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Gênero e Sexualidade na Escola: Análise Sociocultural

O projeto analisa a construção social de gênero e sexualidade no contexto escolar, focando em alunos do ensino médio e suas vivências durante a adolescência. A pesquisa busca entender como as identidades de gênero são formadas e influenciadas por fatores socioculturais, além de defender a importância de uma educação sexual inclusiva e crítica. Através de questionários, o estudo investiga a percepção dos alunos sobre suas experiências e a presença de discriminação de gênero na escola.

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O projeto analisa a construção social de gênero e sexualidade no contexto escolar, focando em alunos do ensino médio e suas vivências durante a adolescência. A pesquisa busca entender como as identidades de gênero são formadas e influenciadas por fatores socioculturais, além de defender a importância de uma educação sexual inclusiva e crítica. Através de questionários, o estudo investiga a percepção dos alunos sobre suas experiências e a presença de discriminação de gênero na escola.

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Anais do SIES - Simpósio Internacional de Educação Sexual da UEM

ISSN 2177-1111

GÊNERO E SEXUALIDADE: CONSTRUÇÕES DA DIFERENÇA NA VIVÊNCIA


ESCOLAR NO ENSINO MÉDIO (2007-2008)

Discente: Luana Pagano Peres Molina/ UEL


Orientadora: Profª. Drª. Maria de Fátima da Cunha/ UEL

Este projeto de iniciação científica que se foca em questões de gênero e


sexualidade e que acabou desdobrando-se na minha tese de conclusão de curso
tem como objetivo desenvolver uma análise e reflexão acerca da construção sócio-
cultural, no que diz respeito aos papéis de gênero e sexualidade que são
construídos ao longo de nossa vida e nos liga intimamente com a sociedade, a
cultura vigente e a maneira como nos relacionamos com os outros.
A compreensão referente à sexualidade e gênero e a maneira como estas se
interagem, são reflexos da construção e imposição ao longo do tempo das diferentes
composições da idéia de gênero e sexualidade que há em diversas culturas e
sociedades, portanto para seu estudo levou-se em conta as transformações
socioculturais onde estão inseridas, no caso deste trabalho, a sociedade ocidental.
O conceito de gênero procura explicar as relações sociais entre homens e
mulheres, resultado de questionamentos que surgiram no movimento feminista e pós
diversas tentativas de explicar através de teorias a condição da subordinação
feminina. Não havendo uma explicação coerente que articulasse a opressão das
mulheres no trabalho, família, sexualidade, poder e identidade, nesse sentido, o
conceito de gênero veio buscar uma compreensão destas questões e permitir
analisar as suas conseqüentes relações.
Foi um momento relevante para questionamentos sobre gênero, devido às
conquistas conseguidas, como por exemplo, o direito ao voto e todas as mudanças
que ocorreram com a chamada “revolução sexual”, além das pertinentes
reivindicações devido à desigualdade no exercício de direitos, como políticos,
trabalhistas e civis. O feminismo no Brasil, devido à influência dos movimentos
feministas da Europa e dos Estados Unidos, começa a ganhar espaço social e a
historiografia passa a se interessar pela participação feminina, buscando a
compreensão da trajetória histórica e da construção de seu lugar social, que
segundo Guacira Lopes Louro i :
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[...] levantaram informações, construíram estatísticas, apontaram


lacunas em registros oficiais, vieses nos livros escolares, deram voz
àquelas que eram silenciosas e silenciadas, focalizaram áreas,
temas e problemas que não habitavam o espaço acadêmico, falaram
do cotidiano, da família, da sexualidade, do doméstico, dos
sentimentos [...]. (LOURO,1999:19)

Essa mesma autora, diz que a sexualidade é construída e apreendida num


processo de diferentes modos e sujeitos. Será através do diversos processos
culturais, que será produzida e transformada a simbologia do corpo, ganhando um
sentido social que será estabelecido ou codificado, ou seja, as identidades de
gênero serão compostas e definidas por relações sociais de poder de determinada
sociedade.
Assim, ao dizermos que as relações de gênero são construídas socialmente,
isso implica dizer que elas se dão de forma diferente de uma sociedade para outra e
em épocas diferentes. Ou seja, os sujeitos históricos têm suas relações
fundamentadas por um padrão dominante no gênero, por isso, o foco deste trabalho
é se pensar e repensar a necessidade da desconstrução do que é ser homem e ser
mulher na sociedade atual, abrindo possibilidades existentes na compreensão das
diferentes formas de masculinidade e feminilidade que se constituem socialmente.
Incorporando essa discussão, Louro levanta questionamentos que poderão levantar
problemáticas como o conceito de heterossexualidade, tratando de mulheres e
homens que vivem feminilidades e masculinidades de formas diversas e não
hegemônicas e, portanto, ao aceitarmos que a construção de gênero é histórica e se
faz e refaz constantemente, estamos entendendo que as relações de gênero, seus
discursos e representações também são históricos e estão em constante mudança.
Acredita-se que os questionamentos que permeiam as relações sociais entre
os sexos constituem-se numa rede ideológica, onde acaba por colocar o ser humano
numa relação hierarquizada. No que se refere às relações de gênero, apesar dos
avanços das ultimas décadas, a forma como estão intrínsecas na nossa sociedade e
os valores predominantes acabam por colocar a mulher numa posição e situação de
subordinação.
As diversas instituições, como a escola, universidade, família, igreja, mídia,
entre outros, colaboram diretamente na construção das identidades masculinas e
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femininas, influenciando nas suas relações. Portanto, desde crianças, na


observação de como se dão as relações de gênero dentro de casa e fora dela, na
orientação que recebem quanto aos brinquedos e brincadeiras, roupas, e modos
tidos como mais adequados a cada gênero, as crianças são treinadas a desenvolver
papéis e habilidades específicas e diferenciadas, que irão influenciar ao longo de
sua vida.

A naturalização dos papéis e das relações de gênero faz parte de


uma ideologia que tenta crer que esta realidade é fruto da biologia,
de uma essência masculina e feminina, como se homens e mulheres
já nascessem assim. Ora, o que é ser mulher e ser homem não é
fruto da natureza, mas da forma como as pessoas vão aprendendo a
ser, em uma determinada sociedade, em um determinado momento
histórico. Por isso, desnaturalizar e explicar os mecanismos que
conformam essas identidades são fundamentais para compreender
as relações entre homens e mulheres, e também seu papel na
construção do conjunto das relações sociais.” (FARIA e NOBRE,
2003: 29) ii

Assim, as atribuições sociais impostas, que levam à manutenção das


desigualdades, da forma como estão – mesmo que muitas vezes ainda
despercebidas e ou camufladas – são formas de manter a opressão entre os
gêneros, na tentativa de manutenção na permanência entre homens e mulheres nos
seus lugares sociais.
Michael Foucault iii e suas contribuições a respeito das relações de poder, diz
que o poder não é centralidade, mas sim que pode ser constituído por toda
sociedade, se exercendo em estratégias e manobras, ao que ele chama de exercício
de poder. Esse exercício de poder ocorre entre sujeitos que transgredindo essa
relação, acaba por encontrar, incitar, produzir e criar a resistência, que é inerente a
qualquer exercício do poder.
Hoje homens e mulheres, através de suas diferentes práticas sociais,
constroem relações em que há esse exercício de poder, ao buscar negociações,
avanços, entendimento na diversidade de suas relações, de seus poderes. Mas,
essas relações certamente não são construídas somente por mecanismos de
repressão ou censura, são tecidas também através de gestos, modo de ser e agir,
condutas e posturas, por fim, os gêneros também se produzem e reproduzem nas e
pelas relações de poder, nos diz Louro. iv
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Já ao tratar sobre sexualidade, as relações sociais entre homens e mulheres


dentro da conotação sexual, são influenciadas diretamente pelas expectativas dos
estereótipos, que mudam e se transformam historicamente e conjuntamente com as
sociedades, criando os papéis sociais estabelecidos pela identidade de gênero.
Assim como a identidade de gênero e intrinsecamente ligado a ela, as atividades
sexuais ocorrem segundo as particularidades do individuo frente às exigências
culturais, normas e padrões da sociedade. Segundo a autora Werebe v , devido à
intervenção dos fatores ideológicos na sexualidade humana não podemos estudá-la
e caracterizá-la fora de seu contexto sócio-cultural que esta inserida.

Todo indivíduo nasce num momento dado da história, no seio de


uma cultura distinta. Seus desejos, suas emoções e relações inter-
pessoais são formados pelas suas interações com a cultura, dentro
da sociedade em que vive. ((WEREBE, 1998: 15)

Portanto, cada cultura irá determinar quais são as práticas sexuais mais
apropriadas, morais e saudáveis. Segundo essa mesma autora, cada sociedade irá
se organizar através da divisão social e sexual do trabalho, distribuição de
empregos, regulamentação e legalização das uniões conjugais, as
responsabilidades paternas e funções domésticas. Fixando assim, os papéis sexuais
que são definidos e impostos em diferentes culturas.
O conceito de sexualidade difere-se do conceito de sexo. O sexo refere-se à
relação sexual, o ato em si. Enquanto que a sexualidade é muito mais uma questão
social que individual, sendo regida pelos comportamentos, normas e regras
culturais, a orientação sexual do indivíduo, a afetividade, o amor, o contato entre as
duas pessoas, o prazer, a curiosidade, descobertas, a atração e entre outros
sentimentos que ampliam a dimensão da sexualidade, levando em conta, o papel e
o valor do sexo que cada cultura cria. Mary Neide Figueiró vi nos diz:

O significado do sexo e da sexualidade consiste em que o primeiro


está relacionado diretamente ao ato sexual e à satisfação da
necessidade biológica de obter prazer sexual [...]. A sexualidade, por
sua vez, inclui o sexo, a afetividade, o carinho, o prazer, o amor ou
sentimento mútuo de bem querer, os gestos, a comunicação, o toque
e a intimidade. Inclui também, os valores e as normas morais que
cada cultura elabora sobre o comportamento sexual. (FIGUEIRÓ,
2003:2)
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O tema referente ao sexo e as diversas forma de se fazer sexualidade,


sempre foram silenciados, tratados como tabu, tratado como vergonhoso, impuro e
pecaminoso. As instituições manipulam o sexo de todas as formas e o corpo em
toda sua dimensão foi controlado, domesticado e submetido a padrões, disciplina,
através de esteriotipos, mentalidades, vestuários, etc. Assim o imaginário, enquanto
campo de significações produzidas sofre continuadamente manipulações culturais.
Por fim, não se pode repensar a sexualidade sem discutir os papéis sócio-
sexuais, onde consequentemente perceber as crenças, atitudes e valores, é estudar
o individuo inserido em sua dimensão social, o que inclui o aspecto político,
educacional, religioso.

-VIVÊNCIA ESCOLAR: ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DE GÊNERO E


SEXUALIDADE NO ENSINO.

Escolhi desenvolver esse projeto no âmbito escolar, cujo foco


especificamente são alunos do primeiro colegial do ensino médio, do Colégio
Aplicação em Londrina, Paraná, por entender que a fase da “adolescência” está
marcada pelas transformações nas varias dimensões psicossociais e culturais, onde
o jovem busca e confronta sua identidade pessoal, sexual e social. É nessa fase da
vida que fica mais visível, a incorporação dos modelos de masculinidade e
feminilidade e será nesse contexto que se forjam as relações sociais entre os sexos,
ou seja, as relações de gênero, que vão dar forma e significado às atitudes e
práticas como homem ou mulher, suas interações sexuais, idéias e representações
sobre a sexualidade e identidade sexual.
Por isso defendo uma educação sexual realmente efetiva e presente na
educação, que seja um espaço para o jovem, para discutir seus sentimentos,
descobertas, angústias, dúvidas, informações com clareza e objetividade, dando-lhe
através de grupos de estudos e momentos de reflexão oportunidades para
pensarem e debaterem sobre todos os assuntos ligado ao sexo, afim de se formar
uma idéia com respeito e naturalidade a respeito da sexualidade e tornando-se um
sujeito ativo e critico quando a sua identidade de gênero, uma vez que a idéia é
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preparar o individuo para perceber e receber de forma critica as diversas formas de


se viver a sexualidade, o masculino e feminino presentes no dia-a-dia, já que esse
processo não termina na adolescência, pelo contrário, estamos remodelando nossa
visão da sexualidade e gênero ao longo de toda nossa vida.
Segundo Mary Neide Figueiró vii :

A Educação Sexual deve formar indivíduos autônomos, tanto moral


quanto intelectualmente [...] lhe ensinar também a expressão de
sentimentos, tanto positivos, de amor, alegria, por exemplo, quanto
negativos, de aborrecimento, tristeza, mágoa. (FIGUEIRO,1999: 109)

Inseridos culturalmente no contexto social, temos uma série de preconceitos,


idéias e sentimentos, às vezes contraditórios, mas negativos em relação à
sexualidade. Por isso, encontra-se a importância da presença de uma educação
sexual no ambiente escolar, uma vez que o intuito não é designar o certo ou errado
nas relações de gênero e sexualidade, mas sim trabalhando com estes temas
decorreríamos expressões de sentimentos, atitudes e formação de valores morais,
trabalhando o relacionamento humano e aprimorando as relações interpessoais:

[...] o ensino de sexualidade deve abranger o respeito à diversidade,


isto é, o respeito aos homossexuais, às prostitutas e às pessoas
portadoras do vírus da Aids. Assim, o trabalho em Educação Sexual
abre-nos para repensar nossas atitudes em relação às pessoas que
fazem parte das minorias [...] (Figueiró, 2003:2)

Esta pesquisa foi realizada através de um questionário, como forma de coleta


de dados, com caráter exploratório acerca do tema, aplicado em três primeiros anos
do ensino Médio, do Colégio José Aluisio Aragão, que é o Colégio de Aplicação das
licenciaturas da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, durante o ano letivo
de 2008. Este colégio é uma instituição pública na zona central da cidade, e o
público atendido pertence basicamente à classe média.
O questionário constitui-se de um total de 13 questões, sendo divididos
basicamente em três partes. Nas 4 primeiras questões, fizemos questões que
tencionam mapear e fazer uma caracterização do perfil sócio cultural do aluno, como
idade, religião, renda familiar, se o adolescente vive com pai e mãe, se tem irmãos e
quantos (aqui essa pergunta torna-se interessante, porque caso tiverem irmãos mais
velhos, possuem um referencial de comportamentos, gostos, maneiras, próprios das
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relações entre irmãos, que influência também na incorporação de modelos


masculinos e femininos), e por fim, se os pais trabalham fora, onde eles costumam ir
após as aulas (no intuito de saber se trabalham) e se vão para casa com quem
costumam ficar ( como por exemplo, sozinhos, com avós e ou irmãos).
Já na segunda e terceira parte deste questionário as perguntas são voltadas
para investigar sobre a vivência da sexualidade (aqui, esse termo esta empregado
na abrangência desta palavra, como explicado no primeiro capítulo) buscando
perceber se já possuíram algum tipo de educação sexual (na escola, na família ou
na igreja), se na suas casas eles possuem algum espaço para diálogos referente à
sexualidade, quem é a pessoa que eles mais conversam sobre sexo, de onde eles
recebem maiores informações sobre a sexualidade e qual a idade que eles
acreditam ser ideal para começar a vida sexual.
No ultimo momento, sobre as relações entre gênero, o questionário busca
investigar se eles acreditam que ainda há discriminação contras as mulheres, se no
âmbito escolar ou familiar, ainda existam brincadeiras só para meninos e outras só
para as meninas, se na aula de educação física existam esportes que só os meninos
devem praticar, incluindo se essas aulas deveriam ser mistas ou separadas e por
fim, se no grupinho deles, entre amigos, existam mais meninas ou meninos.
De um total de 65 questionários respondidos, 28 foram de meninos, 34 de
meninas e 3 preferiram não se identificar (nem com o nome e nem com o sexo).
Entre os questionários das meninas, a faixa etária predominante está entre 14 e 15
anos, com 62% com 15 anos; 20% com14 anos; 9% com 16 anos e 9% com 17
anos. Das 34 meninas, 4 somente informaram o sexo, mas não o nome.
Já entre os meninos, a faixa etária predominante foi de 15 anos, com 67%
dos questionários; 11% de meninos com 14 anos, 11% com 16 anos e 11% com 17
anos. Dos 28 meninos, 7 informaram o sexo, mas não informaram o nome.
Considerando-se a importância de identificar o universo socioeconômico e
cultural dos adolescentes, foi solicitado a eles alguns indicadores a respeito da
renda de suas famílias. Segundo a Lei No. 15.826 - 01/05/2008, publicado no diário
1
oficial da Assembléia Legislativa do Estado Paraná , o piso mínimo salarial é de R$
547,80. Assim, dos 65 questionários, 12% a família vivia com de 1 a 5 salários

1
Retirado do site: [Link]. Acesso no dia: 17/11/2008, às 16: 24 horas.
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mínimos (R$ 547,80 até R$ 2.739,00); 31% de 5 a 10 salários mínimos (


aproximadamente de R$ 2.739,00 até R$ 5.478,00); 11% acima de dez salários
mínimos (acima de R$ 5.478,00 reais ao mês); 43% responderam que não sabiam e
3% preferiram não responder. Portanto, a maioria dos adolescentes provêm de
famílias cuja faixa de renda, variam de R$ 547,80 a R$ 5.478,00 reais ao mês.
Quanto às ocupações dos pais desses adolescentes, 63% tanto o pai quanto
a mãe trabalham fora de casa; 24,5% somente o pai trabalha fora, ou seja, a mãe
pode não trabalhar ou trabalhar em casa, como percebemos nessas falas: “Meu pai
trabalha fora, depois da escola vou para casa e fico com minha mãe.”, “Meu pai
trabalha fora, mas minha mãe não, Vou para casa e fico com ela e com meu irmão”
ou “Meu pai trabalha fora, minha mãe trabalha em casa, após as aulas vou para
casa e fico com minha mãe.”; 3% somente a mãe trabalha fora, assim o pai pode
não estar empregado ou trabalhar em casa; 2% nenhum dos dois trabalham; e
apenas 7,5% dos jovens trabalham no período pós aula, sendo em sua maioria,
ajuda aos pais no trabalho da família, como por exemplo: “Sim, geralmente ajudo
meu pai na loja de eletrônico e as vezes vou para casa e fico sozinha” ou
“Trabalham, depois das aulas vou ‘pra’ casa e dia de segunda eu fico segunda, os
outros dias eu trabalho à tarde com meus pais.”.
Na análise dos questionários frente ao universo familiar, constatou-se que
predominantemente os jovens vivem com seus respectivos pais biológicos (pai e
mãe); 12% vivem somente com a mãe, como nas seguintes falas: “Não, só com a
minha mãe”, “Só com minha mãe, meu padrasto e meu irmão mais velho” ou “Não,
só com minha mãe, minha irmã e meu irmão”; 3% vivem somente com o pai, “Só
com o meu pai, porque eles são separados, moramos eu, meus irmãos e meu pai.”
ou “Não com minha mãe biológica, mas com minha madrasta, com meu pai e irmão.”
e 3% vivem com avós/tios, sem a presença dos pais, “Com meus avós. Minha mãe
está em Portugal e meu pai eu não conheço.”.
Dos 65 questionários, 85% dos adolescentes possuem irmãos e 15% são
filhos únicos. Desses 85%, que referem-se à 55 adolescentes com irmãos, 35 deles
possuem irmãos mais velhos; 83,5% têm de um a dois irmãos e 16,5% acima de
três irmãos.
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Outro aspecto da constituição familiar, diz respeito à religião, que é


predominantemente composta por católicos e evangélicos, sendo que, 57% dos
jovens se denominaram Católicos; 26% Evangélicos; 1,5% Testemunha de Jeová;
1,5% disseram não seguir doutrina nenhuma, respondendo apenas “Não tenho” e
por fim, 14% não responderam a respeito de sua religião, no caso, ou não tendo ou
optando por não revelar.
Portanto, o perfil socioeconômico da maioria desses jovens é de pais que
trabalham fora, com um ou mais irmãos, com doutrina religiosa católica ou
protestante e possuindo uma renda que pode variar entre R$ 547,80 a R$ 5.478,00
reais ao mês.
Já na análise envolvendo diretamente questões da temática proposta a ser
trabalhada, iniciamos buscando saber se estes adolescentes já possuíram algum
tipo de educação sexual formal, na escola, na família, ou em alguma outra
instituição, como por exemplo, a religiosa, entendendo que se esse fato já tivesse
ocorrido, eles responderiam as questões sem tanto constrangimento, com mais
naturalidade ou com mais clareza acerca do assunto e principalmente tentando
identificar o que é para eles a educação sexual. Com isso, 57% dos adolescentes
responderam que não tiveram nenhum tipo de educação sexual; 3% não souberam
responder, identificados através do “Não sei, acho que não”ou “Mais ou menos” e
40% disseram ter tido educação sexual. O Interessante aqui é perceber que estes
jovens, acreditam terem tido educação sexual, somente com algumas palestras
disponibilizadas pela escola ou comunidade e principalmente as aulas de ciências,
geralmente voltada a trabalhar a questão do aparelho reprodutor (somente com um
caráter biológico), DSTs/AIDS e gravidez.
Como é visível em algumas falas: “Mais durante a aula de biologia”, “A
professora de ciências da sexta série falou o primeiro bimestre inteiro sobre doenças
sexualmente transmissíveis.”, “Já tive na escola, mas era muito raramente” ou “Já
tive, mas não com freqüência”. A idéia aqui colocada através das respostas dadas,
como alguns exemplos citados, é de que a educação sexual trabalhada com esses
alunos foi de maneira informal, desarticulada, sem continuidade e sequer foi
trabalhado com eles, a intenção daquela educação sexual proposta, o que realmente
seria uma educação sexual, suas discussões e desdobramento. Porém, em alguns
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casos, como “Sim, a família comenta e de vez em quando professores dão alguns
exemplos”, “Minha mãe me dá muitos conselhos sobre isso” ou “Na família sim, mas
na escola diretamente relacionada a educação sexual não”, vemos que mesmo de
maneira informal, fora do âmbito escolar e principalmente através de diálogos,
conversas, trocas de informações, com uma certa “liberdade” de ouvir e falar, o
jovem aprecia essa experiência, como educação sexual. O que nos faz pensar, que
o próprio jovem apropria-se e reconhece a educação sexual como aquele espaço
em que ele pode se expressar, ter um diálogo, através da abertura dos professores
e / ou dos pais sobre o assunto.
Na seqüência, pergunta-se se há espaço para diálogos a respeito da
sexualidade com a família, 28% falaram que não possuem diálogo algum em casa,
enquanto 49% constataram que possuem esse espaço de conversa e 23%
responderam que há diálogo, mas de maneira esporádica, como “Muito raro”, “Meu
pai não gosta muito”, “De vez enquando quando o assunto é solicitado ou discutido”,
“Sim, há dialogo, mas não falamos muito disso, mais todos respeitam cada um.”e
também foi muito comum encontrar algumas respostas, como “não é comum, mas
tem”, “muito raro” ou “Não digo espaço para diálogos, mas de vez enquando a gente
conversa sobre esse assunto, sendo por acaso as vezes por alguma coisa que está
passando na TV” . Os que responderam haver diálogo entre eles e seus pais,
somaram-se “Quando precisa falar, não tem problema nenhum em conversar sobre
isso”, “Sim, na minha casa nós somos abertos para qualquer assunto”, “Sim, sempre
houve”, “Sim, é um assunto muito discutido”, ou nos casos mais das meninas,
percebemos que estas procuram mais o semblante da mãe, como “Com a minha
avó e minha mãe sim, com os outros não.”, “Com minha mãe, sim”. Já nos casos em
que não há nenhum diálogo, os jovens colocam: “Não, minha mãe tem um
pensamento bem antigo”, “Nunca cheguei a entrar no assunto”, “Não falamos sobre
isso”, “Nunca tive vontade de conversar sobre isso”.
Inclusive chegamos a encontrar um caso, em que a falta total de diálogo e
provavelmente uma educação informal, que já expressou o sexo como algo ruim e
impuro, que deve sempre ser visto, sentindo e acompanhado por um sentimento de
vergonha, é o caso deste jovem que ao responder sobre o diálogo familiar diz:
“Ainda bem que não” e na próxima pergunta que seria qual a pessoa que você se
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sente menos desconfortável para falar sobre sexo, declara: “Não falo de sexo com
ninguém a não ser em piadas com os amigos”.
Nessa pergunta que seria sobre a pessoa que o jovem mais se sente à
vontade para falar sobre sexo, a resposta foi predominantemente os amigos, devido
a intimidade criada entre eles, como segredos, os gostos, a importância do
sentimento de pertencimento por alguém que vá compreender você, como “Minha
melhor amiga, acho que é por ela ter a mesma idade que eu”, “Amigos, pois é um
assunto mais fácil e menos constrangedor de conversar com os amigos”, “Um
amigo”, “Minhas amigas, porque com minha mãe não dá para conversar sobre esse
assunto, já minhas amigas é um papo mais aberto, sem vergonha”, e até mesmo
por essa questão de proximidade de idade, acreditar que estão passando pelas
mesmas descobertas e situações, muitas vezes a conversa dentro da família,
resume-se somente entre os primos e irmãos, “Minhas primas, por serem da mesma
idade”, “Com minha mãe (me sinto desconfortável), não gosto, prefiro conversar com
minha irmã”, mas o curioso que muitos responderam não a pessoa que ele sente-se
mais confortável e sim quem o deixa mais desconfortável e ai, a resposta
predominou entre os pais (principalmente a figura do pai) e professores.
Essa pergunta foi uma das mais interessantes, por que além de se perceber
como o sexo ainda é um tabu muito forte, mesmo na mentalidade e vivência do
jovem percebemos também alguns preconceitos nas relações de gênero,
principalmente entre a menina que não fala de maneira alguma com o pai sobre
esse assunto, simplesmente porque ele é homem, assim muitas meninas
responderam, “Meu pai, como ele é homem acho que não entende muito, não tem o
mesmo pensamento que eu”, “Meu pai, pelo respeito que eu tenho com a vida
privada dele, pela questão dele ser separado”, “Meu pai, porque ele é homem e por
isso, não me sinto a vontade de falar sobre isso com ele” e “Meu pai, porque tenho
mais liberdade com minha mãe para falar desses assuntos”, ou até é uma postura
distanciada do próprio pai, quando nega-se a falar sobre isto com as filhas, por
sentir-se desconfortável, “Meu pai, ele não gosta de falar sobre estas coisas
comigo”, diz uma menina de 15 anos.
O fato de os adolescentes terem receio de conversar com os pais, ou os
próprios pais não saberem lidar com essa temática, nos faz entender que o
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desconforto surgido nessa relação seria compreensível já que muitos desses pais
não tiveram uma educação sexual aberta, com diálogos, reflexões, bombardeios na
mídia através de programas e novelas, e até mesmo em canções, filmes,
perpassando todo o cotidiano. Recebemos algumas respostas como, “Meu pai e
minha mãe é desconfortável, tem certas opiniões deles que não batem com a
minha”, “Meu pai, porque ele ia falar um monte pra mim” “Meu pai, ele me acha
muito nova para isso”, “Com meus avós, porque quando estamos perguntando,
fazem cara feia para responder tudo e dizem ‘você ainda não tem idade para saber
disso’”, “minha mãe, ela é sem cabeça”, “com minha família, pois pelo fato de nunca
falarmos disso dá sempre um pouco de vergonha”, “com minha família, pois eu sinto
vergonha”, “com minha mãe, porque é meio embaraçoso”, através desses exemplos,
percebemos que o sentimento de vergonha perpassa tão intrinsecamente a
construção da sexualidade na vida do indivíduo, inclusive perpassando suas
relações inter-pessoais, que trabalhar sua sexualidade ou simplesmente conversar
sobre ela, traz consigo sentimentos de certo mal-estar, timidez, incerteza, se devem
ou não perguntar, e terem receio por não saberem se os pais responderam ou não
as suas perguntas e como reagiram a elas.
Porém, vemos alguns casos em que os jovens não conversam com a figura
paterna, mas possuem liberdade e diálogo com a mãe. Ainda alguns jovens,
acreditam que não devemos conversar isso com ninguém, por serem situações
intímas: “desconforto com todos, por que sim, hoje em dia não se pode confiar em
ninguém”, diz uma jovem de 15 anos que ao falar sobre o desconforto, dá a
sensação de que tem algum medo de sofrer alguma represália, se confiar em
alguém e descobrirem. Outros jovens responderam simplesmente “não falo sobre
isso com ninguém”, e “Eu não falo sobre isso nem com a minha psicóloga”, diz esse
garoto de 15 anos. Preocupa-me ver como nossos jovens reprimem suas angústias,
dúvidas, possuem medo de viver e falar sobre sua sexualidade, seus sentimentos,
tudo o que está descobrindo. Falta-lhe a chance de perceber e compreender a
sexualidade como algo inerente ao individuo, e que não há mal nenhum em
conversar sobre isto com outras pessoas, inclusive sua psicóloga, amigos, ou,
qualquer um que lhe traga confiança.
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Ou ainda um garoto de 15 anos, que responde: “Todos, porque odeio a


ignorância da reação de tais (pessoas) ao começar um diálogo”, o que dá para
compreender aqui, que este jovem não aceita a reações de algumas pessoas, que
possam ser mais agressivas, prepotentes e astutas ao iniciar algum diálogo
referente à sexualidade, talvez porque esse jovem enxergue esse tema como algo
natural e não como algo a ser destratado, sendo um tabu, silenciado, e colocado
sempre de maneira tão preconceituosa.
Por fim, encontramos em pouquíssimos, mas existentes, casos em que o
adolescente vê a discussão referente à sexualidade, como algo natural hoje em dia,
por isso não acredita e não vê problema algum em se falar sobre isso, “Minha mãe é
bem compreensível”, “Converso abertamente com qualquer pessoa com que
convivo, porque hoje considero um assunto muito normal”, diz esse jovem de 15
anos que fez um curso no Sesc sobre Educação sexual. Outros dizem: “É um
assunto normal”, “Me sinto confortável para falar com qualquer pessoa, porque é um
assunto comum hoje em dia” e “não (há desconforto), porque você não deve se
reprimir”.
Além de percebemos a importância das posturas dos professores, como já
discutido no capítulo anterior, para que possam desenvolver junto aos seus alunos
uma dinâmica educacional como um poderoso auxiliar na construção da cultura e do
conhecimento sem barreiras, em vez de se mostrarem contra a temática da
sexualidade no âmbito escolar, passando despercebidamente aos conflitos dos
jovens, como percebemos nessa fala: “Com alguns professores, desconforto,
vergonha, falta de intimidade e compreensão da parte deles”, diz essa jovem de 17
anos. Sim, os professores como seres humanos, têm o direito de não sentirem-se à
vontade de trabalhar algumas questões que permeiam também, seus próprios
valores e religiosidade, por isso a importância de a instituição escolar escolher o
professor que queira fazer também esse papel de educador sexual. Mas como
educadores, eles precisam ao menos buscar um entendimento do que é essa
vivência, de descoberta e sentimentos, não acreditando que irão incentivar ao ato
sexual, mas sim ajudando-os, sendo um dos alicerces, a passar por essa fase da
vida.
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Já na questão seguinte, que indaga de onde eles recebem maiores


informações sobre a sexualidade, dos 65 questionários, 31 deles, ou seja, 47,5%
responderam apenas uma das alternativas, que predomina os amigos, os diálogos e
vivências entre eles, como uma das maiores fontes de troca de informações com
58%, a internet com 26%, a escola com 13% e a televisão com 3%. Ressaltamos
que é importante essa busca por informações, mas devemos ser críticos quanto às
mesmas, perguntando-nos se essas informações são satisfatórias, suficientes e
chegam de maneira correta.
Já aqueles que responderam mais de uma alternativa, que corresponde a
52,5%, a análise foi predominantemente a televisão conjuntamente com os amigos,
uma das maiores maneiras de os adolescentes obterem informação sobre
sexualidade, a internet e a escola vêm em terceiro lugar.
Sobre a indagação que refere-se à idade ideal para iniciar a vida sexual, 43%
determinaram uma idade de aproximadamente 17 anos para cima, como o momento
“certo” para dar inicio a sua vida sexual. As justificativas surpreendem quando
percebemos que a maior preocupação do jovem é a gravidez indesejada, eles
acreditam que sendo maiores de idade, poderiam trabalhar e sustentar a criança e
no caso dos meninos, a criança e a namora, caso tivessem algum “acidente”, como
vemos: “Com 18 anos porque você já é maior de idade e já estará trabalhando e
ganhando, caso surja frutos dessa relação”, “Só aos 18, porque já vamos ter
responsabilidade”, “Aos 18, é quando a formação do corpo se completa”, “18, por
causa da maioridade”, “18, porque já tenho mais responsabilidade”, “Acho que
quando você tiver mais responsabilidade, uns 18 anos, está bom”, “17 anos, pois já
somos mais maduros nessa idade”, “18 pois você já é responsável pelos seus atos”,
um garoto de 15 anos diz, “18 anos, porque se faz filho, já está trabalhando para
sustentar a criança”, outro da mesma idade também, “Dos 20 anos em diante,
porque caso haja um imprevisto você já terá uma vida financeira estável”, portanto,
percebemos que os jovens estão preocupados em ter maturidade e principalmente
responsabilidade para esse grande dilema da adolescência, têm a consciência da
importância do ato sexual ocorrer no momento em que você esteja preparado
fisicamente e psicologicamente, mas isso não significa que haja uma idade
apropriada para isso, seguindo a linha desse pensamento, 37% dos adolescentes
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responderam que não há uma idade adequada e sim que vai depender muito do tipo
de relacionamento, com quem está se relacionando e de pessoa para pessoa.
Assim podemos perceber em algumas falas: “Acho que não tem uma idade
certa, você tem que estar ciente e seguro do que estiver fazendo”, “Não sei, não
existe uma idade específica, quando tiver que acontecer, acontece.”, “vai da
mentalidade da pessoa”, “Não tem, por que depende da pessoa”, uma garota de 14
anos responde:“Na minha opinião não tem idade e sim o pensamento, do querer da
pessoa”, outra menina de 16 anos diz: “A idade que a pessoa preferir, que ela achar
que está pronta pra isso, e se cuidar, saber que o que acontecer, seja gravidez ou
uma doença, ela vai ter que arcar com as conseqüências.”
Por ser uma temática que envolve muito as questões religiosas, a primeira
vez para as mulheres é ligada à idéia de pureza, sinal de ser uma moça de “família”,
respeitosa. Para família, principalmente para o pai, a virgindade da menina é
sinônimo de respeito e de honra, agora para os meninos, quanto antes começarem a
se relacionarem e terem relações sexuais será melhor. Nos questionários 15,5%
responderam que relação sexual só após o casamento, tendo como principal
justificativa as questões religiosas de cada um, como: “depois do casamento
independente da idade”; uma garota evangélica de 17 anos responde: “depois do
casamento, sigo questões religiosas”; assim como também um garoto evangélico de
15 anos: “Depois de casar, porque na Bíblia fala que sexo antes do casamento é
‘prostituição’”, nesse caso percebemos bem os valores e normas religiosas desse
jovem. Outro menino de 16 anos diz: “Depois do casamento porque a religião
ensinou assim”; ou “Para mim, a vida sexual deve se iniciar após o casamento, pois
é o correto [...]”. Somente 4,5% dos adolescentes não se posicionaram a respeito,
ou não respondendo a pergunta ou simplesmente respondendo que não sabiam.
Nas últimas questões, o questionário se coloca mais no intuito de instigar os
adolescentes frente às relações de gênero, como é o caso da pergunta se eles
crêem que ainda haja preconceito contra a mulher, 2% responderam que não
sabiam; 72% responderam que sim, sendo que desse número, 61% eram meninas,
36% meninos e 3% não tinham nome e nem o sexo.
Aqueles que acreditam que ainda haja preconceito, justificaram em sua
maioria que sim, mas não deram maiores desdobramento, ou “Sim, apesar de
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termos conquistado bastante espaço na sociedade”, “Sim, principalmente no


trânsito”, coloca uma garota de 15 anos; “Sim, pelo machismo que ainda existe”,
“Sim, muitos homens só querem usar as mulheres, mas isso acontece só porque
muitas delas dão tal liberdade”, “Se for em relação a pratica de atividades físicas
consideradas ‘para meninos’, elas são sim, muito discriminadas”. Um garoto de 15
anos diz: “Sim, basta se ver nas cotas para vereadoras, cargos públicos, motoristas
de empresas, frentistas”.
Dos 65 questionários, 26% responderam que as mulheres já não sofrem mais
nenhum preconceito: “Não, isso é paranóia delas”, “Acredito que não, pois são hoje
muito qualificadas”, “Não, pois hoje em dias as mulheres tem muitos direitos e estão
cada vez mais sendo valorizadas”, um garoto de 16 anos confessa: “Não, elas estão
até melhores que os homens em alguns trabalhos e coisas”.
Na pergunta se ainda existem brincadeiras só para meninos e outras só para
meninas, 49% responderam que sim, nesse valor os meninos são em maioria
representando 50% das opiniões, reconhecendo o preconceito existente, contra 44%
de meninas e 4% que não se identificaram como vemos em algumas falas:
“Depende da brincadeira, mas acho que sim”, “Sim, brincadeiras muito violentas,
elas não são proibidas, depende da vontade de participar”, “Sim, por exemplo,
quando o filho homem quer brincar de boneca e o pai impede temendo que ele vire
gay”, diz uma menina de 15 anos, quanta riqueza para ser trabalhada nessa frase,
no sentindo de construções de esteriotipos que cercam tão firmemente as relações
entre os gêneros, desde pequenos. Esse exemplo, serve também dentro do âmbito
escolar, quando por exemplo, a menina se destaca em algum esporte dedicado só a
“garotos”, logo já é taxada de vários apelidos acerca de sua própria sexualidade.
Já 51% das respostas diz que não, não há mais brincadeiras só para meninos
e outras só para meninas: “Não, porque todas brincadeiras devem ser para todos”,
“Não, nunca existiu”, “Acredito que não, mas tudo depende da brincadeira” ou “Não,
mas regras e algumas modificações sim”.
Da mesma maneira ocorre em relação aos esportes, a grande maioria
acredita que não existam atividades só para meninos ou meninas, porém todos eles
frizam a diferença entre os sexos, simbolizando o uso da força, que podem
machucar as meninas, aqui voltamos ao discurso do “eterno feminino”, como a
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mulher sendo frágil e delicada, que precisa ser cuidada. Essas idéias inclusive vêm
das próprias meninas ao chamarem os garotos de brutos e violentos. Porém alguns
defenderam a necessidade dos esportes na aula de educação física não separarem
os meninos das meninas, pois “deveria ser um jogo de todos, porque todos
merecem aprender algo diferente.”.
Por fim, através dos questionários aplicados a esses adolescentes, podemos
perceber as contradições investidas nos discursos desses jovens, até porque de 65
adolescentes, todos possuem uma educação familiar diferente uns dos outros,
possuem uma vida socioeconômica que também os diferem, fruto das
desigualdades sociais, crenças, histórias, vivências que os fazem perceber o
cotidiano ao seu redor, através de um olhar seletivo, ou seja, eles vêm da maneira
como são condicionados a verem pelas instituições sociais. Porém, alguns que
tiveram a oportunidade de serem incentivados a uma criticidade maior, seja através
de diálogos familiares ou mesmo por algum professor, conseguem perceber a
necessidade de mudanças. Constatamos aqui a importância da educação sexual, do
educador presente de maneira efetiva na vida desses jovens, no exercício da
libertação dos papeis sociais do feminino e masculino, expressa numa
representação social como verdade, saber e conhecimento sexual, a fim de apagar o
traçado e fronteiras entre os sexos.
Para finalização deste artigo, destaco uma fala do educador Paulo Freire que
traduz sutilmente a intenção deste trabalho e das minhas idéias como historiadora e
acima disso, como educadora:
A Sexualidade, enquanto possibilidade de nós mesmos, de produção
de vida e de existência, de gozo e de boniteza, exige de nós essa
volta critica – amorosa, essa busca pelo saber de nosso corpo. Não
podemos estar sendo, autenticamente, no mundo e com o mundo, se
nos fecharmos medrosos e hipócritas aos mistérios de nosso corpo
ou se tratarmos, aos mistérios, cínica e irresponsavelmente.

i
LOURO, Guacira Lopes. “Gênero, Sexualidade e Educação”. Ed. Vozes. Petrópolis: 1999.
ii
FARIA, Nalu, NOBRE, Miriam. “Gênero e Desigualdade”. São Paulo: Cadernos Sempre viva, 1997.
iii
FOUCAULT, Michael. “Vigiar e Punir”. Rio de Janeiro. Ed. Graal:1993. pg.29
iv
Idem 2. pg. 41.
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v
WEREBE, Maria José Garcia. “Sexualidade, Política e Educação.” Campinas, SP: Autores Associados, 1998.
Pg.15.
vi
FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. “Educação Sexual: Como ensin ar no espaço da escola”. In: Anais do I
Congresso de Educação Inclusiva”. SP. 2003.
vii
FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. “Educação Sexual no dia a dia”. Londrina. Ed. UEL: 1999. Pg. 109.

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