Resenha crítica: A Batalha pela Alma na Educação, Segundo Durkheim (Capítulo I) -
Sociologia
O primeiro capítulo do livro "Educação e Sociologia", de Émile Durkheim, é um texto que nos
confronta de imediato com uma questão fundamental: quem somos nós e quem a educação
nos obriga a ser? Durkheim nos convida a abandonar os sonhos filosóficos de "perfeição
humana" universal e a encarar a dura realidade: a educação não é um processo etéreo e
gentil; é uma poderosa e complexa força social que nos molda à imagem e semelhança da
nossa própria sociedade.
Com a precisão de um cirurgião intelectual, Durkheim desmonta as definições abstratas da
educação. Ele nos diz, com razão, que o que era "perfeição" na Grécia Antiga – submissão
total à pólis – é radicalmente diferente do que se buscava na Idade Média. O ideal de
homem, afinal, é uma invenção histórica, um retrato traçado pelas necessidades coletivas. A
educação, em sua essência, torna-se, então, a ação das gerações adultas que, de forma
quase coercitiva, mas vital, implantam na alma da criança o "ser social" — aquele capaz de
viver em grupo. Durkheim nos lembra: sem essa dose de esforço e disciplina imposta, nós
seríamos apenas seres egoístas, inaptos para a vida moral. O que a sociedade cria em nós,
pela educação, é o que temos de melhor, o que nos torna verdadeiramente humanos.
A beleza dessa tese reside na sua clareza sobre o papel da escola: ela deve garantir tanto a
homogeneidade (a base moral e cívica comum, o "cimento" da sociedade) quanto a
diversidade (as habilidades específicas para a complexa divisão do trabalho). É uma visão de
mundo organizada, onde cada peça se encaixa para evitar o caos.
É precisamente neste ponto de encaixe, porém, que o texto nos incomoda e exige crítica.
Durkheim, como um bom funcionalista, está tão focado em explicar como a sociedade se
mantém que ele quase se esquece de perguntar: e se o que a sociedade quer de nós for
injusto? Onde está a voz da criança que resiste? Onde se encaixam os sonhos individuais
que não se alinham à divisão do trabalho já estabelecida? Ao minimizar o conflito de classes
e ao ver o Estado como um mero garantidor da moralidade, o autor parece nos entregar uma
educação que é mais um instrumento de reprodução e de aceitação do status quo do que
uma ferramenta de emancipação. Sua defesa da autoridade e da disciplina, embora essencial
para a coesão, soa para muitos como a negação da capacidade humana de questionar e de
transformar.
Finalmente, a distinção que ele faz entre Educação (a prática) e Pedagogia (a teoria) –
relegando esta última a meras "maneiras de conceber" – parece fria demais. A Pedagogia de
figuras como Rousseau ou Pestalozzi não eram apenas ideias utópicas, mas sim atos
profundos de resistência e propostas de futuro.
Carlos Eduardo – MAT. II