Ciclo de Vida da Área Turística: Interpretação historiográfica da
Reguliersdwarsstraat como espaço turístico LGBT em Amsterdam
Tourism Area Cycle of Evolution: Historiographical interpretation of
Reguliersdwarsstraat as an LGBT tourist space in Amsterdam
Christopher Smith Bignardi Neves
Resumo: Os destinos urbanos concentram a maior quantidade de entretenimento para o segmento
LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais). Amsterdam (Holanda) possui diversas imagens e
estereótipos que lhe projetam como um destino turístico de reconhecimento internacional direcionado
ao turista LGBT, com atributos associados a liberdade, vida noturna, festas e a tradicional Parada do
Orgulho LGBT em barcos (Canal Parade). Nesse sentido, este texto apresenta a evolução histórica
da Reguliersdwarsstraat, destacada rua de Amsterdam para o público LGBT sob a perspectiva de
espaços queers e de áreas turísticas. O estudo elucida a rua como um case de sucesso, que após
passar por um período de declínio do público, se rejuvenesceu após a criação de uma micro-área
dentro da própria Reguliersdwarsstraat, fazendo o fluxo de turistas LGBT ser maior e mais frequente,
o que reflete o Ciclo de Vida da Área Turística como menciona o Modelo de Butler (1980).
Palavras-chave: Turismo LGBT; Reguliersdwarsstraat; Amsterdam; precinct; espaço queer
Abstract: Urban destinations concentrate the most entertainment for the LGBT segment (Lesbian,
Gay, Bisexual, Transsexual). Amsterdam (Netherlands) has several images and stereotypes that
project it as a tourist destination of international recognition aimed at LGBT tourists, with attributes
associated with freedom, nightlife, parties and the traditional LGBT Pride Parade on boats (Canal
Parade). In this sense, this text presents the historical evolution of Reguliersdwarsstraat,
Amsterdam's highlighted street to LGBT audiences from the perspective of queers spaces and tourist
areas. The study elucidates the street as a case of success, which after going through a period of
decline of the public, rejuvenated after the creation of a micro-area within the Reguliersdwarsstraat
itself, making the flow of LGBT tourists greater and more frequent, which reflects the tourism area
cycle of evolution as mentioned in Butler Model (1980).
Key-Words: Tourism LGBT; Reguliersdwarsstraat; Amsterdam; precinct; queer space.
Introdução
O turista LGBT tem motivações de viagens e preocupações especificas. O
23rd Annual LGBTQ Tourism & Hospitality Survey (CMI, 2018) aponta que para 78%
dos turistas é importante hospedar-se em hotéis que tenha políticas de não-
discriminação. O que remete a idealizar que espaços gay-friendly são necessários
para a sensação de segurança deste público.
Há certa busca por locais, eventos, gastronomia e atividades culturais
especificas, o que difere esses turistas dos ditos turistas heterossexuais. O mesmo,
acima citado, averiguou que um destino com legislações que protejam essa
comunidade tem 84% mais chances de ser visitado (CMI, 2018).
O Second Global Report on LGBT Tourism (OMT, 2017) toma como base
características desse público, a necessidade de garantia de que estes possam
manter a integridade física nos destinos visitados, vez que correm riscos de serem
mortos em determinadas localidades pelo fato de sua sexualidade.
Essa diferenciação dos públicos tem raízes que são encontradas nos
históricos da criação do sujeito homossexual, enquanto categoria médica e jurídica
(FOUCAULT, 1988), o turista LGBT ao sair do armário (SEDGWICK, 1990), pode-se
expressar com mais eloquência e evidência.
Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Recife, Fortaleza, são algumas
das capitais brasileiras que podem ser consideradas como os principais destinos
turísticos do público LGBT. Exemplos de cidades espalhadas pelo mundo, pode-se
citar Madri, Amsterdam, Toronto, Tel Aviv e Londres que despontam como as cinco
cidades mais bem preparadas para receber o turista LGBT (NESTPICK, 2017).
A capital da Holanda, Amsterdam, é um dos destinos mundiais que
despontam como o destino LGBT mais frequentado, além de ser um dos mais
estimados por esse público, que almeja viajar para o destino. Motivados em partes
pelas políticas de proteção à comunidade LGBT, mas também por ser centro festivo,
um destino urbano, com grande oferta de atividades culturais, com beleza
paisagísticas, patrimônio histórico mundial – tombado pela UNESCO.
Amsterdam é icônica por realizar no verão (meses de junho a setembro) a
Canal Parade, uma Parada do Orgulho LGBT diferenciada, conduzida por barcos –
e também pelo consumo da cannabis, legalizada no território em questão.
Para além do evento, Amsterdam possui histórico em ser um destino
hospitaleiro com o público LGBT (NEVES; BRAMBATTI, 2019). Neste estudo, o que
se pretende é apresentar como a aglomeração de espaços de Entretenimento, com
oferta de Alimentos e Bebidas (A&B) podem consolidar um destino turístico como
LGBT.
Partiu-se das seguintes hipóteses: (a) espaços queers aglomeram com
maior ênfase o público LGBT residente, e que esta aglomeração faz com que
turistas passem a frequentar os mesmos espaços, oportunizando o uso turístico dos
empreendimentos na área situados; (b) o Ciclo de Vida da Área Turística como
proposto por Butler (1980) pode ser observado na Reguliersdwarsstraat, e que os
turistas LGBT renovaram o espaço, após este ter apresentado características de
rejuvenescimento/modernização.
Desta forma, apresenta-se a Reguliersdwarsstraat (Figura 1), uma rua da
cidade de Amsterdam como um espaço queer, derivado da instalação de bares e
casas noturnas direcionadas ao público LGBT.
Figura 1: Frequentadores na Reguliersdwarsstraat pós-pandemia de Covid-19
Fonte: Reguliers (2020).
Metodologia
No que tange à perspectiva metodológica, além da pesquisa bibliográfica,
utilizou-se o método de análise da página oficial da rua em análise, agregando
interpretação de documentos oficiais do governo de holandês, em especial de
Amsterdam, além de matérias veiculadas na mídia local e internacional sobre a área
em questão. Além do exposto por Neves (2019) e Neves, Chemin e Brambatti
(2019a; 2019b).
Entende desta formar a pesquisa como de caráter exploratório-descritiva,
para Creswell (2009) a principal função da pesquisa qualitativa é explorar e
compreender significados, concebida aqui como apropriada para estudar a
percepção do turista LGBT diante das opções disponíveis na modalidade de
economia compartilhada.
O exame de materiais que ainda não foram observados de forma analítica,
buscando novas interpretações ou mesmo interpretações complementares são
características concernentes à pesquisa documental (Godoy, 1995), Neste ponto,
cabe mencionar que a análise especifica dos empreendimentos comerciais envoltos
em uma associação comercial de uma única rua, se mostra inovador.
Optou-se pelo uso de páginas na internet por ser considerada fontes naturais
de informação à medida que, por terem origem em um determinado contexto
econômico e social, retratam e fornecem dados sobre esse mesmo contexto
(Godoy, 1995); o que caracteriza este estudo como netnográfico, modelo
compreendido por Montardo e Rocha (2005, p. 01) como um estudo de práticas
comunicacionais mediadas por computador recebe o nome de netnografia, ou
etnografia virtual e sua adoção é válida no campo da comunicação pelo fato de que
“muitos objetos de estudo localizam-se no ciberespaço". Para Kozinats (2014, p. 53)
“um grupo de pessoas, conectadas por determinadas relações sociais, tais como
parentesco, amizade, trabalho conjunto, hobby compartilhado ou interesse comum,
ou intercambiando qualquer tipo de informação, pode ser considerado uma rede
social”.
Diante disso, o estudo centra-se na congruência das informações
disponibilizadas sobre a Reguliersdwarsstraat – tanto históricas, quanto geográficas,
econômicas e sociais – atrelando-a ao mercado turístico LGBT, para tanto, na
prossecução deste, selecionou-se os sites considerados como os mais relevantes
para esta investigação. A escolha deu-se de forma subjetiva, porém diante da
similaridade com outros de maior conhecimento popular.
Breve apresentação do Modelo de Butler: Ciclo de Vida da Área Turística
Butler (1980) estipula que todo destino turístico atravessa um ciclo de vida, e
este ciclo é composto por fatores que o autor determina como cruciais, sendo:
exploração, envolvimento, consolidação, desenvolvimento, estagnação
(declínio/saturação e rejuvenescimento/renovação).
Butler (1980) afirma que cada estágio pode ser associado com um impacto
especifico: econômico, ecológico e sociocultural. O autor informa que a exploração,
os turistas iniciais descobrem o destino, sendo uma única pessoa ou um pequeno
grupo, não há instalação de atendimento ao turista, mas sim os mesmos locais em
que os moradores utilizam para sua vivencia no local.
No estágio de envolvimento, Butler (1980) aponta que os moradores
percebem o turismo com potencial de desenvolvimento do local, e os visitantes
iniciais passam a vir com maior frequência e em maior número, assim os benefícios
econômicos aumentam, e os investimentos permanecem baixos (dependendo do
local e meio).
Butler (1980) afirma que na fase de desenvolvimento o destino passa a ser
conhecido, e a população percebe o turismo como uma indústria, e os residentes de
modo geral passam a investir maiores recursos no turismo, ocasionando diversas
vezes problemas de potência de carga. Já no momento de consolidação, o destino
possui infraestrutura satisfatória, e o turismo de massa passa a ser o mais
conhecido, em termos econômicos há um aumento considerado, também há um
aumento no fluxo de turistas que é constante.
O destino começa a ter um estagnação quando o número de turista é
grande, porem a taxa de crescimento é aquém do esperado, os grupos são
padronizados, e buscam viver da mesma forma de seu local de origem, com
conforto, disponibilidades de serviços, além de serem bem atendidos e com boas
atrações a serem visitadas; nesse momento população e turistas são visivelmente
distintos, pois há uma ruptura entre os mesmos, caracterizando a imagem do turista
(como superior, beneficiário do local) e do residente – como inferior, servidor do
turista (BUTLER, 1980).
Isto posto, é plausível acrescentar que em algumas leituras há um acréscimo
de outros dois fatores relatados por Butler (1980), sendo identificados sobre
diversos nomes como declínio/saturação e rejuvenescimento/renovação.
Nestes casos, o declínio do destino pode ser entendido como a queda do
turista, o não retorno dos investimentos, onde o local é apenas como uma local de
uso, onde fornece lucro para pequenos grupos – que podem não pertencer a região,
que são vistos como exploradores, assim é dito que este determinado destino está
saturado. Quando o destino turístico percebe esse ciclo, e busca uma forma de
inovação diz-se que ele está em processo de rejuvenescimento ou de renovação,
pois busca alternativa e oferece novos produtos, que diferem da oferta anterior,
modificando a forma do turismo, buscando novos públicos, novos períodos, novas
formas de utilizar a infraestrutura criada anteriormente (BUTLER, 1980).
Figura 2: Modelo do Ciclo de Vida da Área Turística
Fonte: Adaptado de Butler (1980).
Percurso Evolutivo da Reguliersdwarsstraat
Para traçar essa evolução histórica que culmina na Reguliersdwarsstraat
como uma atração turística direcionada ao público LGBT precisa-se aqui fazer um
registro de como se deu o processo de evolução desta rua, tal como feito em Neves
(2019), Neves, Chemin e Brambatti (2019a; 2019b) e Reguliers (2020), materiais
fontes para esta análise.
Figura 3: Localização da área de estudo
Fonte: O autor (2020).
Parte-se do pressuposto que a rua tem seu nome derivado do
Regulierklooster, um claustro medieval de sacerdotes que viviam de acordo com as
filosofias de Santo Agostinho, aqui entende-se estes sacerdotes como Cônegos
Regulares, que na tradução para o dutch (língua holandesa) teremos a
denominação de reguliere kanunniken.
Os Cônegos Regulares são aqueles que fazem parte de uma sociedade
regular, isto é, de uma comunidade monástica, baseada nos três votos monásticos
(pobreza, celibato, obediência ao governo e superiores dentro do mosteiro). O
governo de Agostinho deu poucas diretrizes práticas para a organização de um
mosteiro, como resultado das quais várias casas desenvolveram seus próprios
costumes (consuetudines)
O referido claustro, localizado atualmente na Oudergracht n° 245, data de
1394, tendo funcionado até 1532, quando um incêndio o destruiu. Sua localização é
de extrema proximidade coma a localização da rua nos dias atuais, desta arte deriva
que outros espaços recebam o prefixo derivado do claustro (Reguliers). Estes
espaços são as ruas (straat), um canal (gracht), um portão (poort) e uma praça
(plein). Reguliersdwarsstraat é a rua que fica mais ou menos transversal (dwars) à
Reguliersbreestraat (breestraat = rua larga), que era a principal rua que ligava a
antiga Reguliersplein (atual Rembrandtplein) ao centro antigo de Amsterdam.
A Reguliersdwarsstraat data de 1586, deve sua criação à arquitetura militar,
uma vez que é fruto da fortificação de construída para proteger Amsterdam. A
referida muralha consistia de tijolos de barro, sendo uma obra bastante defensiva,
pois apresentava bastiões nas esquinas, esta fortificação contornava o lado sul da
Reguliersdwarsstraat, fato pelo qual naquela época as casas só eram construídas
ao longo do lado norte (área denominada hoje de Reguliersbuurt).
Com o plano de expansão de Amsterdam, que previa a construção dos
famosos canais concêntricos (grachtengordel), as fortificações foram niveladas para
construir o novo Herengrach, em 1664, com isso surge o Grachtengordel (nome do
bairro onde se situa a Reguliersdwarsstraat).
Com a construção do Herengracht, paralelo à Reguliersdwarsstraat, surgiu a
micro área chamada de Gouden Bocht (Curva Dourada), denominado assim devido
as majestosas residências dos ricos comerciantes e administradores de Amsterdam.
No lado norte de Herengracht, essas casas ficavam em lotes que se estendiam até
o lado sul de Reguliersdwarsstraat. Isso possibilitou que estes afortunados
construíssem grandes jardins, estábulos e espaços para as carruagens atrás das
casas, as fachadas dos imóveis apresentam tais características visíveis pelas
grandes portas, atualmente em 19 dessas casas.
Tombadas pelo patrimônio mundial o World Heritage Convention (UNESCO,
2020), destaca que estas casas geralmente tem uma fachada decorada no estilo da
casa principal, com o advento do turismo, notar-se-á mais adiante que predominam
nestas casas restaurantes com acesso aos jardins tranquilos e soberbos terraços.
Figura 4: Área tombada pela UNESCO (destaque) em Amsterdam
Fonte: O autor (2020)
Para Ryan (2020) a Área do Grachtengordel representa uma forma única de
desenvolvimento urbano e arquitetura que se materializou em uma cidade portuária
artificial. A área testemunhou o crescimento econômico, político e cultural que
ocorreu na cidade durante a Era de Ouro. Enquanto permanece a maioria das casas
construídas durante o século XVII, a arquitetura urbana é visível em algumas
paisagens. Para a autora o patrimônio é bem administrado tanto pelo governo
nacional quanto pelo municipal, a UNESCO reconhece na área 3.466 monumentos
protegidos pelo Inventário Nacional e 433 pelo Inventário Municipal.
No início do século XIX, a maioria dos comerciantes e governantes que
viviam em Herengracht entraram em declínio, com a perda subconstancial da
riqueza e as casas foram vendidas ou alugadas, o que resultou em uma variedade
de uso, inicialmente abrigando pequenas empresas. Enquanto a parte oeste da
Reguliersdwarsstraat era caracterizada pela riqueza da Gouden Bocht, a parte leste
da rua era caracterizada pela pobreza do bairro, chamado Duvelshoek (canto do
diabo), atualmente Van Loonbuurt.
Em Duvelshoek havia inúmeras pequenas moradias, muitas pequenas casas
públicas e as ruas estavam cheias de mendigos, vendedores ambulantes e todos os
tipos de artistas de rua. Parte de Duvelshoek foi demolida no início do século XX, de
modo que os primeiros cinemas holandeses puderam ser construídos na área: em
1908, o proprietário Franz Anton Nöggerath, viu a inauguração do primeiro teatro de
cinema permanente na Holanda, o Bioscopen Theater (entrada pela
Reguliersbreestraat, n° 34). Em 1921, o polonês Abram Icek Tuszynski (Abraham
Tuschinski) estabeleceu o que ainda hoje é um dos mais belos cinemas holandeses,
o palaciano e luxuoso Teatro Tuschinski.
Abraham Tuschinski, enviou em 1918 um de seus funcionários para comprar
o maior número possível de casa na precária região do Duvelshoek. As negociações
não formam de modo algum amistosas, visto o apego dos moradores com suas
residências, com maior aporte financeiro, Tuschinski ampliou as compensações
financeiras até que adquiriu uma trama utilizável e contígua entre a
Reguliersbreestraat e a Reguliersdwarsstraat
Na primeira metade do século XX, a estreita Vijzelstraat foi ampliada, e desta
forma passou a abrigar o enorme Carlton Hotel, construído sobre a
Reguliersdwarsstraat, o que conferiu à rua (fisicamente e visualmente) duas partes.
O hotel de grande porte, hospedou oficiais nazistas alemães durante a Segunda
Guerra Mundial, na noite de 26 de abril de 1943, os alemães conseguiram abater
um bombardeiro britânico Halifax, que caiu logo atrás do hotel, danificando
severamente sua estrutura lateral, ademais, casas da Reguliersdwarsstraat e da
Geelvinckssteeg, foram consumidas pelo incêndio derivado deste ocorrido – este
incêndio foi o mais devastador que atingiu Amsterdam desde 1659, porém apensa
13 civis que vieram a óbito.
Tal destruição fez com que a área ficasse sem construção por mais de uma
década, funcionando no espaço um estacionamento ao ar livre. Em 1964, foi
inaugurado o Muntstaete (nome prédio), projeto do arquiteto Sijmons.
Originalmente, quando da inauguração, funcionou como agência bancária
(Spaarbank voor de Stad Amsterdam), com o passar do tempo abrigou o Museum
De Geelvinck e os escritórios do Parkeergarage Munthof. Com a conclusão da obra
em novembro de 2016, o prédio foi reaproveitado para abrigar outros
empreendimentos mais voltados para a tecnologia, como as empresas The Next
Web e Google, que adotam a sigla TQ, ocupam 6.000m² na área, o Muntstaete
atualmente sob o nome TNW City possui entradas pela Reguliersdwarsstraat e pela
rua Singel.
Escalada cronológica da Reguliersdwarsstraat como espaço queer (1963-2010)
A presença de bares por Amsterdam já era comum no século XX, tanto que
em Duvelshoek tem-se o registro do bar e restaurante Ognibeni que pode ser o
primeiro a se instalar na Reguliersdwarsstraat (nº 74), funcionado desde 1919 até
1978. Após a segunda metade do século XX houve uma popularização de bares
pela Reguliersdwarsstraat, que na região de Duvelshoek haviam com maior
incidência, influenciados pelos teatros ali localizados.
Porém, em 1963, no nº 11, da Reguliersdwarsstraat o primeiro bar gay foi
inaugurado: MacDonald, um bar considerado bastante respeitador. À época, os
bares gays dispunham de cortinas nas janelas (de forma a impedir que o público
transeunte observasse os frequentadores) e um porteiro (para evitar que pessoas
gay-friendly entrasse no recinto). O público do bar era caracterizado por jovens gays
menores de 21 anos, que dado à idade, não eram permitidos ingressas na discoteca
gay da proximidade, DOK, situado na rua Singles nº 40.
Já na década de 1970, Amsterdam apresentava um clima bastante liberal em
relação as sexualidades, foi neste interim que surgiu o Coffeeshop Downtown,
reconhecido como o primeiro estabelecimento abertamente gay, este
estabelecimento até os dias atuais oferece lanches e um pequeno almoço
(estabelecimentos com nome similar que atuam no consumo de cannabis).
Em 1977, é inaugurada De Viking, a primeira discoteca gay da
Reguliersdwarsstraat (nº 17-19), que inicialmente funcionou como um lugar ao estilo
hippie, o empreendimento era frequentado por garotos de programa e traficantes de
drogas, que organizavam festas sexuais no local, em 1987 uma batida policial
encontrou grande quantidade de drogas, que culminou no fechamento do De Viking.
Na área do Duvelshoek/Van Loonbuurt (parte leste de Reguliersdwarsstraat)
já havia uma certa a quantidade de bares heterossexuais funcionando desde a
década de 1960, que gradualmente que foram transformados em bares gay-friendly
nas décadas de 1970 e 1980, principalmente na Korte Reguliersdwarsstraat
(travessa). O que contribuiu para a primeira década de ouro da área.
Na década de 1980, muitos restaurantes elegantes e internacionais, alguns
possuindo alta classificação pela crítica especializada abriram na rua, iniciando pelo
Rose's Cantina, em 1980. No ano seguinte, em 05 de junho é inaugurado o April
Café, que consolidou-se por ser o mais moderno e estimado bar público gay aberto
até a madrugada; seu sucesso deu-se principalmente pelas festas ali ocorridas, com
decorações extravagantes. April Café tornou-se mundialmente conhecido, sendo
frequentado por Grace Jones e Jean-Paul Gaultier, após reformas, em 1996, o April
Café foi reconhecido como o maior bar gay da Europa.
Aqui cabe ressaltar o protagonismo empreendedor de Frans Monsma e Guus
Silverentand, que também proprietários do Coffeeshop Downtown, investiram
posteriormente na casa noturna Exit, desta forma os empresários ofertavam
espaços gay-friendly em todos os períodos aos turistas e moradores.
A década de 1970 e início da década de 1980 tem como característica a
liberdade sexual, vivida sem grandes preocupações até que a epidemia de HIV
muda a rotina da comunidade LGBT com grande ênfase. Frans Monsma cedeu o
espaço do April Café para reuniões de conscientização sobre Aids, organizou
eventos em 1985 na discoteca Flora Palace (mais tarde renomeado para Bebop e
depois para iT) para arrecadar fundos para combater a Aids na Holanda.
Ainda em 1985, se instala na Reguliersdwarsstraat (nº 40), o bar Oblomov,
destinado ao público heterossexual, o proprietário era Sjoerd Kooistra, personagem
importante que tornou a Reguliersdwarsstraat, no importante espaço queer que é
hoje em dia. Com negócios já consolidados em Groningen, no extremo norte da
Holanda, o empresário expande seus negócios para Amsterdã, adquirindo em 1986,
o April Café e Coffeeshop Downtown. Ainda na Reguliersdwarsstraat, em 1988, o
empresário inaugurou a L’Entrée, que foi renomeado para April's Exit.
No ano de 1989, Frans Monsma investe em um novo bar, denominado
danscafé Havana, caracterizado pelo ritmo caribenho, café e dança, atraindo
bastante gays e heterossexuais com mentalidade mais avançada. Em seguida,
inicia-se a década de 1990, que marca a escalada da Reguliersdwarsstraat como
epicentro de entretenimento noturno LGBT de Amsterdã, tornando-se inclusive um
local de tendência mundial.
O danscafé Havana realizou festas extravagantes, ao estilo April Café,
promovendo o Eurovision Song Festival entre os gays, com performances de drag
queens, Nickie Nicole foi a hostess do evento, transmitido pela rede holandesa de
televisão.
Festas organizadas pelo danscafé Havana ocorriam em outros espaços, com
o qual estabeleceram parcerias, localizado na Amstelstraat, o clube iT abrigou as
maiores festas de Amsterdam, e em parceria com a discoteca heterossexual RoXY
estabeleceu-se a Gay Night, um dia da semana destinado ao público LGBT. Juntos
estes três empreendimentos, estabeleceram o que se denominou de "Triângulo
Dourado", um espaço de ida noturna que atraia heterossexuais e LGBT.
Após a segunda metade da década de 1990, os empreendimentos acima
citados sofreram com a diminuição de frequentadores, o iT perdeu a agitação
corriqueira após 1994, e RoXY ardeu em chamas com o incêndio de 1999. Neste
interim, antecipando-se ao esvaziamento do público LGBT da cidade, o danscafé
Havana, juntamente com outros empresários criaram um novo evento: Amsterdam
Pride.
Realizado pela primeira vez em 1996, foi mundialmente conhecido pelo
diferencial de quem ocorria em meio aos canais de Amsterdam, com desfile de
barcos decorados de diversas associações civis e sociais; por certo, os empresários
da Reguliersdwarsstraat colocaram grandes barcos para desfilar. A repercussão
deste evento fez com que, em 1998, o Canal Parade, marcasse a abertura do Gay
Games daquele ano, que contou com mais de 14 mil atletas e 250 mil turistas do
mundo todo – o maior evento LGBT da Holanda. Após o Canal Parade e o Gay
Games a Reguliersdwarsstraat consolidou-se como local de celebração, o que
impulsionou mais ainda a rua no âmbito do turismo LGBT.
Na área do Duvelshoek/Van Loonbuurt, é inaugurado em 1997, o Reality Bar,
ambiente multicultural, fazendo com a comunidade LGBT de Amsterdam passasse a
frequentar também este lado da Reguliersdwarsstraat.
O empresário Kooistra, em 1998, compra o danscafé Havana; em 1999,
transformara a discoteca Richter (adquirida, em 1996), em um grande pub gay, sob
o nome de Soho (em referência ao gayborhood de Londres).
Ao término da década, os restaurantes, bares e casas noturnas da rua
possuíam páginas na internet, informando os turistas e frequentadores sobre a
agenda local. O advento da internet marca o início do século XXI, acarretando que
as pessoas pudessem se conectar por este meio interativo. Especialmente para os
gays, a internet representava um espaço seguro, o que significa dizer que a
interação migrou para o espaço virtual.
Ainda que o turismo tenha se desenvolvido com maior ênfase neste milênio, a
frequência aos espaços gays da rua diminuiu, possivelmente havendo ligação direta
com a introdução do euro em 2002. Mesmo ano em que a popular danscafé Havana
foi fechada, em contrapartida Angelique Schippers e Rob de Jong inauguraram o
ARC, um bar gay bastante moderno para à época. Em 2006, o Café ‘t Leeuwtje,
localizado na área do Duvelshoek/Van Loonbuurt, torna-se gay-friendly, reforçando
a importância dos bares LGBT em ambos lados da Reguliersdwarsstraat.
Entre os anos de 2006 e 2007, a Reguliersdwarsstraat passou por um
processo de revitalização, com adição de um pavimento novo, remoção de objetos
antigos ou inconvenientes, ampliação da calçada e com instalação de bloqueadores
de tráfego de veículos. Este último item, torna-se relevante para a segurança dos
turistas e demais transeuntes, que sem carros na via, além de mais espaço público,
pode-se organizar eventos ao ar livre no período de verão.
Pode-se perceber anteriormente que Sjoerd Kooistra, exerce papel
importante para o desenvolvimento da rua como espaço de homosocialização, o
empresário adquire ARC em 2007. É após isso que Sjoerd Kooistra torna-se dono
de todos os bares LGBT da rua, criando um monopólio do entretenimento noturno
LGBT na Reguliersdwarsstraat, o que o estimula a criar mecanismos de melhoria de
segurança na rua, e maiores eventos festivos na mesma.
No final do ano de 2009, o empresário adquire dividas com a cervejaria
Heineken o que ocasiona no fechamento do Exit, na sequência os demais
empreendimentos de Kooistra viriam a ser fechado, inclusive o consolidado April
Café e Soho. As dividas, o fechamento dos bares, agravado por outros fatores,
levou Kooistra a cometer suicídio em sua casa, próximo a Nijmegen.
O suicídio causou grande apreensão à época, dado o fato de que os
empreendimentos eram os responsáveis pelo movimento econômico da
Reguliersdwarsstraat, fazendo com outros empreendimentos ao redor se
beneficiassem com o público LGBT nela existente. Entre a comunidade LGBT de
Amsterdam a preocupação se deu em face à possível perda do espaço queer. De
fato, a rua veio a declínio, nem mesmo a inauguração do Taboo Bar alavancou a rua
novamente às luzes (coloridas) do entretenimento noturno.
Em 2010, passados 47 anos após o primeiro bar gay inaugura na
Reguliersdwarsstraat, esta rua foi do auge ao declínio, empreendimentos famosos e
de sucesso como danscafé Havana, Exit, April Café e Coffeeshop Downtown, ARC,
Soho e outros espaços de entretenimento LGBT estavam fechados.
A administração municipal de Amsterdam percebeu na Reguliersdwarsstraat
o uso turístico, atuou em acordo com empresários e com a cervejaria Heineken,
para a reabertura da rua, visto a necessidade dos próprios residentes em haver um
espaço LGBT para homosocialização.
Em 2011, reabrem os empreendimentos, alguns com o mesmo nome (como
forma de manter uma identidade): Soho, Havana, Lunchroom Downtown, April Café
(renomeado: Ludwig II), ARC (renomeado: EVE). Pouco depois surge o Secret
Village, área revitalizada da rua para novo uso turístico.
Figura 5: Mapa dos estabelecimentos do lado oeste da Reguliersdwarsstraat
Fonte: Reguliers (2020).
Considerações finais
A inserção da Reguliersdwarsstraat no turismo LGBT se dá pela linearidade
dos 465 metros da via que apresenta empreendimentos que satisfazem as
necessidades de turistas e moradores, conforme afirma Neves (2019) o que
possibilita uma variedade de atividades voltadas ao lazer, que é mais evidente no
caso da rua aqui apresentada.
O que se pode perceber na rua é a existência residências, garagens e
escritórios, bares, restaurantes, coffeeshops, casas noturnas, lojas de calçados,
lojas de roupas, loja de souvenir, loja de bebidas alcoólicas, salão de cabeleireiros,
estúdios de tatuagem, casa de massagem, espaços comerciais desocupados, hotel,
B&B (Bed and Breakfasts) e imóvel para locação de temporada.
O turismo representa para a Reguliersdwarsstraat uma fonte econômica
importante, pois o funcionamento dos bares e restaurantes representam
equipamentos turísticos de primeira necessidade, seguido pelo hotel e espaços de
entretenimento noturno, fazendo com que a presença de turistas LGBBT seja
notada todo os dias da semana, em todos os meses do ano.
Com a formação da associação comercial, que organizou-se em reestrutar o
Secret Village (espaço evidenciado na Figura 5), a Reguliersdwarsstraat renovou-se
tal como se percebe no Modelo de Butler (1980). O Secret Village – microárea
dentro do espaço em análise – se caracteriza por trazer à via, mais do quee um
espaço verde composto pelos jardins internos dos restaurantes e casas, trouxe à
esta rua novos turistas, heterosexuais e homossexuais, nacionais e internacionais,
bem como residentes da cidade.
Amsterdam, oferece ao turista LGBT espaços queer em diversos pontos da
cidade, sendo ela, per se, uma cidade gay-friendly; ofertar espaços destinados ao
público LGBT dispostos pelo território municipal faz da cidade um destino diverso,
com grande variedade de serviços. A própria cidade se renova, tal como no Modelo
de Butler (1980); haja visto a realização de novos eventos ou na inauguração do
A'dam Lookout (torre de observação).
Com todo potencial turístico de Amsterdam, é comum perceber a cidade nos
noticiários que envolvem o fenômeno da turismofobia (overtourism), a
Reguliersdwarsstraat se apresenta como uma área que pode reduzir o fluxo de
turistas em bairros com grande incidência de visitantes, como o Red Light District,
visto que o turista LGBT ao frequentar a Reguliersdwarsstraat pode passar diversas
horas do dia neste espaço queer, frequentando os locais “tradicionais” em
momentos de menor fluxo.
A Reguliersdwarsstraat apresenta-se como um case de sucesso ao se
analisar sob a ótica do Ciclo de Vida da Área Turística, proposto no Modelo de
Butler (1980), pois seu rejuvenescimento retornou a area para um novo ponto incial
do ciclo, ocasionando um novo desenvolvimento. Sua análise, aponta o turismo
LGBT como potencial para outros espaços queers esquecidos ou degradados.
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