MÓDULO VI
Origens
Freud não estudou crianças diretamente: Ele criou suas ideias a partir de suas
análises de adultos.
A ideia de sexualidade infantil: Freud acreditava que as crianças também
tinham desejos e sentimentos, algo que as pessoas não aceitavam na época.
O caso do pequeno Hans: Freud pediu a amigos que observassem seus filhos
e relatassem suas experiências. Um desses amigos, Max Graf, relatou o caso
de seu filho Hans.
Os encontros com Freud: Max Graf e outros pensadores se reuniam com Freud
em encontros semanais, chamados de "Sociedade Psicológica das Quartas-
Feiras".
Análise de Hans: Max Graf começou a analisar seu filho com a supervisão de
Freud. Hans desenvolveu uma fobia de cavalos, e Freud acreditava que isso
estava relacionado a seus sentimentos em relação ao pai.
Cura da fobia: Com a ajuda de Freud, Hans superou sua fobia. Mesmo assim,
Freud ainda achava que a psicanálise não funcionava tão bem com crianças
porque elas ainda estavam formando seus relacionamentos com os pais.
Primeiro tratamento psicanalítico de uma criança: O caso de Hans foi o
primeiro relato de uma análise infantil, e Freud o usou como prova de que as
crianças também têm uma vida sexual.
Hermine Hug-Hellmuth
Primeira a psicanalista de crianças: Hermine foi a primeira a praticar
psicanálise com crianças. Ela observava as crianças brincando e usava jogos e
desenhos para ajudá-las a lidar com situações difíceis.
Anna Freud
Filha de Freud: Anna foi a sexta e última filha de Freud, e começou a se
interessar pela psicanálise em 1913.
Contribuições para a análise infantil: Anna Freud fez muitas observações sobre
o comportamento infantil e como os brinquedos mudavam conforme o
desenvolvimento das crianças. Ela acreditava que o analista também precisava
ser um educador.
Diferenças entre crianças e adultos: Anna notou que as crianças não entendem
seus problemas da mesma forma que os adultos, por isso precisam ser
convencidas de que precisam de ajuda. Além disso, como estão ligadas aos
pais, é difícil para elas transferir esses sentimentos para o analista.
Papel dos pais: Anna defendia que os pais precisavam participar do processo
de análise, pois os problemas das crianças muitas vezes estavam relacionados
aos conflitos dos pais.
Linhas do desenvolvimento: Anna Freud introduziu a ideia de que, observando
o comportamento de uma criança, é possível entender seu mundo interno e
deduzir como ela está se desenvolvendo.
Exemplo de fobia de Hans: Hans tinha medo de cavalos, mas Freud acreditava
que o medo era, na verdade, um reflexo de seus sentimentos em relação ao
pai. Quando Hans entendeu essa ligação, ele foi capaz de superar seu medo.
Essa versão mantém os conceitos principais, mas tenta explicar de forma mais
clara e direta, com exemplos para facilitar a compreensão.
Melanie Klein
Melanie Klein foi uma psicanalista que nasceu em Viena, em 1882. Ela se
interessou pela psicanálise depois de ler um texto de Freud sobre os sonhos e
começou sua própria análise com Ferenczi em 1914, que a incentivou a
estudar crianças.
Ela teve três filhos (Melitta, Hans e Erich) e analisou os três, mesmo
enfrentando críticas, especialmente em 1919, quando apresentou um caso
clínico sobre a análise de seu filho Erich (chamado de Fritz no estudo).
Klein acreditava que a fantasia moldava a realidade das crianças, ou seja, o
que elas imaginavam afetava como percebiam o mundo. Ela discordava de
Anna Freud e em 1927, em Londres, apresentou suas ideias sobre o "conflito
edípico" (a famosa ideia de Freud sobre o desejo da criança pelo pai ou pela
mãe). Segundo Klein, esse conflito começava muito mais cedo do que Freud
acreditava, por volta dos seis meses de idade. Essa ideia ganhou muitos
seguidores.
Ela também desenvolveu dois conceitos importantes em 1934: "posição
esquizoparanóide" e "posição depressiva", que falam sobre como o bebê
organiza suas primeiras experiências emocionais e relacionamentos. Para
Klein, essas posições (ou maneiras de se relacionar com o mundo) começam
logo no nascimento, especialmente na relação da criança com a mãe.
Um ponto chave da abordagem de Klein é que o brincar das crianças é uma
forma de expressar suas fantasias e desejos inconscientes. Quando uma
criança brinca, ela está, simbolicamente, revelando o que se passa dentro dela,
assim como os adultos fazem ao falar de seus sonhos e associações livres em
terapia. Ela mostrou que é possível entender as crianças a partir do que elas
expressam enquanto brincam, usando essa técnica para analisá-las.
Um exemplo: se uma criança está constantemente "lutando" com seus
brinquedos, isso pode refletir seus sentimentos de conflito interno ou com
figuras de autoridade. Klein viu o brincar como uma porta para o mundo
emocional e inconsciente da criança, assim como as associações livres são
usadas na análise de adultos.
As Grandes Controvérsias (Disputas Importantes)
Entre 1933 e 1939, a Sociedade Britânica de Psicanálise recebeu muitos
psicanalistas que fugiram da Europa.
Em 1938, Anna Freud (filha de Freud) e Melanie Klein passaram a trabalhar no
mesmo espaço.
De 1941 a 1945, houve muitas discussões sobre como formar novos
psicanalistas e quais teorias deveriam seguir. Isso criou uma oposição entre os
seguidores de Anna Freud (os "annafreudianos") e os de Melanie Klein (os
"kleinianos").
Freudismo Clássico (Visão Tradicional de Freud)
Freud colocava ênfase no papel do pai e no "Complexo de Édipo" (a ideia de
que a criança sente desejo pelo pai ou mãe).
Ele estudava principalmente as defesas psicológicas das crianças e suas
neuroses (como elas lidavam com traumas e ansiedades).
Na visão de Freud, a psicanálise de crianças era muito ligada à educação. Ele
baseava suas ideias nos textos que escreveu entre 1900 e 1915.
Klein (Visão de Melanie Klein)
Melanie Klein focava mais na relação da criança com a mãe, especialmente
nos primeiros estágios de vida, antes mesmo de o Complexo de Édipo
acontecer.
Ela estudava como crianças muito pequenas lidavam com traumas e
sentimentos primitivos, como a relação com a figura materna.
Enquanto Freud falava da "pulsão de vida" (energia vital), Klein introduziu a
"pulsão de morte" (o desejo inconsciente de destruição).
Transferência Negativa (Quando a Criança Reage Com Sentimentos
Negativos ao Analista)
Anna Freud: Ela acreditava que era melhor evitar estimular os sentimentos de
ódio da criança. Ao invés disso, o analista deveria criar uma relação de
amizade com a criança, usando métodos educativos para ajudá-la.
Melanie Klein: Já Klein achava que era importante deixar a criança expressar
seu ódio em relação ao analista. Para ela, o analista deveria analisar tanto os
sentimentos de amor quanto os de ódio da criança, desde cedo, porque esses
sentimentos estão conectados à maneira como a criança vê seus pais e
irmãos.
Exemplo: Se uma criança sentir raiva do analista (transferência negativa), Anna
Freud tentaria contornar esse sentimento, enquanto Melanie Klein diria que é
importante falar sobre essa raiva e o que ela representa.
Neurose de Transferência (Quando a Criança Transfere Sentimentos
Inconscientes para o Analista)
Anna Freud acreditava que as crianças não podiam desenvolver essa neurose
de transferência, porque ainda estavam muito ligadas aos pais.
Para Klein, as crianças podem sim ter essa neurose de transferência, pois elas
já têm relações edipianas (como ciúmes e competição entre os pais) desde o
nascimento. Ao analisar esses sentimentos, é possível ajudar a criança a se
libertar de suas ansiedades.
Exemplo: Quando uma criança começa a ver o analista como se ele fosse uma
figura paterna ou materna, isso pode ser analisado para entender melhor seus
medos e ansiedades.
Presença dos Pais
Para Klein, os pais nem sempre ajudam no processo de análise, e às vezes,
quando a análise começa a funcionar, eles podem tirar a criança do tratamento.
Klein achava que o psicanalista deveria fazer o trabalho sem depender muito
dos pais, pois eles podem, sem perceber, atrapalhar o progresso da criança.
Superego Precoce (Parte da Personalidade que Controla o Certo e o
Errado)
Anna achava que era importante fortalecer o superego da criança, ou seja,
ajudar a criança a ter uma ideia clara do que é certo ou errado.
Melanie pensava de forma diferente. Ela queria "acalmar" o superego da
criança, ajudando-a a lidar com sentimentos inconscientes de culpa. Segundo
Klein, todas as crianças podem se beneficiar da análise, pois todas têm
ansiedades e sentimento de culpa em relação às suas primeiras relações
(como com a mãe).
Exemplo: Uma criança que se sente muito culpada por pequenos erros pode
ser ajudada a entender que essa culpa vem de medos ou inseguranças mais
profundas, que o psicanalista pode ajudar a resolver.
Essas são as principais diferenças entre as ideias de Anna Freud e Melanie
Klein, que geraram grandes discussões dentro da psicanálise.
Diferenças entre Freud e Klein
Ao trabalhar com adultos, Freud buscava entender as experiências da infância
através de suas lembranças e sintomas.
Já Klein estudava diretamente as crianças, focando no que elas vivenciavam
quando ainda eram bebês.
Freud
A psicanálise de Freud era centrada no conflito, onde desejos e emoções
reprimidos voltam à consciência na forma de sintomas neuróticos. Freud falava
sobre impulsos que nos levam a buscar prazer ou evitar dor. Para ele, os
objetos (pessoas ou coisas que amamos ou odiamos) eram únicos.
Klein
Klein também acreditava nos impulsos, mas via esses impulsos de forma
relacional, ou seja, sempre em relação com outras pessoas, especialmente
com a mãe. Ela focava em angústias mais primitivas, que aconteciam antes de
a criança passar pelo Complexo de Édipo. Essas angústias envolvem medos e
desejos mais antigos, relacionados a sentimentos de amor e ódio.
Exemplo: Para Freud, um adulto com fobia poderia estar reprimindo um desejo
sexual da infância. Para Klein, uma criança que morde ou bate na mãe pode
estar lidando com sentimentos inconscientes de amor e raiva misturados.
Brincar para Melanie Klein
Quando as crianças têm dificuldade de falar sobre seus sentimentos, elas
podem usar o brincar para expressar o que está no inconsciente.
Cada brinquedo ou gesto que a criança faz enquanto brinca tem um significado
simbólico. Por exemplo, se uma criança pega uma boneca e a joga longe, isso
pode significar que ela está expressando raiva ou rejeição de alguém
importante em sua vida.
O papel do analista é interpretar o simbolismo da brincadeira, entendendo o
que está escondido por trás dos gestos.
O analista deve evitar agir como um professor ou educador; seu trabalho é
analisar os conflitos inconscientes da criança, não ensinar ou disciplinar.
Exemplo: Se uma criança brinca de destruir um castelo de blocos, Klein
interpretaria isso como uma expressão dos sentimentos destrutivos da criança
em relação a uma figura de autoridade, como os pais.
Teoria das Posições (Klein)
Klein acreditava que, em vez de passar por estágios de desenvolvimento, as
crianças organizam suas experiências por meio de posições:
Posição Esquizoparanóide (Primeiros Meses)
No início da vida, o bebê tem emoções ambivalentes (contraditórias), como o
desejo de devorar ou destruir e, ao mesmo tempo, guardar algo bom dentro de
si.
O bebê divide o mundo em dois: o seio bom (que nutre e conforta) e o seio
perseguidor (que frustra e causa medo). Esses são símbolos de como o bebê
vê a mãe ou outras figuras importantes.
O bebê quer manter o seio bom dentro de si para se proteger do seio mau.
Para lidar com isso, ele usa a clivagem, dividindo o mundo entre o que é bom e
o que é ruim.
Exemplo: Um bebê que se sente bem quando amamentado pode ver o "seio"
como algo bom, mas se não é alimentado quando está com fome, pode ver o
mesmo "seio" como algo ruim e perseguidor.
Posição Depressiva (Aos 5 ou 6 Meses)
Com o tempo, o bebê começa a entender que a mãe não é só boa ou má; ela
pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Isso leva o bebê a uma visão mais
realista do mundo.
O bebê percebe que seus sentimentos destrutivos em relação à mãe, como o
desejo de "mordê-la", podem causar culpa, pois ele entende que a mãe é uma
pessoa separada dele e pode ir embora.
Ao reconhecer seus próprios desejos de destruição, o bebê sente a
necessidade de reparar o que fez de "ruim" à mãe. Isso é o início do
desenvolvimento da empatia.
Exemplo: Um bebê que morde a mãe pode, mais tarde, sentir culpa ao
perceber que a mesma mãe que ele mordeu é quem o conforta e cuida dele.
Principais Mecanismos de Defesa
Clivagem: O bebê (e mais tarde o adulto) divide o mundo em "bom" e "mau"
para lidar com a incerteza e o medo. Isso pode continuar ao longo da vida, por
exemplo, quando alguém idealiza um grupo de pessoas e despreza outro.
Projeção: Para evitar lidar com sentimentos difíceis, a pessoa projeta esses
sentimentos em outras pessoas ou objetos. Por exemplo, se uma pessoa sente
raiva, pode acreditar que os outros é que estão com raiva dela.
Exemplo: Uma criança que sente raiva de um colega pode projetar essa raiva
nele, acreditando que o colega é que está bravo com ela.
Superego Arcaico (Klein)
Para Klein, o superego (parte da personalidade que julga o que é certo ou
errado) se desenvolve muito cedo, e é mais cruel do que Freud acreditava. Em
vez de sentir apenas culpa, as crianças podem sentir terror, temendo que seus
próprios desejos destrutivos levem à punição.
Esses medos são exagerados e vêm dos próprios desejos agressivos da
criança.
Exemplo: Uma criança pode ter medo irracional de ser "devorada" ou "rasgada"
como punição por seus sentimentos destrutivos, como o desejo de morder ou
destruir algo.
Essa é uma visão geral das principais diferenças entre as teorias de Freud e
Klein, focando no desenvolvimento infantil e na maneira como lidamos com
emoções e relações desde os primeiros meses de vida.
Donald Winnicott (1896-1971)
Winnicott foi um pediatra e psicanalista britânico. Ele se formou em medicina
em 1920 e tornou-se psicanalista em 1934, trabalhando com crianças em uma
época em que isso era algo mais comum entre mulheres.
Ele acreditava que o ambiente emocional em que a criança vive influencia
muito seu desenvolvimento, inclusive no surgimento de doenças físicas. Por
exemplo, uma criança que não recebe afeto ou cuidados adequados pode ter
problemas de saúde.
Winnicott foi influenciado por Melanie Klein, com quem tinha uma relação
próxima. Ele foi supervisionado por ela e chegou a analisar o filho de Klein,
Erich, quando este tinha 20 anos.
O Contexto da Psicanálise na Época
Nos anos 1930 e 1940, havia muitos conflitos entre psicanalistas na Sociedade
Britânica de Psicanálise. Winnicott fazia parte de um grupo conhecido como
Middle Group (Grupo do Meio), que defendia ideias independentes, não se
alinhando totalmente às teorias de Melanie Klein nem às de Anna Freud.
Teorias de Winnicott
Desenvolvimento emocional do bebê: Winnicott acreditava que o ser humano
tem uma tendência natural a se integrar e formar uma unidade. Isso quer dizer
que o bebê nasce com uma "energia vital", uma força interna para crescer e se
desenvolver. Esse processo começa logo nos primeiros anos de vida e
continua ao longo da vida.
Importância do ambiente: O ambiente em que o bebê cresce é crucial. Para
Winnicott, esse ambiente é representado pelos cuidados maternos, ou seja, o
cuidado da mãe ou de quem assume esse papel. Esses cuidados afetam
profundamente o desenvolvimento psíquico da criança. Por exemplo, se a mãe
consegue atender às necessidades do bebê de maneira sensível, ele se sentirá
seguro para explorar o mundo.
Psicose: Winnicott acreditava que problemas como a psicose (graves distúrbios
mentais) podiam surgir se a ligação entre mãe e bebê falhasse. Isso significa
que, se a mãe não consegue dar ao bebê o suporte emocional de que ele
precisa, o desenvolvimento mental da criança pode ser prejudicado.
Conceitos Chave
Mãe Suficientemente Boa: Winnicott criou o termo "mãe suficientemente boa"
para descrever uma mãe que, mesmo sem ser perfeita, é capaz de atender às
necessidades do bebê de forma adequada. Isso não significa que a mãe nunca
erre, mas sim que ela consegue ajustar suas respostas conforme o bebê
cresce.
Exemplo: Uma mãe que, na maior parte do tempo, consegue acalmar o bebê
quando ele chora ou alimentá-lo quando está com fome. Mesmo que, às vezes,
não consiga imediatamente, o importante é que, no geral, ela o faça de forma
consistente.
Problemas no cuidado: Se a mãe for muito ausente, incapaz de cuidar do bebê
ou, por outro lado, muito controladora, isso pode levar a problemas como
depressão ou comportamento antissocial na criança.
Exemplo: Se a mãe é muito protetora e não deixa o bebê explorar o ambiente,
a criança pode crescer com dificuldades em lidar com desafios ou se tornar
muito dependente dos outros.
O Papel do Pai
Winnicott via o pai como alguém que tem um papel importante no apoio à mãe.
Ele ajuda a manter a autoridade e a ordem na vida da criança, dando suporte
emocional à mãe para que ela possa cuidar bem do bebê.
Exemplo: Se o pai dá apoio emocional à mãe, ela se sentirá mais confiante em
seus cuidados, o que cria um ambiente mais saudável para o desenvolvimento
do bebê.
Resumo
Winnicott destacou a importância do cuidado materno no desenvolvimento
emocional do bebê. Ele acreditava que o ambiente em que a criança cresce,
especialmente o apoio que ela recebe da mãe, influencia profundamente sua
saúde mental e sua capacidade de lidar com o mundo. A "mãe suficientemente
boa" é capaz de ajustar seus cuidados conforme as necessidades do bebê,
permitindo que ele se desenvolva de forma saudável.
Desenvolvimento da Estrutura Psíquica
Tendência natural para nos tornarmos uma pessoa
Todos nós nascemos com uma tendência natural de crescer e nos
desenvolvermos como indivíduos. Isso só acontece de forma saudável se o
ambiente ao redor, especialmente os cuidados que recebemos, for
"suficientemente bom". Não precisa ser perfeito, mas o ambiente precisa apoiar
esse processo de amadurecimento.
O que acontece quando o ambiente não ajuda?
Se o ambiente negligencia (não cuida direito), a criança não se sente segura e
apoiada.
Se o ambiente é invasivo (não respeita o ritmo da criança), como por exemplo
uma mãe que amamenta no horário que ela decide, e não quando o bebê está
com fome, a criança tem que "reagir" ao ambiente, em vez de se desenvolver
naturalmente. Isso pode levar ao desenvolvimento de um falso self, uma
espécie de máscara que a criança usa para se adaptar a um ambiente que não
corresponde às suas necessidades.
Falso Self
Esse falso self é como uma "casca" que a criança cria para sobreviver em um
ambiente caótico. É uma identidade falsa, criada para se proteger. Por
exemplo, se os pais são muito controladores, a criança pode agir de uma
maneira que agrade os pais, mesmo que isso não reflita quem ela realmente é.
O desenvolvimento saudável
O ideal é que o bebê se desenvolva sem precisar notar o ambiente. Quando o
ambiente está bem ajustado às suas necessidades, ele pode crescer
espontaneamente, sem ter que criar um falso self para se adaptar.
Estágios do Desenvolvimento
Dependência Absoluta
Nos primeiros meses de vida, o bebê depende completamente dos cuidados da
mãe (ou de quem cuida dele). Ele não tem consciência dessa dependência,
pois acha que ele e o ambiente são uma coisa só. A amamentação, por
exemplo, é importante não só por alimentar o bebê, mas também pela conexão
emocional que ela cria entre o bebê e a mãe.
Ilusão de Onipotência
Nessa fase, o bebê acredita que tudo o que ele deseja "aparece" como se ele
tivesse o poder de criar. Por exemplo, ele sente fome, e de repente a mãe
surge para amamentá-lo. Ele não entende que a mãe é separada dele; para
ele, é como se ele estivesse controlando tudo. Para que o bebê se sinta seguro
nesse momento, é importante que o ambiente seja previsível e confiável.
Dependência Relativa
Por volta dos 6 meses a 2 anos, o bebê começa a perceber que ele e a mãe
são separados. Ele começa a entender que há uma realidade externa. Nessa
fase, surgem os objetos transicionais, como um cobertor ou um brinquedo
que traz conforto e segurança quando a mãe não está por perto. Essa
transição é importante para o bebê aprender a lidar com a ausência da mãe e
começar a se desenvolver emocionalmente de forma mais independente.
Rumo à Independência
Com o tempo, o bebê vai se tornando mais independente e começando a
desenvolver sua personalidade, interagindo com o mundo ao seu redor.
Cuidados Maternos Necessários
"Holding" (Sustentação)
A mãe cria uma rotina de cuidados (como trocar fraldas e amamentar) que
ajuda a criança a se sentir segura. Isso simplifica o mundo para o bebê e
permite que ele crie uma noção de tempo e espaço. Por exemplo, o bebê
aprende que, quando sente fome, logo será alimentado, o que cria uma
sensação de estabilidade.
"Handling" (Manipulação)
Durante os cuidados físicos, como segurar o bebê, a mãe ajuda a criança a
desenvolver uma noção de seu próprio corpo. Isso é importante para que o
bebê entenda que ele é uma pessoa separada do ambiente. Por exemplo, ao
trocar a fralda e tocar diferentes partes do corpo do bebê, a mãe o ajuda a
perceber que ele tem mãos, pés, etc.
"Object Presenting" (Apresentação de Objetos)
A mãe apresenta objetos ao bebê, como o peito para amamentar ou um
brinquedo. Quando o bebê recebe esses objetos, ele pode ter a sensação de
que os "criou", reforçando sua ilusão de onipotência. Isso ajuda o bebê a se
sentir no controle e a lidar com a ansiedade.
Desafios do Desenvolvimento
Integração no tempo e no espaço – O bebê precisa aprender a se organizar
no tempo e no espaço com a ajuda dos cuidados constantes da mãe.
Personalização – Ele desenvolve a noção de que tem um corpo próprio e que
é separado do mundo.
Contato com a realidade – Aos poucos, o bebê começa a perceber que o
mundo ao redor existe de forma independente dele.
Constituição do "self" – Com o tempo, ele forma sua própria identidade.
Dependência Relativa
Depois que o bebê tem um ambiente que atende bem suas necessidades, ele
começa a se desenvolver de forma mais independente. Isso significa que ele
começa a entender que ele e a mãe são separados. No entanto, se o ambiente
não for bom nessa fase, o bebê pode sofrer emocionalmente e desenvolver
problemas, como dificuldades em lidar com sentimentos e comportamento
antissocial.
Transitoriedade (8-10 meses)
Neste estágio, o bebê começa a usar objetos para se conectar com o mundo
externo. Esses objetos, como um cobertor ou brinquedo, não são
completamente internos (criados pelo bebê) nem completamente externos
(como um objeto do mundo real). Eles ajudam o bebê a se sentir seguro ao se
separar da mãe. Esses objetos são chamados de "objetos transicionais" porque
ajudam na transição entre o que é interno e o que é externo.
Estágio do Uso do Objeto
Aqui, o bebê começa a deixar de lado a ilusão de que controla tudo ao seu
redor (a ilusão de onipotência). Ele começa a perceber que os objetos estão
fora de seu controle e começa a interagir com eles de forma mais realista,
usando suas habilidades motoras. Se o bebê não puder expressar sua
agressividade com esses objetos (como jogá-los ou mordê-los), ele pode ter
dificuldades para se conectar tanto com seus sentimentos quanto com o mundo
ao redor.
Estágio "Eu Sou" (1,5 anos)
Nessa fase, o bebê se reconhece como uma pessoa separada, com um corpo
e uma identidade própria. A mãe age como um "porto seguro", permitindo que
ele explore o mundo, mas oferecendo um lugar seguro para voltar quando
necessário. Se a mãe for superprotetora ou não oferecer proteção suficiente,
isso pode atrapalhar o desenvolvimento do bebê.
Estágio do Concernimento (2,5 anos)
Aqui, a criança começa a integrar suas emoções e instintos com sua
personalidade. Ela também começa a entender que suas ações podem causar
danos e desenvolve um senso de culpa, o que a faz querer consertar as coisas.
Esse processo acontece principalmente nas interações com a mãe, que pode
ser tanto alvo de amor quanto de raiva.
Estágio Edípico
Essa fase envolve a criança se comparando e rivalizando com um dos pais,
algo que Freud chamou de "Fase Fálica". Aqui, a criança começa a entender
melhor a diferença entre meninos e meninas e experimenta fantasias
relacionadas à excitação nos órgãos genitais.
Mãe e Ambiente
A mãe atua como o ambiente inicial do bebê. Se ela for "suficientemente boa",
ou seja, capaz de atender às necessidades do bebê na medida certa, ela ajuda
o bebê a se desenvolver de forma saudável. O bebê percebe o carinho e
cuidado da mãe, mas também aprende que o ambiente não é perfeito. A
"preocupação materna primária" é a capacidade da mãe de estar
completamente atenta ao bebê.
Mãe Insuficientemente Boa
Quando a mãe ou o ambiente não atendem às necessidades básicas do bebê,
ele pode sofrer. Isso pode ocorrer se ele for cuidado por muitas pessoas ou se
não houver uma rotina clara. A ausência da mãe também pode ser prejudicial.
Falso Self
Todo bebê nasce com espontaneidade e uma tendência natural a se integrar
com o ambiente. Quando o ambiente acolhe bem o bebê, ele desenvolve um
"self verdadeiro". No entanto, se o ambiente não for acolhedor, o bebê começa
a esconder sua verdadeira natureza e cria um "Falso Self", ou seja, uma versão
de si mesmo que se adapta ao ambiente caótico para sobreviver. Isso serve
para proteger o verdadeiro self.
Ambiente Social
Segundo Winnicott, adaptar-se ao ambiente muitas vezes pode significar viver
uma vida "falsa" e submissa. No entanto, quem não se adapta ao ambiente
pode ter uma vida mais autêntica. A adaptação é importante, mas deve ser
feita com consciência.
Doença e Psicose
Winnicott diz que doenças emocionais surgem quando nossa espontaneidade é
bloqueada por um ambiente que não permite que ela se desenvolva. Quando o
ambiente impede essa expressão, a pessoa fica "presa" em uma fase do
desenvolvimento. Em casos mais graves, isso pode levar a doenças mentais,
como a psicose. Uma doença psicossomática (como febre ou vômitos
relacionados ao emocional) pode ser a única maneira que o indivíduo encontra
para lidar com suas dificuldades psíquicas.
Observações
Winnicott estudou como bebês expressam seus sentimentos através do corpo.
Por exemplo, ele notou que bebês podem ter febre quando suas mães estão
ausentes ou vomitar como forma de "expulsar" emoções. Isso mostra que
corpo e mente estão conectados. Ele também percebeu que, para algumas
pessoas, essa conexão não é natural e precisa de um ambiente que ajude a
desenvolvê-la.
A Clínica para Winnicott
Olhar mais humanizado: A ideia principal de Winnicott é tratar o paciente de
uma forma mais humana, focando na empatia e proximidade entre o
profissional e o paciente.
Proposta de proximidade: A abordagem de Winnicott é mais próxima e
calorosa, diferente de outras terapias. Ele acreditava em “resgatar a
maternagem”, ou seja, oferecer ao paciente o cuidado que pode ter faltado na
relação inicial com a mãe.
Manejo e setting: O manejo terapêutico de Winnicott é como o “colo de mãe”.
Ele acreditava que o ambiente da terapia deve proporcionar acolhimento e
segurança, permitindo que o paciente se sinta protegido para expressar suas
dores emocionais.
Mente, corpo e psique: Para ele, a mente, o corpo e as emoções (psique) estão
conectados. Por isso, a terapia também foca no corpo, que muitas vezes
manifesta a dor emocional, como quando ficamos tensos ou doentes por causa
de estresse.
Núcleo sagrado: Além de fazer interpretações e análises, Winnicott acreditava
que cada pessoa tem algo no fundo de si que é muito íntimo e sagrado, algo
que nem o terapeuta deve tentar interpretar. É um aspecto da pessoa que deve
ser respeitado e nunca violado.
Exemplo:
Imagine que alguém vai à terapia porque sente dores constantes no corpo.
Winnicott olharia além dos sintomas físicos e tentaria entender como essas
dores estão ligadas às emoções. Ele acolheria o paciente de uma forma muito
próxima, como uma mãe cuida de seu bebê, criando um ambiente seguro. Mas,
ao mesmo tempo, ele respeitaria que há uma parte do paciente, um “núcleo”,
que não deve ser interpretado ou invadido.
Lacan e a Psicanálise com Crianças
O sintoma da criança reflete algo da família: Muitas vezes, o problema que a
criança apresenta é um reflexo de questões não ditas na família, especialmente
entre os pais. O sintoma pode mostrar um "segredo" ou algo que ninguém
discute, mas que afeta a todos.
Sintomas ligados à mãe: O problema da criança costuma estar relacionado à
subjetividade da mãe, ou seja, como ela se sente e age com a criança.
Aliviar a pressão sobre a criança: É importante dar uma "folga" para a
criança, tirando um pouco da carga que ela carrega em relação aos problemas
da família.
A criança já existe antes do nascimento: O "ser criança", no sentido de
expectativa e desejo dos pais, já está presente antes mesmo de a criança
nascer. Quando ela nasce, ela começa a viver essas expectativas.
Desenvolvimento da criança envolve luto: À medida que a criança cresce,
ela precisa lidar com a ideia de que não pode cumprir todas as expectativas
dos pais. Esse é um processo de "luto" pelos ideais que foram depositados
nela.
Resumo das Correntes Psicanalíticas sobre Crianças
Freud: A infância é uma fase crucial para o desenvolvimento psicológico.
Anna Freud: Destaca a importância da educação e do aspecto pedagógico.
Melanie Klein: A análise da criança é semelhante à do adulto. A criança
"brinca" o que o adulto "fala". O brincar revela o inconsciente, assim como a
fala no adulto.
Winnicott: A criança precisa de um ambiente "suficientemente bom" para se
desenvolver.
Lacan: A criança está sempre em desenvolvimento, ainda não é um sujeito
completo, mas devemos prestar atenção em suas questões desde o início.
Françoise Dolto: A criança sempre sabe a verdade sobre os pais, mesmo que
não saiba que sabe. A psicanálise ajuda a dar um significado a essa verdade.
Maud Mannoni: Trabalhou com crianças autistas e usava a psicanálise para
ajudar essas crianças a saírem de estados de isolamento, com o apoio de uma
equipe de profissionais.
Clínica com Crianças
Quem procura: Geralmente, são crianças com dificuldades no desenvolvimento
ou problemas escolares, como dificuldades em aprender a ler ou escrever.
Setting (espaço terapêutico): O consultório deve ser um lugar diferente de
outros ambientes (como escola ou médico). Um lugar onde a criança possa se
expressar, seja falando ou brincando, e ser ouvida de verdade.
Imaginário, Simbólico e Real: A criança vive em um mundo de fantasia
(imaginário) que é dela. Ela usa símbolos, como um ursinho ou um desenho,
para representar a realidade de forma indireta.
Consultório: Deve ser um lugar confortável, onde a criança se sinta segura. A
brincadeira é essencial para que ela possa se expressar. Materiais como
brinquedos, massinha e lápis de cor são importantes para facilitar a
comunicação.
O Lúdico (Brincar)
Brincar como forma de expressão: Quando uma criança viveu algo
traumático, ela não fala diretamente sobre isso, mas expressa suas emoções
por meio de jogos, desenhos e brincadeiras.
Análise e expressão ativa: O que a criança não conseguiu reagir na vida real,
ela pode expressar na terapia por meio do lúdico, como um desenho que revela
seus sentimentos sobre os pais.
O que Aparece na Análise?
Posição da criança na família: Durante a análise, fica claro o lugar que a
criança ocupa na dinâmica familiar e como as expectativas dos pais afetam seu
comportamento.
Doenças psicossomáticas: Sintomas físicos que a criança apresentava
(como dor de barriga ou insônia) podem melhorar à medida que ela expressa
suas questões emocionais durante a análise.
Transferência
Projeção no analista: A criança vê o analista como uma figura parental e
projeta nele as suas relações com os pais. O analista deve estar preparado
para lidar com isso sem assumir o papel dos pais, mas dando suporte à
criança.
Aproximando a criança do real: Através do manejo terapêutico, o analista
ajuda a criança a enfrentar a realidade que ela tem evitado.
RESENHA
O que mais me chamou a atenção neste módulo foram os estudos
desenvolvidos por Melanie Klein e Donald Winnicott. Eles são figuras centrais
na psicanálise infantil, oferecendo teorias que enriqueceram o entendimento do
desenvolvimento emocional. Klein enfatizou a importância das fantasias
inconscientes desde a infância, sugerindo que as primeiras experiências do
bebê moldam o psiquismo. Ela introduziu os conceitos de "posição
esquizoparanóide" e "posição depressiva", mostrando como a criança
inicialmente vê o mundo dividido entre "bom" e "mau", e, mais tarde, passa a
integrar essas percepções, desenvolvendo sentimentos de culpa e reparação.
O brincar, segundo Klein, é uma via de expressão do inconsciente infantil,
semelhante aos sonhos nos adultos.
Winnicott, por sua vez, focou no papel do ambiente e do cuidado materno. Ele
introduziu a ideia da "mãe suficientemente boa", cuja função é proporcionar um
ambiente seguro e estável, permitindo que o bebê desenvolva um senso de
confiança. A teoria de Winnicott também destaca o "espaço transicional",
representado por objetos que ajudam a criança a lidar com a ausência da mãe
e a transitar entre o mundo interno e externo. Ele também teorizou o conceito
de "falso self", que surge em ambientes desestruturados e obriga a criança a
se adaptar de maneira inautêntica, comprometendo seu desenvolvimento
emocional.
Ambos os teóricos sublinharam a importância das primeiras relações na
formação do psiquismo. Enquanto Klein se concentrou nas fantasias
inconscientes e no mundo interno da criança, Winnicott destacou a influência
do ambiente e da relação com a mãe. Suas contribuições são fundamentais
para a psicanálise, especialmente no tratamento e entendimento do
desenvolvimento infantil.