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Sexualidade e Identidade de Gênero

O documento aborda a sexualidade humana e disfunções sexuais, incluindo identidade de gênero, orientação sexual e comportamento sexual, destacando a influência de fatores biológicos, sociais e culturais. A disforia de gênero é discutida em termos de definição, epidemiologia, etiologia, diagnóstico e tratamento, enfatizando a importância do apoio social e da aceitação. Além disso, o texto menciona a relação entre sexualidade e saúde mental, bem como questões legais relacionadas ao sexo.
Direitos autorais
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Sexualidade e Identidade de Gênero

O documento aborda a sexualidade humana e disfunções sexuais, incluindo identidade de gênero, orientação sexual e comportamento sexual, destacando a influência de fatores biológicos, sociais e culturais. A disforia de gênero é discutida em termos de definição, epidemiologia, etiologia, diagnóstico e tratamento, enfatizando a importância do apoio social e da aceitação. Além disso, o texto menciona a relação entre sexualidade e saúde mental, bem como questões legais relacionadas ao sexo.
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GUI

Sadock, Benjamin J.; Sadock, Virginia A. & Ruiz, Pedro. Compêndio de


Psiquiatria, 11ª ed. Grupo A, 2017.
17 Sexualidade humana e disfunções sexuais
Identidade de Gênero, Orientação e Comportamento
Sexual
Identidade de gênero
 Por volta dos 2 a 3 anos, a maioria das crianças já tem uma firme noção de ser
“menino” ou “menina”.
 Segundo Robert Stoller, gênero diz respeito a aspectos psicológicos da
masculinidade e feminilidade.
 O sexo biológico e o gênero social geralmente coincidem, mas podem se
desenvolver de forma conflitante.
 A identidade de gênero é moldada por fatores genéticos, biológicos, familiares
e culturais, incluindo:
o Genitália externa;
o Influência hormonal fetal (a partir da 6ª semana);
o Recompensas, punições e rótulos sociais.
 Na maioria das pessoas, há uma identificação estável com o próprio sexo
biológico.

Papel de gênero
 Define comportamentos socialmente esperados de homens e mulheres.
 É aprendido por meio de:
1. Experiências cotidianas;
2. Instrução direta;
3. Associação espontânea (“juntar 2 + 2”).
 Embora haja influência biológica, o aprendizado é o fator mais importante.
 Diferenças observadas:
o Meninas tendem a ser menos agressivas e têm menos crises de raiva;
o Meninos apresentam mais agressividade e são estimulados a atividades
físicas intensas;
o Hormônios masculinos podem facilitar o aprendizado de
comportamentos agressivos.
 O papel de gênero pode divergir da identidade de gênero — uma pessoa pode
se identificar com um sexo e adotar características do outro.

Orientação sexual
 Refere-se ao objeto do desejo sexual:
o Heterossexual – atração por pessoas do sexo oposto;
o Homossexual – atração pelo mesmo sexo;
o Bissexual – atração por ambos os sexos;
o Assexual – ausência de atração sexual.
 Algumas pessoas preferem não se rotular ou se identificam como
pansexuais/polissexuais.
 Fatores biológicos:
o Influência de andrógenos e hormônios pré-natais;
o Possível predisposição genética (maior concordância entre gêmeos
idênticos);
o Alterações observadas no hipotálamo e marcadores no cromossomo X
(ainda sem comprovação definitiva).
 Comportamento: varia amplamente, semelhante ao dos heterossexuais.
 Casais homossexuais podem ter relações monogâmicas estáveis ou contatos
ocasionais.
 Aspectos sociais: gays e lésbicas ainda enfrentam discriminação, mas há
crescente aceitação e reconhecimento legal.
 Psicopatologia: a homossexualidade não é transtorno mental; sofrimento por
estigma pode levar a transtornos de adaptação ou depressão.
 Assumir a homossexualidade é um processo de aceitação pessoal e social,
influenciado pelo grau de apoio e exposição.

Comportamento sexual e bases neurobiológicas


 O cérebro regula o desejo e a resposta sexual:
o Córtex orbitofrontal: emoções;
o Córtex cingulado anterior: excitação e controle hormonal;
o Sistema límbico: ereção e orgasmo;
o Tronco encefálico: regula reflexos sexuais (serotonina inibe o orgasmo).
 Neurotransmissores:
o Dopamina: aumenta a libido;
o Serotonina: reduz o desejo;
o Oxitocina: ligada ao prazer e vínculo afetivo.
 Medula espinal: coordena reflexos da excitação e do orgasmo.

Respostas fisiológicas sexuais


Baseadas nas fases descritas por Masters e Johnson:

1. Desejo: fantasias e vontade de ter relações;


2. Excitação: alterações físicas (ereção, lubrificação, rubor);
3. Orgasmo: contrações musculares rítmicas e pico de prazer;
4. Resolução: relaxamento e retorno ao estado basal.
 Homens: apresentam período refratário pós-orgasmo.
 Mulheres: podem ter múltiplos orgasmos e variação de resposta fisiológica.

Hormônios e comportamento sexual


 Dopamina: estimula o desejo.
 Serotonina: inibe o desejo.
 Testosterona: aumenta a libido em ambos os sexos.
 Estrogênio: melhora a lubrificação e sensibilidade feminina, e também participa
da resposta masculina.
 Progesterona, prolactina e cortisol: reduzem o desejo.
 Oxitocina: intensifica o prazer e o vínculo afetivo pós-orgasmo.
Diferenças de gênero no desejo
 Homens têm desejo sexual basal mais alto;
 Mulheres relatam motivações mais variadas, incluindo afeto, intimidade e
satisfação do parceiro;
 Homens respondem mais a estímulos visuais;
 Mulheres respondem mais a estímulos emocionais e narrativos;
 Nem sempre há correspondência entre excitação subjetiva e fisiológica nas
mulheres.

Masturbação
 É uma prática universal e normal, presente desde a infância.
 Crianças descobrem prazer genital por volta de 15 a 19 meses.
 Na adolescência, a masturbação aumenta devido à puberdade e à curiosidade
sexual.
 Homens costumam se masturbar mais cedo e com mais frequência.
 Fantasias associadas à masturbação ajudam no desenvolvimento da identidade
sexual.
 Em adultos, pode ser adaptativa, especialmente em ausência de parceiro.
 Só é considerada patológica se compulsiva (fora de controle voluntário).
 Não causa doenças mentais nem impotência — mitos históricos.
 Técnicas: mulheres preferem estímulo clitoriano; homens, peniano.
 Recomenda-se evitar masturbação antes de exames de PSA.

Coito
 Primeira relação sexual é um rito de passagem típico do início da vida adulta.
 Cerca de 95% dos adultos já tiveram coito.
 Há pressões culturais e mitos sobre desempenho masculino e virgindade
feminina.

Amor e intimidade
 Segundo Freud, saúde mental depende da capacidade de trabalhar e amar.
 O amor maduro envolve reciprocidade, crescimento e cuidado com o outro.
 O sexo pode fortalecer vínculos e expressar intimidade.
 Conflitos entre impulsos afetivos e passionais podem dificultar relações íntimas
e gerar insegurança ou bloqueio emocional.

Sexo e o direito
 A medicina e o direito analisam o sexo sob diferentes perspectivas — saúde e
legalidade.
 Questões incluem: aborto, pornografia, prostituição, educação sexual,
agressores sexuais e privacidade sexual.
 As leis variam entre Estados e refletem diferenças culturais e morais.

Coleta da história sexual


A anamnese sexual avalia:
 Identificação: idade, sexo, orientação e status de relacionamento;
 Funcionamento atual: satisfação, frequência, disfunções e padrões de interação
sexual;
 Histórico sexual: experiências na infância, adolescência e idade adulta;
 Questões especiais: abuso, doenças, infertilidade, conflitos de gênero ou
parafilias.

18 Disforia de gênero

Disforia de Gênero
Definição
· A disforia de gênero (DSM-5) descreve a incongruência marcante
entre o gênero vivido/expresso e o sexo designado ao
nascimento, acompanhada de sofrimento clínico significativo.

· Substituiu o termo antigo “transtorno de identidade de gênero”.

· Transgênero é o termo geral para pessoas que se identificam com um


gênero diferente do designado.

o Transexuais: desejam ter o corpo do outro sexo.

o Genderqueer: sentem-se entre gêneros, de ambos ou de nenhum.

o Crossdressers: vestem roupas do outro gênero sem mudar a


identidade.

· A maioria não realiza cirurgia genital; pode ter qualquer orientação


sexual.

Epidemiologia
· Crianças:
o A disforia é notada cedo, às vezes antes dos 3 anos.

o Proporção de 4 a 5 meninos para cada menina entre crianças


encaminhadas.

o Muitos não se tornam adultos transgêneros, mas os que persistem


mostram disforia intensa e duradoura.

· Adultos:

o Prevalência estimada: 1 em 11.000 homens e 1 em 30.000


mulheres.

o Predomina a forma masculino → feminino (MtF).

o Estima-se que até 1 em cada 500 adultos possa estar no


espectro transgênero.

o Maior aceitação social de mulheres masculinas do que de homens


femininos.

Etiologia
▪ Fatores biológicos

· O sexo fetal é inicialmente feminino; o desenvolvimento masculino


exige andrógenos testiculares.

· A teoria da organização cerebral sugere que a testosterona pré-


natal pode influenciar a masculinização do cérebro (hipotálamo).

· Nenhum gene específico foi comprovado; estudos com gêmeos mostram


concordância parcial.

· Alterações em substância branca e fluxo cerebral foram observadas,


mas sem confirmação.

· Pessoas trans tendem a ser mais canhotas, sem explicação clara.

▪ Fatores psicossociais

· Influências familiares e culturais moldam a identidade de gênero.

· Freud: conflitos edipianos e relação mãe-filho seriam centrais.

· Teoria da aprendizagem: comportamentos de gênero são reforçados


ou punidos conforme o contexto social.

· Ausência ou hostilidade parental, rejeição, abuso ou morte


materna/paterna podem contribuir.

· Sexo de criação e aceitação familiar influenciam fortemente a


identidade posterior.

Diagnóstico
▪ Crianças

· Caracteriza-se por:

o Desejo persistente de pertencer ao outro gênero;

o Preferência por roupas, brinquedos e brincadeiras do outro sexo;

o Aversão à própria anatomia ou desejo de ter características do


outro gênero.

· É necessário haver sofrimento clínico ou prejuízo funcional, não


apenas desconforto dos pais.

· Diagnóstico diferencial: distinguir disforia persistente de não


conformidade passageira.

· Crianças intersexuais com disforia recebem especificador adicional.

▪ Adolescentes e adultos

· Devem apresentar incongruência entre o gênero vivido e o


designado, mais pelo menos 2 de 6 critérios (como desejo de
características do outro gênero, de ser tratado como tal ou crença de ter
sentimentos típicos desse gênero).

· Exige sofrimento pessoal.

· O diagnóstico inclui um especificador pós-transição (para quem já


vive no gênero afirmado e passou por tratamento clínico ou cirúrgico).

· Excluem-se casos de transtornos psicóticos ou dismorfia corporal.

Curso e Prognóstico
· Crianças: desenvolvem identidade de gênero por volta dos 3 anos.

o Algumas mantêm a disforia até a vida adulta, outras se identificam


com o sexo designado.

o Metade dos casos infantis reverte na idade adulta.

o Maior frequência de ansiedade, depressão e traços de


autismo.

· Adultos: podem ter identificado a disforia desde cedo ou só na vida


adulta.

o Muitas vezes ocultam o sentimento por anos.

o Elevada incidência de depressão, ansiedade, abuso de


substâncias e ideação suicida (até 40%).

o Estresse social e discriminação agravam os sintomas.

Tratamento
▪ Crianças

· Psicoterapia individual, familiar e grupal para explorar identidade e


aliviar sofrimento.

· Terapias de conversão são contraindicadas (rejeitadas pela APA e


AACAP).

▪ Adolescentes

· Além de terapia, podem receber bloqueadores da puberdade (GnRH)


para retardar o desenvolvimento sexual e ganhar tempo para decidir.

· O uso é considerado seguro, mas requer acompanhamento rigoroso.

▪ Adultos

· Tratamento pode incluir:

o Psicoterapia afirmativa;

o Terapia hormonal (testosterona para homens trans; estrogênio +


bloqueadores para mulheres trans);

o Cirurgias (mamária, genital, facial).

· O acompanhamento inclui função hepática, lipídios, hemograma e


pressão arterial.

· O aconselhamento reprodutivo é essencial, pois há risco de


infertilidade permanente.

· Hormonioterapia melhora humor, autoestima e qualidade de vida.

▪ Saúde mental

· Profissionais devem adotar postura acolhedora e baseada em


consentimento informado, segundo os padrões da WPATH.

· Psicoterapia auxilia na adaptação e enfrentamento social.

▪ Cirurgias

· Menos comuns que o uso de hormônios.

o Homens trans: mastectomia, metoidioplastia, faloplastia,


escrotoplastia.

o Mulheres trans: vaginoplastia, orquiectomia, cirurgias de


feminilização facial.

· A falta de acesso pode levar a autocirurgias perigosas (injeções


ilegais de silicone, etc.).

· Cirurgias faciais são importantes para segurança social e


reconhecimento de gênero.
Categorias diagnósticas adicionais
· Outra disforia de gênero especificada: há sofrimento, mas nem
todos os critérios são preenchidos.

· Não especificada: critérios incompletos, sem motivo declarado.

CID-10 e CID-11
· Na CID-10, a disforia aparece como transtorno da identidade de
gênero (F64), com subtipos (transexualismo, travestismo dual, etc.).

· A CID-11 propõe remover da seção de transtornos mentais,


tratando-a como questão de saúde sexual.

Condições intersexuais associadas

Condição Características principais

Hiperplasia adrenal Excesso de androgênios → virilização de fetos XX;


congênita maioria criada como mulher, mas pode haver
disforia.

Síndrome de insensibilidade Cariótipo XY, tecidos não respondem à testosterona


a androgênios → aparência feminina e identidade geralmente
feminina.

Deficiência de 5-α-redutase Impede conversão de testosterona; indivíduos XY


parecem meninas ao nascer, mas virilizam na
puberdade.

Síndrome de Turner (X0) Genitália feminina, baixa estatura; requer


estrogênio exógeno.

Síndrome de Klinefelter Homens com testículos pequenos e ginecomastia;


(XXY) identidade geralmente masculina.

· Hoje, cirurgias em bebês intersexuais são evitadas até que o indivíduo


possa decidir.

· O sexo de criação ainda é o melhor preditor da identidade futura.

Transtorno transvéstico
· Classificado como Transtorno Parafílico (DSM-5): excitação sexual
recorrente ao se travestir com sofrimento clínico.
· Diferente da disforia de gênero — a identidade permanece compatível
com o sexo designado.

· Mais comum em homens.

· Pode coexistir com masoquismo ou fetichismo.

· Tratamento: psicoterapia, farmacoterapia (fluoxetina,


antidepressivos, ansiolíticos) e técnicas comportamentais.

Preocupação com castração


· Não é diagnóstico do DSM-5.

· Envolve desejo de remoção dos genitais sem intenção de mudança de


gênero.

· Pode ocorrer em pessoas assexuais ou com sofrimento intenso


relacionado ao corpo.
Dalgalarrondo, P. — Psicopatologia e Semiologia dos
Transtornos Mentais, 3ª ed. (Artmed, 2019)
Cap. 37 — “Sexualidade e psicopatologia”

A Sexualidade Humana
Conceito geral
A sexualidade é um desejo fundamental e parte central da existência humana,
composta por três dimensões:

 Biológica – envolve aspectos neurais, hormonais e anatômicos ligados ao desejo


e ao comportamento sexual.
 Psicológica – inclui o desejo erótico, as fantasias e o prazer subjetivo.
 Sociocultural – refere-se aos valores, práticas e proibições de cada sociedade
sobre o sexo.

Dimensão biológica
 Neural: ativa áreas cerebrais como o hipotálamo, hipocampo, amígdala e
córtex do cíngulo, responsáveis pelo desejo e comportamento sexual.
 Hormonal:
o Estrógeno – desenvolvimento dos caracteres femininos.
o Progesterona – prepara o útero e mamas, e é precursora de outros
hormônios.
o Testosterona – ligada ao desejo sexual, agressividade e competitividade
em ambos os sexos.
o Oxitocina e vasopressina – relacionadas ao afeto e vínculo emocional.

Dimensões psicológica e sociocultural


 O desejo e o erotismo humanos são plásticos e variados, muito além da
reprodução.
 A sexualidade reflete a afetividade, personalidade e valores culturais de cada
indivíduo.
 Segundo Monedero (1973), a sexualidade é intencional e expressa o modo de
existir de cada pessoa, sendo um espaço onde se manifestam desejos, conflitos e
peculiaridades humanas.
Diferenças entre homens e mulheres
Aspectos sociais e culturais
 Papéis de gênero variam conforme época e cultura.
 Movimentos sociais (como feministas e LGBT) questionam a rigidez entre
masculino e feminino e combatem discriminações.

Aspectos biológicos e neurológicos


 O dimorfismo sexual do cérebro surge no período fetal, influenciado por
hormônios.
 Cérebro masculino: amígdala maior e mais receptores androgênicos.
 Cérebro feminino: hipocampo maior e mais receptores estrogênicos.
 Conectividade:
o Homens → maior conectividade intra-hemisférica.
o Mulheres → maior conectividade inter-hemisférica.
 Mulheres têm melhor desempenho em tarefas linguísticas, e homens em
tarefas visuoespaciais.
 Fatores sociais também influenciam a ação hormonal — comportamento e
biologia interagem.

Fases do ciclo sexual


1. Desejo sexual: fase mais psicológica, baseada em fantasias e estímulos eróticos;
influenciada por hormônios e fatores neurais.
2. Excitação física: início da relação sexual; ocorre ereção no homem e
lubrificação vaginal na mulher.
3. Orgasmo: pico do prazer, com contrações pélvicas e liberação de tensão; dura
de 3 a 25 segundos.
4. Resolução: retorno do corpo às condições normais (frequência cardíaca,
respiração e pressão).

Comportamento sexual no Brasil


Tendências gerais das últimas décadas (Cavallieri, Datafolha, Abdo):

 Início da vida sexual: homens entre 15–17 anos, mulheres entre 17–19 anos.
 Frequência: média de 2 a 3 relações sexuais por semana.
 Dificuldade em atingir o orgasmo: comum nas mulheres (até 40%).
 Práticas: maior aceitação do sexo oral e anal; masturbação mais frequente em
homens.
 Orientação sexual: cerca de 6% dos homens e 2% das mulheres se declaram
homossexuais.
 Homens relatam mais casos extraconjugais e mais parceiros no último ano.

Transtornos ou Disfunções Sexuais


Mudanças nas classificações:
 Na CID-11, disfunções sexuais e incongruência de gênero não são mais
classificadas como transtornos mentais.
 No DSM-5, há o capítulo “Disfunções sexuais”, enquanto disforia de gênero é
discutida separadamente.
 Homossexualidade e bissexualidade são entendidas como variações normais da
sexualidade humana.

Critérios para considerar disfunção sexual:


1. O problema é frequente e persistente.
2. Está presente por alguns meses ou mais.
3. Causa sofrimento clínico significativo.

Principais disfunções sexuais

Disfunção Descrição resumida

Desejo sexual inibido Falta persistente de desejo ou fantasia sexual; pode estar
ligada a repressão, culpa, conflitos conjugais ou causas
hormonais.

Transtorno da dor gênito- Dor ou medo de dor durante o ato sexual


pélvica/penetração (vaginismo/dispareunia), com tensão muscular pélvica e
causas físicas ou psicológicas.

Transtorno do orgasmo Dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo;


feminino associada a ansiedade, depressão, relação conjugal
insatisfatória ou medicamentos.

Transtorno erétil Dificuldade de obter ou manter ereção; pode ter causas


psicogênicas (ansiedade, culpa) ou orgânicas (diabetes,
hipertensão, álcool).

Transtornos da ejaculação Ejaculação precoce (menos de 1 min) ou retardada;


geralmente de base psicológica.
Miguel, Euripedes C. Clínica psiquiátrica: os
fundamentos da psiquiatria, volume 1, 2 e 3 - 2a
ed. Editora Manole, 2020.

Volume 2 -
Seção 1 - Seção 20 Disforia de gênero na infância e
na adolescência
Seção 2 As grandes síndromes psiquiátricas no
adulto

INTRODUÇÃO
A identidade de gênero e a transexualidade têm recebido crescente atenção científica e
social. O aumento das demandas de crianças e adolescentes por avaliação médica reflete
maior visibilidade e acesso à informação, não necessariamente aumento real de casos.
Por muito tempo, infâncias trans foram invisibilizadas, levando a maior morbidade
por estigma e discriminação.
O sexo biológico é determinado por fatores genéticos (cariótipo XX, XY ou variações),
enquanto o gênero é um conceito sociocultural.
A identidade de gênero começa a se formar precocemente — entre 2 e 4 anos, a
criança já reconhece códigos de gênero, e aos 6–7 anos a identidade se torna estável.

CONCEITOS GERAIS
 Identidade de gênero: experiência interna e pessoal de gênero (homem,
mulher, neutro, não binário). É subjetiva, multifatorial (biológica, psicológica,
social e ambiental).
 Transgênero: termo guarda-chuva que inclui transexuais, travestis e não
binários, independentemente de cirurgia ou hormonização.
 Cisgênero: indivíduo cuja identidade coincide com o sexo designado ao
nascimento.
 Incongruência de gênero (CID-11): discrepância persistente entre sexo
biológico e identidade de gênero. Não é doença, mas condição que pode
demandar cuidados médicos.
 Disforia de gênero (DSM-5): sofrimento clínico significativo causado por essa
incongruência.

EPIDEMIOLOGIA
 Estudos limitados, devido a diferenças conceituais e metodológicas.
 Prevalência estimada:
o Infância: 2–6% em meninos e 2% em meninas com comportamentos
variantes de gênero.
o Adultos transgêneros: entre 0,1 e 0,7% da população (dependendo da
definição).
 Cerca de 15% das crianças mantêm a incongruência na vida adulta.
 A maioria das que não mantêm tornam-se adultos cis com orientação
homossexual ou bissexual.

ETIOLOGIA
A identidade de gênero é multifatorial:

1. Biológica: estudos de neuroimagem mostram padrões cerebrais mais próximos


da identidade vivenciada do que do sexo biológico.
o Exposição hormonal atípica no período fetal (testosterona) pode
influenciar diferenciação cerebral.
o Polimorfismos genéticos (genes como CYP17, AR) se associam à
identidade de gênero trans.
2. Psicológica: depende do desenvolvimento afetivo e da construção do “eu”
sexual.
3. Sociocultural: normas de gênero e papéis sociais variam conforme o tempo e a
cultura.
4. Social: o sofrimento muitas vezes vem da discriminação e violência social, e
não da identidade em si.

QUADRO CLÍNICO
 Infância: interesse persistente em roupas, brinquedos e comportamentos do
gênero oposto; sofrimento quando forçado a se adequar ao gênero de
nascimento.
 Adolescência: fase crítica, pois o corpo se transforma segundo o sexo biológico,
gerando disforia intensa e desejo de bloqueio puberal, hormonização ou cirurgia.
 O sofrimento pode ser agravado pela falta de aceitação familiar e social.

DIAGNÓSTICO
Segundo o DSM-5:
Critérios incluem incongruência persistente por ≥6 meses entre o gênero vivido e o
designado, com pelo menos 6 manifestações em crianças ou 2 em
adolescentes/adultos, como:

 Desejo intenso de pertencer a outro gênero.


 Desgosto com a própria anatomia sexual.
 Preferência por roupas, papéis, brinquedos ou atividades do outro gênero.
 Desejo de características sexuais do gênero vivenciado.

A condição deve causar sofrimento clinicamente significativo.

Diagnóstico diferencial:
 Travestismo fetichista
 Esquizofrenia ou delírios de identidade
 Transtorno dismórfico corporal
 Transtornos de personalidade graves
 Homossexualidade não aceita ou homofobia internalizada

SAÚDE MENTAL
 Crianças e adolescentes trans sofrem mais com ansiedade, depressão, TDAH e
comportamento opositor — porém, níveis se igualam a crianças cis quando
há apoio familiar e social.
 Maior risco de automutilação, suicídio e abuso de drogas: até 40% já
tentaram suicídio.
 O bullying e o isolamento escolar são causas importantes de sofrimento
psíquico.
 Estudos mostram que o suporte familiar reduz drasticamente sintomas
depressivos e risco de suicídio.

ABORDAGEM TERAPÊUTICA
1. Infância
 Escuta empática e acompanhamento multidisciplinar.
 Psicoterapia de apoio e trabalho com família e escola.
 Modelo afirmativo de gênero: reconhecer e validar a vivência da criança, sem
imposições.

2. Adolescência
 Três estágios principais de intervenção:

Estágio Tipo Características

Bloqueio puberal Totalmente Uso de análogos de GnRH para interromper


reversível temporariamente o desenvolvimento puberal.

Hormonização Parcialmente Uso de hormônios do sexo oposto a partir dos


cruzada reversível 16 anos (testosterona ou estrógenos).

Cirurgias de Irreversíveis Permitidas a partir dos 18 anos, após


afirmação de gênero acompanhamento ≥1 ano e ausência de
psicopatologia grave.
 Antes da hormonização, deve-se discutir preservação da fertilidade.

ACOMPANHAMENTO NO BRASIL
 O AMTIGOS/IPq-HCFMUSP é referência nacional no atendimento de
crianças e adolescentes com incongruência de gênero.
 A Resolução CFM nº 2.265/2019 define:
o Hormonização a partir dos 16 anos.
o Cirurgia a partir dos 18 anos.
o Bloqueio puberal no estágio 2 de Tanner (em protocolos de pesquisa).
o Equipe mínima: pediatra, psiquiatra, endocrinologista, ginecologista,
urologista e cirurgião plástico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
 O olhar da saúde mental deve ser afirmativo, empático e não patologizante.
 Crianças e adolescentes trans têm autonomia e voz — devem ser ouvidos e
respeitados.
 A educação das famílias e escolas é fundamental para reduzir sofrimento e
prevenir adoecimento psíquico.
 O futuro da pesquisa deve ampliar a compreensão científica e cultural sobre a
diversidade de gênero.

INTRODUÇÃO
 Identidade de gênero é tema interdisciplinar que envolve medicina, psicologia,
sociologia, direito, antropologia e outras áreas.
 Na psiquiatria, compreender a identidade de gênero é essencial para promover
empatia, ampliar o conhecimento clínico e reconhecer o indivíduo em sua
totalidade.
 A discussão sobre gênero não é recente — está presente em mitos, religiões e
culturas antigas (ex.: mitos de Tirésias, Hijras na Índia, figuras históricas como
Chevalier d’Eon e Papa João VIII).
 Cabe à psiquiatria compreender as múltiplas expressões de gênero e
reconhecer que as identidades trans fazem parte da diversidade humana, não de
patologias.
 Profissionais de saúde devem ser sensíveis às demandas da população trans,
evitando práticas discriminatórias (como desrespeitar nome social ou negar
exames).

Pontos-chave:

1. Compreender os conceitos e termos ligados à identidade de gênero e


incongruência.
2. Entender o papel da psiquiatria e da equipe multidisciplinar no cuidado à saúde
trans.
3. Avaliar vulnerabilidades e diagnósticos diferenciais.
4. Oferecer acolhimento ético e respeitoso.

CONCEITOS GERAIS

Termo Definição

Sexo biológico Determinado por características genéticas e anatômicas


(cromossomos, gônadas, genitália, hormônios).

Identidade Reconhecimento de si mesmo e consciência de quem se é.


Gênero Construção sociocultural de papéis e comportamentos atribuídos
a masculino e feminino.

Identidade de Experiência interna e pessoal de pertencimento a um gênero;


gênero pode ou não corresponder ao sexo biológico.

Papel ou expressão Maneiras públicas e comportamentais de expressar


de gênero masculinidade, feminilidade ou neutralidade.

Orientação afetivo- Atração por pessoas de mesmo gênero, oposto ou múltiplos


sexual (hetero, homo, bi, pan, assexual).

Outros conceitos:

 Transgênero: termo guarda-chuva que inclui transexuais, travestis, não binários


etc.
 Cisgênero: identidade de gênero alinhada ao sexo designado no nascimento.
 Travesti: identidade de gênero feminina vivida por pessoas designadas homens
ao nascer, mas que não se identificam integralmente como mulheres.
 Intersexo: variações biológicas no desenvolvimento sexual.
 Não binário / genderqueer: não se identificam exclusivamente com masculino
ou feminino.
 Cross-dresser, drag queen/king, transformista: expressões artísticas ou
performáticas, sem necessariamente implicar identidade de gênero distinta.
 “Ideologia de gênero”: termo não científico, usado em debates políticos e
religiosos; não deve ser confundido com estudos sobre diversidade sexual e de
gênero.

DIAGNÓSTICO EM TRANSEXUALIDADE
 Desde 2018, a OMS retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais
(CID-11).
 O diagnóstico existe não como patologização, mas como instrumento médico
que permite acesso a cuidados de saúde, como hormonização e cirurgias.
 Os principais referenciais diagnósticos são:
o DSM-5 (Associação Psiquiátrica Americana)
o CID-11 (OMS)
o WPATH – Standards of Care (7ª ed.)

CID-11 — Incongruência de Gênero


 Incongruência persistente entre identidade de gênero e sexo designado.
 Critérios incluem forte desconforto com características sexuais primárias/
secundárias e desejo de viver no gênero expresso.
 Não é considerada doença, mas condição de diversidade humana.

DSM-5 — Disforia de Gênero


 Refere-se ao sofrimento clínico significativo decorrente da incongruência de
gênero.
 Critérios: incongruência persistente ≥6 meses, desejo de pertencer ou ser tratado
como outro gênero, e prejuízo funcional/social.
 Especifica se há transtorno do desenvolvimento sexual e se o indivíduo está
pós-transição.

EPIDEMIOLOGIA
 Prevalência variável conforme cultura e metodologia:
o Mulheres trans : homens trans ≈ 3:1.
o Estimativas variam de 1:11.900 a 1:45.000 (mulheres trans) e 1:30.400 a
1:200.000 (homens trans).
o Nos EUA, prevalência entre adolescentes e jovens: 0,17%–1,3%.
 No Brasil, dados oficiais são escassos, mas há indicadores:
o 6.280 eleitores trans usaram nome social em 2018.
o 288 aguardavam cirurgia de redesignação no SUS.
o 512 estudantes solicitaram nome social na rede estadual paulista.

ETIOLOGIA
 Origem multifatorial: interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
 Pesquisas sugerem influência de:
o Hormônios intrauterinos na diferenciação cerebral.
o Fatores genéticos (ex.: variações em genes como CYP17 e AR).
o Aspectos psicológicos e culturais que moldam a expressão e a aceitação
da identidade.

SAÚDE MENTAL E INCONGRUÊNCIA DE


GÊNERO
 A avaliação psiquiátrica é fundamental — o psiquiatra frequentemente é o
primeiro contato da pessoa trans.
 Deve incluir histórico de vida, infância, puberdade, uso de hormônios,
experiências sociais e familiares, nome social e vivências de discriminação.
 A vulnerabilidade resulta de discriminação, exclusão e violência estrutural.
 Conceitos importantes:
o Vulnerabilidade: condição de fragilidade social que compromete o
bem-estar e a autonomia.
o Estresse de minoria: sofrimento causado por preconceito percebido,
antecipado e internalizado.
o Transfobia: fator de risco para depressão, ansiedade e suicídio.

Dados brasileiros:

 67% com sintomas depressivos.


 67% com ideação suicida.
 43% com tentativas prévias.
 Alta prevalência de abuso de substâncias (álcool, cocaína, tabaco).
A presença de assistente social, psicólogo e equipe multidisciplinar é essencial para
garantir acesso a direitos e suporte psicossocial.

ABORDAGEM CLÍNICA DO ADULTO TRANS


 O cuidado deve ser multidisciplinar: psiquiatra, endocrinologista,
ginecologista, urologista, cirurgião plástico, psicólogo, assistente social e outros.
 Baseia-se em três pilares:
1. Psicoterapia — apoio emocional e integração da identidade.
2. Tratamento hormonal (hormonização cruzada) — inicia-se a partir
dos 16 anos, sob supervisão médica.
3. Cirurgias de redesignação sexual — permitidas a partir dos 18 anos,
conforme a Resolução CFM 2.265/2019.

Objetivos da avaliação psiquiátrica:

 Reduzir sofrimento físico e psíquico.


 Diagnosticar e tratar comorbidades.
 Avaliar riscos e benefícios dos procedimentos.
 Acompanhar o paciente durante todo o processo transexualizador.

📍 No Brasil, o AMTIGOS (IPq-HCFMUSP) é referência nacional no atendimento


especializado à população trans.

CONCLUSÃO
 A incongruência e disforia de gênero são expressões da diversidade humana,
não transtornos mentais.
 O papel da psiquiatria é acolher, compreender e promover saúde mental, e
não patologizar.
 O cuidado deve ser humanizado, interdisciplinar e ético, garantindo o respeito
à identidade, ao nome social e à autonomia de cada pessoa.
 Combater o estigma e a transfobia é parte do tratamento e da responsabilidade
médica.

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