tornava as palavras ainda mais
potentes.
“Dizem que aqueles que carregam o sangue dos guardiões
nunca podem partir de verdade,” continuou ele, os olhos
varrendo o público. “Mesmo que cruzem oceanos, algo sempre
os traz de volta. O destino de cada um é traçado pelo
vento que sopra sobre esta ilha. E há uma pergunta que
poucos ousam fazer… quem, entre nós, ainda carrega esse
legado?”
O som dos objetos no palco—folhas secas sendo tocadas pelo
vento, pequenos sinos de bambu tilintando—parecia
amplificar o mistério.
Aísha engoliu em seco. Não era apenas a história. Era como
se, por um instante, aquilo estivesse sendo contado para
ela. Como se a ilha a estivesse observando também.
O narrador respirou fundo e, em um ritmo compassado,
começou a entoar uma melodia baixa, quase como um murmúrio
do vento. Sua voz, áspera e grave, carregava a história
como se fosse parte da própria terra.
**"Nas águas que dançam sob o luar,
há segredos que o tempo não quis levar.
Tesouros não feitos de ouro ou prata,
mas de promessas que o vento trata.
Guardião que ouve a voz do mar,
nunca pode se afastar.
Pois a ilha chama, pede e canta,
e quem parte… sempre volta."**
O ritmo da cantiga parecia embalar a plateia, e Aísha
sentiu como se a própria areia sob seus pés pulsasse com a
melodia. O narrador continuou, fechando os olhos como se
visse o passado se desenrolar diante dele.
**"Dizem que um dia um guardião traiu,
tentou partir, mas o mar rugiu.
Ondas altas, céu sem cor,
levou o barco, selou a dor.
E nas águas profundas ele ficou,
nem a lua soube onde descansou.
Mas quem escuta a brisa da ilha,
ainda sente o seu clamor."**
[Link]
s_from_share=1
Um suspiro percorreu o público, como se as palavras fossem
mais do que uma lenda, como se a própria ilha ainda
carregasse seus ecos. Aísha se arrepiou. O que mais essa
terra guardava? Quem eram os descendentes dos guardiões?
E, acima de tudo… por que aquela história parecia lhe
dizer algo?
O narrador fez uma pausa, deixando o silêncio se acomodar
entre os presentes. Depois, com um olhar profundo,
finalizou:
**“E dizem que, até hoje, os destroços do barco repousam
sobre um banco de areia, oculto em algum lugar da ilha.
Não afundou completamente, como se a terra ainda o
quisesse perto… como se esperasse o retorno de seu
guardião.”**
Um arrepio sutil percorreu o público, e aos poucos as
conversas começaram a brotar em murmúrios enquanto as
pessoas se levantavam para partir.
Aísha permaneceu sentada por mais alguns instantes,
absorvendo cada palavra, cada nota daquele canto ancestral
que ainda parecia vibrar no ar. Quando enfim se levantou,
sentiu que algo dentro dela havia mudado. O que mais
aquela ilha escondia? Quem eram seus verdadeiros donos? E
será que o destino dos guardiões ainda se entrelaçava com
os de quem chegava ali?
Maravilhada, ela saiu para a noite morna, com a certeza de
que havia muito mais a descobrir.
Perfeito vamos continuar.
Aisha então volta para seu quarto, tendo uma boa noite de
sono como não tinha a muito tempo , acordou com o lindo
amanhecer que passava pelas as janelas que ela deixou
aberta;A luz dourada do sol pintava o chão de madeira,
dançando suavemente com a brisa que balançava as cortinas.
O som distante das ondas e o canto dos pássaros criavam
uma sinfonia tranquila, como se a ilha desse as
boas-vindas a um novo dia.
Aísha se espreguiçou, sentindo o corpo leve pela primeira
vez em muito tempo. Era diferente estar ali. Não apenas
fisicamente, mas de uma maneira mais profunda—como se a
energia do lugar a envolvesse, sussurrando promessas de
mudança.
Ela se levantou, caminhando descalça até a varanda. O azul
intenso do mar parecia infinito, e a areia branca brilhava
sob o sol da manhã. Inspirou fundo, deixando o cheiro
salgado do oceano preencher seus pulmões. Hoje começaria
seu curso, e talvez sua jornada pessoal também estivesse
apenas começando.
Vestiu algo leve e confortável, amarrou o cabelo num coque
despreocupado e pegou sua bolsa. Ao sair do quarto, uma
sensação inexplicável a acompanhou—uma expectativa quase
elétrica no ar. Algo lhe dizia que aquele dia guardava
surpresas.
Ela saiu do quarto sentindo-se renovada e seguiu para o
restaurante do resort, onde o café da manhã estava servido
em uma área aberta, com vista para o mar. O cheiro de
frutas frescas, pão recém-assado e café forte pairava no
ar, misturando-se à brisa suave da manhã.
Escolheu uma mesa próxima à varanda e se serviu de uma
seleção colorida—manga, abacaxi, maracujá—sentindo cada
sabor como parte da experiência da ilha. Enquanto tomava
seu café, observou os outros hóspedes conversando
animadamente. Alguns pareciam viajantes aventureiros,
outros pareciam estar ali para descanso. Mas todos
compartilhavam algo em comum: estavam ali para viver
aquele pedaço de paraíso.
Depois de um tempo, verificou o horário e percebeu que já
estava quase na hora de sua primeira aula. Guardou seus
pertences e seguiu pelo caminho indicado no mapa que
recebeu na recepção.
O curso acontecia em um espaço à beira da praia, protegido
por toldos rústicos e decorado com pranchas de madeira e
materiais naturais. O som do mar preenchia o ambiente,
dando um ar ainda mais especial àquele momento.
Ao chegar, viu um grupo pequeno de alunos já reunidos,
conversando entre si. No centro, uma mulher de pele
dourada pelo sol e cabelos presos em um coque firme sorriu
e chamou a turma para perto.
**“Bem-vindos,”** disse ela, com um tom acolhedor.
**“Antes de mais nada, quero que sintam este lugar.
Respirem. Fechem os olhos por um momento. Porque este
curso não é só sobre aprender técnicas… é sobre se
conectar.”**
Aísha obedeceu, fechando os olhos e deixando-se levar pela
sensação única daquele instante. O curso estava prestes a
começar, e ela sentia que algo maior a aguardava.
O grupo se acomodou sobre esteiras de palha dispostas na
areia, formando um círculo que permitia a todos se verem
claramente. O som das ondas marcava o ritmo do encontro, e
a instrutora—que se apresentou como **Isla**—falava com
uma serenidade contagiante.
**“Antes de qualquer técnica, precisamos entender o que
nos cerca,”** começou ela, passando os olhos por cada
aluno. **“Esta ilha tem uma energia própria. Tudo aqui tem
um propósito, e o primeiro passo para aprendermos é sentir
isso.”**
Ela se levantou e pegou uma pequena tigela de barro,
dentro dela uma mistura de ervas secas. **“O cheiro é uma
das formas mais antigas de conexão. Quero que respirem
fundo.”** Isla esmagou parte da mistura com os dedos,
liberando um aroma fresco e amadeirado no ar.
Aísha fechou os olhos e aspirou lentamente. Um misto de
alecrim, baunilha e um toque cítrico invadiu seus
sentidos, despertando memórias que não sabia que tinha.
Era reconfortante e ao mesmo tempo intrigante.
**“Agora, quero que sintam a textura da terra.”** Isla
pegou um punhado de areia, deixando que os grãos
escorressem lentamente entre seus dedos. **“O toque nos
ancora ao lugar onde estamos. Fechem os olhos e deixem que
essa sensação guie vocês.”**
Aísha obedeceu, deixando seus dedos afundarem na areia
macia. A temperatura quente era agradável, e pela primeira
vez em muito tempo, ela não estava preocupada com o que
viria depois. Só estava ali.
Isla sorriu, vendo a entrega do grupo ao momento.
**“Nosso curso envolve práticas que vão além das mãos e da
mente. Tudo começa com a percepção. Quem compreende o
ambiente, compreende a si mesmo.”**
Aísha abriu os olhos, sentindo que aquela jornada seria
muito mais intensa do que imaginava.
Depois de um dia intenso, Aísha voltou para o resort
sentindo-se leve, como se algo dentro dela tivesse
finalmente desacelerado. O curso a envolveu de uma forma
inesperada, e cada detalhe aprendido parecia vibrar em sua
mente.
Ao entrar no quarto, olhou pela janela e viu que a noite
estava impecável. O céu negro era bordado por milhares de
estrelas, e a lua cheia iluminava a praia com um brilho
prateado, quase irreal.
Decidiu que não queria encerrar aquele dia dentro de
quatro paredes. Precisava sentir a ilha sem barreiras,
apenas ela e a natureza.
Vestiu algo leve e saiu em direção à praia, sem levar nada
além de sua própria vontade de se perder naquele instante.
O vento suave acariciava sua pele, e a areia morna, ainda
guardando o calor do dia, afundava sob seus pés conforme
caminhava até a beira do mar.
Lentamente, entrou na água. O toque fresco a fez prender a
respiração por um instante, mas logo sentiu o conforto da
temperatura equilibrada pelo calor tropical. Aísha fechou
os olhos, deixando que as ondas a envolvessem suavemente.
Respirou fundo e permitiu-se apenas estar ali—sem passado,
sem futuro, apenas o presente absoluto.
A lua refletia sobre a superfície da água, transformando o
oceano em um espelho líquido que parecia guardar segredos.
Por um momento, ela teve a sensação de que aquela ilha
sabia exatamente quem ela era, e que, de alguma forma,
também a observava.
A água envolvia Aísha como um véu macio, seus sentidos se
misturando àquele momento quase hipnótico. O brilho da lua
refletia nas ondas, desenhando caminhos luminosos sobre a
superfície do mar. Ela mergulhou, deixando-se afundar por
alguns segundos, como se estivesse se entregando aos
mistérios que aquelas águas escondiam.
Quando emergiu novamente, respirou fundo, sentindo o
frescor da brisa noturna em seu rosto. Mas então… um
arrepio percorreu sua pele.
Alguém estava ali.
Apenas um vulto na areia, imóvel, observando-a. Aísha
piscou, tentando ajustar a visão à escuridão. Os olhos do
desconhecido refletiam um brilho sutil sob a luz da
lua—não ameaçador, mas carregado de presença.
Ela permaneceu onde estava, apenas as partes superiores de
seu rosto fora da água, observando, esperando. Mas antes
que pudesse discernir quem era ou o que significava aquele
encontro silencioso, o vulto recuou. Um passo, depois
outro. Até que desapareceu entre as sombras das palmeiras.
Aísha sentiu o coração pulsar em seu peito. Quem poderia
estar ali, naquela hora? A ilha parecia ter sua própria
forma de comunicar-se—e talvez aquele fosse apenas o
primeiro sinal de que havia muito mais a ser revelado.
Lentamente, ela nadou de volta para a areia, ainda envolta
na sensação de que aquela noite não fora apenas uma
coincidência.
Aísha sentiu o coração ainda acelerado enquanto caminhava
de volta para o resort. A sensação de ter sido observada
no mar não a deixava completamente, como se algo daquela
noite permanecesse grudado em sua pele.
Mas então, ao se aproximar dos quartos mais afastados,
algo lhe chamou a atenção.
Movimentação incomum. Carros pretos estacionados sem
qualquer marcação aparente. Homens de terno, postura
rígida, como se fossem seguranças particulares. Nenhum
deles parecia pertencer ao fluxo normal de hóspedes do
resort. Não conversavam, apenas aguardavam. Observavam.
Ela diminuiu o passo, fingindo distração, mas seus olhos
percorriam os detalhes rapidamente. Quem poderia exigir
aquele tipo de proteção em um lugar tão reservado? Seria
apenas algum turista milionário ou algo mais? O mistério
da ilha se aprofundava a cada instante.
Decidiu não prolongar sua curiosidade. Respirou fundo e
seguiu até seu quarto, fechando a porta com um cuidado
quase exagerado. Encostou-se nela por alguns segundos,
ouvindo apenas o som da própria respiração.
A lua ainda banhava tudo do lado de fora, mas agora havia
algo diferente. Como se aquela noite tivesse sussurrado
segredos que ela ainda não conseguia compreender.
Aos poucos, a rotina na ilha se tornou familiar para
Aísha. Os dias se dividiam entre as aulas, os passeios e
momentos solitários à beira-mar, onde ela tentava decifrar
os sentimentos que surgiam ali. O curso avançava bem, e
ela sentia que estava aprendendo mais do que apenas
técnicas—estava se redescobrindo.
Mas os murmúrios sobre aquela noite ainda ecoavam nos
corredores do resort. Aos poucos, os rumores começaram a
circular entre funcionários e hóspedes mais atentos.
Falavam sobre os homens de terno, sobre a movimentação
discreta e os carros pretos. Algumas versões diziam que
eram figuras importantes no mundo dos negócios, outras
sugeriam algo mais misterioso—como se a ilha tivesse
segredos que não eram revelados a qualquer um.
Aísha escutava os comentários sem se envolver, mas cada
palavra aumentava sua curiosidade. E quando caminhava pelo
resort ou explorava os arredores, não podia evitar a
sensação de que havia algo ali que ainda não conseguia
enxergar completamente.
Até que, em um fim de tarde, enquanto voltava de um
passeio pela praia, ela notou uma figura conhecida saindo
de um dos quartos afastados. Não um dos seguranças, mas
alguém diferente.
Aísha parou, fingindo amarrar a sandália enquanto
observava de relance.
Quem era essa pessoa? E qual seu papel no mistério que
envolvia aquele lugar?
Apesar de não ter sido possível visualizar muito quem era
naquele noite na praia; a estrutura física deste homem
lembra um pouco da pessoa que estava lhe observando; ela
continuou ali parada pra ver se conseguia mais alguma
coisa, talvez até ver a pessoa de frente, mas não foi
possível, a visão dela foi totalmente coberta por mais
dois homens, aparentemente muito atraentes, e o mais
curioso era o gerente do risort conversando com os três ,
ele parecia estar coagido na presença.
Aísha permaneceu imóvel, fingindo ajeitar a alça da bolsa
enquanto observava discretamente a cena diante dela. O
gerente do resort mantinha uma postura rígida, os ombros
levemente tensos, como se cada palavra que dizia fosse
cuidadosamente calculada. Os dois homens que haviam
bloqueado sua visão tinham uma presença marcante—altos, de
porte forte, elegantes e perigosamente carismáticos. Eram
o tipo de pessoa que chamaria atenção em qualquer lugar.
Mas o terceiro… aquele cuja silhueta parecia familiar…
continuava parcialmente oculto, protegido pela conversa
que ocorria a poucos metros de distância.
Aísha sentiu o coração acelerar, não apenas pelo mistério,
mas pela atmosfera inquietante que envolvia a conversa. O
gerente do resort não estava apenas conversando. Ele
parecia estar sendo pressionado.
Ela tentou se inclinar um pouco mais, como se analisasse
distraidamente um botão da blusa, mas antes que pudesse
captar algum detalhe adicional, um dos homens girou
levemente a cabeça, como se estivesse prestes a olhar em
sua direção.
Aísha desviou imediatamente o olhar e retomou seu caminho
como se nada tivesse acontecido, sentindo o peso de um
olhar que talvez a seguisse por alguns segundos. Mas não
se virou. Apenas seguiu adiante, fingindo não ter notado
nada incomum.
O mistério crescia. E agora, mais do que nunca, ela sentia
que a ilha escondia segredos que estavam prestes a se
revelar.
Aisha seguiu em direção a área aberta do risort para tomar
um café, mas a tensão era tanta que um café não
resolveria, então ela pede um drink, nem muito cedo nem
muito tarde pra Aisha o horário era perfeito,depois de
senta-se à mesa, Aísha girou lentamente o copo em suas
mãos, observando o líquido âmbar refletir a luz suave do
fim de tarde. O álcool não resolveria seus pensamentos,
mas pelo menos daria um ritmo mais tranquilo à confusão
que se formava em sua mente. Foi então que avistou Isla se
aproximando.
A instrutora caminhava com passos firmes, mas seu rosto
denunciava preocupação. Ao chegar perto, lançou um sorriso
apressado, mas os olhos não escondiam o nervosismo.
**“Aísha, que sorte te encontrar aqui! Preciso da sua
ajuda—urgentemente.”**
Aísha franziu a testa, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
**“O que aconteceu?”**
Isla suspirou, ajeitando a alça da bolsa sobre o ombro.
**“Estou sobrecarregada hoje. E acabei de lembrar que
tenho uma sessão marcada com um cliente… mas não consigo
encaixar no horário. Está impossível.”** Ela balançou a
cabeça, claramente frustrada. **“Você tem talento, Aísha.
Eu já vi como suas mãos trabalham com precisão e
sensibilidade. Não seria nada complexo, apenas uma sessão
para relaxamento.”**
Aísha hesitou. Fazer a massagem no lugar de Isla? Aquilo
era mais do que um simples favor. **“Mas ele não espera
por você? Não seria estranho?”**
Isla sorriu, inclinando-se levemente como quem tem um
trunfo na manga. **“A verdade é que ele não sabe quem fará
a sessão. O resort permite que terapeutas se alternem. E
você está pronta para isso, acredite.”** Seus olhos
brilharam com confiança. **“Sei que no fundo você quer
aceitar. A experiência será ótima para você.”**
Aísha exalou lentamente, avaliando a ideia. Talvez fosse
interessante. Talvez, no meio daquele ambiente cheio de
mistérios, ela encontrasse algo inesperado naquele cliente
desconhecido.
“Tudo bem, eu faço.”
O sorriso de Isla se alargou. “Sabia que diria isso! Ele
está esperando na área privativa do spa.”
Aísha se levantou, respirando fundo antes de seguir
caminho. Algo naquela proposta parecia simples demais—mas
nada naquela ilha acontecia sem uma razão.
Aisha sai da mesa com seu drink e vai se preparar,
chegando na área privativa, ela não encontra ninguém
esperando pra ser atendido, ela vai até uma moça que
estava ali na recepção:
—Isla disse que teria alguém aqui esperando para fazer um
sessão, ela não pode vir e me pediu este favor.
—Sim, ela tinha um atendimento, mas não aqui. A moça loga
a ponta em direção à praia, - Naquele barco que está
atracado, a sessão será lá, não entendi muito bem o porquê
mas foi uma exigência.
Aísha estreitou os olhos, observando o barco à distância.
A exigência de que a sessão acontecesse ali parecia
incomum, mas por alguma razão, ela não hesitou em seguir o
caminho.
Enquanto caminhava pela areia, a brisa noturna tocava sua
pele com suavidade, e o som das ondas ritmadas acompanhava
seu passo. O barco, de aparência sofisticada, estava
ancorado próximo ao píer particular do resort. Luzes
discretas iluminavam a estrutura, e o reflexo da lua
dançava sobre a superfície do mar, criando um cenário
quase surreal.
Ao se aproximar, notou um homem parado próximo à entrada,
vestido de maneira impecável. Ele não parecia um
segurança, mas sua postura firme demonstrava que estava
ali por um motivo específico. Quando Aísha chegou perto,
ele ergueu o olhar, analisando-a por um breve momento
antes de falar com voz controlada.
**"Está aqui para a sessão?"**
Ela assentiu, tentando não deixar transparecer sua
curiosidade. **"Sim, Isla me pediu para substituí-la."**
O homem apenas fez um gesto leve com a cabeça antes de
abrir passagem para que ela entrasse no barco.
Aísha respirou fundo antes de cruzar a entrada. Por algum
motivo, havia um peso no ar, uma sensação de que estava
prestes a entrar em algo maior do que imaginava.
O que esperava por ela naquela sessão privada? E, mais
importante… quem a esperava?
Assim que ela sobe, o homem que estava na entrada da ordem
ao comandante para seguir, é quando ela fica ainda mais
confusa e talvez até assustada, Aisha entra e logo se
depara com uma bela escultura fisica.
“Àquele homem parecia ter saído de um desses filmes de
luta.”
Ele era alto, e extremamente musculoso, e com certeza com
um corpo deste , sua aparência não seria nada gentil com
as dos outros homens.
Aisha então se apresenta, mas não diz seu nome, explica
que ela fará a massagem nele, e começa a preparar tudo,
ele ainda deitado e sem ter dado uma palavra , começa
observar Aisha de costa;A tensão no ar era quase palpável.
O barco já começava a se afastar da costa, e Aísha sentia
cada leve movimento da embarcação sob seus pés,
intensificando a sensação de estar longe de qualquer saída
imediata.
Enquanto preparava os óleos e toalhas, consciente dos
gestos precisos e calculados, percebia o silêncio absoluto
do homem à sua frente. Ele não havia dito uma única
palavra desde que ela entrou. Apenas observava.
Aísha continuou organizando tudo, seu olhar ocasionalmente
pousando sobre ele de relance. A presença daquele homem
era forte, não apenas fisicamente, mas no jeito reservado
e impenetrável. **Quem era ele?**
Ainda de costas, sentiu a leve pressão de um olhar sobre
ela. Podia jurar que, mesmo sem vê-lo diretamente, sabia
que ele a analisava. O calor daquela observação silenciosa
a fazia manter a concentração no que fazia, mas era
impossível ignorar.
Finalmente, após longos segundos de silêncio, a voz dele
cortou o ar—grave, precisa, carregada de algo que Aísha
ainda não conseguia decifrar.
**“Você sabe quem deveria estar aqui.”**
A pausa foi breve, mas suficiente para fazê-la sentir a
mudança na atmosfera. **Ele sabia que não era Isla.**
Aísha respirou fundo, mantendo o profissionalismo que o
momento exigia, mas algo dentro dela dizia que aquela
noite estava longe de ser apenas um simples atendimento.
Ela virou-se levemente, tentando medir sua expressão sem
parecer desconfortável. O homem estava deitado, os
músculos perfeitamente esculpidos parecendo repousar, mas
havia algo na forma como seus olhos a estudavam—não era um
olhar casual, não era mero reconhecimento. Era análise.
**“Ela teve um imprevisto,”** Aísha respondeu, sua voz
firme, mas sem perder o tom cortês. **“Me pediu para
substituí-la.”**
O silêncio dele foi arrastado, carregado de intenções que
ela não conseguia interpretar. E então, num gesto quase
imperceptível, ele inclinou a cabeça levemente antes de se
acomodar na maca de massagem.
**“Então comece.”**
A ordem era simples, mas carregava um peso que Aísha não
conseguia ignorar. Ela umedeceu as mãos com o óleo morno e
tocou sua pele, sentindo a força dos músculos sob seus
dedos. A tensão que ele carregava não era apenas
física—havia algo ali, algo que não se dissolveria com um
simples toque.
A cada movimento das mãos, cada pressão precisa sobre sua
pele, Aísha sentia que havia mais naquele encontro do que
a casualidade queria fazer parecer. E enquanto trabalhava,
o som do mar ao redor parecia amplificar a aura de
mistério daquele homem.
O barco deslizava pelas águas tranquilas, mas dentro dele,
algo muito mais intenso começava a se desenrolar.
Por um breve momento Aisha se deixou levar, suas mãos
deslisavam pelo corpo dele como um artista que esculpe a
própria obra, descobrindo cada traço com reverência e
precisão; estavam quase carregando sentimentos, desejo.
O toque de Aísha se tornava cada vez mais envolvente, como
se, sem perceber, seus movimentos carregassem algo além da
técnica. A tensão que antes parecia dominar o ambiente
agora se transformava em algo diferente, algo que pairava
entre os dois e que nem mesmo o frescor da brisa marítima
conseguia dissipar.
Ela sentiu os músculos sob suas mãos responderem ao toque,
o calor de sua pele contrastando com o vento noturno que
soprava ao redor do barco. O som do mar, antes um mero
pano de fundo, agora parecia acompanhar o ritmo silencioso
entre eles, como se também soubesse que algo ali estava
mudando.
E então, sem aviso, ele se moveu. Não abruptamente, mas o
suficiente para que Aísha percebesse que aquele momento
não passaria despercebido. Seu olhar encontrou o
dela—intenso, indecifrável. Ele ainda não tinha dito
muito, mas naquele instante, palavras eram desnecessárias.
Aísha hesitou. Por um breve segundo, sentiu o peso daquela
tensão se aprofundar, como se estivesse à beira de um
limite que talvez não deveria cruzar.
Mas antes que pudesse decidir, ele finalmente falou.
**“Você está diferente.”**
A voz dele cortou o silêncio, grave e carregada de algo
que ela não sabia como interpretar.
Diferente? O que ele queria dizer com aquilo?
A pergunta ficou pairando no ar, e a resposta… talvez nem
ela soubesse.
O tom dele era baixo, quase um murmúrio, mas carregava uma
certeza que fez Aísha prender a respiração por um
instante. Suas palavras tinham peso, como se ele soubesse
mais do que deveria, como se a observasse não apenas ali,
mas antes—naquela noite na praia, sob o olhar da lua.
A tensão que já pairava no ar se intensificou. Aísha
hesitou, sentindo o calor do momento se misturar ao frio
do vento marítimo. Ele a observava de uma maneira que não
era casual, não era apenas curiosidade. Era como se
houvesse algo que ele reconhecesse nela, mesmo sem nunca
terem trocado palavras antes.
Ela umedeceu os lábios, tentando quebrar a distância que
se formava entre eles e ao mesmo tempo mantendo a postura
profissional que deveria ter. Mas antes que conseguisse
encontrar uma resposta, ele moveu-se ligeiramente,
inclinando-se um pouco, permitindo que seu rosto ficasse
mais visível sob a luz suave que iluminava o ambiente.
**"Você não percebeu ainda, percebeu?"**
A voz dele carregava um enigma, um desafio velado que fez
o coração de Aísha bater um pouco mais rápido.
O que ele queria dizer? Qual era a verdadeira razão
daquela sessão acontecer ali, afastada da ilha, cercada
apenas pelo mar?
Aísha sentiu que estava prestes a descobrir.
Ao notar que ela não fazia ideia de quem ele era, Adrian
decidiu que continuar em silêncio seria a melhor decisão;
ele se aproxima dela, tocando suavemente seus cabelos, com
um gesto que afastava do seu rosto, seus olhos ficaram
fixos com os de Aisha, com a outra mão ele a puxou pela
cintura, prendendo seu corpo ao dele.
O mundo ao redor pareceu desaparecer por um instante.
Aisha sentiu o calor do corpo de Adrian contra o seu, a
força contida em seus braços contrastando com o toque
delicado que afastava seus cabelos. O movimento foi
preciso, como se ele soubesse exatamente o impacto que
causaria.
O silêncio entre eles não era vazio—era carregado de
intenções, de perguntas sem respostas, de algo que
transcendia o momento. A respiração dela se acelerou
ligeiramente, mas seus olhos permaneceram fixos nos dele,
tentando decifrar o que aquilo significava.
Adrian inclinou o rosto apenas o suficiente para que sua
voz soasse próxima, profunda, envolvente.
**"Ainda não se lembra de mim, não é?"**
O peso da frase caiu sobre Aisha como uma corrente de ar
inesperada. Quem ele era? E por que parecia tão certo de
que deveria reconhecê-lo?
Antes que ela pudesse responder, o barco balançou
suavemente, e o som das ondas serviu como um lembrete de
que estavam completamente isolados ali—apenas eles e o
oceano ao redor.
—era você estava me observando na praia né?
Ele deu um sorriso de lado e um pouco irônico - não chame
aquilo de observar. Retrucou ele.
Em seguida seus lábios encostam os de Aisha, e então o
beijo veio, lento, com desejo, eram dois mundos colidindo,
mundo de segredos, passados , mas ali era somente duas
pessoas rendidas ao momento.
Adrian joga Aisha sobre a cama; ela se sentia segura em
seus braços.
A intensidade entre eles crescia, como se tudo ao redor—o
barco, o mar, a noite estrelada—fosse apenas um pano de
fundo para o que realmente importava naquele instante.
Adrian a segurou com firmeza, mas sem pressa, como se
quisesse gravar cada detalhe daquele momento.
Aísha sentiu sua respiração acelerar, não apenas pela
eletricidade que percorria sua pele, mas pela estranha
familiaridade daquele toque. Como se, de alguma forma,
aquele instante já estivesse traçado antes mesmo de
acontecer.
O barco balançava suavemente sobre as águas, criando uma
melodia sutil entre o vento e as ondas. A tensão, antes
envolta em mistério, agora se transformava em algo
puramente visceral. Não havia perguntas, apenas certezas
silenciosas, carregadas de desejo.
Mas então, no meio daquele furor, Aísha fechou os olhos
por um breve segundo—e foi nesse instante que algo, lá no
fundo, despertou.
Uma lembrança.
Uma sensação que ela ainda não conseguia nomear.
Adrian sentiu a mudança sutil na postura dela e parou por
um momento, os olhos analisando o rosto de Aísha, como se
soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro dela.
Porque ele sabia.
E talvez, aquela noite não fosse apenas sobre desejo.
Talvez, fosse sobre algo que ela havia esquecido… e que
ele estava prestes a lhe fazer lembrar.
Vicente veio rapidamente em sua memória, como se foste
para que ela se afastasse dali.
Ele logo questiona: - você tem alguém?
Aisha olha pra ele confusa: - Não; não tenho ninguém.
O silêncio pairou entre eles por alguns segundos. Adrian
manteve o olhar fixo no dela, como se buscasse mais do que
palavras naquela resposta. Aísha sentiu a tensão no ar
mudar, como se a simples troca de frases tivesse
despertado algo inesperado.
**"Então por que hesitou?"** Adrian perguntou, sua voz
mais baixa, carregada de curiosidade genuína.
Aísha desviou o olhar por um breve instante. Vicente. O
nome ecoou em sua mente como um aviso silencioso, mas não
era algo que ela queria trazer à tona—não ali, não agora.
*"Não hesitei,"** respondeu, tentando soar firme, mas
havia algo na forma como Adrian a estudava que fazia sua
certeza vacilar.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se estivesse
testando suas reações. **"Você não está acostumada a
mentir, está?"**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele. Não era apenas
sobre Vicente. Era sobre o peso que carregava dentro de
si, sobre os pedaços da sua história que ainda não tinham
sido completamente remendados.
Adrian manteve a postura, mas havia um brilho nos olhos
dele que indicava que aquela noite estava longe de ser
apenas sobre atração. Ele estava atento—atento ao que ela
não dizia.
**"Talvez,"** Aísha respondeu finalmente, sua voz um pouco
mais baixa.
O barco continuava deslizando suavemente sobre o oceano,
mas dentro dele, algo muito mais intenso se desenrolava.
—Me dá permissão.
—Ham?
—Me dá permissão. Frisou Adrian
—Permissão pra que?
—Pra te ter, pra te tocar. Só irei continuar se você me
permitir.
Aisha ficou sem saber o que responder, ela não tinha
certeza se queria avançar, mas seu corpo, seu corpo
queimava e gritava por ele, cada célula parecia querê-lo
bem ali.
—Eu… você tem permissão pra fazer sua.
Adrian desceu seus corpo, juntamente com suas mãos
deslizando o dela como um explorador tocando um mapa
antigo, traçando caminhos ( as curvas do corpo de Aisha)
que prometiam descobertas secretas.
Ela não se aguentava de tanto desejo, as mãos de Aisha
pressionavam os lençóis da cama com tanta força, seu corpo
todo se contorcia e se arrepiava de prazer.
Adrian sentiu o arrepio percorrer a pele dela como uma
corrente elétrica silenciosa. Ele a observava, encantado
com cada reação, como se estivesse assistindo à própria
arte do desejo se materializar diante de seus olhos.
Seus lábios buscaram o caminho até o ventre dela,
depositando beijos suaves, quase devotos, como quem
reverencia um templo sagrado. A respiração de Aisha estava
entrecortada, seus olhos fechados tentando conter a
explosão que se acumulava em ondas dentro de si.
—Me diga se for demais… — sussurrou ele, a voz rouca,
misto de autocontrole e luxúria.
Mas Aisha balançou a cabeça, os dedos agora enlaçando os
cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se pudesse
fundi-lo ao próprio corpo.
—Não para… por favor… — foi tudo o que conseguiu dizer.
Adrian então a tomou com mais firmeza, os corpos se
ajustando em uma dança primitiva e arrebatadora. Cada
toque era uma confissão não dita, cada gemido um pacto
secreto entre eles. Ali, naquele quarto envolto em sombras
e calor, Aisha não pensava em certo ou errado. Só existia
o agora. Só existia ele.
E quando seus olhares se cruzaram, no ápice da entrega,
havia mais do que desejo. Havia um abismo perigoso que
começava a se abrir — onde o corpo já tinha se lançado… e
o coração ameaçava seguir.
O clímax veio como uma onda devastadora, levando Aisha
para um lugar onde não existia mais controle — só
instinto, entrega e a embriaguez do prazer. Ela se perdeu
nele. E Adrian… se perdeu nela.
Quando tudo silenciou, restaram apenas as respirações
ofegantes, os corpos suados e entrelaçados como se
pertencessem um ao outro desde sempre. Ele a abraçou por
trás, beijando seu ombro úmido, os dedos ainda traçando
círculos lentos sobre a pele dela, como se quisesse
memorizar cada centímetro.
CAPÍTULO 18
A manhã chegou como um sussurro suave, trazendo consigo o
brilho dourado do sol refletido nas águas calmas ao redor
do barco. O aroma do mar, misturado com a leve brisa,
parecia diferente—como se aquela noite tivesse mudado
tudo.
Aísha abriu os olhos lentamente, sentindo o corpo relaxado
e sua mente ainda presa à intensidade do que havia
acontecido. O silêncio ainda reinava ao redor, mas dentro
dela, as perguntas começavam a se formar. Quem, de fato,
era Adrian? Por que sua presença mexia tanto com ela? E,
acima de tudo… por que sentia que ele carregava mais
segredos do que queria revelar?
Ela se virou levemente, encontrando Adrian já desperto,
apoiado contra a estrutura do barco, observando o
horizonte com um olhar indecifrável. Ele não parecia
apenas perdido nos próprios pensamentos—parecia calcular
algo, como se estivesse esperando por um momento exato
para agir.
**"Bom dia,"** Aísha disse suavemente, rompendo o
silêncio.
Adrian virou-se para ela, um sorriso contido dançando no
canto dos lábios. **"Dormiu bem?"**
Havia algo na pergunta dele que carregava mais do que
simples curiosidade. Como se estivesse testando sua
reação, avaliando o peso da última noite.
Aísha sentou-se devagar, puxando o lençol sobre os ombros
antes de responder. **"Foi uma noite… diferente."**
Ele soltou um breve som, algo entre um riso e um suspiro.
**"Diferente pode ser perigoso."**
Aísha franziu a testa. **"Ou necessário."**
Adrian manteve o olhar sobre ela por alguns segundos, como
se gostasse do desafio que surgia em sua resposta. Mas
então, antes que o silêncio se prolongasse demais, o barco
começou a reduzir a velocidade—eles estavam se aproximando
da ilha novamente.
**"Acho que sua estadia aqui está prestes a ficar ainda
mais interessante."** Adrian disse, levantando-se com
tranquilidade.
Aísha o observou por um momento, sentindo que algo ainda
não havia sido dito. Mas sabia que, mais cedo ou mais
tarde, descobriria.
A ilha os esperava. E com ela, novos mistérios.
Aísha estreitou os olhos, observando Adrian por um
instante antes de cruzar os braços.
**"O que você quis dizer com isso?"**
Adrian soltou um sorriso de canto, carregado de ironia,
como se já esperasse a pergunta.
**"Você vai descobrir."**
Nada além disso. Nenhuma pista, nenhuma explicação. Apenas
aquela resposta vaga, que mais parecia um desafio velado.
Aísha suspirou, sentindo que insistir seria inútil. Adrian
carregava mistérios que não seriam desvendados tão
facilmente.
Quando o barco finalmente atracou na ilha, ela desceu,
sentindo o chão firme sob seus pés novamente. O vento
carregava o cheiro familiar da areia misturado à
vegetação, como se a ilha a estivesse recebendo de volta.
Antes que pudesse se afastar, avistou Isla parada perto do
píer, os braços cruzados e um olhar atento.
**"Precisamos conversar."**
Aísha engoliu seco, reconhecendo a urgência na voz da
instrutora. Isla a puxou discretamente para um canto mais
reservado, longe de olhares curiosos.
**"Me conte tudo."**
Aísha piscou, surpresa. **"Tudo?"**
**"Sim."** Isla franziu a testa. **"Não finja que nada
aconteceu. Eu vi você saindo para o barco. E agora está
voltando… diferente."**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele.
Islã estava certa. Algo havia mudado.
Mas estaria pronta para contar tudo?
Aísha soltou um suspiro e se apoiou no parapeito próximo,
sentindo o vento fresco da manhã tocar seu rosto enquanto
olhava para Isla. A instrutora tinha um jeito tranquilo,
mas seu olhar carregava curiosidade genuína—não a
invasiva, mas a de alguém que sabia que algo diferente
havia acontecido.
**"Eu fui até o spa, como você pediu,"** começou,
escolhendo as palavras com cuidado. **"Mas quando cheguei
lá, a recepcionista disse que o atendimento não seria ali.
Me mandaram direto para o barco."**
Isla franziu a testa levemente, mas não interrompeu. **"E
então?"**
**"Então… saímos da praia."**
Houve um breve silêncio antes que Isla soltasse um pequeno
riso, como se já soubesse que aquela conversa estava
prestes a tomar um rumo interessante. **"E o cliente? Como
era?"**
Aísha hesitou por um instante, mas algo na expressão de
Isla a fez relaxar. Elas estavam convivendo há dias, e
pela primeira vez, percebeu que confiava nela. Que poderia
dividir aquilo sem medo de julgamentos.
**"Adrian,"** ela disse finalmente. **"Era ele quem me
esperava no barco."**
Isla arqueou as sobrancelhas levemente. **"E...?"**
Aísha mordeu o lábio inferior, soltando um pequeno riso
sem graça antes de finalmente se abrir. Contou sobre a
tensão no ar, sobre a forma como Adrian parecia
misterioso, sobre o jeito como ele a observava naquela
noite na praia—e, é claro, sobre o que aconteceu ali,
cercados pelo oceano.
Isla escutou tudo com atenção, os olhos brilhando com
interesse genuíno, até que finalmente soltou um suspiro
dramático. **"Você realmente sabe como se envolver em
mistérios, hein?"**
Aísha riu, relaxando um pouco mais. **"Eu não planejei
nada disso."**
Isla cruzou os braços, um sorriso de canto no rosto.
**"Não importa se planejou ou não. Agora faz parte
disso."**
Aísha sentiu o peso daquelas palavras. Fazia parte disso.
Mas ainda não sabia exatamente do quê.
E algo lhe dizia que Adrian era apenas o começo.
**"Olha, eu não sei exatamente o que está acontecendo
entre vocês, mas aqui vai um conselho: seja esperta.
Pessoas misteriosas podem ser fascinantes, mas também
podem te envolver em coisas que você não espera."**
Aísha cruzou os braços, ponderando suas palavras. Isla
tinha razão—o mistério em torno de Adrian era algo que a
atraía, mas também a inquietava.
**"Você sabe quem ele é?"** perguntou finalmente. **"O que
ele faz? Quem é ele de verdade?"**
Isla segurou o olhar dela por alguns segundos, como se
estivesse considerando sua resposta. Por fim, soltou um
pequeno riso sem humor.
**"Se eu soubesse, te diria."**
Aísha franziu a testa.
**"Então ele realmente é um mistério?"**
Isla assentiu devagar. **"Para muitos."**
O peso daquelas palavras ficou pairando entre elas por um
instante. Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele.
Adrian não era apenas alguém que cruzou seu caminho por
acaso.
Ele carregava algo que ia além do que ela podia ver.
E agora, sem perceber, ela já estava envolvida nisso.
Isla soltou um pequeno sorriso, mas seu olhar ainda
carregava um resquício de preocupação.
**"Melhor deixar isso pra lá por agora, Aísha,"** disse
ela, cruzando os braços. **"As aulas estão a todo vapor, e
você tem muito pela frente."**
Aísha respirou fundo, reconhecendo que Isla tinha razão.
Por mais que os mistérios da ilha e de Adrian rondassem
sua mente, ela não podia perder o foco no que realmente a
trouxe ali.
**"Você está certa,"** respondeu, tentando dissipar a
inquietação que ainda permanecia dentro dela.
**"Sempre estou,"** Isla brincou, piscando antes de puxar
Aísha pelo braço. **"Agora vamos, temos um dia cheio pela
frente."**
Aísha seguiu ao lado da instrutora, mas sabia que, por
mais que tentasse ignorar, a ilha ainda guardava segredos
esperando para serem revelados.
Aísha estava completamente imersa no ritmo das aulas,
aprimorando suas técnicas, explorando novos aromas e
aprendendo mais sobre a conexão entre corpo e mente. O
tempo na ilha parecia fluir de maneira única, como se cada
dia trouxesse algo novo para ser descoberto.
Foi só quando Isla mencionou, casualmente, que o resort
havia recebido novos hóspedes que Aísha se deu conta da
movimentação diferente. Um grupo administrativo havia
chegado, trazendo consigo negociações e interesses que iam
além da experiência paradisíaca daquele lugar.
Os funcionários pareciam mais atentos, discretamente
ajustando detalhes para garantir que tudo estivesse
perfeito para os visitantes ilustres. Havia uma energia
diferente no ar—não apenas de negócios, mas de algo que se
movia nos bastidores.
Aísha observou de relance um grupo de homens bem vestidos
conversando na área do restaurante. Alguns riam
despreocupadamente, outros analisavam documentos e
trocavam olhares calculados. Pessoas acostumadas ao poder,
ao jogo estratégico, ao controle.
Mas então, um rosto familiar apareceu entre eles—por
apenas um instante, mas o suficiente para fazê-la prender
a respiração.
Adrian.
Como se a ilha estivesse puxando suas peças e
reorganizando tudo ao redor dela.
Uma dúvida ecoou no mesmo momento: “ devo ir até ele?”
“Ele vem falar comigo?” “Será que ele me viu aqui?”
A cabeça de Aisha parecia explodir com tantas
interrogações, mas a sua razão fez com que ela
permanecesse exatamente onde estava, e de lá ela observou
Andrian se retirar e ir embora, sem ao menos olhar em sua
direção.
A tensão se manteve no ar mesmo após Adrian ter
desaparecido entre os corredores do resort. Aísha sentiu o
peso da indecisão ainda pulsando dentro dela—uma mistura
de expectativa e frustração. Parte dela queria ter seguido
seus instintos e ido até ele, mas a outra sabia que o
mistério que o cercava não se resolveria com um simples
encontro.
Ela respirou fundo, tentando acalmar os pensamentos que
rodavam em sua mente. **Se ele não veio até mim… foi por
escolha dele? Ou por alguma razão que eu não sei?**
Mas não havia resposta imediata, apenas a inquietação
crescente de que, de alguma forma, tudo aquilo fazia parte
de um jogo maior—um jogo que ela ainda não entendia
completamente.
Isla apareceu ao longe, chamando-a para mais uma aula.
Aísha hesitou por um instante, mas então se levantou,
decidindo que, por agora, continuaria sua rotina.
No mundo dos negócios, tudo estava preste a colidir, não
pra quem estava do lado de dentro da colisão; você não
observa o estrago de um furacão estando nele.
Como uma simples lugar fechado de quatro paredes podia
conter tanto neste momento; de um lado três irmãos onde só
dois pareciam se importar, do outro lado, um homem cuja
sua fama no mundo dos negócios era indescritível; aos
olhos só os negócios eles tinham em comum, mas a fundo
dois deles podem descobrir muitas coisas.
—olá boa tarde, os senhores Noctheran lhe espera. Segunda
sala a direita. Disse o concierge na entrada do corredor.
Toc… Toc (porta abrindo)
—Boa tarde senhores , me chamo Vicente Marquintis…
A sala estava mergulhada em uma atmosfera carregada. Os
três irmãos Noctheran estavam dispostos ao redor da mesa,
suas expressões variando entre expectativa e tensão
contida. Do outro lado, Vicente Marquintis entrou com
passos firmes, a presença dele trazendo uma energia que,
mesmo sem palavras, já deixava claro que aquele encontro
não seria trivial.
Ele deslizou os olhos por cada rosto à sua frente,
absorvendo o peso daquele momento. Era mais do que
negócios—sempre era. As alianças que se formavam ali
poderiam definir não apenas números, mas destinos.
**"Senhores,"** Vicente começou, sua voz precisa, sem
hesitação. **"Imagino que saibam exatamente por que estou
aqui."**
Do lado oposto da mesa, um dos irmãos—o mais velho, sempre
o mais calculista—se inclinou levemente para frente,
entrelaçando os dedos. **"Sabemos. Mas o que queremos
saber é o que você realmente deseja."**
Vicente sorriu de lado, aquele tipo de sorriso que não
entregava muito, mas insinuava tudo.
**"O que eu desejo,"** ele disse, pausadamente. **"É saber
até onde vocês estão dispostos a ir."**
O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido por
pensamentos que ninguém verbalizava.
Continuou Vicente: - Nossas empresas tem os melhores
matérias e estamos dispostos a negociar o melhor orçamento
para ambos, nosso café, se encaixa perfeitamente no padrão
do risort de vocês.
O irmão mais velho dos Noctheran trocou um olhar calculado
com os outros dois antes de se inclinar levemente para
frente.
**"Qualidade e orçamento são sempre fatores importantes,
Sr. Marquintis,"** começou ele, a voz carregada de
experiência e análise estratégica. **"Mas negócios como
esses exigem mais do que apenas um produto adequado.
Queremos garantias."**
Vicente manteve a expressão neutra, mas seu olhar atento
revelava que já esperava por essa resposta.
**"As garantias vêm na forma de resultados,"** disse, sem
hesitação. **"O café que minha empresa fornece não apenas
se encaixa no padrão do resort—ele o eleva. Cada grão
passa por um processo rigoroso que assegura sabor,
exclusividade e qualidade contínua. Mas o que realmente
diferencia nosso produto é a experiência que ele
proporciona aos clientes."**
Um dos outros irmãos, mais jovem e visivelmente menos
paciente, soltou um pequeno riso, como se já tivesse
ouvido argumentos semelhantes antes.
**"Todos dizem oferecer uma experiência única,"**
provocou, cruzando os braços. **"Mas o que faz você
acreditar que a sua é diferente?"**
Vicente sustentou o olhar com firmeza antes de responder.
**"Porque não se trata apenas do café. Se trata do que ele
representa. Exclusividade, excelência, identidade. E o que
vocês oferecem aqui não é apenas uma hospedagem—é uma
marca. Meu produto complementa isso."**
O silêncio que veio depois foi pesado, preenchido pelas
ponderações estratégicas que aconteciam na mente dos três
irmãos. Eles eram homens de negócios, e Vicente sabia que,
mais cedo ou mais tarde, entenderiam que não estava ali
apenas para vender algo—estava ali para criar uma aliança.
O jogo estava apenas começando.
Esse rumo está como você imaginou? Quer aprofundar a
negociação com mais desafios ou inserir um fator
inesperado na conversa?. Marquintis,"** começou ele, a voz
carregada de experiência e análise estratégica. **"Mas
negócios como esses exigem mais do que apenas um produto
adequado. Queremos garantias."**
Vicente manteve a expressão neutra, mas seu olhar atento
revelava que já esperava por essa resposta.
**"As garantias vêm na forma de resultados,"** disse, sem
hesitação. **"O café que minha empresa fornece não apenas
se encaixa no padrão do resort—ele o eleva. Cada grão
passa por um processo rigoroso que assegura sabor,
exclusividade e qualidade contínua. Mas o que realmente
diferencia nosso produto é a experiência que ele
proporciona aos clientes."**
Um dos outros irmãos, mais jovem e visivelmente menos
paciente, soltou um pequeno riso, como se já tivesse
ouvido argumentos semelhantes antes.
**"Todos dizem oferecer uma experiência única,"**
provocou, cruzando os braços. **"Mas o que faz você
acreditar que a sua é diferente?"**
Vicente sustentou o olhar com firmeza antes de responder.
**"Porque não se trata apenas do café. Se trata do que ele
representa. Exclusividade, excelência, identidade. E o que
vocês oferecem aqui não é apenas uma hospedagem—é uma
marca. Meu produto complementa isso."**
O silêncio que veio depois foi pesado, preenchido pelas
ponderações estratégicas que aconteciam na mente dos três
irmãos. Eles eram homens de negócios, e Vicente sabia que,
mais cedo ou mais tarde, entenderiam que não estava ali
apenas para vender algo—estava ali para criar uma aliança.
Adrian estava em silêncio, Vicente incomodado, lançou:
—E você não fala nada?
Adrian olhou bem para Vicente, ele e o irmão mais velho
Aidan, sempre foram os mais ligados aos negócios, já que o
irmão mais novo Axel sempre foi , digamos rebelde.
Adrian manteve o olhar firme sobre Vicente, seu silêncio
não era apenas ausência de palavras, mas um posicionamento
calculado. Ele não era do tipo que falava sem necessidade,
e muito menos do tipo que se deixava levar por
provocações.
Aidan, ao lado, notou o pequeno embate se formando, mas
não interveio—sabia que Adrian nunca se deixava pressionar
por ninguém.
Axel, por outro lado, soltou um pequeno riso,
recostando-se na cadeira como quem aprecia a tensão do
momento. **"Vicente, meu irmão só fala quando acha que
vale a pena,"** disse, com um tom despreocupado. **"E pelo
jeito, ainda não viu motivo pra isso."**
A provocação de Axel não passou despercebida, mas Adrian
não reagiu. Finalmente, depois de alguns segundos que
pareceram arrastados, ele cruzou os braços e falou com
calma, mas sem perder sua presença marcante.
**"Eu observo antes de decidir o que dizer."**
Simples. Direto. Mas carregado de significado. Adrian não
era alguém que desperdiçava palavras—ele calculava cada
movimento, cada frase, cada gesto.
Vicente estreitou os olhos, percebendo que aquela
negociação não seria como qualquer outra.
O jogo de verdade estava apenas começando.
Mas Adrian, decidiu dar sua opinião, visto que não estavam
chegando em um consenso de acordo.
—Iremos fazer o seguinte senhor Marquintis, você trouxe
alguns de seus produtos?
—Sim, uma quantidade significativa.
—Ótimo; lhe convidamos a ficar mais alguns dias aqui com
sua equipe, nos disponibilize os seus produtos, iremos
testá-lo e ver como nossos clientes se sentem e então lhe
daremos uma resposta. Disse Andrian com um tom que não
transmitia aceitar um não.
Vicente observou Adrian por um instante, analisando cada
detalhe de sua postura firme, cada palavra dita com
precisão. O tom não deixava espaço para recusas—era uma
ordem mascarada de proposta.
Ele ajeitou o relógio no pulso, mantendo a expressão
neutra antes de responder.
**"Justo."**
A palavra saiu com um tom calculado, sem hesitação.
Vicente sabia jogar.
**"Minha equipe já está preparada para atender qualquer
solicitação do resort. Meus produtos estarão disponíveis a
partir de hoje."**
Aidan, sempre o mais cauteloso dos irmãos, inclinou-se um
pouco na cadeira, os olhos atentos a cada movimento de
Vicente. **"Ótimo. Queremos que isso seja um teste real,
não apenas uma apresentação. Se funcionar, podemos avançar
para algo maior."**
Axel, por outro lado, parecia menos interessado no negócio
em si e mais no jogo de poder que se desenrolava naquela
sala. Ele soltou um pequeno riso, recostando-se como quem
observa uma peça de xadrez sendo movida.
Adrian manteve o olhar sobre Vicente por mais alguns
segundos antes de finalmente dar um leve aceno de cabeça.
**"Então é isso."**
O acordo temporário estava feito. Mas a verdadeira
negociação ainda estava apenas começando.
Como quatro bons cavaleiros, eles deram as mãos para selar
o breve acordo, Ainda lhe passou as informações de como
tudo funcionaria.
Vicente sai da sala acompanhado pelo concierge que o leva
até seu quarto, no caminho, por obra do destino, mas
desencontro do acaso.
Aísha sentiu uma leve brisa tocar seu rosto enquanto
descia o corredor do resort. Havia algo diferente na
movimentação do lugar, um ritmo novo, quase imperceptível,
mas presente. Seu pensamento ainda vagava entre as aulas e
os mistérios não resolvidos da ilha, sem saber que, a
poucos passos dali, o destino brincava com ela.
Vicente caminhava ao lado do concierge, focado nas
instruções que recebia. Sua mente estava afiada,
absorvendo cada detalhe da negociação recém-selada, sem
perceber que, por um acaso ou uma provocação silenciosa do
universo, Aísha se movia na direção oposta.
Mas antes que seus olhares se cruzassem, antes que
qualquer encontro pudesse acontecer, o concierge conduziu
Vicente para subir as escadas.
Aísha seguiu descendo. Vicente seguiu subindo.
Dois caminhos traçados no mesmo espaço, mas separados pela
sutileza de um instante.
O acaso os afastava, mas até quando?
Chegando no seu quarto, Aisha vai pra o banho a água morna
deslizou sobre sua pele, trazendo um alívio momentâneo
para os pensamentos inquietos que se acumulavam em sua
mente. Aísha fechou os olhos por um instante, deixando o
som suave da água preencher o espaço ao seu redor. Mas
então, ao abrir os olhos novamente, seu olhar foi
capturado pelo horizonte através da grande janela.
O mar estava ali, imenso e convidativo, suas ondas
brincando sob a luz dourada da tarde. Aquele cenário lhe
trouxe um desejo súbito—o desejo de sentir a areia sob
seus pés, a brisa fresca tocando seu rosto.
Seu olhar desviou para o armário ao lado e, como se fosse
um sussurro de um impulso incontrolável, ela viu o biquíni
de relance. A ideia de dar uma caminhada e, quem sabe, se
entregar a um mergulho parecia repentinamente perfeita.
Aísha desligou o chuveiro, envolvendo-se em uma toalha
macia antes de ir até o armário. Talvez aquela fosse
exatamente a pausa que precisava. Um momento só seu, longe
dos mistérios, longe das perguntas sem respostas.
Ou talvez… o destino estivesse prestes a lhe preparar
outra surpresa.
CAPÍTULO 19
Aísha caminhava lentamente pela areia, deixando que seus
pés afundassem levemente a cada passo. O som das ondas e a
brisa fresca lhe davam uma sensação de liberdade,
afastando por um instante os pensamentos sobre tudo o que
havia acontecido nos últimos dias.
Foi então que o destino, mais uma vez, moveu suas peças.
Adrian estava ali, encostado contra uma estrutura de
madeira próxima ao píer, os braços cruzados e um olhar que
parecia já esperar por ela. Seu semblante carregava aquela
mistura de mistério e convicção que Aísha começava a
reconhecer com facilidade.
**"Decidiu fugir das perguntas sem resposta?"** Ele
perguntou, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios.
Aísha soltou um pequeno riso, cruzando os braços. **"Ou
talvez esteja esperando que alguma delas se resolva
sozinha."**
Adrian inclinou a cabeça levemente, como quem avalia algo
antes de agir. Então, sem aviso, apontou discretamente
para o barco ancorado ao lado.
**"Venha comigo."**
Aísha arqueou as sobrancelhas, surpresa com a súbita
proposta. **"Pra onde?"**
Adrian já estava em movimento, subindo na embarcação com a
naturalidade de quem sabe exatamente para onde está indo.
**"Quero te mostrar algo."**
Aísha hesitou por um instante, mas então, impulsionada
pela curiosidade que crescia dentro dela, seguiu seu
instinto e subiu ao barco.
Adrian assumiu o comando, e em poucos minutos, o resort
começou a se afastar no horizonte. A ilha, sempre cercada
de mistérios, agora revelava um novo caminho.
Foi só quando a embarcação deslizou pelas águas abertas
que Adrian finalmente falou.
**"O barco naufragado. Você já ouviu falar dele?"**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele.
Sim, ela já ouvira falar. Era uma das histórias mais
antigas da ilha. Mas nunca imaginou que um dia estaria
prestes a vê-lo com seus próprios olhos.
—Sim, foi a primeira história que ouvi quando cheguei, lá
no “história da ilha”. Você já foi lá? Questionou Aisha.
—Não, nunca fui.
—É , mas eu não achei que realmente… Pra mim era só
história. Disse Aisha.
Adrian soltou um pequeno sorriso, mas não desviou os olhos
do horizonte. **"Muitas histórias têm um fundo de
verdade,"** disse, a voz tranquila, mas carregada de
significado.
Aísha observou o movimento das águas ao redor, sentindo o
barco avançar suavemente em direção ao ponto onde, segundo
as lendas, o barco naufragado repousava.
**"E você acredita nisso?"** ela perguntou, tentando
decifrar o que ele realmente pensava.
Adrian permaneceu em silêncio por um momento, como se
pesasse sua resposta antes de finalmente falar. **"Não é
sobre acreditar. É sobre ver com seus próprios olhos."**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele. Talvez, no
fundo, fosse isso que a tornava tão inquieta naquela
jornada—não se tratava apenas de uma história, mas de algo
que estava prestes a se revelar diante dela.
O barco continuava a deslizar pelas águas, e pouco a
pouco, a ilha ficava para trás. E com ela, tudo o que
Aísha achava que sabia sobre aquele lugar.
Adrian soltou um breve suspiro, olhando novamente para as
águas abaixo, como se buscasse nas profundezas algo que
apenas ele conhecia.
**"Minha família está ligada a esta ilha há séculos,"**
começou, sua voz carregada de um tom calculado. **"Mas
poucos sabem a verdadeira história."**
Aísha se ajeitou, cruzando os braços, atenta a cada
palavra que saía da boca dele.
**"Dizem que, muito antes dos resorts e das negociações
comerciais, havia um grupo que governava estas terras de
maneira silenciosa. Não eram reis, não eram políticos.
Eram... guardiões."**
Ela franziu a testa levemente. **"Guardiões?"**
Adrian soltou um leve sorriso, aquele que parecia esconder
mais do que revelar. **"Sim. Os primeiros a chegar aqui
acreditavam que a ilha possuía algo especial—um segredo
que não deveria ser exposto ao mundo. Por isso, criaram
uma espécie de ordem discreta, velando por tudo que
acontecia por aqui. Minha família fazia parte desse
grupo."**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele. **"E você?"**
Adrian desviou o olhar para ela, seus olhos carregados de
uma intensidade que a fazia prender a respiração. **"Eu
herdei o conhecimento... mas não posso dizer que sou um
guardião."**
A resposta era evasiva, e Aísha sabia disso. Ele falava
com a segurança de quem conhecia a verdade, mas ao mesmo
tempo, com a precisão de quem escolhia cuidadosamente o
que revelar.
**"Então tudo isso é só uma lenda?"** ela provocou,
tentando arrancar algo mais dele.
Adrian inclinou a cabeça levemente, seu sorriso de canto
surgindo novamente.
**"As melhores histórias começam assim."**
Aísha respirou fundo, sentindo que, por mais que tentasse,
nunca teria todas as respostas de Adrian de uma só vez.
E talvez… esse fosse exatamente o jogo que ele queria
jogar.
O céu acima deles estava salpicado de estrelas, refletindo
na superfície tranquila do mar como pequenos fragmentos de
luz espalhados pelo universo. A brisa fria da noite fez
Aísha se encolher levemente, e foi nesse instante que
Adrian, sem dizer uma palavra, retirou sua camisa de linho
e a envolveu com cuidado ao redor dela.
O tecido ainda carregava o calor do corpo dele, um
contraste agradável contra a temperatura que começava a
cair. Aísha olhou para ele por um instante, absorvendo o
gesto silencioso, e um pequeno sorriso surgiu em seus
lábios.
Eles não se apressaram em ir embora. O tempo ali parecia
suspenso, como se aquela noite fosse apenas deles, longe
do ritmo acelerado da ilha, longe das responsabilidades
que os esperavam.
Adrian recostou-se na areia, olhando para o céu como quem
reconhece cada constelação. **"Sabe,"** começou ele, a voz
baixa, quase como um segredo compartilhado. **"Dizem que
algumas estrelas que vemos já não existem mais."**
Aísha o observou, intrigada. **"Como assim?"**
**"Elas estão tão distantes que a luz delas leva séculos
para chegar até nós. Algumas já se apagaram, mas ainda
brilham no céu porque sua luz continua viajando pelo
espaço."**
Aísha desviou o olhar para o céu, absorvendo a ideia.
**"Então, de certa forma, estamos olhando para o
passado?"**
Adrian soltou um pequeno riso, como se gostasse da maneira
como ela interpretava aquilo. **"Exatamente."**
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Pelo
contrário, era como se as ondas, o vento e as estrelas
participassem daquela conversa silenciosa entre eles.
Aísha sentiu que, assim como as estrelas, algumas
histórias da ilha ainda brilhavam, mesmo que seus
protagonistas já tivessem partido.
E talvez… Adrian fosse uma delas.
O clima estava tão agradável, Adrian se sentia bem ao lado
dela, ele não precisava contar sobre quem era, não
precisava ter o peso dos olhos de quem sabe a verdade
sobre ele, esconder quem é, era como um ato de proteção,
alguém que no passado foi muito machucado.
Ele observa Aisha, e vai se aproximando de seu rosto, suas
respirações se tornam sincronizadas, a mão dele envolve
seus cabelos, ele a admirava, não havia lhe dito, mais
para ele, ela era a mais bonita das mulheres, ele a
endeusava.
Quando os dois se beijam, as coisas mudam totalmente, o
corpo deles falavam antes de qualquer palavra sair de suas
bocas, com a lua observando o ato de desejo, e talvez
paixão que acontecia ali.
Adrian a endeusou, se rendeu a ela, como quem se rendia a
própria deusa da lua. Naquela noite, naquele momento, era
como se os deuses e guardiões daquele lugar os
abençoassem.
Adrian se entrega ao momento, à conexão com Aísha, como se
todas as barreiras que ele construiu ao longo dos anos se
desfizessem naquele instante. E Aísha, envolvida pelo
toque dele, sentiu algo diferente—uma força que transcende
o momento, que vai além da simples atração.
Os segredos da ilha, as histórias não contadas, a linhagem
de Adrian… tudo parecia se encaixar de maneira silenciosa,
como se aquela noite fosse um
ritual não planejado, mas inevitável.
Eles voltaram para ilha, Adrian pediu para que ela
passasse a noite com ele.
O quarto estava silencioso, exceto pelo som suave das
ondas ao longe e pelo vento noturno que entrava pela
janela aberta. A luz da lua banhava a cama onde Aísha
repousava, sua respiração tranquila, como se a noite
tivesse levado parte de suas inquietações.
Adrian, por outro lado, permanecia acordado, encostado
contra a pilastra de madeira próxima à cama. Seus olhos
estavam fixos nela, mas seus pensamentos vagavam em
lugares que nem ele mesmo sabia nomear.
Ele nunca havia permitido que alguém se aproximasse tanto,
e isso o incomodava e fascinava ao mesmo tempo. Aísha não
sabia quem ele realmente era—não sabia da carga que ele
carregava, dos segredos que, por anos, foram mantidos no
mais absoluto silêncio.
Mas, por alguma razão, ele sentia que não precisava ser
Adrian, o herdeiro, o descendente de uma história
esquecida. Não precisava ser o homem que carregava o peso
de tudo que veio antes dele.
Com Aísha, naquela noite, ele apenas… era.
Um suspiro escapou de seus lábios. Parte dele queria se
aproximar, tocar seu rosto, sentir a realidade daquele
momento. Mas outra parte, a parte que sempre o manteve
distante, sabia que aquilo podia ser perigoso.
Porque quanto mais perto ele chegava, mais difícil seria
se afastar.
A lua continuava banhando a cama, como se os observasse
silenciosamente, como se soubesse que ali, naquela noite,
algo já havia mudado—mesmo que nenhum deles dissesse em
voz alta.
Na manhã seguinte, Adrian acordou com um de seus
seguranças à porta do quarto.
— Senhor, me perdoe a falta de respeito… — disse o homem
com voz contida —, mas seu pai está aqui e solicitou a
presença dos filhos para o café da manhã.
Adrian apenas assentiu, voltou para dentro, vestiu-se com
rapidez e saiu.
A luz da manhã invadia suavemente o quarto, trazendo
consigo o murmúrio distante das ondas e o frescor da brisa
oceânica. Aísha se mexeu levemente na cama antes de abrir
os olhos, sentindo o calor acolhedor dos lençóis ao seu
redor. Foi então que notou algo diferente.
Sobre o travesseiro ao lado, repousava um pequeno bilhete,
escrito com a caligrafia precisa de Adrian. Ela pegou o
papel entre os dedos e leu, lentamente, as palavras
escolhidas com cuidado:
**“A noite foi agradável, como tudo na sua presença.
Nos encontramos por aí.
Espero que aprecie o café que pedi especialmente para
você.
Atenciosamente,
Adrian.”**
Aísha sentiu o coração acelerar levemente. Era simples,
mas carregado de significado. O detalhe do café, o tom
contido da mensagem — era a maneira de Adrian de deixar
sua marca sem dizer muito.
Ela se sentou na cama, observando o quarto agora vazio.
Ele já havia partido, deixando para trás um novo mistério
a se desenrolar. E, ao mesmo tempo, a manhã trazia uma
nova realidade — uma que ela ainda estava descobrindo como
lidar.
Mas, por ora, deixaria as perguntas para depois.
Primeiro, apreciaria o café que ele escolheu para ela.
A mesa do café da manhã estava impecavelmente preparada,
refletindo o padrão de sofisticação que o patriarca dos
Noctheran exigia. Adrian, Aidan e Axel estavam sentados,
cada um com sua postura distinta — Aidan sempre o mais
formal, Axel visivelmente entediado e Adrian mantendo sua
expressão neutra, porém atenta.
O pai deles, um homem de presença marcante, observava os
filhos com um olhar que carregava tanto orgulho quanto
expectativa.
— Espero que não tenham esquecido o motivo de estarmos
aqui — disse ele, rompendo o silêncio.
Aidan, como de costume, tomou a frente:
— Estamos avançando nas negociações, pai. Vicente
Marquintis nos ofereceu uma proposta sólida. Agora,
depende do desempenho dos produtos.
O patriarca assentiu lentamente, tomando um gole de café
antes de responder:
— Espero que não estejam cometendo erros por arrogância.
Esse tipo de negócio pode se desfazer com um único
deslize.
Axel soltou um breve riso, recostando-se na cadeira.
— Aidan nunca deixa espaço pra erro, pai. E Adrian… — ele
desviou o olhar para o irmão do meio — bom, ele observa
antes de agir.
Adrian manteve-se em silêncio por um momento, sua mente
ainda presa à noite anterior. Mas, como se quisesse evitar
qualquer suspeita, respondeu com calma:
— Estamos lidando com isso do jeito certo.
O pai sustentou o olhar sobre Adrian por alguns segundos
antes de voltar sua atenção aos negócios. A conversa
seguiu, misturando estratégia e expectativas, enquanto
Adrian, por mais que participasse, sentia que algo mais
ocupava seus pensamentos.
Do outro lado do resort, Aísha seguia sua própria rotina.
Depois de ler o bilhete, aproveitou o café da manhã com
serenidade, ainda sem perceber que, lentamente, estava
sendo puxada para algo muito maior do que imaginava.
A ilha ainda guardava segredos para ela.
E, mais cedo ou mais tarde, eles viriam à tona.
Capítulo 20
O primeiro dia de Vicente na ilha foi marcado por
negociações e ajustes. Mas agora, com os produtos
entregues e o acordo temporário em andamento, ele
finalmente decidiu aproveitar o que o resort tinha a
oferecer. Entre todas as opções, a ideia de uma sessão de
massagem lhe pareceu perfeita — um momento para relaxar,
longe das estratégias e dos cálculos empresariais.
Sem pensar muito, marcou uma sessão no spa, escolhendo um
horário tranquilo, quando poderia desfrutar do atendimento
sem movimentação ao redor.
Enquanto isso, Aísha já se encontrava nos momentos finais
de sua formação. O ritmo no spa era intenso, e cada dia
parecia uma nova oportunidade para aperfeiçoar suas
técnicas. Isla, sempre observadora, viu uma chance de dar
à jovem uma experiência real e chamou-a antes da última
sessão do dia.
— Você está pronta para atender um cliente? — perguntou,
sem dar muitos detalhes.
Aísha, animada com a oportunidade, assentiu sem hesitar.
— Claro!
Isla sorriu de leve e a conduziu até uma das salas de
atendimento.
— Ele já está esperando. Faça como aprendeu.
Aísha entrou com naturalidade, ajustando o ambiente para o
início da massagem. O cliente já estava deitado na maca,
rosto voltado para baixo, completamente relaxado. Ela não
fazia ideia de quem ele era — apenas sabia que sua missão
era proporcionar o melhor atendimento possível.
Enquanto preparava os óleos, não imaginava que, em poucos
minutos, sua história cruzaria com algo que mudaria tudo.
A sala estava tranquila, iluminada por uma luz suave que
transmitia paz. O aroma delicado de óleos essenciais
preenchia o ar, misturado ao som relaxante de uma música
instrumental ao fundo.
Aísha trabalhou com cuidado, suas mãos deslizando com
precisão e leveza, aplicando pressão nos pontos certos. A
tensão que sentia no início da sessão foi se dissipando
conforme seus movimentos fluíam com naturalidade.
O cliente permanecia de rosto voltado para baixo, entregue
ao momento. De tempos em tempos, um leve suspiro escapava
— sinais sutis de um relaxamento profundo. Era como se o
peso do dia desaparecesse sob seus toques hábeis.
Por algum motivo que ela não conseguia explicar, havia
algo familiar naquela experiência. O contorno dos ombros,
a forma como os músculos reagiam ao toque… Era uma
sensação estranha, como se já conhecesse aquela estrutura,
mesmo sem ver o rosto por trás dela.
Ela afastou o pensamento e focou no que havia aprendido —
cada gesto deveria transmitir calma, cada movimento,
precisão. Era seu primeiro atendimento real, e ela queria
que fosse perfeito.
E enquanto suas mãos seguiam firmes, o mundo lá fora
parecia distante. Naquela sala, existia apenas uma energia
silenciosa e uma conexão misteriosa entre terapeuta e
paciente.
Aísha finalizou a sessão com profissionalismo e se
retirou, sentindo um misto de alívio e realização. Era seu
primeiro atendimento oficial e, por mais que houvesse algo
estranhamente familiar, seguiu com seu dia sem questionar.
Do outro lado, Vicente se levantou da maca, respirando
fundo enquanto se trocava. A massagem havia sido
excepcional — não apenas pelo alívio físico, mas pela
estranha sensação que lhe provocara. Algo naquele toque
parecia… conhecido.
Ao sair da sala, ainda imerso na sensação, aproximou-se da
recepção. Com sua postura sempre elegante, perguntou:
— Desculpe, poderia me dizer quem foi a terapeuta que fez
minha sessão?
A atendente olhou para ele, prestes a responder, mas foi
chamada por uma colega para resolver um imprevisto.
— Ah, um instante, senhor…
Vicente ficou sem resposta.
Ele soltou um riso baixo e balançou a cabeça, murmurando
para si:
— Curioso…
Decidiu distrair-se. Foi até uma das áreas do resort onde
serviam lanches refinados e encontrou seu amigo e parceiro
de trabalho, Hugo, já acomodado em uma das mesas.
— Vicente! — cumprimentou Hugo, animado. — Finalmente
resolveu aproveitar um pouco?
Vicente recostou-se na cadeira, pegou sua xícara de café e
respondeu:
— Digamos que sim.
Hugo notou algo diferente no semblante do amigo.
— O que foi? Você está com um olhar meio distante.
Vicente respirou fundo antes de responder:
— Fiz uma massagem agora há pouco. Foi incrível, claro,
mas… teve algo ali.
— Algo ali? Como assim?
Vicente girou a xícara entre os dedos, buscando as
palavras certas:
— Por um momento, senti como se estivesse em outro lugar.
Em outra cidade, em um apartamento… no meio de uma rua
movimentada…
Fez uma pausa, olhando para o líquido escuro dentro da
xícara.
— E com alguém que me fazia sentir vivo.
Hugo recostou-se, intrigado:
— Isso é bem específico.
Vicente esboçou um leve sorriso, mas não disse mais nada.
Era estranho.
Era familiar.
E ele ainda não sabia que, em breve, descobriria quem
havia provocado aquela sensação.
À noite, em uma das áreas do resort, preparava-se um
evento que prometia mais do que diversão.
O restaurante-bar estava iluminado por luzes amareladas,
criando uma atmosfera aconchegante e sofisticada. Música
ao vivo, novos drinks sendo lançados, um público misto de
hóspedes e moradores — tudo contribuía para uma noite
agradável.
Aísha chegou acompanhada de Isla, animada com a ideia de
relaxar após um dia cheio. As duas escolheram uma mesa
mais afastada, próxima ao balcão, onde poderiam observar o
movimento sem se envolver demais.
Enquanto isso, Vicente estava acomodado perto do palco. A
noite o atraía de uma forma que ele não compreendia
totalmente — talvez fosse o desejo de se distrair ou
apenas o impulso de estar ali, sem uma razão concreta.
As melodias suaves se espalhavam pelo ambiente, até que a
cantora, com um vestido elegante e um brilho nos olhos,
anunciou ao microfone:
— Agora, vou cantar uma música especial, pedida por alguém
que quis reviver um momento especial.
Vicente não prestou atenção de imediato. Mas assim que os
primeiros acordes soaram, algo dentro dele despertou.
A melodia era inconfundível.
O arranjo, a suavidade da voz…
Tudo o atingiu como uma onda inesperada.
Era a música.
Seu corpo ficou tenso por um instante, como se o passado o
tivesse puxado de volta sem permissão. O sentimento que
surgira durante a massagem agora tomava forma, trazendo
lembranças que ele tentava manter adormecidas.
Seu olhar percorreu o ambiente, buscando algo — alguém.
Era impossível que fosse apenas coincidência.
Mas por mais que observasse, por mais que tentasse
encontrar a origem daquela conexão, Aísha estava ali, tão
perto… e ao mesmo tempo invisível para ele.
E ela, sem saber, também sentia algo dentro de si mudar.
A noite continuava, mas para Vicente, já não era apenas
mais um evento do resort.
Era o começo de algo que ele não poderia evitar.
O evento seguia em um ritmo agradável, com os convidados
desfrutando dos novos drinks e da música suave que
preenchia o ambiente. Aísha e Isla conversavam
tranquilamente, aproveitando a atmosfera leve da noite.
Enquanto isso, Adrian e Aidan decidiram descer para o
restaurante/bar, movidos pelo interesse em observar mais
de perto os acontecimentos do resort. Assim que Adrian
entrou, seus olhos percorreram o espaço com
naturalidade—até que avistou Aísha.
Ela estava ali, tranquila, envolvida na conversa com Isla,
sem perceber que alguém a observava. Sem hesitar, Adrian
caminhou até ela, um sorriso discreto nos lábios.
**—Aísha —** chamou, sua voz carregada de familiaridade e
algo mais difícil de definir.
Ela ergueu o olhar e, ao vê-lo, um pequeno sorriso surgiu
em seu rosto.
**—Adrian.**
**—Parece que o destino gosta de nos colocar frente a
frente —** ele brincou, puxando uma cadeira ao lado dela.
Aidan, por sua vez, permaneceu um passo atrás, observando
a interação por um momento antes de se aproximar. Adrian,
sempre à vontade, fez as apresentações.
**—Esse é meu irmão, Aidan.**
Aidan inclinou levemente a cabeça, seu semblante sério,
mas educado.
**—Prazer, Aísha.**
Ela acenou com a cabeça, mantendo o sorriso leve.
**—Igualmente.**
A noite, que até então seguia tranquila, parecia ter
tomado um novo rumo.
Aísha, sempre educada, apresentou Isla a Aidan e, para sua
surpresa, os dois se deram bem rapidamente. Isla, com seu
jeito envolvente, puxou conversa sem hesitação, e Aidan,
apesar de seu comportamento mais reservado, parecia
genuinamente interessado na troca de palavras.
A noite seguiu leve, entre risos ocasionais, drinks
refinados e a música ao fundo, que continuava a ditar o
tom do evento. Era um daqueles momentos em que o tempo
parecia desacelerar, permitindo que todos aproveitassem
sem pressa.
Quando o evento começou a chegar ao fim, Adrian, Aidan e
Isla acompanharam Aísha até seu quarto, como um gesto
natural de cuidado. O corredor do resort estava
silencioso, iluminado apenas pelas luzes suaves, que
traziam um tom tranquilo à despedida.
**—Foi uma noite interessante —** Adrian disse,
apoiando-se casualmente na lateral da porta de Aísha.
Ela sorriu.
**—Sim, foi bom relaxar um pouco.**
Isla e Aidan trocavam um último comentário ao lado, e
Aísha percebeu que aquela amizade inesperada talvez
estivesse apenas começando.
**—Nos vemos amanhã? —** Adrian perguntou, sua voz
carregando uma leve sugestão no ar.
Aísha cruzou os braços, fingindo ponderar.
**—Quem sabe… se o destino quiser.**
Adrian soltou um breve riso.
**—Ele sempre quer.**
Com um último olhar e um aceno discreto, os irmãos
Noctheran e Isla se afastaram, deixando Aísha sozinha
diante da porta de seu quarto.
A noite havia sido leve, agradável… mas ela sentia, em seu
íntimo, algo maior.
O sol da manhã iluminava suavemente a ilha, trazendo uma
sensação de recomeço. Para Aísha, aquele dia era
especial—seu curso havia chegado ao fim e, agora, ela
recebia oficialmente o protocolo de finalização. Um misto
de orgulho e satisfação preenchia seu peito. Ela havia se
dedicado, aprendido, e agora estava pronta para seguir
adiante.
Depois de comemorar silenciosamente consigo mesma, decidiu
que precisava encontrar Adrian. Apesar da proximidade
deles nos últimos dias, nenhum dos dois havia trocado
contato diretamente, e agora ela sentia que precisava
vê-lo.
Com passos decididos, caminhou até a recepção do resort e
se aproximou do atendente, que a recebeu com um sorriso
educado.
**—Bom dia —** ela começou, mantendo a leveza na voz.
**—Gostaria de saber onde posso encontrar Adrian.**
O atendente manteve a postura profissional, mas sua
expressão se tornou um pouco contida.
**—Me desculpe, senhora, mas não posso passar informações
sobre ele ou seus irmãos.**
Aísha soltou um pequeno suspiro, sem surpresa.
**—Entendo. Mas… posso deixar um recado para ele?**
O atendente assentiu.
**—Claro, eu irei repassar.**
Ela pensou por um instante antes de falar.
**—Diga a ele que quero vê-lo.**
Simples, direto.
O atendente anotou o recado e garantiu que o entregaria
assim que tivesse oportunidade.
Aísha se afastou, sentindo a expectativa crescer dentro de
si. Ela não sabia se Adrian responderia, mas algo dentro
dela dizia que, de um jeito ou de outro, ele apareceria.
A ilha sempre parecia conspirar a favor deles.
O céu sobre a ilha estava tingido por tons dourados e
alaranjados, anunciando o fim da tarde. A brisa carregava
o cheiro do mar, trazendo consigo a familiar sensação de
liberdade e mistério que sempre pairava sobre aquele
lugar.
E lá estava Aísha, sentada na ponta do píer, os pés
descalços tocando suavemente a água, observando o
horizonte como se buscasse respostas na imensidão.
Adrian a encontrou com a mesma precisão de sempre, como se
soubesse exatamente onde procurá-la. Sem hesitar, ele se
aproximou e sentou ao seu lado, olhando para ela antes de
quebrar o silêncio:
**—Você queria falar comigo?**
Aísha virou o rosto para ele, um pequeno sorriso brincando
em seus lábios.
**—Terminei o curso.**
Adrian inclinou levemente a cabeça, absorvendo a
informação.
**—Então… isso significa que vai embora?**
A pergunta veio direta, mas não carregava apenas
curiosidade—havia algo mais profundo ali, algo que ele
evitava colocar em palavras.
Ela soltou um pequeno suspiro.
**—Ainda tenho alguns dias de hospedagem. No máximo
três.**
Adrian desviou o olhar para o mar, como se aquilo lhe
desse algum tempo para processar. Ele poderia insistir no
assunto, perguntar o que ela faria depois, mas sabia que
era melhor não se aprofundar demais em sentimentos.
Em vez disso, sua expressão mudou levemente, um novo
brilho nos olhos.
**—Então precisamos comemorar.**
Aísha arqueou uma sobrancelha, divertida.
**—Ah, você acha?**
**—Tenho certeza.**
Ela riu, sacudindo a cabeça e cruzando os braços.
**—Por sorte, eu sei exatamente o que fazer.**
Adrian estreitou os olhos, intrigado.
**—E o que seria?**
**—Surpresa. Só precisa me encontrar à noite.**
Ele soltou um leve riso, balançando a cabeça.
**—Tudo bem. Mas espero que seja algo à altura da
ocasião.**
Ela piscou para ele antes de se levantar, sacudindo as
mãos para afastar os grãos de areia presos na pele.
**—Não se preocupe, Adrian. Eu nunca decepciono.**
E com isso, ela se afastou, deixando para trás a promessa
de uma noite que, sem saber, mudaria tudo.
A noite chegou com um brilho especial, a lua alta no céu
iluminando suavemente os caminhos do resort.
Aísha, já pronta e esperando do lado de fora de seu
quarto, observava o movimento tranquilo ao redor enquanto
aguardava Adrian.
Ele apareceu com sua postura sempre relaxada, mas com
aquele olhar atento que parecia captar cada detalhe. Ao
vê-la, um sorriso surgiu em seu rosto.
**—Você sempre consegue superar minhas expectativas —**
comentou, deixando claro seu apreço pela maneira como ela
se apresentava.
Ela sorriu de canto, cruzando os braços.
**—E você sempre faz questão de elogiar.**
**—Porque é impossível não fazê-lo.**
Ele então questionou, curioso:
**—Agora me diga… para onde estamos indo?**
Aísha balançou a cabeça, mantendo o mistério.
**—É surpresa.**
Sem mais explicações, começaram a caminhar pelo resort,
passando por áreas iluminadas e trechos mais tranquilos da
ilha. Adrian não insistiu em descobrir o destino, apenas a
acompanhou, sentindo que qualquer que fosse a escolha
dela, seria interessante.
Até que finalmente chegaram ao local. Adrian parou por um
instante, olhando ao redor, absorvendo o ambiente.
E então, seus olhos pousaram na placa à entrada:
**Histórias da Ilha.**
Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
**—Bem pensado.**
Aísha sorriu, satisfeita.
**—Você disse que precisava celebrar… então achei que
seria interessante fazer isso conhecendo um pouco mais das
raízes daqui.**
Adrian observou a entrada do espaço, sentindo que aquela
escolha dizia mais sobre ela do que apenas um simples
passeio.
Naquela noite, não era só uma celebração.
Era uma peça do quebra-cabeça que, sem perceber, Aísha
estava começando a montar.
O ambiente dentro do espaço **Histórias da Ilha** era
acolhedor, iluminado apenas pelo brilho suave das
lanternas espalhadas pelo lugar. O contador de histórias
já estava no palco, ajustando alguns detalhes antes de
iniciar seu relato.
Seu olhar percorria a plateia com uma expressão serena,
até que seus olhos encontraram os de Adrian.
Foi um instante breve, mas carregado de significado. O
contador o observou com algo que parecia mais do que
simples reconhecimento—como se estivesse diante de uma
peça importante de um enigma antigo.
Mas o que veio depois foi ainda mais curioso.
Assim que seus olhos passaram para Aísha, ao lado de
Adrian, houve uma mudança sutil em sua expressão.
Um pequeno sobressalto, um olhar demorado demais, como
quem via algo que não esperava ver.
Aísha notou o estranho clima, mas preferiu não se
aprofundar naquilo. Talvez fosse apenas impressão, ou um
detalhe sem importância.
Adrian, por sua vez, manteve-se impassível, como se já
esperasse aquele tipo de reação.
Ambos se acomodaram nas cadeiras, e então o contador deu
início à história da noite.
Ele limpou a garganta, deixando a voz ressoar pelo espaço,
e começou sua narrativa:
**—Muito antes de este lugar ser um destino de descanso e
celebrações, ele era terra de mistérios. Havia aqueles que
acreditavam que a ilha carregava algo além do que os olhos
podem ver—algo que precisava ser protegido.**
Aísha ouviu atentamente, absorvendo cada palavra, sem
perceber que, ao seu lado, Adrian mantinha o olhar fixo no
contador, como se cada frase tocasse algo profundo dentro
dele.
As histórias seguiam envoltas em mistério, tradição e
segredos que pertenciam àqueles que vieram antes; naquela
noite, algo parecia diferente. Talvez fosse apenas o
clima, ou talvez… fosse a presença de Adrian e Aísha
juntos ali.
O contador continuava, sua voz conduzindo a plateia por um
mundo onde passado e presente se misturavam. E Aísha, sem
perceber, estava cada vez mais envolvida com a essência
daquela ilha.
A atmosfera dentro do espaço parecia mudar à medida que o
contador aprofundava sua narrativa. Sua voz ecoava com
precisão, cada palavra carregando o peso de um passado que
ainda parecia presente naquelas terras.
Adrian continuava fixo no contador, seus olhos analisando
cada expressão, cada nuance da história que se desenrolava
diante deles. Para ele, aquilo não era apenas uma história
contada para entreter turistas. Era algo real, algo que
ele conhecia de perto, algo que estava entrelaçado com sua
existência.
Aísha, por sua vez, sentia sua curiosidade aumentar. Havia
um magnetismo naquelas palavras, algo que a fazia prestar
atenção de um jeito diferente, como se aquelas histórias
de tempos antigos tivessem mais a ver com o presente do
que ela poderia imaginar.
Sem conseguir conter sua curiosidade, inclinou-se
levemente para Adrian e sussurrou:
**—Você parece meio… atento demais a isso. Tem alguma
razão?**
Ele desviou o olhar do contador por um instante,
encontrando os olhos dela. Por um breve segundo, pareceu
considerar como responder, mas então, como se quisesse
evitar qualquer aprofundamento, simplesmente deu um
sorriso discreto.
**—Talvez eu só goste de boas histórias.**
Mas Aísha não ficou satisfeita com a resposta. Havia algo
a mais ali, algo que ele não queria dizer.
Antes que pudesse insistir, o contador de histórias fez
uma pausa dramática e olhou diretamente para Adrian.
**—Há aqueles que carregam consigo um pedaço da história
da ilha, mesmo sem perceber.**
O silêncio que veio depois pareceu mais pesado do que
deveria. A plateia apenas apreciava a encenação, mas
naquele canto do salão, onde Adrian e Aísha estavam, as
palavras pareciam ter um significado diferente.
Aísha sentiu um arrepio discreto na pele, como se uma peça
invisível estivesse prestes a se encaixar.
Mas Adrian?
Ele permaneceu em silêncio.
Como alguém que já conhecia aquela história há muito
tempo.
O contador ajustou a postura no palco, sua voz profunda
ecoando pelo espaço. A plateia ficou em silêncio,
aguardando o próximo relato.
**—Agora, falarei sobre uma lenda que há muito tempo
percorre esta ilha… A história de uma promessa selada pelo
destino.**
Ele fez uma pausa, seu olhar breve sobre Adrian e Aísha
antes de continuar.
**—Dizem que, há séculos, dois viajantes chegaram a esta
terra—um homem e uma mulher, vindos de mundos distintos.
Ele, parte de uma linhagem antiga, carregava o peso de uma
responsabilidade que nunca escolheu. Ela, livre como o
vento, encontrou-se com ele por acaso, sem saber que
aquele encontro mudaria tudo.**
Aísha escutava atentamente, sentindo o peso das palavras
de forma estranha, como se, de alguma forma, ressoassem
dentro dela. Adrian permanecia impassível, mas algo em sua
postura indicava que ele não estava apenas ouvindo—ele
estava absorvendo.
**—Eles se apaixonaram sem entender completamente o que os
unia. O amor deles cresceu à sombra das águas, sob a luz
da lua, protegido por noites silenciosas. Mas havia algo
maior do que esse sentimento—algo que já estava traçado
muito antes de se encontrarem. O homem pertencia a essa
terra, e a mulher… era a peça que faltava em uma história
que nunca deveria ter sido esquecida.**
O contador observou a plateia com um sorriso discreto.
**—A lenda diz que, ao reconhecerem sua conexão, eles
fizeram uma promessa. Não importava onde estivessem, não
importava quanto tempo passasse suas almas sempre se
reencontrariam, em qualquer vida, em qualquer tempo."**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele, como se a
história carregasse algo familiar, algo que ela não
conseguia explicar.
Adrian desviou o olhar por um instante, e a expressão em
seu rosto era difícil de decifrar.
O contador finalizou:
**"Alguns dizem que as águas da ilha guardam esse
juramento até hoje. Outros acreditam que, de tempos em
tempos, aqueles que carregam essa marca voltam a se
encontrar… sem sequer compreender o motivo."**
Silêncio.
O contador, ainda envolto na aura misteriosa da lenda que
acabara de contar, ajustou sua postura no palco e, com a
voz firme e melancólica, começou a recitar uma antiga
cantiga que ecoava pelos séculos na ilha.
---
**Sob a lua, junto ao mar,**
**Dois destinos a se encontrar.**
**Pelo vento, foi jurado,**
**Nem o tempo os terá afastado.**
**Se as águas chamam, eles vêm,**
**Como sombras que nunca se esquecem.**
**Do amor, nasceu um laço eterno,**
**Marcado em alma, vivo e sincero.**
**Nem a terra, nem as ondas,**
**Nem a noite os pode apagar.**
**A promessa feita em silêncio,**
**Um dia voltará a se selar.**
---
A plateia permaneceu em silêncio por alguns instantes após
a última nota ser recitada, envolvida pelo peso da melodia
e pelo significado oculto por trás das palavras.
Aísha, sem entender completamente, sentiu algo profundo
dentro de si ao ouvir os versos—como se, de alguma forma,
aquela promessa esquecida fizesse sentido para ela.
Adrian, por sua vez, manteve o olhar fixo no contador,
mas, desta vez, não desviou nem tentou esconder sua
expressão.
Ele conhecia aquela cantiga.
E, naquele momento, soube que Aísha estava mais envolvida
na história da ilha do que imaginava.
Quando Adrian e Aísha se levantaram para partir, o
contador de histórias se aproximou, seu olhar atento e
carregado de algo difícil de decifrar.
**—Foi uma boa escolha vir esta noite —** disse ele, sua
voz calma, mas carregada de significado.
Adrian manteve-se impassível, mas Aísha percebeu que havia
algo naquele tom—como se o homem falasse com um propósito
maior do que apenas despedir-se.
Então, o contador inclinou levemente a cabeça e olhou
diretamente para Adrian, quase como quem queria testar sua
reação.
**—A cantiga que recitei… Sabe, alguns a conhecem como uma
música de ninar.**
Por um instante, um silêncio pairou entre eles.
Aísha franziu levemente a testa, notando o jeito contido
de Adrian.
Ela sentia que algo estava se revelando ali, algo que
estava além da simples história contada naquela noite.
O contador sorriu de leve, como quem já tinha dito tudo o
que precisava dizer, e se afastou, deixando-os com essa
última frase.
Quando saíram do espaço, caminhando pelo resort sob as
luzes suaves da noite, Aísha não conseguiu mais segurar
sua curiosidade.
**—Adrian… O que foi aquilo?**
Ele soltou um breve suspiro, como se soubesse que ela
perguntaria, mas ao mesmo tempo tentava decidir até onde
deveria responder.
**—Histórias da ilha —** disse simplesmente. **—Algumas
pessoas levam mais a sério do que outras.**
Aísha estreitou os olhos, percebendo que ele estava
evitando o verdadeiro significado.
**—Mas e você? O que significa para você?**
Adrian manteve o olhar no caminho à frente, sem parar de
andar.
**—Significa que algumas histórias nunca morrem.**
Dessa vez, Aísha sentiu que havia algo muito maior por
trás daquela resposta.
Ela queria entender.
E, pela primeira vez, teve certeza de que Adrian sabia
mais sobre aquela ilha do que queria admitir.
A noite envolveu Adrian e Aísha em um silêncio carregado
de significados. No quarto, longe do burburinho do resort,
ela insistiu na conversa, tentando arrancar dele alguma
verdade que estivesse escondida por trás das palavras
evasivas.
Adrian, sentado na borda da cama, manteve-se contido,
escolhendo suas frases com cuidado.
**—A ilha tem suas histórias. Algumas são apenas lendas,
outras… são mais reais do que parecem.**
**—E você faz parte dessas histórias? —** Aísha perguntou,
os olhos atentos a cada expressão dele.
Adrian desviou o olhar para algum ponto indefinido do
quarto.
**—Digamos que minha família conhece bem essas
histórias.**
Foi o máximo que ele deu a entender. Sem revelar nomes,
sem entregar completamente seu passado, mas deixando claro
que ele não era apenas um espectador das lendas daquela
terra.
Aísha percebeu que não conseguiria mais do que isso. Mas a
forma como ele escolhia cada palavra provava que havia
muito mais a ser descoberto.
Depois de algum tempo, a conversa se dissolveu no cansaço
da noite.
Adrian recostou-se sobre os travesseiros, seus olhos
pesados de exaustão. Aísha, deitada ao lado, passou os
dedos suavemente pelo cabelo dele, um carinho inconsciente
enquanto o observava.
Por minutos, ficou ali, olhando para ele, tentando
entender o que fazia Adrian ser tão fechado.
Talvez fosse proteção.
Talvez fosse medo.
Ou talvez… fosse porque, no fundo, ele já sabia como essa
história iria terminar.
O sol da manhã iluminava suavemente a varanda do quarto de
Aísha, onde ela e Adrian desfrutavam de um café tranquilo,
apreciando a brisa leve que vinha do mar. A vista da ilha
era encantadora, e por um breve momento, parecia que o
mundo além dali não existia.
**—Vou ao centro hoje —** Aísha disse, mexendo
distraidamente em sua xícara. **—Isla e eu queremos
comprar algumas lembranças antes que eu vá embora.**
Adrian recostou-se na cadeira, observando-a com um olhar
atento.
**—E depois?**
**—Depois… apenas aproveitar os últimos dias por aqui.**
Ela o olhou de relance.
**—E você? Quais seus planos?**
Adrian deu um breve sorriso de canto, mas sua resposta
veio, como sempre, vaga.
**—Negócios.**
Aísha franziu levemente a testa, mas não insistiu. Já
estava acostumada com o jeito reservado dele.
Depois de terminarem o café, Aísha seguiu para o centro da
cidade com Isla, enquanto Adrian se dirigia para uma
reunião com seus irmãos e Vicente.
O centro da cidade estava movimentado, com turistas e
moradores caminhando entre as lojas e barracas de
artesanato. Aísha observava cada detalhe, encantada com a
cultura local refletida nos pequenos objetos à venda.
**—Esse colar tem um símbolo da ilha —** Isla disse,
mostrando-lhe um pingente prateado com um desenho de ondas
e estrelas. **—Dizem que representa os viajantes que nunca
se perdem de seu caminho.**
Aísha segurou a peça por um instante, sentindo o
significado além da beleza do objeto. Algo naqueles
símbolos parecia familiar de um jeito inexplicável.
**—Interessante —** ela murmurou, antes de decidir
comprá-lo.
A cada loja que visitavam, Aísha sentia que não estava
apenas levando lembranças físicas, mas também fragmentos
de histórias que, de alguma maneira, pareciam estar
ligadas a ela.
Do outro lado da ilha, Adrian, Vicente e os irmãos
Noctheran estavam reunidos em uma sala privativa do
resort.
**—Precisamos alinhar os termos antes de fecharmos isso
—** Vicente disse, analisando os papéis à sua frente.
**—Tem muito potencial, mas não podemos cometer erros.**
Adrian manteve-se calado por alguns instantes, seus olhos
percorrendo os documentos enquanto seus irmãos discutiam
os detalhes.
Aidan cruzou os braços, direto como sempre.
**—Não gosto de depender de terceiros. Se algo sair
errado, nossa margem de ação será mínima.**
Adrian, finalmente, falou:
**—Por isso precisamos garantir que tudo esteja sólido
antes de dar qualquer passo.**
O clima era sério. Eram negócios, mas algo naquele
contrato parecia ter um impacto maior do que apenas cifras
e termos legais.
Vicente soltou um breve suspiro, fechando os papéis.
**—Então, vamos resolver isso hoje.**
De um lado da ilha, Aísha mergulhava nas histórias locais,
sem perceber que estava mais conectada a elas do que
imaginava.
Do outro, Adrian tratava de negócios que carregavam
consequências maiores do que estava disposto a admitir.
E, aos poucos, os caminhos deles estavam prestes a se
cruzar mais uma vez.
**Capítulo 21**
O passeio pelo centro seguia tranquilo, com Isla e Aísha
explorando lojas e barracas locais. A cada esquina, mais
detalhes sobre a cultura da ilha se revelavam—histórias
antigas estampadas em objetos, pinturas e placas
informativas.
Foi então que, enquanto observava uma parede de registros
históricos em uma loja, seus olhos pousaram sobre um
quadro de madeira entalhada.
Nele, algumas palavras chamaram sua atenção:
**“A linhagem Noctheran sempre esteve conectada à ilha.
Muitos não sabem, mas há uma história que se mantém há
gerações. Seu líder, um homem reservado, tem três filhos
que herdarão responsabilidades que poucos compreendem.”**
Aísha franziu levemente a testa.
*Noctheran.*
Ela conhecia aquele nome. Havia visto antes, nos pertences
de Adrian, marcado em um dos pingentes dele—uma peça que
ele nunca tirava, mas que ela nunca havia questionado.
Sentiu um leve arrepio percorrer sua pele.
Seria possível que Adrian estivesse ligado a essa história
muito mais profundamente do que ele deixava transparecer?
Isla notou o olhar distante de Aísha e perguntou:
**—Algo te incomodou?**
Aísha piscou algumas vezes antes de responder.
**—Não sei. Talvez eu só tenha encontrado algo curioso.**
Mas dentro dela, a dúvida já havia sido plantada.
---
Do outro lado da ilha, Adrian, Vicente e os irmãos
Noctheran estavam reunidos em uma sala privativa,
revisando os últimos detalhes do contrato.
**—Os clientes responderam bem à proposta —** Vicente
disse, analisando os relatórios sobre as experiências com
o café. **—Temos um produto sólido. O desafio será manter
a exclusividade sem perder a escala.**
Aidan manteve os braços cruzados, direto como sempre.
**—Podem nos garantir qualidade sem comprometer produção.
Mas isso exige condições bem alinhadas.**
Adrian olhou para os papéis sobre a mesa, absorvendo tudo
em silêncio por um momento antes de finalmente falar:
**—Fechamos o negócio.**
Vicente assentiu, satisfeito.
**—Ótimo.**
Aidan, sempre pragmático, foi direto ao ponto:
**—Então, está decidido—hoje à noite teremos um jantar com
todos para a assinatura oficial.**
O pai dos irmãos estaria presente, tornando aquele jantar
um evento mais significativo do que um simples acordo
comercial.
Adrian se recostou na cadeira e, mesmo com a formalidade
da reunião, algo em seu olhar parecia distante.
Talvez estivesse pensando nos próximos passos.
Talvez estivesse pensando em algo mais profundo.
Ou talvez… estivesse pensando em Aísha.
---
**Dois lados da ilha, dois momentos importantes**
Aísha começava a ligar pequenas peças sobre Adrian sem
saber aonde aquilo a levaria.
Adrian, por sua vez, terminava a reunião e se preparava
para um jantar que poderia definir mais do que apenas
negócios.
E, sem perceberem, estavam cada vez mais próximos de
descobertas que mudariam tudo.
---
Enquanto os irmãos Noctheran finalizavam os detalhes do
jantar, Adrian recostou-se na cadeira, pensativo. Algo
nele parecia hesitante, como se ponderasse sobre um
detalhe que ainda precisava ser resolvido.
Foi então que, sem rodeios, ele olhou para Aidan e disse:
**—Você deveria convidar Isla.**
Aidan, sempre mais reservado, arqueou uma sobrancelha, sem
responder de imediato. Adrian apenas deu um leve sorriso
de canto.
**—Ela pareceu se dar bem com você.**
O irmão mais velho cruzou os braços, observando Adrian
como quem entendia mais do que ele dizia. Mas, sem
contestar, assentiu com um simples aceno.
**—Tudo bem. Vou cuidar disso.**
Adrian apenas sorriu discretamente, satisfeito. Mas havia
outro convite que ele precisava preparar—e esse exigia
mais atenção.
---
Sem saber de nada, Aísha e Isla decidiram aproveitar a
tarde para cuidar dos cabelos e se preparar para a noite.
A conversa fluía entre risos e comentários sobre o dia, e
Isla, sempre animada, mencionou:
**—Ainda não decidimos o que faremos. Você realmente vai
embora?**
Aísha deu um pequeno suspiro.
**—Ainda tenho uns dois dias aqui. Mas depois... acho que
sim.**
Isla a observou por um instante e sorriu com um olhar
sugestivo.
**—Bom, eu não sei. Mas sinto que essa ilha ainda tem
algumas surpresas para você.**
Aísha apenas riu, sem perceber o quão certa Isla poderia
estar.
**O Convite Especial**
Em outro ponto do resort, Adrian já havia tomado sua
decisão. Ele queria que Aísha estivesse presente no jantar
e queria que ela soubesse disso da maneira mais marcante
possível.
Sem hesitação, encomendou um dos vestidos mais belos e
sofisticados, um modelo de alta grife, perfeito para a
ocasião. Junto ao vestido, escreveu um bilhete simples,
porém direto:
“Vista-se para a noite. Quero vê-la no jantar. Adrian.”
O presente foi cuidadosamente deixado no quarto de Aísha,
esperando pelo momento em que ela entraria e o
encontraria.
E, quando finalmente chegou ao quarto, a surpresa foi
inevitável.
A caixa elegante sobre a cama chamou sua atenção
imediatamente. Curiosa, ela se aproximou e, ao abrir, seus
olhos se iluminaram ao ver o vestido.
Delicado. Luxuoso. E escolhido por Adrian.
Mas foi ao ler o bilhete que seu coração acelerou um
pouco.
Sem aviso, sem conversa prévia… apenas o convite e a
certeza de que naquela noite, eles estariam lado a lado.
Aísha sorriu de leve.
Talvez Isla estivesse certa.
A ilha ainda tinha algumas surpresas guardadas para ela.
Aísha se preparou sem hesitação, deixando que a excitação
pelo convite tomasse conta de si. O vestido era impecável,
desenhado para acentuar sua presença com elegância, e, ao
se olhar no espelho, soube que aquela noite teria um
significado especial.
Ao sair do quarto e caminhar em direção à recepção do
resort, seus passos eram leves, mas cheios de expectativa.
Foi então que, ao chegar, avistou Isla—igualmente
deslumbrante e surpresa ao vê-la ali.
**—Aísha! —** Isla exclamou, sorrindo ao notar a amiga.
**—Você está maravilhosa!**
Aísha respondeu de imediato, observando o brilho no olhar
de Isla.
Elas riram, trocando elogios, sem saber que ambas estavam
indo para o mesmo lugar sem que um convite tivesse sido
mencionado abertamente.
Foi então que Adrian e Aidan chegaram, elegantes e com a
postura impecável que sempre carregavam.
Adrian olhou para Aísha, seu olhar detendo-se por um
momento mais longo do que o esperado antes de dizer, com
seu costumeiro tom baixo e envolvente:
**—Está perfeita.**
Aidan, por sua vez, ofereceu um breve sorriso para Isla,
sem exageros, mas com um reconhecimento claro de que ela
havia captado sua atenção.
Sem prolongar muito, os quatro começaram a caminhar
juntos, atravessando os corredores do resort rumo ao salão
do jantar.
Quando finalmente chegaram à porta do salão, à espera dos
dois filhos mais velhos estavam o pai dos Noctheran e o
irmão mais novo, prontos para a recepção.
A noite oficialmente começava—e, com ela, muito mais do
que um simples jantar estava prestes a acontecer.
---
O clima no corredor, diante da porta do salão, mudou
sutilmente assim que o pai dos Noctheran notou a presença
das convidadas inesperadas.
Com sua postura impecável e olhar sério, ele observou
Adrian e Aidan por um instante antes de dizer, com um tom
calculado:
**—Não fui avisado de que teríamos convidadas.**
A tensão pairou no ar por um breve segundo, mas, sem
hesitar, ele voltou sua atenção para Aísha e Isla,
mantendo a formalidade intacta.
**—Sejam bem-vindas. Espero que a noite seja agradável.**
O concierge, atento à dinâmica, abriu as portas do salão
com elegância. Como anfitrião, o patriarca dos Noctheran
fez um gesto discreto, indicando que as duas deveriam
entrar primeiro.
Aísha e Isla cruzaram a entrada com graça, absorvendo a
atmosfera sofisticada do jantar.
Antes de seguir, o pai dos Noctheran lançou um olhar firme
aos filhos e, com uma voz baixa, porém carregada de
significado, disse:
**—Depois, conversaremos sobre esta pequena surpresa.**
Adrian manteve sua expressão neutra, enquanto Aidan apenas
assentiu, como quem já esperava aquela reação.
Assim, todos entraram, acomodando-se em seus devidos
lugares. Aidan tomou a dianteira e, com sua postura sempre
objetiva, anunciou:
**—Iremos aguardar o restante dos convidados.**
O ambiente estava montado.
A noite começava.
E, com ela, mais do que um jantar estava prestes a se
desenrolar.
O salão estava elegantemente preparado, e o clima começava
a se acomodar entre formalidade e leve descontração. O
senhor **Alaric Noctheran**, com sua postura impecável e
olhar analítico, decidiu conhecer melhor as convidadas
inesperadas.
Com um tom educado, porém observador, ele começou:
**—Então, senhoritas, me falem um pouco sobre vocês. O que
as trouxe até a ilha?**
Aísha respondeu com naturalidade, mencionando seu curso e
sua experiência na ilha, enquanto Isla, sempre mais
expansiva, acrescentou detalhes sobre como estavam
aproveitando os últimos dias como mentora e amiga de
Aísha.
Alaric ouviu atentamente, sem pressa, e então lançou outra
pergunta:
**—Vocês acreditam nas histórias da ilha? Ou acham que são
apenas lendas para entreter turistas?**
Aísha, ainda intrigada com o que havia descoberto mais
cedo, hesitou por um segundo antes de responder:
**—Eu acho que toda lenda tem um fundo de verdade.**
Alaric a observou por um instante, como se estivesse
analisando o verdadeiro significado por trás daquelas
palavras.
Foi nesse momento que o **concierge** entrou no salão, sua
postura profissional intacta ao anunciar:
**—Senhor Vicente e seu colega de trabalho acabam de
chegar.**
O ambiente não mudou imediatamente, mas quando **Vicente
entrou**, acompanhado de seu parceiro de negócios, tudo se
transformou num instante.
Os passos dele eram firmes, mas foi ao erguer o olhar que
encontrou **Aísha**.
E então, surpresa.
Tensão.
Por um instante, os olhos deles se cruzaram, e o mundo ao
redor pareceu diminuir.
Vicente parou por um segundo quase imperceptível, como se
sua mente estivesse processando o que via.
Aísha, por sua vez, conteve qualquer reação visível, mas
algo dentro dela se agitou.
Nenhum dos dois revelou nada.
Nenhuma palavra foi dita.
Era como se tivessem feito um pacto silencioso naquele
instante—um acordo mudo de que, por enquanto, nada seria
exposto.
Adrian observou a cena com discrição, sentindo que havia
alguma tensão no ar, mas sem comentar.
Alaric, sempre atento, percebeu o momento sutil e apenas
guardou a informação para si, sem demonstrar surpresa.
O jantar prosseguia.
Mas algo havia mudado.
E aquela noite, sem dúvida, guardava revelações que ainda
estavam por vir.
---
**A Tensão Oculta**
O jantar seguia em meio a conversas refinadas e taças
discretamente recostadas sobre a mesa de madeira bem
trabalhada. No entanto, entre as palavras trocadas,
pequenos gestos e olhares revelavam emoções ocultas.
Vicente, sempre contido, demonstrava sinais sutis de
desconforto—não era evidente para todos, mas, para quem
observasse com atenção, perceberia a tensão discreta em
seus gestos. O modo como seus olhos às vezes encontravam
**Aísha** quando **Adrian** se inclinava ligeiramente na
direção dela, ou quando seu olhar desviava rapidamente ao
notar a proximidade entre os dois.
E Adrian, atento como sempre, percebeu.
Sem alarde, sua mão deslizou suavemente sobre as pernas
cruzadas de Aísha, um gesto íntimo, mas discreto. Ele
inclinou-se levemente para ela e, com a voz baixa e
envolvente, perguntou:
**—Está desconfortável?**
Aísha, sem perder a delicadeza, apenas sorriu de leve e
respondeu:
**—Não.**
E foi o bastante para que Adrian não insistisse.
Mas Vicente desviou discretamente o olhar naquele momento,
sua expressão se fechando por um instante antes de retomar
sua postura.
A noite seguiu, e então o momento formal se aproximou.
Todos os presentes se acomodaram melhor, e os documentos
foram postos sobre a mesa com elegância.
Um silêncio breve antecedeu o ato final do acordo, até que
**as assinaturas foram feitas**—de forma precisa, sem
hesitação.
O contrato estava fechado.
**—E assim, consolidamos este acordo —** Aidan anunciou,
mantendo seu tom profissional.
O clima se manteve leve, mas logo **Alaric Noctheran**,
com sua postura imponente e calculada, tomou a palavra.
Segurou sua taça de vinho, observando a todos antes de
dizer:
**—Já que estamos entre pessoas importantes, acredito que
seja o momento ideal para compartilhar um pouco da
história de nossa família.**
Ele fez uma breve pausa e então, com um olhar afiado,
acrescentou:
**—Senhor Vicente, por ter fechado um contrato conosco… e
bom, acredito que, se as senhoritas não fossem importantes
para os Noctheran, não estariam aqui.**
Um breve silêncio se instalou à mesa.
Era apenas um comentário, mas carregava peso.
E Aísha, ainda observando cada detalhe, percebeu que,
naquela família, nada era dito por acaso.
**Capítulo 22**
O jantar seguia elegante, as taças ocasionalmente sendo
recostadas sobre a mesa em meio ao murmúrio discreto da
conversa. Mas, quando **Alaric Noctheran** tomou a
palavra, o ambiente ganhou outra atmosfera—como se a
atenção de todos fosse atraída para ele, quase
instintivamente.
Ele recostou-se levemente na cadeira, observando o grupo à
mesa com a serenidade de alguém que sabia exatamente o
peso de suas palavras.
**—A ilha tem muitas histórias —** começou ele, sua voz
carregada de uma imponência natural. **—E a nossa família…
bem, digamos que nossa presença aqui não é fruto do
acaso.**
O tom era medido, sem exageros, quase como se falasse
sobre uma lenda e não sobre sua própria linhagem.
Os convidados mantiveram-se atentos, absorvendo cada
palavra, mas seus **filhos**—Adrian, Aidan e o mais
novo—permaneceram impassíveis.
Não houve surpresa em seus olhares, nem hesitação.
**Eles já conheciam essa história.**
E, mais do que isso, conheciam o peso que vinha com ela.
Alaric continuou, mantendo a narrativa envolvente, mas sem
entregar verdades explícitas:
**—Dizem que, há séculos, algumas famílias chegaram a esta
ilha não apenas como exploradores, mas como guardiões.
Eram poucos, mas seus nomes jamais foram esquecidos, pois
suas promessas foram feitas sob juramento.**
Os olhos de Aísha se fixaram nele, cada palavra provocando
uma curiosidade inquietante dentro dela.
**—O curioso —** Alaric prosseguiu, **—é que essas
linhagens nunca realmente partiram. Elas permaneceram,
moldando discretamente o destino desta terra, esperando
que, um dia, o que foi prometido pudesse ser cumprido.**
Um silêncio breve pairou no ar, preenchendo cada espaço
invisível entre eles.
Era uma história—ou talvez mais do que isso.
Mas ninguém ali tinha certeza do quanto daquilo era
verdade.
Ou melhor, ninguém **além dos Noctheran**.
---
O silêncio que seguiu a história de Alaric Noctheran
pairou sobre a mesa por alguns instantes. A maior parte
dos convidados parecia absorver as palavras sem
questionar, aceitando a narrativa como parte das
peculiaridades da ilha.
Mas **Aísha** não era como os demais.
Ela inclinou-se levemente, os olhos atentos ao anfitrião,
e com um tom que misturava curiosidade genuína e análise,
perguntou:
**—E esse juramento? Ele ainda é respeitado?**
A pergunta ecoou entre os presentes, e mesmo sutil,
carregava uma força inesperada.
Alaric, que até então mantinha sua postura impenetrável,
desviou seu olhar para Aísha, observando-a com um
interesse novo.
Ela não havia apenas ouvido—havia **compreendido**.
**—Histórias antigas são como o mar —** respondeu ele,
tomando sua taça com calma. **—Elas sempre retornam, mesmo
quando pensamos que já se perderam nas ondas.**
Ele não deu uma resposta direta, mas o **modo** como disse
aquelas palavras fez com que Aísha sentisse algo
inexplicável—quase como se ele soubesse que, de alguma
forma, aquilo **importava para ela**.
Adrian permaneceu em silêncio ao lado dela, sem
interferir.
Mas dentro dele, sabia que aquela pergunta tinha **mais
impacto do que parecia**.
---
A noite se desenrolou entre mais conversas, até que o
jantar finalmente chegou ao fim. Os convidados começaram a
se despedir discretamente, e Aísha, ao lado de Adrian,
sentia que aquele encontro havia sido mais significativo
do que aparentava.
Foi então que, sem que precisasse perguntar, **Adrian** a
convidou para ir ao seu quarto.
O caminho foi tranquilo e, ao chegarem, o ambiente
proporcionava um respiro longe dos olhares atentos da
família Noctheran.
**—Você fez uma pergunta perigosa —** Adrian comentou,
fechando a porta atrás de si.
Aísha, recostando-se no sofá, sorriu de leve.
**—Quero entender.**
Ele a observou, sabendo que ela estava **perto da
verdade**, mesmo sem compreender o quão fundo aquela
história ia.
**—Nem tudo pode ser entendido tão facilmente —** ele
disse, olhando para frente.
**—Mas pode ser explicado? —** Aísha provocou, os olhos
atentos a qualquer resposta que ele estivesse disposto a
dar.
Adrian permaneceu em silêncio por alguns instantes e então
escolheu cuidadosamente suas palavras:
**—A ilha tem regras que poucos conhecem. E promessas que
nunca foram quebradas.**
Aísha absorveu aquilo, sabendo que ele **não entregaria
toda a verdade**, mas também percebendo que **ele nunca
negava completamente**.
A conversa entre eles seguiu, as palavras flutuando entre
pequenos segredos, provocações discretas e revelações
sutis.
E naquela noite, longe dos olhares atentos da ilha,
**Aísha e Adrian compartilhavam um momento apenas
deles—mas que carregava o peso de algo muito maior.**
No silêncio que precedeu o sono, Aísha ficou por alguns
instantes apenas **observando Adrian**.
Tentando entender **quem ele realmente era**.
E, mais do que isso…
**por que ele era assim**.
---
A manhã na ilha começou tranquila, com o sol suave
iluminando os caminhos e a brisa refrescante preenchendo o
ar.
Adrian saiu cedo para resolver seus compromissos de
trabalho, deixando Aísha com parte da manhã livre para si.
Ela escolheu tomar café na área aberta do resort, um
espaço arejado com vista para o mar, onde podia apreciar a
calma antes de decidir o que faria durante o dia.
Enquanto mexia distraidamente na xícara de café, seus
pensamentos ainda giravam em torno da noite anterior, da
história de Alaric, da forma como Adrian evitava certas
respostas.
Foi então que, sem aviso, **Vicente apareceu**.
Ele caminhou até sua mesa, sem hesitação.
Aísha ergueu os olhos, vendo-o se aproximar, e sua
expressão imediatamente se tornou tensa.
**—Vicente, não se aproxime.**
Suas palavras foram firmes, mas ele **ignorou**.
Com a postura sempre segura, Vicente **sentou-se diante
dela**, como se o aviso simplesmente não tivesse sido
dado.
Por um breve instante, os olhos deles se cruzaram,
carregados de algo não resolvido—um peso que ficou no ar
entre os dois.
Aísha sentiu seu coração acelerar levemente, não por
surpresa, mas pela certeza de que esse momento **era
inevitável**.
Vicente manteve o olhar fixo nela antes de dizer, com um
tom baixo, mas carregado de significado:
**—Achei que, mais cedo ou mais tarde, acabaríamos
conversando.**
O ar ao redor deles parecia ter se tornado mais denso.
E Aísha sabia que esse encontro era mais do que um café da
manhã casual.
**Era um acerto de contas sem aviso.**
**Capítulo 23**
A tensão pairava entre eles como uma tempestade prestes a
desabar.
Aísha sentia o peso do olhar de Vicente sobre ela e, por
um instante, seu coração acelerou—não de surpresa, mas por
saber que esse momento não podia mais ser evitado.
**—Temos que conversar.**
A voz dele era baixa, mas carregava uma firmeza que
dispensava qualquer tentativa de desvio.
Aísha manteve sua postura, sem recuar.
**—Vicente…**
Ele cruzou os braços, o olhar cortante.
**—Você não podia simplesmente desaparecer e agora querer
agir como se nada tivesse acontecido.**
A acusação veio direta. Vicente não media palavras.
Aísha, por sua vez, soltou um breve suspiro, como quem
reconhecia a verdade por trás daquelas palavras.
**—Eu concordo —** disse ela, finalmente quebrando a
barreira do silêncio. **—Mas essa conversa precisa ser em
particular.**
Vicente permaneceu imóvel por um segundo, mas então
assentiu, aceitando sem contestação.
Ela se levantou, e ele a seguiu. O caminho até o quarto de
Aísha foi silencioso, mas estava longe de ser vazio. Cada
passo carregava a tensão do que viria a seguir.
Quando finalmente entraram e a porta se fechou, o ar
parecia diferente—mais denso, como se **não houvesse mais
como evitar o que precisava ser dito**.
Os olhos de Vicente encontraram os de Aísha novamente, e
agora não havia mais distrações.
A conversa estava prestes a começar.
E, desta vez, **nenhum dos dois poderia fugir da
verdade**.
– - -
A tensão dentro do quarto era quase palpável.
Assim que a porta se fechou, Aísha não deu espaço para
silêncio, nem para hesitação—ela **não esperou Vicente
falar**.
**—Depois de tudo?**
Sua voz saiu firme, cortante.
**—Depois das coisas que você disse, depois de me deixar
esperando no bar a noite toda e não aparecer… como é que
você acha que tem o direito de vir aqui e questionar o
fato de eu ter viajado?**
Vicente manteve a postura, mas sua expressão não era
tranquila.
**Ele sabia** que aquelas palavras eram merecidas.
Ainda assim, seu olhar segurava algo—uma mistura de
urgência e insistência.
**—Aísha…**
Mas ela o interrompeu antes que ele tentasse suavizar.
**—Como você me encontrou?**
A pergunta veio carregada de algo maior do que apenas
curiosidade.
**—Ninguém sabia onde eu estava.**
Vicente passou a mão pela nuca, desviando o olhar
brevemente.
**—Eu tentei falar com você várias vezes.**
Aísha cruzou os braços.
**—E eu não respondi. Então como?**
Ele suspirou, então finalmente disse:
**—Depois de ligar pra você e não ter resposta, depois de
dias sem notícias… eu fui até o seu apartamento.**
Aísha manteve-se imóvel, apenas ouvindo.
**—E lá estava vazio.**
O peso daquela frase encheu o quarto por um instante.
**—E então, vi sua agenda aberta no balcão da cozinha… um
rabisco, um nome solto. O suficiente para eu te
encontrar.**
Ele **mentiu**.
Mas mentiu **de forma calculada**.
Porque a verdade era muito mais complicada do que ele
estava disposto a admitir.
Aísha não percebeu o deslize, mas sentiu que havia algo
estranho naquela explicação.
E então, Vicente jogou sua última carta:
**—O motivo de eu estar aqui, de fechar esse negócio no
resort…**
Ele hesitou por um segundo antes de concluir, com um tom
grave:
**—Foi pra te encontrar.**
**—Pra consertar tudo.**
**—Pra resolver o que existe entre nós.**
Aísha sentiu seu coração pulsar rápido, mas sua expressão
não mudou.
**Ela não sabia se acreditava.**
O clima dentro do quarto era tenso, carregado de palavras
não ditas e ressentimentos não resolvidos.
Vicente podia sentir a resistência de Aísha—o peso do que
aconteceu entre eles ainda pairava no ar, e ele sabia que
**não poderia simplesmente apagar tudo com algumas frases
bem escolhidas**.
**—Eu não sei se acredito em você.**
A voz dela saiu firme, mas havia algo mais profundo ali—um
tom que misturava mágoa e descrença.
**—Não depois de tudo.**
Ela cruzou os braços, mantendo o olhar firme em Vicente,
sem ceder.
**—Você disse que não deixaria sua mulher sozinha —** ela
frisou, sua voz carregada de intensidade. **—Mas você nem
sequer me avisou que não iria. A mim não importava ser
feita de besta, né?**
As palavras foram como lâminas afiadas—precisas, diretas,
impossíveis de ignorar.
Vicente, por um instante, permaneceu imóvel, absorvendo o
impacto daquelas frases. Ele **sabia** que ela tinha
razão.
**Sabia** que não poderia simplesmente apagar aquela noite
com explicações rasas.
Mas ele também **sabia como lidar com ela**.
Sem hesitar, ele se aproximou.
Seu corpo se movia com precisão calculada, cada passo
reduzindo a distância entre eles até que **Aísha sentiu
suas costas contra a parede**.
O olhar dele era intenso, carregado de algo mais profundo
do que simples palavras.
**—Você importa pra mim.**
A voz dele saiu baixa, envolvente, como quem não apenas
dizia, mas **convencia**.
**—O que a gente tem é único, Aísha. Você sabe disso.**
Ela sentiu sua respiração presa por um instante, mas se
manteve firme. Ainda assim, algo dentro dela reagia à
forma como Vicente sempre soube usar as palavras para
atravessar qualquer barreira.
E então, sem esperar por permissão, **ele a beijou**.
Não foi um beijo apressado, nem casual—foi algo mais
profundo, carregado do peso do passado e da intensidade do
presente.
E, naquele instante, tudo o que estava entre eles **se
tornou ainda mais complicado**.
---
### **O Momento e a Escolha**
A intensidade do momento ainda pairava no ar, mas Aísha,
em um impulso, **se afastou do beijo**.
Seu coração pulsava acelerado, não apenas pela
proximidade, mas pelo turbilhão de sentimentos que aquele
reencontro havia despertado.
Ela olhou para Vicente, e **ele a observou com atenção**,
como se tentasse decifrar o que aquele afastamento
realmente significava.
Havia algo diferente nela? Alguma mudança que ele
precisava entender?
Mas **Aísha não disse nada**.
Ela apenas se virou, **caminhando decididamente até a
porta**.
Foi um gesto claro—não precisava de palavras. Ele deveria
ir embora.
Mas Vicente **não se moveu**.
Ele permaneceu ali, sua expressão carregada de algo
indecifrável.
Ele **não queria sair**, e Aísha **sentia isso** mesmo sem
precisar olhar para ele novamente.
O clima entre eles ainda era denso, e ela sabia que essa
conversa **não estava concluída**.
Mesmo que ela **quisesse que estivesse**.
Ela estava com a mão na maçaneta quando ouviu seus passos.
Lentos.
Firmes.
O som ecoou como um trovão dentro dela.
Vicente se aproximou por trás e, antes que ela pudesse
reagir, segurou seu braço com delicadeza, mas firmeza
suficiente para impedi-la de abrir a porta.
**—Não termina assim —** ele disse, a voz rouca, baixa,
como se estivesse segurando o próprio desespero.
A respiração dela vacilou. Ela não se virou, mas também
não tentou soltar o braço.
**—Vicente…**
Seu nome escapou em um sussurro, quase um lamento.
**—Eu tentei ir embora —** ele continuou, mais próximo
agora, sua boca quase tocando a curva de seu pescoço.
**—Eu tentei esquecer você. Mas você sabe tão bem quanto
eu... que não dá mais.**
Aísha sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas não era
tristeza—era o acúmulo de tudo: medo, desejo, frustração,
saudade.
Então ele a virou suavemente.
E, quando seus olhares se encontraram de novo, **não havia
mais armaduras**.
Nenhuma defesa.
Apenas eles dois.
E o que sentiam.
Vicente a puxou para seus braços com uma intensidade crua
e a beijou novamente—mas, dessa vez, como se soubesse que
talvez não tivesse outra chance.
E ela correspondeu.
Não com hesitação, mas com entrega.
Os corpos se entendiam onde as palavras falhavam.
Ele a ergueu no colo, como se fosse frágil demais para
tocar o chão, e ela se agarrou a ele, como se soubesse
que, ao soltá-lo, tudo se perderia.
Caminharam até o quarto entre beijos urgentes e
respirações entrecortadas.
E, quando ele a deitou na cama, **não havia mais espaço
para dúvida**.
Ali, entre lençóis e silêncio, o desejo deixou de ser
proibido para se tornar inevitável.
O quarto estava silencioso, banhado pela luz dourada do
sol que começava a desaparecer no horizonte.
O dia chegava ao fim.
Mas **Aísha acabava de despertar**.
O primeiro pensamento que veio à mente de Aísha não foi
sobre descanso, nem sobre a tranquilidade daquela tarde.
Foi sobre **Vicente**.
Ao virar o rosto para o lado, seus olhos pousaram sobre
ele, ainda adormecido.
E então, um peso cresceu dentro dela—**não era surpresa,
não era incredulidade. Era algo mais profundo.**
Ela **sabia** que isso poderia acontecer.
Ela **sabia** que, de alguma forma, ceder a ele era um
padrão que sempre se repetia.
E agora, ali, com o sol indo embora e a realidade voltando
a se instalar, **tudo parecia mais complicado do que
antes**.
Sem hesitar, ela **se levantou**, afastando-se da cama e
do momento que ainda pairava no ar.
Com um toque firme no ombro de Vicente, **ela o acordou**.
Ele piscou algumas vezes, ainda saindo da névoa do sono,
até que percebeu o olhar de Aísha—**definido, decidido,
inquestionável**.
**—Você precisa ir.**
Vicente a observou, entendendo sem que ela precisasse
explicar.
Ele não discutiu.
Não argumentou.
Apenas **se levantou** e se vestiu, seu silêncio sendo
mais revelador do que qualquer palavra que poderia ser
dita naquele momento.
E então, **ele saiu**.
Quando a porta finalmente se fechou, **Aísha soltou um
suspiro profundo**, como quem tenta reorganizar os
próprios pensamentos.
Ela foi direto para o banheiro, deixando que a água quente
caísse sobre sua pele, tentando **lavar as dúvidas, as
escolhas, as sensações que ainda permaneciam**.
Mas **não era só sobre Vicente**.
Era sobre **Adrian**.
O que aconteceria agora?
Ela sabia que algo entre ela e Vicente **ainda existia**,
mas, ao mesmo tempo, **Adrian** ocupava uma parte dela que
não podia ser ignorada.
E, naquele instante, sob a água, perdida no tempo, **ela
se deu conta de que sua história na ilha estava longe de
ser simples**.
---
**O Som na Porta**
Depois do banho, Aísha permaneceu no quarto.
A noite ainda se desenrolava lá fora, mas ela **não quis
sair**—preferiu o silêncio, o tempo para si, para
reorganizar os próprios pensamentos.
O encontro com Vicente **a havia abalado**, mas ela ainda
não sabia ao certo **o que isso significava**.
Estava deitada na cama, perdida em pensamentos, quando um
som interrompeu sua solidão.
**Alguém bateu à porta.**
Ela franziu a testa levemente, sem saber quem poderia ser.
Com passos lentos, levantou-se e foi até a porta,
abrindo-a com certa hesitação.
**Era Adrian.**
Ele estava ali, sem aviso, sem razão aparente—mas seu
olhar demonstrava que **ele não apareceu por acaso**.
Sem esperar por um convite, **ele entrou no quarto**,
deixando claro que **não estava disposto a simplesmente ir
embora**.
Ele queria **conversar**.
E Aísha percebeu, no instante em que fechou a porta, que
**essa conversa poderia mudar tudo**.
A presença de **Adrian** no quarto de Aísha não era
casual, e ela sabia disso desde o instante em que ele
entrou.
Sem muitas palavras, Adrian se acomodou ao lado de Aísha
na cama.
Ambos **deitados**, os olhares **fixos no teto**, como se
ali estivessem procurando respostas que não encontravam
facilmente.
O silêncio se instalou por alguns segundos, mas não era
desconfortável—**era necessário**.
E então, **Adrian começou a falar**.
**—Sabe… eu nunca imaginei que diria isso, mas talvez você
devesse ficar.**
A frase veio calma, sem pressão, mas com um peso
implícito.
Aísha piscou algumas vezes, processando o que aquilo
significava.
**—Ficar?**
Adrian soltou um breve suspiro.
**—Aqui. Na ilha.**
Ele virou o rosto levemente para olhá-la, como se buscasse
alguma reação antes de continuar.
**—O resort precisa de gente qualificada. Você poderia
trabalhar no spa… como massagista, talvez até como
gerente.**
Aísha manteve o olhar no teto, sentindo a proposta ecoar
dentro dela.
**Ficar.**
Era uma possibilidade que ela não havia considerado
seriamente.
E talvez **Adrian estivesse dando mais motivos do que
apenas trabalho**.
Mas antes que a conversa fosse muito longe, **ela decidiu
abrir sua verdade**.
Virou o rosto, encontrando o olhar dele, e então **disse
com firmeza**:
**—Adrian… tem algo que você precisa saber.**
O olhar dele se intensificou, atento.
**—Eu não vim pra essa ilha por acaso.**
O silêncio carregou um novo peso.
**—Eu vim pra ficar longe de Vicente.**
Adrian não reagiu imediatamente, mas seus olhos se
tornaram mais cerrados, analisando as palavras dela com
precisão.
**—Nós éramos amantes.**
Ele permaneceu imóvel, absorvendo a revelação sem
interrompê-la.
**—E hoje, nós conversamos.**
Aísha disse **apenas isso**.
Ela **omitiu** o que mais havia acontecido entre eles.
Mas, naquele instante, **ela sabia** que aquela conversa
mudaria o curso das coisas.
---
### **A Explosão de Adrian – O Conflito Inevitável**
O quarto, que antes carregava um silêncio reflexivo,
**mudou completamente**.
A revelação de Aísha caiu sobre Adrian como uma lâmina
afiada—não era apenas a verdade sobre Vicente, era sobre
**algo que ele não esperava ouvir dela**.
A princípio, **ele permaneceu imóvel**, o olhar fixo no
teto, como se estivesse digerindo a informação sem
demonstrar reação imediata.
Mas então, **ele se sentou na cama**, os movimentos
precisos, carregados de tensão.
Seu rosto mantinha a **seriedade inquebrável**, mas **os
olhos revelavam algo mais**—algo que ia além da rigidez
que ele sempre demonstrava.
**—O contrato.**
A palavra veio cortante, sua voz **fria, firme**.
**—Esse acordo exigiu tempo, negociações. Eu alinhei cada
detalhe para que tudo fosse impecável.**
Ele **não levantou a voz**, mas havia um peso em cada
frase dita.
**—E você... você esteve o tempo todo fugindo de algo que
não conseguiu resolver?**
Aísha percebeu ali **o impacto real do que havia
confessado**.
Adrian **não era um homem impulsivo**.
Mas **não era cego**.
E agora, **ele queria respostas**.
**—Por que você quis se afastar dele?**
A pergunta veio direta, sem rodeios.
Aísha engoliu seco.
Não havia mais como voltar atrás.
**—Porque não era saudável.**
Ela respirou fundo antes de continuar.
**—Eu tentei terminar várias vezes. Mas nunca consegui.**
Adrian permaneceu em silêncio, analisando cada palavra.
**—Ele sempre ia atrás de mim.**
Adrian ainda **não desviava o olhar**, mas seu maxilar
estava tensionado—um sinal quase imperceptível de que
**aquilo o afetava muito mais do que ele gostaria de
admitir**.
**—E você sempre cedia.**
**Não foi uma pergunta.**
Foi **uma afirmação**.
**Uma acusação.**
O coração de Aísha disparou **porque ele estava certo**.
E, naquele instante, **ela percebeu que Adrian não era
apenas um observador daquela história**.
Ele **se envolveu nela, sem perceber**.
E agora, **ele estava prestes a decidir o que faria com
essa verdade**.
O silêncio no quarto era quase sufocante.
A revelação de Aísha havia mudado tudo, e Adrian **não
estava disposto a ignorar**.
Seus olhos estavam fixos nela, carregados de algo
profundo—**não era raiva impulsiva, não era julgamento
precipitado. Era uma cobrança real, um pedido por
clareza**.
E então, ele falou.
**—Aísha, o que exatamente você pretende fazer agora?**
A pergunta veio sem rodeios, sem suavizações.
Aísha engoliu seco.
**—Adrian…**
**—Você viveu algo comigo nestes dias.**
**—E esteve vivendo outra coisa com ele.**
Ela desviou o olhar por um instante, sentindo o peso das
palavras dele.
**—Vai continuar dividindo um homem que nunca vai ser só
seu?**
O tom era firme, mas não cruel.
**Era um chamado para que ela olhasse para sua própria
realidade.**
**—Foi isso que você aceitou esse tempo todo?**
Aísha sentiu a pressão daquele questionamento dentro
dela—porque **ela sabia que ele estava certo**.
Adrian **não era um homem que se permitia sentir com
facilidade**.
E agora, **ele sentia**.
Sentia algo por ela que **não poderia ser ignorado**.
E **não queria ser apenas um substituto**.
O quarto, que antes parecia seguro, agora **se tornava uma
arena de verdades**.
E Aísha **tinha que decidir o que faria com isso**.
Aqui está seu texto revisado, aprimorando o impacto
emocional e a fluidez narrativa:
Quando Adrian saiu do quarto de Aísha, ele **não olhou
para trás**.
Ele simplesmente **saiu**, como se precisasse de ar, de
espaço, de qualquer coisa que o ajudasse a **processar** o
que estava acontecendo.
Mas a verdade era que **nada fazia sentido**.
**A mesma história.**
**A mesma repetição.**
Como se tudo já estivesse **predestinado**, como se as
lendas que sempre existiram na ilha **agora fossem
reais**—e ele estivesse bem no meio delas.
Ele passou pelo corredor do resort sem sequer notar os
olhares casuais dos funcionários ou hóspedes.
Seu corpo estava ali, mas **sua mente estava distante**.
A história de sua família.
O passado que sempre o perseguia.
E agora…
**Aísha.**
O nome dela ecoava dentro dele, como uma constante.
Ele **nunca** deveria ter se permitido sentir algo por
ela.
E agora, **não conseguia simplesmente ignorar**.
O olhar dela quando falou sobre Vicente, o tom da sua voz
ao expor verdades que ele **não queria ouvir**.
E, acima de tudo, **a dúvida**.
O que ela **queria**?
O que ela **sentia**?
E, pior…
**onde ele se encaixava nisso tudo?**
Enquanto Adrian lutava contra seus próprios demônios,
**Aísha sentia seu peito pesado com o que havia acabado de
acontecer**.
Ela não queria ficar no quarto, não queria se afundar em
um ciclo de pensamentos solitários.
Por isso, foi até a casa de **Isla**.
A professora, que agora **era mais do que isso—uma
amiga**, percebeu o estado de Aísha assim que abriu a
porta.
Sem precisar de explicações imediatas, Isla a deixou
entrar, guiando-a até o sofá.
**—O que aconteceu?**
Aísha soltou um suspiro pesado, como quem carregava muito
mais do que deveria.
**—Tudo.**
E então **ela contou**.
Falou sobre Vicente, sobre Adrian, sobre o que sentia e
sobre **o que não sabia como sentir**.
Isla ouviu tudo com atenção, sem julgamentos, apenas
**oferecendo conforto**.
E, depois de tanto falar, **Aísha adormeceu sob os
cuidados de Isla**, sua mente ainda carregada de emoções
não resolvidas.
---
*O Último Dia na Ilha*
Os dias passaram, e tudo parecia ter voltado ao normal.
**Aísha evitou o assunto**, não mencionou Vicente, não
falou sobre Adrian—ela simplesmente seguiu, como se nada
tivesse acontecido.
Adrian, por sua vez, **estava longe da ilha**, tratando de
negócios.
Sua ausência parecia trazer um certo alívio para Aísha,
mas também deixava algo incompleto, pendente, à espera de
resolução.
No último dia dela na ilha, **ele voltou**.
Sem hesitação, ele se aproximou e disse, como se toda a
tensão anterior jamais tivesse acontecido:
**—Você não pode ir embora sem uma despedida.**
A proposta veio simples e direta—**o luau na praia**.
E **ela aceitou**.
Isla também estaria presente, acompanhada de **Aidan**, o
irmão mais velho de Adrian, e **Axel**, o mais novo.
Enquanto todos se preparavam para a noite, **algo
acontecia longe dali**—Camila, a esposa de Vicente,
**vinha para a ilha**.
Sem que ninguém soubesse, **ela planejava uma surpresa**,
um dia especial para o marido, seguido de outra viagem
juntos.
O cenário estava armado.
E então, **o luau aconteceu**.
O clima era descontraído, risadas ecoavam entre o som das
ondas, as luzes naturais do fogo iluminavam a areia, e
**por um instante**, Aísha se permitiu relaxar.
Até que **Vicente apareceu**.
Os olhos dele encontraram os dela, e **o clima mudou**—uma
tensão invisível que apenas **Adrian percebeu
imediatamente**.
A noite que deveria ser leve **começava a se tornar algo
mais denso**.
Mas antes que qualquer palavra fosse dita…
**Camila apareceu.**
A surpresa foi **imediata**, carregada de impacto.
Todos se calaram.
O rosto de Vicente perdeu a firmeza habitual.
E então, **Aísha explodiu.**
**—Você realmente veio aqui pra me reconquistar e trouxe
sua mulher?**
A frase cortou o ar, **atingiu Vicente em cheio**, e o
choque percorreu todos ao redor.
Camila **não entendeu**—seu olhar era confuso, tentando
encontrar sentido no que estava acontecendo.
E então, sem hesitar, **Aísha contou tudo**.
A verdade.
O caso.
O que eles viveram.
O que **Vicente tentou esconder**.
O luau **se transformou em um palco de revelações**.
E ninguém ali sairia ileso daquela noite.
O Desmoronamento – Verdades e Manipulações
O impacto da revelação de Aísha se espalhou pelo luau como
fogo em palha seca.
O silêncio que seguiu **não era de compreensão**, mas de
puro choque.
Camila, que até então apenas tentava entender o que estava
acontecendo, **finalmente reagiu**.
**—O que você quer dizer com ‘ele veio pra te
reconquistar’?**
A pergunta não era carregada de raiva—**era incredulidade
absoluta**.
Ela olhou para Vicente, buscando alguma confirmação,
alguma explicação.
**—Vicente veio pra fechar negócio —** Camila afirmou,
como quem **não quer aceitar outra verdade**.
**—Isso não tem nada a ver com você, Aísha.**
E ali, no meio daquela confusão, **a questão real
surgiu**.
**Quem estava sendo enganado?**
**Quem estava mentindo?**
Os olhos de Aísha se fixaram em Vicente, buscando uma
resposta que ele **não podia mais esconder**.
Mas antes que pudesse reagir, **seu corpo cedeu ao
choque**.
O turbilhão de emoções, a exaustão do momento, o peso de
tudo—**ela desmaiou**.
O clima, que já era tenso, **se tornou caótico**.
Vicente **se apressou para controlá-la**, segurando Aísha
antes que seu corpo tocasse o chão.
Camila **o observou**, e naquele instante, **tudo fez
sentido para ela**.
O instinto de Vicente **não era apenas um reflexo de
preocupação**.
Era algo **mais profundo**.
E foi ali, diante de todos, que **ela finalmente viu o que
estava acontecendo**.
O luau, que deveria ser uma noite tranquila, havia se
transformado em um verdadeiro campo de batalha emocional.
Camila, finalmente compreendendo a traição de Vicente,
**não se conteve**.
**—Você mentiu pra mim?**
A voz dela saiu firme, exigindo respostas.
**—O que essa mulher realmente significa pra você?**
Vicente tentou manter a calma, mas **sabia** que aquela
situação **era incontrolável**.
Antes que ele pudesse responder, **Adrian interveio**.
Seu tom **não deixava espaço para discussão**.
**—Se afaste de Aísha.**
Vicente hesitou, mas **Adrian não repetiu**—o aviso **já
estava dado**.
Sem esperar, **Adrian pegou Aísha no colo**, sua postura
rígida, demonstrando o controle que ele precisava ter
sobre a situação.
Com o auxílio de seus irmãos, **ele a apoiou em uma
cadeira**, tentando fazê-la recobrar a consciência.
Enquanto isso, **Camila e Vicente continuavam
discutindo**.
A verdade **não podia mais ser escondida**, e Camila
exigia explicações que Vicente **não sabia como dar**.
Até que, finalmente, **Aísha acordou**.
Seus olhos piscaram algumas vezes e então **encontraram os
de Adrian**.
Ele manteve sua seriedade habitual, mas **seu olhar dizia
muito mais**—havia uma preocupação ali que ele nunca
expressaria em palavras.
Sem hesitar, **ele subiu com ela para seu quarto**,
deixando o caos do luau para trás.
Antes de se afastar dos irmãos, **ele fez um pedido**:
**—Não deixem nosso pai saber disso.**
Aidan e Axel assentiram sem questionar.
Adrian **não precisava explicar**—eles **sabiam** que a
família Noctheran **não poderia estar envolvida** em um
escândalo como esse.
Enquanto **Camila e Vicente também se ausentavam da
praia**, Adrian fechava a porta do quarto, observando
Aísha por um instante.
Era impossível negar: **essa história ainda estava longe
do fim**.
A tensão ainda pairava no ar quando Adrian fechou a porta
do quarto.
O som abafado das ondas do mar e do distante luau
continuava lá fora, mas **a tempestade real estava dentro
daquele cômodo**.
Aísha, sentada na beira da cama, ainda se recuperava do
choque.
Seu corpo estava ali, mas **sua mente estava em mil
lugares ao mesmo tempo**.
Adrian permaneceu próximo, observando-a por um instante
antes de finalmente quebrar o silêncio.
**—Como fica tudo depois disso?**
A pergunta veio sem rodeios, **madura, direta**.
Não havia mais espaço para dúvidas ou para desviar do
assunto.
Aísha soltou um suspiro profundo, passando a mão pelo
rosto, como se estivesse tentando reorganizar os próprios
pensamentos.
**—Eu não sei.**
A resposta foi honesta, crua.
Adrian cruzou os braços, mantendo sua postura firme, **sem
demonstrar qualquer sentimento além da análise
cuidadosa**.
**—Não sabe?**
Aísha olhou para ele, e naquele instante **percebeu que
Adrian não estava apenas perguntando—ele estava cobrando
uma decisão**.
Ele **não era um homem que aceitava incertezas**.
E agora, **ela sabia que precisava dar uma resposta**.
Mas antes que conseguisse formar uma frase completa, **ele
falou novamente**.
**—Vicente é passado, ou ele ainda tem espaço na sua
vida?**
A pergunta **atingiu** Aísha em cheio.
Porque **essa era a questão real**.
Adrian **não ia aceitar dividir espaço com alguém que ela
não conseguia abandonar**.
A verdade **precisava ser dita ali e agora**.
A noite passou sem mais discussões.
Depois da conversa intensa, Aísha e Adrian **simplesmente
dormiram**, cada um mergulhado em seus próprios
pensamentos, no peso do que viria a seguir.
Na manhã seguinte, Adrian, como sempre **reservado, mas
atento**, se ofereceu para **levá-la ao aeroporto**.
O trajeto foi silencioso, mas **não vazio**.
Havia algo ali—uma dúvida no ar, uma expectativa velada.
Quando finalmente chegaram, Adrian parou o carro e
permaneceu ali por um instante, observando-a, como se
**esperasse algo diferente**.
Aísha, por sua vez, **não prometeu nada**.
Ela apenas respirou fundo e **repetiu o que já havia dito
na noite anterior**:
**—Ainda preciso decidir.**
Adrian assentiu, sem pressioná-la, mas **não disfarçou a
esperança** que pairava entre eles.
Então, sem hesitar, **ela entrou no aeroporto**.
E **não voltou**.
Adrian **permaneceu parado**, os olhos fixos na entrada
como quem esperava por uma reviravolta.
Mas a realidade **era essa**.
**Ela foi embora.**
Mas a pergunta que ficava era: **por quanto tempo?**
**O Presságio da Senhorinha**
Aísha caminhava pelo corredor do aeroporto, os passos
firmes, a mente ainda lutando para processar tudo o que
havia acontecido na ilha.
**Ela estava indo embora**.
Mas então, **algo mudou**.
Uma figura apareceu em seu campo de visão—**uma senhorinha
de olhos profundos, envolta em uma aura de mistério**,
como se pertencesse a um tempo diferente.
Aísha **sentiu algo estranho**.
Não a reconhecia, mas ao mesmo tempo… **havia algo
familiar nela**.
Antes que pudesse ignorar aquela sensação, **a mulher
falou**.
**—Você voltará para a ilha.**
Aísha franziu a testa, sem entender.
**—Mas não do jeito que imagina.**
O tom da mulher era calmo, mas carregado de algo
**inevitável**, como quem não apenas prevê, mas **sabe**.
**—Vocês dois são parte de algo maior. As lendas já foram
escritas. E o destino… já decidiu.**
Aísha sentiu um arrepio percorrer sua pele.
Mas antes que pudesse reagir, antes que tivesse tempo de
questionar…
**a mulher já não estava mais ali**.
O corredor parecia **mais vazio**, mais longo do que
antes.
E então, sem outra escolha, **ela entrou no avião e foi
embora**.
**O Encontro de Adrian com o Historiador**
Enquanto isso, Adrian já estava **de volta à ilha**.
O caos do luau havia passado, mas **a inquietação dentro
dele ainda existia**.
Foi então que Adrian encontrou **o historiador**, um homem
que há tempos estudava as profundezas e os mistérios da
ilha.
Sem rodeios, **ele trouxe um novo alerta**.
**—A história sempre se repete.**
Adrian manteve o olhar fixo, tentando entender o que
aquilo realmente significava.
**—Os sinais estão por toda parte. Você pode não querer
acreditar… mas já está acontecendo.**
Adrian, que sempre tratava as lendas com ceticismo, **pela
primeira vez sentiu algo diferente**—um desconforto, uma
dúvida.
Ele não disse nada.
Mas sabia que aquela conversa não terminaria ali
**A Passagem do Tempo – Duas Semanas Depois**
Aísha voltou para sua cidade, sua vida, sua rotina.
Os dias passaram.
Ela retomou seu trabalho, reencontrou seus amigos,
**seguiu como se tudo estivesse normal**.
Mas havia algo diferente.
A ilha **a chamava**.
Não em palavras, não em convites.
Mas nas lembranças.
Aqui está seu texto revisado, mantendo a intensidade e a
fluidez narrativa:
---
## **Capítulo 24**
### **A Revelação Inesperada**
Aísha seguia sua rotina normalmente, mergulhada no
trabalho, sem pensar muito no que havia deixado para trás.
Mas durante um almoço casual, em meio a uma conversa sobre
saúde com uma amiga, **algo despertou sua atenção**.
**—Preciso marcar uma consulta. Minhas regras estão
completamente desreguladas —** a amiga comentou
casualmente.
E foi nesse momento que **Aísha congelou**.
Desde que voltou da ilha, **as dela também não haviam
descido**.
A conversa continuava, mas ela **não conseguia mais
ouvir**—o mundo ao seu redor parecia abafado, distante.
O choque veio de forma lenta, mas avassaladora.
A inquietação cresceu dentro dela e, **sem hesitar, assim
que terminou o almoço, foi direto à farmácia**.
Comprou o teste.
Entrou no banheiro.
Fez o exame.
Esperou.
E então…
**positivo.**
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
**Ela estava grávida.**
Mas a verdade que a atingiu **foi ainda pior**—ela **não
tinha certeza de quem poderia ser o pai**.
A confusão dominou seus pensamentos.
Vicente.
Adrian.
**O que isso significava?**
Sem saber o que fazer, sem conseguir raciocinar com
clareza, **ela apenas ficou ali, sentada, encarando aquele
resultado que mudava tudo**.
Aísha ainda sentia o peso do resultado positivo do teste
em suas mãos. Seu coração batia acelerado, sua mente
girava em milhares de direções ao mesmo tempo.
Ela **precisava de apoio**, alguém que a ajudasse a pensar
com clareza.
Sem hesitar, procurou **sua amiga mais próxima**, contando
tudo em meio a palavras atropeladas e nervosas.
A amiga **a ouviu com calma**, absorvendo cada detalhe
antes de finalmente lhe dar um conselho direto:
**—Você precisa ir ao médico. Fazer um ultrassom. Isso vai
te dar uma ideia do tempo de gestação… e talvez te ajude a
entender quem pode ser o pai.**
Aísha assentiu.
Ela não podia mais adiar.
No dia seguinte, já com o nervosismo tomando conta, **ela
foi ao consultório médico**.
O ambiente era tranquilo, as paredes em tons suaves, mas
para ela **tudo parecia distante**, como se estivesse
apenas atravessando aquela situação sem realmente
acreditar que aquilo estava acontecendo.
Quando finalmente chegou sua vez, **se deitou na maca**, o
tecido frio da roupa de exame sobre sua pele aumentando a
sensação de vulnerabilidade.
O médico era experiente, tranquilo, transmitindo uma
segurança que **Aísha desesperadamente precisava sentir**.
**—Vamos ver como está tudo por aqui —** ele disse,
enquanto preparava o equipamento para iniciar o ultrassom.
O som do gel sendo aplicado sobre sua pele a fez arrepiar
levemente, mais por nervosismo do que pelo frio.
E então, a imagem apareceu na tela.
Pequena. Ainda indefinida.
Mas **real**.
O médico sorriu levemente, o olhar cuidadoso enquanto
analisava a imagem com precisão.
**—Aísha, sua gestação está por volta de…**
Ela prendeu a respiração.
**—Seis semanas.**
O choque percorreu cada parte dela.
Seis semanas.
Seis semanas…
**desde quando?**
Seu cérebro trabalhou rápido, reconectando datas,
momentos, relembrando **o que havia acontecido há exatas
seis semanas**.
E ali, naquele instante, **ela soube**.
**Ela sabia quem era o pai do bebê.**
O tempo passou.
Dias, semanas, meses.
Desde que descobriu a gravidez, **Aísha seguiu com a vida
normalmente**.
Ela manteve seu trabalho, continuou com sua rotina, **mas
nunca disse a ninguém sobre sua gravidez**.
Era uma decisão que **sempre adiava**, mas que **não podia
evitar para sempre**.
Agora, **quatro meses depois**, o momento havia chegado.
Ela sabia que precisava contar.
E, mais do que isso, **precisava enfrentar tudo o que
viria depois**.
Antes de tomar qualquer atitude, **Aísha se preparou
psicologicamente**.
Conversou com sua amiga mais próxima, pediu apoio, e **não
recebeu hesitação**.
**—Estarei com você em todos os momentos.**
Era tudo que ela precisava ouvir.
Então, **ela entrou em contato com Isla**.
A professora, que há tempos se tornara uma amiga, recebeu
a notícia com alegria genuína.
Aqui está seu texto revisado, aprimorando a fluidez e o
impacto emocional:
---
### **O Próximo Passo – A Verdade Irreversível**
**—Que notícia maravilhosa, Aísha!**
Isla desejou **felicitações, saúde para o bebê**, e deixou
claro que estaria ali sempre que Aísha precisasse.
Mas a revelação **não pararia por aí**.
Porque agora, **o próximo passo seria muito maior**.
---
### **Vicente**
Nos últimos quatro meses, Vicente **tentou seguir sua vida
com Camila**, evitando qualquer escândalo e mantendo a
fachada de estabilidade.
Mas algo dentro dele **não estava certo**.
Seu casamento **não era o mesmo**, e as marcas do passado
**ainda estavam ali, escondidas sob o silêncio que ele
mantinha**.
Por mais que tentasse se convencer de que seguir em frente
era o melhor, **algo nele ainda o puxava para Aísha**.
E ele sabia que, cedo ou tarde, **precisaria enfrentar
essa verdade**.
**Adrian**
Enquanto isso, Adrian **voltou para seus negócios, sua
rotina, sua vida na ilha**.
Ele manteve sua postura rígida, calculista, reservado como
sempre.
Mas a ausência de Aísha **era uma presença constante**—o
que ele não dizia, o que não admitia, o que tentava
ignorar.
O trabalho continuava, as responsabilidades seguiam, mas
**ele sentia que havia algo inacabado**.
E agora, **sem saber**, ele estava prestes a descobrir o
que era.
O tempo de esconder a verdade havia acabado.
**Cinco meses de gestação.**
A barriga já **não podia ser disfarçada**, e logo viriam
perguntas, suposições.
Era hora de **enfrentar tudo**.
Foi por isso que **Aísha se programou**.
Tomou coragem. Pegou um avião.
E voltou para **o lugar que mudou tudo**.
O momento em que pisou na ilha foi **como atravessar um
portal do passado e do futuro ao mesmo tempo**.
Era como se **ela nunca tivesse partido**, e ao mesmo
tempo, **tudo estivesse diferente**.
O ar, o cheiro do mar, **as lembranças**—tudo pulsava com
uma intensidade quase sobrenatural.
E então, **ela se lembrou das palavras da senhorinha**.
**—Você voltará para a ilha... Mas não do jeito que
imagina.**
A emoção a atingiu em cheio.
Mas agora, **ela não estava ali apenas por si
mesma**—havia uma nova vida dentro dela.
E **esse destino já estava traçado**.
O primeiro lugar que procurou foi **a casa de Isla**.
Quando a professora abriu a porta e viu **Aísha diante
dela**, o choque foi imediato.
**—Você voltou!**
E então, quando seus olhos pousaram sobre **a barriguinha
evidente**, sua expressão se transformou em **pura
alegria**.
**—Meu Deus! Aísha, você está grávida!**
Elas se abraçaram, e Aísha finalmente **sentiu que podia
respirar novamente**.
Mas Aísha **tinha uma pergunta**.
**—E sua relação com Aidan?**
Aísha sentia que **Isla ainda mantinha contato com o irmão
mais velho de Adrian**.
Então, sem hesitar, **ela pediu ajuda**.
Aidan, sempre observador e inteligente, percebeu a
seriedade do pedido de Aísha.
Ele **arranjou uma maneira** de levar **ela até Adrian**,
sem que o irmão soubesse de antemão.
Quando Adrian recebeu a mensagem sobre **o local
marcado**, ele estranhou.
Mas não questionou.
Simplesmente **foi**.
E então, quando Aísha finalmente **o viu de longe**, seu
coração **disparou**.
A sensação era **exatamente a mesma** da primeira vez que
esteve com ele.
Mas desta vez...
**era ainda mais intensa.**
Com passos firmes, **ela se aproximou por trás**.
E então, **disse**:
**— Eu sempre soube que voltaria aqui… Só não imaginava
que traria muito mais do que a minha presença.**
Adrian **virou-se**.
O choque em seu rosto foi **imediato**—surpresa,
incredulidade, e algo mais profundo que **ele não
conseguia disfarçar**.
Seus olhos brilharam, mas **carregavam milhares de
interrogações**.
Antes que ele tivesse tempo para perguntar qualquer coisa,
**Aísha falou primeiro**.
**— Os momentos mágicos que tivemos… A magia da ilha… Quis
que ficasse eternizado.**
Ela **respirou fundo**.
E então, **revelou a verdade**.
**— Estou grávida, Adrian. Estou esperando um filho seu.**