GUI
Sadock, Benjamin J.; Sadock, Virginia A. & Ruiz, Pedro. Compêndio de
Psiquiatria, 11ª ed. Grupo A, 2017.
17 Sexualidade humana e disfunções sexuais
Identidade de Gênero, Orientação e Comportamento
Sexual
Identidade de gênero
Por volta dos 2 a 3 anos, a maioria das crianças já tem uma firme noção de ser
“menino” ou “menina”.
Segundo Robert Stoller, gênero diz respeito a aspectos psicológicos da
masculinidade e feminilidade.
O sexo biológico e o gênero social geralmente coincidem, mas podem se
desenvolver de forma conflitante.
A identidade de gênero é moldada por fatores genéticos, biológicos, familiares
e culturais, incluindo:
o Genitália externa;
o Influência hormonal fetal (a partir da 6ª semana);
o Recompensas, punições e rótulos sociais.
Na maioria das pessoas, há uma identificação estável com o próprio sexo
biológico.
Papel de gênero
Define comportamentos socialmente esperados de homens e mulheres.
É aprendido por meio de:
1. Experiências cotidianas;
2. Instrução direta;
3. Associação espontânea (“juntar 2 + 2”).
Embora haja influência biológica, o aprendizado é o fator mais importante.
Diferenças observadas:
o Meninas tendem a ser menos agressivas e têm menos crises de raiva;
o Meninos apresentam mais agressividade e são estimulados a atividades
físicas intensas;
o Hormônios masculinos podem facilitar o aprendizado de
comportamentos agressivos.
O papel de gênero pode divergir da identidade de gênero — uma pessoa pode
se identificar com um sexo e adotar características do outro.
Orientação sexual
Refere-se ao objeto do desejo sexual:
o Heterossexual – atração por pessoas do sexo oposto;
o Homossexual – atração pelo mesmo sexo;
o Bissexual – atração por ambos os sexos;
o Assexual – ausência de atração sexual.
Algumas pessoas preferem não se rotular ou se identificam como
pansexuais/polissexuais.
Fatores biológicos:
o Influência de andrógenos e hormônios pré-natais;
o Possível predisposição genética (maior concordância entre gêmeos
idênticos);
o Alterações observadas no hipotálamo e marcadores no cromossomo X
(ainda sem comprovação definitiva).
Comportamento: varia amplamente, semelhante ao dos heterossexuais.
Casais homossexuais podem ter relações monogâmicas estáveis ou contatos
ocasionais.
Aspectos sociais: gays e lésbicas ainda enfrentam discriminação, mas há
crescente aceitação e reconhecimento legal.
Psicopatologia: a homossexualidade não é transtorno mental; sofrimento por
estigma pode levar a transtornos de adaptação ou depressão.
Assumir a homossexualidade é um processo de aceitação pessoal e social,
influenciado pelo grau de apoio e exposição.
Comportamento sexual e bases neurobiológicas
O cérebro regula o desejo e a resposta sexual:
o Córtex orbitofrontal: emoções;
o Córtex cingulado anterior: excitação e controle hormonal;
o Sistema límbico: ereção e orgasmo;
o Tronco encefálico: regula reflexos sexuais (serotonina inibe o orgasmo).
Neurotransmissores:
o Dopamina: aumenta a libido;
o Serotonina: reduz o desejo;
o Oxitocina: ligada ao prazer e vínculo afetivo.
Medula espinal: coordena reflexos da excitação e do orgasmo.
Respostas fisiológicas sexuais
Baseadas nas fases descritas por Masters e Johnson:
1. Desejo: fantasias e vontade de ter relações;
2. Excitação: alterações físicas (ereção, lubrificação, rubor);
3. Orgasmo: contrações musculares rítmicas e pico de prazer;
4. Resolução: relaxamento e retorno ao estado basal.
Homens: apresentam período refratário pós-orgasmo.
Mulheres: podem ter múltiplos orgasmos e variação de resposta fisiológica.
Hormônios e comportamento sexual
Dopamina: estimula o desejo.
Serotonina: inibe o desejo.
Testosterona: aumenta a libido em ambos os sexos.
Estrogênio: melhora a lubrificação e sensibilidade feminina, e também participa
da resposta masculina.
Progesterona, prolactina e cortisol: reduzem o desejo.
Oxitocina: intensifica o prazer e o vínculo afetivo pós-orgasmo.
Diferenças de gênero no desejo
Homens têm desejo sexual basal mais alto;
Mulheres relatam motivações mais variadas, incluindo afeto, intimidade e
satisfação do parceiro;
Homens respondem mais a estímulos visuais;
Mulheres respondem mais a estímulos emocionais e narrativos;
Nem sempre há correspondência entre excitação subjetiva e fisiológica nas
mulheres.
Masturbação
É uma prática universal e normal, presente desde a infância.
Crianças descobrem prazer genital por volta de 15 a 19 meses.
Na adolescência, a masturbação aumenta devido à puberdade e à curiosidade
sexual.
Homens costumam se masturbar mais cedo e com mais frequência.
Fantasias associadas à masturbação ajudam no desenvolvimento da identidade
sexual.
Em adultos, pode ser adaptativa, especialmente em ausência de parceiro.
Só é considerada patológica se compulsiva (fora de controle voluntário).
Não causa doenças mentais nem impotência — mitos históricos.
Técnicas: mulheres preferem estímulo clitoriano; homens, peniano.
Recomenda-se evitar masturbação antes de exames de PSA.
Coito
Primeira relação sexual é um rito de passagem típico do início da vida adulta.
Cerca de 95% dos adultos já tiveram coito.
Há pressões culturais e mitos sobre desempenho masculino e virgindade
feminina.
Amor e intimidade
Segundo Freud, saúde mental depende da capacidade de trabalhar e amar.
O amor maduro envolve reciprocidade, crescimento e cuidado com o outro.
O sexo pode fortalecer vínculos e expressar intimidade.
Conflitos entre impulsos afetivos e passionais podem dificultar relações íntimas
e gerar insegurança ou bloqueio emocional.
Sexo e o direito
A medicina e o direito analisam o sexo sob diferentes perspectivas — saúde e
legalidade.
Questões incluem: aborto, pornografia, prostituição, educação sexual,
agressores sexuais e privacidade sexual.
As leis variam entre Estados e refletem diferenças culturais e morais.
Coleta da história sexual
A anamnese sexual avalia:
Identificação: idade, sexo, orientação e status de relacionamento;
Funcionamento atual: satisfação, frequência, disfunções e padrões de interação
sexual;
Histórico sexual: experiências na infância, adolescência e idade adulta;
Questões especiais: abuso, doenças, infertilidade, conflitos de gênero ou
parafilias.
18 Disforia de gênero
Disforia de Gênero
Definição
· A disforia de gênero (DSM-5) descreve a incongruência marcante
entre o gênero vivido/expresso e o sexo designado ao
nascimento, acompanhada de sofrimento clínico significativo.
· Substituiu o termo antigo “transtorno de identidade de gênero”.
· Transgênero é o termo geral para pessoas que se identificam com um
gênero diferente do designado.
o Transexuais: desejam ter o corpo do outro sexo.
o Genderqueer: sentem-se entre gêneros, de ambos ou de nenhum.
o Crossdressers: vestem roupas do outro gênero sem mudar a
identidade.
· A maioria não realiza cirurgia genital; pode ter qualquer orientação
sexual.
Epidemiologia
· Crianças:
o A disforia é notada cedo, às vezes antes dos 3 anos.
o Proporção de 4 a 5 meninos para cada menina entre crianças
encaminhadas.
o Muitos não se tornam adultos transgêneros, mas os que persistem
mostram disforia intensa e duradoura.
· Adultos:
o Prevalência estimada: 1 em 11.000 homens e 1 em 30.000
mulheres.
o Predomina a forma masculino → feminino (MtF).
o Estima-se que até 1 em cada 500 adultos possa estar no
espectro transgênero.
o Maior aceitação social de mulheres masculinas do que de homens
femininos.
Etiologia
▪ Fatores biológicos
· O sexo fetal é inicialmente feminino; o desenvolvimento masculino
exige andrógenos testiculares.
· A teoria da organização cerebral sugere que a testosterona pré-
natal pode influenciar a masculinização do cérebro (hipotálamo).
· Nenhum gene específico foi comprovado; estudos com gêmeos mostram
concordância parcial.
· Alterações em substância branca e fluxo cerebral foram observadas,
mas sem confirmação.
· Pessoas trans tendem a ser mais canhotas, sem explicação clara.
▪ Fatores psicossociais
· Influências familiares e culturais moldam a identidade de gênero.
· Freud: conflitos edipianos e relação mãe-filho seriam centrais.
· Teoria da aprendizagem: comportamentos de gênero são reforçados
ou punidos conforme o contexto social.
· Ausência ou hostilidade parental, rejeição, abuso ou morte
materna/paterna podem contribuir.
· Sexo de criação e aceitação familiar influenciam fortemente a
identidade posterior.
Diagnóstico
▪ Crianças
· Caracteriza-se por:
o Desejo persistente de pertencer ao outro gênero;
o Preferência por roupas, brinquedos e brincadeiras do outro sexo;
o Aversão à própria anatomia ou desejo de ter características do
outro gênero.
· É necessário haver sofrimento clínico ou prejuízo funcional, não
apenas desconforto dos pais.
· Diagnóstico diferencial: distinguir disforia persistente de não
conformidade passageira.
· Crianças intersexuais com disforia recebem especificador adicional.
▪ Adolescentes e adultos
· Devem apresentar incongruência entre o gênero vivido e o
designado, mais pelo menos 2 de 6 critérios (como desejo de
características do outro gênero, de ser tratado como tal ou crença de ter
sentimentos típicos desse gênero).
· Exige sofrimento pessoal.
· O diagnóstico inclui um especificador pós-transição (para quem já
vive no gênero afirmado e passou por tratamento clínico ou cirúrgico).
· Excluem-se casos de transtornos psicóticos ou dismorfia corporal.
Curso e Prognóstico
· Crianças: desenvolvem identidade de gênero por volta dos 3 anos.
o Algumas mantêm a disforia até a vida adulta, outras se identificam
com o sexo designado.
o Metade dos casos infantis reverte na idade adulta.
o Maior frequência de ansiedade, depressão e traços de
autismo.
· Adultos: podem ter identificado a disforia desde cedo ou só na vida
adulta.
o Muitas vezes ocultam o sentimento por anos.
o Elevada incidência de depressão, ansiedade, abuso de
substâncias e ideação suicida (até 40%).
o Estresse social e discriminação agravam os sintomas.
Tratamento
▪ Crianças
· Psicoterapia individual, familiar e grupal para explorar identidade e
aliviar sofrimento.
· Terapias de conversão são contraindicadas (rejeitadas pela APA e
AACAP).
▪ Adolescentes
· Além de terapia, podem receber bloqueadores da puberdade (GnRH)
para retardar o desenvolvimento sexual e ganhar tempo para decidir.
· O uso é considerado seguro, mas requer acompanhamento rigoroso.
▪ Adultos
· Tratamento pode incluir:
o Psicoterapia afirmativa;
o Terapia hormonal (testosterona para homens trans; estrogênio +
bloqueadores para mulheres trans);
o Cirurgias (mamária, genital, facial).
· O acompanhamento inclui função hepática, lipídios, hemograma e
pressão arterial.
· O aconselhamento reprodutivo é essencial, pois há risco de
infertilidade permanente.
· Hormonioterapia melhora humor, autoestima e qualidade de vida.
▪ Saúde mental
· Profissionais devem adotar postura acolhedora e baseada em
consentimento informado, segundo os padrões da WPATH.
· Psicoterapia auxilia na adaptação e enfrentamento social.
▪ Cirurgias
· Menos comuns que o uso de hormônios.
o Homens trans: mastectomia, metoidioplastia, faloplastia,
escrotoplastia.
o Mulheres trans: vaginoplastia, orquiectomia, cirurgias de
feminilização facial.
· A falta de acesso pode levar a autocirurgias perigosas (injeções
ilegais de silicone, etc.).
· Cirurgias faciais são importantes para segurança social e
reconhecimento de gênero.
Categorias diagnósticas adicionais
· Outra disforia de gênero especificada: há sofrimento, mas nem
todos os critérios são preenchidos.
· Não especificada: critérios incompletos, sem motivo declarado.
CID-10 e CID-11
· Na CID-10, a disforia aparece como transtorno da identidade de
gênero (F64), com subtipos (transexualismo, travestismo dual, etc.).
· A CID-11 propõe remover da seção de transtornos mentais,
tratando-a como questão de saúde sexual.
Condições intersexuais associadas
Condição Características principais
Hiperplasia adrenal Excesso de androgênios → virilização de fetos XX;
congênita maioria criada como mulher, mas pode haver
disforia.
Síndrome de insensibilidade Cariótipo XY, tecidos não respondem à testosterona
a androgênios → aparência feminina e identidade geralmente
feminina.
Deficiência de 5-α-redutase Impede conversão de testosterona; indivíduos XY
parecem meninas ao nascer, mas virilizam na
puberdade.
Síndrome de Turner (X0) Genitália feminina, baixa estatura; requer
estrogênio exógeno.
Síndrome de Klinefelter Homens com testículos pequenos e ginecomastia;
(XXY) identidade geralmente masculina.
· Hoje, cirurgias em bebês intersexuais são evitadas até que o indivíduo
possa decidir.
· O sexo de criação ainda é o melhor preditor da identidade futura.
Transtorno transvéstico
· Classificado como Transtorno Parafílico (DSM-5): excitação sexual
recorrente ao se travestir com sofrimento clínico.
· Diferente da disforia de gênero — a identidade permanece compatível
com o sexo designado.
· Mais comum em homens.
· Pode coexistir com masoquismo ou fetichismo.
· Tratamento: psicoterapia, farmacoterapia (fluoxetina,
antidepressivos, ansiolíticos) e técnicas comportamentais.
Preocupação com castração
· Não é diagnóstico do DSM-5.
· Envolve desejo de remoção dos genitais sem intenção de mudança de
gênero.
· Pode ocorrer em pessoas assexuais ou com sofrimento intenso
relacionado ao corpo.
Dalgalarrondo, P. — Psicopatologia e Semiologia dos
Transtornos Mentais, 3ª ed. (Artmed, 2019)
Cap. 37 — “Sexualidade e psicopatologia”
A Sexualidade Humana
Conceito geral
A sexualidade é um desejo fundamental e parte central da existência humana,
composta por três dimensões:
Biológica – envolve aspectos neurais, hormonais e anatômicos ligados ao desejo
e ao comportamento sexual.
Psicológica – inclui o desejo erótico, as fantasias e o prazer subjetivo.
Sociocultural – refere-se aos valores, práticas e proibições de cada sociedade
sobre o sexo.
Dimensão biológica
Neural: ativa áreas cerebrais como o hipotálamo, hipocampo, amígdala e
córtex do cíngulo, responsáveis pelo desejo e comportamento sexual.
Hormonal:
o Estrógeno – desenvolvimento dos caracteres femininos.
o Progesterona – prepara o útero e mamas, e é precursora de outros
hormônios.
o Testosterona – ligada ao desejo sexual, agressividade e competitividade
em ambos os sexos.
o Oxitocina e vasopressina – relacionadas ao afeto e vínculo emocional.
Dimensões psicológica e sociocultural
O desejo e o erotismo humanos são plásticos e variados, muito além da
reprodução.
A sexualidade reflete a afetividade, personalidade e valores culturais de cada
indivíduo.
Segundo Monedero (1973), a sexualidade é intencional e expressa o modo de
existir de cada pessoa, sendo um espaço onde se manifestam desejos, conflitos e
peculiaridades humanas.
Diferenças entre homens e mulheres
Aspectos sociais e culturais
Papéis de gênero variam conforme época e cultura.
Movimentos sociais (como feministas e LGBT) questionam a rigidez entre
masculino e feminino e combatem discriminações.
Aspectos biológicos e neurológicos
O dimorfismo sexual do cérebro surge no período fetal, influenciado por
hormônios.
Cérebro masculino: amígdala maior e mais receptores androgênicos.
Cérebro feminino: hipocampo maior e mais receptores estrogênicos.
Conectividade:
o Homens → maior conectividade intra-hemisférica.
o Mulheres → maior conectividade inter-hemisférica.
Mulheres têm melhor desempenho em tarefas linguísticas, e homens em
tarefas visuoespaciais.
Fatores sociais também influenciam a ação hormonal — comportamento e
biologia interagem.
Fases do ciclo sexual
1. Desejo sexual: fase mais psicológica, baseada em fantasias e estímulos eróticos;
influenciada por hormônios e fatores neurais.
2. Excitação física: início da relação sexual; ocorre ereção no homem e
lubrificação vaginal na mulher.
3. Orgasmo: pico do prazer, com contrações pélvicas e liberação de tensão; dura
de 3 a 25 segundos.
4. Resolução: retorno do corpo às condições normais (frequência cardíaca,
respiração e pressão).
Comportamento sexual no Brasil
Tendências gerais das últimas décadas (Cavallieri, Datafolha, Abdo):
Início da vida sexual: homens entre 15–17 anos, mulheres entre 17–19 anos.
Frequência: média de 2 a 3 relações sexuais por semana.
Dificuldade em atingir o orgasmo: comum nas mulheres (até 40%).
Práticas: maior aceitação do sexo oral e anal; masturbação mais frequente em
homens.
Orientação sexual: cerca de 6% dos homens e 2% das mulheres se declaram
homossexuais.
Homens relatam mais casos extraconjugais e mais parceiros no último ano.
Transtornos ou Disfunções Sexuais
Mudanças nas classificações:
Na CID-11, disfunções sexuais e incongruência de gênero não são mais
classificadas como transtornos mentais.
No DSM-5, há o capítulo “Disfunções sexuais”, enquanto disforia de gênero é
discutida separadamente.
Homossexualidade e bissexualidade são entendidas como variações normais da
sexualidade humana.
Critérios para considerar disfunção sexual:
1. O problema é frequente e persistente.
2. Está presente por alguns meses ou mais.
3. Causa sofrimento clínico significativo.
Principais disfunções sexuais
Disfunção Descrição resumida
Desejo sexual inibido Falta persistente de desejo ou fantasia sexual; pode estar
ligada a repressão, culpa, conflitos conjugais ou causas
hormonais.
Transtorno da dor gênito- Dor ou medo de dor durante o ato sexual
pélvica/penetração (vaginismo/dispareunia), com tensão muscular pélvica e
causas físicas ou psicológicas.
Transtorno do orgasmo Dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo;
feminino associada a ansiedade, depressão, relação conjugal
insatisfatória ou medicamentos.
Transtorno erétil Dificuldade de obter ou manter ereção; pode ter causas
psicogênicas (ansiedade, culpa) ou orgânicas (diabetes,
hipertensão, álcool).
Transtornos da ejaculação Ejaculação precoce (menos de 1 min) ou retardada;
geralmente de base psicológica.
Miguel, Euripedes C. Clínica psiquiátrica: os
fundamentos da psiquiatria, volume 1, 2 e 3 - 2a
ed. Editora Manole, 2020.
Volume 2 -
Seção 1 - Seção 20 Disforia de gênero na infância e
na adolescência
Seção 2 As grandes síndromes psiquiátricas no
adulto
INTRODUÇÃO
A identidade de gênero e a transexualidade têm recebido crescente atenção científica e
social. O aumento das demandas de crianças e adolescentes por avaliação médica reflete
maior visibilidade e acesso à informação, não necessariamente aumento real de casos.
Por muito tempo, infâncias trans foram invisibilizadas, levando a maior morbidade
por estigma e discriminação.
O sexo biológico é determinado por fatores genéticos (cariótipo XX, XY ou variações),
enquanto o gênero é um conceito sociocultural.
A identidade de gênero começa a se formar precocemente — entre 2 e 4 anos, a
criança já reconhece códigos de gênero, e aos 6–7 anos a identidade se torna estável.
CONCEITOS GERAIS
Identidade de gênero: experiência interna e pessoal de gênero (homem,
mulher, neutro, não binário). É subjetiva, multifatorial (biológica, psicológica,
social e ambiental).
Transgênero: termo guarda-chuva que inclui transexuais, travestis e não
binários, independentemente de cirurgia ou hormonização.
Cisgênero: indivíduo cuja identidade coincide com o sexo designado ao
nascimento.
Incongruência de gênero (CID-11): discrepância persistente entre sexo
biológico e identidade de gênero. Não é doença, mas condição que pode
demandar cuidados médicos.
Disforia de gênero (DSM-5): sofrimento clínico significativo causado por essa
incongruência.
EPIDEMIOLOGIA
Estudos limitados, devido a diferenças conceituais e metodológicas.
Prevalência estimada:
o Infância: 2–6% em meninos e 2% em meninas com comportamentos
variantes de gênero.
o Adultos transgêneros: entre 0,1 e 0,7% da população (dependendo da
definição).
Cerca de 15% das crianças mantêm a incongruência na vida adulta.
A maioria das que não mantêm tornam-se adultos cis com orientação
homossexual ou bissexual.
ETIOLOGIA
A identidade de gênero é multifatorial:
1. Biológica: estudos de neuroimagem mostram padrões cerebrais mais próximos
da identidade vivenciada do que do sexo biológico.
o Exposição hormonal atípica no período fetal (testosterona) pode
influenciar diferenciação cerebral.
o Polimorfismos genéticos (genes como CYP17, AR) se associam à
identidade de gênero trans.
2. Psicológica: depende do desenvolvimento afetivo e da construção do “eu”
sexual.
3. Sociocultural: normas de gênero e papéis sociais variam conforme o tempo e a
cultura.
4. Social: o sofrimento muitas vezes vem da discriminação e violência social, e
não da identidade em si.
QUADRO CLÍNICO
Infância: interesse persistente em roupas, brinquedos e comportamentos do
gênero oposto; sofrimento quando forçado a se adequar ao gênero de
nascimento.
Adolescência: fase crítica, pois o corpo se transforma segundo o sexo biológico,
gerando disforia intensa e desejo de bloqueio puberal, hormonização ou cirurgia.
O sofrimento pode ser agravado pela falta de aceitação familiar e social.
DIAGNÓSTICO
Segundo o DSM-5:
Critérios incluem incongruência persistente por ≥6 meses entre o gênero vivido e o
designado, com pelo menos 6 manifestações em crianças ou 2 em
adolescentes/adultos, como:
Desejo intenso de pertencer a outro gênero.
Desgosto com a própria anatomia sexual.
Preferência por roupas, papéis, brinquedos ou atividades do outro gênero.
Desejo de características sexuais do gênero vivenciado.
A condição deve causar sofrimento clinicamente significativo.
Diagnóstico diferencial:
Travestismo fetichista
Esquizofrenia ou delírios de identidade
Transtorno dismórfico corporal
Transtornos de personalidade graves
Homossexualidade não aceita ou homofobia internalizada
SAÚDE MENTAL
Crianças e adolescentes trans sofrem mais com ansiedade, depressão, TDAH e
comportamento opositor — porém, níveis se igualam a crianças cis quando
há apoio familiar e social.
Maior risco de automutilação, suicídio e abuso de drogas: até 40% já
tentaram suicídio.
O bullying e o isolamento escolar são causas importantes de sofrimento
psíquico.
Estudos mostram que o suporte familiar reduz drasticamente sintomas
depressivos e risco de suicídio.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
1. Infância
Escuta empática e acompanhamento multidisciplinar.
Psicoterapia de apoio e trabalho com família e escola.
Modelo afirmativo de gênero: reconhecer e validar a vivência da criança, sem
imposições.
2. Adolescência
Três estágios principais de intervenção:
Estágio Tipo Características
Bloqueio puberal Totalmente Uso de análogos de GnRH para interromper
reversível temporariamente o desenvolvimento puberal.
Hormonização Parcialmente Uso de hormônios do sexo oposto a partir dos
cruzada reversível 16 anos (testosterona ou estrógenos).
Cirurgias de Irreversíveis Permitidas a partir dos 18 anos, após
afirmação de gênero acompanhamento ≥1 ano e ausência de
psicopatologia grave.
Antes da hormonização, deve-se discutir preservação da fertilidade.
ACOMPANHAMENTO NO BRASIL
O AMTIGOS/IPq-HCFMUSP é referência nacional no atendimento de
crianças e adolescentes com incongruência de gênero.
A Resolução CFM nº 2.265/2019 define:
o Hormonização a partir dos 16 anos.
o Cirurgia a partir dos 18 anos.
o Bloqueio puberal no estágio 2 de Tanner (em protocolos de pesquisa).
o Equipe mínima: pediatra, psiquiatra, endocrinologista, ginecologista,
urologista e cirurgião plástico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O olhar da saúde mental deve ser afirmativo, empático e não patologizante.
Crianças e adolescentes trans têm autonomia e voz — devem ser ouvidos e
respeitados.
A educação das famílias e escolas é fundamental para reduzir sofrimento e
prevenir adoecimento psíquico.
O futuro da pesquisa deve ampliar a compreensão científica e cultural sobre a
diversidade de gênero.
INTRODUÇÃO
Identidade de gênero é tema interdisciplinar que envolve medicina, psicologia,
sociologia, direito, antropologia e outras áreas.
Na psiquiatria, compreender a identidade de gênero é essencial para promover
empatia, ampliar o conhecimento clínico e reconhecer o indivíduo em sua
totalidade.
A discussão sobre gênero não é recente — está presente em mitos, religiões e
culturas antigas (ex.: mitos de Tirésias, Hijras na Índia, figuras históricas como
Chevalier d’Eon e Papa João VIII).
Cabe à psiquiatria compreender as múltiplas expressões de gênero e
reconhecer que as identidades trans fazem parte da diversidade humana, não de
patologias.
Profissionais de saúde devem ser sensíveis às demandas da população trans,
evitando práticas discriminatórias (como desrespeitar nome social ou negar
exames).
Pontos-chave:
1. Compreender os conceitos e termos ligados à identidade de gênero e
incongruência.
2. Entender o papel da psiquiatria e da equipe multidisciplinar no cuidado à saúde
trans.
3. Avaliar vulnerabilidades e diagnósticos diferenciais.
4. Oferecer acolhimento ético e respeitoso.
CONCEITOS GERAIS
Termo Definição
Sexo biológico Determinado por características genéticas e anatômicas
(cromossomos, gônadas, genitália, hormônios).
Identidade Reconhecimento de si mesmo e consciência de quem se é.
Gênero Construção sociocultural de papéis e comportamentos atribuídos
a masculino e feminino.
Identidade de Experiência interna e pessoal de pertencimento a um gênero;
gênero pode ou não corresponder ao sexo biológico.
Papel ou expressão Maneiras públicas e comportamentais de expressar
de gênero masculinidade, feminilidade ou neutralidade.
Orientação afetivo- Atração por pessoas de mesmo gênero, oposto ou múltiplos
sexual (hetero, homo, bi, pan, assexual).
Outros conceitos:
Transgênero: termo guarda-chuva que inclui transexuais, travestis, não binários
etc.
Cisgênero: identidade de gênero alinhada ao sexo designado no nascimento.
Travesti: identidade de gênero feminina vivida por pessoas designadas homens
ao nascer, mas que não se identificam integralmente como mulheres.
Intersexo: variações biológicas no desenvolvimento sexual.
Não binário / genderqueer: não se identificam exclusivamente com masculino
ou feminino.
Cross-dresser, drag queen/king, transformista: expressões artísticas ou
performáticas, sem necessariamente implicar identidade de gênero distinta.
“Ideologia de gênero”: termo não científico, usado em debates políticos e
religiosos; não deve ser confundido com estudos sobre diversidade sexual e de
gênero.
DIAGNÓSTICO EM TRANSEXUALIDADE
Desde 2018, a OMS retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais
(CID-11).
O diagnóstico existe não como patologização, mas como instrumento médico
que permite acesso a cuidados de saúde, como hormonização e cirurgias.
Os principais referenciais diagnósticos são:
o DSM-5 (Associação Psiquiátrica Americana)
o CID-11 (OMS)
o WPATH – Standards of Care (7ª ed.)
CID-11 — Incongruência de Gênero
Incongruência persistente entre identidade de gênero e sexo designado.
Critérios incluem forte desconforto com características sexuais primárias/
secundárias e desejo de viver no gênero expresso.
Não é considerada doença, mas condição de diversidade humana.
DSM-5 — Disforia de Gênero
Refere-se ao sofrimento clínico significativo decorrente da incongruência de
gênero.
Critérios: incongruência persistente ≥6 meses, desejo de pertencer ou ser tratado
como outro gênero, e prejuízo funcional/social.
Especifica se há transtorno do desenvolvimento sexual e se o indivíduo está
pós-transição.
EPIDEMIOLOGIA
Prevalência variável conforme cultura e metodologia:
o Mulheres trans : homens trans ≈ 3:1.
o Estimativas variam de 1:11.900 a 1:45.000 (mulheres trans) e 1:30.400 a
1:200.000 (homens trans).
o Nos EUA, prevalência entre adolescentes e jovens: 0,17%–1,3%.
No Brasil, dados oficiais são escassos, mas há indicadores:
o 6.280 eleitores trans usaram nome social em 2018.
o 288 aguardavam cirurgia de redesignação no SUS.
o 512 estudantes solicitaram nome social na rede estadual paulista.
ETIOLOGIA
Origem multifatorial: interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Pesquisas sugerem influência de:
o Hormônios intrauterinos na diferenciação cerebral.
o Fatores genéticos (ex.: variações em genes como CYP17 e AR).
o Aspectos psicológicos e culturais que moldam a expressão e a aceitação
da identidade.
SAÚDE MENTAL E INCONGRUÊNCIA DE
GÊNERO
A avaliação psiquiátrica é fundamental — o psiquiatra frequentemente é o
primeiro contato da pessoa trans.
Deve incluir histórico de vida, infância, puberdade, uso de hormônios,
experiências sociais e familiares, nome social e vivências de discriminação.
A vulnerabilidade resulta de discriminação, exclusão e violência estrutural.
Conceitos importantes:
o Vulnerabilidade: condição de fragilidade social que compromete o
bem-estar e a autonomia.
o Estresse de minoria: sofrimento causado por preconceito percebido,
antecipado e internalizado.
o Transfobia: fator de risco para depressão, ansiedade e suicídio.
Dados brasileiros:
67% com sintomas depressivos.
67% com ideação suicida.
43% com tentativas prévias.
Alta prevalência de abuso de substâncias (álcool, cocaína, tabaco).
A presença de assistente social, psicólogo e equipe multidisciplinar é essencial para
garantir acesso a direitos e suporte psicossocial.
ABORDAGEM CLÍNICA DO ADULTO TRANS
O cuidado deve ser multidisciplinar: psiquiatra, endocrinologista,
ginecologista, urologista, cirurgião plástico, psicólogo, assistente social e outros.
Baseia-se em três pilares:
1. Psicoterapia — apoio emocional e integração da identidade.
2. Tratamento hormonal (hormonização cruzada) — inicia-se a partir
dos 16 anos, sob supervisão médica.
3. Cirurgias de redesignação sexual — permitidas a partir dos 18 anos,
conforme a Resolução CFM 2.265/2019.
Objetivos da avaliação psiquiátrica:
Reduzir sofrimento físico e psíquico.
Diagnosticar e tratar comorbidades.
Avaliar riscos e benefícios dos procedimentos.
Acompanhar o paciente durante todo o processo transexualizador.
📍 No Brasil, o AMTIGOS (IPq-HCFMUSP) é referência nacional no atendimento
especializado à população trans.
CONCLUSÃO
A incongruência e disforia de gênero são expressões da diversidade humana,
não transtornos mentais.
O papel da psiquiatria é acolher, compreender e promover saúde mental, e
não patologizar.
O cuidado deve ser humanizado, interdisciplinar e ético, garantindo o respeito
à identidade, ao nome social e à autonomia de cada pessoa.
Combater o estigma e a transfobia é parte do tratamento e da responsabilidade
médica.