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Impugnação de Paternidade e Desistência

O Acórdão do STJ negou o recurso de revisão da desistência do pedido em uma ação de impugnação de paternidade, afirmando que a desistência não pode extinguir direitos indisponíveis. O tribunal considerou nula a desistência em casos de investigação de paternidade e destacou que a nulidade deve ser invocada no recurso, se aplicável. A decisão reafirmou que a litigância de má-fé não é passível de revisão quando já decidida em instância anterior.

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Impugnação de Paternidade e Desistência

O Acórdão do STJ negou o recurso de revisão da desistência do pedido em uma ação de impugnação de paternidade, afirmando que a desistência não pode extinguir direitos indisponíveis. O tribunal considerou nula a desistência em casos de investigação de paternidade e destacou que a nulidade deve ser invocada no recurso, se aplicável. A decisão reafirmou que a litigância de má-fé não é passível de revisão quando já decidida em instância anterior.

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Acórdãos STJ Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça

Processo: 5056/15.9T8MTS-A.P1.S1
Nº Convencional: 1.ª SECÇÃO
Relator: JORGE LEAL
Descritores: DESISTÊNCIA DO PEDIDO
DIREITOS INDISPONÍVEIS
SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA
IMPUGNAÇÃO DA PATERNIDADE
INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE
RECURSO DE REVISÃO
NULIDADE DE ACÓRDÃO
LITIGÂNCIA DE MÁ FÉ
IRRECORRIBILIDADE
INADMISSIBILIDADE
RECURSO DE REVISTA
Data do Acordão: 28-10-2025
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S
Privacidade: 1
Meio Processual: REVISTA
Decisão: NEGADA A REVISTA
Sumário : I. Não é permitida desistência do pedido que importe a extinção de
direitos indisponíveis.
II. É nula a desistência do pedido em ação de impugnação de
paternidade presumida e de investigação da paternidade.
III. O vício referido em I e II. constitui fundamento de revisão da
sentença homologatória da desistência do pedido (art.º 696.º alínea d)
do CPC).
IV. Não é admissível revista de acórdão da Relação que revogou a
condenação da autora como litigante de má-fé.

V. A arguição de nulidade de acórdão só pode ser apresentada


diretamente perante o tribunal seu autor se o acórdão não for suscetível
de recurso; se o acórdão for suscetível de recurso ordinário, a nulidade
deve ser invocada no recurso, perante o tribunal ad quem
Decisão Texto Integral: Acordam os juízes no Supremo Tribunal de Justiça
I. RELATÓRIO
1. Em 27.7.2020 AA deduziu contra os Herdeiros de BB e CC recurso
de revisão da sentença, proferida em 16 de abril de 2018, que
homologou a desistência do pedido na ação comum de que o recurso
constitui apenso, de impugnação da paternidade presumida e de
investigação da paternidade, ao abrigo do disposto na alínea d), do art.º
696.º, do CPC, pedindo que fosse admitido o referido recurso e,
consequentemente, fossem anulados:
i) o acordo celebrado entre a recorrente e os recorridos no dia
28.03.2018;
ii) a desistência, da Autora, ora recorrente, do pedido;
iii) a sentença que homologou tal desistência;
por a A./recorrente, à data da prática daqueles atos, se encontrar com a
sua vontade viciada por erro sobre os motivos e por se verificar dolo do
declaratário (a Herdeira DD) e, que, em virtude de tal anulação, fosse
reaberto o processo e apreciado o litígio que aqui estava em discussão.
Fê-lo formulando as seguintes conclusões:
“A) O Sr. CC sempre fez questão de participar e custear todas as
festividades (religiosas e aniversários) da A./Recorrente, de intervir na
sua educação; sempre se preocupou com a sua saúde e alimentação e
garantiu todas as necessidades monetárias da mesma. A ligação entres
os dois era muito grande e muito forte!
B) O Sr. CC faleceu no estado de viúvo, deixando como única e
universal herdeira a sua filha DD.
C) Anos mais tarde, a A./Recorrente começou a ouvir rumores de
vizinhos, que diziam que ela era filha do Sr. CC.
D) A A./Recorrente decidiu, nesse momento, confrontar a sua Mãe, Sra.
EE, a qual lhe confirmou que o Sr. BB não era efetivamente o seu pai
biológico, até porque era infértil, mas sim o Sr. CC, com quem
mantivera uma relação amorosa durante o matrimónio.
E) Depois de tomar conhecimento destes factos, a A./Recorrente, em
22.10.2015, decidiu instaurar uma ação de impugnação de perfilhação
e de investigação de paternidade contra os herdeiros do Sr. BB e contra
os herdeiros do Sr. CC – ação principal à qual se apensa o presente
Recurso de Revisão.
F) Ademais, a A./Recorrente requereu ainda que a paternidade fosse
reconhecida pelos herdeiros do Sr. CC, maxime pela Sra. DD (única e
universal herdeira [declarada]), a qual deveria ser condenada a
abster-se de praticar atos lesivos dos direitos patrimoniais que para a
A./Recorrente resultassem desse reconhecimento.
G) Na pendência dessa ação foram realizados testes genéticos, dos
quais resultou que o Sr. CC é, com a probabilidade de 99,99%, pai
biológico da aqui A./Recorrente.
H) Assim que se obtiveram os resultados das perícias médico-legais, a
Sra. DD começou a diligenciar no sentido de chegar a acordo com a
A./Recorrente, tendo requerido ao Tribunal que suspendesse a
instância.
I) Assim, de imediato, a Sra. DD apresentou uma proposta à
A./Recorrente na qual lhe deu a escolher um entre três prédios, dizendo
que este era o único património do falecido Sr. CC a partilhar.
J) A A./Recorrente àquela data desconhecia o património do seu
falecido pai biológico, Sr. CC e, portanto, de boa-fé, acreditou nas
palavras da Sra. DD que lhe disse firmemente que apenas existiam os
referidos prédios.
K) E celebrou o seguinte acordo com a Sra. DD:
“(…) 2ª A AA e a herança pretendem transigir na ação judicial supra
identificada, o que fazem nos seguintes termos e condições:
(…)
A AA receberá uma importância em dinheiro e um bem imóvel da
herança, como que se de uma partilha se tratasse, (…)
Com o recebimento dos bens indicados nas supras indicadas als. a) e
b), a AA declara para todos os devidos e legais efeitos, considerar-se
integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha, possa
ou pudesse advir, da herança, desistindo do pedido efetuado no
processo judicial nº 5056/15.9T8MTS, que corre termos no Juízo de
Família e Menores de Matosinhos – Juiz 4 do Tribunal Judicial da
Comarca do Porto.
3ª Caso, por qualquer motivo, não seja aceite pelo tribunal a
desistência do pedido no processo atrás referido, a AA – atento o
recebimento dos bens (importância em dinheiro e bem imóvel) atrás
mencionados nas als. a) e b), e visto, com isso, considerar-se
integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha, possa
ou pudesse advir da herança – obriga-se a nada reclamar ou peticionar
seja a que titulo for da herança (ou seja, da Herança aberta por morte
de CC, de Herdeiros de CC ou mesmo de DD), incorrendo na mesma
obrigação os seus representantes, sucessores e herdeiros. (…)” – doc.1.
L) Ou seja, quando surgiram os resultados das perícias que provavam
que a A./Recorrente também era filha do Sr. CC, a outra filha procurou,
em pouco tempo, ludibriar a A./Recorrente, dizendo-lhe que o falecido
pai apenas tinha deixado o referido património – quando sabia que isso
não correspondia à verdade –, dando-lhe a escolher um prédio e ainda
lhe oferecendo dinheiro, assim requerendo em troca que ela assinasse o
referido acordo e desistisse da ação.
M) E fê-lo porque não era do seu interesse que fosse proferida sentença
a declarar que a aqui A./Recorrente era filha biológica do Sr. CC,
embora dúvidas já não restassem, impedindo assim que a A./Recorrente
viesse posteriormente a reclamar a sua parte na herança, a que sempre
teria direito!
N) Porquanto a Sra. DD bem sabia que aquilo que estava a propor à
A./Recorrente era uma “ninharia” quando comparado com todo o
património que o falecido Sr. CC havia deixado (e aquela havia
herdado), tendo-se aproveitado da boa-fé e desconhecimento da
A./Recorrente para a enganar e assim a fazer assinar um acordo e
desistir da ação.
O) E isso fica ainda mais claro quando se lê o acordo e lá refere
expressamente o seguinte:
Cláusula 2ª: “…a AA declara para todos os devidos e efeitos legais,
considerar-se integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que
advenha, possa ou pudesse advir, da herança, desistindo do pedido…”;
Cláusula 3ª: “Caso, por qualquer motivo, não seja aceite pelo tribunal
a desistência do pedido no processo atrás referido, a AA – atento o
recebimento dos bens (…) e visto, com isso, considerar-se
integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha, possa
ou pudesse advir da herança – obriga-se a nada reclamar ou peticionar
seja a que título for da herança…”. [Negrito e sublinhado constam do
acordo]
P) Sendo notória a vontade real da Sra. DD: sabendo que a
A./Recorrente era sua irmã, filha do Sr. CC e igualmente herdeira,
dolosamente, induziu-a em erro, enganou-a e deu-lhe um prédio urbano
para a “contentar”, ocultando todo o demais património do falecido. E
ainda a fez assinar um acordo em que esta renuncia ao direito de vir
“reclamar ou peticionar seja a que título for da herança”, fazendo-a
considerar-se “integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que
advenha, possa ou pudesse advir da herança” e a desistir do pedido
efetuado nos autos principais!!
Q) É óbvio que se não existisse mais património do Sr. CC ou se a Sra.
DD estivesse de boa-fé e desconhecesse os bens deixados pelo falecido
pai (o que é impossível, diga-se, porque ela foi a única herdeira
[declarada]) nunca a Sra. DD iria incluir tais cláusulas no acordo, tão
minuciosas e limitativas dos direitos da A./Recorrente.
R) Ora, em virtude da celebração do aludido acordo, e tal como o
mesmo impunha, em 05.04.2018 a A./Recorrente desistiu do pedido e o
Tribunal julgou válida essa desistência, absolvendo os requeridos do
pedido. Ou seja, não houve mera desistência do pedido, tendo, isso sim,
as partes celebrado acordo nos autos principais a pôr termo ao
processo.
S) Mas, reitera-se, claro que se a A./Recorrente soubesse, àquela data,
que o património do Sr. CC era muito maior do que aquele que lhe foi
apresentado pela Sra. DD, a A./Recorrente nunca teria celebrado
aquele acordo e nunca teria desistido do pedido!!
T) Contrariamente àquilo que conhecia e acreditava à data em que
celebrou aquele acordo e, em virtude deste, desistiu do pedido, a
A./Recorrente, em junho do presente ano, através de conversas com
familiares e amigos, designadamente com a Sra. D. FF, a Sra. D. GG e
a Sra. D. HH, tomou conhecimento que o seu pai biológico, o Sr. CC,
tinha um património de mais de 70 imóveis, avaliados em mais de 15
milhões de euros, para além de possuir várias contas bancárias, no
Banco Hispano Americano em Vigo, Espanha (atual Banco Santander),
na Caixa Geral de Depósitos e no antigo BES.
U) A A./Recorrente ficou boquiaberta e sentiu-se totalmente enganada e
injustiçada!
V) Daí em diante a A./Recorrente começou a investigar quais os bens
imóveis que faziam parte do património do falecido e eis que descobriu
que, à data da morte do Sr. CC (abril de 1996), foi aberto processo de
imposto sucessório 3514/[Link].Nº1971 no Serviço de Finanças de
Matosinhos 2, tendo a Sra. DD sido declarada como única e universal
herdeira.
W) Até à presente data, a A./Recorrente já conseguiu identificar parte
do património que pertencia ao falecido Sr. CC e que a Sra. DD herdou
– conforme certidões que se juntam como doc.2
X) Sendo certo que a Sra. DD foi alienando vários imóveis, quando já
sabia que a A./Recorrente era sua irmã, pelo menos, desde setembro de
2016 (data dos resultados dos primeiros testes genéticos os quais não
excluíram, desde logo, que o Sr. CC pudesse ser o Pai da
A./Recorrente).
Y) Em suma, o Sr. CC deixou um património de mais de 70 imóveis e
várias contas bancárias, que foi herdado na sua totalidade pela Sra.
DD, quando devia ter sido herdado, em partes iguais, por ambas as
filhas, dado que o falecido já estava viúvo à data da sua morte e
aquelas são irmãs consanguíneas.
Z) Ora, nos termos dos art. 291º e 696º, al. d) do CPC, atualmente
estamos perante dois meios de tutela jurisdicional alternativos.
AA) A jurisprudência tem entendido que a
confissão/desistência/transação pode ser atacada através de ação
judicial que, por via da declaração da respetiva nulidade ou
anulabilidade, visa a destruição dos seus efeitos substantivos; e que a
sentença pode ser atacada por via de recurso extraordinário de revisão
que visa a destruição dos seus efeitos processuais decorrentes da
extinção da instância no processo em que foi produzida essa sentença
homologatória.
BB) Ora, a parte que pretenda um e outro dos referidos objetivos
[destruição dos efeitos substantivos da confissão/desistência/transação
e dos efeitos processuais decorrentes da extinção da instância] pode
obtê-los interpondo meramente recurso de revisão e não já, como
anteriormente, através da propositura de dois processos.
CC) Posto isto, no âmbito do recurso de revisão também cabe a
apreciação e declaração de nulidade ou anulação daquele ato – aliás,
isso mesmo resulta da letra da lei (vidé artigos 291º/2 e 696º, d) do
CPC).
DD) Assim, o recurso de revisão destrói os efeitos substantivos do ato e
a reposição da situação anterior, em virtude da declaração da nulidade
ou anulação do mesmo; e destrói os efeitos processuais decorrentes da
extinção da instância no processo em que foi produzida essa sentença
homologatória, em virtude da eliminação da eficácia dessa sentença,
permitindo a reabertura do processo e a apreciação do litígio que nele
estava em discussão - Vidé n.º 2 do art. 700º e alínea c) do n.º 1 do art.
701º, ambos do CPC.
EE) Acresce que o recurso extraordinário de revisão comporta-se como
verdadeira ação com um duplo objetivo: o primeiro é o de verificar a
existência de qualquer vício na decisão transitada ou no processo a ela
conducente – juízo rescidente; o segundo é o de substituir a decisão
proferida através da repetição da instrução e julgamento da ação –
juízo rescisório.
FF) Que é precisamente o que se pretende com o presente recurso de
revisão: seja, em primeiro, declarada a nulidade ou anulada a
desistência por parte da Autora, bem como o acordo a que a
A./Recorrente e a Sra. DD chegaram, eliminada a eficácia da sentença
que homologou esse ato, e, de seguida, reaberto o processo e a
subsequente apreciação do litígio que aqui estava em discussão.
GG) O erro-vício traduz-se numa representação inexata ou na
ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi
determinante na decisão de efetuar o negócio.
HH) In casu, a A./Recorrente celebrou o aludido acordo com a Sra. DD
e, consequentemente, desistiu do pedido da ação por julgar
erradamente que só integravam o património do seu falecido pai, Sr.
CC, os bens que haviam sido indicados pela sua irmã DD e lhe haviam
sido dados a escolher, quando na verdade existia um património
enormíssimo que a Sra. DD deliberadamente decidiu ocultar da sua
irmã para não ter de o partilhar.
II) Ora, o erro-vício só assume relevância como motivo de
anulabilidade quando estejam verificadas as caraterísticas gerais
(essencialidade e propriedade) e especiais (as partes reconheçam, por
acordo, a essencialidade do motivo). In casu, estão verificadas todas as
caraterísticas, gerais e especial. Vejamos.
JJ) O erro sobre o motivo (quantificação do património do Sr. CC) foi
essencial para que a A./Recorrente chegasse a acordo com a Sra. DD e,
consequentemente, desistisse do pedido, porquanto se não fosse esse
erro, a A./Recorrente não teria chegado a acordo e desistido do pedido!
KK) Por outro lado, o erro é próprio pois incide sobre a circunstância
de o património do Sr. CC ser constituído por mais bens do que aqueles
que a Sra. DD deu a conhecer, e não sobre a verificação de qualquer
elemento legal de validade do negócio.
LL) Por fim, as partes reconheceram, por escrito, a essencialidade do
motivo (vidé doc.1), sendo que a Sra. DD conhecia a essencialidade
para a A./Recorrente do elemento sobre que incidiu o erro, dado que a
Sra. DD sabia existir muito mais património (ela mesma o herdou) e,
de má-fé, decidiu propor um acordo à A./Recorrente onde lhe deu a
escolher um prédio entre três (os quais dizia serem os únicos imóveis
do falecido), assim evitando que existisse uma sentença transitada em
julgado que declarasse a A./Recorrente como filha do Sr. CC, e assim
evitando a partilha daquele património.
MM) Logo, nos termos do n.º 1 do art. 252º do CC, por estarem
verificadas as condições gerais e especial exigidas, o acordo celebrado
entre a A./Recorrente e a Sra. DD é anulável, por a vontade da
A./Recorrente estar viciada por erro quanto ao motivo.
Consequentemente, a desistência do pedido feito pela A./Recorrente
junto dos presentes autos é igualmente anulável por ter sido feita na
sequência da celebração do aludido acordo e, por isso, a vontade da
A./Recorrente está igualmente viciada por erro quanto ao motivo.
NN) A par do erro-vício sobre os motivos, é também outro vício da
vontade o dolo (art. 253º/1 CC), o qual assume igualmente especial
relevância no presente caso.
OO) O dolo é uma espécie de erro-vício qualificado: onde há dolo há
sempre erro! Quem comete o dolo sabe e quer que o enganado preste a
declaração que doutro modo não prestaria, existindo um nexo de
causalidade entre o dolo e a declaração - Leia-se a este propósito o Ac.
do STJ de 30-09-2003, proc. 03A2493.
PP) A anulabilidade é a consequência natural do dolo por força do
disposto no n.º 1 do art. 254º do CC.
QQ) In casu, estão verificadas todas as aludidas condições: dolo do
declaratário, ou seja, da Sra. DD; dolo positivo, na medida em que a
Sra. DD, através de artifícios, como mentiras, teve intenção e
consciência de induzir e manter em erro a A./Recorrente; dolus malus,
dado que a Sra. DD não utilizou sugestões ou artifícios usuais,
considerados legítimos segundo as conceções dominantes no comércio
não teria celebrado tal acordo, nem desistido do pedido.
RR) Pelo que, nos termos dos arts. 253º e 254º do CC, o acordo
celebrado entre a A./Recorrente e a Sra. DD é anulável, por a vontade
da A./Recorrente estar viciada por dolo. Consequentemente, a
desistência do pedido feito pela A./Recorrente junto dos presentes autos
é igualmente anulável por ter sido feita na sequência da celebração do
aludido acordo e, por isso, a vontade da A./Recorrente está igualmente
viciada por dolo.
SS) Concluindo, por ter existido dolo e erro-vício nos motivos que
determinaram a vontade da A./Recorrente no momento em que celebrou
o aludido acordo e desistiu do pedido, porquanto se a A./Recorrente
soubesse qual o verdadeiro património do Sr. CC naquela data, nunca
teria celebrado o acordo e desistido do pedido, tendo sido
completamente enganada pela Sra. DD, que atuou com a intenção e
consciência de induzir e manter em erro a A./Recorrente, então o
acordo entre a A./Recorrente e a Sra. DD (doc.1) e a consequente
desistência do pedido devem ser anulados.
TT) Consequentemente, devem ser destruídos os efeitos substantivos
daqueles atos e reposta a situação anterior, em virtude da anulação dos
mesmos; e destruídos os efeitos processuais decorrentes da extinção da
instância nos autos principais, em virtude da eliminação da eficácia da
sentença que homologou a desistência e reaberto o processo e
apreciado o litígio que aí estava em discussão.
UU) E assim se impõe porque esta é a única forma, o único “remédio”
para a ofensa ao primado da justiça, devendo prevalecer sob o
princípio do caso julgado, por ser um meio previsto legalmente (alínea
d) do art. 696º do CPC) e porque, caso contrário, as exigências da
justiça e da verdade ficariam clamorosamente abaladas!
VV) Pelo que, este é um caso de verdadeira justiça! É justo que seja
anulado o acordo, a desistência e a sentença que a homologou, para
que o processo siga os seus termos e seja reconhecida a paternidade, a
fim de a A./Recorrente poder vir a reclamar a sua parte na herança, a
que tem igualmente direito como a Sra. DD!!!“
2. Por despacho de 03.9.2020 o recurso foi admitido e ordenada a
notificação pessoal da recorrida para responder.
3. A recorrida respondeu, defendendo-se por impugnação e arguindo,
para além do mais, a inadmissibilidade dos fundamentos do recurso e a
sua extemporaneidade. Terminou pedindo a improcedência do recurso
de revisão e a condenação da recorrente como litigante de má-fé em
multa e indemnização a seu favor.
4. Realizou-se audiência prévia, foi proferido despacho saneador,
despacho a identificar o objeto do litígio e a enunciar os temas da
prova.
5. Realizou-se audiência de julgamento e foi proferida sentença, a qual
veio a ser anulada, por despacho proferido em 3.11.2022, no apenso B,
em obediência ao acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que
ordenou a junção aos autos dos documentos que haviam sido
apresentados pela recorrente sob a Ref. n.º 41277597 e que a 1.ª
instância havia rejeitado.
6. Foi reaberta a audiência de julgamento e confrontadas as
testemunhas indicadas pelas partes com os identificados documentos.
7. Em 27.10.2023 foi proferida sentença, que culminou com o seguinte
dispositivo:
“Face ao exposto decide-se:
- julgar totalmente improcedente o presente recurso de revisão
absolvendo-se a recorrida dos pedidos formulados
- condenar a recorrente AA como litigante de má-fé na multa de 10
UC’s;
- condenar a recorrente em indemnização a determinar em momento
ulterior após audição das partes.
Custas pela recorrente”.
8. A A./recorrente apelou da sentença e, por acórdão datado de
03.6.2024, a Relação do Porto, com um voto de vencido, julgou o
recurso procedente, emitindo o seguinte dispositivo:
“Pelos fundamentos expostos, os Juízes do Tribunal da Relação do
Porto acordam em julgar a apelação procedente e, em consequência,
revogam a sentença homologatória da desistência do pedido e
determinam o prosseguimento do processo (ação principal) até à
decisão final.
*
Custas pela apelada, pois que ficou vencida”.
9. Em 17.6.2024 a A./recorrente arguiu a nulidade do acórdão, nos
seguintes termos, que se transcrevem:
“1.º
O acórdão sub iudice é, data vénia, nulo, nos termos do disposto no art.
615.º, n.º 1, alínea d) do Código de Processo Civil (CPC), porquanto, os
Venerandos Senhores Juízes Desembargadores, com o maior respeito
por V. Exas., não se pronunciaram sobre uma questão que deviam ter
apreciado.
2.º
A Recorrente deduziu contra a Recorrida recurso de revisão da
sentença, proferida em 16 de abril de 2018, que homologou a
desistência do pedido na ação comum de que estes autos constituem
apenso, de impugnação da paternidade e de investigação da
paternidade, ao abrigo do disposto na alínea d), do art. 696º, do CPC,
pedindo que fosse admitido o referido recurso e, consequentemente,
fossem anulados:
i) o acordo celebrado Recorrente e Recorrida no dia 28/03/2018;
ii) a desistência, da Autora, aqui Recorrente, do pedido;
iii) a sentença que homologou tal desistência;
3.º
Não obstante, no Acórdão proferido foi decidido que:
“Apresentando a desistente recurso extraordinário de revisão de
sentença homologatória de desistência do pedido de impugnação da
paternidade do marido da mãe e de investigação de paternidade do
progenitor, arguindo a nulidade desta, cabendo, desde logo, apreciar
da invalidade de tal desistência face ao objeto da mesma, e sendo nula,
como se decidiu ser, prejudicado fica, dada a nulidade já verificada, o
conhecimento substancial dos invocados vícios da vontade e,
consequentemente, a impugnação da decisão da matéria de facto.”
4.º
Isto é, entendeu este Tribunal da Relação que, sendo nula a desistência,
fica prejudicado o conhecimento substancial dos vícios de vontade e,
consequentemente, a impugnação da decisão da matéria de facto, tal
como reclamado pela Recorrente.
5.º
O que a Recorrente não pode aceitar.
6.º
Com o devido respeito, a enunciada questão - conhecimento substancial
dos vícios de vontade e, consequentemente, a impugnação da decisão
da matéria de facto – não é uma simples consideração, argumento ou
razão produzida pela parte que, por assim o ser, não merecesse/devesse
ser conhecida(o).
7.º
Antes pelo contrário, a enunciada questão é crucial e devia, pela sua
própria natureza - por não ser tão só um fundamento ou uma razão em
que a parte se apoiou para sustentar a sua pretensão - ter sido
conhecida.
Porquanto,
8.º
O Venerando Tribunal da Relação conheceu da indisponibilidade dos
direitos pessoais e já não do erro vicio dos direitos patrimoniais.
9.º
O acórdão não se pronunciou, data venia, sobre uma questão que, por
esta lhe ter sido submetida para sua apreciação, devia ter apreciado.
10.º
A Recorrente declarou no acordo cuja anulação se requer: “considerar-
se integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha,
possa ou pudesse advir, da herança, desistindo do pedido.”
11.º
E, mais declarou a Recorrente que: ”atento o recebimento dos bens e
visto com isso considerar-se integralmente ressarcida de todo e
qualquer direito que advenha, possa ou pudesse advir da herança –
obriga-se a nada reclamar ou peticionar seja a que titulo for da
herança.”
12.º
Ou seja, não houve mera desistência do pedido, tendo, isso sim, as
partes celebrado acordo nos autos principais a pôr termo ao processo.
13.º
E, reitera-se, foi submetida à apreciação do Tribunal a existência de
erro e engano na celebração do acordo: a) se a Recorrente soubesse que
o património do Sr. CC era muito maior do que aquele que lhe foi
apresentado pela Recorrida nunca teria celebrado aquele acordo e nunca
teria desistido do pedido e b) a Recorrente, à data da celebração do
acordo a Recorrida, não conhecia a totalidade do património do Sr. CC.
14.º
O Julgador deve resolver todas as questões que sejam submetidas à sua
apreciação pelas partes – art. 608º, n.º 2 do CPC.
15.º
O conceito de “questões”, a que se refere o legislador, deve ser aferido
em função direta do pedido e da causa de pedir aduzidos pelas partes
(vide, Lebre de Freitas e Isabel Alexandre, in “Código de Processo Civil
Anotado, Vol. 2º, 3ª. Ed., Almedina, págs. 713/714 e 737.” e Abrantes
Geraldes, in “Recursos em Processos Civil, 6ª. Ed. Atualizada,
Almedina, pág.136.”).
16.º
Este Venerando Tribunal, ao não conhecer os alegados vícios de
vontade da Recorrente na celebração do acordo celebrado em
28.03.2018 e, consequentemente, a impugnação da decisão da matéria
de facto, impede a Recorrente de ver a questão, da anulação do acordo
por erro, ser decidida judicialmente.
17.º
Este Venerando Tribunal conheceu a nulidade da desistência, mas não a
nulidade do referido acordo - conheceu as questões pessoais, mas não
as patrimoniais.
18.º
Pelo que, a nosso ver, e salvo o devido respeito, o acórdão proferido
padece daquele vício de nulidade (por omissão de pronúncia).
Sem prescindir,
Acresce que,
19.º
No acórdão sub iudice estamos perante uma decisão que conheceu e
julgou do mérito da causa (do fundo ou mérito do recurso), não perante
uma decisão que, por exemplo, indeferiu liminarmente o
requerimento/articulado inicial de interposição do recurso
extraordinário de revisão,
20.º
Estamos perante uma decisão que, entrando no
conhecimento/julgamento do mérito da causa, revogou a sentença
homologatória da desistência do pedido e determinou o prosseguimento
do processo (ação principal) até à decisão final,
21.º
Mas que, não obstante ter determinado o prosseguimento da ação
principal, não conhecerá das questões patrimoniais que, reitera-se, com
os presentes autos de recurso de revisão pretendia, sim, também ver
discutida e apreciada a questão da anulação do acordo celebrado com a
Recorrida em 28.03.2018.
22.º
Dito de outro modo, transitado em julgado a decisão vertida no
acórdão, a ação de impugnação da paternidade e de investigação da
paternidade prosseguirá, a Recorrente será declarada filha do falecido
Sr. CC, mas finda esta ação, como poderá a Recorrente, enquanto filha
e reconhecida herdeira, reclamar os seus direitos na herança aberta por
óbito do seu Pai se, em erro, a estes direitos renunciou no acordo?
Reitera-se, impunha-se conhecer e não foi conhecido no acórdão
proferido!!
23.º
Se o aludido acordo celebrado entre Recorrente e Recorrida em
28.03.2024 não for declarado nulo que efeito terá, a procedência da
ação de impugnação da paternidade e de investigação da paternidade,
quanto às questões patrimoniais?
****
Termos em que respeitosamente se requer V. Exas., Venerandos
Desembargadores do Tribunal da Relação do Porto, se dignem deferir
a arguida nulidade do sobredito acórdão nos termos e com os
fundamentos supra expostos, conhecendo a nulidade do acordo
celebrado em 28.03.2018”.
10. Em 05.7.2024 DD, na qualidade de única e universal herdeira de
CC, interpôs recurso de revista do acórdão referido em 8, terminando
com as seguintes conclusões:
“1º No presente apenso de recurso de revisão da sentença que
homologou a desistência do pedido de impugnação e de investigação de
paternidade (na acção principal) que a Autora, aí Recorrente, AA,
deduziu, foi, pelo Tribunal de Primeira Instância, em 27.10.2023,
proferida sentença que julgou totalmente improcedente o recurso de
revisão proposto por esta; e condenou a referida aí Recorrente, como
litigante de má-fé no pagamento de uma multa de 10 UC’s e numa
indemnização a favor da aí Recorrida, e ora Recorrente, DD.
2º Na sequência do Recurso de apelação interposto de tal sentença pela
Autora, aí Recorrente, AA, foi decidido pelos Venerandos Juízes
Desembargadores do Tribunal da Relação do Porto, do por acórdão de
24.03.2024, revogar a sentença recorrida, julgar a apelação procedente
e, em consequência, revogar a sentença homologatória da desistência
do pedido e determinar o prosseguimento do processo (acção principal)
até à decisão final, porque considerou o Tribunal da Relação,
resumidamente, que a acção de investigação e impugnação da
paternidade teria por objecto direitos indisponíveis, o que tornaria a
desistência do pedido nessa acção seria nula.
3º Teve o referido acórdão um voto vencido do Venerando Juiz
Desembargador Dr. Jorge Martins Ribeiro, que defendeu, na sequência
de notável fundamentação, não ser de considerar nula a desistência da
Autora, aí Recorrente, na acção de investigação de paternidade.
4º Não se podendo conformou com o que ficou decidido no douto
acórdão a aí Recorrida, DD, na qualidade de única e universal herdeira
de CC, vem recorrer do mesmo para o Supremo Tribunal de Justiça,
pelos motivos que se passam a expor.
A – PREVIAMENTE, DA NECESSIDADE DE ACLARAÇÃO DO
ACÓRDÃO:
5º No recurso extraordinário de revisão de sentença, interposto ao
abrigo do Art. 696º, al. d), a Autora, aí Recorrente, AA, peticionou não
só que fosse anulada a desistência do pedido e a sentença que a
homologou nos autos principais, mas também que fosse anulado o
acordo celebrado entre ela e a aí Recorrida, e ora Recorrente, DD.
Pedido que reiterou no recurso de apelação que aquela interpôs da
sentença proferida em primeira instância.
6º Ora, pese embora, o acórdão de que se recorre proferido pelo
Tribunal da Relação do Porto, se tenha pronunciado e tomado posição
relativamente a este pedido da Recorrente (ora Recorrida) AA, no
dispositivo (Decisão) do douto acórdão nada vem referido a propósito
deste pedido da então Recorrente, AA; pelo que, atendendo teor
abrangente de tal dispositivo, pensamos que, desde logo, deveria o
mesmo ser clarificado relativamente ao referido pedido.
7º A este respeito o Tribunal da Relação confirma no acórdão proferido
o decidido pelo Tribunal de Primeira Instância, ao referir:
“E, como decidiu o Tribunal a quo, sendo o objeto do recurso de
revisão uma decisão judicial, é inadmissível, no âmbito do presente
recurso, o primeiro pedido formulado pela recorrente - o de anulação do
acordo celebrado entre a recorrente e DD no dia 28 de março de 2018,
acordo extrajudicial esse não objeto da sentença de homologação.
Apenas foi homologado, por sentença de 16 de abril de 2018, transitada
em julgado, e que extinguiu a instância da ação principal, o
requerimento de desistência do pedido, apresentado na ação principal
no dia 5 de abril de 2018, apenas dessa anulação se podendo, pois,
apreciar, e apenas esta estando em causa no âmbito do recurso de
revisão, a ela se limitando, também, o presente recurso.”
8º Na verdade, atendo o vertido nos arts. 696º a 701º do C.P.C., o
recurso de revisão não é o meio próprio, nem adequado, para ser
discutida a validade ou invalidade do referido acordo, que não se trata
de uma transacção no processo (principal), mas de um acordo
extrajudicial, tendo sido, na nossa modesta opinião, absolutamente
correcta a decisão do tribunal de primeira instância de considerar
inadmissível o pedido de que fosse anulado tal acordo, bem como a do
Tribunal da Relação de confirmar esta decisão.
9º Atento o referido, entendemos que a este respeito é pouco claro o
dispositivo (a Decisão) do acórdão da Relação do Porto de que se
recorre, que, no sentido de impedir interpretações diversas e ambíguas
relativamente à decisão que recaiu sobre tal pedido tal pedido, deveria
ter, em nossa opinião, desde logo, confirmando, a este respeito, a
decisão proferida em primeira instância.
Isto posto, e sem prescindir,
B – DA QUESTÃO DA EXISTÊNCIA, OU NÃO, DE NULIDADE
DA DESISTÊNCIA DO PEDIDO POR SE ESTAR, OU NÃO,
PERANTE DIREITOS INDISPONÍVEIS E DA CONSEQUENTE
NULIDADE DA SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA:
10º Refira-se, antes de mais que, o tribunal de primeira instância, tal
como refere na sentença proferida, não poderia, na nossa modesta
opinião, conhecer desta questão da existência ou não de nulidade da
desistência do pedido apresentada pela Autora, AA, por estarem, ou
não, em causa direitos indisponíveis, porque esta fundamentou o seu
recurso extraordinário revisão apenas numa alegada anulabilidade por
erro da desistência (anulabilidade, essa, que na verdade não existiu),
nunca tendo invocado nas alegações ou conclusões do recurso de
revisão que deduziu, qualquer nulidade da desistência e da sentença de
homologação da mesma, por eventual indisponibilidade dos direitos em
causa (o que, na verdade, e como veremos, também não existe).
Isto posto, passamos ao cerne da questão:
11º No douto acórdão de que se recorre, decidiu-se que, porque nos
autos principais de impugnação e de investigação da paternidade se
estaria perante direitos indisponíveis a desistência do pedido seria nula
(quanto à pretensão da constituição do estado de filho), o que tornaria,
consequentemente, nula a sentença homologatória que recaiu sobre tal
desistência.
12º A ora Recorrente, DD, discorda deste entendimento, pois entende
que, no presente caso, não se está perante direitos indisponíveis, e que
portanto a desistência não está ferida da nulidade defendida no acórdão,
não estando também, por isso, ferida de nulidade a sentença
homologatória que recaiu sobre a mesma.
13º A ora Recorrente, a este respeito, concorda e subscreve o
entendimento expresso na fundamentação do Voto Vencido do
Venerando Juiz Desembargador Dr. Jorge Martins Ribeiro - que se
encontra anexo ao Acórdão de que se recorre.
14º A acção principal, que é de impugnação da paternidade presumida e
de investigação da paternidade, foi interposta pela Autora, AA, maior, e
com a sua paternidade estabelecida e registada. Foi de sua livre vontade
que esta intentou a acção principal – não estamos perante uma
investigação oficiosa da paternidade, ou alguma acção intentada por
outra pessoa (como no caso em que o interessado é menor).
15º Se não se pudesse desistir do pedido numa acção de impugnação e
investigação da paternidade, por se estar perante direitos indisponíveis,
estas acções não estariam sujeitas às regras e prazos da caducidade,
como de facto o estão – prazos esses que, decorridos os mesmos, fazem
perder-se o direito a interpor-se a própria acção.
16º Assim, como dependeu da vontade da Autora/Recorrente, AA,
intentar a acção principal, também tem esta todo o direito de desistir da
mesma, desistindo do seu pedido de impugnação e investigação da
paternidade. A Autora poderia ter, livre e esclarecidamente, optado por
nunca ter interposto da acção. Então, interpondo-a, nada justifica que
lhe fosse vedado desistir da mesma ou desistir do pedido de
impugnação e investigação da paternidade.
17º A desistência ocorrida no processo principal não afecta qualquer
direito indisponível.
18º Não existem razões de ordem pública para que se considere
indisponíveis os direitos aqui em causa. Impossibilitar a tomada de
decisões livres relativamente a tais direitos, isso sim, poria em causa
direitos consagrados constitucionalmente relacionados com a
autonomia da vontade e o direito ao livre desenvolvimento da
personalidade.
19º Os direitos ao conhecimento da identidade biológica e da identidade
pessoal, procurando-se uma correspondência entre a verdade biológica
e verdade jurídica, que no entendimento seguido pelo acórdão de que se
recorre justificaria a indisponibilidade dos direitos aqui em causa, são
negados por diversas vezes pela nossa Lei (designadamente, quando
estabelece regras e prazos de caducidade para este tipo de acções, mas
também o que se fixa nos artigos 20º e 21º da Lei da procriação
medicamente assistida, entre outros normativos legais), pelo que não se
pode considerar estes, como direitos indisponíveis, e que não seja
possível a renúncia aos mesmos.
20º Assim, não deve ser considerada nula a desistência do pedido na
acção principal como não deve ser considerada nula a sentença
homologatória que sobre a mesma recaiu.
Sem prescindir, caso assim não se entenda, o que não se admite, e só à
cautela, e para facilitar o raciocínio se equaciona,
C – DA POSSIBILIDADE LIMITAR OS EFEITOS DA
DESISTÊNCIA DO PEDIDO E RESPECTIVA HOMOLOGAÇÃO
AOS EFEITOS PATRIMONIAIS EMERGENTES AO ESTADO DE
FILHO:
21º O douto acórdão de que se recorre, defende na sua fundamentação
de direito que, “Sendo o direito da família terreno fértil em situações
jurídicas indisponíveis, com diversos institutos relativos ao estado das
pessoas, consideramos que, como o faz Lebre de Freitas e Isabel
Alexandre, da irrenunciabilidade do estado civil se extrai a
inadmissibilidade da desistência do pedido nas ações de investigação da
paternidade quanto à pretensão de constituição do estado de filho, o
caso, embora em questões relacionadas com efeitos patrimoniais
emergentes do estado de filho seja admissível tal desistência.” –
sublinhado nosso.
22º Daqui resulta que, mesmo que se considere que a que a desistência
do pedido tenha afectado direitos indisponíveis (contrariamente à
opinião já atrás expressa da ora Recorrente, DD), e na medida em que
os afectasse estaria ferida de nulidade, essa nulidade só diria respeito
aos efeitos pessoais constituição do estado de filho.
23º Mas já não estaria ferida de nulidade, essa mesma desistência do
pedido, relativamente aos efeitos patrimoniais emergentes do estado de
filho por ela abrangidos.
24º Assim, porque a desistência do pedido por parte da Autora nos autos
principais, abrangeu todo o pedido da acção de impugnação e
investigação da paternidade, pedido esse que incluía quer os efeitos
pessoais como também os patrimoniais que decorreriam da uma
eventual constituição do estado de filho, deveria ter sido considerado,
pelo menos, que a desistência do pedido não estaria ferida de nulidade
no que diz respeito aos efeitos patrimoniais de uma eventual
constituição do estado de filho – pois, na própria fundamentação do
acórdão, são estes efeitos considerados disponíveis.
25º A possibilidade de se restringir o efeito da paternidade à questão de
estado, não valendo para as questões patrimoniais, para certos casos,
como, p. ex., o de o “abuso de direito” é defendida por diversa doutrina
e jurisprudência, como, designadamente, pelo acórdão do Supremo
Tribunal de Justiça de 09.04.2013, no Proc. 108/09.7TBPFR.P1.S1,
disponível em [Link] , que logo no seu sumário defende que
“… As consequências jurídicas do reconhecimento da paternidade
podem ser restringidas nos seus efeitos à questão de estado – a filiação
– não valendo para as consequências patrimoniais desse
reconhecimento, permitindo, em casos concretos, afastar o investigante
da herança do progenitor, não sendo violado o princípio da
indivisibilidade ou unidade do estado, podendo afirmar-se que, em caso
de manifesto abuso do direito, o investigante, apesar de reconhecida a
sua paternidade, poderá não beneficiar da vertente patrimonial inerente
ao status de herdeiro.
É no contexto do abuso do direito que tal distinção de efeitos deve ser
enfocada, admitindo que qualquer pretensão jurídica pode ser
paralisada se o respectivo exercício for maculado pelo seu abuso – a
questão da “caça à fortuna” – nos casos em que o investigante, a
coberto de averiguar a sua filiação, da proclamada intenção de conhecer
as suas raízes, que apareceria como um propósito legítimo e da maior
importância pessoal e social, pretenderia, primordialmente, acautelar
aspectos patrimoniais, visando o estatuto de herdeiro para aceder à
partilha dos bens do progenitor. …”
26º Refira-se que a Ré, ora Recorrente, DD, invocou este Abuso de
Direito, na sua contestação à p.i. da acção principal.
27º É evidente que o que move à Autora, AA, quer na acção principal,
quer no presente apenso de recurso de revisão, são apenas os efeitos
patrimoniais que poderiam decorrer de um eventual reconhecimento da
paternidade – é o que resulta, quer das alegações por esta apresentadas
neste apenso de recurso de revisão, quer do acordo que através do
mesmo pretendeu ver invalidado, quer ainda às próprias alegação do
recurso de apelação.
28º Porque está aceite no acórdão de que se recorre que os efeitos
patrimoniais decorrentes do reconhecimento da filiação não são
indisponíveis, deveria o citado acórdão ter considerado (pelo menos)
não existir qualquer nulidade da desistência do pedido no que diz
respeito aos referidos efeitos patrimoniais – a desistência não seria nula
relativamente à qualidade de herdeiro que decorreria de um eventual
reconhecimento/estabelecimento da filiação.
29º A Autora, AA, quando desiste do pedido, desiste de ser herdeira do
investigando, ou seja, desiste de ser herdeira do pai da ora Recorrente
DD, CC. E esta desistência da (eventual) qualidade de herdeira não tem
qualquer motivo para ser considerada nula – visto este direito ser,
mesmo do ponto de vista do douto acórdão de que se recorre, um direito
disponível. E, neste sentido, também não pode ser considerada ferida de
nulidade a sentença homologatória que recaiu sobre a referida
desistência do pedido.
30º E também não é anulável pois não existiram quaisquer dos vícios da
vontade, erro ou falta, invocados pela Autora/Recorrente AA. Quer a
desistência do pedido, quer a sentença homologatória que sobre ela
recaiu são validas e eficazes e como tal devem ser consideradas.
D – DA LITIGÂNCIA DE MÁ FÉ:
31º A sentença proferida pelo Tribunal de Primeira Instância condenou
a Autora, então recorrente, AA, como litigante de má fé na multa de 10
UC’s e em indemnização a determinar em momento ulterior após
audição das partes.
Isto porque, considerou que, “No caso dos autos, cremos seguramente
que a recorrente agiu em juízo dolosamente, posto que, não se tratou de
mero convencimento de que atuava dentro da verdade e no exercício de
um direito próprio, procurando iludir o Tribunal com uma versão dos
factos falsa, alterando a verdade dos mesmos e omitindo factos
relevantes nos quais teve intervenção direta., com vista a obter a
reversão de uma decisão transitada em julgado.
Poderemos, assim, dizer que, no caso sub judice, foram ultrapassados
os limites da “litigiosidade séria”, isto é, aquela que “dimana da
incerteza”, assim se verificando os pressupostos da condenação da
recorrente, nos termos e para os efeitos dos artºs 542º e 543º do
CPCivil…”
32º No entanto, no acórdão de que se recorre, o Tribunal da Relação
revogou também esta referida decisão constante sentença da Primeira
Instância.
33º A ora Recorrente, DD, com todo o respeito, discorda desta decisão
constante do Acórdão do Tribunal da Relação de que se recorre,
entendendo que, também a este respeito, a decisão do Tribunal de
Primeira Instância está correcta e perfeita e cabalmente justificada.
34º O Tribunal da Relação fundamente a sua posição a respeito da
litigância de má fé da Autora/Recorrente AA, no facto de ter
considerado nula a desistência do pedido nos processo principal, por se
estar perante o que considera ser direitos indisponíveis, e,
consequentemente, também nula a sentença homologatória que recaiu
sobre tal desistência, o que levou a que este tribunal não se debruçasse
respeito de todo da pretensa anulabilidade dessa desistência e da
sentença homologatória alegadas por aquela, em todo este apenso de
revisão da sentença.
35º Se o tivesse feito, o Tribunal da Relação verificaria que, como
resulta da matéria de facto dada como provada e não provada em
primeira instância, e que consta da fundamentação de facto do acórdão,
a Autora fundamentou todo o seu recurso de revisão numa série
inverdades e que foram ultrapassados os limites da “litigiosidade séria”,
estando preenchidos os requisitos do Art. 542º nº 2 do C.P.C..
36º Na verdade, até porque, pelos motivos atrás expostos, não existe, a
nosso ver, a nulidade (da desistência do pedido e da sentença
homologatória) defendida no acórdão de que se recorre, o Tribunal da
Relação, ao aferir se existiria ou não a anulabilidade alegada pela
Autora AA, teria de concluir não só que a invocada anulabilidade não
existiria (por não existir qualquer vício da vontade ou erro da Autora,
nem qualquer dolo da ora Recorrente DD), como que a referida Autora,
AA, agiu em todo este apenso de recurso de revisão de sentença da
forma como refere a sentença do da primeira instância, litigando de má
fé.
37º Atendendo ao que se provou nos presentes autos, de recurso
extraordinário de revisão, e que consta da fundamentação de facto
transcrita no acórdão de que se recorre, é evidente que a
Autora/Recorrente AA alterou conscientemente a verdade dos factos,
resultando claro que esta tinha a obrigação de saber que trazia a Juízo
factos que não eram verdadeiros, agiu em Juízo dolosamente, visto que
não se tratou de um mero convencimento de que actuava dentro da
verdade e no exercício de um direito próprio, procurando iludir o
Tribunal, com uma versão falsa dos factos, alterando a verdade dos
mesmos e omitindo outros relevantes, com vista a atingir um objectivo
a que não tem direito.
38º Estão assim reunidos, desta forma, os pressupostos para que a
Recorrente fosse condenada como litigante de má fé, nos temos em que
o foi na douta sentença proferida em primeira instância.
39º Deve, assim, por tudo o que se expôs, e nos termos expostos, ser
revogado o douto acórdão proferido pelo Tribunal da Relação do Porto
e, a final, ser integralmente mantida a decisão constante da douta
sentença proferida nos presentes autos pelo Tribunal de Primeira
Instância.
40º Ao se decidir como se decidiu o douto acórdão, ora colocado em
crise, não faz uma correcta e boa aplicação do disposto,
designadamente, nos Arts. 283º, 289º, 291º 542º, 696º al. d) do CPC.
NESTES TERMOS
e nos que [Link]. muito doutamente suprirão, deve ser dado
provimento ao presente recurso, julgando-se procedente e,
consequentemente, ser revogada a douta decisão aqui em crise, e
substituída por outra que
a) considere não existir nulidade da desistência do pedido na acção
principal, nem da sentença homologatória que sobre ela recaiu, ou, caso
assim não se entenda, o que só por hipótese se admite,
b) considere não existir nulidade da referida desistência, nem da
sentença homologatória desta, apenas relativamente aos efeitos
patrimoniais decorrentes do estado de filho,
c) considerando ter existido litigância de má fé por parte da Autora, AA,
com as consequências preconizadas na sentença proferida pelo Tribunal
de Primeira Instância,
d) e considere ainda que, deva ser apreciada a questão da existência ou
não de anulabilidade da referida desistência do pedido e sentença
homologatória, sendo, a final, considerado não existir nestas qualquer
invalidade, confirmando-se integralmente a sentença proferida pelo
Tribunal de Primeira Instância”.
11. A A./recorrente apresentou contra-alegação, tendo rematado com
as seguintes conclusões:
- Da questão prévia da aclaração do acórdão da relação:
A) Alega a aqui Recorrente que o Tribunal da Relação apenas se
pronunciou quanto à nulidade da desistência do pedido e não quanto á
nulidade do acordo.
B) E conclui, num salto infundado que, entende que sendo a este
respeito pouco claro o dispositivo (a decisão) do acórdão da Relação,
deve ser confirmado por V. Exas que o Tribunal da Relação decidiu que
o pedido de anulação do acordo é inadmissível.
C) Ou seja, pede que Vossas Excelências Senhores Juízes Conselheiros
aclarem a decisão do Tribunal da Relação.
D) A obscuridade de decisão, não constitui fundamento de recurso, mas
sim de pedido de esclarecimento no tribunal que a proferiu. Além de
que, o artigo 616.º do CPC eliminou a figura da aclaração da sentença
prevista no artigo 669º do anterior diploma, considerando agora que
eventual ambiguidade ou obscuridade da decisão, que a torne
ininteligível, configurará a nulidade prevista no artigo 615º, nº1, alínea
c) do CPC. Nenhuma nulidade foi suscitada pela Recorrente.
E) Pelo que fica desde logo afastada a questão da necessidade da
aclaração.
F) Acresce que, a aqui Recorrida suscitou a nulidade do acórdão da
Relação: entendeu o Tribunal da Relação que, sendo nula a desistência,
fica prejudicado o conhecimento substancial dos vícios de vontade e,
consequentemente, a impugnação da decisão da matéria de facto, tal
como reclamado pela Recorrente.
G) O que a Recorrente não aceitou - o conhecimento substancial dos
vícios de vontade e, consequentemente, a impugnação da decisão da
matéria de facto – não é uma simples consideração, argumento ou razão
produzida pela parte que, por assim o ser, não merecesse/devesse ser
conhecida(o), suscitando a respetiva nulidade no Tribunal da Relação
que ainda não foi conhecida.
H) No entanto atendendo a que o Tribunal da Relação conheceu a
nulidade e julgou a desistência nula, revogou a sentença homologatória
de desistência do pedido e determinou o prosseguimento do pedido,
pode não ser necessário conhecer do erro vicio porque: a) a invalidade
da desistência terá de se repercutir na invalidade da transação e da
sentença homologatória; ou b) nos termos do disposto no n.º 2 do art.º
2101 do C.C. não pode renunciar-se ao direito de partilhar.
- Quanto à questão da existência ou não da nulidade da desistência do
pedido por se estar ou não perante direitos indisponíveis:
I) Como se refere no Acórdão deste Supremo Tribunal de Justiça de
09.11.2022, Relator: Senhor Juiz Conselheiro Dr. Luis Espírito Santo:
“– O direito à identidade do indivíduo, enquanto expressão da sua
verdade pessoal e da sua integridade moral, consagrado nos artigos 25º,
nº 1 e 26º, nº 1, da Constituição da República Portuguesa, que se
encontra incluído entre os direitos, liberdades e garantias referenciados
no artigo 18º do mesmo diploma legal, constituindo condição sine qua
non para a afirmação na família e na sociedade, abrange o
conhecimento das origens genéticas (paternidade biológica) e o
estabelecimento do correspondente vínculo jurídico, que compõem a
estrutura essencial subjacente à sua própria historicidade enquanto ser
social, inserindo-se no núcleo essencial e íntimo da pessoa e do
cidadão. II – Está, portanto, em causa o reconhecimento do direito
absoluto e pessoalíssimo à sua própria identidade através da
possibilidade do conhecimento da ascendência e marca genética, que se
inscrevem indelevelmente na genealogia do ser humano, com profundas
e impressivas projecções no campo social e histórico.”
J) - Está em causa o direito ao conhecimento da paternidade biológica,
bem como ao estabelecimento do correspondente vínculo jurídico,
enquanto elementos fulcrais e decisivos para a afirmação da identidade
pessoal e total integração no sistema jurídico e na sociedade em geral,
devidamente salvaguardados, enquanto direitos pessoalíssimos,
absolutos e fundamentais, nos artigos 26º, nº 1, e 25º, nº 1, e 36º da
Constituição da República Portuguesa.
K) A identidade pessoal constitui, pois, um insubstituível elemento
caracterizador de cada ser humano, fazendo a diferença em relação a
todos os outros, e abrange indiscutivelmente o direito fundamental ao
reconhecimento da maternidade e/ou da paternidade.
L) Conforme referem Jorge Miranda e Rui Medeiros, in “Constituição
da República Portuguesa Anotada”, Tomo I, 2ª edição, 2010, a página
609, com absoluta clareza: “O direito à identidade pessoal postula um
princípio de verdade pessoal. Ninguém deve ser obrigado a viver em
discordância com aquilo que pessoal e identitariamente é”.
M) Em paralelo, o Tribunal Constitucional tomou posição recentemente
favorável ao direito ao conhecimento da identidade pessoal e
reconhecimento das origens genéticas, sem a colocação de qualquer
prazo/elemento limitador ou condicionador, no seu acórdão de
225/2018 (relator Pedro Machete), datado de 24 de abril de 2018,
proferido no processo nº 95/2017 - Vidé Acórdão deste Supremo
Tribunal de Justiça de 09.11.2022.
N) Pelo exposto bem decidiu o Tribunal da Relação quando entendeu
que a desistência ocorrida no processo principal afetou o direito
pessoalíssimo, absoluto e fundamental da ora Recorrida a ver conhecida
a sua paternidade biológica e como tal essa desistência é nula.
- Da limitação dos efeitos da desistência do pedido aos efeitos
patrimoniais:
O) Pretende a aqui Recorrente que a declarada nulidade diga respeito
apenas aos efeitos pessoais e já não aos efeitos patrimoniais
pretendendo que seja julgada válida a renuncia aos direitos patrimoniais
decorrentes da filiação e a renuncia á herança.
P) O vínculo da filiação não se cinge ao direito à identidade pessoal
consagrado no art. 26.º, n.º 1, da CRP, gerando igualmente para os
envolvidos na relação parental efeitos pessoais (nos quais se
compreendem, para além dos aspetos da afetividade e da prestação de
assistência moral, a obrigação de criação e educação dos filhos) e
efeitos patrimoniais (destacando-se entre estes a obrigação alimentar e
o direito à vocação hereditária).
Q) O princípio da igualdade de filiação impõe que os filhos, havidos ou
não da relação do casamento, ou por adoção, tenham os mesmos
direitos, sob pena de violação do princípio da indivisibilidade ou
unidade do estado.
R) “Numa acção de investigação de paternidade, os efeitos pessoais e
patrimoniais decorrentes do estabelecimento da filiação não podem ser
dissociados.”- AC. STJ de 17.03.2016 Relator Exmo. Sr. Juiz
Conselheiro Dr. João Trindade
S) Atendendo a que numa ação de investigação de paternidade, os
efeitos pessoais e patrimoniais decorrentes do estabelecimento da
filiação não podem ser dissociados, a desistência do pedido naquela
ação implicou a renúncia aos efeitos pessoais da filiação, isto é, ao
direito de investigação da paternidade, já que a ora Recorrida, com esta
desistência, deixou de poder ver investigada e reconhecida a sua
paternidade mas também a renúncia aos efeitos patrimoniais da filiação
–direitos fundamentais mas mais do que isso consta expressamente no
acordo a renuncia expressa a todo e qualquer direito patrimonial que lhe
pudesse advir da herança e da filiação.
T) Estes direitos não estavam na disponibilidade da Recorrida.
U) Como se refere no Acórdão deste Supremo Tribunal de Justiça de
09.11.2022, Relator: Senhor Juiz Conselheiro Dr. Luis Espírito Santo:
“Estando em causa o exercício de um direito absoluto e pessoalíssimo,
se o seu reconhecimento comportar benefícios patrimoniais para o
investigante, tal significa tão somente que está a ser recolocada alguma
(devida) justiça numa situação de injustificada desigualdade de
tratamento entre filhos do mesmo progenitor (assumidos e não
assumidos).
As eventuais vantagens patrimoniais, que podem acontecer ou não –
mormente no plano sucessório e no âmbito do direito a alimentos –,
uma vez reconhecida a paternidade, seja em que momento for da vida
do investigante, são absolutamente naturais, lógicas, fundadas e justas.”
V) O reconhecimento da paternidade envolve direitos pessoais e
patrimoniais que a lei não cinde - Ac. da Relação do Porto de 22-02-
2021Relator: Exmo. Sr. Juiz Desembargador José Eusébio Almeida.
W) O artigo 2101º nº 2 do Código Civil impede a renúncia ao direito de
partilhar.
X) Como se refere no Ac. da R.P. de não sendo admissível a renuncia
ao direito de partilhar (2101º, n.º 2 do C.C.) não pode o requerente do
inventario desistir do pedido, por estar a afirmar a sua vontade
relativamente a um direito indisponível- Ac. da Relação do Porto de
25.03.1993, BMJ 425-623
Y) Como se refere no Ac. STJ de 26.04.1994, CJ/STJ,1994,2º-67: “A
norma do n.º 2 é imperativa, tendo subjacente um princípio de interesse
e ordem pública, e daí que seja nulo qualquer negócio que a infrinja
(art.º 280º)”.
- Quanto à litigância de má-fé:
Z) Não há abuso do direito na pretensão de reconhecimento da
paternidade, que inclui a vertente patrimonial.
AA) Cada uma das partes traz a sua versão dos factos - se existe
intenção maliciosa (má fé em sentido psicológico) é de quem saiu
beneficiado por este acordo - a Recorrente – que contra a verdade dos
factos pretendeu e continua a pretender atuar contra a verdade (a
verdadeira filiação) com propósitos ilegais de evitar a partilha com a
Recorrida.
BB) A Recorrida é filha de CC tem direito ao conhecimento da sua
identidade biológica e da sua identidade pessoal. Tem direito a conhecer
a sua origem genética e paternidade biológica e ao estabelecimento do
correspondente vínculo jurídico - o reconhecimento do direito absoluto
e pessoalíssimo à sua própria identidade. As eventuais vantagens
patrimoniais, mormente em sede de partilha, uma vez reconhecida a
paternidade, seja em que momento for da vida do investigante, são
absolutamente naturais, lógicas, fundadas e justas. Se a Recorrida tiver
direito a receber mais do que recebeu é justo que receba, mas se o que
recebeu é justo então em sede de partilhas nada mais terá a receber. Mas
é em sede de partilhas que tal deve ser decidido e não através da
postergação de um direito constitucional absoluto e pessoalíssimo.
CC) Ninguém pode renunciar ao conhecimento da sua identidade
pessoal, e da sua filiação nem ao direito de partilhar por manifesta
violação do disposto nos artt.º 26º, nº 1, e 25º, nº 1, e 36º da
Constituição da República Portuguesa e do disposto no artigo 2101º nº
2 do Código Civil.
DD) Estas normas são imperativas, tendo subjacente um princípio de
interesse e ordem pública, e daí que seja nulo qualquer negócio que a
infrinja (art.º 280º do C.C.).
Termos em que se requer Vossas Excelências se dignem julgar
improcedente o presente recurso, e declarada a nulidade da desistência
do pedido e do acordo celebrado na ação de investigação de
paternidade, prosseguindo a ação comum de paternidade os seus
termos, assim se fazendo a devida e merecida Justiça!”
12. Em 21.10.2024 a Relação do Porto, em conferência, proferiu
acórdão no qual indeferiu a reclamação de arguição de nulidade
apresentada pela A./recorrente AA (por considerar tal reclamação
inadmissível) e julgou improcedente o vício apontado pela recorrente
DD ao acórdão recorrido, indeferindo a pretensão de aclaração
formulada.
13. Em 13.11.2024 a A./recorrente interpôs recurso de revista contra o
acórdão referido em 12, rematando com as seguintes conclusões:
“A) – A aqui Recorrente requereu no Tribunal de primeira instância que
fossem anulados por erro e dolo, o acordo e a desistência do pedido de
investigação de paternidade, celebrado e homologado em 16 de abril de
2018, entre ela e a Recorrida;
B) - O Tribunal de Primeira instância decidiu julgar improcedente o
pedido de anulação do acordo por erro e dolo por não ser objeto de
sentença homologatória: “No caso, apenas o requerimento de
desistência do pedido apresentado na ação principal no dia 5 de abril
de 2018 (cf. facto 15), foi homologado por sentença de 16 de abril de
2018, transitada em julgado e que extinguiu a instância da ação
principal, sendo esta sentença homologatória da desistência do pedido
a única suscetível de poder ser modificada, no âmbito do presente
recurso de revisão”, mas conheceu as invocadas causas e factos do erro
e do dolo julgando erradamente a matéria de facto e julgou totalmente
improcedente o pedido da Recorrente.
C) - A Recorrente recorreu da matéria de facto e da matéria de Direito.
D) – O Tribunal da Relação do Porto confirmou a sentença de primeira
instância e também não anulou o acordo por se tratarem de direitos
disponíveis que admitem sempre desistência e transação ( pág.50 in
fine) conhecendo apenas a desistência do pedido de investigação de
paternidade e revogou parcialmente a sentença de primeira instância,
revogando a sentença homologatória da desistência do pedido mas não
o acordo relativo aos direitos patrimoniais.
E) – O Venerando Tribunal da Relação considerou ficar prejudicado o
conhecimento substancial dos invocados vícios da vontade (erro e dolo)
e, consequentemente, a impugnação da decisão da matéria de facto, por
força da nulidade da transação de direitos indisponíveis.
F) – Entendeu, que sendo nula a desistência, ficava prejudicado o
conhecimento substancial dos vícios de vontade e, consequentemente, a
impugnação da decisão da matéria de facto, tal como reclamado pela
aqui Recorrente.
G) – Conheceu, por isso, da indisponibilidade dos direitos pessoais e já
não do erro/ vício do acordo relativo aos direitos patrimoniais, não se
pronunciando, data venia, sobre uma questão que, por lhe ter sido
submetida para sua apreciação, devia ter apreciado- o dolo e engano.
H) – A aqui Recorrente apresentou reclamação junto do Venerando
Tribunal da Relação do Porto, arguindo a nulidade do Acórdão por este
proferido, por omissão de pronúncia quanto às questões patrimoniais
supra elencadas.
I) – O Tribunal a quo, por sua vez, entendeu que “(...) o requerimento
de arguição de nulidade do Acórdão apresentado pela apelante e
dirigido a este Tribunal não é admissível”, visto que “admitindo o
acórdão recurso ordinário, não se apresentou a apelante a recorrer”.
J) – A aqui Recorrente não apresentou recurso ordinário por tal
possibilidade lhe estar vedada, por força da existência de uma dupla
conforme quanto ao acordo relativo aos direitos patrimoniais.- A
decisão do Tribunal da Relação alterou apenas a sentença na parte
relativa à desistência do pedido de investigação da paternidade, não
alterando a decisão quanto à anulação do acordo (direitos patrimoniais
disponíveis) decisão que foi confirmada ao ser apenas julgado
parcialmente procedente o recurso quanto aos direitos pessoais
indisponíveis.
K) – Não restam dúvidas de que a jurisprudência tem concluído sempre
no sentido de que a nulidade de um acórdão da Relação, só por si,
nunca justifica um recurso de revista, mas apenas uma reclamação para
o tribunal que proferiu a decisão.
L) - O Acórdão da Relação recorrido está em contradição, no domínio
da mesma legislação [art.º615º, n.º4 e art.º 674º, n.1 al. c) do C.P.C.] e
sobre a mesma questão fundamental de Direito (arguição de nulidades
por reclamação ou recurso quando for este o único fundamento da
impugnação), com o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 04 de
abril de 2024, Processo n.º 5056/15.9T8MTS-A.P1, já transitado em
julgado.
O Tribunal da Relação (Acordão Recorrido) entende que a mera
arguição de nulidades (análise exclusiva de nulidades imputadas à
decisão recorrida) deve ser dirigida ao Supremo Tribunal de Justiça
através de recurso.
O Supremo Tribunal de Justiça (acórdão fundamento) entende que a
mera arguição de nulidades deve ser dirigida ao Tribunal que proferiu a
decisão através de reclamação.
Acordão fundamento: “não é admissível a interposição de recurso de
revista para análise exclusiva de nulidades imputadas à decisão
recorrida, devendo tais nulidades ser apreciadas pelo tribunal ad quem
apenas enquanto fundamento acessório”.
“Ou seja, no caso de os Recorrentes não pretenderem impugnar a
decisão com outros fundamentos para além das imputadas nulidades
por omissão de pronúncia – como sucedeu in casu – se compreende que
optem pela reclamação junto do tribunal que proferiu a decisão, como
meio processual idóneo a obter a apreciação da sua pretensão.”
M)- A Recorrente não pretendeu impugnar a decisão da Relação com
outro fundamento para além da imputada nulidade, por omissão de
pronúncia, por isso reclamou do acórdão da relação perante o Tribunal
que proferiu a decisão.
N) - Mas a Relação entendeu – decisão sub iudice em crise- que a
Recorrente não podia ter reclamado e devia ter recorrido para o
Supremo Tribunal de Justiça. É desta decisão e deste entendimento do
Tribunal da Relação de que ora se recorre.
O) – Padecendo o acórdão proferido do vício constante da alínea d) do
n.º 1 do artigo 615.º do CPC, isto é, da omissão de pronúncia por parte
do Julgador sobre questões que devia apreciar – a existência de erro e
engano na celebração do acordo sub iudice – e não sendo admissível
recurso ordinário, por força da existência de uma dupla conforme, o
meio adequado para a aqui Recorrente reagir passaria, desde logo, por
apresentar a devida reclamação junto do Tribunal que proferiu a
decisão, como impõe o n.º 4 do artigo 615.º do CPC.
P) - Mas, mesmo que se entendesse não existir dupla conforme, a
Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça é no sentido de que, se o
fundamento da impugnação da decisão é exclusivamente a nulidade
cometida sempre se deve reclamar junto do tribunal que proferiu a
decisão, como meio processual idóneo a obter a apreciação da sua
pretensão e não recorrer.
Q) – Com o devido respeito, o Tribunal a quo decidiu erradamente ao
indeferir a aludida reclamação, entendendo, em contrapartida, que a ora
Recorrente deveria ter lançado mão, ao invés de uma reclamação, de
um recurso ordinário.
R) – Está, também, em contradição com o leque de acórdãos, já
transitados em julgado, a título exemplificativo, supra expostos,
maxime, com o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 04 de abril
de 2024, Processo n.º 5223/19.6T6STB.E1.S1.
S) – É de entendimento dominante, como dispõe o Supremo Tribunal de
Justiça, no seu Acórdão de 04 de abril de 2024, Processo n.º
5223/19.6T6STB.E1.S1, que as nulidades por omissão de pronúncia
devem ser processualmente suscitadas através de reclamação junto do
tribunal que prolatou a decisão.
T) – A reclamação apresentada pela ora Recorrente foi julgada
inadmissível pelo Venerando Tribunal da Relação do Porto que,
consequentemente, não conheceu do objeto da mesma.
U) - A Recorrente tem data vénia direito a ser reconhecida como filha
do seu verdadeiro Pai, que sempre a acarinhou e acompanhou, mas
também tem direito a receber patrimonialmente o que é dela, por direito
sucessório reitera-se, sem que alguém lhe diga que “renunciou a todo e
qualquer direito que advenha, possa ou pudesse advir da herança” e
que desse acordo resulta que “está integralmente ressarcida de todo e
qualquer direito que advenha, possa ou pudesse advir da herança”, e
que se obrigou “a nada reclamar ou peticionar seja a que titulo for da
herança” ( acordo de 28.03. 2018).
Nestes termos e nos demais de Direito, muito respeitosamente, requer a
V. Exas se dignem julgar totalmente procedente o presente Recurso,
revogando a decisão recorrida e determinando a baixa dos autos ao
Tribunal da Relação para apreciação da nulidade por omissão de
pronúncia suscitada pela ora Recorrente quanto ao acordo e direitos
patrimoniais da Recorrente, fazendo desta forma a mais rogada e
merecida Justiça”.
14. A R./recorrida DD contra-alegou, tendo terminado com as
seguintes conclusões:
“1º O presente recurso de revista foi interposto do douto acórdão
proferido em 21.10.2024 pelo Tribunal da Relação do Porto, que
indeferiu o requerimento de arguição de nulidade apresentado pela
Recorrente AA por considerar ser o mesmo legalmente inadmissível,
uma vez que,
2º admitindo o Acórdão recurso ordinário, qualquer eventual nulidade
deveria ter sido arguida em recurso a interpor para o Supremo Tribunal
de Justiça, e não através de reclamação dirigida ao próprio Tribunal da
Relação.
3º Ora, isto é o que resulta da Lei - o nº4, do art. 615º, aplicável ex vi
nº2, do art. 666º, do CPC – e da jurisprudência mais que assente, como
se indica a título de exemplo o Acórdão do Supremo Tribunal de
Justiça, de 2020.07.08, no Processo nº 1093/14.9TASTR.E1.E1.
3º Na situação aqui em causa não há dúvidas de que o acórdão era
recorrível, não existindo a dupla conforme que alega a Recorrente.
4º Assim, não assiste razão à Recorrente, pois foi correctamente
indeferida a reclamação de arguição de nulidade por esta apresentada.
5º De qualquer modo não existe a nulidade invocada pela Recorrente
por, segundo alega, ter havido omissão de pronúncia quando o Tribunal
da Relação não apreciou a validade de Acordo extrajudicial de
28.03.2018,
6º pois o Tribunal da Relação decidiu, como o Tribunal de Primeira
Instância, que a questão da validade do acordo referido não poderia ser
decidida em sede do recurso de revisão que está aqui em causa.
NESTES TERMOS E NOS QUE [Link]. MUITO DOUTAMENTE
SUPRIRÃO DEVE SER CONSIDERADO IMPROCEDENTE O
PRESENTE RECURSO COM O QUE SE FARÁ JUSTIÇA!”
15. Admitidos ambos os recursos, foram colhidos os vistos legais.
II. FUNDAMENTAÇÃO
1. O presente acórdão tem por objeto duas revistas: uma, interposta pela
recorrida DD, contra o acórdão da Relação do Porto de 03.6.2024, que
julgou a apelação procedente e, consequentemente, revogou a sentença
revidenda, determinando o prosseguimento do processo (ação principal)
até à decisão final; outra, interposta pela recorrente AA, contra o
acórdão da Relação do Porto, de 21.10.2024, que indeferiu a
reclamação de arguição de nulidade apresentada pela recorrente AA
contra o citado acórdão de 03.6.2024.
2. Começaremos por apreciar a revista interposta por DD.
Nela, são abordadas as seguintes questões: necessidade de aclaração do
acórdão recorrido; existência, ou não, de nulidade da desistência do
pedido por se estar, ou não, perante direitos indisponíveis e consequente
nulidade da sentença homologatória; possibilidade de limitar os efeitos
da desistência do pedido e respetiva homologação aos efeitos
patrimoniais emergentes ao estado de filho; litigância de má-fé por
parte da recorrente AA.
2.1. Primeira questão (aclaração do acórdão)
Neste segmento da revista a recorrente entende que o dispositivo do
acórdão recorrido é pouco claro quanto ao pedido, que havia sido
formulado pela recorrente AA (no requerimento de recurso de revisão),
de anulação do acordo extrajudicial celebrado entre a recorrente AA e a
recorrida DD no dia 28.3.2018. Segundo a ora recorrente, o dispositivo
do acórdão deveria ter confirmado a decisão a esse respeito proferida
pela primeira instância, que foi de absolvição do pedido.
A Relação, na apreciação que, em conferência, fez desta pretensão de
aclaração, concluiu que o acórdão não enferma de contradição nem de
qualquer ininteligibilidade, aduzindo que “antes a mesma [a decisão
recorrida] tem um só sentido e é clara, evidente e bem percetível, sendo
que o que foi decidido foi, na procedência da apelação, como
fundamentado, e na revogação da sentença homologatória da
desistência do pedido, determinar-se o prosseguimento da ação
principal, para apreciação do direito que aí está a ser atuado (pedido
com a respetiva causa de pedir)”. Mais reproduziu, a Relação, a
passagem do acórdão recorrido que se reporta à alegada dúvida
suscitada pela recorrente, passagem essa que tem o seguinte teor
(transcrevendo-se, incluindo o realce a negrito):
“E, como decidiu o Tribunal a quo, sendo o objeto do recurso de
revisão uma decisão judicial, é inadmissível, no âmbito do presente
recurso, o primeiro pedido formulado pela recorrente - o de anulação
do acordo celebrado entre a recorrente e DD no dia 28 de março de
2018, acordo extrajudicial esse não objeto da sentença de
homologação. Apenas foi homologado, por sentença de 16 de abril de
2018, transitada em julgado, e que extinguiu a instância da ação
principal, o requerimento de desistência do pedido, apresentado na
ação principal no dia 5 de abril de 2018, apenas dessa anulação se
podendo, pois, apreciar, e apenas esta estando em causa no âmbito do
recurso de revisão, a ela se limitando, também, o presente recurso”.
Vejamos.
A aclaração de decisão, prevista na alínea a) do n.º 1 do artigo 669.º do
anterior Código de Processo Civil, não tem respaldo no atual CPC.
Na atual versão do CPC a eventual ambiguidade ou obscuridade da
decisão que a torne ininteligível configura a nulidade prevista no artigo
615.º, n.º 1, alínea c), do CPC.
Nos termos previstos no artigo 615.º, n.º 1 do CPC, a sentença é nula
quando, nomeadamente:
“b) Não especifique os fundamentos de facto e de direito que justificam
a decisão;
c) Os fundamentos estejam em oposição com a decisão ou ocorra
alguma ambiguidade ou obscuridade que torne a decisão ininteligível”.
Ora, no acórdão que antecede mostram-se enunciados quais os
fundamentos de facto e de direito que sustentam a decisão de
procedência da apelação e a consequente declaração de nulidade da
sentença revidenda e determinação do prosseguimento do processo
principal.
E tais fundamentos harmonizam-se entre si e com o veredito final, não
se surpreendendo entre eles qualquer desacerto lógico.
No que concerne ao pedido, que havia sido formalizado no
requerimento do recurso de revisão, de anulação do acordo extrajudicial
celebrado entre AA e DD, a Relação expressamente esclareceu que
concordava com a 1.ª instância, no sentido de que a questão da validade
desse acordo extrajudicial se encontrava fora do âmbito do recurso de
revisão, não se incluindo também no objeto da apelação. E, na
sequência do assim ajuizado, no dispositivo apenas se emitiu juízo de
revogação da sentença revidenda (sentença que havia homologado a
desistência do pedido formulada pela A./recorrente no processo
principal), nele se excluindo qualquer juízo acerca do dito acordo
extrajudicial.
Tudo é muito claro, não padecendo o acórdão de qualquer
ininteligibilidade.
Nesta parte, pois, a revista sub judice é improcedente.
2.2. Segunda questão (nulidade da desistência do pedido na ação
declarativa)
2.2.1. A 1.ª instância deu como provada a seguinte
Matéria de facto (sendo certo que a Relação não chegou a sindicar a
decisão de facto, por considerar tal apreciação – requerida pela apelante
- prejudicada pelo resultado da apelação)
1) A recorrente nasceu no dia D/M/1972 na freguesia e concelho de ... e
foi registada como sendo filha de BB e de EE, casados entre si.
2) BB trabalhava como agricultor em vários terrenos agrícolas e afins
que pertenciam a CC.
3) CC intitulava-se de Padrinho da recorrente e esta tratava-o como tal;
4) A recorrida, legal representante de Herdeiros de CC, é madrinha da
recorrente;
5) Desde que a recorrente nasceu que CC participava em todas as suas
festividades (religiosas e aniversários);
6) As famílias da recorrente e da recorrida eram próximas;
7) CC morreu no dia 2/04/1996, no estado de viúvo, tendo deixado
como única e universal herdeira a sua filha DD, nascida no dia
D/M/1944 na freguesia de ..., concelho Matosinhos;
8) Em 22/10/2015 a recorrente instaurou uma ação de impugnação de
perfilhação e de investigação de paternidade contra os herdeiros de BB
e contra os herdeiros de CC, pedindo que fosse reconhecido e declarado
que não é filha de BB e fosse reconhecido e declarada a paternidade
relativamente ao CC.
9) Na pendência dessa ação foram realizados exames periciais
designadamente à recorrente, sua mãe, à recorrida e a CC cujo cadáver
foi exumado:
10) Após o conhecimento do resultado do exame referido em 9) a
recorrente e a recorrida requereram, por requerimento subscrito pelos
respetivos mandatários, a suspensão da instância dos autos principais;
11) Nessa sequência, iniciaram-se negociações entre as mandatárias que
representavam ambas as partes na ação principal com vista a
alcançarem um acordo;
12) No âmbito dessas negociações foram apresentadas pelas
representantes da recorrente diversas propostas de acordo, com vista a
que lhe fossem atribuídos bens que integravam a Herança de CC; -
facto impugnado na apelação
13) De entre essas propostas, a recorrente propôs-se a que lhe fosse
atribuído um dos prédios que integrava o património da herança de CC
– Horto a que corresponde o artigo matricial ..62 da freguesia de
Paranhos, proposta que veio a ser aceite pela recorrida e uma quantia
em dinheiro; - facto impugnado na apelação
14) Nessa sequência a recorrente e a recorrida celebraram o seguinte
acordo:
“AA (...) E, HERANÇA ABERTA POR ÓBITO DE CC E HERDEIROS
DE CC (...) aqui representada pela universal herdeira e Cabeça de
Casal a sua filha, DD (...) De boa-fé declaram e acordam o
estabelecido nas cláusulas seguintes:
2ª A AA e a herança pretendem transigir na ação judicial supra
identificada, o que fazem nos seguintes termos e condições:
Considerando que, os dois relatórios periciais de investigação de
parentesco biológico realizados no âmbito daquele processo judicial,
não permitem excluir que o pai da DD é o pai biológico da AA,
A AA receberá uma importância em dinheiro e um bem imóvel da
herança, como que se de uma partilha se tratasse,
Neste seguimento, a AA receberá o seguinte:
a) a quantia de 81.000,00€ (oitenta e um [mil] euros), a qual deverá
ser paga em numerário até ao dia 05/04/2018 (data da realização da
escritura pública do bem imóvel identificado infra);
b) Um prédio Urbano, casa de dois pavimentos e quintal, tendo o r/c
duas divisões, andar seis dependências (lotes de gado) seis
dependências (coberta uma) e dependência (casa eira), com fachada
gatlada, sito no ligar do tronco (estrada interior da circunvalação ao
...) casa 1, lugar de ..., 4200-...Porto, com a área total do terreno de
1925.0000m2, descrito na Conservatória do Registo Predial do Porto
sob o número ...........25 da freguesia de Paranhos, e inscrita na
respetiva matriz urbana sob o artigo ..62 da referida freguesia de
Paranhos.
Com o recebimento dos bens indicados nas supras indicadas ais. a) e
b), a AA declara para todos os devidos e legais efeitos, considerar-se
integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha, possa
ou pudesse advir, da herança, desistindo do pedido efetuado no
processo judicial n° 5056/1 5.9T8MTS, que corre termos no Juízo de
Família e Menores de Matosinhos - Juiz 4 do Tribunal Judicial da
Comarca do Porto.
Caso, por qualquer motivo, não seja aceite pelo tribunal a desistência
do pedido no processo atrás referido, a AA - atento o recebimento dos
bens (importância em dinheiro e bem imóvel) atrás mencionados nas
als. a) e b), e visto, com isso, considerar-se integralmente ressarcida de
todo e qualquer direito que advenha, possa ou pudesse advir da
herança - obriga-se a nada reclamar ou peticionar seja a que titulo for
da herança (ou seja, da Herança aberta por morte de CC, de Herdeiros
de CC ou mesmo de DD), incorrendo na mesma obrigação os seus
representantes, sucessores e herdeiros.
Cláusula 2 a : “ ...a AA declara para todos os devidos e efeitos legais,
considerar-se integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que
advenha, possa ou pudesse advir, da herança, desistindo do pedido .
Cláusula 3 a : “ Caso, por qualquer motivo, não seja aceite pelo
tribunal a desistência do pedido no processo atrás referido, a AA -
atento o recebimento dos bens (…) e visto, com isso, considerar-se
integralmente ressarcida de todo e qualquer direito que advenha possa
ou pudesse advir da herança, obriga-se a nada reclamar ou peticionar
a que titulo for da herança”.
15) No dia 5 de abril de 2018 a recorrente apresentou requerimento na
ação principal no qual declarou desistir do pedido por si formulado;
16) Por sentença de 16 de abril de 2018 foi homologado a desistência
do pedido formulado pela recorrente;
17) No dia 5 de abril de 2018 foi outorgada escritura publica de doação
do imóvel do imóvel referido em 14) mediante a qual a recorrida o
declarou doar a II, filha da recorrente, que aceitou a doação e na mesma
data foi entregue à recorrente a quantia monetária referida em 14);
18) No mês de junho de 2020 a recorrente conversou com familiares e
amigos, designadamente FF, GG e HH sobre o património de CC;
19) No dia 4 de junho de 2015 DD recebeu o seguinte escrito subscrito
pelo mandatário da recorrente à data
“Exm. a Senhora:
Encarrega-nos a nossa cliente supra referenciada, sua irmã (como V.
Ex. a bem sabe e admitiu expressa e directamente à mesma em
conversa à cerca de 2 anos, a qual só ficou a saber a verdade nessa
altura), por parte do seu falecido pai. o Sr. CC), e também sua afilhada
e do seu ex-marido de V. Ex.* (por conveniência, como V. Ex. a também
lhe explicou, para calar os rumores do povo e da vizinhança, pois era e
é de conhecimento público).
Sobre a relação (extra-conjugal) que o seu falecido pai teve, com a mãe
da sua irmã, a D. EE (na altura casada com o falecido Sr. BB), tendo
nascido dessa relação, como V. Ex. a bem sabe e admitiu
expressamente. a sua irmã D. AA, em D/M/1972. não obstante, no
Registo de Nascimento da mesma constar (indevidamente) o nome do
referido marido da [Link].
Assim, pretende a sua referida irmã, repor a verdade dos factos, e
adquirir os eus direitos, na qualidade de legitima herdeira do falecido
pai de ambas (Sr. CC), mediante a instauração das competentes Ações
de Impugnação de Paternidade, e. Reconhecimento Judicial de
Paternidade (estando a mesma na posse de provas diversas concretas e
cruciais conducentes ao êxito de ambas as ações).
Contudo, torna-se necessária a colaboração de V, Ex. a , no testemunho
e realização de eventuais testes de ADN . para evitar situações mais
desagradáveis, como por exemplo: o pedido de exumação dos restos
mortais do seu falecido pai. para a realização desses referidos testes de
.ADN, a serem ordenados pelo Tribunal (caso não haja acordo ou
intenção de colaboração de V. Ex. a ).
Finalmente, a sua referida irmã tem conhecimento que. desde que falou
com V. Ex. a sobre este assunto e sobre os direitos da mesma sobre a
herança do vosso falecido pai, V. Ex. a tem tomado diligências públicas
e não só (na venda de bens imóveis, etc...), com vista à dissipação
indevida dos bens que compõem a referida herança, para a tentar
prejudicar, cuja Relação de Bens, à data do óbito temos na n/posse e
que se junta em anexo. (…)”
20) Chegou ao conhecimento da recorrida que, durante o tempo em que
decorreram as negociações referidas no facto 11), foi contratada uma
arquiteta pela recorrente para avaliar os bens da herança de CC;
21) À data da celebração do acordo referido em 14) a recorrente
conhecia a relação de bens de CC à data do seu óbito; - facto
impugnado na apelação.
Na sentença enunciaram-se os seguintes
Factos não provados
I. mais que um mero trabalhador de CC, BB era também um amigo seu;
II. para além do facto provado em 3) que a ligação entre a recorrente e
CC fosse muito forte;
III. para além do facto provado em 6) a proximidade entre os lares fosse
tão grande que todos eles se sentiam como familiares diretos, como se
de uma única família se tratasse;
IV. para além do que se teve por provado em 11) a 13), na sequência do
facto provado em 10) a representante da herança recorrida, DD, tenha
apresentado uma proposta à Recorrente na qual lhe deu a escolher um
prédio entre os seguintes: - 3 casas seguidas sitas na Travessa 2 e terro
ao lado (artigos ..90, ..92, ..86); - Horto (artigo ...2 Paranhos, Porto); -
Casa ao lado da habitação da Mãe da A. sita na Rua 3 (artigo ..46). -
facto não provado impugnado na apelação
V. A representante da recorrida lhe tenha dito que o referido em IV) era
o único património de CC a partilhar. - facto não provado impugnado
na apelação
VI. A recorrida de boa-fé tenha acreditado nas palavras de DD. - facto
não provado impugnado na apelação
VII. A recorrida à data das negociações referidas em 11) e 12)
desconhecesse o património de CC; - facto não provado impugnado na
apelação
VIII. quando surgiram os resultados das perícias que provavam que a
Recorrente também era filha de CC, DD tenha procurado em pouco
tempo, ludibriar a Recorrente, dizendo-lhe que o falecido pai apenas
tinha deixado o património referido no facto IV, quando sabia que isso
não correspondia à verdade, - facto não provado impugnado na
apelação
IX. para além do que se teve por provado nos factos 12) e 13), DD
tenha dado a escolher à recorrente um prédio e lhe tenha oferecido
dinheiro, requerendo em troca que a recorrente assinasse o referido
acordo e desistisse da ação, porque não era do seu interesse que fosse
proferida sentença a declarara que CC era pai da recorrente - facto
não provado impugnado na apelação
X. o prédio constante do acordo referido no facto 13) fosse uma
“ninharia” quando comparado com todo o património que CC havia
deixado. - facto não provado impugnado na apelação
XI. DD se tenha aproveitado da boa-fé e desconhecimento da
Recorrente para a enganar e assim a fazer assinar um acordo e desistir
da ação. - facto não provado impugnado na apelação
XII. DD tenha ocultado todo o demais património de seu pai, induzindo
a recorrente a assinar o acordo referido em 14), para a enganar; -
facto não provado impugnado na apelação
XIII. a recorrente desconhecendo a realidade dos factos, acreditando
nas palavras de DD e que apenas os bens referidos em IV pertenciam á
herança aberta por óbito de CC, tenha aceite os termos do acordo
referido em 14); - facto não provado impugnado na apelação
XIV) se no momento em que subscreveu o acordo referido e 14) a
recorrente soubesse que o património de CC era muito maior nunca
teria aceite subscrever o acordo referido em 3) e desistir da ação
principal. - facto não provado impugnado na apelação
XV) na conversa referida no facto 18) a recorrente tenha tomado
conhecimento que CC tinha um património de mais de 70 imóveis,
avaliados em mais de 15 milhões de euros, para além de possuir várias
contas bancárias, no Banco Hispano Americano em Vigo, Espanha
(atual Santander), na Caixa Geral de Depósitos e antigo BES.
XVI) que após a conversa referida no facto 18) a recorrente sentindo-se
magoada e enganada, tenha começado a investigar os bens imóveis que
faziam parte do património de CC. - facto não provado impugnado na
apelação
2.2.2. O Direito
Como é sabido, à luz do recurso extraordinário de revisão a paz jurídica
alcançada com o trânsito em julgado da decisão proferida pelo tribunal
em ordem a resolver o litígio que lhe fora apresentado pode ser
questionada em casos excecionais, taxativamente enunciados no art.º
696.º do CPC, em que se considera que a justiça foi ou pode ter sido
seriamente afetada por vícios atinentes ao julgador (a decisão resulta de
crime praticado pelo juiz no exercício das suas funções), à tramitação
processual (o processo correu indevidamente à revelia do réu), às partes
(nulidade ou anulabilidade de confissão, desistência ou transação em
que a decisão se fundou; o litígio assenta sobre ato simulado das partes,
sem que o tribunal se tivesse apercebido da fraude), à prova produzida
(a decisão foi determinada por documento, ato judicial, depoimento,
declarações de peritos ou árbitros que se revelou serem falsos, sem que
essa matéria tenha sido alvo de discussão no processo em que a decisão
foi proferida; a decisão foi proferida sem que se tivesse levado em
consideração, por não ter sido apresentada perante o tribunal,
documento de que a parte não tinha conhecimento ou de que não pôde
fazer uso no processo em que foi proferida a decisão a rever e que, por
si só, seria suficiente para modificar a decisão em sentido mais
favorável à parte vencida), é inconciliável com decisão definitiva de
uma instância internacional de recurso vinculativa para o Estado
Português, ou resulta de erro jurisdicional suscetível de responsabilizar
civilmente o Estado Português.
O recurso deve ser interposto no tribunal que proferiu a decisão a rever
(n.º 1 do art.º 697.º do CPC). Será esse tribunal que verificará da
admissibilidade do recurso, indeferindo-o quando não tenha sido
instruído nos termos previstos no art.º 698.º do artigo anterior ou
quando reconheça de imediato que não há motivo para revisão. Se
entender que nada obsta à admissão do recurso, o tribunal ordena a
notificação do recorrido para responder no prazo de 20 dias e, depois,
seguir-se-á a tramitação que ao caso couber, culminando na prolação da
decisão que julgue o recurso (art.º 700.º do CPC). Trata-se da fase
rescindente, destinada a afastar ou “rescindir” a decisão transitada em
julgado (cfr., v.g., José Lebre de Freitas, Armindo Ribeiro Mendes e
Isabel Alexandre, Código de Processo Civil Anotado, volume 3.º, 3.ª
edição, 2022, p. 302). Se o recurso for julgado procedente, proferir-se-á
nova decisão ou realizar-se-ão os atos necessários a novo julgamento
(art.º 701.º do CPC). No caso da alínea h) (responsabilidade civil do
Estado por danos no exercício da função jurisdicional) o recorrente será
notificado para, no prazo de 30 dias, formular o pedido de
indemnização contra o Estado, continuando o processo em termos a
definir pelo juiz. Esta fase, subsequente à fase rescindente, é a fase
rescisória, que visa retomar o processo e aí obter uma decisão que
substitua a rescindida ou anulada (cfr., v.g., José Lebre de Freitas e
outros, ob. cit., p. 302).
Da descrita tramitação resulta que este procedimento tem estrutura e
natureza especial, que o distancia dos recursos ordinários. Desde logo,
o recurso não corre perante tribunal superior ao que proferiu a decisão
recorrida, mas sim perante o tribunal que proferiu a decisão a rever. Isto
é, o tribunal competente para tramitar e julgar o recurso extraordinário
de revisão é o tribunal que proferiu a decisão a rever (v.g., José Lebre
de Freitas e outros, ob. cit., p. 320).
No caso dos autos, o recurso de revisão radica na previsão da alínea d)
do art.º 696.º do CPC, norma que possibilita a revisão de decisão
transitada em julgado quando “[s]e verifique nulidade ou anulabilidade
de confissão, desistência ou transação em que a decisão se fundou”.
Tem-se aqui em vista a manifestação do princípio do dispositivo que se
traduz no poder de as partes porem fim ao litígio através de um negócio
que, assumindo vestes processuais, se repercute diretamente no campo
material, do direito substantivo.
Com efeito, sob a epígrafe “Liberdade de desistência, confissão e
transação”, o art.º 283.º do CPC estipula, no seu n.º 1, que “[o] autor
pode, em qualquer altura, desistir de todo o pedido ou de parte dele,
como o réu pode confessar todo ou parte do pedido” e, no n.º 2, que
“[é] lícito também às partes, em qualquer estado da instância, transigir
sobre o objeto da causa”.
Os efeitos desses negócios de autocomposição do litígio estão
expressamente enunciados nos artigos 284.º e 285.º do CPC: a
confissão e a transação “modificam o pedido ou fazem cessar a causa
nos termos em que se efetuem” (art.º 284.º) e a desistência do pedido
“extingue o direito que se pretendia fazer valer” (n.º 1 do art.º 285.º).
Essa conformação material do direito substantivo (pela sua
modificação, eventual constituição ou extinção) ficará coberta pela
força do caso julgado através da sentença homologatória proferida pelo
juiz do processo (artigos 290.º n.º 3, 291.º n.º 2 e 619.º n.º 1 do CPC).
Embora o juiz não aplique o direito objetivo aos factos provados na
causa, a sentença homologatória constitui uma sentença de mérito, na
qual se condena e/ou absolve o réu (ou se condena ambas partes, nos
termos de eventual transação), consoante o negócio jurídico celebrado.
A confissão, a desistência e a transação podem enfermar de nulidade ou
de vício que acarrete a anulabilidade, o que poderá ser declarado nos
termos do regime geral dos negócios jurídicos (art.º 291.º n.º 1 do
CPC).
O obstáculo formado pelo trânsito em julgado da sentença
homologatória do ato viciado “não obsta a que se intente a ação
destinada à declaração de nulidade ou à anulação de qualquer delas
[confissão, desistência ou transação], ou se peça a revisão da sentença
com esse fundamento, sem prejuízo da caducidade do direito à
anulação” (n.º 2 do art.º 291.º).
A lei prevê, pois, que em lugar de se atacar primeiramente o ato
viciado, em ação declarativa, para depois se obter a revisão da sentença
homologatória, se cumule no recurso de revisão a impugnação do ato
das partes e da sentença homologatória.
Revertamos ao caso dos autos.
A recorrente havia intentado uma ação de impugnação de paternidade
presumida, cumulada com um pedido de investigação de paternidade.
Tendo chegado a um acordo extrajudicial com a parte contrária, a
recorrente formalizou no processo desistência do pedido, a qual foi
homologada por sentença. Já após o trânsito em julgado da sentença, a
A., considerando que havia sido dolosamente enganada pela parte
contrária aquando da celebração do dito acordo extrajudicial, intentou o
recurso de revisão, peticionando a anulação do acordo extrajudicial, da
declaração de desistência do pedido e da sentença homologatória. A 1.ª
instância julgou o recurso totalmente improcedente, absolvendo a
recorrida dos pedidos. Para tanto, considerou que não se tinham
provado os alegados erro e dolo viciadores da formação da vontade da
recorrente. A Relação, na sequência da apelação interposta pela
recorrente, revogou a sentença homologatória da desistência do pedido
e determinou o prosseguimento do processo (ação principal) até à
decisão final. Para tanto, sem se pronunciar acerca dos alegados vícios
da formação da vontade da recorrente AA, a Relação pronunciou-se
acerca da questão, que considerou ser prévia a essa, da nulidade da
desistência do pedido, por determinar a extinção de um direito
indisponível.
A este respeito a recorrida DD, na sua revista, expendeu,
preliminarmente, o seguinte:
“Antes de mais, refira-se que, o Tribunal de Primeira Instância, tal
como refere na sentença que proferiu nestes autos, não poderia, na
nossa modesta opinião, conhecer desta questão da existência ou não de
nulidade da desistência do pedido apresentada pela Autora, AA, por
estarem, ou não, em causa direitos indisponíveis, porque esta
fundamentou o seu recurso extraordinário revisão apenas numa
alegada anulabilidade por erro da desistência (anulabilidade, essa que
na verdade não existiu), nunca tendo invocado nas alegações ou
conclusões do recurso de revisão que deduziu, qualquer nulidade da
desistência e da sentença de homologação da mesma, por eventual
indisponibilidade dos direitos em causa (o que, na verdade, e como
veremos, também não existe).”
Isto é, a recorrente emitiu uma “opinião”, segundo a qual o tribunal da
primeira instância não poderia, como ele próprio declarou na sentença,
conhecer da nulidade da desistência do pedido, mormente no que
concerne à indisponibilidade do seu objeto, pois que a recorrente
apenas fundamentara o seu recurso extraordinário numa alegada
anulabilidade da desistência, por erro na formação da vontade.
Porém, desta afirmação a recorrente DD não retirou nenhuma conclusão
ou pretensão, atinente ao acórdão recorrido, pelo que dela não mais se
cuidará.
Atentemos, pois, naquele que a recorrente DD qualifica como sendo o
“cerne da questão”.
Sob a epígrafe “Limites objetivos da confissão, desistência ou
transação”, o art.º 289.º do CPC estipula, no seu n.º 1, que “[n]ão é
permitida confissão, desistência ou transação que importe a afirmação
da vontade das partes relativamente a direitos indisponíveis”.
Decorre do princípio da instrumentalidade do processo civil que aquilo
que não é permitido pelo direito substantivo não pode ser alcançado
através do processo (cfr. João de Castro Mendes e Miguel Teixeira de
Sousa, Manual de Processo Civil, volume I, AAFDL Editora, 2022,
pág. 80). Assim, nomeadamente, não são válidos os negócios
processuais de desistência do pedido celebrados nas ações que tenham
por objeto direitos indisponíveis. Isto, porque, como se viu, a
desistência do pedido acarreta a extinção do direito respetivo.
A desistência do pedido que viole tal limite será nula (art.º 294.º do
Código Civil) e essa nulidade poderá fundar a revisão da respetiva
sentença homologatória (artigos 291.º n.º 2 e 696.º alínea d) do CPC).
Como é sabido, no direito privado vigora o princípio geral da
autonomia privada ou da autonomia da vontade (cfr. art.º 405.º do
Código Civil). A sua consagração constitucional avulta nos artigos 26.º
n.º 1, 61.º e 62.º da Constituição.
Contudo, a autonomia privada no direito civil pode conhecer
limitações, em particular “no domínio das relações pessoais e das
relações familiares, domínios onde o carácter imperativo de grande
parte das normas jurídicas proíbe a disposição ou limitação de certos
direitos (v.g., certos direitos de personalidade) ou reduz a liberdade de
contratação a uma mera liberdade de concluir ou não o acto jurídico,
mas fixando-lhe, necessariamente, uma vez celebrado, os efeitos (v.g.,
casamento, adopção)” – cfr. Carlos Alberto da Mota Pinto (António
Pinto Monteiro e Paulo Mota Pinto), Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª
edição, 2.ª reimpressão, 2012, Coimbra Editora, páginas 103 e 104.
Essas limitações têm manifestação fértil no campo dos direitos de
personalidade, situações jurídicas de que a pessoa é necessariamente
titular e que tutelam bens atinentes aos “vários modos de ser físicos ou
morais da sua personalidade” (Carlos Alberto da Mota Pinto, ob. cit.,
páginas 100 e 101). Trata-se, na formulação de Guilherme Machado
Dray (Direitos de Personalidade, Anotações ao Código Civil e ao
Código do Trabalho, Almedina, 2006, páginas 27 e 28), de direitos
subjetivos que recaem sobre bens pessoalíssimos e que projetam a
própria personalidade humana. São direitos pessoais, que podem ter por
objeto bens tão díspares como o direito à vida, à integridade física ou ao
nome. São pessoalíssimos, porque são intransmissíveis. São direitos
absolutos, porque devem ser respeitados por todos, independentemente
de qualquer relação jurídica. Traduzem uma excecional dignidade ética,
que justifica o regime de tutela reforçado que lhes está associado.
Os direitos de personalidade integram a categoria dos direitos
indisponíveis, cuja principal característica, na formulação sintética
(com recurso à citação de diversos autores) de Joana Vasconcelos (in
Comentário ao Código Civil, Parte Geral, Universidade Católica
Editora, 2014, páginas 202 e 203), “é a sua subtração de princípio à
vontade do seu titular, à qual é vedado “influir de modo direto e
imediato sobre a sua consistência ou destino” (Manuel de Andrade,
1983: 66), através da modificação do seu conteúdo que opere a sua
“redução ou enfraquecimento” (Oliveira Ascenção, 2002: 151), da sua
oneração, da sua transmissão ou da sua extinção (v.g., por renúncia).
Concretizando-se numa ligação especialmente intensa entre o direito e
o seu titular, a indisponibilidade comprime a lata faculdade de
disposição que “existindo na esfera jurídica de cada pessoa”, se refere
“a todos os direitos subjetivos de que ela seja titular” (Carvalho
Fernandes, 2007 : 589), de modo a proteger interesses que, sendo de
ordem pública, se impõem à autonomia privada”.
O art.º 81.º do Código Civil consagra, no seu n.º 1, a admissibilidade de
princípio das limitações voluntárias ao exercício dos direitos de
personalidade. Mas logo aponta para a ilicitude decorrente da
contrariedade aos princípios da ordem pública (n.º 1, in fine). A
invocação dos princípios da ordem pública deverá comportar a
aplicação da totalidade do disposto no art.º 280.º do Código Civil, isto
é, a consideração dos obstáculos decorrentes da lei e dos bons costumes
(cfr. Pedro Pais de Vasconcelos, Direito de Personalidade, Almedina,
2006, pág. 155).
Acresce que, no n.º 2 do art.º 81.º do Código Civil, se garante, de forma
lata, ao titular do direito de personalidade, um poder de desvinculação
unilateral da limitação negociada, sem prejuízo da obrigação de
indemnização dos prejuízos causados às “legítimas expetativas da outra
parte”.
A ação de investigação de paternidade (e de maternidade) é,
comummente, apontada como um exemplo de indisponibilidade do
direito por parte do seu autor, que dela não poderá desistir (cfr., v.g,
José Alberto dos Reis, Comentário ao Código de Processo Civil, vol.
3.º, 1946, páginas 522 e 523; José Lebre de Freitas e Isabel Alexandre,
Código de Processo Civil Anotado, volume 1.º, 4.ª edição, 2021,
Almedina, páginas 584 e 585; Miguel Teixeira de Sousa, CPC on line,
anotação ao art.º 289.º; João de Castro Mendes e Miguel Teixeira de
Sousa, Manual de Processo Civil, volume I, AAFDL Editora, 2022,
pág. 82). Intentada pelo pretenso filho, tendo em vista o
reconhecimento judicial da paternidade do pretenso pai (artigos 1847.º
e 1869.º do Código Civil), a desistência do pedido implicará a extinção
do direito à obtenção de tal reconhecimento. Isto é, fica extinto o direito
à fixação e reconhecimento de um aspeto essencial da personalidade de
uma pessoa, o seu estado de filho do seu pai.
A circunstância de o filho ser livre de não exercer o seu direito, não
instaurando a ação e, além disso, o facto de a lei sujeitar a prazos de
caducidade o exercício da ação de investigação – artigos 1873.º e
1817.º do Código Civil – extinguindo-se o aludido direito pelo decurso
do respetivo prazo, não interfere com tal conclusão. Uma coisa é o
efeito de uma mera inatividade ou passividade do titular do direito,
outra é a avaliação de um ato positivo do titular do direito,
consubstanciado num negócio jurídico extintivo de um direito de
personalidade.
Aliás, a jurisprudência judicial e, bem assim, a jurisprudência do
Tribunal Constitucional, têm-se debatido com o problema da
conformidade constitucional dos aludidos prazos de caducidade face
aos direitos de personalidade do pretenso filho, na sua dimensão
constitucionalmente consagrada.
E, no âmbito dessa controvérsia, os juízes do Tribunal Constitucional,
reunidos em plenário, acordaram, por maioria, no acórdão n.º 523/2025,
de 17.6.2025, “julgar inconstitucional, por violação do disposto no n.º
1 do artigo 26.º e do n.º 1 do artigo 36.º da Constituição, em
conjugação com o n.º 2 do artigo 18.º da Constituição, a norma do n.º
1 do artigo 1817.º do Código Civil, na redação da Lei n.º 14/2009, de 1
de abril, na parte em que, aplicando-se às ações de investigação da
paternidade, por força do artigo 1873.º do mesmo Código, prevê um
prazo de dez anos para a propositura da ação, contado da maioridade
ou emancipação do investigante”.
Com relevo para a problemática que nos ocupa, aí se considerou,
historiando reflexões contidas noutros arestos, que é pacífico na
jurisprudência do Tribunal Constitucional que o estabelecimento de um
prazo de caducidade para a ação de investigação da
maternidade/paternidade limita os direitos fundamentais à identidade
pessoal e ao livre desenvolvimento da personalidade (ambos previstos
no artigo 26.º, n.º 1, da CRP), e à constituição de família (artigo 36.º, n.º
1, da CRP), sobretudo porque, transcorrido o prazo de caducidade, o
interessado vê extinto – e, nessa medida, definitivamente - o seu direito
a solicitar judicialmente a investigação da sua filiação biológica.
E, desenvolvendo o tema, no referido acórdão aderiu-se à reflexão
contida no acórdão do TC n.º 401/2011, onde se exarou o seguinte:
“O direito ao conhecimento da paternidade biológica, assim como o
direito ao estabelecimento do respetivo vínculo jurídico (…) cabem no
âmbito de proteção quer do direito fundamental à identidade pessoal
(artigo 26.º, n.º 1, da Constituição), quer do direito fundamental de
constituir família (artigo 36.º, n.º 1, da Constituição).
A identidade pessoal consiste no conjunto de atributos e características
que permitem individualizar cada pessoa na sociedade e que fazem com
que cada indivíduo seja ele mesmo e não outro, diferente dos demais,
isto é, “uma unidade individualizada que se diferencia de todas as
outras pessoas por uma determinada vivência pessoal” (Jorge
Miranda/Rui Medeiros, em “Constituição Portuguesa Anotada”, Tomo
I, pág. 609, da 2.ª ed., da Coimbra Editora).
Este direito fundamental pode ser visto numa perspetiva estática – onde
avultam a identificação genética, a identificação física, o nome e a
imagem – e numa perspetiva dinâmica – onde interessa cuidar da
verdade biográfica e da relação do indivíduo com a sociedade ao longo
do tempo.
A ascendência assume especial importância no itinerário biográfico,
uma vez que ela revela a identidade daqueles que contribuíram
biologicamente para a formação do novo ser. O conhecimento dos
progenitores é um dado importante no processo de autodefinição
individual, pois essa informação permite ao indivíduo encontrar pontos
de referência seguros de natureza genética, somática, afetiva ou
fisiológica, revelando-lhe as origens do seu ser. É um dado
importantíssimo na sua historicidade pessoal. Como expressivamente
salienta Guilherme de Oliveira, «saber quem sou exige saber de onde
venho» (em “Caducidade das ações de investigação”, ob. cit., pág. 51),
podendo, por isso dizer-se que essa informação é um fator conformador
da identidade própria, nuclearmente constitutivo da personalidade
singular de cada indivíduo.
Mas o estabelecimento jurídico dos vínculos da filiação, com todos os
seus efeitos, conferindo ao indivíduo o estatuto inerente à qualidade de
filho de determinadas pessoas, assume igualmente um papel relevante
na caracterização individualizadora duma pessoa na vida em
sociedade. A ascendência funciona aqui como um dos elementos
identificadores de cada pessoa como indivíduo singular. Ser filho de é
algo que nos distingue e caracteriza perante os outros, pelo que o
direito à identidade pessoal também compreende o direito ao
estabelecimento jurídico da maternidade e da paternidade.
Por outro lado, o direito fundamental a constituir família consagrado
no artigo 36.º, n.º 1, da Constituição, abrange a família natural,
resultante do facto biológico da geração, o qual compreende um vetor
de sentido ascendente que reclama a predisposição e a disponibilização
pelo ordenamento de meios jurídicos que permitam estabelecer o
vínculo da filiação, com realce para o exercitável pelo filho, com o
inerente conhecimento das origens genéticas.
Na verdade, o direito a constituir família, se não pode garantir a
inserção numa autêntica comunidade de afetos – coisa que nenhuma
ordem jurídica pode assegurar – implica necessariamente a
possibilidade de assunção plena de todos os direitos e deveres
decorrentes de uma ligação familiar suscetível de ser juridicamente
reconhecida. Pela natureza das coisas, a aquisição do estatuto jurídico
inerente à relação de filiação, por parte dos filhos nascidos fora do
matrimónio, processa-se de forma diferente da dos filhos de mãe
casada, uma vez que só estes podem beneficiar da presunção de
paternidade marital. Mas essa aquisição, deve ser garantida através da
previsão de meios eficazes. Aliás a perentória proibição de
discriminação dos filhos nascidos fora do casamento (artigo 36.º, n.º 4,
da CRP) não atua só depois de constituída a relação, projeta-se
também na fase anterior, exigindo que os filhos nascidos fora do
casamento possam aceder a um estatuto idêntico aos filhos nascidos do
matrimónio. A infundada disparidade de tratamento, em violação
daquela proibição, tanto pode resultar da atribuição de posições
inigualitárias, em detrimento dos filhos provenientes de uma relação
não conjugal, como, antes disso, e mais radicalmente do que isso, do
estabelecimento de impedimentos desrazoáveis a que alguém que
biologicamente é filho possa aceder ao estatuto jurídico
correspondente.
É, pois, pacífica a previsão constitucional dos direitos ao conhecimento
da paternidade biológica e do estabelecimento do respetivo vínculo
jurídico, como direitos fundamentais”.
Por outro lado, sobre a questão da inatividade do filho e, com utilidade
para o caso que nos ocupa, o efeito (irremediavelmente) extintivo de
uma opção pretérita de renúncia ao estado de filho por parte do seu
titular, cabe aqui relembrar, como se fez no ora citando acórdão do TC
n.º 523/2025, o que se exarou no acórdão do TC n.º 552/2024, de
15.7.2024:
“(…) os direitos pessoais do investigante aqui em causa –
nuclearmente constitutivos da personalidade singular do indivíduo –
não são compatíveis com a ideia de um ónus de diligência. No
conteúdo do direito fundamental ao livre desenvolvimento da
personalidade está a faculdade de durante toda a existência do titular
autodefinir a sua vida – e não apenas até determinado momento,
tornando irremediável a decisão anterior sobre o que se quer ser. A
conformação identitária abrange o direito a «passar a ser o que ainda
não se é, mas deseja ser» (Sousa Ribeiro “A inconstitucionalidade…”,
cit., p. 222) sem constrangimentos por atitudes pretéritas.
De facto, e diferentemente do que sucede nos direitos de índole
patrimonial – campo privilegiado de atuação do princípio da
segurança jurídica –, a autodefinição da personalidade é uma
ponderação insindicável do titular, não podendo a ordem jurídica
vincular os sujeitos a declarações emitidas no passado quando estes,
reavaliando os seus interesses, se querem delas libertar (…)”.
Ora, sendo a ação de investigação de paternidade (como se ponderou no
acórdão do TC n.º 552/2024, também aqui reproduzido pelo acórdão do
TC n.º 523/2025), “a ação que, no nosso direito, constitui o único meio
de efetivação dos direitos fundamentais subjacentes ao estabelecimento
da paternidade – exercendo o direito a conformar a sua identidade e
desenvolver a sua personalidade ao adquirir o estatuto de filho do seu
progenitor biológico”, pode concluir-se que a desistência do pedido
nessa ação implica a renúncia aos direitos fundamentais a estabelecer as
relações de parentesco (n.º 1 do art.º 36.º da CRP), ao conhecimento das
origens genéticas , ínsito do direito à identidade pessoal (n.º 1 do art.º
26.º da CRP) e ao livre desenvolvimento da personalidade (n.º 1 do art.º
26.º da CRP).
De facto, após a homologação da desistência do pedido, por sentença
transitada em julgado, não mais pode o investigante exercer direitos
constitutivos da sua personalidade, conformando plenamente a sua
identidade pessoal e estabelecendo os vínculos jurídicos de parentesco.
Isto é, ocorre uma extinção do direito do filho a procurar estabelecer a
paternidade, afetando o exercício dos seus direitos à identidade pessoal,
ao livre desenvolvimento da personalidade e a constituir família.
Tais consequências justificarão que, para a elas obstar, a lei faça valer o
princípio da indisponibilidade – o que constituirá uma restrição ao
princípio da autonomia da vontade que, pelas razões aduzidas, se
justificará.
Tal restrição, enunciada no art.º 289.º n.º 1 do CPC, alcança, no campo
do direito privado, fundamento geral na invocação da “ordem pública”,
mencionada nos artigos 81.º n.º 1 e 280.º n.º 2 do Código Civil,
conceito que tem em vista os “interesses fundamentais que o nosso
sistema jurídico procura tutelar” e os “princípios correspondentes que
constituem como que um substrato desse sistema” (Manuel de Andrade,
Teoria Geral da Relação Jurídica, vol. II, Almedina, 1983, páginas 334
e 335).
A desistência da ação de investigação implica a renúncia definitiva à
tutela dos valores da personalidade fundamentais acima referidos, com
consagração no direito ordinário nos artigos 70.º, 81.º, 1578.º, 1796.º n.º
2, 1797.º, 1847.º n.º 1, 1869.º do Código Civil.
Por isso, o tribunal a quo considerou que a declaração de desistência do
pedido que fundou a sentença homologatória ora revidenda padecia de
nulidade, o que, necessariamente, afetava a validade da sentença
homologatória, que foi, consequentemente, revogada.
A ora recorrente, louvando-se no douto voto de vencido lavrado no
acórdão recorrido, discorda do entendimento que fez vencimento no
acórdão recorrido.
Segundo a recorrente, a desistência ocorrida no processo principal não
afeta qualquer direito indisponível. “Se intentada uma acção de
impugnação e investigação da paternidade, num caso como o que está
em causa nos presentes autos, não se pudesse desistir dela por se estar
perante direitos indisponíveis, estas acções também não estariam
sujeitas às regras e prazos da caducidade, como de facto o estão –
prazos esses que, decorridos os mesmos, fazem perder-se o direito a
interpor-se a própria acção”. “Tal como dependeu da vontade da
Autora/Recorrente, AA, intentar a acção principal, também tem esta
todo o direito de desistir da mesma, desistindo do seu pedido de
impugnação e investigação da paternidade”. “Não existem razões de
ordem pública para que se considere indisponíveis os direitos aqui em
causa. E impossibilitar a tomada de decisões livres relativamente a tais
direitos, essa sim, poria em causa direitos consagrados
constitucionalmente, relacionados com a autonomia da vontade e o
direito ao livre desenvolvimento da personalidade”. “Os direitos ao
conhecimento da identidade biológica e da identidade pessoal,
procurando-se uma correspondência entre a verdade biológica e
verdade jurídica, que no entendimento seguido pelo acórdão de que se
recorre justificaria a indisponibilidade dos direitos aqui em causa, são
negados por diversas vezes pela nossa Lei (designadamente, quando
estabelece regras e prazos de caducidade para este tipo de acções, mas
também o que se fixa nos artigos 20º e 21º da Lei da procriação
medicamente assistida, entre outros normativos legais), pelo que não se
pode considerar estes, como direitos indisponíveis, e que não seja
possível a renúncia aos mesmos”.
Pensamos que o já exposto acima responde aos argumentos
apresentados pela recorrente para contrariar o acórdão recorrido. A
autonomia da vontade pode e deve ceder quando razões ponderosas,
face à especial relevância de determinados valores prosseguidos pela
ordem jurídica, que seriam desrazoavelmente por ela afetados, o
determinem. Já elaborámos acerca dos vícios de inconstitucionalidade
de que padecem os limites temporais postos pelo legislador ao exercício
do direito de instauração de ação de investigação de paternidade.
Também se evidenciou a relevância do carácter irrevogável da
desistência do pedido em ações dessa espécie, determinando a
definitiva extinção da titularidade de um direito, o direito ao
estabelecimento da identidade paterna (do pai biológico), e ao
estabelecimento do respetivo vínculo jurídico, ínsitos do direito à
identidade pessoal. As motivações patrimoniais que poderiam justificar
a opção da A., de instauração da ação de investigação da paternidade,
são perfeitamente legítimas: conforme se exarou no já citado acórdão
do TC n.º 523/2025, citando o acórdão do TC n.º 552/2024, “[a]s
motivações patrimoniais (possíveis e prováveis, em qualquer fase, quer
dentro, quer fora do prazo) que tenham instigado o autor da ação são
inteiramente legítimas, que é o de situar o investigante no sistema de
parentesco, certificando um dado nuclearmente constitutivo, e em falta,
da sua identidade pessoal. As motivações patrimoniais (possíveis e
prováveis, em qualquer fase, quer dentro, quer fora do prazo) que
tenho instigado autor da ação são inteiramente legítimas, por aquele
meio. E não apagam ou empalidecem a produção do efeito pessoal»
(Joaquim Sousa Ribeiro, “A inconstitucionalidade…”, cit., p. 234). No
fundo, a vertente patrimonial é parte integrante do vínculo da filiação,
podendo afastar-se a possibilidade do seu estabelecimento pela
circunstância de, em fases avançadas da vida do filho, a dimensão
sucessória subsistir a outros efeitos das responsabilidades parentais
(Jorge Duarte Pinheiro, “Inconstitucionalidade…”, cit., p. 18).
Em segundo lugar, mesmo nos casos em que o móbil seja patrimonial, a
única diferença entre este caso e o de qualquer outro filho que a todo o
tempo exerce o seu direito hereditário – cfr. n.º 2 do artigo 2075.º do
Código Civil – residirá na circunstância de aquele ainda não ter a
paternidade estabelecida, eventualmente por ter nascido fora do
casamento (e, assim, não beneficiando da presunção de paternidade) e
por se ter frustrado a averiguação oficiosa da paternidade. Com efeito,
no nosso direito, a efetiva convivência familiar não é condição de
titularidade de direitos sucessórios, sendo estes atribuídos a quaisquer
filhos do de cujus, independentemente da relação pessoal tida.
Ora, não se vê o que poderá justificar uma inferior tutela deste caso
face àqueles que tardiamente exercem o seu direito de petição à
herança: «O investigante não quer mais do que aquilo a que tem
direito: que lhe seja reconhecida a condição de filho, e sendo-o, que
seja investido (também) nos direitos patrimoniais dela decorrentes.
Permitindo-lhe aceder a direitos desta natureza, o reconhecimento não
é mais do que igualar a sua posição jurídica à dos que já gozavam de
direitos idênticos, com exatamente a mesma causa - a relação de
filiação. E é isso que justamente impõe o princípio constitucional da
igualdade de tratamento entre filhos»”.
Se o móbil patrimonial não atinge a legitimidade da instauração da ação
de investigação de paternidade, já o mesmo não se poderia dizer em
relação à renúncia ao estado de filho, para alcançar benefícios
patrimoniais. Com efeito, não se antevê que a busca de um alegado
benefício patrimonial possa ser brandido como fundamento legal da
disposição, na modalidade de renúncia, da titularidade de um bem
pessoal e fundamental como o direito à identidade paterna, tanto do
ponto de vista do seu conhecimento como da sua consagração jurídica.
Acresce que, no caso concreto, é a própria desistente que põe em causa
a validade da sua desistência – pelo que seria no mínimo anómalo que,
em nome do respeito pela sua autonomia da vontade e liberdade de
autodeterminação, se lhe impusesse a validade de uma declaração de
renúncia a direitos de personalidade em que a desistente não se revê.
Por último, a recorrente aponta normas (artigos 20.º e 21.º) da Lei da
procriação médica assistida (Lei n.º 32/2006, de 26.7, com as alterações
publicitadas), como exemplo de disposições legais das quais se poderia
deduzir a disponibilidade do objeto da desistência do pedido sub judice.
Não se vislumbra que assim seja. A Lei n.º 32/2006 visa garantir o
direito à parentalidade de pessoas que não se encontrem em condições
de gerar em condições normais de procriação. Uma das técnicas de
procriação médica assistida, a que se referem os citados artigos 20.º e
21.º, é a da inseminação artificial. Nos termos do art.º 21.º, o dador de
sémen não pode ser havido como pai da criança que vier a nascer, não
lhe cabendo quaisquer poderes ou deveres em relação a ela. Ora, tal
solução é perfeitamente compreensível. O dador de esperma participa
num projeto de parentalidade alheia, não própria, no qual a
parentalidade da criança que vier a ser gerada será assumida pela pessoa
beneficiária e pela pessoa que, com esta, tiver consentido no recurso à
técnica em causa, nomeadamente a pessoa que com ela esteja casada ou
unida de facto (art.º 20.º n.º 1). De todo o modo, as pessoas nascidas em
consequência de processos de PMA podem, dentro de certas condições,
obter informação sobre a identificação civil do dador (art.º 15.º n.ºs 2 e
5). Não é possível extrair, deste particular regime, qualquer inferência
aproveitável para o caso sub judice.
Nesta parte, pois, a revista é improcedente.
2.3. Terceira questão (limitação dos efeitos da desistência do pedido e
respetiva homologação aos efeitos patrimoniais emergentes do estado
de filho)
Neste segmento da revista a recorrente DD defende, baseando-se num
trecho do acórdão recorrido, que seja considerada válida a desistência
do pedido no que concerne aos direitos patrimoniais emergentes do
estabelecimento da filiação entre a recorrente e o investigado, assim se
revogando a sentença revidenda apenas na parte atinente à desistência
do pedido no que concerne aos efeitos pessoais da ação de investigação.
Vejamos.
Os trechos pertinentes do acórdão têm a seguinte redação:
“Sendo o direito da família terreno fértil em situações jurídicas
indisponíveis, com diversos institutos relativos ao estado das pessoas,
consideramos que, como o faz Lebre de Freitas e Isabel Alexandre, da
irrenunciabilidade do estado civil se extrai a inadmissibilidade da
desistência do pedido nas ações de investigação da paternidade quanto
à pretensão de constituição do estado de filho, o caso, embora em
questões relacionadas com efeitos patrimoniais emergentes do estado
de filho seja admissível tal desistência”.
(…)
Entendemos que, na verdade, sendo livre a decisão de propor ação já
não pode ser exercida livremente a vontade de desistir de ação
proposta por implicar, definitiva, extinção de direito, irrenunciável. E,
como a ora relatora teve já oportunidade de se pronunciar “O atual
regime jurídico do estabelecimento da filiação procura conformar o
princípio da correspondência entre a verdade biológica e a verdade
jurídica, na consideração da existência de um direito de cada um à
identidade pessoal, abrangido pelo direito à sua própria historicidade
pessoal, que tem ínsito o conhecimento dos progenitores biológicos” e
“Os direitos fundamentais à identidade pessoal e ao estabelecimento
da paternidade do investigante reclamam intensa tutela, conducente a
alcançar a Certeza, a Verdade e a Justiça, que sempre o Homem, os
Cidadãos, os Tribunais e o Estado visam alcançar, e a extrair os
devidos efeitos jurídicos em matéria de filiação, no momento em que o
filho se sinta disposto a ir ao encontro do que sempre lhe devia ter sido
proporcionado”.
Questão diversa é a relativa a direitos patrimoniais, em relação aos
quais por se tratar de direitos disponíveis admitem, sempre, desistência
do pedido e transação e, como bem observa Alberto dos Reis, também
nada obsta à desistência da instância, mesmo nas ações que não
comportam desistência do pedido, pois que a mesma não extingue o
direito, que pode ulteriormente vir a ser exercido. O que é inadmissível
é que, em matéria relativa a direitos indisponíveis, se permita a
extinção do direito.
Revertendo para o caso, estamos, como vimos, perante uma desistência
do pedido de impugnação da paternidade presumida e de investigação
de paternidade, não comportando a ação desistência do pedido, por
esta extinguir os direitos que a Autora se apresentou a atuar e de
direitos irrenunciáveis se tratar. Tem, efetivamente, a sentença
homologatória da desistência do pedido de ser revogada por padecer
do vício de nulidade.
Sendo certo que a recorrente declarou nos autos principais que desistia
do pedido e que tal desistência foi homologada por sentença, a mesma
é nula, pois viola disposição imperativa (cfr. nº1, do art. 289º, do CPC,
e art. 294º, do CC), caindo-se no fundamento de revisão convocado
pela recorrente – o consagrado na al. d), do art. 696º -, procedendo,
pois, o recurso”.
Como é evidente, a asserção contida no acórdão recorrido acerca da
admissibilidade de desistência em questões relacionadas com efeitos
patrimoniais emergentes do estado de filho foi proferida em mero obiter
dictum e nada tem a ver com o efetivo objeto, seja do recurso de
revisão, seja da apelação sobre a qual a Relação se pronunciou. Com
efeito, a ação de investigação de paternidade não é, seguramente, uma
ação que tenha por objeto questões relacionadas com efeitos
patrimoniais emergentes do estado de filho. A ação de investigação
(eventualmente cumulada com a impugnação de paternidade
presumida) tem por objeto a averiguação da paternidade biológica do
pretenso filho e o estabelecimento do nexo jurídico de filiação entre o
filho e o investigado, se esse for o desfecho determinado pela prova
produzida. A ação não tem por objeto o julgamento de questões
patrimoniais. No caso sub judice, a declaração de desistência abarcou a
totalidade do pedido, sem fazer destrinça entre efeitos pessoais e efeitos
patrimoniais. O tribunal, como é evidente, não podia fazer tal
diferenciação, apenas lhe cabendo homologar, ou não homologar, a
declaração de desistência, como ela lhe foi apresentada. E, proposto
recurso de revisão da sentença homologatória, não cabia ao tribunal,
sob pena de incorrer no vício previsto nos artigos 609.º n.º 1 e 615.º n.º
1 alínea e) do CPC (juízo jurisdicional diverso do pedido), revogar a
sentença apenas quanto ao suposto segmento atinente aos efeitos
patrimoniais da desistência.
A recorrente invoca, em abono da pretendida restrição dos efeitos da
revogação do acórdão revidendo, o acórdão do STJ de 09.04.2013,
proferido no processo n.º 187/09.7TBPFR.P1.S1. Aí, no âmbito de uma
ação de investigação de paternidade em que o investigado se insurgira
contra o facto de a investigante ter demorado várias dezenas de anos até
se decidir pela propositura da ação, a qual, segundo o investigado, se
baseava em mero interesse patrimonial, dando lugar a abuso de direito,
o STJ - com um voto de vencido - admitiu que (transcrevemos o
respetivo sumário) “[a]s consequências jurídicas do reconhecimento da
paternidade podem ser restringidas nos seus efeitos à questão de
estado – a filiação – não valendo para as consequências patrimoniais
desse reconhecimento, permitindo, em casos concretos, afastar o
investigante da herança do progenitor, não sendo violado o princípio
da indivisibilidade ou unidade do estado, podendo afirmar-se que, em
caso de manifesto abuso do direito, o investigante, apesar de
reconhecida a sua paternidade, poderá não beneficiar da vertente
patrimonial inerente ao status de herdeiro”.
Note-se que, no caso do mencionado acórdão do STJ, se considerou não
se verificar uma situação de abuso de direito, assim se confirmando a
decisão de ambas as instâncias, que julgaram procedente (sem
restrições ao âmbito do decidido) a ação de investigação de
paternidade.
Parece-nos evidente que a discussão acerca de eventual abuso de direito
na instauração de ação de investigação de paternidade caberá no quadro
dessa ação, que não no recurso extraordinário de revisão de sentença.
Nesta parte, pois, a revista também improcede.
2.4. Quarta questão (litigância de má-fé por parte da recorrente AA)
A recorrente DD insurgiu-se também contra o acórdão recorrido, na
parte em que revogou a condenação da recorrente AA como litigante de
má-fé.
Sobre a recorribilidade de decisões atinentes à litigância de má-fé,
haverá que atentar no disposto no art.º 542.º n.º 3 do CPC, segundo o
qual “Independentemente do valor da causa e da sucumbência, é
sempre admissível recurso, em um grau, da decisão que condene por
litigância de má-fé.”
Este preceito tem vindo a ser reiteradamente interpretado, pelo STJ, no
sentido de “afirmar como requisito de admissibilidade de recurso de
revista quanto à litigância de má-fé o facto de se tratar de uma decisão
de condenação, admitindo-se, todavia, um grau de recurso
independentemente do valor da causa e da sucumbência. Desta forma,
excluem-se do âmbito de recorribilidade as decisões condenatórias da
Relação que confirmem a condenação proferida pela 1ª instância, uma
vez que já se esgotou o grau de recurso legalmente previsto” (cfr. STJ,
23.01.2024, processo n.º 16556/17.6T8LSB.E1-A.S1; STJ, 17.9.2024,
processo 1613/21.2T8PNF.P1.S1). Assim, ainda que o valor da ação
supere a alçada da Relação, “a parte que tenha sido penalizada não
pode interpor recurso de revista que abarque essa questão, regime que
compatibiliza a tutela do visado (carecida, nesta parte, de um duplo
grau de jurisdição) com a natureza marginal da questão” (António
Abrantes Geraldes, Paulo Pimenta e Luís Filipe Pires de Sousa, Código
de Processo Civil anotado, 1.º volume, 3.ª edição, 2022, Almedina, pág.
643).
Ora, se assim é em relação a uma decisão condenatória, também o será,
pelo menos por identidade de razão, em relação a uma decisão
absolutória (cfr. acórdãos do STJ, de 29.10.2024, processo n.º
82/20.9T8NIS.E1.S1 e 06.5.2021, processo n.º
7200/16.0T8STB.E1.S1). Acresce que o pedido de condenação da
contraparte como litigante de má-fé, em multa e indemnização, não
constitui o objeto da ação e está fora do âmbito da controvérsia (cfr.
STJ, 22.11.2006, processo n.º 06S1542), constituindo uma questão
processual, cuja decisão não cabe na previsão do art.º 671.º n.º 1 do
CPC (aplicável ex vi art.º 697.º n.º 6 do CPC): o acórdão da Relação
que sobre ela incidiu não conheceu do mérito da causa nem pôs termo
ao processo (cfr. acórdão do STJ, de 18.3.2021, processo n.º
1575/17.0T8PRT.P1.S2).
Assim, nesta parte, a revista não é admissível.
3. Apreciemos agora a revista interposta pela recorrente AA
Esta revista foi interposta contra o acórdão supramencionado em I.12,
proferido pela Relação em 21.10.2024, no qual, em conferência, a
Relação se pronunciou sobre a aclaração requerida pela recorrente DD
acerca do acórdão proferido em 03.6.2024 e, bem assim, sobre o
requerimento de arguição de nulidades contra esse acórdão apresentado
pela recorrente AA.
O requerimento de arguição de nulidade formulado pela recorrente AA
está transcrito supra, em I.9. Nele, a recorrente imputa ao acórdão
proferido em 03.6.2024 a nulidade de omissão de pronúncia, prevista
no art.º 615.º n.º 1 al. d) do CPC. Segundo a requerente, o Tribunal da
Relação, sem prejuízo de conhecer, como conheceu, da nulidade da
desistência do pedido apresentado pela A. na ação de investigação de
paternidade, por ter como objeto direitos indisponíveis, deveria também
ter-se pronunciado acerca dos vícios da vontade que a recorrente havia
invocado no recurso de revisão. Segundo a recorrente, não houve mera
desistência do pedido, mas um acordo celebrado pelas partes nos autos
principais, a pôr termo ao processo. Foi submetida à apreciação do
tribunal a existência de erro e engano na celebração do acordo. A
Relação, ao não conhecer os alegados vícios de vontade da recorrente
na celebração do acordo celebrado em 28.03.2018 e, consequentemente,
a impugnação da decisão da matéria de facto deduzida na apelação,
impede a recorrente de ver a questão, da anulação do acordo por erro,
ser decidida judicialmente. A Relação conheceu as questões pessoais
(nulidade da desistência), mas não as patrimoniais (nulidade do
acordo). Segundo a requerente, a eventual procedência da ação de
impugnação da paternidade e de investigação da paternidade não
resolverá a questão da invalidade do aludido acordo celebrado quanto
às questões patrimoniais. Por conseguinte, a requerente pretende que
seja deferida a arguição de nulidade do acórdão com os fundamentos
expostos, devendo a Relação conhecer da nulidade do acordo celebrado
em 28.3.2018.
A Relação, mediante o acórdão proferido em 21.10.2024, indeferiu a
reclamação de nulidade apresentada pela recorrente, nos seguintes
termos, que aqui se transcrevem:
“Quanto à 1ª questão a apreciar [arguição de nulidade do acórdão
deduzida pela apelante AA por requerimento autónomo], comecemos,
desde logo, por referir que o requerimento de arguição de nulidade do
Acórdão apresentado pela apelante e dirigido a este Tribunal não é
admissível porquanto, e como estatui o nº4, do art. 615º, aplicável ex vi
nº2, do art. 666º, do CPC, “As nulidades mencionadas nas alíneas b) a
e), do nº1 só podem ser arguidas perante o tribunal que proferiu a
sentença se esta não admitir recurso ordinário, podendo o recurso, no
caso contrário, ter como fundamento qualquer dessas nulidades”.
Ora, admitindo o acórdão recurso ordinário, não se apresentou a
apelante a recorrer, não sendo legalmente admissível que venha arguir
nulidades perante o Tribunal da Relação.
Assim, tem o referido requerimento de arguição de nulidades do
Acórdão da Relação de ser indeferido por legalmente inadmissível.
Destarte, indefere-se o requerido pela Reclamante AA.
*
Custas pela reclamante, vencida, que lhes deu causa (art.º 527º nº1, 1ª
parte, e nº2, do CPC).”
Conclui-se, pois, que a Relação rejeitou a apreciação da exposta
arguição de nulidade do acórdão, por considerar que, sendo o dito
acórdão suscetível de recurso, seria no âmbito do recurso que esse vício
poderia ser apreciado.
Contra este acórdão reagiu a recorrente AA mediante a revista ora sub
judice.
Revista esta que entendemos ser admissível, ao abrigo do regime
dedutível do disposto nos artigos 671.º n.º 4 e 673.º, proémio, do CPC
(ex vi art.º 697.º n.º 6 do CPC).
A recorrente assenta o seu inconformismo na asserção de que,
contrariamente ao ajuizado pelo tribunal a quo, lhe estava vedado
interpor recurso do acórdão proferido em 03.6.2024, por duas razões:
- existe dupla conforme;
- a jurisprudência tem concluído sempre no sentido de que a nulidade
de um acórdão da Relação, só por si, nunca justifica um recurso de
revista, mas apenas uma reclamação para o tribunal que proferiu a
decisão e, concomitantemente, que nunca será por causa dessa nulidade
que deixará de existir dupla conforme.
Vejamos.
Quanto à dupla conforme.
O n.º 3 do art.º 671.º do CPC consagra o obstáculo à revista
comummente designado de “dupla conforme”:
“Sem prejuízo dos casos em que o recurso é sempre admissível, não é
admitida revista do acórdão da Relação que confirme, sem voto de
vencido e sem fundamentação essencialmente diferente, a decisão
proferida na 1.ª instância, salvo nos casos previstos no artigo
seguinte”.
In casu, a primeira instância julgou o recurso de revisão totalmente
improcedente e absolveu a recorrida dos pedidos formulados.
Na sequência da apelação interposta pela recorrente, a Relação do
Porto, com um voto de vencido, julgou a apelação procedente e,
consequentemente, revogou a sentença homologatória da desistência do
pedido e determinou o prosseguimento do processo (ação principal) até
à decisão final.
Não é fácil conceber melhor exemplo de desenquadramento face ao
conceito de dupla conformidade decisória.
Se, como agora alega a recorrente AA, a Relação tivesse coincidido
com a primeira instância no juízo de improcedência da pretensão de
declaração de anulação do acordo de cessação da causa celebrado entre
as partes, então não se compreenderia como poderia a recorrente, na
arguição de nulidade do acórdão apresentada perante o tribunal a quo,
alegar – como alegou - que sobre essa matéria a Relação havia pecado
por omissão de pronúncia.
A verdade é que a Relação emitiu um dispositivo completamente
diferente do da 1.ª instância, com alterações profundas na respetiva
fundamentação e, além do mais, sem unanimidade entre os juízes do
respetivo coletivo.
Desde logo, a Relação, contrariamente à 1.ª instância, não se
pronunciou acerca da anulabilidade da declaração de desistência do
pedido com base em vício da vontade, por considerar que essa questão
ficava prejudicada pela nulidade decorrente da indisponibilidade do
direito alvo da desistência.
Contrariamente ao expendido pela recorrente na sua revista, em parte
alguma do acórdão proferido em 03.6.2024 a Relação declarou ou
decidiu que o mencionado acordo não seria anulado na parte respetiva
aos direitos patrimoniais, por se tratar de direitos disponíveis, tendo
emitido veredito sobre tal matéria.
Se a recorrente AA se sentia lesada no seu direito por a Relação não ter
declarado a anulação do alegado acordo de cessação da ação principal
(e da desistência do pedido) com base nos vícios da vontade invocados
pela recorrente, tendo omitido a apreciação da concomitante
impugnação da decisão de facto, poderia recorrer contra tal decisão, nos
termos dos artigos 671.º n.º 1 e 674.º n.º 1 do CPC. Contrariamente ao
expendido pela recorrente, a revista pode fundar-se em erros
processuais ou nulidades do acórdão recorrido (vide alíneas b) e c) do
n.º 1 do art.º 674.º). Ponto é que estejam verificados os pressupostos
gerais e especiais da revista (artigos 629. n.º 1 e 671.º n.º 1 do CPC, ex
vi art.º 697.º n.º 6 do CPC). Os quais, in casu, se verificam: está em
causa uma decisão que pôs termo ao recurso de revisão, não se
levantam dúvidas quanto às barreiras da alçada e do decaimento e à
legitimidade da recorrente (atendendo ao agravo aos seus direitos
invocado pela recorrente).
Sendo o acórdão suscetível de revista, é nela que deveriam ser
apreciadas as nulidades de que padecesse, conforme expressamente se
estipula no art.º 615.º n.º 4 do CPC, citado no acórdão recorrido. Sendo
certo que nada em contrário do acima exposto é afirmado na
jurisprudência citada pela recorrente: em todos os acórdãos aí
identificados se concorre no sentido de que a arguição de nulidade de
acórdão só pode ser apresentada diretamente perante o tribunal seu
autor se o acórdão não for suscetível de recurso. Se o acórdão for
suscetível de recurso ordinário, a nulidade deve ser invocada no
recurso, perante o tribunal ad quem.
Assim, a Relação decidiu bem, ao rejeitar a apreciação do requerimento
de arguição de nulidade do acórdão perante ela apresentado pela ora
recorrente.
A revista apresentada pela recorrente AA é, pois, improcedente.
III. DECISÃO
Pelo exposto, julga-se ambas as revistas improcedentes, confirmando-se
os acórdãos recorridos.
As custas das revistas, na modalidade de custas de parte, serão a cargo
de cada uma das respetivas recorrentes, que nelas decaíram (artigos
527.º n.ºs 1 e 2 e 533.º do CPC).
LISBOA, 28.10.2025
Jorge Leal (Relator)
António Magalhães

António Pires Robalo

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