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A Aurora de Elora: Transformação e Luz

O sol nasce de forma única, trazendo uma nova era para o Reino das Brumas, onde Elora e Kael compartilham momentos de luz e presença. Após a partida de Kael, Elora se torna a Guardiã dos Jardins Eternos, ensinando a comunidade a valorizar a paciência e a presença, enquanto um novo ciclo se inicia com a chegada de Dália. Com o tempo, Elora se transforma em jardim, simbolizando a continuidade da vida e do aprendizado na aldeia.

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Diêgo Matos
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A Aurora de Elora: Transformação e Luz

O sol nasce de forma única, trazendo uma nova era para o Reino das Brumas, onde Elora e Kael compartilham momentos de luz e presença. Após a partida de Kael, Elora se torna a Guardiã dos Jardins Eternos, ensinando a comunidade a valorizar a paciência e a presença, enquanto um novo ciclo se inicia com a chegada de Dália. Com o tempo, Elora se transforma em jardim, simbolizando a continuidade da vida e do aprendizado na aldeia.

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O sol nasceu.

Não como costuma nascer, em linha e crescendo; nasceu em

círculos, expandindo-se para fora e para dentro, como se quisesse tocar o

que ficou e o que foi. Ao longe, no Reino das Brumas, mulheres e homens

e crianças gritaram, riram, choraram; um velho acendeu uma vela por

relíquia e depois a apagou porque a luz do dia era mais bonita. A bruma

deixou de ser véu e virou um tecido claro onde as sombras descansavam,

sem mandar em nada. No Terraço, Elora olhava Kael. Ele estava mais

luminoso do que qualquer coisa que ela tivesse visto, porém não doía de

olhar, como o eclipse que machuca. Dava vontade de rir e de chorar.

— Ficas? — perguntou Elora, sabendo a resposta e, no entanto, precisando

escutá-la.

— Não inteiro — disse ele, e pela primeira vez sua voz vinha de todos os

lados do corpo. — Uma parte de mim será aurora, onde quer que o reino

precise. Outra parte lembrará. Essa fica aqui, se quiseres. Mas não tem

mãos nem sombra. Tem presença.

Elora estendeu as mãos e as fez passar através dele. Era como passar as

mãos numa madrugada: algo toca, mas não se agarra. Quis protestar, quis

dizer às forças que escrevem o mundo que elas estavam cometendo um erro

de gramática. Não disse. Em vez disso, cantou. Cantou a canção que

guardara na concha. À medida que cantava, letras minúsculas surgiam no ar

— e não eram letras de alfabeto, eram letras daquilo que a terra usa para
escrever nas raízes — e se iam depositando no corpo de Kael, como se o

corpo dele fosse um livro, e o livro, uma horta. Ele sorriu, com uma

gratidão que tinha a delicadeza dos perdões que chegam antes da ofensa.

Quando a canção acabou, a luz deu um passo. O Terraço do Leste tornou-se

lugar de fronteira. Kael falou uma última vez com o peso das coisas que

não pedem eco:

— Não é ausência. É tradução. Onde houver aurora, estarei passando; onde

houver jardim, estarei demorando.

E se decompôs em dia. Não em cacos, não em pó: em claridade. Uma parte

se levantou como brisa morna; outra se fixou no vaso do limoeiro; a

terceira tomou o caminho das primeiras casas da aldeia, e as janelas, que

ainda traziam a noite nos vidros, tremeram de delicadeza. Elora ficou de pé,

inteira. Sentiu, ao mesmo tempo, uma vazante e um enchimento. A rosa,

agora aberta, parecia um coração de metal que aprendeu a bater como

músculo.

Nos dias seguintes, Luarvales conheceu uma estação nova: um intervalo

entre outono e primavera que o povo chamou de reverdecer. As crianças

tinham a impressão de que havia música no chão. As roupas secavam mais

depressa nas varandas. A água do poço não mordia os dentes. Alguns

velhos, que por pudor evitavam dizer que já tinham esquecido os nomes
dos netos, começaram a recordá-los; outros, que viviam debruçados sobre o

passado, aprenderam a usar o passado como janela, não como cama. O

castelo deixou de pedir desculpas por ser alto e descobriu que o alto não

humilha se inclina a cabeça para ouvir. Elora passou a ser chamada de

Guardiã dos Jardins Eternos, título que ela recebeu com a humildade de

quem entende que os nomes apenas aproximam o real.

A Guardiã descobriu novos ofícios. Aprendeu a plantar sombras para que

as plantas descansassem; aprendeu a regar silêncios quando as palavras se

esticavam demais; aprendeu a colher auroras em frascos para entregar a

quem precisava acordar sem pena. Recebia gente de toda parte: mulheres

com crianças de colo, rapazes que queriam aprender a demorar, velhos com

perguntas que chegaram tarde demais. A todos prestava um ouvido e um

raminho de qualquer coisa viva. E, de vez em quando, quando o dia nascia

com especial delicadeza, o ar sobre o Terraço do Leste adquiria um brilho

que não vinha de nenhum objeto: era a presença que Kael prometera.

Nessas horas, Elora não chorava. Conversava.

— Hoje plantei salgueiros onde há muita fala — dizia. — Para que se

aprendam lágrimas mansas.

— Hoje soprei amanhecer nos telhados — respondia o brilho. — Para que

os sonhos saiam de casa e vejam a rua.


Assim foram passando as luas, e a aldeia aprendeu uma gramática mais

larga. Mas a vida não é só amplidão: tem dobras, curvas, repetições. Em

certo outono, quando as folhas decidiram virar cartas e escrever com suas

quedas um livro, um viajante chegou. Era alto, tinha nos olhos um resto de

noite, e em seu cajado havia pedras de diferentes lugares. O povo se juntou

na praça. O viajante contou de um reino distante que despertara das brumas

e queria enviar um presente a Luarvales. Abriu um pano e mostrou um

instrumento feito de fios de luz e madeira escura. Não era cítara, não era

harpa. Tinha no corpo uma inscrição: “Para a Guardiã: com gratidão e

saudade.”

Elora pegou o instrumento. Ao tocar a primeira corda, o ar fez um

movimento semelhante ao de um peixe que muda de água. Acordes

surgiram que lembravam o som que as janelas fazem quando primeiro

recebem o sol. A aldeia escutou sem respirar. O viajante sorriu; partiu

levando consigo o rumor de que, além das colinas, a luz se comportava

com a mesma cortesia.

Uma tarde, a anciã do Mercado dos Sussurros apareceu no Terraço. Trazia

um cesto de vime com maçãs que tinham uma mancha de ouro na casca.

Sentou-se sem pedir licença, como fazem os que já obtiveram todas as

licenças do tempo.
— Vês? — disse, não como pergunta, mas como indicação de um quadro

que ambos reconhecem. — A dívida foi paga e a promessa, cumprida. Mas

há contas que se reabrem com os anos. Algum dia, alguém vai pedir de

novo que cortem a noite. Quando esse dia vier, tua coragem terá de ter

aprendido outra forma.

— Que forma? — perguntou Elora.

— A de recusar — disse a anciã. — Coragem de dizer ao mundo que ele

também pode esperar.

Elora guardou as palavras onde guarda as sementes: num canto da boca do

coração. E continuou.

Na virada de uma estação, o limoeiro onde a Rosa do Amanhecer morava

frutificou. Os limões se penduraram como luas pequenas. Ao cortar um,

Elora descobriu que, entre as gomos, havia minúsculas letras de luz que,

quando juntas, diziam coisas como: “descanso”, “paciência”, “absolvição”.

Às vezes, oferecia um limão desses a alguém que vinha muito aflito;

pedindo, é claro, que fizesse limonada, porque as palavras doces demais

fazem mal ao dente da alma. Com o tempo, surgiu o hábito de, cada vez

que alguém precisasse dizer uma verdade difícil, morder antes uma casca

de limão do Terraço. Nunca ninguém soube explicar por quê, mas ajudava.
Anos depois, uma menina de cabelos tão pretos que tinham ligeira borda

azul apareceu pedindo para aprender o ofício. Chamava-se Dália. Tinha o

dom de ouvir o que as sombras dizem quando não há nada para dizer. Elora

ensinou-lhe o que sabia e, mais que isso, ensinou-lhe o que ignorava sem

vergonha: “O jardim sempre sabe mais que a jardineira”, repetia. Dália

aprendeu depressa, porque quem respeita o que há não desperdiça tempo.

Um dia, foi Dália quem notou primeiro que a claridade de Kael chegava

cansada. Elora escutou. A luz, de fato, vinha com uma nostalgia que não

cabia nos telhados.

— Ele está pagando juros? — perguntou Dália, que gostava de

transformar metáforas em contas para medir a dor da realidade.

— A luz paga visitando as coisas muitas vezes — disse Elora. — E cada

visita pede um pedaço de quem a transporta.

No dia seguinte, antes da aurora, Elora subiu sozinha ao Terraço. Levava a

concha, luzidia de tantas histórias, e um pedaço de pano onde bordara,

com linha de amanhecer, formas que lembravam raízes. Sentou-se e

esperou. Quando o primeiro clarão riscou o céu, Elora falou para a

claridade:

— Hoje, quem visita sou eu.


E contou-lhe tudo que uma memória pode carregar sem quebrar: o vento,

o rio, a montanha; a anciã, a Tecelã, a Senhora dos Ermos; o limoeiro com

letras; o hábito de morder cascas antes de dizer verdades; Dália, com seus

ouvidos para sombras. Falou até sentir que a voz pesava o suficiente para

fincar pé. A claridade descansou na fala como pássaro em galho. Elora

percebeu que, às vezes, não é preciso segurar alguém: basta oferecer uma

estrutura para que repouse.

— Obrigado — disse o dia, e a palavra “obrigado”, naquele momento,

tinha a forma exata de uma casa. Depois, foi crescer para dentro do

mundo.

Assim chegaram velhices. Não as velhices do corpo — que veio mansa e

ganhou uma dignidade de árvore — mas as velhices das coisas que foram

muito amadas: o Terraço perdeu um azulejo, o limoeiro teve um inverno

de preguiça, a concha rachou num fiapo. Elora, que aprendeu com a anciã

a coragem de recusar, começou a negar alguns pedidos. Quando vinham

exigir aurora como quem exige serviço, Elora respondia:


— Esperem. A noite tem direitos.

E ensinava a dormir. Dizia que há ausências que alimentam mais do que

presenças. Dizia que o amor não é um candeeiro aceso à força. A aldeia

resmungou, como resmungam todos os lugares quando se lhes pede

paciência. Depois aprendeu.

Numa manhã que começou nublada, Dália encontrou Elora sentada junto

ao limoeiro. Os olhos da Guardiã eram duas janelas abertas. Sorria. No

colo, a concha. Nas mãos, nada — e, no entanto, tudo. Dália ajoelhou-se.

— É chegada a hora? — perguntou, sem arranhar a pergunta com

lágrimas.

— Chegada — disse Elora. — Não a da partida. A da tradução. O jardim é

maior do que eu, do que tu, do que o Terraço. Ele pede que eu vire sua

música, como Kael virou aurora.


— E eu? — Dália fez a pergunta que toda discípula deve fazer para que a

tradição não vire rebanho vazio.

— Tu ficas — disse Elora. — E recusas quando for preciso. E permites

quando for hora. Guarda o fio de amanhecer; lembra que cortar a noite

tem custo. Ensina as crianças a ouvir as raízes. Lembra a aldeia de comer

limão antes de falar verdades. Se alguém te perguntar por mim, aponta o

orvalho.

Dália segurou a concha, agora com uma rachadura que desenhava um

raio. Elora ergueu-se. A brisa mexeu ligeiramente o cabelo de cobre, hoje

com fios prateados que conversavam com o botão antigo, ainda no colar.

A luz, que naquela manhã vinha devagar, como quem disputa espaço com

uma lembrança de chuva, aproximou-se do Terraço. Elora respirou. A

respiração tinha cheiro de folha de limão. Sorriu para o mundo inteiro de

uma vez só. E se tornou jardim.

Não houve espetáculo. Nem grito. Nem milagre que quisesse plateia. O

que houve foi que as folhas aprenderam um modo novo de dizer “sim”, e

as sementes, um modo novo de prometer. O orvalho passou a brilhar com


uma paciência atenta. Dália, emocionada do modo que não arrebenta

nada, inclinou-se e beijou o chão. Na aldeia, ninguém percebeu uma

ausência: percebeu-se uma atenção mais densa nas coisas, como se as

cadeiras suportassem melhor o cansaço e as camas entendessem a forma

de cada corpo.

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