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Entendendo o Dízimo na Bíblia

O documento explora a prática do dízimo na Bíblia, desde suas origens no Antigo Testamento até sua aplicação na nova aliança. Discute a transição do dízimo de um mandamento legal para um princípio de generosidade e gratidão no Novo Testamento, enfatizando a importância do coração do doador. Também aborda a relevância do dízimo na prática cristã contemporânea e seu papel no sustento do ministério e da igreja local.
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Entendendo o Dízimo na Bíblia

O documento explora a prática do dízimo na Bíblia, desde suas origens no Antigo Testamento até sua aplicação na nova aliança. Discute a transição do dízimo de um mandamento legal para um princípio de generosidade e gratidão no Novo Testamento, enfatizando a importância do coração do doador. Também aborda a relevância do dízimo na prática cristã contemporânea e seu papel no sustento do ministério e da igreja local.
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CAPA

1
SUMÁRIO

Introdução: O Dízimo à Luz da Escritura ...................... 6


Contextualizando o Dízimo no Antigo e Novo
Testamentos ................................................................. 7
O Dízimo no Antigo Testamento ............................ 7
O Dízimo no Novo Testamento............................... 9
O Dízimo na Prática Cristã Contemporânea ......... 10
Mandamento ou Princípio? .................................. 11
O Dízimo como Sustento do Ministério e da Igreja
Local ............................................................................ 12
Generosidade além do Dízimo ............................ 13
O Dízimo e a Saúde Financeira do Cristão ............ 14
A Prática do Dízimo: Uma Visão Reformada ......... 14
Capítulo 1: A Origem do Dízimo na Bíblia .................. 16
O Contexto de Abraão e Melquisedeque (Gênesis
14:18-20) ...................................................................... 16
A Relevância de Melquisedeque ........................ 17
O Dízimo Como Ato de Adoração Voluntária ...... 18
A Importância do Dízimo Antes da Lei ................... 19

2
Jacó e o Voto de Consagração (Gênesis 28:20-22)
...................................................................................... 20
O Contexto da Vida de Jacó .............................. 21
O Voto de Jacó ..................................................... 21
A Condicionalidade do Voto .................................. 22
A Consagração da Vida ...................................... 22
A Relação Pessoal com Deus .............................. 23
O Dízimo como um Ato de Fé .............................. 23
A Importância do Dízimo na Vida do Crente .... 24
Capítulo 2: O Dízimo na Lei Mosaica .......................... 25
O Dízimo na Lei Mosaica .......................................... 25
A Propriedade de Deus......................................... 26
Sustento dos Levitas e Sacerdotes ...................... 26
O Dízimo como Ato de Adoração ...................... 27
O Dízimo e a Justiça Social ................................... 27
O Dízimo e a Promessa de Bênçãos.................... 28
Dízimos no Sistema de Justiça Social de Israel: Ajuda
aos Pobres, Órfãos e Viúvas (Deuteronômio 14:22-
29) ................................................................................ 29
A Importância do Princípio de Santidade no Dízimo
na Lei Mosaica ........................................................... 32
Capítulo 3: Profetas e o Dízimo: Obediência e Aliança
......................................................................................... 35

3
A Correlação entre Bênçãos e Maldições: O Dízimo
e o Pacto com Deus ................................................. 38
Capítulo 4: O Dízimo no Novo Testamento................ 41
Jesus e os fariseus: A correção do formalismo do
dízimo (Mateus 23:23) ............................................... 41
Generosidade além do dízimo: O princípio da
oferta voluntária (Lucas 21:1-4) ............................... 43
O Dízimo como Princípio Espiritual na Nova Aliança
...................................................................................... 45
A Conexão com Abraão.......................................... 48
Capítulo 5: A Teologia do Dízimo e a Igreja .............. 52
O Dízimo na Vida da Igreja Primitiva ...................... 52
Generosidade e Mordomia: Responsabilidade
Cristã no Sustento da Obra de Deus ...................... 54
Dízimo e Ofertas: Semelhanças e Diferenças à Luz
do Novo Testamento................................................. 56
Semelhanças .......................................................... 56
Diferenças ............................................................... 57
Capítulo 6: O Dízimo Hoje: Aplicações Práticas ....... 59
O Dízimo na Vida do Cristão Moderno:
Mandamento ou Princípio? ..................................... 59
Dízimo e a Saúde Financeira da Igreja: Uma Visão
Reformada ................................................................. 62

4
Capítulo 7: Dízimo e o Coração.................................. 66
Em quem seu coração está?................................... 66
O Perigo da Idolatria do Dinheiro ........................... 68
Conclusão: O Dízimo e a Suficiência de Cristo ..... 71
A Vida Generosa do Cristão: Mais do que um Dever,
um Privilégio................................................................ 73

5
Introdução: O Dízimo à Luz da Escritura

O
dízimo, ao longo da história da igreja, tem
sido um tema de debates e discussões,
especialmente no que se refere à sua
relevância para os cristãos sob a nova aliança. A
palavra "dízimo" significa literalmente "a décima
parte", e é frequentemente associada ao dever
religioso de ofertar uma parte dos bens ao Senhor.
Desde os tempos do Antigo Testamento, o dízimo
aparece como uma prática central na vida religiosa
de Israel, ligada ao sustento dos levitas, à ajuda aos
pobres e ao culto no templo.
No entanto, como devemos entender o dízimo à luz
da revelação completa da Escritura? Para alguns, o
dízimo é visto como um mandamento obrigatório,
uma forma de continuar a obediência à Lei. Para
outros, ele é mais uma expressão voluntária de
gratidão e generosidade, especialmente em um
contexto em que a obra redentora de Cristo já
cumpriu a Lei, e é visto para alguns como algo
obsoleto, que na nova aliança perdeu sua validade.
Ao abordar o tema do dízimo, precisamos, antes de
tudo, ancorar nossa compreensão nas Escrituras,
reconhecendo tanto a continuidade quanto as
transformações trazidas pela nova aliança. A Bíblia,

6
como revelação progressiva, nos mostra que o dízimo
não é apenas uma prática isolada, mas parte de um
quadro maior de generosidade, mordomia e
devoção ao Senhor.

Contextualizando o Dízimo no Antigo e Novo


Testamentos
O dízimo é uma prática que atravessa a história
bíblica, com suas raízes estabelecidas muito antes da
entrega da Lei Mosaica. A Escritura revela que o
conceito de separar uma décima parte para Deus
remonta ao período dos patriarcas, antes de ser
formalizado nas exigências da Lei de Moisés. O
dízimo, no entanto, não é meramente uma questão
de porcentagem, mas uma expressão de adoração,
gratidão e dependência de Deus, que evolui de
diferentes formas à medida que a revelação divina
avança.

O Dízimo no Antigo Testamento


No Antigo Testamento, encontramos os primeiros
exemplos do dízimo como uma prática voluntária,
antes mesmo que ele se tornasse parte da Lei. A
primeira menção clara do dízimo ocorre em Gênesis
14, quando Abraão, após uma vitória militar, dá a
décima parte de seus despojos a Melquisedeque, o
rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Esse ato
de Abraão é importante porque ocorre

7
espontaneamente, antes da instituição formal da Lei.
Sua oferta reflete gratidão e reconhecimento da
soberania de Deus sobre sua vida e suas conquistas.
Outro exemplo significativo é o de Jacó, em Gênesis
28:20-22, quando ele faz um voto ao Senhor: "De tudo
quanto me deres, certamente te darei o dízimo." Jacó
associa o dízimo à bênção e à provisão de Deus,
estabelecendo um padrão de resposta à graça
divina.
Com a chegada da Lei Mosaica, o dízimo se tornou
uma prática regular e obrigatória entre os israelitas,
como parte do pacto entre Deus e Seu povo. Em
Levítico 27:30-33, o dízimo é detalhado como a
décima parte de todos os produtos da terra e dos
animais. Este dízimo tinha várias finalidades, sendo a
principal delas o sustento dos levitas, que não
possuíam herança na terra como as outras tribos
(Números 18:21-24). Além disso, o dízimo também
servia para prover os necessitados – órfãos, viúvas e
estrangeiros – numa demonstração de que a Lei não
era apenas religiosa, mas também social e
comunitária (Deuteronômio 14:28-29).
Os profetas, como Malaquias, frequentemente
denunciaram a negligência ao dízimo, associando
sua falta à infidelidade ao pacto e ao afastamento
de Deus. Em Malaquias 3:8-10, Deus chama o povo
ao arrependimento, afirmando que ao reterem o
8
dízimo, estavam "roubando" a Deus. Ao mesmo
tempo, Ele promete bênçãos sobre aqueles que são
fiéis no cumprimento dessa prática.

O Dízimo no Novo Testamento


Com a vinda de Cristo e o início da nova aliança, a
prática do dízimo é abordada de uma maneira
diferente. No Novo Testamento, o dízimo é
mencionado em alguns contextos, mas sua ênfase
muda em relação ao que vemos no Antigo
Testamento.
Em Mateus 23:23, Jesus repreende os fariseus por sua
hipocrisia, pois eram meticulosos em dar o dízimo até
das ervas mais insignificantes, como hortelã, endro e
cominho, mas negligenciavam "os preceitos mais
importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a
fidelidade". Jesus, no entanto, não condena a prática
do dízimo, mas critica o formalismo vazio, mostrando
que o verdadeiro culto a Deus vai além da
observância externa. Ele defende que a justiça e a
misericórdia são prioridades maiores no Reino de
Deus, e que o dízimo deve fluir de um coração
correto, em vez de ser apenas uma rotina religiosa.
Outra passagem relevante é Lucas 21:1-4, onde Jesus
elogia a viúva pobre que, ao dar duas pequenas
moedas no templo, oferece "mais do que todos os
outros". Aqui, a lição não é sobre a quantia ofertada,

9
mas sobre a disposição do coração, ressaltando a
generosidade como um princípio essencial do
cristianismo.
O Novo Testamento enfatiza, sobretudo, o espírito de
generosidade e de amor ao próximo, em vez de uma
obediência estrita a porcentagens fixas. O apóstolo
Paulo, em 2 Coríntios 9:6-7, ensina que a oferta cristã
deve ser feita "de coração", de forma voluntária e
alegre, e que "Deus ama quem dá com alegria".
Embora Paulo não mencione o dízimo
especificamente, ele mantém o princípio de que o
povo de Deus deve ser generoso e responsável com
seus recursos para sustentar a obra do evangelho e
ajudar os necessitados.
Na nova aliança, o dízimo não é mais tratado como
um mandamento legal, mas como um princípio de
vida para aqueles que experimentaram a graça de
Cristo. O foco é menos em uma quantia específica e
mais em uma atitude de gratidão e generosidade. O
dízimo continua a ser uma prática recomendável,
mas não é mais visto como obrigatório em termos
legais, pois o cristão é chamado a dar livremente,
segundo o que Deus colocou em seu coração.

O Dízimo na Prática Cristã Contemporânea


A prática do dízimo no contexto cristão
contemporâneo é um tema que continua a gerar

10
discussões entre teólogos e líderes religiosos. Embora
a essência do dízimo — a entrega de uma décima
parte da renda — tenha suas raízes no Antigo
Testamento, a maneira como ele é aplicado nas
igrejas de hoje varia consideravelmente. Isso ocorre
principalmente porque, na nova aliança em Cristo, o
dízimo não é explicitamente imposto como
mandamento. Em vez disso, a ênfase recai sobre
princípios mais amplos de generosidade, mordomia e
compromisso com o Reino de Deus.

Mandamento ou Princípio?
Muitas igrejas defendem a continuidade do dízimo
como um princípio espiritual relevante para os
crentes. Embora o dízimo não seja tratado no Novo
Testamento com o mesmo rigor legal que no Antigo,
ele continua a ser visto como um método prático e
disciplinado de sustentar a obra do evangelho e o
ministério da igreja local. Pastores e líderes
frequentemente ensinam que o dízimo é uma forma
de demonstrar fidelidade a Deus, reconhecer Sua
soberania sobre todos os recursos e participar na
missão da igreja.
Por outro lado, alguns cristãos entendem o dízimo
como uma prática pertencente à velha aliança, e,
portanto, acreditam que ele não deve ser imposto na
nova aliança. Em vez disso, sugerem que os crentes
devem ser guiados pela generosidade espontânea e
11
pela direção do Espírito Santo, contribuindo conforme
Deus coloca em seus corações, sem estarem presos a
uma porcentagem fixa. A chave aqui está na
liberdade cristã, entendida como um convite a
contribuir de acordo com as bênçãos recebidas, seja
10% ou mais, sem imposições externas.

O Dízimo como Sustento do Ministério e da


Igreja Local
Em muitas igrejas, o dízimo é um elemento central no
sustento das atividades ministeriais. As necessidades
práticas da igreja — como salários pastorais,
manutenção do prédio, missões e assistência social —
frequentemente dependem das ofertas dos
membros, sendo o dízimo uma das principais fontes
de recursos. Para a igreja local, o dízimo representa o
compromisso dos crentes com a missão de propagar
o evangelho e cuidar das necessidades da
congregação e da comunidade.
No entanto, é importante considerar que, na nova
aliança, o foco está menos na quantidade doada e
mais no coração do doador. As igrejas que
promovem o dízimo como um princípio muitas vezes
destacam que a prática deve ser feita com alegria e
generosidade, em vez de ser uma obrigação
legalista. Como ensinado pelo apóstolo Paulo em 2
Coríntios 9:7, "cada um contribua segundo tiver

12
proposto no coração; não com tristeza ou por
necessidade, porque Deus ama a quem dá com
alegria".

Generosidade além do Dízimo


O cristianismo contemporâneo, em muitas de suas
expressões, ensina que a generosidade do cristão vai
além do dízimo. Embora 10% da renda possa ser um
ponto de partida, o chamado bíblico à generosidade
é muito mais profundo. Na igreja primitiva, conforme
registrado em Atos 2:44-45 e Atos 4:32-35, os cristãos
compartilhavam seus bens de maneira radical,
suprindo as necessidades uns dos outros. Essa
comunhão profunda, baseada no amor e na
unidade, não limitava a contribuição a uma
porcentagem fixa, mas se baseava nas necessidades
do corpo de Cristo.
Hoje, muitos líderes cristãos encorajam seus membros
a considerar o dízimo como parte de um estilo de vida
mais amplo de generosidade. Isso inclui não apenas
o apoio à igreja local, mas também a ajuda aos
necessitados, doações para missões, projetos
humanitários e outros ministérios que avançam o
Reino de Deus. O foco passa de "quanto devo dar?"
para "como posso usar meus recursos para glorificar a
Deus e abençoar os outros?"

13
O Dízimo e a Saúde Financeira do Cristão
Outro aspecto prático na discussão sobre o dízimo é
a saúde financeira do cristão. Para muitos, separar
10% da renda pode ser um desafio, especialmente
em tempos de dificuldade econômica. Isso levanta a
questão: o cristão deve dar o dízimo mesmo em
momentos de crise financeira? Algumas tradições
ensinam que a fidelidade no dízimo é uma maneira
de demonstrar confiança na provisão de Deus,
acreditando que Ele suprirá todas as necessidades.
Outros, no entanto, defendem que o cristão deve
contribuir de acordo com sua capacidade atual, sem
se sentir culpado por não atingir uma porcentagem
específica.
A questão do dízimo, portanto, envolve não apenas
um compromisso com Deus, mas também uma
abordagem responsável da mordomia dos recursos
que Ele confia a cada um. A contribuição deve ser
feita com sabedoria, levando em consideração o
contexto de vida, as responsabilidades familiares e
outras necessidades legítimas.

A Prática do Dízimo: Uma Visão Reformada


Dentro do contexto reformado, a prática do dízimo é
geralmente entendida como uma disciplina espiritual
que ajuda o crente a crescer em sua confiança em
Deus e em sua generosidade. A teologia reformada

14
vê o dízimo como uma maneira de reconhecer que
todas as coisas pertencem ao Senhor, e que o crente
é apenas um administrador (mordomo) dos recursos
que Deus lhe confia. Assim, o dízimo é visto como um
ato de obediência, mas também como uma
expressão de gratidão e de comprometimento com
a obra de Deus na terra.
No entanto, a ênfase reformada está no coração por
trás da oferta. Conforme Paulo ensina, a verdadeira
adoração se reflete na maneira como ofertamos,
com alegria e não por obrigação. Dessa forma, o
dízimo é uma prática relevante, mas não um fardo;
ele é parte de uma vida maior de devoção e
generosidade que flui do evangelho.
Portanto na prática cristã contemporânea, o dízimo
continua sendo um princípio significativo para muitos
crentes. Ele simboliza a resposta à graça de Deus e a
responsabilidade de sustentar a igreja local e o
avanço do evangelho. No entanto, é essencial que a
prática do dízimo seja entendida dentro de um
contexto maior de generosidade e mordomia cristã.
O cristão é chamado a ofertar com liberdade, alegria
e gratidão, sabendo que sua contribuição faz parte
de um compromisso maior com o Reino de Deus.

15
Capítulo 1: A Origem do Dízimo na
Bíblia

O
dízimo, como prática de consagração e
devoção a Deus, é amplamente
reconhecido na tradição cristã e judaica.
Antes de ser instituído formalmente na Lei de Moisés,
o dízimo já era uma expressão voluntária de
reconhecimento da soberania de Deus e gratidão
por Suas bênçãos. O primeiro registro bíblico do
dízimo ocorre com o patriarca Abraão, em um
encontro significativo com o misterioso
Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo. Essa
narrativa, que antecede a Lei, lança luz sobre a
natureza do dízimo como um ato espontâneo de
adoração e reconhecimento do senhorio divino.

O Contexto de Abraão e Melquisedeque


(Gênesis 14:18-20)
A narrativa de Gênesis 14 descreve um evento
histórico importante na vida de Abraão (ainda
chamado de Abrão), após sua vitória sobre quatro
reis que haviam capturado seu sobrinho Ló. Depois de
resgatar Ló e recuperar os despojos da batalha,
Abraão encontra Melquisedeque, o rei de Salém e

16
sacerdote do Deus Altíssimo. Melquisedeque
abençoa Abraão, dizendo:
"Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, Criador dos
céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que
entregou seus inimigos em suas mãos." (Gênesis 14:19-
20, NVI).
Em resposta a essa bênção, Abraão dá a
Melquisedeque "o dízimo de tudo", ou seja, a décima
parte de seus despojos. Esse encontro é altamente
significativo, pois estabelece os primeiros
fundamentos teológicos para o dízimo como um ato
de reconhecimento da soberania de Deus e de
gratidão pelas Suas bênçãos.

A Relevância de Melquisedeque
A figura de Melquisedeque é enigmática e poderosa,
especialmente no contexto bíblico mais amplo. Ele é
descrito como "rei de Salém" (que muitos estudiosos
identificam com Jerusalém) e "sacerdote do Deus
Altíssimo" (El Elyon), uma das primeiras menções ao
Deus Criador na Bíblia. O fato de Abraão, o patriarca
do povo de Israel, entregar o dízimo a Melquisedeque
sugere o reconhecimento de uma autoridade
espiritual superior. Isso reforça a ideia de que o dízimo
é uma resposta à bênção divina e ao
reconhecimento da providência e do cuidado de
Deus.

17
O autor da carta aos Hebreus explora essa figura com
mais profundidade, apresentando Melquisedeque
como uma "figura tipo" de Cristo, um sacerdote
eterno e superior à ordem levítica (Hebreus 7:1-10).
Nesse contexto, a entrega do dízimo por Abraão
assume um papel ainda mais simbólico: não é
simplesmente uma transação financeira, mas um ato
de adoração que transcende a Lei e aponta para a
supremacia de Cristo como nosso Sumo Sacerdote.

O Dízimo Como Ato de Adoração Voluntária


O mais intrigante nesse relato é que o dízimo de
Abraão não foi exigido por uma lei. Ele o deu
voluntariamente, como um ato de adoração. Esse
fato é importante porque mostra que o dízimo, desde
suas origens, foi uma resposta espontânea à bênção
e à provisão de Deus. Abraão reconhece que a
vitória sobre os reis inimigos não foi resultado apenas
de sua força militar, mas da mão protetora de Deus
sobre ele. Dessa forma, o dízimo é uma expressão
concreta de dependência e gratidão a Deus, uma
maneira de honrar Aquele que o abençoou.
Aqui, a questão central não é a obrigação, mas o
reconhecimento de que tudo o que possuímos vem
de Deus, e o dízimo é um ato que reflete essa verdade
espiritual. Abraão, ao dar a décima parte dos
despojos a Melquisedeque, expressa sua

18
compreensão de que Deus, o Criador dos céus e da
terra, é o verdadeiro dono de todas as coisas.

A Importância do Dízimo Antes da Lei


Esse episódio é fundamental para a compreensão do
dízimo antes da Lei de Moisés, pois mostra que a
prática de separar uma parte dos bens para Deus
não era uma imposição legal, mas uma resposta
natural de fé e devoção. Abraão, considerado o "pai
da fé", estabelece um modelo de adoração que
transcende a lei mosaica e aponta para a
eternidade. O dízimo de Abraão a Melquisedeque
mostra que o princípio do dízimo está enraizado na
revelação de quem Deus é e na nossa relação com
Ele, e não meramente em um mandamento
específico.
Além disso, este relato também abre caminho para o
entendimento do dízimo como uma prática que,
embora formalizada na Lei de Moisés, possui
implicações mais profundas na vida do crente. O
dízimo é um reflexo de uma espiritualidade que
reconhece a Deus como soberano sobre todas as
coisas, e uma forma de consagração de nossas
possessões ao serviço divino.
Dessa forma o encontro entre Abraão e
Melquisedeque oferece a primeira referência clara
ao dízimo nas Escrituras e lança as bases teológicas

19
para a prática ao longo da história bíblica. Antes
mesmo de ser institucionalizado pela Lei de Moisés, o
dízimo surge como uma resposta de fé e gratidão à
bênção de Deus. Abraão, ao dar a décima parte dos
despojos a Melquisedeque, exemplifica o que
significa reconhecer que tudo vem de Deus e que
somos apenas mordomos de Suas bênçãos.
Este ato voluntário de Abraão, livre de obrigações
legais, revela o caráter espiritual do dízimo, que vai
além de uma quantia fixa e aponta para a realidade
mais profunda de uma vida vivida em plena
dependência e gratidão ao Senhor. Este princípio
fundamental, introduzido antes da Lei, permanece
relevante para a compreensão do dízimo na prática
cristã contemporânea.

Jacó e o Voto de Consagração (Gênesis


28:20-22)
Após a narrativa de Abraão, outra figura central na
história do dízimo é Jacó, neto de Abraão e filho de
Isaque. O relato de Jacó nos ensina sobre a
continuidade da prática do dízimo como uma
resposta de fé e consagração a Deus, além de
aprofundar a compreensão da relação pessoal que
cada um pode ter com o Senhor. O episódio
registrado em Gênesis 28:20-22 não apenas enfatiza
a importância do dízimo, mas também revela a

20
transformação espiritual que pode ocorrer quando
alguém experimenta um encontro verdadeiro com
Deus.

O Contexto da Vida de Jacó


Jacó, conhecido por sua astúcia e por ter
"enganado" seu irmão Esaú para obter a
primogenitura e a bênção de seu pai, estava em um
momento crítico de sua vida. Após ter fugido de casa,
temendo a ira de seu irmão, ele se encontra em um
lugar isolado, chamado Betel. Sem posses, sem
proteção e longe de sua família, Jacó está em uma
jornada de incerteza. Foi nesse momento de
vulnerabilidade que Deus se revelou a ele em um
sonho marcante, onde uma escada ligava a terra ao
céu, e anjos subiam e desciam por ela.

O Voto de Jacó
Após acordar do sonho, Jacó reconhece a presença
de Deus naquele lugar e diz:
"Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não
sabia!" (Gênesis 28:16, NVI). Ele toma a pedra que
usara como travesseiro e a ergue como um memorial,
unindo a experiência espiritual à ação concreta. É
nesse contexto que Jacó faz um voto ao Senhor,
prometendo:

21
"Se Deus for comigo e me guardar nesta viagem que
faço, e me der pão para comer e vestes para vestir,
e eu voltar em paz à casa de meu pai, o Senhor será
o meu Deus. E esta pedra que coloquei por coluna
será a casa de Deus; e de tudo quanto me deres,
certamente te darei o dízimo." (Gênesis 28:20-22, NVI).
Aqui, o voto de Jacó revela vários aspectos
importantes sobre a prática do dízimo.

A Condicionalidade do Voto
O voto de Jacó é notável porque é feito sob
condições: ele pede a proteção de Deus, provisão de
alimento e vestuário, e um retorno seguro à sua casa.
Essa abordagem ressalta a natureza humana de
buscar a bênção de Deus em momentos de
necessidade. No entanto, mesmo que Jacó
estabeleça condições, sua promessa de dar o dízimo
indica um reconhecimento de que qualquer bênção
recebida deve ser devolvida a Deus.

A Consagração da Vida
A entrega do dízimo não é apenas uma questão
financeira para Jacó; ela representa um
compromisso mais amplo de consagração. Ao
prometer dar a décima parte de tudo que Deus lhe
concedesse, Jacó está afirmando que reconhecerá
a soberania de Deus em sua vida. Ele se compromete

22
a colocar Deus em primeiro lugar em todas as áreas,
um princípio que se tornaria fundamental para o
relacionamento entre Deus e o povo de Israel.

A Relação Pessoal com Deus


O voto de Jacó também revela uma mudança
significativa em sua vida espiritual. No momento em
que ele faz essa promessa, Jacó não é apenas um
patriarca; ele está em busca de um relacionamento
pessoal com Deus. Essa transformação é uma
resposta ao encontro que teve e representa o início
de uma jornada de fé. O dízimo, neste contexto,
torna-se uma expressão de gratidão e de
compromisso com o Deus que se revelou a ele.

O Dízimo como um Ato de Fé


O voto de Jacó também implica um ato de fé. Ao
prometer dar o dízimo, ele está expressando
confiança em que Deus cumprirá Suas promessas.
Essa fé é um aspecto crucial do dízimo: não se trata
apenas de uma porcentagem do que temos, mas de
um reconhecimento de que tudo o que recebemos é
fruto da provisão divina. O dízimo, então, torna-se
uma prática que fortalece a fé e promove uma
atitude de gratidão.

23
A Importância do Dízimo na Vida do Crente
O exemplo de Jacó ilustra que o dízimo é uma prática
que transcende a Lei e se enraiza em um
relacionamento pessoal com Deus. Para os cristãos
contemporâneos, o dízimo deve ser visto não apenas
como uma obrigação, mas como uma resposta ao
amor e à fidelidade de Deus em suas vidas. Assim
como Jacó, o crente é chamado a reconhecer a
bondade de Deus e a dedicar a Ele uma parte de
suas bênçãos.
A história de Jacó e seu voto de consagração é um
poderoso testemunho da origem do dízimo como
uma prática espiritual enraizada na adoração e na
gratidão. Ao prometer dar o dízimo, Jacó não está
apenas cumprindo uma obrigação, mas expressando
um compromisso de vida com Deus, que se revelará
em sua jornada. Essa narrativa nos convida a refletir
sobre nossas próprias práticas de dízimo e a
considerar como podemos responder à bondade de
Deus em nossas vidas.
O voto de Jacó serve como um lembrete de que,
independentemente de nossas circunstâncias,
podemos sempre nos voltar para Deus com gratidão,
consagrando nossas vidas e nossos bens a Ele. O
dízimo, assim, torna-se não apenas uma questão de
porcentagem, mas um reflexo do nosso coração
diante do Senhor.

24
Capítulo 2: O Dízimo na Lei
Mosaica

A
prática do dízimo se torna formalizada e
sistematizada na Lei Mosaica, onde passa a
ter um papel central na vida do povo de Israel.
A legislação referente ao dízimo, conforme
estabelecida em Levítico, não apenas institucionaliza
essa prática, mas também revela seu propósito e
importância para a manutenção da adoração e do
sustento das lideranças espirituais. Neste capítulo,
examinaremos o dízimo como parte da Lei, focando
em sua função como sustento dos levitas e
sacerdotes, conforme descrito em Levítico 27:30-33.

O Dízimo na Lei Mosaica


O dízimo, que antes era uma prática voluntária dos
patriarcas, torna-se uma exigência legal para o povo
de Israel. De acordo com Levítico 27:30-33, todo o
dízimo da terra, das sementes e do gado pertence ao
Senhor e é consagrado a Ele. Este reconhecimento
de que tudo pertence a Deus é fundamental para
entender o significado do dízimo dentro da Lei.
"Todas as contribuições do dízimo do Senhor são
santas; o dízimo da terra, do fruto da árvore, do gado,

25
e de tudo que passar sob a vara do pastor." (Levítico
27:30-32, NVI).
Aqui estão alguns pontos-chave sobre o dízimo no
contexto da Lei Mosaica:

A Propriedade de Deus
O conceito de dízimo está profundamente enraizado
na ideia de que tudo o que existe pertence a Deus. A
Lei deixa claro que os dízimos são sagrados e
dedicados ao Senhor. Essa visão de propriedade
divina é um princípio fundamental que molda a
relação do povo de Israel com suas posses e com
Deus. Ao dar o dízimo, os israelitas reconhecem que
são mordomos das bênçãos que receberam.

Sustento dos Levitas e Sacerdotes


Um dos principais propósitos do dízimo na Lei Mosaica
é garantir o sustento dos levitas e sacerdotes, que não
tinham herança territorial entre as tribos de Israel. Eles
foram separados para o serviço do Senhor e
dedicados ao ministério. Em Números 18:21, Deus
estabelece que os levitas receberiam os dízimos do
povo em troca de seus serviços no Tabernáculo.
"Eis que eu dei aos filhos de Levi todos os dízimos em
Israel como herança, em recompensa pelo seu
ministério que prestam, o ministério da tenda da
congregação." (Números 18:21, NVI).

26
Isso ilustra a interdependência entre o povo e os
líderes espirituais. Os dízimos não eram apenas uma
questão financeira, mas uma expressão da relação
comunitária que existia entre os israelitas. O sustento
dos levitas e sacerdotes garantiu que o culto a Deus
fosse mantido e que a presença divina continuasse
entre o povo.

O Dízimo como Ato de Adoração


A entrega do dízimo é também um ato de adoração
e devoção. Em Deuteronômio 14:22-23, os israelitas
são instruídos a trazer o dízimo à casa do Senhor, para
que aprendam a temer a Deus e a depender de Sua
provisão. O dízimo se torna um meio de adoração,
uma oportunidade de reconhecer a soberania de
Deus sobre todas as áreas da vida.
"Certamente, separarás todos os dízimos da tua
lavoura, que ano a ano produzires." (Deuteronômio
14:22, NVI).
O ato de trazer o dízimo ao templo reflete a
importância da adoração comunitária e do
reconhecimento público das bênçãos de Deus.

O Dízimo e a Justiça Social


Além de seu propósito de sustentar os levitas e
sacerdotes, o dízimo também está associado a
práticas de justiça social. Em Deuteronômio 14:28-29,

27
é mencionado que, a cada três anos, os dízimos
devem ser armazenados em suas cidades, para que
os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas possam
se beneficiar. Isso demonstra que o dízimo também
cumpre um papel social, promovendo a
solidariedade e o cuidado com os mais necessitados.
"E ao terceiro ano, que é o ano do dízimo, o trarás e o
deixarás em suas cidades. Então virá o levita, pois não
tem parte nem herança contigo, e o estrangeiro, e o
órfão, e a viúva, que estão em tuas cidades, e
comerão e se fartarão, para que o Senhor, teu Deus,
te abençoe em toda a obra das tuas mãos."
(Deuteronômio 14:28-29, NVI).
Essa ênfase na responsabilidade social mostra que o
dízimo não é apenas uma questão de sustento, mas
também de justiça e compaixão.

O Dízimo e a Promessa de Bênçãos


Em Malaquias 3:10, Deus convida o povo a trazer
todos os dízimos à casa do tesouro, prometendo
bênçãos em abundância. Essa passagem destaca a
conexão entre a fidelidade ao dízimo e a experiência
da generosidade de Deus. O dízimo é visto como um
teste de fé, onde a obediência traz consequências
espirituais e materiais.
"Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que
haja mantimento na minha casa; e depois fazei prova
28
de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir
as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção
sem medida." (Malaquias 3:10, NVI).
Essa promessa não apenas motiva a prática do
dízimo, mas também reforça a ideia de que a
generosidade de Deus é uma resposta à fidelidade
do Seu povo.
O dízimo, na Lei Mosaica, é uma prática rica em
significado e propósito. Ele é um reconhecimento da
soberania de Deus, um sustento para os líderes
espirituais, um ato de adoração, uma ferramenta
para promover a justiça social e uma oportunidade
para experimentar a generosidade de Deus. Essa
prática, que começou como uma expressão
voluntária de gratidão, torna-se uma parte vital da
vida comunitária de Israel, refletindo a
interdependência entre o povo e suas lideranças
espirituais.

Dízimos no Sistema de Justiça Social de Israel: Ajuda


aos Pobres, Órfãos e Viúvas (Deuteronômio 14:22-29)
O dízimo, conforme revelado nas Escrituras, assume
uma importância que transcende o ato de dar. No
contexto da Lei Mosaica, especialmente em
Deuteronômio 14:22-29, percebemos que a prática
do dízimo é intimamente ligada à justiça social. A
ordenança de separar uma parte das colheitas para

29
o sustento dos necessitados, incluindo os pobres,
órfãos e viúvas, revela o coração de Deus, que se
preocupa com os vulneráveis em meio ao Seu povo.
A instrução dada em Deuteronômio é clara: os
israelitas devem trazer o dízimo à casa do Senhor,
reconhecendo assim a providência divina. No
entanto, esse ato não se limita a uma obrigação
religiosa, mas se torna uma expressão concreta de
amor e solidariedade. A prática do dízimo se insere
em um contexto mais amplo de responsabilidade
coletiva, onde cada membro da comunidade tem
um papel ativo na assistência aos necessitados. O
mandamento de armazenar o dízimo a cada três
anos para os levitas e para os que carecem reflete
uma preocupação genuína com a justiça social, um
traço distintivo do caráter de Deus.
Quando olhamos para a comunidade israelita, vemos
que o cuidado com os marginalizados é um princípio
fundamental. O dízimo, portanto, serve como um
meio pelo qual a comunidade expressa sua
solidariedade, garantindo que os mais necessitados
tenham acesso ao sustento. Essa prática não apenas
promove a justiça, mas também edifica um ambiente
de compaixão e amor mútuo, no qual a comunidade
se vê como um corpo interdependente.
É também essencial observar que a promessa de
bênçãos está ligada à prática do dízimo. Deus, em
30
Deuteronômio 14:29, assegura que aqueles que
obedecem a Seus mandamentos experimentarão
Sua graça e favor. Essa conexão entre obediência e
generosidade nos convida a refletir sobre nossa
própria disposição em dar. O dízimo, em última
análise, é uma expressão de fé, um reconhecimento
de que todas as coisas pertencem a Deus e que
somos apenas mordomos de Suas bênçãos.
A prática do dízimo, nesse sentido, não deve ser vista
como uma mera obrigação, mas como uma
oportunidade de vivermos a fé em ação. Ao
olharmos para o Novo Testamento, vemos que a
generosidade do cristão deve ir além da
porcentagem estabelecida. Em uma comunidade
onde o amor prevalece, a pergunta a ser feita não é
“quanto devo dar?”, mas “como posso usar os
recursos que Deus me confiou para glorificá-Lo e
abençoar aos outros?”.
Assim, o dízimo se insere em um contexto de justiça
social que ainda é relevante para nós hoje. À medida
que refletimos sobre nossas práticas financeiras e
nossa responsabilidade como cristãos, somos
desafiados a abraçar a generosidade e a
solidariedade como princípios que regem nossa vida
comunitária. O chamado de Deus é claro: sejamos
instrumentos de Sua justiça, cuidando dos que estão

31
em necessidade e manifestando Seu amor por meio
de ações concretas.

A Importância do Princípio de Santidade no


Dízimo na Lei Mosaica
No contexto da Lei Mosaica, o dízimo é apresentado
não apenas como uma prática obrigatória, mas
como um princípio fundamental que reflete a
santidade de Deus e a responsabilidade do Seu povo.
Em Levítico 27:30-33, a Escritura nos ensina que o
dízimo pertence ao Senhor e é considerado santo.
Essa noção de santidade não é meramente uma
designação, mas uma chamada à ação e à reflexão
sobre a natureza do ato de dar e sobre o coração
que deve acompanhá-lo.
O princípio da santidade no dízimo é um
reconhecimento de que tudo o que temos é
resultado da provisão divina. Quando o israelita
separa 10% de suas colheitas ou rendimentos, ele não
está apenas cumprindo uma obrigação; está
afirmando que Deus é o proprietário de todas as
coisas. Esse ato de dedicação nos leva a entender
que nosso compromisso com o dízimo reflete a nossa
adoração a Deus e a nossa dependência d'Ele.
Assim, o dízimo se torna um meio de expressar
gratidão e reverência pelo que Ele nos concedeu.

32
A santidade do dízimo exige uma abordagem
cuidadosa. Em Malaquias 1:6-8, vemos que Deus não
aceita ofertas que são apresentadas de qualquer
maneira. Isso nos ensina que a atitude e a intenção
por trás da entrega do dízimo são tão importantes
quanto o valor em si. A prática do dízimo deve ser
feita com um coração puro, que busca honrar a Deus
com o melhor que temos. Esse princípio de santidade
nos leva a examinar a qualidade de nossas ofertas e
a nossa disposição em dar.
Além disso, a santidade do dízimo implica
responsabilidade. A Lei Mosaica não apenas ordena
que o dízimo seja separado, mas também especifica
como esses recursos devem ser usados. Parte do
dízimo é destinada ao sustento dos levitas e
sacerdotes, conforme descrito em Levítico 27:30-33.
Isso demonstra que o dízimo não é apenas um ato
individual, mas uma prática que sustenta a
comunidade de fé e promove a adoração a Deus.
Quando os israelitas se comprometem a entregar
seus dízimos, eles estão participando ativamente da
missão de Deus e cuidando do bem-estar da sua
comunidade.
Esse aspecto comunitário é vital para a compreensão
do dízimo como uma expressão de justiça social. Em
Deuteronômio 14:22-29, a ordenança de ajudar os
pobres, órfãos e viúvas através do dízimo destaca a

33
responsabilidade coletiva de cuidar dos
necessitados. O dízimo, portanto, é uma ferramenta
que Deus utiliza para promover a justiça e a
solidariedade entre Seu povo. Quando a
comunidade se une para cuidar dos vulneráveis, ela
reflete o caráter de Deus, que se preocupa com os
que estão em necessidade.
Por fim, a prática do dízimo, à luz do princípio de
santidade, também nos ajuda a desenvolver um
coração generoso. Reconhecer que o que temos é
um presente de Deus nos encoraja a não apenas
cumprir a obrigação do dízimo, mas a considerar
como podemos usar nossos recursos para a glória de
Deus e o bem do próximo. Essa generosidade
transcende a porcentagem estabelecida e nos
convida a viver uma vida de entrega e dedicação.

34
Capítulo 3: Profetas e o Dízimo:
Obediência e Aliança

M
alaquias, o último dos profetas do Antigo
Testamento, traz uma mensagem incisiva
sobre a importância do dízimo, revelando a
relação direta entre a obediência à Lei de Deus e a
saúde espiritual do povo de Israel. Ao acusar os
israelitas de roubar a Deus, Malaquias não se limita a
criticar a falta de entrega financeira; ele aponta para
uma condição de desvio espiritual que afeta toda a
nação. A afirmação contundente, "Roubará o
homem a Deus? Todavia, vós me roubais" (Malaquias
3:8), revela a profundidade do relacionamento
quebrado entre Deus e Seu povo, um relacionamento
baseado em aliança que exigia fidelidade e
adoração genuína.
Neste contexto, o dízimo emerge como um sinal visível
da obediência e da reverência que o povo deveria
ter para com seu Criador. A entrega de 10% das
colheitas e dos ganhos não era apenas uma
obrigação legal; era um reconhecimento da
soberania de Deus sobre todas as coisas. Os israelitas,
ao reterem o dízimo, não estavam apenas privando
os levitas e sacerdotes do sustento, mas também
rompendo o pacto que Deus havia estabelecido

35
com eles. Essa desobediência resultava em
consequências diretas: "Com maldição estais
amaldiçoados, porque me roubais" (Malaquias 3:9). A
maldição não era apenas uma penalidade, mas uma
manifestação do afastamento da bênção divina que
era a própria essência da vida do povo.
Malaquias nos apresenta uma proposta ousada: a de
que o povo de Israel poderia experimentar a
fidelidade de Deus se retornasse a Ele com
sinceridade. Ele os desafia, dizendo: "Trazei todos os
dízimos à casa do tesouro... e depois fazei prova de
mim" (Malaquias 3:10). Essa chamada à ação não é
uma simples instrução sobre doações; é um convite a
reavaliar o relacionamento deles com Deus. A
promessa de que Deus abriria as janelas dos céus e
derramaria bênçãos sem medida é um testemunho
da generosidade divina que responde à fidelidade
do Seu povo.
O dízimo, então, se torna um símbolo de restauração
espiritual. Quando os israelitas se comprometem a
cumprir essa prática, eles não apenas demonstram
obediência, mas também reconstroem a aliança
com Deus. O ato de dar, portanto, se transforma em
uma expressão de adoração. A entrega deve ser
feita com o coração alegre, refletindo uma
compreensão profunda do amor e da graça que
Deus tem por Seu povo. Assim, a prática do dízimo é

36
mais do que uma mera questão financeira; é uma
questão de fé e devoção.
Além disso, a proteção que Deus promete ao Seu
povo, ao repreender o devorador (Malaquias 3:11),
evidencia a conexão entre a obediência e o cuidado
divino. Ao trazer o dízimo à casa do tesouro, o povo
não apenas sustenta os ministros de Deus, mas
também fortalece a própria comunidade de fé. O
cumprimento do dízimo é, portanto, uma forma de
garantir a saúde espiritual e material da nação,
refletindo a intenção de Deus de cuidar de Seu povo
e de prover suas necessidades.
O chamado de Malaquias é, portanto, um convite à
restauração, uma exortação à unidade e à
fidelidade. O retorno à prática do dízimo representa
um passo significativo na jornada espiritual do povo.
Essa prática deve ser vista não como um fardo, mas
como uma oportunidade de experimentar a
bondade e a generosidade de Deus. Quando o povo
se une em obediência, não apenas reafirma sua
aliança com o Senhor, mas também experimenta a
alegria de estar em comunhão com Ele.
A mensagem de Malaquias sobre o dízimo, longe de
ser uma mera instrução financeira, revela o coração
de Deus em relação ao Seu povo. É um lembrete de
que a obediência a Deus em todas as áreas da vida,
incluindo as finanças, é essencial para manter um
37
relacionamento saudável com o Criador. À medida
que o povo se volta para Deus, reconhecendo Suas
bênçãos e cumprindo com o dízimo, eles não apenas
garantem sustento para os servos de Deus, mas
também abrem as portas para uma vida abundante
e cheia da presença de Deus.

A Correlação entre Bênçãos e Maldições: O


Dízimo e o Pacto com Deus
O livro de Malaquias nos ensina sobre a
interdependência entre a prática do dízimo e a
fidelidade à aliança com Deus, revelando uma
profunda conexão entre bênçãos e maldições. Ao
abordar a desobediência do povo de Israel, o profeta
enfatiza que a retenção do dízimo não é apenas uma
falha financeira, mas um ato de rebeldia contra o
pacto que Deus estabeleceu com Seu povo. Essa
desobediência resulta em uma maldição, que se
manifesta na ausência das bênçãos divinas
prometidas. A declaração de Malaquias, “Com
maldição estais amaldiçoados, porque me roubais”
(Malaquias 3:9), é um alerta claro sobre as
consequências de se desviar dos princípios que
sustentam a relação entre Deus e os israelitas.
O dízimo, então, torna-se um símbolo da aliança, um
ato que representa não apenas a obediência, mas a
confiança em Deus como provedor. Quando o povo

38
traz seus dízimos à casa do Senhor, eles reafirmam seu
compromisso com a aliança e abrem-se à
experiência das bênçãos que Deus promete.
Malaquias, ao desafiar os israelitas a “fazer prova de
mim” (Malaquias 3:10), os convida a testemunhar a
fidelidade divina em resposta à sua obediência. Essa
promessa de bênçãos, que inclui a abundância e a
proteção de Deus, é um convite para que o povo
experimente a generosidade divina.
A relação entre dízimo e aliança não é apenas um
conceito do Antigo Testamento, mas também se
estende ao Novo Testamento, onde o princípio da
generosidade é reiterado. Jesus, em Seus
ensinamentos, frequentemente relacionava a
disposição do coração em dar com a experiência da
bênção de Deus. Ele não aboliu o dízimo, mas
chamou Seus seguidores a uma vida de
generosidade que vai além do cumprimento de uma
obrigação. Essa continuidade nos mostra que o
dízimo é parte de uma prática mais ampla de
devoção e mordomia.
Quando o povo de Deus se compromete com o
dízimo, não apenas sustenta a obra do ministério, mas
também experimenta a segurança e a proteção que
vêm da obediência ao pacto. A maldição, por outro
lado, não se limita a uma consequência externa, mas
é uma ruptura no relacionamento com Deus, que

39
resulta na perda da proteção e das bênçãos
prometidas. Assim, o dízimo deve ser entendido como
um elemento vital na vida espiritual do crente, uma
prática que reflete a postura de coração que Deus
deseja em Seus adoradores.
Portanto, a correlação entre bênçãos e maldições é
clara: a obediência ao princípio do dízimo é uma
resposta ao chamado de Deus para vivermos em
comunhão com Ele. O que se vê nas Escrituras é um
padrão divino: a fidelidade em pequenas coisas,
como o dízimo, resulta em bênçãos maiores. Assim, o
chamado de Malaquias permanece relevante: que o
povo se volte para Deus, não apenas em palavras,
mas em ações concretas, reafirmando sua aliança
por meio da prática do dízimo e, assim, abrindo-se à
generosidade divina que transforma vidas e
comunidades.

40
Capítulo 4: O Dízimo no Novo
Testamento

Jesus e os fariseus: A correção do formalismo


do dízimo (Mateus 23:23)

N
o Novo Testamento, a questão do dízimo é
abordada por Jesus em um contexto que
revela a tensão entre a verdadeira adoração
e o formalismo religioso. Em Mateus 23:23, Jesus critica
os fariseus, que, embora cumprissem
meticulosamente a prática do dízimo, falhavam em
viver os princípios mais profundos da lei. Ele diz: “Ai de
vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o
dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e deixais
de lado o mais importante da lei: a justiça, a
misericórdia e a fé. ”
Essa passagem ilumina uma verdade crucial: o
dízimo, por si só, não é suficiente para agradar a Deus
se não for acompanhado por uma vida de justiça e
compaixão. Os fariseus se tornaram tão focados em
suas obrigações ritualísticas que perderam de vista a
essência daquilo que Deus realmente deseja de Seu
povo. O ato de dar o dízimo transformou-se em uma
mera formalidade, uma prática mecânica que os
levava a se considerar justos diante de Deus,

41
enquanto negligenciavam a verdadeira
espiritualidade.
Jesus não condena a prática do dízimo em si, mas
denuncia a hipocrisia que a cercava. Ele reconhece
que o dízimo é uma parte importante da vida
religiosa, mas destaca que a verdadeira adoração
não se limita à observância de regras. O que Deus
procura é um coração transformado, que busca viver
os princípios da lei em todas as áreas da vida. A
justiça, a misericórdia e a fé são aspectos essenciais
da vida cristã que não podem ser ignorados em
nome da observância ritual.
Além disso, a correção de Jesus aos fariseus nos leva
a refletir sobre como a prática do dízimo deve ser
entendida no contexto da nova aliança. O cristão é
chamado não apenas a dar, mas a dar com um
coração generoso, motivado pelo amor e pela
gratidão. O apóstolo Paulo, em 2 Coríntios 9:7,
enfatiza que “cada um dê conforme propôs em seu
coração, não com tristeza ou por necessidade,
porque Deus ama quem dá com alegria. ” Essa
abordagem eleva o dízimo a um ato de adoração e
gratidão, que deve fluir naturalmente da
transformação que ocorre na vida do crente.
Assim, ao examinarmos a relação de Jesus com o
dízimo e com os fariseus, somos desafiados a avaliar
nossa própria prática. O dízimo não é apenas um
42
dever, mas uma expressão de nossa fidelidade e
gratidão ao Senhor. Ele deve ser visto como parte de
uma vida mais ampla de devoção, que reflete o
caráter de Cristo e a missão de amor que Ele nos
confiou. Portanto, o chamado de Jesus para uma
verdadeira adoração deve nos levar a viver o dízimo
não apenas como um percentual de nossas finanças,
mas como um reflexo de um coração transformado,
que busca glorificar a Deus em todas as coisas.

Generosidade além do dízimo: O princípio


da oferta voluntária (Lucas 21:1-4)
A generosidade cristã é uma expressão que
transcende o simples cumprimento do dízimo. O
relato de Lucas 21:1-4, onde Jesus observa os ricos
colocando suas ofertas no cofre do templo e destaca
a contribuição de uma viúva pobre, ilustra de
maneira poderosa o princípio da oferta voluntária.
Enquanto muitos lançam grandes quantias, a viúva,
com sua pequena moeda, oferece tudo o que tinha,
e é essa atitude que Jesus exalta.
Esse episódio revela uma verdade fundamental: Deus
se importa mais com a disposição do coração do que
com a quantia que se oferece. A viúva, mesmo
diante de suas limitações, demonstra uma confiança
plena na providência divina. Sua oferta é um reflexo
de fé genuína e amor por Deus, algo que vai além do

43
dízimo, que poderia ser visto como uma obrigação.
Aqui, a generosidade é apresentada como um ato
de adoração que flui da compreensão de que tudo
o que possuímos pertence ao Senhor.
Além disso, o princípio da oferta voluntária ensina que
a generosidade deve ser motivada por amor e
gratidão, não por obrigação. Em 2 Coríntios 9:7, Paulo
ensina que “cada um dê conforme propôs em seu
coração, não com tristeza ou por necessidade,
porque Deus ama quem dá com alegria.” Esse espírito
de generosidade é fundamental na vida do cristão,
pois expressa um relacionamento dinâmico e pessoal
com Deus.
A generosidade também se estende a outras áreas
da vida, como o tempo, os talentos e a compaixão
pelo próximo. É um reflexo da graça que recebemos
em Cristo e deve ser manifestada em todas as
interações com os outros. Assim, a prática da oferta
voluntária não se limita às finanças, mas se torna uma
maneira de viver, onde cada ato de bondade e
cada recurso utilizado para o bem do próximo é uma
expressão do amor de Deus.
Portanto, a generosidade cristã, que vai além do
dízimo, nos convida a um estilo de vida de gratidão e
entrega. Ao observar a viúva pobre, somos
desafiados a avaliar nossa própria disposição em dar.
A verdadeira generosidade não se mede pela
44
quantia, mas pela disposição do coração em confiar
em Deus e em compartilhar o que temos com alegria.
Assim, a oferta voluntária se torna uma poderosa
expressão da nossa fé e um testemunho do amor que
recebemos e que somos chamados a refletir em
nossas vidas.

O Dízimo como Princípio Espiritual na Nova


Aliança
O conceito de dízimo, presente na história do povo
de Deus desde o Antigo Testamento, encontra sua
plena expressão na Nova Aliança, onde ele é
transformado de uma obrigação legal em um
princípio espiritual que reflete a profundidade da fé e
da relação com o Senhor. Para entender essa
transição, é necessário examinar como o dízimo
evolui desde a Lei Mosaica até a prática cristã
ensinada por Jesus e os apóstolos.
No Antigo Testamento, conforme vimos nos capítulos
anteriores, o dízimo era estabelecido como parte da
Lei de Moisés, servindo como um meio de sustento dos
levitas, sacerdotes e também para o cuidado dos
necessitados (Levítico 27:30-33; Deuteronômio 14:22-
29). No sistema de justiça de Israel, o dízimo não era
meramente uma prática financeira, mas uma
expressão da aliança com Deus, um ato que
demonstrava fidelidade àquilo que Ele havia

45
ordenado. O cumprimento correto do dízimo
mantinha o pacto e assegurava as bênçãos,
enquanto o desvio dessa prática trazia maldições,
como ilustrado no profeta Malaquias (Malaquias 3:8-
12). Deus condena o povo por roubar o dízimo e
oferece uma promessa de restauração e bênçãos se
voltarem à prática correta, usando a figura do
"devorador" como símbolo das consequências de sua
desobediência.
Essa estrutura da Lei, no entanto, tinha um caráter
pedagógico. Ela revelava tanto a santidade de Deus
quanto a incapacidade humana de cumpri-la
perfeitamente. Quando chegamos ao Novo
Testamento, vemos Jesus corrigindo o formalismo dos
fariseus em Mateus 23:23. Embora eles fossem
meticulosos no cumprimento do dízimo,
negligenciavam aspectos mais profundos da Lei,
como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Aqui,
Jesus não rejeita a prática do dízimo, mas a coloca
em perspectiva: o dízimo, sem um coração
verdadeiramente obediente e misericordioso, é vazio
de sentido. Ele introduz, assim, uma transição
importante entre a antiga aliança baseada na
observância da Lei e a nova aliança, onde o foco
está no coração e na graça.
A Nova Aliança, estabelecida por meio do sacrifício
de Cristo, não abandona os princípios do dízimo, mas

46
os transforma. O apóstolo Paulo, em 2 Coríntios 9:6-8,
ensina que o dar não deve ser por obrigação, mas
por um coração alegre e voluntário. Aqui, a lógica é
a mesma que encontramos em Lucas 21:1-4, na
oferta da viúva pobre: o valor dado não é o mais
importante, mas a disposição do coração. A oferta
deve ser uma resposta à generosidade de Deus.
Na Nova Aliança, o dízimo é entendido como parte
de uma vida de gratidão e generosidade. Não mais
visto apenas como uma lei que precisa ser cumprida
para evitar maldições, ele se torna uma prática
voluntária que reflete o coração transformado pelo
evangelho. O dízimo, portanto, permanece um
princípio espiritual, mas sua aplicação é ampliada —
é um ato de fé que demonstra que o cristão
reconhece Deus como provedor e vive para o
avanço de Seu Reino.
A ponte entre o Antigo e o Novo Testamento se
estabelece, portanto, na transição de um
cumprimento legal para um princípio espiritual.
Enquanto o dízimo na Lei Mosaica servia como
símbolo de obediência e pacto, na Nova Aliança ele
se torna uma expressão da confiança em Deus e do
comprometimento com o avanço do Reino, não por
obrigação, mas por amor e gratidão.
Essa mudança de perspectiva amplia o papel do
dízimo na vida cristã, tornando-o um reflexo da nossa
47
aliança com Deus por meio de Cristo. O que antes era
uma exigência da Lei, agora se torna um convite
para participar da obra de Deus com generosidade
e alegria, consciente de que o Senhor é quem supre
todas as nossas necessidades.

A Conexão com Abraão


O dízimo na Nova Aliança não é apenas uma prática
que deriva da Lei de Moisés; sua profundidade
espiritual encontra raízes ainda mais antigas,
remontando ao tempo de Abraão. O exemplo de
Abraão, que ofereceu dízimo a Melquisedeque
(Gênesis 14:18-20), é essencial para entender como o
dízimo transcende a Lei e se conecta diretamente à
aliança de fé entre Deus e Seu povo.
Abraão deu o dízimo antes da existência da Lei
Mosaica. Isso nos mostra que o dízimo, em sua
essência, não é uma mera prescrição legal, mas um
ato de adoração e reconhecimento da soberania de
Deus. Abraão, ao oferecer voluntariamente a décima
parte do despojo da batalha ao sacerdote
Melquisedeque, estava reconhecendo que a vitória
e tudo o que possuía vinham de Deus. Este é o ponto
crucial: o dízimo, já desde o tempo dos patriarcas, era
um sinal de gratidão e de fé, expressando
dependência do Senhor e Seu governo sobre todas
as coisas.

48
Essa prática anterior à Lei, portanto, estabelece uma
conexão importante entre o Antigo e o Novo
Testamento. Ao contrário do dízimo que seria
formalizado na Lei de Moisés, o dízimo de Abraão não
foi dado por imposição legal, mas por uma resposta
espontânea à bênção divina. Isso faz de Abraão uma
figura fundamental para compreendermos o dízimo
na Nova Aliança, pois, assim como ele, os cristãos são
chamados a dar não por obrigação, mas por
gratidão e fé.
No livro de Hebreus, o autor conecta diretamente o
ato de Abraão com a nova realidade em Cristo
(Hebreus 7:1-10). Ao mencionar Melquisedeque
como uma figura de Cristo, o autor demonstra que o
sacerdócio de Melquisedeque, ao qual Abraão deu
o dízimo, é superior ao sacerdócio levítico. O que isso
significa para o entendimento do dízimo na Nova
Aliança? Significa que o dízimo não é um princípio
restrito à Lei Mosaica, mas se baseia em algo muito
mais profundo: a fé em um Deus que providencia,
abençoa e é digno de nossa honra e adoração.
Na Nova Aliança, o dízimo se transforma em um
princípio espiritual, refletindo a fé de Abraão. Assim
como ele deu o dízimo em resposta à bênção divina
e ao reconhecimento da autoridade de Deus, os
cristãos também são chamados a viver essa prática
como um ato de adoração e gratidão, e não

49
simplesmente como uma obrigação legal. Em vez de
ser um cumprimento da Lei, o dízimo na Nova Aliança
é um símbolo de que o cristão reconhece que tudo
vem de Deus e de que ele está em uma aliança
baseada na graça e não na obrigação.
Portanto, o dízimo de Abraão fornece uma ponte
natural entre o Antigo e o Novo Testamento. Ele
mostra que o princípio do dízimo precede a Lei e, ao
fazê-lo, abre espaço para a prática cristã do dízimo
como um reflexo da fé, e não de imposição. Isso dá
continuidade ao conceito que Paulo apresenta em 2
Coríntios 9:6-8, onde a generosidade deve fluir de um
coração cheio de fé e alegria, em vez de um
cumprimento rigoroso da Lei. Dessa maneira, o dízimo
na Nova Aliança ecoa o coração de Abraão — uma
expressão de confiança na providência divina e de
reconhecimento de que tudo o que possuímos
pertence ao Senhor.
Em conclusão, o dízimo dado por Abraão antes da Lei
serve como um modelo para os cristãos na Nova
Aliança. Ele demonstra que o princípio espiritual do
dízimo está fundamentado na fé e na resposta às
bênçãos de Deus, e não em uma mera obrigação
legal. Assim, o dízimo na Nova Aliança continua a ser
uma prática válida e poderosa, conectando a vida
do crente com o exemplo de Abraão e o chamado

50
à generosidade que transcende o formalismo da Lei
Mosaica.

51
Capítulo 5: A Teologia do Dízimo e a
Igreja

O Dízimo na Vida da Igreja Primitiva

A
igreja primitiva, como registrada no Novo
Testamento, apresenta uma abordagem
notável em relação à generosidade e à
administração dos bens. Embora o dízimo em si não
seja diretamente mencionado como uma prática
formal entre os primeiros cristãos, o espírito de
generosidade que permeava a comunidade reflete
uma continuidade dos princípios espirituais vistos
anteriormente, inclusive no dízimo dado por Abraão e
na Lei Mosaica.
Nos primeiros capítulos de Atos, observamos uma
comunidade que vivia em intensa comunhão,
compartilhando tudo o que possuíam (Atos 2:44-45).
Os crentes vendiam suas propriedades e bens e
distribuíam os recursos de acordo com as
necessidades de cada um. Essa disposição radical de
partilhar e cuidar uns dos outros indica que a igreja
primitiva compreendia o princípio da mordomia — o
reconhecimento de que tudo pertence a Deus e
deve ser usado para o benefício de Seu povo.

52
Este modelo de generosidade vai além da prática do
dízimo como visto na Lei Mosaica. No entanto, a
motivação por trás da doação — gratidão,
adoração e cuidado com os necessitados —
permanece a mesma. O dízimo, na tradição do
Antigo Testamento, era uma maneira de sustentar os
levitas, sacerdotes e os mais vulneráveis. Na igreja
primitiva, vemos esse princípio expandido: as ofertas
não eram limitadas a uma porcentagem específica,
mas a generosidade ia até o ponto de suprir todas as
necessidades dentro da comunidade.
Isso não significa que o dízimo foi abandonado, mas
sim que o entendimento sobre o uso dos bens se
aprofundou. A igreja primitiva não via a contribuição
como uma obrigação formal, mas como uma
expressão do amor mútuo e da fé em Cristo. Tal
espírito de generosidade reflete o ensino de Jesus em
Mateus 23:23, quando Ele criticou os fariseus por
darem o dízimo meticulosamente, mas
negligenciarem a justiça e a misericórdia. A igreja
primitiva procurava aplicar ambos — o princípio da
doação e o coração transformado que prioriza o
bem-estar dos outros.
Este modelo de vida em comunidade revela que o
princípio espiritual do dízimo — dar uma parte dos
recursos como reconhecimento de que tudo
pertence a Deus — continuou a ser praticado, mas

53
em uma forma ainda mais generosa e abrangente.
Esse espírito de doação voluntária, guiado pelo
Espírito Santo, levou a igreja a viver uma vida
marcada pela generosidade, onde os recursos eram
redistribuídos de acordo com as necessidades do
corpo de Cristo.
Dessa maneira, o dízimo na vida da igreja primitiva
não era apenas uma prática financeira, mas parte de
um movimento maior de solidariedade, amor e
confiança na providência de Deus. Embora não se
veja uma imposição legal do dízimo como havia na
Lei Mosaica, o princípio por trás da prática — a
generosidade sacrificial — permaneceu presente e
vibrante, transformando a vida da comunidade
cristã.

Generosidade e Mordomia: Responsabilidade Cristã


no Sustento da Obra de Deus
Na teologia cristã, a generosidade e a mordomia
estão intrinsecamente ligadas à responsabilidade do
crente no sustento da obra de Deus. Desde o Antigo
Testamento, o povo de Deus foi chamado a
reconhecer que tudo o que possui vem do Senhor e,
portanto, deve ser usado para a glória d'Ele. Este
princípio é claramente refletido no dízimo, mas, na
Nova Aliança, ele se expande para abranger uma
vida inteira de mordomia fiel e generosa.

54
Mordomia, na perspectiva bíblica, implica que o
cristão é um administrador dos bens que Deus lhe
confiou. Isso inclui não apenas o dinheiro, mas
também o tempo, os talentos e todos os recursos que
possuímos. Assim como o dízimo no Antigo
Testamento era um sinal de fidelidade e obediência,
a generosidade no Novo Testamento é um reflexo de
um coração transformado pela graça de Deus.
Paulo, em 2 Coríntios 9:6-8, ensina que o cristão deve
dar “conforme tiver proposto no coração”, de forma
voluntária e alegre, pois “Deus ama quem dá com
alegria. ” Aqui, a oferta não é uma simples transação
financeira, mas uma expressão da fé e do
reconhecimento de que Deus é o dono de todas as
coisas. Quando o cristão oferece para o sustento da
obra de Deus, ele está, na verdade, declarando sua
confiança na provisão divina e sua disposição de
investir no avanço do Reino.
A responsabilidade cristã no sustento da igreja e do
trabalho missionário também reflete o compromisso
do crente com a missão de Deus no mundo. O dízimo
e as ofertas não são apenas para manter as estruturas
eclesiásticas, mas para garantir que a mensagem do
evangelho continue a ser pregada, os necessitados
sejam cuidados, e a justiça de Deus seja promovida.
Portanto, a generosidade e a mordomia andam de
mãos dadas na vida do cristão. Elas não são meros
55
deveres, mas oportunidades de participar
ativamente do plano redentor de Deus. Ao sustentar
a obra de Deus, o crente reconhece que tudo o que
possui vem d'Ele e que seu papel é ser um canal por
meio do qual os recursos são usados para glorificar o
Senhor e abençoar o próximo.

Dízimo e Ofertas: Semelhanças e Diferenças


à Luz do Novo Testamento
No Novo Testamento, tanto o dízimo quanto as ofertas
ocupam um lugar importante na vida espiritual dos
crentes, mas são apresentados com diferentes
nuances e ênfases em relação ao Antigo Testamento.
Embora o dízimo continue a ser um princípio válido, as
ofertas voluntárias recebem uma maior centralidade,
refletindo a nova realidade da graça em Cristo e o
papel do coração generoso.

Semelhanças
Tanto o dízimo quanto as ofertas no Novo Testamento
compartilham o objetivo de sustentar a obra de Deus
e ajudar os necessitados. O princípio de dar para
suprir as necessidades dos mais vulneráveis, como
viúvas e órfãos, visto no Antigo Testamento
(Deuteronômio 14:29), permanece presente na nova
comunidade cristã, como evidenciado em
passagens como Atos 4:34-35. Assim, o dízimo e as
ofertas continuam a expressar uma fidelidade a Deus

56
e uma responsabilidade mútua dentro do corpo de
Cristo.
Ambos os atos refletem o reconhecimento de que
tudo o que possuímos pertence ao Senhor e que a
generosidade é uma resposta ao Seu cuidado
providencial. Seja pelo dízimo ou pela oferta, o crente
é chamado a contribuir com alegria, reconhecendo
que sua contribuição é um reflexo da sua fé em Deus
como o grande provedor.

Diferenças
A principal diferença entre dízimo e ofertas no Novo
Testamento está na motivação e na flexibilidade em
relação às quantidades. O dízimo, historicamente
uma décima parte das posses ou renda, era uma
obrigação clara sob a Lei Mosaica, enquanto as
ofertas voluntárias não seguiam uma porcentagem
rígida. Jesus, ao corrigir o formalismo do dízimo entre
os fariseus (Mateus 23:23), reforça a importância de
uma motivação correta — justiça, misericórdia e fé
devem estar no coração da prática do dízimo e da
oferta.
Nas epístolas, especialmente nas cartas de Paulo,
vemos a ênfase nas ofertas voluntárias como sendo
mais uma expressão do amor cristão do que uma
imposição legal (2 Coríntios 9:7). Os crentes são
incentivados a dar conforme suas capacidades, não

57
por obrigação, mas por alegria e gratidão,
reconhecendo as necessidades da igreja e do
próximo.
Em suma, o Novo Testamento amplia a compreensão
da generosidade além do dízimo estrito, ensinando
que as ofertas não são apenas adicionais, mas parte
integral da vida de fé. O coração generoso é mais
importante do que a quantia fixa, refletindo a
liberdade e a responsabilidade que a graça traz ao
crente.
Portanto, embora o dízimo mantenha seu lugar como
um princípio espiritual, as ofertas se destacam no
Novo Testamento como uma forma ampliada de
adoração, vinculada à generosidade que vai além
de obrigações legais e espelha a nova vida em Cristo.

58
Capítulo 6: O Dízimo Hoje: Aplicações
Práticas

O Dízimo na Vida do Cristão Moderno:


Mandamento ou Princípio?

A
questão do dízimo no cristianismo
contemporâneo frequentemente suscita
debates sobre sua natureza: seria ele um
mandamento a ser rigorosamente seguido, ou um
princípio espiritual mais amplo? Essa pergunta reflete
a tensão entre as tradições herdadas do Antigo
Testamento e a liberdade que o Novo Testamento
oferece na vida cristã.
No Antigo Testamento, o dízimo era claramente
estabelecido como uma parte obrigatória da Lei,
instituído como um meio de sustentar o culto, os
sacerdotes e os necessitados na sociedade israelita.
A décima parte das colheitas e dos rebanhos era
dedicada ao Senhor, não apenas como uma oferta
de gratidão, mas também como um reconhecimento
da soberania de Deus sobre todas as coisas.
Já no Novo Testamento, embora o dízimo não seja
apresentado como um mandamento formal, o
princípio da generosidade, da mordomia e do
cuidado com a obra de Deus e com os necessitados

59
permanece central. Jesus, ao confrontar os fariseus
em Mateus 23:23, destaca a importância de não
negligenciar o dízimo, mas ao mesmo tempo critica o
formalismo vazio, apontando para um coração que
valoriza a justiça, a misericórdia e a fé. Isso nos faz
refletir que, no cristianismo, a motivação por trás do
ato de ofertar é tão importante quanto o próprio ato.
Assim, na vida do cristão moderno, o dízimo não deve
ser visto como um peso legalista, mas como uma
prática que reflete princípios espirituais eternos:
gratidão, confiança em Deus e comprometimento
com o avanço do Reino. Para muitos, o dízimo
continua a ser um ponto de partida válido, uma
maneira de disciplinar o coração na generosidade.
No entanto, a ênfase do Novo Testamento se desloca
da porcentagem para o espírito de voluntariedade e
alegria no dar (2 Coríntios 9:7). A oferta é uma
expressão de fé na provisão de Deus e uma forma de
participar da missão divina no mundo.
Portanto, o dízimo, na vida do cristão moderno, pode
ser entendido mais como um princípio do que um
mandamento rígido. Ele é um meio pelo qual os
crentes expressam sua fidelidade ao Senhor, mas,
acima de tudo, é uma oportunidade de cultivar um
coração generoso e disposto a sustentar a obra de
Deus, sem se apegar à quantia, mas à intenção de
honrar a Deus e abençoar os outros.

60
A Responsabilidade Financeira do Cristão com a
Igreja Local
No contexto da vida cristã, a responsabilidade
financeira com a igreja local reflete tanto um ato de
obediência quanto de compromisso com a missão de
Deus no mundo. A igreja, como comunidade do povo
de Deus, é o principal veículo pelo qual o evangelho
é proclamado, os crentes são discipulados, e as
necessidades dos mais vulneráveis são supridas. Por
isso, o sustento dessa obra é uma parte integral da
vida do cristão.
O Novo Testamento, embora não estabeleça uma
fórmula rígida, faz uma conexão clara entre a
responsabilidade dos crentes e o sustento da obra de
Deus. Em 1 Coríntios 9:13-14, Paulo ensina que "os que
pregam o evangelho que vivam do evangelho",
referindo-se à responsabilidade dos membros da
igreja em sustentar aqueles que se dedicam ao
ministério. A lógica aqui é simples: assim como no
Antigo Testamento o dízimo era destinado ao sustento
dos levitas e sacerdotes, o princípio permanece na
nova aliança com o sustento dos pastores e
missionários.
A responsabilidade financeira também vai além de
apoiar o ministério pastoral. Ela envolve o sustento de
todos os aspectos da missão da igreja: as operações
diárias, o cuidado com os necessitados, o apoio aos
61
missionários e o avanço do Reino de Deus em diversas
frentes. Quando o cristão contribui para a igreja local,
ele está participando ativamente dessa missão,
fazendo parte do plano redentor de Deus.
Além disso, a prática da contribuição na igreja local
é uma expressão de mordomia e generosidade. A
igreja não é apenas uma instituição; ela é a família de
Deus, onde cada membro contribui para o bem
comum (Atos 2:44-45). Essa responsabilidade não
deve ser vista como uma obrigação imposta, mas
como uma oportunidade de participar do que Deus
está fazendo no mundo. Ao sustentar
financeiramente a igreja, o cristão está investindo nos
valores eternos do Reino.
Sendo assim a responsabilidade financeira do cristão
com a igreja local é tanto um ato de fidelidade
quanto de cooperação com a missão divina. Ao
contribuir, o crente não apenas sustenta as atividades
visíveis da igreja, mas também se compromete com
a expansão do evangelho e o fortalecimento da
comunidade cristã.

Dízimo e a Saúde Financeira da Igreja: Uma


Visão Reformada
Na perspectiva reformada, o dízimo e as ofertas são
vistos como elementos essenciais para a saúde
financeira da igreja e a manutenção de sua missão

62
no mundo. No entanto, essa prática não é vista
apenas como uma obrigação externa, mas como
parte de uma teologia mais profunda da mordomia
cristã e da confiança na provisão de Deus.
A igreja local é o principal agente do Reino de Deus
na terra. Sua missão de pregar o evangelho, discipular
os crentes, realizar obras de misericórdia e defender a
verdade depende diretamente da generosidade do
povo de Deus. O dízimo, assim como as ofertas, é o
meio pelo qual essa obra é sustentada.
Historicamente, a prática do dízimo sempre teve um
papel central no apoio ao ministério e na provisão
para as necessidades da igreja. Na Reforma, esse
princípio foi mantido, mas com uma ênfase
reformada: o dízimo não é uma exigência legalista,
mas uma resposta à graça de Deus. Ele deve ser
praticado por aqueles que reconhecem que todos os
seus bens pertencem ao Senhor e que eles são meros
mordomos, administrando os recursos para a glória de
Deus e o bem do próximo.
A teologia reformada destaca que o dízimo é uma
expressão da mordomia cristã, onde o crente
reconhece que Deus é o dono de todas as coisas e
que ele tem o privilégio de contribuir com a obra de
Deus. A ênfase está na disposição do coração, mais
do que em uma quantia fixa. A contribuição deve ser
feita com alegria e gratidão, conforme ensinado por
63
Paulo em 2 Coríntios 9:7: “Cada um contribua
segundo tiver proposto no coração, não com tristeza
ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá
com alegria. ”
O dízimo e as ofertas, na visão reformada, servem
para manter a integridade da missão da igreja. Isso
inclui não apenas a manutenção dos pastores e
ministros, mas também o cuidado com os pobres, o
sustento das missões, e a administração correta dos
recursos, de forma transparente e responsável. A
igreja é chamada a ser uma boa administradora dos
dons recebidos, investindo no avanço do evangelho
e no fortalecimento do corpo de Cristo.
A prática do dízimo contribui diretamente para a
saúde financeira da igreja, permitindo que ela
cumpra suas responsabilidades com estabilidade e
integridade. A igreja que é sustentada pelos dízimos
dos seus membros pode exercer seu ministério sem
depender de influências externas ou comprometer
sua mensagem. A visão reformada é que a igreja
deve ser autossuficiente, sustentada pela
generosidade fiel de seus membros.
Em tempos de crise econômica, muitos questionam se
o dízimo deve ser uma prioridade. Na visão
reformada, a fidelidade no dízimo, mesmo em
tempos difíceis, demonstra confiança na provisão
divina e um compromisso com a obra de Deus. No
64
entanto, a contribuição deve sempre levar em
consideração a situação financeira pessoal, e a
ênfase está na generosidade voluntária, não em uma
imposição rígida.

65
Capítulo 7: Dízimo e o Coração

Em quem seu coração está?

A
prática do dízimo, em sua essência, revela
muito mais sobre o estado do coração do que
sobre questões meramente financeiras.
Quando a Escritura fala do ato de dar, o foco não
está apenas no quanto é dado, mas nas motivações
profundas que movem o cristão a separar uma parte
dos seus bens para o Senhor. O dízimo é um
termômetro espiritual, pois revela a quem o nosso
coração realmente pertence. Jesus ensina, em
Mateus 6:21, que onde está o nosso tesouro, ali estará
também o nosso coração. Assim, a prática de
contribuir não pode ser vista isolada de uma
compreensão mais ampla da nossa relação com
Deus e o Seu Reino.
Um coração genuinamente transformado pelo
evangelho vê no dízimo uma oportunidade de
expressar gratidão e dependência. O cristão entende
que tudo o que possui é resultado da graça de Deus
e, portanto, devolver uma parte disso é reconhecer
que Ele é o provedor supremo. No entanto, a
contribuição financeira só tem valor real quando é
feita com a motivação correta. Não se trata de
barganhar com Deus ou garantir bênçãos futuras,

66
mas sim de demonstrar fidelidade ao Senhor em
resposta à Sua bondade. Em Malaquias 3:10, o Senhor
desafia seu povo a confiar n'Ele, prometendo
bênçãos, mas o que Ele realmente deseja é um
coração confiante, que deposita sua segurança no
cuidado divino.
A realidade é que o dízimo, sem um coração rendido
a Deus, perde seu significado. Vemos essa crítica de
Jesus em Mateus 23:23, quando Ele condena os
fariseus por serem minuciosos em suas práticas
religiosas externas, incluindo o dízimo, mas
negligenciarem a justiça, a misericórdia e a
fidelidade. Isso nos ensina que Deus não está
interessado apenas na quantia que damos, mas na
disposição interior com a qual ofertamos. O dízimo é,
portanto, uma prova da nossa relação com Deus:
revela se estamos motivados pela adoração genuína
ou apenas cumprindo uma formalidade religiosa.
Quando o coração está plenamente rendido a Deus,
o ato de dizimar não é um fardo, mas um privilégio.
Ele se torna uma resposta natural à graça recebida,
uma forma concreta de adoração. O cristão que
compreende isso não se preocupa tanto com a
exatidão dos 10%, mas busca uma vida marcada por
generosidade contínua. Assim como Abraão deu o
dízimo a Melquisedeque como um ato espontâneo
de honra e reconhecimento (Gênesis 14:20), nós

67
também somos chamados a dar não por coação,
mas como expressão de gratidão ao Senhor.
Portanto, o dízimo não é apenas uma questão de
obediência, mas de revelação do coração. O modo
como administramos nossos recursos financeiros
reflete nossa confiança em Deus e nossa percepção
do Reino. Um coração generoso demonstra que
compreendemos o evangelho em sua plenitude,
entendendo que somos apenas mordomos dos bens
que Deus nos confiou. Dar com alegria e liberdade é
um sinal de que nosso tesouro não está nos bens
materiais, mas no próprio Senhor.

O Perigo da Idolatria do Dinheiro


A idolatria do dinheiro é um dos maiores desafios
espirituais enfrentados pela humanidade. Desde os
tempos bíblicos, a riqueza tem sido uma tentação
que frequentemente desvia o coração do verdadeiro
Deus para a confiança em bens materiais. Jesus foi
incisivo ao abordar esse tema em Mateus 6:24,
afirmando claramente que "ninguém pode servir a
dois senhores; ou odiará a um e amará o outro, ou se
dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não
podem servir a Deus e ao Dinheiro." Aqui, Ele coloca
em termos absolutos a incompatibilidade entre servir
a Deus e ser escravo das riquezas. O dízimo, dentro
desse contexto, é uma ferramenta prática para

68
combater essa tendência humana de idolatrar o
materialismo.
O dízimo não é apenas uma prática religiosa; ele é,
acima de tudo, um ato de rendição. Ao separar parte
de sua renda para o Senhor, o cristão
conscientemente declara que sua segurança não
está em suas posses, mas em Deus. Esse ato de dar
tem um efeito libertador, porque ajuda o crente a
combater o impulso de acumular e confiar em
riquezas como fonte última de estabilidade e
proteção. Quanto mais se dá, mais se desafia o
coração a confiar na provisão divina, em vez de nos
recursos humanos.
O apóstolo Paulo também nos alerta em 1 Timóteo
6:10 que "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os
males", destacando que a avareza é uma porta
aberta para uma série de pecados e distorções
espirituais. Ao colocar o dízimo como uma prática
regular em sua vida, o cristão está essencialmente
rejeitando a idolatria do dinheiro. Ele está dizendo,
com sua contribuição, que Deus é o verdadeiro dono
de tudo o que possui, e que o dinheiro é apenas um
meio para servir aos propósitos divinos, não um fim em
si mesmo.
A idolatria do dinheiro, muitas vezes, se manifesta de
forma sutil. Não é necessário ser um bilionário ou
acumular grandes fortunas para ser tentado a adorar
69
Mamom (um termo bíblico que personifica a riqueza
e a ganância). Até aqueles com recursos limitados
podem cair na armadilha de colocar suas
esperanças e seu senso de segurança no pouco que
têm, vivendo com medo constante da escassez. O
dízimo, então, desafia essa mentalidade ao convidar
o crente a ser generoso, mesmo com o pouco que
possui, acreditando que Deus é o provedor de todas
as coisas.
Além disso, o ato de dizimar coloca o dinheiro no seu
devido lugar: como um servo, e não um senhor. O
cristão entende que seus recursos devem ser usados
para a glória de Deus e para o bem do próximo, em
vez de serem acumulados egoisticamente. O dízimo
abre caminho para uma vida de generosidade mais
ampla, na qual o cristão aprende a ver seus bens
como uma ferramenta para servir ao Reino de Deus e
suprir as necessidades dos outros. Essa prática mina as
raízes da avareza e do egoísmo, cultivando um
coração que está mais interessado em dar do que
em receber.
Na história bíblica, vemos muitos exemplos de como
a confiança nas riquezas pode desviar o coração de
Deus. O jovem rico, por exemplo, que se aproximou
de Jesus em busca da vida eterna (Mateus 19:16-22),
foi incapaz de deixar suas posses e seguir o Mestre.
Sua resposta demonstrou que, embora cumprisse os

70
mandamentos externos, seu coração ainda estava
escravizado ao dinheiro. O dízimo, ao contrário, é um
lembrete contínuo de que devemos estar dispostos a
abrir mão dos bens materiais por algo muito maior: o
Reino de Deus e Sua justiça.

Conclusão: O Dízimo e a Suficiência de Cristo


A questão do dízimo, vista à luz da revelação plena
de Cristo, adquire uma profundidade teológica ainda
maior. Na pessoa e obra de Cristo, encontramos o
cumprimento de toda a Lei, incluindo os princípios
que norteiam o dízimo no Antigo Testamento. A
suficiência de Cristo implica que Ele cumpriu as
exigências da Lei de maneira perfeita, abrindo
caminho para uma nova aliança baseada na graça,
e não no legalismo. Portanto, o dízimo, à luz do
Evangelho, não é mais uma obrigação imposta pela
Lei, mas uma resposta voluntária e alegre à
generosidade de Deus em Cristo.
Quando entendemos que Cristo é o cumprimento da
Lei (Mateus 5:17), isso transforma nossa perspectiva
sobre o dízimo. O sacrifício de Cristo na cruz revela
que Ele é a oferta perfeita e final, tornando qualquer
tentativa de merecer a aprovação de Deus por meio
de obras insuficiente e desnecessária. O dízimo,
portanto, não pode ser visto como uma "troca" ou
uma forma de garantir bênçãos, mas como um ato

71
de gratidão e confiança. Em Cristo, somos libertos da
obrigação legalista, mas somos convidados a viver
sob a realidade de Sua graça, o que nos leva a
contribuir com generosidade e responsabilidade.
Na nova aliança, o foco deixa de ser um percentual
fixo, como os 10% do dízimo, e passa a ser o coração
por trás da oferta. Paulo reflete isso em 2 Coríntios 9:7,
ao dizer que "cada um dê conforme determinou em
seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois
Deus ama quem dá com alegria". O princípio por trás
do dízimo é a disposição de confiar em Deus como o
provedor de todas as coisas e devolver a Ele uma
parte do que nos foi confiado, não para cumprir uma
regra, mas para expressar gratidão e adoração.
Além disso, a suficiência de Cristo também redefine
nossa visão sobre mordomia. Em Cristo, somos
chamados a uma mordomia integral, em que tudo o
que temos pertence ao Senhor. O dízimo é apenas
uma expressão inicial dessa verdade mais ampla:
nossa vida inteira, incluindo nossos recursos, é
dedicada a Deus. Não damos porque temos que dar,
mas porque entendemos que tudo o que somos e
possuímos é de Deus, e somos apenas mordomos de
Suas bênçãos. Cristo nos liberta para sermos
generosos de forma radical, assim como Ele foi
generoso em Se entregar por nós.

72
Portanto, à luz de Cristo, o dízimo não perde sua
relevância, mas é transformado em um ato de
liberdade e adoração, não de obrigação. Ele
continua a ser uma prática espiritual importante na
vida do cristão, mas agora guiada por uma
compreensão mais profunda da suficiência de Cristo
e da graça de Deus. Em vez de uma carga pesada,
o dízimo se torna uma oportunidade de participar da
obra de Deus, de sustentar a igreja local e de investir
no avanço do Reino. Cristo nos chama a ofertar de
coração, sabendo que nossa verdadeira segurança
e satisfação estão Nele, e não em nossos bens.
Em última análise, o dízimo, sob a nova aliança em
Cristo, é um reflexo do coração transformado. É uma
forma de declarar, com ações concretas, que
confiamos plenamente na suficiência de Cristo, que
Ele é nosso verdadeiro tesouro. Diante de tão grande
salvação, nossa resposta não pode ser outra senão a
generosidade, que reflete a graça que recebemos e
demonstra nossa fidelidade àquele que nos deu tudo.

A Vida Generosa do Cristão: Mais do que um


Dever, um Privilégio
A generosidade na vida cristã vai muito além de um
simples dever ou uma obrigação moral. Ela é, na
verdade, um reflexo profundo do Evangelho, um
privilégio concedido por Deus para participarmos de

73
Sua obra. Quando olhamos para o exemplo de Cristo,
que "se fez pobre, para que por meio de sua pobreza
vocês se tornassem ricos" (2 Coríntios 8:9),
compreendemos que a verdadeira generosidade
brota de um coração transformado pela graça.
O cristão não dá apenas por mandamento, mas por
gratidão. O dízimo e a oferta são formas visíveis de
uma vida que já reconheceu que tudo pertence a
Deus. É por isso que a generosidade nunca pode ser
vista como uma troca ou um meio de ganhar favor
divino, mas como uma resposta natural ao favor já
recebido em Cristo. Aquele que experimentou a
graça de Deus deseja compartilhar suas bênçãos
com outros, sabendo que essa é uma maneira de
expressar seu amor e lealdade a Deus.
A generosidade é também um privilégio porque nos
permite refletir o caráter de Deus. Ele é um Deus
generoso, que "faz o sol nascer sobre maus e bons e
derrama chuva sobre justos e injustos" (Mateus 5:45).
Quando somos generosos, estamos refletindo essa
bondade divina ao mundo ao nosso redor. Através do
dízimo, das ofertas e de atos de compaixão, o cristão
testemunha ao mundo sobre o amor e a provisão de
Deus.
Além disso, a generosidade liberta o cristão das
amarras do materialismo. Quando damos com
alegria, mostramos que nossos corações não estão
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presos aos bens materiais, mas que nossa verdadeira
segurança está em Deus. Em um mundo onde o
dinheiro é frequentemente idolatrado, o ato de dar é
um testemunho poderoso de que nossa confiança
está no Senhor, e não nas riquezas.
Por fim, a vida generosa do cristão é um privilégio
porque ela nos une à missão de Deus. Ao contribuir
para a obra do Reino, participamos diretamente no
avanço do Evangelho, no sustento da igreja e no
cuidado dos necessitados. Somos instrumentos nas
mãos de Deus para manifestar Sua provisão e amor
ao mundo. Assim, a generosidade se torna uma
expressão prática do que significa ser mordomos fiéis,
cuidando dos recursos que Deus nos confiou para a
Sua glória.
Dessa forma, viver uma vida generosa não é apenas
um dever cristão, mas um privilégio imenso. É uma
oportunidade de refletir o coração de Deus,
experimentar a liberdade em Cristo e participar do
Seu plano redentor na terra.

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