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Sebenta de Direito Processual Civil 2022/23

A sebenta de Direito Processual Civil, elaborada por Ana Castro e Catarina Morais, compila aulas teóricas e bibliografia do curso na Faculdade de Direito da Universidade do Porto para o ano letivo 2022/2023. O documento aborda a natureza e funções do Direito Processual Civil, destacando sua importância como instrumento para a realização do direito material e a resolução de litígios. Além disso, discute a relação entre ações declarativas e executivas, enfatizando a proibição da autodefesa e o monopólio do uso da força pelo sistema judicial.

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Sebenta de Direito Processual Civil 2022/23

A sebenta de Direito Processual Civil, elaborada por Ana Castro e Catarina Morais, compila aulas teóricas e bibliografia do curso na Faculdade de Direito da Universidade do Porto para o ano letivo 2022/2023. O documento aborda a natureza e funções do Direito Processual Civil, destacando sua importância como instrumento para a realização do direito material e a resolução de litígios. Além disso, discute a relação entre ações declarativas e executivas, enfatizando a proibição da autodefesa e o monopólio do uso da força pelo sistema judicial.

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DIREITO
PROCESSUAL
CIVIL

TEÓRICA - 1.º SEMESTRE


ANA CASTRO - COM COLABORAÇÃO DE
CATARINA MORAIS
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
2022/2023
Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Nota Introdutória

Esta sebenta de Direito Processual Civil, disponibilizada pela Comissão de Curso dos
estudantes do 3.º Ano da Licenciatura em Direito da Faculdade de Direito da
Universidade
do Porto no ano letivo 2022/2023, foi elaborada pela estudante Ana Castro, com o apoio
e colaboração da estudante Catarina Morais, que elaborou os apontamentos semanais
da Unidade Curricular.
Esta sebenta contém a compilação das aulas teóricas lecionadas pelo docente, Dr.
Fernando Pereira, bem como, a respetiva complementação com os elementos
bibliográficos indicados pelo docente.
Relembra-se, por fim, que esta sebenta constitui apenas um complemento de estudo, não
dispensando, por isso, a presença nas aulas práticas e teóricas, e, ainda, a leitura da
bibliografia obrigatória.
Bom estudo!

Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Ana Castro e Catarina Morais 1


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Índice

I. Introdução

1. Caracterização do Direito Processual Civil


2. Modalidades de ações judiciais em função do tipo da providência jurisdicional
requerida
3. Procedimentos cautelares
4. Evolução da legislação processual civil e respetivos princípios inspiradores.
5. Interpretação e integração das leis processuais.
a. Aplicação da lei processual no tempo.
b. Critérios de resolução dos conflitos inter temporais de normas de direito
adjetivo.
6. Sentido e alcance do formalismo processual. Formas do processo e
correspondente âmbito de aplicação

II. Pressupostos Processuais

1. Noção e regime dos pressupostos processuais


2. Personalidade Judiciária
3. Capacidade Judiciária
4. Legitimidade das partes
a. Legitimidade singular
b. Legitimidade plural

Ana Castro e Catarina Morais 2


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Direito Processual Civil - 1º semestre

Noção Geral de Processo

A palavra processo provém aliás do verbo latino “procedo”, que significa “andar
para a frente”.
Assim, por processo entende-se justamente um caminho que vai da desavença das
partes até à resolução do litígio. Pretende-se que através do curso do processo e das
suas diferentes fases se esteja cada vez mais próxima da resolução do litígio que entre
as partes estalou, passando a ser um caso julgado (material). Para considerar um
litígio como resolvido, a comunidade institui um amplo conjunto de regras, de
pressupostos, de atos, de práticas, etc., isto é, institui um processo, um método específico
de resolução de litígios.
Começaremos por analisar o art. 1.º CPC.

Artigo 1.º (art.º 1.º CPC 1961)


Proibição de autodefesa
A ninguém é lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito, salvo
nos casos e dentro dos limites declarados na lei.

Importa ter em conta o art. 1.º CPC (proibição de autodefesa), que consagra a regra da
proibição do recurso à força para realizar/assegurar o próprio direito, impondo, como
contrapartida o oferecimento do sistema processual.
A comunidade jurídica chama o monopólio do uso da força, ainda que para o exercício
do Direito. Os conflitos podem continuar a surgir – acidentes de viação, o não
cumprimento de obrigações, conflitos entre herdeiros – se a ninguém é lícito o recurso a
força para resolver conflitos, mas se esses emergem, então revela-se necessário oferecer
uma alternativa, um caminho que faculte aos membros da comunidade resolverem os
respetivos conflitos.
Institui-se um constrangimento, e implica o reconhecimento de uma alternativa.
Atribui-se aos membros da comunidade jurídica um caminho, que é justamente o
processo.
Todavia, existem exceções e por isso, distingue-se a autotutela e a heterotutela.

• Por autotutela entende-se a proteção de um direito realizada diretamente


pelo respetivo titular;
• Por heterotutela entende-se a proteção de um direito que é realizada com
o auxílio/amparo de um terceiro. Mediante a proscrição de um direito, só em
casos excecionais é que é admitida a autotutela, em circunstâncias bem
delimitadas, tais como:
• Art. 337.º CC -Legítima defesa;
• Art. 336.º/1 CC – Ação direta;
• Art. 339.º CC - Estado de necessidade.

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Só a falta de alternativa pública de mecanismos de realização do Direito é que


consente o recurso a instrumentos de autotutela (primeira limitação).
Resulta do art. 1.º CPC duas coisas:

• Por um lado, um constrangimento, nomeadamente que, fora de alguns casos


excecionais a nenhum membro da comunidade é lícito recorrer ao uso da força
para a garantia das suas posições jurídicas;

• Resulta a regra que, pela proibição que consagra, impõe como contrapartida o
oferecimento de um sistema processual.

Mediante tal disposição, a comunidade jurídica chama a si o monopólio do uso da força,


ainda que para o exercício do Direito. Assim, aqui vamos encontrar duas limitações:

1. Se a ninguém é lícito o recurso à força para resolver conflitos, então revela-se


necessário oferecer uma alternativa/um caminho, que faculte aos membros da
comunidade resolverem os respetivos conflitos: o processo. Assim, o processo
permite resolver conflitos sem ser pelo uso da força – MONOPÓLIO DO USO
DA FORÇA;

2. Mesmo que alguém tenha o privilégio de proteger, pela força, o próprio Direito,
não tem o privilégio de declarar o próprio Direito – essa possibilidade continua
estritamente reservada ao Estado. Ainda que alguém aja em legítima defesa,
ainda que concretamente estejam verificados todos os requisitos, em momento
posterior a sua conduta pode ser sindicada pelo sistema de justiça, para
efetivamente apurar se tais pressupostos estavam verificados – MONOPÓLIO
DE JURISDIÇÃO.

Cabe assim distinguir o monopólio do uso da força (ponto 1) e o monopólio de


jurisdição/de poder dizer o Direito (ponto 2), ambos avocados pela comunidade jurídica.
Num e noutro caso há exceções, mas é esta a posição de princípio. Deste modo, cada um
dos membros da comunidade jurídica está sujeito a ser destinatário de uma ação
judicial (ser Réu não é uma escolha, a partir do momento em que o autor decide intentar
a ação – não é o tribunal que a intenta oficiosamente – o réu não tem opção de não o
ser, mesmo que a ação seja infundada).

Como alternativa do uso da força, é que o processo é dado. O sistema de justiça não é
um favor, é um modo de razoar o exercício da força e da violência. O processo é o
modo mediante o qual, a comunidade se predispõe a declarar e a executar o direito.
Por processo entende-se um caminho que vai da desavença das partes até a resolução do
litígio.

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A natureza do Processo Civil

O Direito Civil tem diferentes aceções.

O termo civil está relacionado com o substantivo “cives” que significa cidadão,
membro da comunidade jurídica, e, portanto, o Direito Civil original significa
direito fundamental do cidadão na sua vida em comunidade. Esta aceção do DC é
atualmente ora demasiado ampla, ora restrita. Ampla, na medida em que há muitos
aspetos relativos à cidadania que não designamos de civis. Restrita na medida em que, o
Direito Civil de acordo com as regras do Direito Internacional Privado não rege apenas
as relações entre nacionais, mas também com internacionais, ou seja, a noção de
comunidade civil atualmente não corresponde à comunidade nacional, ainda que o DC
seja essencialmente nacional, quanto à sua fonte. No que diz respeito ao modo como
regula as suas matérias, é um direito que procura olhar para as pessoas
independentemente da sua nacionalidade.
Uma nova definição de Direito Civil, seria de Direito da liberdade, da paridade.
Entendemos por processo civil como o procurar resolver litígios entre pares jurídicos,
entre iguais.

Designa-se o Direito Civil também como, Direito Privado Comum, pois mesmo dentro
do Direito Privado surgiram ramos autónomos do direito, como o Direito do Trabalho
e o Direito Comercial, ficando o Direito Civil como um direito residual e subsidiário, na
medida em que, em tudo o que não tiver regime especial aplica-se o DPC.

Funções do processo

1. Defesa e realização das posições jurídicas privadas. Se os cidadãos não


podem fazer valer os seus direitos através da força, tem de lhes ser
concedido um mecanismo para satisfazer os seus direitos;

2. Promover uma cultura assente na palavra e não na força. Tal como


concretamente modelado, os atos processuais assentam numa serena troca
de razões e não na força/violência, deve, contudo, existir a preocupação
de evitar que o processo seja instrumento de promoção de uma cultura de
conflitualidade social pela palavra;

3. Exercer um controlo público do sistema jurídico privado e, de tal


forma, a correção das próprias relações jurídicas privadas. Tenha-se
em vista, por exemplo, a celebração de um determinado contrato de
compra e venda. Através do monopólio da jurisdição, garante-se que, ao
menos em caso de conflito, o sistema público de justiça possa apurar da
validade daquele contrato, e na medida em que o juiz está vinculado ao

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Direito, consegue garantir-se que as valorações que estão na base ou


incorporadas no Direito material conseguem realizar-se.

Caracterização do Direito Processual Civil

O DPC é um ramo de direito instrumental, um ramo adjetivo. Significa que o DPC em


geral, encontra-se ao serviço do direito material na medida em que, é instrumento
da respetiva realização. É mediante o processo que o direito se realiza, o processo dá
forma ao direito no caso concreto. Portanto, as regras do DPC não têm por objeto a
definição dos direitos substantivos que cabem a cada um dos membros da comunidade
jurídica, o processo visa regular qual o caminho que se deve observar para a respetiva
tutela desses direitos.

Daqui resultam duas consequências:

1º. Partir do direito material é muito importante. O DPC deve ser orientado pelas mesmas
orientações de fundo dos ramos de direito material que quer realizar.
2º. O DPC deverá prover/dar aos membros da comunidade jurídica mecanismos de
realização de todas e quaisquer posições jurídicas reconhecidas pelo direito material.

Artigo 2.º (art.º 2.º CPC 1961)


Garantia de acesso aos tribunais
1 - A proteção jurídica através dos tribunais implica o direito de obter, em prazo razoável, uma
decisão judicial que aprecie, com força de caso julgado, a pretensão regularmente deduzida
em juízo, bem como a possibilidade de a fazer executar.
2 - A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário, corresponde a ação adequada
a fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a violação dele e a realizá-lo
coercivamente, bem como os procedimentos necessários para acautelar o efeito útil da ação.

Assim, o DPC é uma garantia do DCivil.

Discute-se se o DPC é Direito privado ou público.

Em 1º lugar o PC rege as relações das partes da ação, o autor e o réu uma contra a outra,
que são relações em posição de igualdade e não de supremacia. Assim, o processo tem
uma dimensão privada. O processo tem uma dimensão privada, mas ao mesmo tempo tem
uma dimensão pública, na medida em que, as partes na relação processual encontram-
se subordinadas ao tribunal, aos poderes do julgador, sendo uma relação triangular
que une as partes e o tribunal, classificando-se como Direito público. Importante
ressalvar que, a sua dimensão pública está subordinada à prossecução de interesses
privados.

O processo tem, por isso, uma dimensão pública e privada. Pública, relativamente à
posição das partes face ao tribunal. Privada, relativamente à posição das partes uma face
à outra.

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Mais uma vez, vamos repetir a definição de processo que consiste, no modo mediante o
qual a comunidade se predispõe a declarar e executar o Direito.

A Ação

Esta definição já faz alusão às duas espécies de ações existentes, vejamos o art. 10.º CPC:

Artigo 10.º (art.º 4.º CPC 1961)


Espécies de ações, consoante o seu fim
1 - As ações são declarativas ou executivas.
2 - As ações declarativas podem ser de simples apreciação, de condenação ou constitutivas.
3 - As ações referidas no número anterior têm por fim:
a) As de simples apreciação, obter unicamente a declaração da existência ou inexistência de
um direito ou de um facto;
b) As de condenação, exigir a prestação de uma coisa ou de um facto, pressupondo ou
prevendo a violação de um direito;
c) As constitutivas, autorizar uma mudança na ordem jurídica existente.
4 - Dizem-se «ações executivas» aquelas em que o credor requer as providências adequadas à
realização coativa de uma obrigação que lhe é devida.
5 - Toda a execução tem por base um título, pelo qual se determinam o fim e os limites da
ação executiva.
6 - O fim da execução, para o efeito do processo aplicável, pode consistir no pagamento de
quantia certa, na entrega de coisa certa ou na prestação de um facto, quer positivo quer
negativo.

Como podemos retirar deste artigo, o DPC é um ramo do direito rico e variado. Toda a
variedade tem de enfrentar uma forma processual adequada, sob pena, de não se vir
a efetivar.
A summa divisio está entre ações declarativas e ações executivas que por si só se
dividem em várias categorias.

As ações declarativas têm por finalidade a declaração do direito. O seu propósito é


alcançado quando, pela sentença, se fixa aquele que para a comunidade é o direito
aplicável à causa.
As ações executivas executam uma obrigação que é devida ao exequente. Devem vencer
a resistência do obrigado ao cumprimento da respetiva obrigação. Proporciona ao
credor o mesmo resultado do cumprimento da obrigação ou equivalente. Se a
prestação for infungível (art. 829.º-A CC), aqui o Estado não pode proporcionar ao credor
o mesmo resultado – o credor tem direito a uma indemnização pelo não cumprimento.

Articulação entre ação executiva e ação declarativa

Na ação executiva não está em causa a declaração de um direito, mas a realização


coativa de um direito. Uns são processos de jurisdição e outros são processos de
imposição.

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

A ação executiva tem por base um título executivo que é um documento. Se virmos o art.
703.º CPC, ele determina quais as espécies de títulos executivos.
Para se intentar uma ação executiva é preciso ter na mão, que o credor exequente
tenha na mão um título executivo. A lei estabelece quais os títulos executivos: art. 703.º
livro IV CPC.

Segundo o art. 703.º/1/a CPC, os títulos executivos podem ser judiciais ou


extrajudiciais.
São documentos fortes ao qual o legislador atribui força suficiente para com base
nele se presumir a existência da obrigação e dar início a uma ação exequente. A
existência do direito presume-se pela existência do título.
Isso não quer dizer que o executado não se possa opor àquela execução e pôr em causa a
existência do direito, mas o credor não tem de provar a existência do direito porque
tem na sua mão o título.
Se o credor de uma obrigação estiver munido de um título executivo extrajudicial, pode
logo dar início a uma ação executiva, não tendo de passar pela ação declarativa. Ou
seja, pode haver ação executiva sem haver ação declarativa. Mas o título executivo
mais forte é o judicial.
Agora se o credor não está munido de um título, tem de intentar uma ação
declarativa. As sentenças condenatórias (no sentido de sentenças que condenem numa
obrigação) são título executivo.

Como se obtém uma sentença condenatória?

Através de uma ação declarativa, ou seja, existem categorias de titulos executivos que
são extrajudiciais. Se o credor tiver na mão um título executivo extrajudicial significa que
ele pode intentar diretamente uma ação executiva, e não precisa de intentar uma ação
declarativa para fazer valer o seu direito
A lei fala em sentença condenatória, é que nas ações de simples apreciação e constitutiva
pode haver condenações.

Ex: O credor de uma determinada obrigação não está munido de um título executivo. A
celebrou com B um contrato de prestação de serviços, A não pagou a B pelos serviços. O
credor fez uma interpelação para cumprimento e a pessoa não cumpre, o credor tem de
intentar uma ação declarativa de condenação e com base nessa sentença, condenou o réu,
mas isso não é suficiente, a partir desse momento autor da ação tem um título executivo
que é a sentença condenatória, mas o devedor pode continuar a não pagar, então o que
resta ao credor fazer? Intentar uma ação executiva para fazer valer o seu direito.
Por ex., se um sujeito deve certa quantia pecuniária a outrem., o credor da obrigação tem
de intentar uma ação para a declaração do seu direito que, neste caso, seria uma ação de
condenação. A respetiva sentença será uma sentença condenatória (obrigar o réu ao
cumprimento da obrigação). Vamos imaginar que a sentença transita em caso julgado
material. Portanto, o tribunal declarou o direito determinando que o réu está obrigado a
pagar ao autor aquela quantia pecuniária. Mas o facto de o réu ter sido condenado, não
significa que cumpra a obrigação a que está obrigado. Assim, será necessário intentar uma

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ação executiva. Portanto, a sentença condenatória é um título executivo (e é o título


executivo mais forte).

Pode também acontecer que à ação declarativa não se siga uma ação executiva, porque o
devedor cumpre a obrigação, ou porque não há um título executivo.

Ações Declarativas – art. 10.º/1 CPC

Estas têm por finalidade, a declaração do direito de cada um, o seu propósito é
alcançar através de sentença, aquilo que o juiz estabelece e fixa aquele que para a
comunidade jurídica é considerado o direito aplicável à causa. O tribunal declara qual
o direito aplicável a causa.
O autor começa por deduzir um pedido contra o réu e o tribunal vai declarar se o pedido
é procedente ou improcedente.
Como se determina qual a sua modalidade?
Olhando para o pedido e interpretando o que se determina, qual o valor da ação,
sendo através deste juízo de interpretação que se determina o tipo de ação.

As ações declarativas podem, por seu turno, ser classificadas em função do tipo de tutela
requerido pelo autor:

Simples apreciação

Têm por fim obter unicamente a declaração da existência ou inexistência de um


direito ou de um facto. Têm por finalidade colocar termo a uma situação de incerteza
que se gerou acerca da existência de um direito ou de um facto. Nas ações de simples
apreciação não há nada que esteja para alem do reconhecimento da existência ou
inexistência de um direito ou facto. O réu não vai ser condenado a nada, nem vai haver
modificações na ordem jurídica, não está nada para além do reconhecimento da
existência ou inexistência do direito ou do facto.
É importante ressalvar que, tem de existir por parte do credor um interesse relevante
no reconhecimento do direito ou facto, se não existir interesse a ação não seria
admissível faltando um pressuposto processual que é o interesse legítimo.

Podem ser positivas ou negativas.

• Positivas quando se pretende a declaração de que existe um direito;

Ex: É negado por alguém que uma sociedade é titular de um terreno, pode essa sociedade
propor uma ação para que seja declarado que a sociedade é titular de um terreno.
A ação vai se limita a reconhecer uma realidade que já existia.

• Negativas quando se pretende a declaração de que certo direito ou certo


facto não existe.

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Ex: É afirmado por alguém que uma sociedade é titular de uma dívida, pode essa
sociedade propor uma ação de simples apreciação para demonstrar de que não é titular
dessa divida.

Nas ações de simples apreciação negativa o ónus da prova da existência do direito ou


do facto pertence ao réu, porque constituem uma verdadeira provocatio ad
agendum, ou seja, aqui o autor provoca o réu a agir, como vemos no Artigo 343º/1
CC. Normalmente quem invoca o direito é que deve provar os factos constitutivos
(artigo 342) º, mas aqui quem faz a prova é o réu.
O autor nestas ações provoca o réu a vir a tribunal demonstrar os factos
constitutivos do direito que se arroga. O réu formalmente é o réu, mas
materialmente tem o ónus de alegar os factos em causa.

Nestas ações tem lugar uma peça processual que se chama réplica.

O art. 584.º/2 CPC fala da réplica. O réu pode fazer pedidos para o autor (de acordo
com o princípio do contraditório – art. 3.º CPC - o autor tem de poder responder e
defender-se) e o autor tem o direito a replicar, para se defender do pedido que o réu
fez contra si.
Um dos casos em que existe a possibilidade de réplica, e que está previsto no artigo 584º,
são os casos em que o réu na contestação deduz uma reconvenção. Neste caso o autor
tem direito a uma nova peça processual que é a replica – art. 266.º CPC (estabelece
os casos em que é admissível uma reconvenção.)

A contestação que o réu apresenta pode ser uma contestação defesa, em que se vai
defender do ataque do autor. Nos casos em que a lei o admite, o réu pode fazer uma
contestação reconvenção, esta é deduzida separadamente da contestação. Quando o
réu faz uma reconvenção ele está a agir como se fosse o autor, aquele que é réu passa
a ser ao mesmo tempo autor. Usa-se a expressão réu reconvinte e autor reconvindo.
São casos em que a lei admite este contra-ataque, assim o objeto do processo alarga-
se.

Nos casos em que existe contestação reconvenção o autor tem de ter direito a uma peça
processual para se defender, agora se o réu para além de se defender, intenta
também uma ação contra o autor e por isso quando existe reconvenção existe
réplica.
O art. 584.º/2 CPC permite a réplica nas ações declarativas de simples apreciação
negativa.
O exemplo mais corrente das ações de simples apreciação, são as ações de declaração de
nulidade de um negócio jurídico.

Poder-se-ia pensar que é uma ação constitutiva (e é se se tratar de anular um negócio


jurídico), mas a ação através da qual se declara a nulidade é a ação de simples
apreciação, não havendo alterações na OJ, porque o negócio sempre foi nulo. Uma
vez que um negócio jurídico nulo não produz efeitos trata-se apenas de declarar essa não

Ana Castro e Catarina Morais 10


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

produção de efeitos. Agora se uma das partes pretende prevalecer-se dos efeitos
associados ao regime da nulidade, por exemplo, a restituição de tudo aquilo que foi
prestado art. 289.º CC, aí já se deve intentar uma ação de condenação.
Tavares de Sousa refere que neste pedido de simples apreciação, se possa tratar da
existência ou não de situações jurídicas que podem constituir-se a partir de exercício de
direitos potestativos. Aliás, um dos exemplos clássicos de tutela de simples apreciação
negativa é a ação negatória de servidão.

Condenação

Traduz-se no reconhecimento do direito invocado pelo autor e da existência de um


comportamento lesivo imputável ao réu, impondo o tribunal a este último, uma
determinada prestação com o fim de restabelecer a OJ.

Têm por fim exigir a prestação de uma coisa ou de um facto, pressupondo ou


prevendo a violação de um direito. A sua finalidade é a da reintegração da OJ
violada. Esta é a modalidade mais frequente.

A finalidade mais procurada é a reintegração da ordem jurídica violada, ou seja, o que


tipicamente acontece é que é intentada uma ação de condenação pressupondo a violação
de um direito, ou seja, a ordem jurídica foi violada.

Todas as ações, ora as de simples apreciação, ora condenação têm um momento de


simples apreciação, todas elas pressupõem a apreciação da existência ou inexistência
de certos factos.

Ex: Ação de condenação para o cumprimento de uma obrigação pecuniária, o T só pode


condenar o réu ao cumprimento da obrigação se reconhecer que o autor é titular do
respetivo direito de crédito. Dá-se aqui uma apreciação.

Mas mais do que isto o autor pretende também que o réu seja condenado.
Tal é o que acontece nas ações constitutivas, pois aqui o que está em causa é o exercício
de direitos potestativos. Ela também tem um momento de simples apreciação, só é
procedente se o tribunal reconhecer a titularidade de um direito potestativo. Mas não é
isso que o autor apenas quer, quer também que se produzam efeitos constitutivos,
modificativos e extintivos, pretende que se produzam mudanças na ordem jurídica.
Supondo que alguém se apodera de uma coisa que pertence a outrem. Foi perturbada
propriedade de outrem, a OJ foi violada porque foi perturbada a propriedade de alguém,
o proprietário tem o direito de fruir da sua coisa.

Através da ação de reivindicação (art. 1311.º CC), não se pretende apenas uma
declaração de existência de propriedade, mas também condenar o réu a uma
restituição. Se o réu não quiser restituir, então o credor intenta uma ação executiva
para entrega de coisa certa. O proprietário vai reclamar o exercício de poderes de facto
da coisa que é sua, o tribunal declara que é assim que deve ser e reintegra assim a ordem

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

jurídica, não obstante a necessidade de recorrer a uma ação executiva, de execução


forçada.

Outro exemplo. Pretende-se exigir que a outra parte pague, ou seja, exige-se a prestação
de uma coisa, que neste caso é dinheiro. Se a ação for julgada procedente (podendo
também ser julgada improcedente), isso quer dizer que o Tribunal deu razão ao Autor,
pelo que a ação procede. Neste caso o Tribunal condena o Réu a pagar aquilo que deve
ao Autor. Essa será a chamada sentença condenatória (condena a outra parte à realização
de um comportamento). Repare-se que o réu, que é condenado pelo Tribunal, viu o seu
direito declarado por este (o autor é credor do réu da quantia x, o direito foi declarado).
Agora imagine-se que, apesar de ter sido condenado, o Réu não paga a quantia que deve.
O que o autor pode fazer é intentar uma ação executiva para pagamento de quantia certa.
Ex: Alguém não cumpre uma obrigação na data prevista. A violação da OJ, está no facto
de contra aquilo que era devido, a prestação não foi realizada. Através de uma ação de
condenação o devedor vai procurar obter um título de condenação contra o réu.

Podem ser de 3 tipos:

• Ações de condenação in futurum - art. 10.º/3/b

Há situações em que a tutela de condenação prescinde da violação atual do direito,


porque se condena em função do hipotético incumprimento de prestações futuras.
Nessa medida, está-se perante formas de tutela judicial antecipadoras dos efeitos de uma
condenação, que no rigor dos princípios só devia acontecer mais tarde, quando se
registasse efetivamente a violação do dever de prestar.

Ocorrem quando se prevê, não se pressupõe, a violação de um direito.


Estas não servem apenas para que se reintegre a ordem jurídica violada, elas servem o
propósito de preventivamente o réu seja já condenado a reintegrar a ordem jurídica
para a eventualidade de a vir a violar. O réu é condenado para o futuro. Neste caso,
o autor consegue precaver-se cautelarmente contra a eventualidade de um
incumprimento futuro.
O pedido visa antecipar a tutela declaratória final, de modo a acorrer a uma situação de
incumprimento que pode verificar-se no futuro.
A procedência da ação de condenação é ditada por razões de economia processual
decorrentes do interesse manifesto na obtenção prévia do título executivo que
permite ao credor lançar mão da tutela executiva perante incumprimentos futuros.

Se houver incumprimento futuro, o autor tem nas mãos um título executivo, não tendo
a necessidade, mais adiante, perante o incumprimento, de intentar uma ação
declarativa, podendo intentar logo uma ação executiva, porque já tem uma sentença
condenatória. Esta possibilidade apenas é admitida quando a lei o prevê. A procedência
destas ações é ditada por razões de economia processual, decorrentes do interesse
manifesto na obtenção prévia do título executivo que permite ao credor lançar mão da
tutela executiva, perante atos futuros de incumprimento.

Ana Castro e Catarina Morais 12


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

É de notar que tem que se provar e alegar os factos relevadores da gravidade do prejuízo
que o titular do direito – ainda não lesado no momento em que a ação foi proposta –
sofreria com a demora resultante da necessidade de propor a ação de condenação apenas
depois de concretizada a violação efetiva do seu direito como o não cumprimento da
obrigação de restituir.
Ele está a proteger-se contra incumprimentos futuros. Ela só existe nos casos
previstos na lei – art. 557.º CPC.

Há prestações periódicas e levanta-se a possibilidade de existir novos


incumprimentos, porque se ela já foi incumprida uma vez pode novamente vir a ser
incumprida.

Art. 557.º CPC: Este artigo suscita algumas dúvidas na doutrina.

As ações de condenação in futurum, no que diz respeito ao seu regime, são levantadas
algumas dúvidas doutrinais que podemos ver no Código de Processo Civil Anotado
no art. 557.º CPC.

Coloca-se aqui um problema de articulação do regime do art. 557.º CPC, que diz respeito
a esta matéria da condenação, com o art. 610.º CPC, levantam-se aqui questões
complexas.

O facto de a obrigação não ser exigível, no momento em que, a ação foi proposta
(obrigação de condenação in futurum) não impede que se conheça da existência da
obrigação, desde que o réu conteste.

O art. 557.º CPC trata dos casos em que o autor, na petição inicial, apresenta a obrigação
como futura, enquanto, o art. 610.º CPC trata dos casos em que, é no decurso da ação
que se vê que a ação não é exigível naquele momento.
São de condenação in futurum as obrigações que ainda não são exigíveis, ou que ainda
não se constituíram e o réu vai ser condenado, na medida em que incumpra no futuro.
Ex: Estando em causa prestações periódicas, como é o caso do contrato de locação,
nomeadamente o pagamento da renda por parte do locatário.
Em suma, a primeira opinião defende que o art. 557.º se refere a obrigações já
constituídas, mas a segunda opinião diz que não o estão. O professor diz que o artigo art.
557.º/2 pode ser usado como argumento para a denúncia do fim de contrato de
arrendamento. A doutrina diverge relativamente ao facto de a obrigação em cada artigo
estar ou não constituída e, se está, se é exigível ou não no momento da petição inicial.

• Ações de condenação genérica/ações de condenação no cumprimento


de prestações não quantificadas

O que está em causa neste pedido?

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Existe um princípio processual, o princípio do pedido, sendo que o T, como vamos ver,
está limitado por aquilo que o autor pede, na medida que que, o T não pode condenar o
réu numa coisa diferente daquilo que o autor pediu. Pode sim, haver uma condenação
parcial, mas é diferente.

Ex: O autor pede uma indemnização X mas o T entende que o réu deva ser condenado
numa indemnização mais pequena.

É pelo facto de o T estar limitado pelo princípio do pedido que, cabe ao autor quantificar
o montante do pedido que formula na petição inicial, se for quantificável, o autor tem
o ónus de o fazer, e o ónus de provar os factos que traduzem essa quantificação. Portanto,
o autor deve fazer um pedido quantificado. Esta é a regra!!! Art. 552.º/1 CC.
Feito o an debeatur o pedido de condenação tem de ser procedente.

Todavia, em certas hipóteses o legislador admite que certos aspetos do pedido sejam
deixados por concretizar pelo autor na petição inicial, casos esses que se encontram
previstos no art. 556.º. Quer dizer, a regra de repartição do ónus da prova prevista no art.
342.º CC cede o lugar a um regime processual orientado no sentido de consentir, dentro
do condicionalismo a referir, a quantificação posterior da indemnização devida em
concreto.
Permite-se que o conhecimento do objeto da ação de condenação se faça de modo
fracionado, o que, no caso de procedência de pedido, acaba por conduzir a uma
sentença a que falta a concretização do valor ou o objeto da prestação que o autor
tem direito a receber.
Isto desde que haja sido feita prova dos factos constitutivos da obrigação de
indemnização.

Daí que o art. 564.º/2 CC mande atender aos danos futuros no cálculo da indemnização,
autorizando que a determinação do seu quantitativo seja relegada para decisão ulterior.

Também pode-se ser feita uma menção ao art. 565.º CC, que prevê que a liquidação do
montante da indemnização venha fazer-se posteriormente à decisão que julga o pedido
procedente, sem prejuízo da condenação imediata no quantitativo provado.

É permitido formular pedidos genéricos em 3 casos:

• Quando estejamos perante uma universalidade de facto (ex: biblioteca,


rebanho) ou uma universalidade de direito (ex: herança)
É possível deixar por quantificar porque há elementos que não conhecemos.
• Quando não seja ainda possível determinar, de modo definitivo, as
consequências do facto ilícito, ou o lesado pretenda usar a faculdade do art.
569.º CC;

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• Quando a fixação do quantitativo esteja dependente de prestação de contas


ou de outro ato que deva ser praticado pelo réu.

Ex: Uma ação entre cônjuges em que um é o cônjuge administrador e o outro cônjuge
pede contas sobre a administração, dado que, desconhece o resultado da administração.

Nas demais situações, quem reclama indemnização suporta o ónus de alegar e provar o
valor dos danos dentro do processo onde os factos estão a ser apreciados, já que o
elemento quantitativo, por via de regra, não pode ser autonomizado em relação à demais
factualidade integradora da factis specie de que o autor se socorre ao pedir a condenação.

Nos dois primeiros casos, o pedido é concretizado através da liquidação. A liquidação,


por sua vez, configura uma forma de tramitação acidental, por exemplo, imaginemos
que no decurso da ação uma das partes morre, neste caso, há lugar a uma tramitação
acidental para habilitar os sucessores, porque a ação continua, mas agora com os
sucessores.
É no título III do livro II (art. 292.º CPC e ss.) que estão plasmados os incidentes de
instância. Após as disposições gerais estão previstos um conjunto de incidentes, por
exemplo, incidentes de valor da causa, nos casos em que o autor indica o valor e o réu na
contestação indica um valor diferente; incidentes de intervenção de terceiro e habilitação;
incidentes de liquidação.
Interessam-nos, neste momento os incidentes de liquidação – art. 358.º a 361.º CPC.

Nestas hipóteses o tribunal deve conhecer na sentença o que possa logo conhecer,
deixando para depois a liquidação do que não pode ser apurado no processo. Art.
556.º CPC.

O autor pode deduzir pedidos genéricos que têm uma formulação do género “que o réu
seja condenado naquilo que se vier a liquidar”. Ele não quantifica o pedido. Isso é
possível quando o art. 556.º permite – quando não é possível determinar as consequências
do facto ilícito (ainda) ou quando há insuficiência das provas produzidas (artigo 569º
CC).

Não é possível determinar as consequências de um facto ilícito, por exemplo, o caso de


uma intervenção cirúrgica que corre mal por negligencia, mas a atuação pode ainda estar
estabilizada, ainda não se consegue quantificar o dano, e por isso, não se consegue
quantificar o pedido.
Então, na petição inicial, nos termos do 556.º, o autor expõe os factos, mas ao invés de
pedir uma indemnização que quantifica em X, como ainda não é possível determinar
de modo definitivo as consequências, o autor pede que o réu seja condenado naquilo
que se vier a liquidar, sendo este um pedido de condenação genérica.

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Faz-se a liquidação através de um incidente de liquidação no processo, vai enxertada


a liquidação, mas também pode acontecer que não saibamos quando será possível essa
determinação, e por isso, segundo o 556.º/2 pode ser deduzida depois de proferida
sentença de condenação genérica nos casos em que a lei prevê, porque o autor tem o ónus
de quantificar o seu pedido.

Art. 716.º/7:

7 - Quando a iliquidez da obrigação resulte de esta ter por objeto mediato uma
universalidade e o autor não possa concretizar os elementos que a compõem, a liquidação
tem lugar em momento imediatamente posterior à apreensão, precedendo a entrega ao
exequente.

Pode por um lado haver pedido de condenação genérica, e o réu é condenado naquilo que
se vier a liquidar, e se não for possível liquidar aquando do decorrer do processo, a
liquidação tem lugar já depois da sentença.
Até 1995 o que aconteceu foi que, a sentença de condenação genérica era já um título
executivo, ou seja, podíamos pegar na sentença de condenação genérica e intentar uma
ação executiva. A solução hoje já não é essa, a lei diz que a instância declarativa estava
extinta porque o juiz já proferiu decisão, mas o que vai acontecer é que se vai
renovar a instância, para ter lugar um incidente de liquidação, e só depois se pode
intentar a ação executiva.

704ºnº6 CPC.

6 - Tendo havido condenação genérica, nos termos do n.º 2 do artigo 609.º, e não
dependendo a liquidação da obrigação de simples cálculo aritmético, a sentença só
constitui título executivo após a liquidação no processo declarativo, sem prejuízo da
imediata exequibilidade da parte que seja líquida e do disposto no n.º 7 do artigo 716.º.

Segundo o art. 609.º/2 -se não houver elementos para quantificar, o tribunal condena ao
que vier a ser liquidado, e por isso, a sentença de condenação genérica só virá a ser título
executivo, quando houver liquidação no processo declarativo, mas segundo o art. 704.º/6,
já pode servir como título de hipoteca judicial.

O que é a hipoteca judicial?

A hipoteca judicial é uma solução legislativa que visa proteger o credor contra o risco
de incumprimento, de algum modo potenciado com a impossibilidade de se utilizar
a via executiva antes da liquidação. Esta hipoteca dá ao credor, mesmo antes do trânsito
em julgado da sentença de condenação, a possibilidade de, se ele quiser, requerer a
inscrição da garantia sobre bens do património do devedor. É necessária, no registo, a
indicação do valor assegurado pela hipoteca, mas o obstáculo criado pela iliquidez da
condenação pode ser ultrapassado atendendo-se ao montante indicado pelo
requerente do registo, desde que não ultrapasse o valor da ação na qual a sentença foi

Ana Castro e Catarina Morais 16


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

proferida e sem prejuízo de o titular dos bens onerados pedir a redução do


quantitativo inscrito.

Em suma, o autor pode deduzir um pedido de condenação genérica não quantificado.


Nesses casos, o autor deve deduzir o incidente da liquidação para tornar
quantificado o que ele não quantificou antes do início da discussão. Se isso não for
possível, pode vir a ser diferida uma sentença de condenação genérica, nos termos do
609.º/2. Assim sendo, a liquidação da sentença terá lugar não na ação executiva
(porque ainda não é a título executivo), mas a instância que estava extinta vai renovar-
se para haver incidente de liquidação e só depois disso é que a sentença é a título
executivo.

A este propósito convém distinguir, o quantum debeatur do an debeatur, ou seja, quanto


é devido e se acaso é devido.

O autor tem o ónus de provar os factos que integram o an debeatur, provando que é
devido, mas pode não conseguir demonstrar quanto é devido. Nessa altura, ao invés
do que resulta da aplicação das regras do ónus da prova, que daria improcedência da ação,
ao invés de improceder, tendo o autor demonstrado que algo é devido, mas não quanto,
ao invés de ser julgado improcedente, há condenação do réu naquilo que se vier a liquidar
– sentença de condenação genérica. Ou seja, julgada a ação procedente, pode seguir-
se a segunda intervenção do T destinada unicamente à quantificação dos danos que
o réu já foi condenado a indemnizar, embora sem especificação da importância
concretamente devida.
Esta é uma fase processual que se destina unicamente à alegação e prova dos concretos
prejuízos.
O autor em determinados casos pode fazer um pedido de condenação genérica, mas o
autor ainda não é capaz de determinar as consequências do facto ilícito, por ex numa
intervenção médica, mas o autor tem o ónus de mostrar o an debeatus, os pressupostos da
RC (483ºCC), ora o autor tem o ónus de alegar os factos de que resulta da demonstração
de que é devida uma obrigação, inclusive no que diz respeito ao dano. O autor pode deixar
de fazer a quantificação, mas tem o ónus de demonstrar na ação que foi praticado um
facto ilícito culposo, que houve um dano e que há nexo de causalidade. Ele não consegue
demonstrar o quantitativo desse dano, e assim, pode-se deixar o aspeto relativo à
quantização do dano, seja no decorrer da ação ou depois da ação.

Uma consequência de partir os dois momentos é que, no âmbito da discussão sobre o


quantum não se pode reabrir a discussão relativa ao an, logo, o incidente da liquidação
não pode servir para se apurarem novos elementos que ultrapassem a liquidação genérica
constituída, pois o T já se pronunciou em sentido afirmativo embora tivesse deixado para
uma intervenção judicial posterior o apuramento do respetivo montante.(Sem prejuízo da
possibilidade de impugnação relativamente à condenação que o juiz proferiu.) Só se
passa para o domínio do quantum quando, na fase anterior, se dá prova de que a
pretensão do autor tem fundamento perante os factos provados e o direito aplicável.

Ana Castro e Catarina Morais 17


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É só determinar os valores já contidos na condenação, mas agora trata-se de especificar.


Ou seja, só se determina o que já estava na condenação.

Todavia, isso não significa que o T competente para a liquidação não tenha dificuldades
quando chamado para apreciar o resultado da prova dos factos que interessam para a
determinação do quantum. Nestes casos, incumbe ao juiz completar a prova
proveniente das partes, mediante indagação oficiosa, ordenando, designadamente, a
produção de prova pericial.

Aqui o raciocínio é, se é devido quanto é devido.

É importante ressalvar que, existe possibilidade em face da sentença que julgou


preenchidos os pressupostos do an debeatur, as próprias partes, por sua iniciativa,
negociarem o valor concreto da prestação a satisfazer.

NOTA: art. 609.º - segundo a doutrina maioritária, sempre que se prove que houve dano,
mas não se apure o seu quantum, deve haver sentença de condenação genérica.

Mas há uma interpretação mais restritiva da norma – só pode haver sentença de


condenação genérica quando os danos, no caso de ser uma ação de responsabilidade civil
não estiverem estabilizados, ou seja, quando não era possível determinar, quantificar, a
obrigação. Outra coisa é ser possível quantificar, mas o autor não o querer fazer. Aqui,
ele não observou o ónus e a sentença de condenação seria uma segunda oportunidade de
quantificar o ónus.

• Ações de condenação de tutela inibitória

Esta modalidade de ação pode ser aproveitada como mecanismo dirigido à proteção de
determinadas situações contra o risco de comportamentos futuros, quer eles ainda não
se tenham manifestado, quer representem a continuação de condutas já
anteriormente iniciadas.
O que está em causa nestas ações, ou seja, a sua finalidade consiste numa abstenção da
prática de um comportamento futuro, e por isso, podemos falar aqui de uma
prestação de facto negativo. Esta significa que, o devedor da respetiva obrigação está
obrigado a abster-se de algum comportamento. Aquilo que o autor pretende, é que o réu
seja condenado a não fazer alguma coisa, coisa essa que é lesiva de um direito seu.
Traduz-se na imposição de um non facere.

Ao contrário do que acontece nas ações de condenação in futurum, que o que está em
causa, é a prática de um comportamento futuro positivo, aqui impõe-se a prática de um
comportamento negativo, a abstenção da prática de um facto.

Existem alguns exemplos nominados no CC, nomeadamente os do art. 70.º/2 CC, artigo
este que trata da matéria relativa à tutela da personalidade. Sendo que, independentemente

Ana Castro e Catarina Morais 18


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da RC a haver lugar, é possível requerer as medidas necessárias para evitar ou atenuar a


consumação.

Ex: O réu é condenado a não publicar fotos ofensivas do lesado numa revista.

Em 2013 foi criado um processo especial, previsto nos art. 878.º a 880.º CPC.

Permite que a pessoa ameaçada, o ofendido, requeira as providências necessárias


para a respetiva tutela, assim como a condenação de prática de um facto negativo.

Ex: No âmbito do direito das coisas a ação do artigo 1276.º CC.

Ex: DL relativo às CCG 446/86 de 25/10. As CCG, quando contrariem a lei, podem ser
proibidas por decisão judicial, na medida em que, pode haver uma decisão judicial através
da qual, uma empresa seja condenada a não colocar no contrato cláusulas abusivas.

Ex: DL 110/2018.

A decisão judicial de mérito, pode impor ao infrator uma medida destinada a inibir
a continuação da prática.

Estas ações têm uma função cautelar, no sentido de evitar a lesão do direito, ou a
continuação da lesão do direito. Destinam-se a evitar que o réu seja condenado a não
praticar um comportamento, porque esse comportamento viola um direito do autor.

Devemos confrontar no futuro, esta matéria das ações de condenação de tutela inibitória
com as providências cautelares, que estão ligadas, na órbita, de uma ação.

Por exemplo, eu sou proprietário de um imóvel, e vai ser construído outro ao lado do meu
e considero que a obra a ser feita é abusiva, no sentido em que, perco a vista que tinha.
Assim, vou intentar uma ação em que o réu é condenado a não fazer essa obra. Todavia,
a obra já começou, por isso posso ter interesse numa ação cautelar.

Outro exemplo, a construção de uma barragem punha em causa habitats naturais que não
são recuperáveis. Aqui intentava-se uma ação declarativa de condenação de tutela
inibitória para que a empresa não construísse a barragem, e a par desta, uma providência
cautelar para impedir que as máquinas iniciem o seu trabalho enquanto decorre o período
da ação. Se a providência cautelar fosse procedente o tribunal não ia dizer que não se
pode construir, visto que a declaração do direito dá-se durante a ação, na providência
cautelar não se tem de fazer prova do direito, mas sim uma prova perfunctória de primeira
aparência, convencendo o T de que é provável a lesão de um direito, e nesse sentido, o T
ordena que se pare a construção e na ação principal decide-se.

Por aqui se distingue a tutela cautelar provisória e a tutela cautelar definitiva.

Ana Castro e Catarina Morais 19


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As ações inibitórias têm uma natureza cautelar definitiva, porque estamos no âmbito de
uma ação principal.

Já as providências cautelares são de natureza provisória, isto porque, produz efeitos até
que seja decidido na ação.

Constitutivas

Estas ações têm como objetivo autorizar uma mudança na ordem jurídica existente.
São, portanto, aquelas que dizem respeito ao exercício de direitos potestativos. São
aqueles direitos em que o titular pode operar uma mudança na OJ (criação, modificação
ou extinção de uma relação jurídica) sem a vontade do respetivo sujeito passivo que se
encontra em estado de sujeição.

Ao passo que, nas ações declarativas de simples apreciação, procura-se apenas a


declaração de um certo estado de coisas ou de factos. Essa declaração não altera a
realidade jurídica, o T declara a existência ou inexistência do direito. Já nas ações de
condenação pretende que, o réu conforme o seu comportamento àquilo que é devido (seja
condenado num comportamento ora negativo ora positivo). Sendo a sentença um título
executivo, não quer dizer que, o réu adote o comportamento desejado, mas o autor já pode
intentar a ação.

Já nas ações constitutivas é o próprio conteúdo da OJ que se pretende modificar,


seja através da criação, modificação, extinção de uma relação jurídica. As ações
constitutivas dizem respeito ao exercício de direitos potestativos, enquanto as ações de
condenação não, sendo direitos subjetivos em sentido estrito, direitos de crédito.

O que caracteriza um direito potestativo, é que o sujeito passivo está em estado de


sujeição e por isso está sujeito, independentemente da sua vontade, a que por
vontade do autor se produzam mudanças na OJ. Decorre da própria natureza do direito
potestativo, que é o poder de alguém de, sem a colaboração da outra parte, produzir uma
mudança na OJ.
No caso dos direitos de crédito, o sujeito passivo acha-se vinculado à realização de uma
prestação que funciona como via de acesso à fruição do bem jurídico devido à contraparte
(dever de prestar).

Com a sentença produz-se o efeito modificativo ou conformativo, mas este efeito


decorre da própria sentença (o efeito modificativo ou conformativo) não depende do
comportamento do réu. Há aqui também um momento de simples apreciação, o tribunal
só pode ordenar a mudança na ordem jurídica se primeiro apurar que existe o
direito potestativo correspondente. Se a ação proceder, produz-se o efeito modificativo
(ou conformativo, como dizem os alemães).

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Atendendo à função que a figura em análise é chamada a desempenhar no OJ, ficam


excluídos da tutela constitutiva os casos em que o direito potestativo, segundo o
regime previsto na lei substantiva, pode ser exercido única e exclusivamente por ato
unilateral do respetivo titular. Ex: Declaração de vontade de provocar a resolução de
determinado contrato, art. 436.º/1 CC. O automatismo da produção do resultado
pretendido, em ligação com a simples manifestação da vontade do titular ativo, faz
desaparecer a necessidade de se deduzir o pedido correspondente perante o T.

Exemplos de ações constitutivas com recurso aos tribunais:

• Ação de anulação do NJ, art. 287.º CC, tenho de intentar uma ação no tribunal,
dado que, não posso enviar uma carta à outra para anular o contrato.
• Ação de divisão de coisa comum, compropriedade, os comproprietários têm um
direito a dividir a coisa comum. Art. 925.º a 930.º CC.
• Ação para constituição de obrigação de alimentos, art. 2003.º CC.
• Ação para a constituição de uma servidão legal de passagem, art.1550.º CC e
1547.º CC, visa criar um direito novo, constituição de uma servidão. Há casos em
que há um direito legal.

Por exemplo, tenho um prédio rustico que não tem acesso à via pública e preciso de passar
pelos prédios dos vizinhos, tenho o direito de constituir uma servidão, o réu não vai ser
condenado a nada se a ação proceder, se o réu mete lá um entrave já é um problema
diferente. O direito de servidão de passagem não é um direito potestativo, mas é um
direito real de gozo. O direito potestativo é o direito de constituir uma servidão (art.
1550.º).

Nada obsta a que sucedaneamente ao exercício do direito surjam posições jurídicas


derivadas, por ex eu pretendo anular um contrato e como consequência da anulação tenho
direito à restituição de tudo o que prestei (como está previsto no 289.º que prevê os efeitos
avassaladores e em dominó da nulidade ou anulação), produz-se efeitos ex tunc, dando
origem a uma ação constitutiva com pedido condenatório a restituição.

• Outro exemplo de ação constitutiva é a da ação de execução específica de


contrato promessa, sendo que, perante uma situação de incumprimento há duas
vias possíveis:

1. Exigir o cumprimento;
2. Resolver o contrato e pedir uma indemnização por incumprimento.

A execução específica do contrato promessa é a via do cumprimento, sendo que, o que


vai acontecer na execução específica se procedente, é que o T se vai substituir ao
promitente faltoso na emissão da DN em falta, e com isso dá-se por assegurado o
contrato prometido. Pode parecer executiva, mas é declarativa.

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O professor Varela diz que é uma ação de condenação particular (condenava e substituía-
se imediatamente), aqui não tratamos dessa ação assim, não há condenação.

Ações Executivas – art. 10.º/4

Têm como finalidade a execução de uma certa obrigação que é devida ao executante.
Procuram vencer a resistência do devedor no cumprimento da respetiva obrigação.
Estas ações têm uma natureza sub-rogatória, pois o Estado não pode obrigar o devedor a
cumprir à força. O que acontece aqui, é que o Estado se vai substituir ao devedor para
satisfazer o interesse do credor.

Ex: A é credor de B de uma dada quantia certa, 50.000. O que vai acontecer é que o
Estado através do agente de execução, vai penhorar bens do executado e depois esses
bens são vendidos e com o produto da venda o Estado entrega o dinheiro ao credor. Se
não for de uma quantia, mas de coisa certa, o Estado vai à procura da coisa e apropria-se
dela entregando ao credor.

Podem ser de 3 tipos:

• Para pagamento de uma quantia certa


• Para entrega de coisa certa (se não for pecuniária)
• Para prestação de facto (positivo ou negativo)

NOTA: Atualmente o nosso código segue o sistema francês no que toca a esta matéria, e
por isso a lógica nestes casos é, se o processo estava numa fase declarativa e depois
prossegue para a executiva (no caso do título executivo ser a sentença condenatória), isto
tudo no mesmo processo, o que ocorre é por iniciativa do autor, não oficiosamente.

Os princípios processuais

A vantagem dos princípios em geral é que são elementos de síntese, de simplificação.


Através do recurso a eles permite-se com alguma comodidade formular juízos sobre
ideias gerais, mas que não substituem o conhecimento das matérias. Podem ser divididos
em 3 grandes grupos:
• princípios atinentes às partes;
• princípios atinentes ao juiz;
• princípios atinentes à estrutura do processo.
Princípio atinente à atividade do juiz.

Ana Castro e Catarina Morais 22


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O princípio do dispositivo - art. 5.º/1

Iudex iudicare debet secundum allegata et probata partium (non secundum


conscientiam)

Artigo 5.º (art.º 264.º/664.º CPC 1961)


Ónus de alegação das partes e poderes de cognição do tribunal
1 - Às partes cabe alegar os factos essenciais que constituem a causa de pedir e aqueles em
que se baseiam as exceções invocadas.
2 - Além dos factos articulados pelas partes, são ainda considerados pelo juiz:
a) Os factos instrumentais que resultem da instrução da causa;
b) Os factos que sejam complemento ou concretização dos que as partes hajam alegado e
resultem da instrução da causa, desde que sobre eles tenham tido a possibilidade de se
pronunciar;
c) Os factos notórios e aqueles de que o tribunal tem conhecimento por virtude do exercício
das suas funções.
3 - O juiz não está sujeito às alegações das partes no tocante à indagação, interpretação e
aplicação das regras de direito.

Modelo liberal - individualístico- séc. XIX

Neste modelo, aborda-se um dispositivo radical, que consistia no poder de disposição


das partes sobre o objeto do processo e SOBRE O PRÓPRIO PROCESSO, na
medida em que, falamos aqui de um dispositivo em sentido material ou estrito.

O juiz devia decidir a causa com base nos factos essenciais e instrumentais e nas provas
convocadas pelas partes, sendo que, estas eram donas do próprio processo dirigindo-o.

Embora nunca tenha existido modelos puros no sentido de haver um modelo totalmente
dispositivo ou inquisitório, o modelo processual que vigorava no século XIX pode ser
chamado de modelo liberal individualístico. Era um modelo de dispositivo radical. O
processo civil é permeável a oscilações políticas, apelando à analogia de que o PC é como
as velas de um navio que oscilam consoante o estado do mar.

O que caracteriza este modelo de processo?

Era o facto de ser um modelo de dispositivo radical, Iudex iudicare debet secundum
allegata et probata partium (non secundum conscientiam)

O que resulta da frase é que, o juiz deve decidir a causa com base nos factos que as
partes trouxerem ao processo e com base nas provas que as partes trouxerem, sendo
um juiz passivo, na medida em que, a iniciativa de trazer para o processo, sejam
factos essenciais ou complementares, ou provas, é da iniciativa das partes. O juiz era
o convidado de pedra do processo. O processo é uma luta entre as partes e o juiz o árbitro
que assiste ao duelo entre elas, e no fim toma uma decisão.

Ana Castro e Catarina Morais 23


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O significado do princípio do dispositivo em sentido material, é o de que as partes são


responsáveis em matéria de facto e matéria de prova, são as partes que devem
introduzir no processo as fontes de prova e requerer os meios de prova.

No diploma preambular do DL que em 94/95 operou uma grande reforma do Processo


Civil lê-se em tom de critica: “Um dia um advogado quis à viva força adiar uma audiência
de julgamento”, uma vez que começou por ditar os artigos desde o primeiro até ao que se
fazia necessário para adiar a audiência. Ou seja, um advogado queria adiar uma audiência,
pediu a palavra ao juiz e começou a ditar o código e depois teve de ser adiada a audiência.

Atualmente, isso era impensável, o juiz tirava-lhe de imediato a palavra.

Acreditava-se que quanto mais passivo for o juiz, mais imparcial ele será e seria a
decisão. Em função disso, o juiz não se podia pôr a produzir provas ex officio, senão
deixa de ser imparcial, era esta a conceção da altura. Portanto, segundo esta visão de
dispositivo radical, as partes são donas não só do objeto do negócio, mas também do
próprio processo.

Afirmava-se, por contraposição ao processo penal, que no processo civil não havia
aspiração à verdade material, mas sim a uma verdade formal, ou seja, através dum
sistema de ónus subjetivo, as partes geram uma verdade formal, por exemplo, no art.
574.º/2 CPC, o réu na contestação tem o ónus de impugnação especificada, isto é, pode
tomar uma posição sobre os factos alegados pelo autor na petição inicial, mas não pode
simplesmente apresentar uma contestação a dizer que nega o que o autor diz, porque assim
não cumpre o ónus, tem mesmo de tomar uma posição relativamente a cada um dos factos.
Se o réu não observar este ónus, os factos consideram-se admitidos por acordo - há
quem considere que encontramos aqui a ideia de verdade negociada ainda presente, mas
o professor considera que a expressão não é bem utilizada, porque a norma apenas
presume que se o réu não contestou, concorda com os factos alegados pelo autor, não
havendo nenhuma natureza negocial;

Tratava-se de um sistema de ónus subjetivos, dado que, as partes tinham o ónus da


prova, e estavam sozinhas em matéria de produção de prova, uma vez que, não
podiam contar com a colaboração de parte contrária. Atualmente prevê-se o oposto,
de acordo com o art. 7.º CPC, que traduz o princípio da cooperação.

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Artigo 7.º (art.º 266.º CPC 1961)


Princípio da cooperação
1 - Na condução e intervenção no processo, devem os magistrados, os mandatários judiciais e
as próprias partes cooperar entre si, concorrendo para se obter, com brevidade e eficácia, a
justa composição do litígio.
2 - O juiz pode, em qualquer altura do processo, ouvir as partes, seus representantes ou
mandatários judiciais, convidando-os a fornecer os esclarecimentos sobre a matéria de facto
ou de direito que se afigurem pertinentes e dando-se conhecimento à outra parte dos resultados
da diligência.
3 - As pessoas referidas no número anterior são obrigadas a comparecer sempre que para isso
forem notificadas e a prestar os esclarecimentos que lhes forem pedidos, sem prejuízo do
disposto no n.º 3 do artigo 417.º.
4 - Sempre que alguma das partes alegue justificadamente dificuldade séria em obter
documento ou informação que condicione o eficaz exercício de faculdade ou o cumprimento
de ónus ou dever processual, deve o juiz, sempre que possível, providenciar pela remoção do
obstáculo.

Por outro lado, as partes também não podiam contar com a iniciativa do juiz em matéria
probatória, estavam sozinhas e tinham de fazer a prova dos factos. Reiterando, fala-se em
dispositivo radical, porque aqui as partes tinham não só a disposição do objeto do
processo, mas também do próprio processo.
O art. 417.º CPC é um dos casos em que a lei estabelece deveres concretos de
colaboração, tendo as partes um dever de colaboração e da mesma forma, o juiz também
tem deveres em matéria probatória de colaboração com as partes.
Com o século XX e o surgimento do Estado Social houve reflexos no processo,
nomeadamente um fenómeno de publicitação. Os interesses que se discutem no
processo são privados, a relação jurídica mitigada é uma relação privada. O princípio
do dispositivo em sentido material, não é mais do que a tradução processual, do princípio
da autonomia privada (398º e 405º CC) ou da titularidade privada dos direitos no plano
da tutela judicial dos direitos. Portanto, tendencialmente o seu âmbito é mais amplo,
quando a ação diz respeito a direitos disponíveis, e mais restrito quando os direitos são
indisponíveis.
O dispositivo em sentido formal ou técnico ou amplo / princípio da contradição /
princípio da responsabilidade das partes é a técnica processual que se baseia no
confronto entre as partes para obtenção dos elementos necessários (facto e prova) para a
tomada de decisão de mérito, segundo um sistema de ónus e preclusão.

Ana Castro e Catarina Morais 25


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Modelo publicístico-social

Na transição para o século XX, foi-se afirmando outro modelo do processo, a que chamam
modelo publicístico-social, que surgiu em Portugal com o CPC de 1939, mais tarde com
o CPC 1961, com a reforma de 1995, 1996, 2013, surgindo a figura do juiz gestor artigo
6.º CPC.

Artigo 6.º (art.º 266.º CPC 1961)


Dever de gestão processual
1 - Cumpre ao juiz, sem prejuízo do ónus de impulso especialmente imposto pela lei às partes,
dirigir ativamente o processo e providenciar pelo seu andamento célere, promovendo
oficiosamente as diligências necessárias ao normal prosseguimento da ação, recusando o que
for impertinente ou meramente dilatório e, ouvidas as partes, adotando mecanismos de
simplificação e agilização processual que garantam a justa composição do litígio em prazo
razoável.
2 - O juiz providencia oficiosamente pelo suprimento da falta de pressupostos processuais
suscetíveis de sanação, determinando a realização dos atos necessários à regularização da
instância ou, quando a sanação dependa de ato que deva ser praticado pelas partes, convidando
estas a praticá-lo.

Considerando, novamente, a expressão latina já antes mencionada, “Index iudicare debet


secundum allegata et probata partirem (non secundum conscientiam)” a transição para
este novo modelo processual, do ponto de vista técnico, fez-se à custa de uma cisão,
ficando então “Index indicare debet secundum allegata”.

Por conseguinte, isto significa que as partes não têm disposição do processo
propriamente dito - uma coisa é ter a disposição da relação controvertida, outra é ter a
disposição do processo. As partes são livres de desencadear o processo, mas depois é ao
juiz que cabe a direção do processo, trazendo à discussão a dimensão pública do
processo.
O juiz deve decidir a causa de acordo com os factos que as partes trouxeram ao processo,
ou seja, as partes têm o domínio do dispositivo em sentido material no que diz
respeito à alegação de factos essenciais.

Onde está a grande tensão?

Nas provas.

O juiz para ser imparcial pode ter iniciativa em matéria de produção de prova, mas
quantos mais poderes o juiz tem mais parcial será. Todavia, se o juiz está empenhado em
apurar a verdade material, e não beneficiar as partes não há motivo para não ter poderes
de natureza probatória.

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Não há nenhuma razão para que o juiz deva ser passivo em matéria instrutória,
porque está fora do âmbito do dispositivo em sentido material.
É que uma coisa é dizer que a relação controvertida é privada e as partes tem a disposição
sobre essa relação, outra é dizer que elas têm disposição sobre o processo
propriamente dito, uma vez que isso não têm. As partes são livres de entrar na nave da
justiça, mas depois de estarem no barco, o timoneiro é o juiz, as partes não têm o domínio
do processo.
A cisão descrita acima traduz a ideia de que o juiz deve decidir a causa de acordo com os
factos que as partes trouxeram ao processo, porque estamos dentro do domínio do
dispositivo em sentido material, no que diz respeito à alegação de factos essenciais, mas
não há nenhuma razão para que o juiz deva ser passivo em matéria instrutória, em matéria
probatória, porque isso está fora do dispositivo em sentido material.

Neste sentido é importante perceber o significado e as manifestações do dispositivo em


sentido material quando se afirmou a parte pública do processo:
• Isto é, mesmo com esta afirmação, o núcleo duro do princípio dispositivo, ou seja,
o dispositivo em sentido material, que é a tradução processual da autonomia privada,
se mantém intacto uma vez que as partes é que dão início ao processo e cabe às
mesmas alegar os factos. Se pensarmos que o processo tem por base interesses
privados e as partes têm a disposição dessa relação, concluímos que o núcleo duro
não está afetado.
• Não se pode é daí concluir que o juiz deve ser passivo, porque não decorre do
dispositivo em sentido material. Fora deste âmbito, já não há razão para que ao lado
dos poderes das partes e do ónus das partes, não haja ao mesmo tempo um poder do
juiz.
Existe neste modelo uma visão restritiva da qual os poderes dos juízes são meramente
complementares do poder das partes, há quem tenha uma visão mais ampla em que há um
modelo cooperativo, ou seja as partes têm poder de iniciativa probatória e o juiz também
e por isso existe um modelo de cooperação.

Ao modelo publicístico associa-se o conceito de ónus e o princípio da preclusão, porque


o CPC estabelece momentos processuais para as partes apresentarem as suas provas, por
exemplo, juntarem documentos. Exemplificando, as partes, por estratégia processual e
porque não há no nosso OJ um dever de produzirem espontaneamente provas contra si,
decidem não juntar alguns documentos, e passando o momento processual até ao qual
isso podia ser feito, o direito precludiu-se. De acordo com o art. 411.º CPC, ao abrigo
do princípio do inquisitório, do princípio da verdade material e do princípio da
cooperação, o juiz tem um poder dever na prática de ordenar oficiosamente a junção do
documento em falta, porque é essencial para o apuramento da verdade material.
No entanto, se entendermos que o princípio do inquisitório está limitado pela
responsabilidade das partes, o juiz não podia fazê-lo, porque implicaria uma visão mais

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ampla. Tendo se precludido o direito das partes, os poderes oficiosos do juiz, em matéria
de constituição probatória, não podem constituir uma forma de sanar a negligência das
partes, ou seja, os seus poderes de produção oficiosa de prova devem ser vistos como
poderes complementares, no sentido em que o juiz apenas pode complementar as partes,
mas não pode substituir-se a elas.
Nota: Uma ação não se pode repetir, a isto chama-se litispendência. Se o autor intentar
uma ação pela segunda vez, no segundo processo falta um pressuposto processual
negativo que daria lugar à absolvição de instância. Isto porque uma ação se repete
quando as partes, do ponto de vista jurídico são as mesmas, o pedido é o mesmo e a
causa do pedido é também a mesma.
Numa visão mais ampla, o juiz tinha o poder dever de o fazer.

A partir do momento em que se afirma os poderes do juiz - princípio do inquisitório do


art. 411.º CPC, nasce uma tensão, isto porque, o modelo liberal individualístico era mais
perfeito. A partir do momento em que se afirma o princípio do inquisitório com o modelo
publicístico social, geram-se conflitos entre os interesses privados e a dimensão pública
do processo.

O princípio dispositivo em sentido material tem manifestações, sendo que as partes têm
a titularidade da disposição do objeto do processo (que é a relação controvertida).
Podemos falar num “se” e “sobre quê” do processo.
Se há um processo significa que, a relação é uma relação privada das partes, não é o T
que oficiosamente vai intentar a ação, a regra é o princípio do pedido, sendo que, o
princípio do pedido é um corolário deste princípio. A relação é privada porque não é o
Estado que vai desencadear a ação. Não há juiz sem autor. Artigo 3.º/1 CPC.

Artigo 3.º (art.º 3.º CPC 1961)


Necessidade do pedido e da contradição
1 - O tribunal não pode resolver o conflito de interesses que a ação pressupõe sem que a
resolução lhe seja pedida por uma das partes e a outra seja devidamente chamada para deduzir
oposição.

Ne eat ultra petita partium; nemo iudex sine auctore

Daqui resulta uma liberdade de instauração, se a relação é privada, são as partes que
desencadeiam o processo, se quiserem, estando na sua livre disposição, fazê-lo ou não.
Para além de ter de ser o autor a desencadear a ação, as partes é que vão delimitar e
conformar o objeto do processo e os sujeitos do mesmo.

O Autor tem o ónus de alegar os factos que integram a causa de pedir e o Réu tem o
ónus de alegar os factos que integra em matéria de exceção perentória.

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São estes factos que constituem os factos essenciais da causa, são aqueles que modelam
o processo.

Ver artigo 5.º/1 e 552.º/1/a, d) e e).

Neste sentido importa abrir um parêntese para a distinção entre factos essenciais e factos
instrumentais:
• Os factos essenciais são os que integram a causa do pedido e as exceções de
perentório - 5.º/1 CPC; 552.º/1 CPC alínea a), alínea d) e alínea e); 260.º CPC
e ss. O réu pode defender-se por exceção perentória, trazendo novos factos ao
processo ou pode trazer, também, normas, porque estas estão escaladas numa
lógica de norma/ contra norma. Para ilustrar, pensemos, por exemplo, na causa
normal de extinção da obrigação (cumprimento). O autor, neste caso, intenta uma
ação de condenação, logo tem o ónus de alegar que a obrigação existe. O réu pode,
na contestação dizer que não impugna, mas que já cumpriu. Assim, traz um facto
novo ao processo que integra uma contra norma, porque há um contrato que tem
de ser cumprido / a obrigação extingue-se com o cumprimento; Também a
celebração de um contrato sob coação moral é anulável numa lógica de defesa por
exceção perentória, porque não põe em causa os factos no pedido, mas traz factos
novos;

• Os factos instrumentais são aqueles que servem para a prova de outros factos,
porque pode haver uma cadeia de factos suplementares que integram a causa do
pedido, por exemplo, factos que integram a espécie legal de uma norma da qual
o autor pretende extrair o efeito legal nela previsto;
Em certa medida, os factos essenciais trazem um alargamento ao objeto do processo, por
exemplo, no primeiro caso enunciado anteriormente, o juiz teria de decidir primeiro se
havia um contrato, se era válido, … Os factos instrumentais servem a prova de outros
factos, ou seja, têm uma função probatória.
Retomando o que foi dito anteriormente, as partes é que delimitam o objeto do
processo, ou seja, são as partes que dizem ao juiz “sobre quê” que ele vai tomar uma
decisão e fazem-no através da alegação dos factos essenciais, que conformam o
objeto do processo.

Para além do que foi falado até agora, compete às partes a introdução das próprias partes
no processo e a conformação da causa no que diz respeito às partes, o autor deve
identificar a pessoa do réu e depois pode haver modificações subjetivas,
nomeadamente a substituição de partes ou entrada de novas partes, surgindo aqui
incidentes da instância, artigo 292.º e ss. CPC, e incidentes de intervenção de terceiros,
artigos 311.º e ss. CPC.

Ana Castro e Catarina Morais 29


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Há casos em que uma ação só é admissível se estiverem nela várias pessoas, seja do lado
ativo ou passivo, a isto chama-se litisconsórcio necessário e coligação necessária.

As faltas destes pressupostos processuais são sanáveis e o juiz deve providenciar pela
sanação, segundo o artigo 6.º/2 CPC. Imaginemos que uma ação devia ter sido intentada
por duas pessoas, por exemplo, artigo 34.º/1 CPC, então estamos perante um
litisconsórcio necessário ativo, a instância pode ser regularizada, chamando ao processo
quem devia estar e o juiz deve providenciar oficiosamente por isso, mas neste caso o juiz
não pode chamar o cônjuge em falta, porque a modelação objetiva e subjetiva (artigos
261.º e 262.º CPC) do processo cabe às partes, é uma manifestação do princípio do
dispositivo.

Portanto, neste caso sendo preciso chamar uma das partes à causa o juiz não pode fazer
isso oficiosamente, pode e deve oficiosamente providenciar pela sanação, mas não
pode oficiosamente chamar o terceiro, tem é de dar oportunidade às partes para o
fazerem. Depois, as partes podem fazer isso através do incidente da instância designado
incidente da intervenção principal provocada ou intervenção principal espontânea.

Isto tudo para dizer que a modelação subjetiva e objetiva do processo cabe às partes. O
juiz não pode chamar partes ao processo, pode é convidar as partes a fazê-lo porque a
conformação subjetiva do processo pertence as partes.

Vejamos o artigo 5.º CPC:

Antes de 2013, podia ler-se na epígrafe deste artigo “princípio do dispositivo”.

Nº1: Um dos correlatos deste princípio em sentido material está presente no artigo 5º nº1
CPC.

Nº2 alínea a): O juiz conhece oficiosamente factos instrumentais que sirvam para provar
factos essenciais desde que eles resultem da instrução da causa.

Há um princípio de proibição do conhecimento privado, isto é, o juiz não pode usar no


processo o seu conhecimento privado, o juiz pode conhecer a realidade, mas ele não
pode usar esse conhecimento, a realidade deve ser construída através do processo.
Os olhos do juiz estão voltados para o processo e as partes introduzem os factos no
processo através das suas alegações e esses são os factos que o juiz conhece, mas depois
o juiz pode conhecer oficiosamente de factos instrumentais que as partes não alegaram,
desde que resultem da instrução da causa.

Exemplo: O autor requereu que fosse ouvida a testemunha X e essa testemunha afirma
determinados factos instrumentais, que o autor não tinha alegado, o juiz pode conhecer
desse facto que resultou da instrução, porque o conheceu dentro do processo.

Ana Castro e Catarina Morais 30


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Nº2 alínea b): O juiz também pode conhecer oficiosamente de factos que sejam de
complemento ou de concretização dos factos que as partes hajam alegado e resultem da
instrução da causa desde que sobre eles tenham tido a oportunidade de se pronunciar.

Neste caso a questão já é mais complicada. A Dra. Paula Costa falava sobre esta matéria
e tem uma opinião com a qual o professor concorda, estes factos complementares e
concretizadores que factos são? São factos essenciais ou instrumentais? Depende, podem
ser essenciais ou instrumentais.

Sendo factos essenciais, factos complementares ou concretizadores têm de ser sempre


resultantes da instrução. Tratando-se de factos complementares ou concretizadores que
sejam essenciais que completem a causa de pedir ou a exceção perentória invocada, aí já
estamos a mexer com o princípio do dispositivo em sentido material, mas o artigo
acrescenta “desde que seja dada a oportunidade às partes de se pronunciarem”. Há autores
que defendem que aqui já estamos a ir longe demais, para se respeitar o princípio do
dispositivo, é necessário que a parte a quem o facto aproveita queira aproveitar-se dele,
porque senão estamos a desrespeitar o princípio. Se o juiz pode conhecer oficiosamente
de um facto essencial deverá a parte querer aproveitar-se.

Nº2 alínea c): O juiz também pode conhecer os factos notórios e aqueles que o tribunal
tem conhecimento por virtude do exercício das suas funções, por exemplo, noutro
processo em que o juiz foi também juiz.

As partes podem colocar termo ao processo em qualquer momento e, com limites mais
precisos, suspender a causa.

Está na disposição das partes não o processo propriamente dito, mas o objeto do processo,
a relação material controvertida, ou seja, a relação objeto do litígio, por isso é que a
delimitação do objeto do processo cabe às partes. Dito isto de um modo diferente, cabe
às partes dizer assim ao juiz, salvo certas exceções: “decide sobre isto”, determinado
através do pedido e exceções perentórias, portanto, as partes é que vão modelar o objeto
do processo. Esta relação material está nas mãos das partes, por isso, é que elas
podem pôr fim ao processo.

As partes podem praticar atos de auto-disposição do objeto do processo, nomeadamente


a confissão, desistência, transação 283.º e ss. CPC.

1. CONFISSÃO – artigo 352.º e ss. CC: Segundo o CC, a confissão corresponde ao


reconhecimento que a parte faz da realidade de um facto que lhe é desfavorável e
favorece a parte contrária e este prevê ainda o seu regime (capacidade e
legitimação, inadmissibilidade, modalidades, etc.). Assim, a confissão é um meio
de prova que consiste na declaração da realidade de um facto desfavorável ao
confitente.

Ana Castro e Catarina Morais 31


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A confissão judicial escrita tem força probatória contra o confitente e pode ser feita nos
articulados, embora se for feita através de advogado é preciso ter em consideração
o regime do artigo 46.º CPC. Quando um advogado recebe uma peça processual redigida
pela outra parte (petição inicial, contestação, etc.) que contém uma confissão nesse
articulado, no articulado de resposta deve-se escrever:

“Aceita-se especificadamente a confissão do facto tal feita no artigo tal da peça”, porque
assim já não pode ser retirada a confissão. Isto é um regime específico de confissão feita
através de um advogado. Assim, a partir do momento em que a outra parte aceita a
confissão ela depois já não pode ser retirada.
Pode, por sua vez obter-se uma confissão através de um meio de prova que é a prova por
confissão, sendo feita dentro de um processo, devemos consultar o CPC (pois são
normas de Direito probatório formal, já não se trata de quem é que capacidade,
legitimidade para confessar, qual é o valor da confissão, etc.) trata-se da parte de
tramitação – artigos 452º e ss. CPC.
A confissão faz prova plena, portanto, o facto de estar plenamente provado significa
que não se admite prova em contrário.

NOTA: Não devemos confundir a confissão do pedido, o Réu e o Autor reconvindo


podem confessar o pedido, com a confissão de meio de prova.

Isto tudo para falarmos na confissão como meio de prova!

A confissão é uma declaração de ciência e não uma declaração de vontade, não se


trata de exteriorizar uma declaração com vista à produção de um efeito negocial,
trata-se de uma declaração sobre a realidade em que a parte reconhece a realidade
de um facto que lhe é desfavorável – confissão meio de prova – a consequência é essa,
o facto que a parte confessa está plenamente provado, portanto, o juiz no momento
em que vai proferir a sentença parte da realidade daqueles factos, para efeitos
daquele processo aqueles factos são tidos como verdadeiros, sem prejuízo da
possibilidade de anular ou declarar a nulidade da declaração confessória.

A parte até pode confessar todos os factos, no regime da revelia até vimos que se o réu
não contestar é revel e a consequência é a confissão tácita de todos os factos, mas daí
não decorre necessariamente a procedência da ação, a parte pode confessar factos,
mas isso não quer dizer que está a “dar razão” à outra parte.

Exemplo: O Réu pode não contestar a ação, mas depois haverá oportunidade de fazer
alegações de Direito, pode entender que a ação deve ser considerada improcedente apesar
de não a ter contestado, entende que o Autor não tem razão, portanto, a confissão de todos
os factos não equivale a uma confissão do pedido.

Voltando ao artigo 283.º CPC, a confissão do pedido é uma outra coisa, o Réu está a
reconhecer razão ao Autor, o Autor formulou um pedido contra o Réu e ele aceita

Ana Castro e Catarina Morais 32


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que o pedido deve ser julgado procedente, no fundo, o Réu aceita o efeito jurídico
que o pedido pretende obter, reconhece razão ao autor.

Como se realiza a confissão, desistência ou transação?

No artigo 290.º/3 CPC diz-se que: “Lavrado o termo ou junto o documento, examina-se
se, pelo seu objeto e pela qualidade das pessoas que nela intervieram, a confissão, a
desistência ou a transação é válida, e, no caso afirmativo, assim é declarado por sentença,
condenando-se ou absolvendo-se nos seus precisos termos”.

Se a confissão, desistência ou transação forem válidas, o juiz não vai controlar o


conteúdo da transação ou se tem razão de ser a confissão ou desistência do pedido.

Exemplo: O Autor desiste do pedido, o juiz pode entender que o Autor tem razão, ou seja,
se o juiz tomasse uma decisão a ação seria procedente e o Autor está a desistir. O juiz
pensa que o autor tem razão e, por isso, se tiver de decidir julga procedente o pedido, mas
o Autor quer desistir, o juiz não se mete nisso.

O juiz só aprecia se a confissão, desistência ou a transação são válidas, a partir desse


momento o juiz deve proferir uma sentença homologatória.

Na audiência final o juiz deve sempre começar pela tentativa de conciliação e pode
conseguir que os advogados cheguem a um acordo e aí o acordo é ditado para a ATA –
artigo 290.º/4 CPC.

Portanto, aqui o juiz limita-se a condenar ou absolver as partes nos respetivos termos:

• Se o Autor desiste do pedido, absolve o Réu do pedido;


• Se o réu confessa o pedido, condena o réu;
• Se as partes chegam a um acordo / fazem uma transação condena-as nos respetivos
termos.

Exemplo: O Autor pede numa ação de condenação que o Réu seja condenado a pagar-lhe
a quantia de 100.000€ a título de responsabilidade civil, fazem um acordo e o Réu
compromete-se a pagar 5.000€, então o juiz vai condenar o Réu a pagar os 5.000€, ou
seja, condena nos termos do acordo. A sentença homologatória é título executivo, o
tribunal condena nos termos do acordo ou se o Réu confessou os factos, portanto, em caso
de incumprimento pode haver execução com base nessa sentença.

2. DESISTÊNCIA (DO PEDIDO):

• Desistência do pedido: extingue o direito que se pretendia fazer valer – artigo


285.º/1 CPC. Segundo o artigo 286.º/2 CPC, vemos que a desistência do pedido é
livre, mas não prejudica a reconvenção, a não ser que o pedido reconvencional

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seja dependente do formulado pelo Autor, portanto, a desistência do pedido não


prejudica a reconvenção, o processo continua para ser julgado a título
reconvencional.
• Desistência da instância: apenas faz cessar o processo que se instaurara,
portanto, o direito não se extingue, cessa aquele processo, o que não significa que
não possa haver outro processo – artigo 285.º/2 CPC – e é por isso que podemos
ler no artigo 286.º/1 que a desistência da instância depende da aceitação do
Réu, apesar de o Autor querer desistir, se se tratar de uma desistência da
instância, isto depende da aceitação do Réu, desde que seja requerida depois
do oferecimento da contestação. Isto é assim porque o Réu pode pretender obter
algo mais do que a desistência da instância, pode querer obter uma decisão de
mérito, um caso julgado material a si favorável, evitando assim a existência de
novas ações contra si intentadas para o exercício daquele direito.

NOTA: As partes podem também acordar na suspensão da instância, nos termos do artigo
272.º/4 CPC + artigo 275.º/4 CPC.

3. TRANSAÇÃO: Acordo através do qual as partes mediante concessões


recíprocas põem fim a um litígio entre as partes, pode ser judicial ou
extrajudicial – artigo 1248.º e ss CC. A transação não é possível se
estivermos perante matérias de direitos indisponíveis, precisamos de
estar perante matérias de direitos disponíveis e as partes têm de ter
legitimidade para realizar a transação, mas é só isso que o juiz vai
controlar.

O artigo 290.º/4 CPC diz que a transação também pode ser feita em ATA, porque no
início da audiência final podem as partes ser chamadas para esse efeito, mas também
noutros momentos (apenas podem ser chamadas uma vez) – artigo 594º CPC + artigo
591º no1 a) CPC + artigo 604º nº2 CC.

Exemplo: O Autor pede numa ação de condenação que o Réu seja condenado a pagar-lhe
a quantia de 100.000€ a título de responsabilidade civil, fazem um acordo e o Réu
compromete-se a pagar 5.000€, então o juiz vai condenar o Réu a pagar os 5.000€, ou
seja, condena nos termos do acordo. A sentença homologatória é título executivo, o
tribunal condena nos termos do acordo ou se o Réu confessou os factos, portanto, em caso
de incumprimento pode haver execução com base nessa sentença.

O pedido e a causa do pedido são os elementos objetivos do processo, enquanto as partes


são o elemento subjetivo do processo.

Ana Castro e Catarina Morais 34


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Princípio do inquisitório - 411.º

Artigo 411.º (art.º 265.º/3 CPC 1961)


Princípio do inquisitório
Incumbe ao juiz realizar ou ordenar, mesmo oficiosamente, todas as diligências necessárias ao
apuramento da verdade e à justa composição do litígio, quanto aos factos de que lhe é lícito
conhecer.

Proposta a ação cria-se uma situação nova no relacionamento entre as partes e o tribunal.
Passa, então, para o primeiro plano o interesse público em que a aplicação do direito
recaia sobre a situação de facto que na realidade se verificou, o que implica a atribuição
ao julgador do poder de promoção de todos os meios que considere indispensáveis
ao apuramento da verdade, quanto aos factos relevantes de que lhe é lícito conhecer
(artigo 411º). Ou seja, ultrapassada a fase da alegação da matéria de facto, onde domina
indiscutível o princípio dispositivo relativamente aos factos essenciais para a aplicação
do direito, a actividade tendente à demonstração da realidade dos mesmos fica sob o
controle do julgador, que pode ordenar «ex officio» a produção dos meios de prova
que se mostrem indispensáveis para dissipar dúvidas que subsistam após a
intervenção probatória das partes. O objectivo final da instrução é conseguir uma base
factual capaz de possibilitar a justa decisão da causa, exigência esta que determinou a
opção de política legislativa de ser retirado às partes o domínio sobre a condução da prova
referente aos factos fundamentais para a sustentação das posições que assumiram em
juízo.

Abordando agora princípios atinentes às partes.

O Princípio do pedido – 3.º/1


Uma das consequências necessárias da disponibilidade material que caracteriza o objeto
do processo é a dependência integral em que o exercício do direito de ação se encontra
da vontade do respetivo titular ou de quem se atribui essa qualidade.
Trata-se de um princípio atinente às partes, que encontra a sua previsão no artigo 3.º/1
CPC e é uma manifestação do princípio dispositivo:

• Visando o processo civil proteger interesses privados, não obstante a visão pública
do processo, o pedido só tem lugar na medida em que particulares solicitem
medidas de tutela, ou seja, o juiz só está habilitado a decidir sobre relações
jurídicas privadas na medida em que isso lhe seja solicitado, Nemo iudex sin
auctore;
• É uma decorrência do respeito pela titularidade privada das posições jurídicas
em questão. Se são relações privadas, então só mediante o impulso processual é
que os respetivos titulares serão afetados por uma ação judicial;
Nota: Ao pedido deverá seguir se a possibilidade do réu se poder defender dele.

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O pedido carece de interpretação para que se conclua qual a providência que o autor
especificamente requer (apesar de, sobre o autor recair o ónus de alegar os factos
constitutivos do direito que pretende ser tutelado), mas admite-se, em certos termos, que
o julgador dê uma solução diferente da que foi requerida pela parte, desde que resulte
que a providência especificamente requerida, o foi erroneamente:

Artigo 3.º

Intervenção oficiosa do juiz

No decurso do primeiro ano subsequente à entrada em vigor da presente lei:

a) O juiz corrige ou convida a parte a corrigir o erro sobre o regime legal aplicável por força
da aplicação das normas transitórias previstas na presente lei;

b) Quando da leitura dos articulados, requerimentos ou demais peças processuais resulte que
a parte age em erro sobre o conteúdo do regime processual aplicável, podendo vir a praticar
ato não admissível ou omitir ato que seja devido, deve o juiz, quando aquela prática ou omissão
ainda sejam evitáveis, promover a superação do equívoco.
Por exemplo, nos termos do 609.º/3 CPC abre-se a possibilidade de o tribunal decretar
a restituição em vez da manutenção da posse, se for esse o meio técnico adequado à
situação verificada;

Também no 376.º/3 CPC se abre a possibilidade de o tribunal conceder uma providência


cautelar diferente da que foi requerida. O juiz não está sujeito à providência
concretamente requerida, no sentido de que pode entender que se adequa concretamente
ou não à finalidade que o requerente pretende, interpretando o pedido;

Já no 193.º/2 CPC - erro na qualificação do meio processual, ou seja, quando o autor


pretende obter um determinado fim, mas o meio processual que escolhe está errado, é o
juiz que corrige oficiosamente o meio.

Em qualquer um destes casos, o fim que é intencionado pelo autor ou pelo requerente
deve poder ser identificado, é o que reclama o princípio do pedido.
Formulado o pedido, o juiz deve ocupar-se dele inteiramente, não se ocupando nem
de menos nem de mais. Há, assim, uma regra de correspondência entre o que foi pedido
e a decisão do T.
Caso não considere o pedido na sua totalidade, a sentença incorre numa nulidade de
omissão de pronúncia - 615.º/1 CPC alínea d) primeira parte. Também é nula a sentença,
quando o juiz condene em quantidade superior ao que foi pedido ou em objeto diverso ao
que foi pedido - 615.º/1 CPC alínea d) in fine e alínea e).
Concluindo, uma ação não se inicia de forma oficiosa, mas apenas mediante impulso dos
particulares, só em casos excecionais se admite que a ação seja proposta ex officio:

Ana Castro e Catarina Morais 36


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• Quando haja interesse público na condução de uma certa causa privada, por
exemplo, nas ações de investigação de paternidade, cujo processo de averiguação
oficiosa pode ser iniciado oficiosamente por iniciativa do MP - 1864.º e 1808º CC

O Princípio do contraditório - 3.º/ 1 e 2


O princípio do contraditório surge, por um lado, mas não só, como um correlato passivo
do princípio do pedido. Este possui consagração constitucional como uma das dimensões
do princípio do Estado de Direito, art. 2.º CRP, e por isso, não subsiste dúvidas acerca da
imposição que recai sobre os T de, por sua iniciativa, conformarem o andamento dos
processos de maneira a impedirem a ocorrência de decisões assentes na utilização de
fundamentos que se situam fora de um quadro de referências previsíveis para as partes.
Assim, se a cada uma das partes da ação, em diferentes momentos da ação, é dada a
possibilidade de formular um pedido, de requerer providências, de requerer diligências,
de fazer requerimentos, alegações, à outra parte deve ser dada a possibilidade de
pronúncia, influenciando assim o conteúdo das decisões que lhe possam afetar. Se o
CPC destaca a essencialidade do pedido para que a ação seja conduzida, salienta
também a necessidade de ser dada a possibilidade de contradizer, ou seja, o princípio
do contraditório corresponde à pretensão a ser escutado pelo tribunal.
“Audictum et altera pars” (que se escute também a parte contrária).
No artigo 3.º CPC começa por relevar o princípio do contraditório:
• 3.º/1 CPC - princípio geral do contraditório;
• 3.º/2 CPC - exceções tipificadas, por exemplo, nas providências cautelares existe a
possibilidade de o tribunal declarar a providência sem que se ouça o requerido. No
entanto, isto não figura uma derrogação do contraditório, o requerido será ouvido, não
será é ouvido previamente;
• 3.º/3 CPC - o respeito pelo contraditório deve ser procurado pelo juiz ao longo de
todo o processo e a respeito de todas as decisões que nele hajam de ser tomadas, quer
sobre matéria de facto ou matéria de direito, mesmo que se trate de matéria de
conhecimento oficioso, salvo os casos de manifesta desnecessidade.
Do princípio do contraditório resulta ainda que, da mesma maneira que é dada ao réu a
oportunidade de se pronunciar em relação ao pedido do autor, se uma nova alegação é
feita pelo réu, deve também ser dada ao autor oportunidade de pronúncia.
Na atual compreensão do princípio do contraditório, este não está pensado apenas como
um princípio dirigido à possibilidade de defesa do autor, mas que tem por conteúdo
também a possibilidade de influenciar a decisão a ser cumprida na causa, com a
consequência de que o princípio visa conferir possibilidade de defesa, não apenas às
alegações da contraparte, mas também às decisões do juiz. Isto é, se o juiz pretende tomar
uma decisão ao abrigo de um fundamento que não foi sustentado por nenhuma das partes

Ana Castro e Catarina Morais 37


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(conhecimento oficioso) deve conceder seja a uma, seja a outra parte, a possibilidade de
pronúncia, sob pena de terem uma decisão surpresa.
No plano do direito aplicável à causa deve ser conferida às partes a possibilidade de
discutir todos os fundamentos da causa, porque há a proibição de decisões surpresa, o
que implica que o juiz não pode tomar uma decisão com fundamento sobre o qual as
partes não tiveram oportunidade de pronúncia, violando o princípio do contraditório e
constituindo uma nulidade processual nos termos gerais do regime da nulidade - 195.º
CPC. Esta nulidade decorre então da omissão de um ato que a lei prevê e que devia ter
sido praticado com influência na causa.
Lebre de Freitas defende que o princípio do contraditório se manifesta em diferentes
planos:
1. dimensão da alegação - traduz-se na possibilidade dos factos alegados por uma
das partes poderem ser contraditados;

2. dimensão da prova - que comporta também ela diferentes manifestações:


a. que as partes tenham idênticas possibilidades de produção dos meios
probatórios;
b. que a atividade instrutória seja realizada quando o meio de prova consinta
em audiência;
c. que as partes possam pronunciar-se sobre as provas produzidas;

3. dimensão do direito - as partes devem se poder pronunciar no que diz respeito a


novos fundamentos de direito invocados.

O dever de respeito pelo contraditório persiste, ainda que se esteja no plano das questões
com incidência estritamente processual. Assim, existe infração do referido princípio,
se a decisão se fundar na ocorrência de alguma exceção dilatória, embora aqui prevaleça
a intervenção oficiosa do tribunal (art. 578. °), sobre a qual as partes não chegaram a
tomar posição, por não lhes ter sido percetível a sua existência no processo, nem o tribunal
lhes haver chamado a atenção para tal eventualidade. O que releva é o carácter
imprevisto com que a decisão se apresenta perante as partes, atentos os termos em
que decorreu o processo, mercê de o tribunal ir procurar o fundamento da decisão num
contexto normativo, seja ele material ou adjetivo, com o qual os litigantes não podiam
razoavelmente contar.

Princípio da Igualdade das Partes - 4.º CPC


Com este princípio está relacionada a ideia de que as partes devem ser tratadas em
paridade, gozando de meios equivalentes de convencer o tribunal. Então, por
exemplo, se ao autor é dada a possibilidade de agir, ao réu é dada a possibilidade de
excecionar.

Ana Castro e Catarina Morais 38


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Nota: havendo vários autores ou réus, deve velar-se para que cada um deles possa litigar
sobre a sua quota parte na relação jurídica com autonomia, não sendo prejudicados pela
sua contraparte, na medida do possível

Princípio da cooperação - 7.º/1 CPC


Traduz a ideia de que as partes no tribunal devem cooperar para obter com celeridade
a justa resolução do litígio. É o oposto de uma visão puramente duelística do processo
(como duelo entre duas partes), estando presente a ideia do processo como uma
comunidade de trabalho, em que os intervenientes cooperam entre si.
No atual Direito, este princípio funciona apenas como limitação à liberdade individual.
A regra é que cada uma das partes cuida do seu próprio interesse, apenas nas exceções
tipificadas é que as partes podem ser obrigadas a colaborar, não se tratando de meros
deveres de colaboração. Assim, há diferentes dimensões em que as partes são obrigadas
a cooperar (manifestações típicas):
• Uma das mais importantes diz respeito aos deveres de colaboração em matéria
probatória - 417.º CPC (remissão do 7.º CPC para este artigo). A violação dos
deveres de colaboração, pode fazer com que se incorra em litigância de má-fé -
542.º/2 CPC alínea b) e que as partes possam ser condenadas em multa - 417.º/2
CPC.
• O regime da exibição de documentos - 429.º CPC é outra das manifestações da
obrigação de colaborar. No nosso OJ, não existe um dever de produção espontânea
de prova contra si mesmo, isto é, cada parte é obrigada a fazer prova contra si
mesmo, mas não tem o fazer espontaneamente;
• 7.º/2 CPC - o juiz pode a qualquer momento ouvir as partes, pedindo os
esclarecimentos necessários quer sobre matéria de facto, quer sobre matéria de
direito;
• 7.º/4 CPC - dever de cooperação do juiz com as partes.

Princípio da Boa-fé processual - 8.º CPC


Não é mais do que a projeção no plano do processo do princípio geral da boa-fé,
consagrado no CC. Está também ligado ao princípio da cooperação, porque os deveres de
cooperação decorrem também da boa-fé.
Este princípio pode servir para enquadrar as hipóteses em que se sanciona:
• a prática de atos abusivos ou emulativos, em que se pretende prejudicar a outra
parte;
• a simulação do processo, isto é, quando as partes, em conluio se servem do
processo para uma finalidade ilícita, fazendo um uso anormal do processo – 612.º
CPC.

Passando agora para os princípios atinentes ao juiz.

Ana Castro e Catarina Morais 39


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Princípio da independência e imparcialidade do tribunal - 203.º CRP


É um princípio constitutivo da função judicial, é através dele que o Direito se torna numa
ordem objetiva, independente das representações das partes, uma vez que um terceiro
autónomo é chamado a intervir.
Quanto à independência, os juízes não estão formalmente sujeitos a qualquer poder
superior no que toca à decisão de um determinado caso. A independência é garantida pelo
estatuto dos juízes, encontrando-se apenas sujeito a um órgão de disciplina próprio e
sendo inamovíveis;
Quanto à imparcialidade, o juiz ocupa uma posição equidistante em relação às partes,
havendo 3 regras que a garantem:

• juiz natural - o juiz competente para a causa é fixado por regras legais e não por
qualquer outro modo;
• aleatoriedade na distribuição dos processos
• regime do impedimento (115.º e 117.º CPC) e da suspeição (120.º CPC) – no
caso do impedimento, resulta que em determinados casos, dada a proximidade do
juiz com as partes da causa, ele está impedido de julgar; já na suspeição, havendo
razões que permitem duvidar da imparcialidade, o juiz deve afastar-se da causa.

Princípio da Legalidade – 103.º CRP e 8.º/2 CC


O juiz exerce um ofício, uma posição vinculada e por isso está sujeito à lei. É
independente de todos os homens apenas para estar sujeito ao Direito, sendo que a sua
legitimação não é política ou democrática, nem carismática, é uma legitimação técnica.
As decisões do juiz devem ser conformes ao Direito e daqui decorre uma consequência
de que o julgador não está sujeito às alegações das partes em matéria de Direito - 5.º
CPC, só mediante acordo das partes ou concessão expressa por lei, pode o juiz decidir
com base na equidade - 4.º CC.
A vinculatividade do juiz ao Direito manifesta-se no dever de fundamentação
racional das decisões - 205.º/1 CRP e 154.º CPC.
Se o poder do juiz é vinculado à lei, as suas decisões também o são, devendo explicitar
os fundamentos de matéria de direito e de facto, sob pena de nulidade nos termos do
615.º/1 CPC alínea b).
As funções deste dever de fundamentação são:
• permitir ao juiz controlar a sua própria decisão, porque é forçado a expor os seus
fundamentos, levando-o a sindicar a razoabilidade da sua decisão;
• informar as partes de quais são os fundamentos da sua decisão;
• é importante a fundamentação para efeitos de recurso, permitindo e facilitando o
controlo da decisão por parte dos tribunais superiores.

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Princípio da Gestão Processual - 6.º CPC


Foi consagrado na reforma de 2013, embora as suas aplicações práticas já estivessem
previstas na lei. Desdobra-se em duas dimensões:
1. Por um lado, o juiz é responsável pela condução do processo, o juiz deve, por
isso, dirigi-lo ativamente - 6.º/1 CPC e providenciar pelo seu andamento célere,
promovendo oficiosamente as diligências necessárias ao seu normal
procedimento, em especial, deve providenciar pelo suprimento de todos os
pressupostos processuais sanáveis - 6.º/2 CPC;

2. Por outro lado, o juiz pode, em certos termos, modelar os próprios termos do
processo, adaptando o processo previsto na lei às especificidades. Pretende-se que
sejam dados ao juiz mecanismos para adaptar o modelo padrão às especificidades
de cada caso quando as regras processuais previstas não ofereçam regulação
adequada. Também se relaciona com o princípio da economia processual, na
medida em que só se praticam os atos necessários à resolução da causa (130.º
CPC): artigo 547.º CPC (remissão para o 630.º/2) prevê medidas de adequação
formal, no entanto estas medidas não são só de agilização processual, em certos
casos podem ser de complexificação. Em todo o caso, quaisquer medidas de
adequação formal estão sujeitas às regras fundamentais do processo civil e às
regras injuntivas de proteção das partes.

Nota: Não se deve esquecer que a forma é uma garantia de previsibilidade, e por outro
lado, traz consigo valorações específicas. Outras formas só devem ser introduzidas para
adaptar as valorações à forma já prevista, não para as substituir.
Importa relevar que este princípio não serve para transformar o juiz em legislador, com
base numa ideia de gestão material é lançado para enquadrar a produção oficiosa de
prova, que decorre de uma ideia de que o juiz é o gestor material do processo.
Abordando agora os princípios atinentes à estrutura do processo.

Princípio da Proporcionalidade
O processo é a interação entre regras jurídicas e atos humanos. No que diz respeito às
regras, o princípio da proporcionalidade na sua tripla concretização (necessidade,
adequação e proibição de excesso) serve de controlo à aplicação dessas mesmas regras.

Princípio da Imediação e da Oralidade, Concentração e Plenitude na


Assistência do Juiz
Este princípio não vale para todo o processo, pois na primeira fase do processo os atos
processuais são essencialmente escritos. O campo de intervenção deste princípio situa-
se predominantemente no modo como o juiz acede ao conhecimento dos factos
relevantes para a aplicação do direito. A oralidade nasceu como um movimento de

Ana Castro e Catarina Morais 41


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reforma, que procurava dotar o processo de maior celeridade e alargar os elementos de


informação a partir dos quais o tribunal formava a sua convicção acerca da realidade dos
factos.
Por um lado, o juiz da matéria de facto deve ter uma relação imediata com os meios
probatórios. Por outro lado, deve recorrer-se aos meios de prova mais próximos do facto
e é ao serviço deste princípio que se encontra:
• a oralidade: os meios de prova decorrem sobre forma oral, sem prejuízo da sua
gravação - 155.º/1 CPC e 591.º/4 CPC);
• a concentração: os atos de instrução e de discussão devem concentrar-se numa
unidade de tempo mais contínua possível, com as menores interrupções possíveis.
(604ºnº1 e 606º nº2)
Nesta medida, ambas se ligam com a plenitude da assistência do juiz (605º), porque a
decisão quanto à matéria de facto deve ser proferida pelo juiz que tenha assistido a todos
os atos.

Princípio da Publicidade - 206.º CRP e 606.º/1 CPC

Por via de regra as audiências judicias são públicas por forma a garantir a transparência
do exercício da justiça. Não obstante, nos termos dos 163.º CPC e ss. poder haver lugar
a uma restrição desta publicidade para proteção de outros valores e interesses, tais como,
a privacidade e integridade do sujeito, e seus familiares.

Providências Cautelares ou Procedimentos Cautelares


Através do recurso ao sistema público de justiça, o autor de uma ação pretende ver
tutelada uma determinada posição jurídica (direito de ação em sentido abstrato). No
entanto, a marcha processual demorará um determinado período, que é necessário para
que o processo corra os seus trâmites. Este período pode colocar em risco as posições
jurídicas que se pretendem tutelar através da ação principal, atentemos no artigo 2.º/2
CPC in fine:

Artigo 2.º (art.º 2.º CPC 1961)


Garantia de acesso aos tribunais
1 - A proteção jurídica através dos tribunais implica o direito de obter, em prazo razoável, uma
decisão judicial que aprecie, com força de caso julgado, a pretensão regularmente deduzida em
juízo, bem como a possibilidade de a fazer executar.
2 - A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário, corresponde a ação adequada a
fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a violação dele e a realizá-lo coercivamente,
bem como os procedimentos necessários para acautelar o efeito útil da ação.

Dele surge a possibilidade de intentar providências cautelares para assegurar um


direito - 362.º/1 CPC

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Assim, além da tutela judicial realizada por intermédio de ações, a OJ prevê mecanismos
de intervenção processual urgente destinados a atuar, quando ainda seja possível
prevenir lesões a que direitos ficam expostos no período que decorre até se obter a
decisão final sobre eles em ação já pendente ou a intentar mais tarde.
O propósito é oferecer uma tutela provisória dos direitos, enquanto não estiver resolvido
definitivamente o fundo da causa, e, portanto, estas providências valem enquanto não
houver uma decisão sobre o fundo da causa. Esta precariedade/temporalidade das
providências cautelares reflete-se na previsão de um conjunto amplo de causas de
extinção ou caducidade do procedimento cautelar.
O objetivo de proteção, no presente, de situações jurídicas a definir no futuro consegue-
se através da imposição de medidas provisórias, que vigoram enquanto se aguarda o
desfecho de um processo estruturado para a aplicação do direito em termos definitivos
aos factos apurados no seu decurso.
Na génese desta tutela transitória está a consideração de uma realidade hipotética, pois
quando as PC atuam ignora-se se o direito acautelado será ou não reconhecido pelo T,
uma vez que, estas apresentam-se com uma duração limitada no tempo e devem
assumir não mais do que a intensidade e o conteúdo necessários para garantir a
efetividade da providência solicitada a título principal.
A demora inevitável dos processos judiciais não deve redundar em prejuízo de quem
só mais tarde vê reconhecida a razão que lhe assiste perante o direito substantivo.
Assim, a obtenção de uma decisão judicial de mérito em tempo útil, ou seja, ainda capaz
de projetar após o trânsito em julgado, os seus efeitos de modo a satisfazer os interesses
que determinaram a proposição da ação, representa uma das garantias fundamentais que
o Estado assegura aos cidadãos, 20.º/4 CRP.
Daí que o 362.º se refira à existência de decisões judiciais de caráter provisório com o
alcance específico de proteger a integridade dos efeitos decorrentes da procedência
da ação em que o requerente das medidas cautelares procura a solução definitiva do
litígio, ou a realização coativa de um direito.
A providência cautelar encontra-se assim, por via de regra na dependência de uma ação
principal - 364.º/1 CPC e pode operar de 2 formas:

• Incidentalmente - Como incidente da ação principal, o que não significa que


estejamos tecnicamente perante um incidente de instância. A ação principal já está a
decorrer e na sua pendência é intentada a providência cautelar. Neste caso, o
procedimento cautelar deve correr por apenso à ação principal, sendo o tribunal
competente o mesmo que é competente para conhecer da causa principal - 364.º/3 CPC;

• Preliminarmente - A providência cautelar é instaurada antes da ação principal,


sendo que o requerente deve enunciar na própria providência cautelar que vai intentar
a ação principal com determinado objeto. A providência só vai ser apensada à ação
principal quando a última for intentada - 364.º/2 CPC. Em matéria de providências

Ana Castro e Catarina Morais 43


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cautelares, o tribunal competente para conhecer fixa-se de acordo com o 78.º/1 alínea
c) CPC - a regra é que é competente aquele que será competente para a ação
principal, mas há exceções:

• O 78.º/1 alínea a) CPC diz respeito a providências cautelares


especificadas: o arresto e o arrolamento tanto podem ser requeridos no
tribunal onde deva ser proposta a ação principal ou no tribunal do lugar
onde os bens se encontram;

• O 78.º/1 alínea b) CPC também referente a uma providência cautelar


especificada, neste caso, o embargo de obra nova, sendo competente o
tribunal do lugar da obra;

• Nos termos do 78.º/2 CPC e 364.º/2 CPC a providência cautelar pode ser
intentada num tribunal que não o competente para conhecer da ação
principal, nesses casos, depois da ação principal ser proposta, há um
apensamento da providência cautelar, e pode haver lugar à remessa da
mesma para o tribunal competente para conhecer da ação principal.
A relação de dependência entre a providência cautelar e a ação principal manifesta-se em
algumas causas de caducidade da providência cautelar:
a) 373.º/1 alínea a) CPC: a providência cautelar caduca se a ação principal não for
proposta no prazo de 30 dias após notificação ao requerente do trânsito em julgado
da decisão que decreta a providência cautelar. Só se considera que a ação principal
foi proposta, se tiver por objeto a tutela da posição jurídica que a providência cautelar
pretende proteger. Assim, o requerente tem o ónus de intentar a ação principal sob
pena dela caducar;
b) 373.º/1 alínea b) CPC - verifica-se a caducidade quando o processo principal estiver
parado por mais de 30 dias por negligência do requerente, e portanto, a tutela
provisória só se justifica na medida em que aquele que a procura, procura também a
tutela definitiva;
c) 373.º/1 alínea d) CPC (remissão 279.º CPC) - se o réu for absolvido da instância (o
que pressupõe a falta de um pressuposto processual) e o autor não propuser uma nova
ação em termos de poder aproveitar os efeitos da ação interior, extingue-se a instância,
quebrando-se a relação de dependência;
d) 373.º/1 alínea e) CPC - se o direito que o requerente pretende tutelar se extinguir, a
ação judicial será inútil, logo não há nada a tutelar;
e) No que diz respeito à relação entre o julgamento da providência cautelar e o
julgamento da ação principal (à qual a providência cautelar está ligada) há uma
relação de autonomia. Ou seja, o julgamento da providência cautelar é independente
do julgamento da ação principal - 364.º/4 CPC, e portanto, a relação de dependência
é meramente externa/funcional. Não é uma dependência interna, logo, pode

Ana Castro e Catarina Morais 44


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acontecer que a providência cautelar seja decretada, mas a ação principal venha a ser
julgada como improcedente, porque o autor não foi capaz, na ação principal, de
convencer o tribunal acerca da existência do direito. O decretamento da providência
cautelar baseia-se na mera aparência de bom direito, bastando ao requerente que faça
uma prova sumária da existência do direito.
f) 373.º/1 alínea c) CPC - a providência cautelar caduca com o trânsito em julgado da
decisão que julga improcedente a ação principal.
No mesmo sentido, pode acontecer que a providência cautelar não seja decretada e depois
a ação principal seja julgada procedente, por exemplo, pelo facto do requerente não ter
conseguido, no âmbito da providência cautelar, demonstrar o requisito do periculum in
mora (perigo na demora).
Ainda na relação de dependência entre a ação principal e a providência cautelar, mesmo
com a autonomia nos julgamentos, em determinados casos, atendendo a tramitação
mais sumária, admite-se que a decisão que decreta a providência cautelar se possa
converter na decisão definitiva do litígio. O regime regra é que a decisão que decreta a
providência cautelar é provisória, mas quando o juiz, entre outros requisitos, consiga
formar uma convicção segura acerca do direito ameaçado e a providência cautelar
decretada permita alcançar o efeito útil pretendido pelo requerente, esta converte-se em
decisão definitiva, por exemplo, nas situações de inversão de contencioso1 - 369.º/1
CPC.
Verificada semelhante conjugação de elementos, abre-se a oportunidade de o tribunal,
sempre a pedido de quem começou por requerer a tutela provisória, fazer acompanhar a
providência correspondente da dispensa da proposição da ação principal, ónus a que o
requerente estava sujeito, dada a relação de dependência em que normalmente se
encontram as decisões que concedem medidas com este alcance (artigos 364.º, n.º 1, e
373.º, n.º 1, alínea a)). Não obstante a decisão proferida em tais circunstâncias se
apresentar formalmente como o resultado de um procedimento cautelar, na realidade está-
se diante de um processo especial abreviado que possibilita, com manifesto ganho de
tempo, a resposta a um conflito de interesses que seria dirimido mais tarde na ação
principal. A necessidade de o requerente da tutela cautelar propor esta última ação
desaparece, em face da convolação do procedimento inicial para um mecanismo de
tutela definitiva.

As providências cautelares não têm a natureza jurídica nem de ação, porque não
oferecem a composição definitiva de um litígio, nem natureza jurídica de incidente,
porque não estão ao serviço da ação principal. Pelo contrário, constituem um meio
autónomo e sui generis de tutela, porque são tramitações processuais enxertadas.

1
o ónus do requerente desaparece, e passa a ser do requerido o ónus de intentar a ação principal,
se não observar este ónus, a providência cautelar converte-se em tutela definitiva.

Ana Castro e Catarina Morais 45


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Tipos de Providências cautelares quanto aos efeitos

Providências cautelares antecipatórias vs Providências cautelares


Conservatórias

Providências cautelares antecipatórias

São aquelas que aquelas que, antecipam o efeito/ resultado pretendido com a ação
principal. As providências antecipatórias, visam conceder ao requerente parte ou, até
mesmo, a totalidade dos efeitos práticos que resultam da procedência da ação
principal, mediante um despacho de condenação suscetível de funcionar como título
executivo, no caso de a determinação provisória do tribunal não ser acatada pelo
requerido. Por exemplo:

a. Restituição provisória da posse - 377.º CPC e 1279.º CC;

Assim, na restituição provisória de posse, o tribunal ordena as medidas indispensáveis


para que o requerente obtenha a reposição da situação anterior ao esbulho, de modo a
poder retomar o mais depressa possível a fruição da coisa de que foi privado com o
emprego da violência. Apesar de a definição da titularidade da posse ter que
aguardar o desfecho da ação principal, o esbulhado consegue através de uma decisão
de carácter provisório a antecipação da situação de facto que lhe será definitivamente
reconhecida se vier a proceder a ação principal. Perante a violência com que o esbulho
ocorreu, a ordem jurídica utiliza meios de reação destinados a promover a investidura do
possuidor na exata situação em que se encontrava anteriormente.

b. Alimentos provisórios – 384.º CPC e 2007º CC;

Nos alimentos provisórios, é solicitada ao tribunal a fixação de uma quantia mensal que
se destina a cobrir os encargos estritamente necessários ao sustento, habitação e vestuário
do requerente, enquanto este aguarda o pagamento da primeira prestação definitiva.
A natureza das despesas que a prestação alimentar se destina a satisfazer justifica
que se imponha ao requerido uma prestação que antecipa provisoriamente desde o
primeiro dia do mês subsequente à data da instauração do procedimento cautelar (artigo
386.º, n.º 1) - parte do pedido formulado na ação principal.

c. Arbitramento de reparação provisória - 388.º/1 CPC.

Razões idênticas levam a que no arbitramento de reparação provisória (artigos 388. ° e


ss.) a providência se traduza na fixação de uma renda mensal, determinada segundo a
equidade, que antecipa em alguma medida a indemnização dos danos causados ao
requerente.

Ana Castro e Catarina Morais 46


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Providências Cautelares Conservatórias

Com estas, pretende-se conservar um certo estado de coisas, anterior ou contemporâneo


à proposição da ação. No domínio destas o T pode decretar medidas orientadas para
a criação de um de estado de coisas que mantenha a estabilidade da situação jurídica
submetida ou a submeter a apreciação judicial, enquanto se aguarda o desfecho da
ação principal. Tais medidas, qualquer que seja o respetivo conteúdo, não devem
colocar, por força da sua adoção, o requerente na fruição imediata dos bens jurídicos
objeto de tutela definitiva. Neste sentido, a tutela cautelar proporciona ao requerente um
resultado imediato que representa um minus ou um aliud relativamente à procedência da
pretensão deduzida a título principal. Por exemplo:

1. Suspensão da deliberação social - 381.º/3 CPC;


2. Arresto - 391.º/2 CPC;
3. Embargo de obra nova - 397.º/1 CPC;
4. Arrolamento - 406.º/5 CPC.

As providências cautelares podem abarcar direitos ou posições jurídicas a constituir


na ação principal - 362.º/2 CPC. Se a ação principal for constitutiva, pretende-se,
portanto, a criação de um direito, logo, ele não existe e será consequência do
procedimento ou improcedimento da ação. É possível acautelar este direito mesmo que
ele não exista? Sim, por exemplo, uma providência cautelar comum antecipatória do
efeito pretendido com a constituição de uma servidão legal de passagem - a ação principal
será para a constituição do direito legal de passagem, logo o direito de servidão ainda não
existe - 362.º/2 CPC: “direito constituído ou a constituir”.

Requisitos do Decretamento de Providências Cautelares


Do ponto de vista metódico, o juiz deve começar por apurar se há alguma providência
cautelar especificada adaptada às especificidades do caso, se assim não acontecer, aplica-
se o procedimento cautelar comum e nesse caso, valem os pressupostos gerais de
decretamento. Se se estiver diante um procedimento cautelar especificado aplicam-se
as condições de procedência do 376º nº1 e nº2, sendo que, em relação a estes
prevalecem as disposições privativas que contém a disciplina de cada um deles, aí se
incluindo os pressupostos de que depende a concessão das medidas destinadas a fazer
frente aos riscos específicos que justificam a sua autonomização relativamente aos
restantes meios de tutela cautelar.
Segundo o 368.º/1 CPC, os pressupostos comuns do decretamento de uma providência
cautelar são:
1. Fumus boni iuris (aparência de bom direito) - É requisito geral a probabilidade
séria da existência do direito que se pretende acautelar, direito esse que a ação
principal a que a providência cautelar está ligada, tem por objeto. Basta que o
requerente traga ao processo elementos que habilitem o julgador a concluir que se
mostra verosímil o triunfo da pretensão deduzida ou a deduzir na ação principal. Basta

Ana Castro e Catarina Morais 47


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a aparência de bom direito e não é necessário a prova concludente da respetiva


existência, cumpre apenas ao requerente fazer prova sumária/ perfunctória do direito
ameaçado - 365.º/1 CPC;

2. Periculum in mora (perigo na demora) – É ainda necessário que haja um receio


suficientemente fundado da lesão do direito. Esta depende da prova do risco de lesão
a que ficam expostos os interesses do requerente, se não forem tomadas medidas que
previnam eventuais atos do requerido capazes de comprometer o efeito útil da decisão
final de mérito. Cabe ao requerente indicar na petição elementos que convençam o
T de que é suficientemente fundado o receio de lesão do direito que constitui
objeto da ação principal. A convicção do juiz relativamente a este requisito deve
ser firme e segura, não bastando uma séria probabilidade de existência de perigo,
esta convicção tem de formar-se de acordo com os mesmos padrões de exigência
probatória que se encontram na base das medidas de tutela definitiva.

3. Requisito de proporcionalidade - O artigo 368.º/2 CPC tem por base de uma ideia
de proporcionalidade. O tribunal, mesmo estando verificados os dois pressupostos
gerais anteriores, pode recusar o decretamento da providência, quando o prejuízo
resultante desse decretamento (para o requerido) seja consideravelmente
superior ao dano que o requerente pretende evitar.
Nos termos do 376.º/1 CPC 1ª parte, este requisito de proporcionalidade, não se
aplica ao procedimento cautelar especificado, pois entende-se que o legislador antes
de criar o regime já efetuou esta ponderação de interesses. Não obstante, segundo o
princípio da proporcionalidade, mesmo nos procedimentos cautelares especificados,
havendo mais do que uma hipótese de proteção opta-se pela menos gravosa para o
requerido.
É também de notar que o juiz não está adstrito à providência cautelar concretamente
pedida. É certo que o princípio do pedido exige que se fixe qual a tutela requerida pelo
requerente, mas uma vez identificado o tipo de tutela que o requerente pretende
obter, o juiz deve decretar a providência que, na sua interpretação, seja mais
adequada à circunstância do caso - 376.º/3 CPC 1ª parte. Isto não figura como uma
derrogação do princípio do pedido, o tribunal apenas tem grande margem de liberdade
para adaptar aquilo que o requerente pretende obter à forma processual. Se for requerida
uma providência cautelar comum, pode o tribunal decretar uma providência cautelar
especificada, ou o oposto, sendo, assim, o tribunal inteiramente livre na operação de
decretamento. A regra vale para todas as modalidades de tutela cautelar previstas nos
artigos 362º a 409º, independentemente de se tratar de procedimentos especificados ou
do procedimento comum (artigo 376.º, n.º 1).
Por exemplo, no caso do 379.º CPC, se estivermos perante a restituição provisória da
posse, que é uma providência cautelar especificada e que pressupõe que tenha havido um
esbulho violento (377.º CPC), se não houver violência no esbulho, remete-se para o
procedimento cautelar comum.

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Assim, a vinculação do juiz aos procedimentos cautelares especificados é dupla:


a) Por um lado, o juiz está adstrito a decretar uma providência cautelar especificada
quando a lei o consigne;
b) Por outro lado, o juiz não deve decretar qualquer providência cautelar comum, quando
esta seja incompatível com a exclusão de tutela que resulte do procedimento cautelar
especificado.
Por exemplo, para a providência cautelar especificada de arbitramento de reparação
provisória, a lei estabelece em que casos é admissível fazer o pedido de arbitramento de
reparação provisória, excluindo essa possibilidade nos outros casos, logo, não pode o juiz,
ao abrigo de providência cautelar comum decretar um arbitramento de reparação
provisória. O regime especial permite a indemnização provisória naqueles casos e não
noutros - 388.º CPC.

Procedimento cautelar comum (362º) e o Procedimento cautelar


especificado (377º a 379º)

Ao lado do procedimento cautelar comum existe um procedimento cautelar especificado.

O legislador autonomizou determinadas situações onde o periculum in mora apresenta


características próprias, quer em função dos pressupostos que o geram, quer por se
mostrar de antemão possível identificar as medidas concretas destinadas a combatê-lo.

Surge, assim, na sistematização legal o conjunto dos procedimentos cautelares


especificados ou nominados, onde se incluem:

• a restituição provisória de posse (artigos 377º a 379°)


• a suspensão de deliberações sociais (artigos 380° a 383º)
• os alimentos provisórios (artigo 384º a 387º)
• o arbitramento de reparação provisória (artigos 388º a 390°)
• o arresto (artigos 391° a 396°)
• o embargo de obra nova (artigos 397° a 402°)
• e o arrolamento (artigos 403º a 409°).

A aplicação de tais procedimentos circunscreve-se às realidades jurídico-materiais que


lhes correspondem.

A relação entre eles é uma relação de generalidade/especialidade, o que significa que


na falta de um procedimento cautelar especificado, aplicam-se as regras do procedimento
cautelar comum. O procedimento cautelar especificado tem preferência de aplicação, por
exemplo, se um credor tem um receio justificado de perder a garantia patrimonial do seu
crédito pode pedir o arresto de bens do devedor - aplicam-se as regras do arresto, porque

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para esta concreta situação de periculum in mora existe um procedimento cautelar


especificado.
Pode haver ainda procedimentos cautelares especificados especialíssimos -
duplamente especial no sentido de ser duplamente especificado. É o caso do arrolamento
do 409.º/1 CPC que é especial em relação ao arrolamento do 403.º CPC, que por sua
vez é especial em relação ao procedimento comum. Nos termos do artigo 409º, nº1,
qualquer dos cônjuges pode requerer como preliminar ou incidente da ação de separação
de pessoas e bens, divórcio, declaração de nulidade ou anulação do casamento, desde que
o risco de extravio, ocultação ou dissipação se refira a bens comuns ou a bens próprios
do requerente que se encontrem sob a administração do requerido. O requisito legal do
justo receio de extravio, ocultação ou dissipação de bens, móveis ou imóveis, ou de
documentos, estabelecido no nº 1 do artigo 403º para o arrolamento em geral, foi
dispensado no arrolamento em análise, como explicitamente determina o nº 3 do
mencionado artigo 409º. Assim, para o requerente conseguir o arrolamento de bens
comuns ou de bens próprios que estejam sob a administração do outro cônjuge, basta que
alegue e prove o casamento com a outra parte, anuncie que vai propor alguma das
referidas ações (caso se trate de arrolamento preliminar), e demonstre, em termos de prova
sumária, que os bens a arrolar são comuns ou próprios do requerente, embora se
encontrem sob a administração do requerido.
Com esta medida cautelar, procura o requerente assegurar a conservação dos bens
arrolados, enquanto estiver pendente a ação de divórcio, separação judicial de pessoas e
bens, declaração de nulidade ou anulação do casamento. Dado que, após a procedência
de alguma destas ações, haverá normalmente partilha do património conjugal, quer-se
assegurar de antemão que os bens objeto deste procedimento especial venham a ser
relacionados sem as demoras ligadas à utilização dos meios declarativos necessários à
demonstração da respetiva titularidade. É para se alcançar este objetivo futuro que se
tomam, a título provisório, as medidas conservatórias descritas nos nº 1 e 2 do artigo 406º.
(descrição, avaliação e depósito).
Quer dizer, dentro de determinada zona de interesses abrangida por um
procedimento cautelar especificado foi ainda possível identificar o aparecimento de
planos mais limitados, onde a demora processual obrigou a prover o tribunal com
mecanismos de intervenção concretamente dirigidos para os riscos de perturbação da
eficácia da tutela definitiva que aí se manifestam.

Nota: Os requisitos para os procedimentos cautelares especificados são mais ligeiros do


que os requisitos colocados para o regime geral.
As regras do procedimento cautelar comum aplicam-se subsidiariamente às regras do
procedimento cautelar especificado - 366.º/1 CPC.
As hipóteses de risco de ineficácia da tutela definitiva que não se enquadram nos
procedimentos especificados recebem proteção através de medidas urgentes
escolhidas individualmente pelo julgador, a partir da análise das particularidades

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do caso concreto. Eis o espaço ocupado pelo procedimento cautelar comum (artigos 362°
e ss.).

A tutela cautelar que se desenvolve neste âmbito depende do pedido do interessado, sem
prejuízo de caber sempre ao tribunal a avaliação última acerca das providências que
melhor asseguram a proteção transitória do direito do requerente. Com semelhante
intervenção, desligada da referência a um quadro preestabelecido de formas, o
ordenamento jurídico assegura a existência de mecanismos capazes de preencher as
necessidades de tutela urgente em todos os sectores que escapam às modalidades que
foram objeto de tratamento diferenciado (artigo 362.º, n.º 3). Neste sentido, pode dizer-
se que o procedimento comum constitui o instituto que, no plano normativo, fecha o
sistema da tutela cautelar urgente.

Recai, por conseguinte, sobre o julgador o poder-dever de reconduzir o pedido de


tutela provisória ao modelo processual que permite alcançar as medidas mais
ajustadas à defesa temporária do direito atingido pelo periculum in mora, ainda que
essa intervenção imponha a passagem da forma inicial de procedimento para outra
forma diversa, seja ela a comum ou a correspondente a outro procedimento também
especificado. Importa, todavia, ter presente que, na hipótese de o tribunal vir a entender
que a situação provada nos autos se integra num procedimento diferente daquele que o
requerente indicou, o decretamento das correspondentes medidas cautelares depende
do preenchimento dos requisitos que lhe dizem respeito e que podem não coincidir
inteiramente com aqueles que valiam para o pedido primitivo. Assim, o abandono do
procedimento especificado inicialmente requerido, a favor da forma cautelar comum,
implica que, para além dos requisitos gerais de procedência desta última modalidade de
tutela cautelar, não se verifique o fundamento de recusa previsto no artigo 368º, nº2.

Na verdade, o procedimento comum pode ser rejeitado pelo tribunal, apesar da presença
do fumus boni iuris e do periculum in mora, quando o prejuízo resultante para o
requerido das medidas de proteção a decretar exceda consideravelmente o dano
contra o qual o requerente procura reagir.

Ora, esta ponderação entre o benefício que o requerente aufere com a imposição das
medidas cautelares e o prejuízo que as mesmas acarretam para o requerido não tem
autonomia nos procedimentos especificados (artigo 376º nº1), porque já foi tomada
em conta no momento da configuração das situações típicas subjacentes às diversas
modalidades daqueles procedimentos. Não estando reunidos os requisitos da concessão
das medidas correspondentes ao procedimento especificado que o requerente escolheu, a
convolação para o procedimento comum não assegura sem mais o êxito do pedido de
tutela cautelar, pois este depende ainda da mencionada ponderação que o tribunal é
sempre chamado a efetuar.

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Articulação do procedimento cautelar com a ação principal


Como o procedimento cautelar se destina a intervir como garantia da efetividade da tutela
jurisdicional definitiva, ele apresenta-se normalmente na dependência da causa que tem
por objeto o direito acautelado (n. 1 do artigo 364º).
Todavia, assim não será, se estiverem reunidas as condições para o tribunal decretar a
inversão do contencioso, na medida em que se gera uma situação processual que muda
a natureza provisória com que o procedimento nasceu, abrindo-se a possibilidade de nele
mesmo ser declarado, em termos definitivos, o direito que o requerente invoca, sem
necessidade da proposição da ação principal. Perante a nova situação decorrente da
inversão do contencioso decretada pelo tribunal, o requerente do que começou por ser
uma providência cautelar fica dispensado de propor a ação principal. É sobre o requerido
que passa a incidir o ónus de tomar a iniciativa da impugnação do conteúdo da
decisão que o tribunal proferiu alterando os termos iniciais do pedido de tutela
judicial. Daí a ressalva contida na parte inicial do n.º 1 do artigo 364º.
Se a ação principal já estiver em curso, o procedimento cautelar surge como incidente
que se rege subsidiariamente pelo disposto nos artigos 293° a 295° (n°3 do artigo 365º).
A competência para decidir o pedido cautelar pertence, neste caso, ao tribunal onde foi
instaurada a ação destinada a apreciar o pedido de tutela definitiva, sendo o incidente
processado por apenso. Quando os autos da ação principal já não estejam na 1.ª instância,
por força da interposição de algum recurso que haja determinado a sua subida, a
apensação dá-se logo que exista decisão definitiva do procedimento cautelar ou a ação
principal baixe ao tribunal onde teve início (n.º 3 do artigo 364º).
No caso de a ação principal não estar ainda pendente na altura em que é requerida a
providência cautelar, a respetiva tramitação inicia-se em autos próprios, verificando-
se a apensação logo que aquela ação seja proposta. O procedimento cautelar corre
no tribunal que tenha competência, em atenção aos critérios previstos no n.º 1 do artigo
78.º, mas os autos serão remetidos, com vista à apensação, ao tribunal do lugar da
proposição da ação principal, se for diferente daquele onde o requerimento da
providência deu entrada (artigos 78°, n° 2, e 364º, n°2).
Quando se alude à dependência do procedimento cautelar perante a ação cujo objeto é o
julgamento do mérito da relação controvertida, pretende-se referir tão-só o modo como
se articula a tramitação dos dois tipos de tutela. Não se quer, de maneira nenhuma,
significar que exista algum nexo de prejudicialidade capaz de condicionar reciprocamente
a apreciação dos dois pedidos.
Na verdade, a improcedência do procedimento cautelar não interfere com o
julgamento do objeto da ação principal, uma vez que o destino do pedido nela
formulado depende exclusivamente da prova dos factos que o autor alegou, com vista à
obtenção da tutela definitiva, e do enquadramento normativo que o tribunal lhes deu. A
rejeição da providência pode ter-se ficado a dever à insuficiência da prova
produzida para mostrar a probabilidade séria da existência do direito ou para
fundamentar o risco da lesão dos interesses do requerente, se não forem ordenadas de

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imediato medidas que salvaguardem os efeitos da futura decisão de mérito. Na base de


semelhante inêxito encontra-se unicamente a falta ou a insuficiência da prova de
requisitos específicos da procedência do pedido de tutela cautelar, não podendo a
mencionada insuficiência interferir com o julgamento da questão de fundo.
Por motivo da mencionada autonomia, a concessão da providência solicitada deixa o
tribunal - pode ser o mesmo que não acolheu num primeiro momento o pedido cautelar -
inteiramente livre para julgar o pedido de tutela definitiva à luz das provas
produzidas na ação principal. A providência cautelar já decretada extingue-se, como
refere expressamente a alínea c) do n.º 1 do artigo 373.º, se o pedido formulado na ação
principal vier a ser julgado improcedente. Quer dizer, a procedência do pedido cautelar
é compatível, no plano da coerência entre decisões judiciais, com a falta de fundamento
da pretensão do requerente deduzida na ação principal.
A independência do procedimento cautelar, enquanto expressão da ausência de um nexo
de prejudicialidade das decisões nele proferidas relativamente às questões suscitadas na
ação principal, encontra-se claramente afirmada no n.º 4 do artigo 364.° Refere-se no
mencionado preceito, com latitude bastante para abranger a vertente dupla que tal
independência assume, que nem o julgamento da matéria de facto, nem a decisão final
proferida no procedimento cautelar, tem qualquer influência no julgamento da ação
principal.

A Tramitação nos procedimentos cautelares


Para o regime do procedimento cautelar, vale:

• Em primeiro lugar, o regime especialmente previsto para as providências


cautelares - 362.º CPC e ss.;
• Supletivamente, o regime previsto para os incidentes de instância (por remissão
do 365.º/3 CPC para os 293.º a 295.º CPC). É, por exemplo, no regime dos
incidentes de instância que se encontra o prazo de oposição (no regime incidental);
• Devendo ainda aplicar as regras da ação declarativa que sejam compatíveis com
as particularidades das providências cautelares.
O procedimento cautelar inicia-se mediante a apresentação de um requerimento - 365.º/1
CPC que obedece ao modelo da petição inicial, sujeita à aplicação das regras que valem
para este articulado - 552.º a 558.º CPC. Devem observar-se no seu desenvolvimento
também as normas de carácter geral da ação declarativa, em tudo aquilo que seja
compatível com a celeridade da tutela cautelar urgente e se mostre necessário para dar
consistência à estrutura formal da tramitação.
Por vezes, encontram-se normas avulsas que especificam algumas dessas exigências
formais, como acontece com a obrigatoriedade de, nos procedimentos cautelares, se
deduzirem em redação articulada os factos que interessam à fundamentação do
pedido ou da defesa (artigo 147.º, n.º 2). Ao propor o procedimento, o requerente deve
alegar os factos nos quais se sustenta a probabilidade séria da existência do direito

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a acautelar e a verificação do receio fundado da sua lesão, arrolando, desde logo, as


testemunhas e requerendo os outros meios de prova (artigo 293.º, n.º 1).
A secretaria do tribunal pode recusar-se a aceitar o requerimento com base na ocorrência
de alguma das situações previstas no artigo 558°, justificando sob forma escrita a razão
concreta da recusa. Tal como acontece na ação declarativa, o requerente tem aberta a via
da reclamação para o juiz da causa e, em caso de confirmação judicial da atitude da
secretaria, existe sempre a possibilidade de recurso até à Relação, ainda que o valor do
procedimento não ultrapasse a alçada dos tribunais de 1." instância (artigo 559º).
Recebido o requerimento inicial, a secretaria abre conclusão do processo ao juiz, uma vez
que nos procedimentos cautelares existe sempre despacho liminar (artigos 226.0°, n°
4, alínea b), e 590º, nº 1). Este despacho assume conteúdos diversificados, em função das
questões que o juiz pode ser chamado a decidir logo no momento do seu primeiro contacto
com os autos do procedimento cautelar. Nada impede, aliás, que existam vários despachos
autónomos no decurso da fase liminar ou que no mesmo despacho se concentrem diversas
decisões.
Ora, as providências cautelares são uma das exceções à regra da oficiosidade (226.º/1
CPC), uma vez que são um dos casos em que há sempre despacho liminar - 226.º/4
alínea b) CPC. Ou seja, o juiz deve proferir este despacho liminar, em resposta imediata
ao requerimento que é formulado, sem prévia audição da contraparte e ainda antes que
seja dado ao requerido conhecimento da propositura da providência cautelar.
Nota: A citação é chamada de notificação se a providência cautelar for incidental, porque
na pendência da ação principal, o réu já foi citado (já foi chamado pela primeira vez ao
processo), logo será notificado, embora se apliquem as regras da citação.
O despacho liminar pode ter vários conteúdos:

• Indeferimento Liminar - 590.º/1 CPC:


O despacho a proferir será o de indeferimento liminar, quando o pedido se mostre
manifestamente desprovido de fundamento ou ocorram, de modo evidente, exceções
dilatórias insupríveis e de que o tribunal deva conhecer ex officio, podendo o requerente
corrigir a deficiência, se tal for possível, de modo a aproveitar os efeitos ligados à
apresentação do primeiro requerimento em juízo (artigos 560° e 590º nº 1). Coloca-se nas
mãos do juiz o poder-dever de impedir o desenvolvimento das fases subsequentes do
procedimento, sempre que os requisitos em falta comprometam em termos
irremediáveis a pretensão do requerente.
Exemplo: Dado que, nos procedimentos cautelares, a incompetência territorial é sempre
de conhecimento oficioso (artigos 78° e 104º nº 1, alínea a)), o juiz deve proferir despacho
a ordenar a remessa dos autos para o tribunal competente, desde que o processo forneça
os elementos necessários para a decisão imediata da questão (artigo 105º nº 3). Solução
idêntica vale para as hipóteses de incompetência em razão do valor ou da estrutura do
tribunal, ambas sujeitas ao regime do conhecimento oficioso, seja qual for a ação em que
se suscite esta exceção dilatória (artigo 104.º, n.º 2).

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Logo na fase inicial do procedimento, pode dar-se a remessa do requerimento apresentado


num juízo cível ou num juízo de competência especializada cível para, respetivamente, a
vara cível ou a vara de competência mista cível e criminal.

• Despacho de Aperfeiçoamento
Quando a leitura do requerimento e dos documentos que o acompanham revele
deficiências suscetíveis de sanação, o tribunal deve proferir despacho de
aperfeiçoamento, no sentido de dar ao requerente a oportunidade de promover a
regularização da instância dentro de determinado prazo (artigos 6º, nº 2, e 590º, nº
2). A atividade concretamente necessária para a sanação de tais deficiências deve
excecionalmente ser desencadeada pelo próprio tribunal, sempre que a lei lhe atribua
competência para esse efeito (104º nº1 e 2), como sucede com o suprimento da
incapacidade judiciária ou da irregularidade da representação (artigo 28°). Neste caso, o
suprimento efetua-se mediante despacho a ordenar que a citação se faça em quem deva
representar o requerido ou a determinar a notificação da pessoa a quem incumba a
representação do requerente.

• Despacho de Citação:
Se o contraditório não for diferido, o juiz ordena a citação do requerido.
Normalmente não pode ser tomada uma decisão sem que se oiça a parte contrária, por
imposição do princípio do contraditório. No entanto, no âmbito das providências
cautelares, existe um despacho liminar porque existe a possibilidade do contraditório
ser diferido (atrasado), isto é, o juiz pode decretar uma providência e só depois ouvir
o requerido.
Como se referiu, perante a especificidade da situação concreta a acautelar pode mostrar-
se mais conveniente, que a realização do contraditório seja transferida para depois de o
tribunal decretar a providência, sempre que a chamada prévia do requerido ao
processo ponha em risco sério a realização do fim que se pretende alcançar com a
aplicação de determinada medida, ou seu conhecimento antecipado lhe retire ou
diminua a eficácia pretendida (artigo 366º, nº 1). Surge, então, um despacho sobre o
diferimento do contraditório.
A deslocação do contraditório para momento posterior à decisão é, as mais das vezes,
pedida pelo requerente que, deste modo, procura afastar o requerido da fase inicial do
processo, com vista a alcançar maior celeridade no respetivo andamento e a evitar
interferências capazes de comprometer o êxito ligado à surpresa da decisão. Todavia,
nada impede que parta da iniciativa do próprio tribunal a deslocação do contraditório para
depois de decretada a providência cautelar. Num caso e no outro, impõe-se-lhe decidir,
em sede de despacho liminar, a questão do momento mais oportuno para a audição
do requerido.
Se o procedimento apresentar o contraditório diferido para depois de decretada a medida
cautelar, por imposição legal ou determinação do juiz, o despacho liminar deve conter
alguma das decisões seguintes, consoante a situação que se verifique:

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• Designação do dia para o início da audiência de produção das provas a apresentar


pelo requerente, quando os documentos por este juntos aos autos não se mostrem
suficientes para o tribunal se pronunciar sobre o pedido de tutela cautelar.
• Os depoimentos que forem prestados na mencionada audiência são sempre
gravados, a fim de se proporcionar ao requerido ausente o conhecimento posterior
da prova produzida (artigo 155º).
Com base nesta fonte de informação, a contraparte que, mais tarde, desencadeia a
oposição fica em condições de requerer que nela se produzam as provas destinadas
a infirmar os resultados da prova do requerente, sobre os quais assentou em
exclusivo a decisão do tribunal.
O contraditório pode ser diferido (atrasado) ou não, e a regra é que não seja diferido.
Isto, apenas nos termos gerais, porque existem 3 casos em que não se ouve o requerido
previamente:
1. restituição provisória da posse - 377.º CPC e 1279.º CPC;
2. arresto - 393.º/1 CPC
3. citação edital - 366.º/4 CPC
(Explicação de cada um deles feita mais à frente.)
Se o contraditório não for diferido, o requerido vai ser citado (ou notificado, caso já
tenha sido citado para a causa principal) tal como acontece no âmbito das ações
declarativas, para deduzir oposição ao requerente, tendo um prazo de 10 dias para se
opor - 293.º/2 CPC ex vi 365.º/3 CPC.

É através da oposição, apresentada sob a forma de articulado, em que se a parte estiver


representada por advogado (147.º/2 CPC), o requerido tem o ónus de apresentar todas as
questões que interessam à defesa no que diz respeito à matéria de facto e aos
pressupostos jurídicos de decretamento da providência. É também este o momento
oportuno para o requerido dar conta dos prejuízos decorrentes do decretamento da
providência, de acordo com o princípio da proporcionalidade - 368.º/2 CPC.
Nota: se a providência cautelar for deduzida por incidente, deve o juiz considerar em
conjunto a defesa do réu/requerido. Ou seja, o juiz pode tomar em consideração os
elementos da contestação que o réu apresentou no âmbito da ação principal e que possam
contribuir para a negação da atendibilidade da providência.
À revelia do requerido, ou seja, à não apresentação de oposição aplica-se o regime
específico do processo comum de declaração - 567.º/1 CPC e os factos articulados pelo
requerente consideram-se confessados (sistema de cominatório pleno).
Apresentada a oposição (ou não por aplicação do regime da revelia), o juiz está em
condições para apurar a existência de algum obstáculo ao conhecimento do mérito da
providência cautelar:

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• Caso o detete, e em paralelo com a ação declarativa, pode em despacho pré-


saneador (590.º/2 CPC) convidar as partes à regularização da instância, sob pena
de depois extrair consequências em despacho saneador (595.º/1 alínea c) CPC);
Se essa regularização não tiver lugar, ficando comprometida a possibilidade de o tribunal
se pronunciar sobre o pedido cautelar, o juiz deve, em despacho saneador, terminar o
processo com uma decisão de conteúdo formal (alínea a) do n.º 1 do artigo 595º).

• Se considerar que não há necessidade de realização de atividade instrutória


(audiência final para produção de prova), e ao abrigo do princípio da adequação
formal (547.º CPC), decide a causa no despacho saneador - 595.º/1 CPC;
Como se salientou, o n.º 1 do artigo 367° não deixa margem para dúvidas ao dispor que
a audiência final só deve realizar-se «quando necessário», o que também pretende
significar que o juiz não deve passar à fase seguinte do procedimento, sempre que
faltem de modo irremediável os requisitos da instância que condicionam a
apreciação do pedido de tutela provisória. Tudo concorre, portanto, no sentido de se
entender que semelhante decisão deva exteriorizar-se mediante despacho saneador.
Sempre que o juiz entenda que não se justifica a passagem à fase da audiência final nos
procedimentos cautelares em virtude de existirem obstáculos irremovíveis ao julgamento
do mérito ou de, pelo contrário, poder pronunciar-se de imediato sobre o pedido de tutela
cautelar, deve assegurar o contraditório prévio a qualquer destas decisões, salvo
ocorrendo manifesta desnecessidade (n.° 3 do artigo 3º). De novo perante o silêncio dos
preceitos referentes aos procedimentos cautelares, afigura-se fundada a aplicação do que
se acha prescrito nas disposições fundamentais do processo, de modo a assegurar-se a
realização do contraditório, sob forma oral, no início da audiência mais adequada ao fim
em vista (n. 4 do artigo 3º). À luz do que antecede, parece sustentável que o juiz, nas
situações descritas, realize o contraditório em audiência prévia convocada com esse
objetivo (alínea b) do n.º 1 do artigo 591.").

• Se for necessária a produção de atividade instrutória (267.º CPC) avança-se


para a audiência final e será produzida a prova que as partes tiverem requerido,
bem como aquela que o tribunal ache necessário, com base nos seus poderes de
produção oficiosa de prova (411.º CPC). Devendo a audiência ser gravada
(151.º/1 CPC), permitindo assim a sindicância da decisão por parte do tribunal
superior.
Embora o grau de convicção exigido quanto à existência do direito a acautelar se fique
pela «probabilidade séria», tal não afasta o poder-dever de o tribunal, mesmo
relativamente a esta questão, lançar mão dos expedientes de natureza inquisitória
de que dispõe no plano da indagação dos factos.
No que respeita às provas orais (gravações), trata-se de uma medida destinada a
fornecer à Relação, em caso de recurso, o conhecimento do conteúdo dos
depoimentos e esclarecimentos prestados no tribunal a quo, permitindo-lhe detetar

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e, até, corrigir erros ou insuficiências no julgamento da matéria de facto. A falta ou


deficiência de registo implica nulidade processual, que deve ser arguida no prazo de 10
dias, a contar do momento em que a gravação é disponibilizada (n. 4 do artigo 155.°). Se,
por hipótese, a nulidade processual for arguida com êxito, vai seguir-se a anulação dos
atos processuais subsequentes afetados pela deficiência (n.° 2 do artigo 195.°), onde se
inclui a decisão que tenha recaído sobre a pretensão do requerente da providência
cautelar.
Se o contraditório for diferido (não é regra), o juiz tem apenas a apresentação de um
requerimento (que segue as regras da petição inicial). O requerente terá requerido a
produção de determinadas provas e terá juntado determinados documentos, portanto, o
juiz tem à sua frente o requerimento.
Quanto à produção de provas em audiência final:

• Excecionalmente, nos termos do 367.º/1 CPC (“se necessário”), o juiz pode


entender que não é necessária a produção de prova, porque já tem os elementos
suficientes dos quais depende a respetiva concessão ou não da providência
cautelar, então decreta imediatamente o decretamento ou não da providência
cautelar; Não se exclui, assim, que o procedimento cautelar seja logo
decretado no despacho liminar. Na verdade, o artigo 367º, n.º 1, determina que
a produção das provas se faça em audiência final “quando necessário”. A
formulação utilizada permite concluir que aquela audiência não deve ser
convocada, se o tribunal se considerar habilitado a decidir com base na
apreciação da prova documental apresentada pelo requerente. Caso a
providência seja decretada nesta fase, o despacho liminar determina. ainda, que,
após a efetivação das medidas ordenadas, se realize a notificação da decisão ao
requerido, aplicando-se a este ato o regime da citação (artigo 366º nº 6).

• Quando o juiz entenda que não dispõe de elementos suficientes, deverá ser
designado um dia para a audiência da produção de prova pelo requerente (sem
a presença do requerido porque ainda nem foi citado) e os depoimentos deverão
ser gravados - 155.º CPC para que o requerido possa exercer o contraditório a
posteriori.
Após este procedimento, o requerido será citado/ notificado da decisão tomada, podendo
reagir de duas formas - 372.º CPC:
1. Recorrer do despacho que tenha decretado a providência cautelar: quando
entenda que a providência não devia ter sido concedida por não estarem
verificados os requisitos para tal, havendo lugar a recurso de apelação - 644.º/1
alínea a) CPC. É o tribunal de recurso que vai decidir da manutenção ou não da
providência cautelar;

2. Deduzir oposição à providência cautelar: em casos em que não seja admitido


recurso; ou quando pretenda produzir novos meios de prova, que permitam mudar

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a convicção do tribunal - 372.º/1 alínea b) CPC. É o juiz que vai decidir da


manutenção, revogação ou redução da providência que concedeu anteriormente.
O ato da citação implica a remessa ao citando do duplicado do requerimento e da
cópia dos documentos que o acompanham. Devem ainda ser-lhe transmitidas
determinadas informações complementares, importantes para a organização da defesa:

• Tribunal onde o processo se encontra pendente


• Prazo de oferecimento da defesa
• Necessidade de patrocínio judiciário
• Cominações em que incorre no caso de revelia (artigo 227º)
Resulta do artigo 293º nº 2, aplicável ex vi do artigo 365º nº 3, que o prazo da oposição é
de dez dias. Se o requerido não deduzir oposição, entra em revelia à qual se aplica o
regime estabelecido para o processo comum de declaração (artigo 366º nº 5). Quer
dizer, os factos alegados pelo requerente vão, a partir daí, ser tratados como se
estivessem provados, a menos que se verifique alguma das exceções previstas no artigo
568º, limitando-se o tribunal a aplicar-lhes o direito e a decidir em conformidade (artigo
567º n.º 1).
Uma vez citado (ou notificado), o requerido tem o ónus de deduzir oposição à
pretensão do requerente, sob pena de se sujeitar à aplicação do regime da revelia,
com as consequências acima mencionadas. Por isso mesmo, deve ser-lhe dada
informação acerca da cominação em que incorre.
Todavia, se o procedimento cautelar for deduzido como dependência de ação já
proposta, onde o réu tenha contestado, não se aplica mecanicamente o regime da
revelia, havendo que tomar em consideração tudo aquilo que foi referido na contestação
e assume também o sentido de impugnação antecipada dos factos que o requerente alegou
na petição cautelar. Para a defesa releva, mais do que a observância das formas
processuais, o significado global da posição trazida ao processo, como se depreende do
disposto nos artigos 574.º/2, 587.° e 732.º/3.
À semelhança do requerimento, a oposição tem de ser redigida sob forma articulada
(artigo 147.º, n.º 2) e nela deve o requerido oferecer o rol de testemunhas, enquanto
solicita a produção de outros meios de prova (artigo 293.º, n.º 1, ex vi do artigo 365.º,
n.º 3).
No articulado de oposição, podem suscitar-se questões que integram a defesa, embora
não envolvam a negação dos factos que o requerente invocou para fundamentar o pedido.
O requerido tem o ónus de apresentar todas as questões que interessam à defesa no que
diz respeito, à matéria de facto e aos pressupostos jurídicos de decretamento da
providência.
Assim, é esta a oportunidade para se alegarem os prejuízos que a efetivação da
providência irá causar ao requerido e a desproporção considerável entre eles e o
dano que se pretende evitar. Provadas tais alegações, o tribunal recusa-se a decretar a

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providência, mesmo que o requerente prove os requisitos de que depende a procedência


do pedido cautelar (artigo 368.º, n.º 2).
A apresentação da oposição tem de ser notificada ao requerente, mas este não pode
responder noutro articulado às exceções que o requerido deduziu. Perante a
introdução de questões novas no objeto do processo, é indispensável assegurar-se o
contraditório do requerente no início da audiência final ou, até mesmo, da audiência
preliminar que o tribunal convoque, quando entenda que estão reunidas as condições para
se pronunciar sobre o pedido cautelar logo no despacho saneador. É a solução que decorre
do disposto no artigo 3.º, n.º 4.
Encerrada a produção da prova, pode cada um dos advogados fazer uma breve
alegação oral, sendo imediatamente proferida decisão por escrito (artigo 295. ex vi
do n.º 3 do artigo 365.). O juiz declara quais os factos que julga provados devendo, em
seguida, «indicar, interpretar e aplicar as normas jurídicas correspondentes», para
concluir com a decisão final sobre o pedido cautelar (n.º 3 do artigo 607. ex vi do artigo
295°). É no despacho decisório assim proferido que deve estar incluída a análise crítica
do material probatório presente nos autos, acompanhada da indicação dos factos não
provados, «especificando (o julgador) os demais fundamentos que foram decisivos para
a sua convicção» (artigo 607.º/4 1ª parte, ex vi do artigo 295º). A decisão final, que integra
o julgamento de questões de facto e de direito, tem de ser tomada dentro do
condicionalismo descrito, ainda que a complexidade problemática das matérias sobre as
quais o tribunal é chamado a pronunciar-se reclame um grau de ponderação incompatível
com a celeridade imprimida às fases da instrução e do julgamento.
A audiência final pode ficar repartida por dois momentos separados no tempo, quando o
contraditório se realiza após o despacho que decreta a providência cautelar (artigos
367° e 388º, n.º 1, alínea b), e 3). Ao deduzir oposição nestas circunstâncias, o requerido
traz ao processo factos sobre os quais o tribunal não se pronunciou, porque o
oponente não teve, até então, oportunidade de se manifestar nos autos. Com as
alegações subsequentes ao decretamento da providência cautelar, o requerido procura
impugnar os fundamentos em que o juiz se baseou, de modo a conseguir a revogação,
redução ou modificação do despacho judicial proferido sem o seu contraditório. A nova
decisão provocada por esta oposição «constitui complemento e parte integrante da
inicialmente proferida» (n.º 3, 2. parte, do artigo 372.).
Por força da aludida fragmentação da audiência, pode acontecer que a apreciação da
matéria de facto que interessa para a decisão do pedido cautelar na 1.ª instância
venha a pertencer a juízes diferentes. Tratando-se de questões que são processadas
durante férias judiciais (artigos 138.º, n.º 1, «in fine», e 363.º, n.º 1), é bem possível que
a apreciação da matéria de facto alegada pelo requerente caiba a um juiz de turno, que
também decreta a providência cautelar, e os factos trazidos através da oposição já sejam
apreciados pelo magistrado titular do processo. Ou o procedimento cautelar foi deduzido
como preliminar no tribunal competente, segundo o disposto no artigo 78.º, e depois
remetido para o tribunal onde corre a ação principal, a fim de ser apensado aos autos
desta, ficando o juiz da ação com exclusiva competência para os termos subsequentes à

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remessa» (artigo 364.º, n.º 2, 2. parte). Nenhuma invalidade processual resulta da


intervenção de juízes diferentes no julgamento da matéria de facto relevante para o
procedimento cautelar, pois está-se em presença de duas decisões que nascem de
modo autónomo, com a finalidade de se integrarem num todo que passa a constituir
o fundamento da decisão cautelar que prevalece depois de realizado o contraditório.
Importa, porém, que as decisões assim proferidas provenham de juízes perante os
quais hajam decorrido todos os atos de instrução e discussão referentes à matéria de
facto que cada um deles julgou, de modo a garantir-se o princípio da plenitude da
assistência consagrado no artigo 605.º 142.
A decisão proferida em 1º instância pode ser impugnada, variando as modalidades dessa
impugnação consoante tenha ou não existido audição prévia do requerido. Se não
houve contraditório prévio, a decisão que decretou a medida cautelar consta de
despacho liminar, de despacho saneador, caso se admita a sua existência nestes
procedimentos, ou de despacho proferido em seguida à produção de prova em
audiência especificamente convocada para o efeito.
Depois de notificada a decisão, o requerido dispõe de duas vias processuais para impugná-
la, previstas no n.º 1 do artigo 372º:

• Recurso de apelação
• Incidente da oposição
Se a decisão foi antecedida do contraditório do requerido, a parte vencida só pode
impugná-la, nos termos gerais, através do mencionado recurso de apelação.
Para que a impugnação deduzida no âmbito deste recurso atinja o segmento da decisão
que incidiu sobre a matéria de facto, exige-se que o recorrente identifique os pontos
específicos que considera incorretamente julgados e concretize os meios de prova,
constantes do processo ou de registo ou de gravação nele realizada, que impunham
que o tribunal «a quo» tivesse decidido em termos diversos.
O não preenchimento destes ónus, decorrentes do n.º 1 do artigo 640º, implica que a
impugnação referente à matéria de facto não possa ser atendida por falta de
especificação do respetivo objeto.
Fim da tramitação.

Proteção do requerido/contraditório
Como vimos, excecionalmente, o contraditório pode ser diferido. Para além das causas
de caducidade das providências cautelares, são também formas de proteção do requerido:

• Caso a providência cautelar seja considerada injustificada ou venha a caducar por


facto imputável ao requerente, o requerente responde perante o requerido - 374.º/1
CPC. Por exemplo, a não propositura da ação principal dentro do prazo que a lei
prevê implica que o requerente responde perante o requerido.

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• O juiz pode estabelecer que seja prestada caução por parte do requerente para que
possa ser decretada a providência cautelar - 374.º/2 CPC, sendo a caução um meio de
acautelar a eventual responsabilidade do caucionante. Nos termos do 376.º/2 CPC
esta possibilidade só pode ser imposta, no que diz respeito às providências cautelares
especificadas, ao arresto e ao embargo de obra nova. O próprio requerido pode, a
pedido seu, obter a substituição da providência cautelar por caução adequada e que se
mostre suficiente para prevenir ou reparar a lesão - 368.º/3 CPC.

• Recusada a providência cautelar, ou se tiver caducado ao abrigo das causas de


caducidade já estudadas, o requerente não pode repetir o pedido de providência
cautelar na mesma ação - 362.º/4 CPC. Apenas se admite esta possibilidade quando
a causa de necessidade de tutela se deva a factos supervenientes ao primeiro
procedimento.

Efeitos das Providências Cautelares

As providências cautelares podem usar de força executiva - 703.º/1 alínea a) CPC e


705.º/1 CPC (equipara as sentenças condenatórias aos despachos condenatórios2). Assim,
pode haver uma ação executiva que nasça do decretamento de uma providência cautelar,
isto se, se do decretamento da PC se propuser a condenação do indivíduo em
qualquer comportamento, sendo possível o recurso à força pública do Estado, se se
revelar necessário, para proteger o efeito da providência cautelar.
Há casos em que o decretamento da providência impõe logo a prática de atos que
permitam a respetiva realização, como acontece com a providência cautelar especificada
de arresto, em que, nos termos do 391.º CPC e 619.º CC, se apreende de imediato o bem
ou bens arrestados, ou seja, o arresto é o exemplo de uma providência cautelar que tem
natureza simultaneamente declarativa e executiva3, sendo que, o seu decretamento
implica logo os atos de apreensão de bens.
Note-se que, as providências cautelares estão sempre ligadas a uma ação principal, com
a exceção da inversão do contencioso. Esta ação pode ser uma ação executiva, por
exemplo, numa ação executiva para pagamento de quantia certa, pode ser pedido com
urgência o arresto de bens do devedor (que tem a particularidade de não exigir audição
prévia).
As providências cautelares gozam ainda de 2 tipos de tutela compulsória que visam
reforçar a sua força:
a) Uma vez que na providência cautelar está em jogo o império do Estado, comete crime
de desobediência todo aquele que infrinja a providência cautelar - 375.º CPC;

2
As providências cautelares são tecnicamente decididas por despacho.
3
Aplicam-se ao arresto as normas da penhora que é um ato que é praticado na ação executiva.

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b) Pode ser decretada sanção pecuniária compulsória - 829.º-A CC - que se revele


adequada a assegurar a efetividade da providência cautelar decretada - 365.º/2 CPC.
Esta é a forma prevista no ordenamento jurídico para compelir ao cumprimento de
obrigações de prestação de facto infungível e traduz-se na condenação do devedor ao
pagamento de uma certa quantia por cada dia de atraso ou infração.
Da decisão proferida em sede de providência cautelar cabe recurso para o TR, mas já
não para o STJ - 370.º CPC. Salvo nos casos do 692.º/2 CPC, em que o recurso é sempre
admitido. Ou seja, há uma limitação à possibilidade de recurso, estando vedado o recurso
de revista com exceção dos casos em que o recurso é sempre admissível.

A Inversão do Contencioso
A separação de planos entre o procedimento cautelar e a ação principal, que resulta do
sentido e da função dos dois tipos de tutela judicial em presença, sofre uma modificação
profunda, quando o tribunal defere o pedido de inversão do contencioso deduzido
pelo requerente do procedimento cautelar (artigos 369º e ss.). Está-se na presença de
um instituto processual que procura trazer uma medida de aceleração dos processos,
combinando a duração temporal mais breve dos procedimentos cautelares com a
declaração do direito em termos definitivos, quando estejam reunidas determinadas
condições tidas como suficientes para se operar semelhante mudança de tutela.
As providências cautelares, no que diz respeito à sua função, pressuposto e estrutura
encontram-se separadas da ação principal, ainda que ligadas a ela. Contudo, em certos
termos, admite-se que a providência cautelar seja aproveitada para obter uma decisão
quanto ao fundo da causa, e portanto, materialmente, estamos perante uma forma de
tutela sumária definitiva.
Este não é o efeito imediato da inversão do contencioso, é o efeito mediato. A
consequência imediata não é oferecer a composição definitiva do litígio, mas antes, a
dispensa, para o requerente, do ónus de propor a ação principal - “reversal of the
procedural burden”
A inversão do contencioso não é admissível quando a ação principal já tenha sido
proposta.
Normalmente, a ação ainda não está intentada, logo, a providência cautelar é
preliminar. Nesses casos, o requerente tem o ónus de intentar a ação principal, e se não
o fizer, a providência cautelar caduca.
Quando se inverte o contencioso, dispensa-se o requerente deste ónus de ação e a
iniciativa passa a caber ao requerido.
Ou seja, ao invés do contencioso principal (como seria regra) ser da iniciativa do
requerente, sob pena de caducidade da providência cautelar decretada, a iniciativa passa
a ser do requerido. Rigorosamente, o efeito do contencioso é a criação de um ónus de
ação sobre o requerido, isto é, a previsão da necessidade de observância de um
comportamento sob pena de arcar com uma consequência jurídica desfavorável. Se não

Ana Castro e Catarina Morais 63


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observar este ónus de ação a providência cautelar consolida-se como decisão


definitiva da causa-efeito mediato. A decisão pode tornar-se definitiva da causa, mas
não é a decisão definitiva da causa, só o é se o requerido não observar o ónus de ação que
recai sobre ele.
Na verdade, a mudança para a tutela definitiva pressupõe a procedência qualificada do
pedido de tutela cautelar, pois o tribunal mantém-se, num primeiro momento, no plano
da resposta ao solicitado pelo requerente e é sob o impulso deste que, em seguida,
pode decretar a inversão do contencioso, caso estejam presentes os requisitos dentro
dos quais a mudança pode ser operada.
Esta possibilidade está sujeita a 3 requisitos:
• É necessário que o juiz tenha, no decurso do procedimento cautelar, formado
convicção segura à cerca da existência do direito que se pretende acautelar. Ou
seja, para haver decretamento da inversão do contencioso, não é suficiente o fumus
boni iuris, mas antes a verdadeira existência de direito. Esta convicção segura,
dificilmente se poderá formar sem o contraditório do requerido, ou seja, há casos,
embora excecionais em que o contraditório é diferido, mas dificilmente se poder obter
esta convicção sem a audição do requerido. Quer dizer, apesar de sobre o requerente
incidir tão-só o ónus de mostrar a verosimilhança do direito («fumus boni iuris») que
pretende tutelar provisoriamente (artigos 365.º, n.º 1, e 368.º, n.º 1), ele conseguiu
fazer prova completa da existência deste direito, o que significa que produziu no
espírito do julgador, durante a instrução do procedimento cautelar, um grau de
convicção que ultrapassa largamente o exigido para obter decisão favorável no plano
em que a questão foi colocada de início.
• A providência cautelar em causa deverá ser apta a realizar a composição definitiva
do litígio - 369.º/1 CPC. Assim, a medida que o tribunal decretou, em resultado da
procedência da pretensão do requerente, tem de recobrir os efeitos prático-jurídicos
que seriam alcançados com a procedência do pedido na ação principal. Para a
inversão se concretizar, exige-se que a medida provisória, caso venha a tornar-se
definitiva, assuma dimensão jurídica capaz de permitir a resolução do litígio em
termos análogos aos que seriam conseguidos por intermédio da procedência da ação
principal. Entre os procedimentos cautelares incompatíveis com a inversão conta-
se o arresto (artigos 391° e ss.), dado que o requerente pede a apreensão judicial de
determinados bens do devedor em antecipação do resultado que seria obtido com a
penhora dos mesmos (n.º 2 do artigo 391.º). Ora, esta intervenção cautelar realiza
um fim tipicamente conservatório da garantia da cobrança futura do crédito do
requerente, quer dizer, tem como objeto a criação das condições capazes de assegurar
a realização de um direito e não a sua declaração com força de caso julgado na
chamada ação principal que, neste caso, até pode ser uma ação executiva. O que
significa que a inversão do contencioso se aplica em primeira linha às providências
cautelares antecipatórias, mas não está excluído que se possa aplicar nas providências
cautelares conservatórias.

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• Deve haver um requerimento no sentido da inversão do contencioso - 369.º/1 CPC


e deve ser feito até ao encerramento da audiência final - 369.º/2 1ª parte CPC.
Se for decretada a inversão do contencioso, o requerido dispõe do prazo de 30 dias
para a propositura da ação principal, que tem por objeto o convencimento do tribunal
da inexistência do direito acautelado - 371.º/1 CPC.
Não existe inversão do ónus da prova, mas sim mudança das posições ocupadas pelas
partes na ação principal relativamente ao que acontecia se a providência cautelar houvesse
sido decretada sem inversão do contencioso.
Assim, o requerido pode ou não propor a ação principal:
• Se o requerido não propuser a ação principal, a consequência é que a providência se
consolida, resolvendo definitivamente o litígio - 371.º/1 CPC. trata-se de uma
forma de composição definitiva do litígio por forma diferente de sentença, mas
produzindo um efeito análogo e sujeito ao mesmo regime do caso julgado material.
• Em contrapartida, se o requerido propuser uma ação principal, que deve ter por objeto
um qualquer conteúdo que ponha em causa a existência do direito, à partida dir-se-ia
que é uma ação de simples apreciação negativa4 para declarar a inexistência do direito.
Mas pode também ser, por exemplo:
(i) uma ação de reivindicação como forma de reagir a uma providência cautelar
especificada de restituição da posse;
(ii) ou uma ação de simples apreciação positiva, no caso da providência cautelar
especificada de deliberação social.

• Caso a ação proceda, a providência cautelar caduca - 371.º/3 CPC


• Caso a ação não proceda, ou se verifique alguma das causas do 371.º/2 CPC: o
processo está parado por mais de 30 dias por negligência do autor; o réu é absolvido da
instância e o autor não propõe outra ação em termos de aproveitar a providência cautelar
ou consolida-se o efeito da providência cautelar, resolvendo definitivamente a causa.

A Inversão do Contencioso e o Deferimento do Contraditório- 366º

Só muito dificilmente se concebe que o tribunal possa formar convicção segura acerca da
existência do direito acautelado, quando não dispôs dos elementos de prova que o
requerido podia trazer aos autos. Neste caso, permite-se que o requerido se oponha à
inversão do contencioso conjuntamente com a impugnação da providência decretada
sem a sua audição prévia (artigo 369º, n° 2, 2.ª parte), servindo-se para o efeito:

• Do recurso de apelação

4
Nestas ações há uma regra especial em matéria de ónus da prova, sendo o réu quem tem o ónus
da prova. Nas situações de inversão do contencioso, o réu é o requerente, logo é ele que tem
iniciativa de promoção do processo - 371.º/2 CPC confrontar com o 373.º/1 alínea b) e d) CPC

Ana Castro e Catarina Morais 65


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• Do incidente da oposição, previstos no n.º 1 do artigo 372º (n. 2 do artigo 372.).

Situações em que se admite o contraditório deferido. Como se realiza.

Tanto no procedimento comum, como nos procedimentos especificados, a regra geral é a


de que o juiz deve ouvir o requerido antes de se pronunciar sobre o pedido, exceto se
a audiência puser em risco sério o fim ou a eficácia da providência (artigos 366.º, n.º 1,
e 376.º, n.º 1). Para que se justifique o sacrifício do princípio do chamamento a juízo da
contraparte - a fim de se lhe dar oportunidade de apresentar, previamente à decisão do
tribunal, as razões que tem a opor ao pedido contra si formulado (n.º 1 do artigo 3.°)
exige-se que o julgador, mediante decisão fundamentada, conclua no sentido da forte
probabilidade de o sujeito passivo da providência reagir à comunicação da
pretensão do requerente através de atos destinados a inutilizar a eficácia das
medidas cautelares. É de todo indesejável que o requerido aproveite o mecanismo de
realização do contraditório com objetivos estranhos à preparação da oposição.

Em três casos, todavia, o legislador considerou que se impunha a proibição da audiência


prévia do requerido, atenta a especificidade da situação concreta que se encontra
subjacente à necessidade da tutela cautelar.

1. Restituição provisória da posse - 377.º CPC e 1279.º CPC;


Assim, na restituição provisória de posse, a utilização de meios violentos para a
concretização do esbulho foi considerada como reveladora de tal grau de
antijuridicidade na atuação do requerido que justifica a reação imediata da ordem
jurídica com vista à reposição provisória da situação anterior (artigo 377º CPC e artigo
1279° CC). Daí que a restituição seja ordenada sem citação nem audiência do esbulhado
(artigo 378º), o que implica a localização do contraditório em momento processual
subsequente à efetivação da providência.

2. Arresto - 393.º/1 CPC


Também no arresto não há audiência prévia da parte contrária, devendo o tribunal decretá-
lo quando os elementos trazidos ao processo pelo credor permitam concluir que se acham
preenchidos os requisitos de que depende a sua concessão (artigo 393.º, n.º 1). O objetivo
de conferir solidez à garantia patrimonial do crédito do requerente, aliado à
frequência com que o devedor procura subtrair o património à ação dos credores
comuns, foram as circunstâncias que levaram o legislador a consentir que a apreensão
judicial de bens se efetue de maneira a surpreender o requerido.

3. Citação edital - 366.º/4 CPC


Por último, o juiz deve dispensar a audiência prévia do requerido sempre que se tenha de
empregar a citação edital (artigos 240° e ss. e 366º, nº 4). A demora inerente ao
processamento desta modalidade de citação, aliada ao elevado grau de ineficiência de que

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se reveste o chamamento do citado ao processo por seu intermédio, explicam a opção do


abandono deliberado das diligências processuais destinadas a tentar a realização
prévia do contraditório.

Perante a falta nos autos dos elementos indispensáveis à citação pessoal, prevaleceu a
consideração de que a eficiência da tutela cautelar devia impor o sacrifício da
convocação do requerido na fase processual que antecede o despacho em que o juiz se
pronuncia sobre o pedido.

Se a providência for decretada «inaudita altera parte», deve dar-se conhecimento da


decisão ao requerido tão-só depois de realizadas as medidas cautelares concretamente
ordenadas pelo tribunal.

O meio processual previsto para contactar o sujeito passivo da providência é a notificação


pessoal que, neste caso, tem de obedecer aos requisitos formais da citação (artigo 366.º/6;
cfr. artigo 250.º). Fica, então, o requerido em condições de realizar o contraditório
subsequente ao decretamento da providência, servindo-se, em alternativa, de qualquer
dos instrumentos de impugnação previstos no artigo 372.º, n.º 1.

Se o recurso for admissível, o requerido pode apelar do despacho que decretou a


providência (artigo 644.º, n.º 1, alínea a)), quando entenda suscitar unicamente questões
de direito ou também questões de facto, para cuja demonstração disponha de documentos
dotados de força probatória legal (artigo 372.º, n.º 1, alínea a)). As alegações de recurso
funcionam como instrumento de realização do contraditório diferido, na medida em
que introduzem pela primeira vez no processo as razões por que o requerido
considera a providência carecida de fundamento. Cabe ao tribunal «ad quem» decidir
se mantém ou revoga, no todo ou em parte, a medida cautelar anteriormente decretada.

Quando o recurso não seja admissível ou o requerido pretenda alegar factos e utilizar
prova que tenha de ser produzida em audiência, prevê-se que o contraditório assuma a
forma de oposição às medidas decretadas (artigo 372.º, n.º 1, alínea b)). Abre-se, deste
modo, a possibilidade de se desenvolver «a posteriori» atividade processual idêntica à
que teria lugar se houvesse audição do requerido antes de o tribunal se pronunciar (artigos
367° e 368º «ex vi» do artigo 372.º, n.º 1, alínea b)). Consequentemente, o juiz que
decretou a providência pode reapreciar a decisão, a partir dos elementos trazidos
aos autos pelo requerido, o que mostra que o seu poder jurisdicional não se esgotou
(cfr. artigo 613.º), quanto ao pedido cautelar, com o proferimento sem contraditório
do despacho objeto da oposição (artigo 372.º, n.º 3).

Ana Castro e Catarina Morais 67


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As providências cautelares especificadas

1. Restituição provisória da posse - 377.º/1 CPC - Procedimento que permite a


célere restituição da posse quando o possuidor dela seja privado por esbulho
violento.
O tribunal ordena as medidas indispensáveis para que o requerente obtenha a reposição
da situação anterior ao esbulho, de modo a poder retomar o mais depressa possível a
fruição da coisa de que foi privado com o emprego da violência.

Apesar de a definição da titularidade da posse ter que aguardar o desfecho da ação


principal, o esbulhado consegue através de uma decisão de carácter provisório a
antecipação da situação de facto que lhe será definitivamente reconhecida se vier a
proceder a ação principal. Perante a violência com que o esbulho ocorreu, a ordem
jurídica utiliza meios de reação destinados a promover a investidura do possuidor na exata
situação em que se encontrava anteriormente.

Permite que seja exercida processualmente a pretensão substantiva a que se refere o


1279.º CC.
Devem ser alegados os factos que constituem a posse, o esbulho e a violência5. Se o juiz
estiver convencido da violência da posse, ordena a restituição sem citação nem audiência
prévia do requerido - 378.º CPC.

2. Suspensão de Deliberação Social - Permite a impugnação de deliberações sociais


de uma associação ou de uma sociedade - 380.º CPC, e ainda, de deliberações de
assembleia de condóminos de prédio sujeito ao regime de propriedade horizontal
- 383.º/1 CPC. Portanto, houve uma deliberação, considera-se que a deliberação
é ilegal e procura-se suspender essa deliberação para que não seja executada. Na
ação principal vai discutir-se se a deliberação é válida ou não e pretende-se a sua
suspensão.
Pressupostos do decretamento:
(i) A contrariedade à lei, aos estatutos ou ao contrato;
(ii) Qualidade de sócio, associado ou condómino do requerente;
(iii) Demonstração de que a execução da deliberação causaria um dano apreciável
Nota: Se a deliberação já está executada não está verificado o requisito do periculum in
mora porque o perigo já se consumou. Pode, porém, o juiz deixar de suspender a

5
Caso estes requisitos não estejam previstos, poder-se-á ordenar a restituição da posse, mas ao
abrigo do procedimento cautelar comum - 379.º CPC.

Ana Castro e Catarina Morais 68


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deliberação quando o prejuízo resultante da suspensão seja manifestamente superior ao


dano causado ao requerente, derivado da execução - 381.º/2 CPC.
O procedimento deverá ser instruído com a ata da deliberação - 380.º/2 CPC, podendo
ser exigido ao requerido que junte a respetiva cópia da ata, sob pena de que a respetiva
contestação não seja recebida - 381.º/1 CPC. Este é um exemplo de um dever de
colaboração com uma cominação grave.

3. Alimentos Provisórios: Esta providência cautelar serve para obter alimentos


provisórios enquanto não forem concedidos alimentos definitivos - 384.º CPC, que
são obtidos através da ação principal - 376.º/4 CPC. A obrigação de alimentos é
instituída entre membros da família e funda-se no dever de auxílio recíproco - 2003.º
CC e ss.
É solicitada ao tribunal a fixação de uma quantia mensal que se destina a cobrir os
encargos estritamente necessários ao sustento, habitação e vestuário do requerente,
enquanto este aguarda o pagamento da primeira prestação definitiva.

A natureza das despesas que a prestação alimentar se destina a satisfazer justifica que se
imponha ao requerido uma prestação que antecipa provisoriamente desde o primeiro dia
do mês subsequente à data da instauração do procedimento cautelar (artigo 386.º, n.º 1) -
parte do pedido formulado na ação principal.

Este regime tem a particularidade de ser designado logo dia para o julgamento, sendo as
partes convidadas a fazer-se comparecer presencialmente - 385.º/1 CPC, e procurando o
juiz obter um acordo - 385.º/2 CPC. Não sendo possível obter um acordo, o juiz ordena a
prova necessária e decide oralmente - 385.º/3 CPC.
Está previsto um regime especial de responsabilidade nos termos do 387.º CPC.
4. Arbitramento de Reparação Provisória6: Diz respeito à concessão de uma
indemnização provisória, enquanto não seja decidida ação de indemnização e é
requerida sob a forma de renda mensal - 388.º/1 CPC.
É admitido em 2 casos7:
(i) Como dependência da ação de indemnização fundada em morte ou lesão
corporal - 388.º/1 CPC: Quando o juiz conclua que o requerente necessita dela em
consequência dos danos sofridos e haja prova sumária (fumus boni iuris) da existência
do direito do requerido;

6
Não se confunde com a indemnização provisória do 565.º CC, casos em que o tribunal já formou
a sua convicção quanto à indemnizibilidade de parte do dano, ou seja, há um quantitativo que já
está provado.
7
A vinculatividade do juiz às providências cautelares especificadas impede que haja arbitramento
de reparação provisória fora dos casos em que a providência cautelar o admite

Ana Castro e Catarina Morais 69


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(ii) Ou quando a pretensão indemnizatória se funda em dano suscetível de colocar


seriamente em causa o sustento ou habitação do lesado.
Ao processamento desta providência e à execução em caso de incumprimento remete-se
para o regime dos alimentos - 389.º CPC.

5. Arresto: Serve para proteção do credor que tenha um receio justificado de perder a
garantia patrimonial do seu crédito - 391.º/1 CPC e 619.º CC. Consiste numa
apreensão judicial de bens, a que se aplica, com as necessárias adaptações o regime
da penhora - 391.º/2 CPC e 735.º CPC e ss. e 622.º/2 CC
O arresto pressupõe a existência de uma relação creditícia.
Deve, neste caso, o requerente deduzir os factos que mostrem a probabilidade da
existência do crédito, e por outro lado, que justifiquem o receio invocado. Não basta que
o credor, requerente do arresto, tenha o receio de perder o seu crédito, tem de o justificar.
O requerente deverá ainda relacionar todos os elementos necessários às diligências de
apreensão dos bens que pretende ver arrestados - 392.º CPC.
Se o juiz estiver convencido da verificação dos pressupostos, decreta o arresto sem
audição prévia - 393.º/1 CPC.
O juiz está sujeito a limites de proporcionalidade, logo, se o arresto for requerido em mais
bens do que aqueles que são suficientes para garantir o cumprimento da obrigação, deve
reduzir-se aos seus justos limites - 393.º/1. Na medida em que no arresto não há
contraditório prévio, o juiz deve ativamente velar pela posição do arrestado de
forma que não seja concedido o arresto em termos superiores aos necessários
(princípio da proporcionalidade).
Esta providência cautelar especificada compreende causas próprias de caducidade:
1. Não sendo promovida ação executiva8 no prazo de 2 meses subsequentes ao trânsito
em julgado da sentença proferida no âmbito da ação declarativa;
2. Se o processo ficar sem andamento por um prazo superior a 30 dias, em resultado de
negligência do exequente - 395.º CPC.
Quanto à competência territorial, observamos uma regra especial em matéria de arresto,
como já abordado antes - 78.º/1 alínea a) CPC.
O arresto e o arrolamento tanto podem ser requeridos no tribunal onde deva ser
proposta a ação respetiva, como no do lugar onde os bens se encontrem ou, se houver
bens em várias comarcas, no de qualquer destas

8
O requerente é quem tem o ónus de intentar a ação principal no prazo previsto, sob pena da
providência caducar.

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Existem, ainda, casos especiais de arresto, como por exemplo, os do 394.º CPC quanto
ao arresto de navios e sua carga, e também, os do 396.º CPC que comportam uma dispensa
do justo receio de perda de garantia patrimonial.

Efeito prático do arresto


Do ponto de vista prático, o arresto antecipa os efeitos da penhora. Nos termos do
822.º/1 CC, o exequente adquire pela penhora o direito de ser pago pelo produto dos bens
penhorados com preferência face a qualquer outro credor que não tenha garantia real
anterior.
Artigo 822.º
Irregularidades ou frustração da venda por meio de propostas
1 - As irregularidades relativas à abertura, licitação, sorteio, apreciação e aceitação das
propostas só podem ser arguidas no próprio ato.
2 - Na falta de proponentes ou de aceitação das propostas, tem lugar a venda por negociação
particular.

A penhora é um ato processual praticado na ação executiva para pagamento de quantia


certa. Penhoram-se bens do devedor para com o produto da venda desses bens se
satisfazer o interesse do credor. É então uma apreensão judicial de bens que ficam afetos
à ação executiva.
O executado (aquele que vê os seus bens penhorados) perde, por norma, a
disponibilidade desses bens (porque são apreendidos), mas não perde a titularidade
desses bens, não obstante a penhora. Assim, é possível onerar um bem que esteja
penhorado, mas esse ato é inoponível face à ação executiva - a posição do exequente
prevalece.
O produto da venda do bem, vai ser pago em primeiro lugar ao exequente, mas não
prevalece sobre direitos reais anteriores.
Por exemplo, A e B são credores de C, logo C tem uma dívida face a B e uma dívida face
a A. C constitui uma hipoteca (direito real de garantia) e regista-a sobre o imóvel X, a
favor de A. Se B, o outro credor, intentar uma ação executiva contra e obtiver a penhora
do bem sobre o qual incide a hipoteca, prevalece a posição do credor hipotecário (A) - a
preferência que adquire com a penhora não prevalece9 sobre direitos reais anteriores.
Com a penhora obtém-se uma preferência, mas essa preferência não prevalece sobre a
hipoteca. Se há garantias reais anteriores elas prevalecem, mas se há garantias reais
posteriores à penhora, prevalece a penhora.
Se todos forem credores comuns (caso contrário ao exemplo anterior), conclui-se que,
pelo simples facto de um deles ser mais rápido a intentar a ação executiva, que tem
preferência, logo obtém a penhora em primeiro lugar.

9
É possível penhorar um bem que esteja hipotecado, mas se isso acontecer, o agente de execução
terá de citar para o processo o credor hipotecário.

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No entanto, se houve insolvência, a preferência resultante da penhora não prevalece.


O efeito pratico do arresto é o de se o bem tiver sido arrestado, os efeitos da penhora
retroagem à data do arresto, e por isso, tem uma causa especial de caducidade,
antecipando os efeitos da penhora.
Se se obtiver arresto de um bem e depois disso, o credor hipotecar o bem a favor de outro
credor e mais tarde, já depois de feita a hipoteca, o que obteve o arresto intenta ação
executiva e obtém a penhora - apesar da hipoteca ser anterior à penhora, como o
arresto antecipa os efeitos da penhora, confere preferência.
Se um bem que está onerado é vendido, é vendido com o ónus. O ónus acompanha o bem.

6. Embargo de Obra Nova- Trata-se de uma providência que visa a paralisação de uma
obra nova que se esteja a realizar e que ofenda direito real ou direito pessoal de gozo de
outra pessoa - 397.º/1 CPC
Deve ser efetuado no prazo de 30 dias do conhecimento do facto e a sua finalidade é a
ordem de suspensão imediata do trabalho.
Também aqui vale o princípio da proporcionalidade - 401.º CPC
É um procedimento de suspensão e não de destruição, mas se na pendência do embargo,
o embargado continuar a executar, pode o embargante requerer que se destrua a parte
nova - 401º/2 CPC
Quanto à competência, aplica-se o 78.º/1 alínea b) CPC

7. Arrolamento- Tem por finalidade conferir ao requerente uma possibilidade de se


precaver contra o justo receio de extravio, ocultação ou dissipação de bens móveis
ou imóveis ou de documento - 403.º/1 CPC
Nos termos do 403.º/2 CPC é dependência da ação à qual interessa a especificação dos
bens ou prova da titularidade dos bens relativos das coisas arroladas. Esta consiste na
descrição, avaliação e depósito de tais bens - 406.º/1 CPC. É decretado o arrolamento,
depois que se tenha feito prova sumária do direito relativo aos bens e aos factos que
justificam o receio do seu extravio - 405.º/1 CPC.
Por exemplo, um processo de inventário que se destina à partilha dos bens que integram
uma herança, se houver receio de que os bens se dissipem; ação de divórcio.
Existem arrolamentos especiais - 409.º CPC, mas sendo o arrolamento, por si só um
procedimento cautelar especial, estes casos tornam-se duplamente especiais -
procedimentos cautelares especialíssimos. Por exemplo, 409.º/3 CPC – não há
necessidade de demonstração dos factos dos quais deriva o receio de extravio ou de
ocultação dos bens.

Ana Castro e Catarina Morais 72


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Quanto à competência territorial importa o 78.º/1 alínea a) CPC.


Não se confunde com o arresto, aquilo que os distingue é o facto de que o arresto
pressupõe a existência de uma relação creditícia; o arrolamento pressupõe a existência
de um direito sobre os bens arrolados. No arresto, o credor não tem qualquer direito
sobre os bens do devedor, tem sim, o direito de perante uma situação de incumprimento
satisfazer o seu interesse à custa desses bens - o herdeiro não é credor do de cuius.
O arrolamento não é um dos casos em que o legislador prevê que o contraditório seja
sempre diferido, mas o arrolamento é uma providência cautelar onde pode fazer sentido
esse diferimento, mas nos termos gerais (366.º/1 CPC) - o tribunal ouve o requerido,
exceto se colocar em causa o fim a que a providência cautelar se destina, pode haver o
risco, por exemplo, de que a parte contrária, sendo ouvida anteriormente, oculte os bens.
Assim, muitas vezes, o requerente pede que a providência seja decretada sem audição
prévia da parte contrária.

Procedimento cautelar para a entrega do bem objeto do contrato de


locação financeira.
Obtenção da tutela definitiva, a nível do procedimento cautelar, sem
inversão do contencioso.
O Regime da locação financeira ou leasing - DL 149/95 de 24 de junho
Atentemos agora numa providência cautelar especificada fora do CPC: o Regime da
locação financeira ou leasing - DL 149/95 de 24 de junho com as respetivas
alterações:
É um contrato definido no artigo 1.º deste diploma e em que:

• o locador cede o gozo temporário de uma coisa móvel ou imóvel escolhida por
locação do locatário;
• o locatário obriga-se a pagar uma retribuição mensal - 10.º;
• o locatário adquire o direito a adquirir o bem, depois de findo o período contratual
acordado - 6.º;
É um contrato utilizado para bens de desvalorização rápida, sendo prevista uma forma
procedimental especial, que tem em vista, no caso de incumprimento da obrigação de
restituição do bem, permitir ao locador financeiro reaver rapidamente o bem para o
colocar novamente no mercado. Por exemplo, compro um automóvel a leasing, no fim
do contrato tenho direito a adquirir o automóvel. Se não exercer a opção de compra, tenho
de devolver o automóvel. Mas se não pagar as rendas, o locador tem direito a resolução e
restituição.

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Artigo 21.º
Providência cautelar de entrega judicial

1 - Se, findo o contrato por resolução ou pelo decurso do prazo sem ter sido exercido o direito
de compra, o locatário não proceder à restituição do bem ao locador, pode este, após o pedido
de cancelamento do registo da locação financeira, a efectuar por via electrónica sempre que
as condições técnicas o permitam, requerer ao tribunal providência cautelar consistente na sua
entrega imediata ao requerente.
2 - Com o requerimento, o locador oferece prova sumária dos requisitos previstos no número
anterior, excepto a do pedido de cancelamento do registo, ficando o tribunal obrigado à
consulta do registo, a efectuar, sempre que as condições técnicas o permitam, por via
electrónica.
3 - O tribunal ouvirá o requerido sempre que a audiência não puser em risco sério o fim ou a
eficácia da providência.
4 - O tribunal ordenará a providência requerida se a prova produzida revelar a probabilidade
séria da verificação dos requisitos referidos no n.º 1, podendo, no entanto, exigir que o locador
preste caução adequada.
5 - A caução pode consistir em depósito bancário à ordem do tribunal ou em qualquer outro
meio legalmente admissível.
6 - Decretada a providência e independentemente da interposição de recurso pelo locatário, o
locador pode dispor do bem, nos termos previstos no artigo 7.º
7 - Decretada a providência cautelar, o tribunal ouve as partes e antecipa o juízo sobre a causa
principal, excepto quando não tenham sido trazidos ao procedimento, nos termos do n.º 2, os
elementos necessários à resolução definitiva do caso.
8 - São subsidiariamente aplicáveis a esta providência as disposições gerais sobre
providências cautelares, previstas no Código de Processo Civil, em tudo o que não estiver
especialmente regulado no presente diploma.
9 - O disposto nos números anteriores é aplicável a todos os contratos de locação financeira,
qualquer que seja o seu objeto.

Este artigo prevê uma providência cautelar que se aplica quando o locatário recuse a
restituição do bem ao locador.
A caraterística especial é que este regime tem uma particularidade resultante do 21.º/7 -
uma vez decretada a providência, esse mesmo tribunal, caso goze dos elementos
necessários à decisão da causa principal, antecipa o juízo sobre ele, ou seja, antecipa a
decisão definitiva da causa - processo declaratório abreviado de acordo com o regime
do 7.º
Encarando as repercussões processuais das mudanças introduzidas no n° 7 do artigo 21.°
do diploma que disciplina o contrato de locação financeira (o aludido Decreto-Lei n.º
149/95), é forçoso reconhecer-se que, daí em diante, foi dada ao juiz do procedimento
cautelar sob análise a possibilidade de convolá-lo para um autêntico processo
declaratório abreviado que, uma vez presentes as condições acima descritas,
permitirá condenar o locatário na entrega do bem, fruto do reconhecimento do
direito do locador à sua recuperação fundada no incumprimento do contrato de
locação financeira. Semelhante resultado pressupõe que o julgador adquira no processo
em curso o conhecimento de factos bastantes para alcançar a convicção de que o contrato
foi resolvido por o locatário haver deixado de pagar as rendas convencionadas ou de que,

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tendo-as satisfeito, findo o contrato não exerceu a opção de compra, mantendo a recusa
da restituição do bem que ilicitamente conserva em seu poder.
Assim sendo, perde-se por completo a perspetiva da via cautelar, quando o juiz conclui
que está em condições de, atuando em cognição plena, antecipar o «juízo sobre a causa
principal». O objetivo subjacente à mencionada alteração legislativa foi o de permitir
que o locador conseguisse em curto espaço de tempo a disponibilidade sobre o bem,
ao findar o contrato por resolução ou em virtude do decurso do prazo sem exercício do
direito de compra pelo locador. Quanto mais célere for a decisão neste domínio,
maiores serão as possibilidades de o locador, no exercício da sua atividade
profissional, readquirir o bem com menor grau de desvalorização e lançá-lo de novo
no mercado.
Tendo em vista a finalidade deste procedimento cautelar (reaver o bem), deve entender-
se que não pode ser requerida a restituição do bem, se houver outros pedidos (por
exemplo, pagamento das rendas), sendo que este pedido está fora do âmbito do processo
declaratório abreviado em que o inicial procedimento cautelar venha a transformar-se. As
quantias peticionadas em ligação com o incumprimento do contrato não podem, em
princípio, ser envolvidas nas consequências da chamada antecipação do juízo sobre a
causa principal, devendo, quanto a elas, seguir-se a tramitação comum que lhes
couber, ainda que o tribunal reconduza o processo ao campo da tutela definitiva no que
respeita à parte do pedido referente à restituição.
Nas situações em que se verifica a introdução nos procedimentos cautelares do juízo
sobre a tutela definitiva do direito, não se está em face de um incidente da instância que
seja imputável ao requerente, ainda que haja partido da sua iniciativa o pedido de o
tribunal considerar a hipótese de semelhante alargamento.
Trata-se de uma mudança do thema decidendum operada oficiosamente pelo tribunal,
que o legislador ditou com a finalidade de se evitarem duas tramitações diferenciadas:

• A do procedimento cautelar
• A da ação principal.
Quando entre elas haja uma série de questões comuns, a materialidade da situação
apurada nos autos pode levar a que a consistência da prova produzida consinta o
avanço para uma decisão de carácter definitivo, desde que não se ofendam os direitos
processuais da contraparte. Deve, por isso, o juiz do procedimento cautelar passar ao
conhecimento do que seria o pedido dedutível na causa principal, sem que tal
alteração de perspetiva esteja condicionada pelo pagamento da taxa de justiça aplicável à
tributação dos incidentes da instância. A taxação a que está submetido o procedimento
cautelar abrange a atividade processual subsequente, de cuja normalidade participa, nos
casos indicados, a mudança do campo da tutela provisória para o da decisão definitiva,
imposta ao juiz em nome da economia dos meios processuais.
Vejamos então o paralelismo com o regime da inversão do contencioso. No âmbito da
locação, o juiz, tendo elementos suficientes antecipa o juízo da causa principal,

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resolvendo definitivamente a causa (não obstante a possibilidade de recurso).


Possibilidade da utilização do procedimento previsto no artigo 21º do Decreto-Lei n.º
149/95, para o locador financeiro obter o reconhecimento pleno, perante o locatário,
do direito à restituição, desaparecendo assim a necessidade da proposição da ação
principal, que seria o lugar próprio para a apreciação e julgamento do tema com
carácter definitivo. A solução adotada elimina o espaço que seria destinado à ação
principal, ao invés do que acontece quando o juiz decreta a inversão do contencioso,
onde se faz recair sobre o requerido o ónus de propor aquela ação, embora com a função
de impugnar a decisão proferida no procedimento cautelar.
Quando o juiz inverte o contencioso, o juiz não decide definitivamente a causa (efeito
mediato), o efeito imediato é que se inverte o ónus de intentar a ação principal, se o
requerido não observar o ónus é que a providência cautelar se consolida, tornando-
se a decisão definitiva da causa.
A figura das diligências antecipadas de produção de prova, tem uma certa
proximidade com as providências cautelares:
Refere-se a este propósito porque goza de uma certa proximidade com as providências
cautelares, e que aliás, é enquadrada como uma modalidade de tutela cautelar no
campo do processo arbitral - 20.º/1 alínea d) da LAV.
O mesmo acontece noutros OJ, a figura está regulada nos termos do 419.º CPC, mediante
este instituto é possível que certas atividades probatórias (perícia, inspeção, recolha de
depoimentos) sejam realizadas antes do momento processual onde normalmente tem
lugar (audiência final), ou inclusivamente mesmo antes de estar intentada a ação na qual
se pretende fazer uso.
Operam também no âmbito do periculo in mora, nos casos em que se a prova não for
produzida antecipadamente, existe o risco de já não poder se produzida porque se trata,
por exemplo, de uma pessoa que está doente.
Quanto à competência para as diligências - 78.º/1 alínea d) CPC.

A Jurisdição Voluntária

Existem diferentes processos de jurisdição voluntária, como já vimos, distingue-se, em


matéria processual, entre processo de jurisdição contenciosa e processo de jurisdição
voluntária, sendo assumida a diferença pelo CPC no seu livro V, referente aos processos
especiais, que dedica o título XV, em especial, aos processos de jurisdição voluntária -
986.º CPC e ss.
É, então, um conjunto de processos com grande diversidade interna entre si, mas que tem
como elemento comum a circunstância de se guiarem por critérios de julgamento
diferentes dos utilizados nos processos de jurisdição contenciosa (modelo padrão de
jurisdição), já que neles se encontra presente a preocupação em garantir que o tribunal
em lugar de determinar o direito de cada um, se seguir por critérios de razoabilidade e de

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oportunidade, chegando às soluções mais convenientes e oportunas, não sendo por isso,
critérios de legalidade estrita.
Exemplo: No âmbito das providências cautelares relativas a filhos e cônjuges - 989.º
CPC; ou do suprimento de obstáculos a relações jurídicas - 1000.º CPC.
Além deste regime, constam outros processos de jurisdição voluntária do regime jurídico
do processo tutelar cível (RGTPC) - lei 141/2015 de 8 de setembro, cujos processos no
termos do 12.º deste diploma têm a natureza de jurisdição voluntária, estando sujeito aos
princípios gerais que se aplicam em matéria de jurisdição voluntária.
As estruturas processuais construídas a partir desses princípios permitem chegar com
relativa celeridade às decisões que se adaptam melhor às particularidades da
situação concreta a regular, porque há menor peso formal na tramitação seguida, a
conveniência e a oportunidade prevalecem como critérios de julgamento e, tratando-se de
relações jurídicas duradouras, estão previstos mecanismos de modelação do conteúdo das
providências inicialmente decretadas, no sentido de se dar resposta às exigências futuras
de alteração ou revogação que se manifestem, o que implica maior grau de
instabilidade das decisões neles proferidas, quando colocadas em confronto com o que
acontece nos processos de jurisdição contenciosa.
À semelhança do que acontece noutros segmentos normativos, a jurisdição voluntária
assenta num:
(i) Regime geral - Conjunto de disposições comuns que correm aplicação sobre todo e
qualquer caso de jurisdição voluntária - 986.º a 988.º CPC;
(ii) Regime especial - Especificidades presentes para cada categoria de relação jurídica
que é enquadrada no respetivo regime - 989.º CPC e ss.

Analisemos as 4 principais caraterísticas deste tipo de jurisdição:

1. Princípio da liberdade de investigação dos factos - 986.º/2 CPC.


Distingue-se entre liberdade de investigação dos factos e liberdade de instrução dos
factos controvertidos.
Quer no âmbito da jurisdição voluntária, quer no âmbito da jurisdição contenciosa, existe
liberdade quanto à instrução dos factos controvertidos, na medida em que o julgador tem
a liberdade de ordenar a realização de todas as diligências de prova necessárias ao
apuramento da verdade - 411.º CC.
Dito de outra forma, o juiz tem o poder de oficiosamente determinar a realização das
diligências probatórias que entenda necessárias. Quanto a este aspeto, não há distinção
entre a jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária.

Ana Castro e Catarina Morais 77


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Na jurisdição voluntária, fala-se em liberdade de investigação dos factos, mas na


jurisdição contenciosa, o juiz só pode conhecer dos factos essenciais alegados pelas partes
- 5.º/1 CPC10, sendo estes os factos que lhe são lícitos conhecer.
Como manifestação do dispositivo em sentido material, o juiz está sujeito aos factos
essenciais alegados. Esta limitação não tem lugar na jurisdição voluntária, podendo
o juiz conhecer oficiosamente de outros factos para além dos que foram provocados
pelas partes que possam importar para a adequada e oportuna apreciação da providência
que lhe foi solicitada. Isto confere um poder qualificado ao juiz, justificado pelo interesse
público da melhor providência a adotar. Da mesma forma, e reforçando os poderes do
julgador, permite-se que o mesmo possa recusar as provas que não ache necessárias -
986.º/2 CPC.
Daí que se imponha ao tribunal o poder-dever de investigar livremente os factos, coligir
as provas, ordenar os inquéritos e recolher as informações convenientes (artigo 986.º,
n.º 2, 1º parte).

2. Critério de julgamento - 987.º CPC


O juiz não está, nestes casos, adstrito a critérios de legalidade estrita, podendo tomar
a decisão que entenda mais conveniente e oportuna ao caso. Portanto, a matriz dos
processos de jurisdição contenciosa é a de reconhecimento do direito (se existe direito
é reconhecido, se não existe, não é) ou seja, o processo decisório na jurisdição
contenciosa basta-se, primeiro com a verificação da existência de factos que se
reconduzem a uma norma, e depois, com a aplicação da consequência prevista na
respetiva norma - a dimensão vinculada é mais intensa que a discricionária. Pelo
contrário, na jurisdição voluntária, as regras jurídicas que cabe aplicar consentem ao
julgador um amplo conjunto de soluções possíveis, e portanto, em lugar de dar uma só
solução coloca na disponibilidade do julgador a possibilidade de optar pela solução mais
conveniente ao caso.
Por conseguinte, a decisão proferida nestes processos não surge como consequência
jurídica estatuída para o preenchimento da previsão das normas aplicadas, mas consiste
no resultado de escolhas levadas a cabo dentro de um quadro legal de intervenções
possíveis, sempre direcionadas no sentido da salvaguarda dos objetivos traçados
pelo legislador. Ou seja, a tutela do direito em concreto é procurada através de
processos cujo resultado final se baseia no exercício de poderes discricionários
localizados no momento da determinação da consequência jurídica. Nesta perspetiva,
a discricionariedade, enquanto escolha entre várias soluções possíveis, pressupõe a
outorga ao julgador da competência necessária à concretização do direito dentro do
espectro das finalidades a atingir, tal como a lei as configurou. Trata-se de um expediente
técnico sobejamente conhecido da atividade administrativa, mas de que a jurisdição se
serve para lidar com situações que, mercê da sua densidade problemática, não

10
não obstante a possibilidade de o juiz conhecer oficiosamente não apenas os factos
instrumentais, mas complementares e concretizadores dos factos essenciais - 5.º/2 CPC.

Ana Castro e Catarina Morais 78


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

seriam adequadamente protegidas através da aplicação pura e simples de normas


que predefinissem, em termos gerais e abstratos, o regime do caso concreto.

A discricionariedade para aqui convocada não se situa na fase onde se determina a


oportunidade da intervenção, mas no sector mais limitado da escolha e imposição
das providências que, entre as várias legalmente admissíveis, melhor correspondem
às exigências da situação a regular. Está-se perante uma modalidade de poder
discricionário cujo exercício exclui intervenções arbitrárias ou assentes na
ponderação de fatores estranhos aos objetivos específicos de cada processo,
manifestando-se a liberdade de julgamento tão só no plano dos juízos de valor
acerca dos fins (interesse superior da criança e do jovem, interesse da família, integração
da vontade negocial), assim como a nível da escolha das medidas concretas.

As decisões tomadas nesta zona de liberdade atribuída ao julgador não são, pela própria
natureza de que se revestem, sindicáveis através do recurso de revista, uma vez que
obedecem a critérios de oportunidade ou conveniência. Mas, já nada impede que os
tribunais de 2.ª instância intervenham com o fim de ajuizarem sobre a conveniência das
medidas adotadas na 1.ª instância e, quando delas discordem, façam prevalecer os
respetivos critérios de valoração e de escolha. Porém, se a resolução for impugnada
com fundamento na ultrapassagem dos limites normativos impostos ao exercício do
poder discricionário concedido às instâncias, entra-se no domínio da fiscalização da
legalidade da atuação do tribunal, o que desloca o tema para o âmbito do objeto específico
do recurso de revista.

3. Não admissibilidade de recurso para o STJ


Em consequência desta última caraterística, quando as resoluções tomadas no âmbito da
jurisdição voluntária, o sejam com recurso a critérios de conveniência ou oportunidade
(como é regra), não é admissível recurso da decisão proferida pelo juiz para o STJ -
978.º/2 CPC, só é admissível recurso até à 2.ª instância.
Todavia, as decisões que sejam proferidas em termos de legalidade estrita, embora
integradas em processos de jurisdição voluntária, admitem recurso para o Supremo
Tribunal de Justiça de acordo com os mesmos critérios vigentes na jurisdição contenciosa.
Esta limitação retira ao Supremo Tribunal de Justiça o poder de controlar o modo como
o material probatório foi valorado no tribunal «a quo» ao abrigo do princípio da livre
apreciação da prova (n.º5 do artigo 607º). Sabido que, nos processos de jurisdição
voluntária, para a escolha das medidas mais adequadas releva sobretudo a análise da
realidade conhecida nos autos em resultado da apreciação crítica das provas, seria
escasso o contributo do recurso de revista - voltado para a reapreciação de questões de
mera legalidade, no sentido de se melhorar a decisão das instâncias.
A razão de ser desta restrição tem a ver com a própria natureza do recurso de revista:
decorre da sua teleologia que é um recurso que é excluído sempre que não se possa

Ana Castro e Catarina Morais 79


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

realizar qualquer função de harmonização de aplicação da lei. O STJ está vinculado aos
factos materiais fixados pelo tribunal recorrido (é recurso em matéria de direito
apenas) - 682.º/1 CPC.
Ora, em matéria de jurisdição voluntária, a providência que é tomada, é tomada em
resultado da valoração que é gerada através do exame crítico da prova com que o juiz
contactou, atividade esta a que o STJ não se pode substituir.
Daí a limitação, que só existe quando a decisão é tomada segundo critérios de
conveniência. Se for um critério de legalidade estrita, por exemplo, a verificação dos
pressupostos de aplicação de certos institutos jurídicos, já pode haver recurso para o STJ
nos termos gerais.
Vejamos outro exemplo, no caso em que se discutia se era possível impor uma obrigação
de alimento a favor de um menor, contra um pai ausente em parte incerta. No âmbito de
um processo de jurisdição voluntária, tratava-se de determinar a medida dos alimentos,
logo a decisão que o juiz toma não é de acordo com critérios de legalidade estrita
(existência ou não do direito), mas de acordo com aquilo que é mais conveniente ao caso
concreto. Mas a reflexão à cerca da existência desta possibilidade legal (obrigação de
alimentos por um pai ausente em parte incerta) é um problema prévio de legalidade estrita,
de saber se se aplica ou não o instituto jurídico - este problema pode ser levado ao STJ,
porque é de legalidade estrita. Sobre esta matéria pode o STJ pronunciar-se porque é a
dimensão vinculada daquela decisão. O juiz, no processo de jurisdição voluntária, tendo
por base a apreciação crítica das provas determina que a obrigação é de X montante, não
podendo essa decisão ser levada ao STJ11.
Há um conjunto restrito de situações, indicadas no n.º 2 do artigo 678º, em que o recurso
é sempre admissível. Daí que se imponha apurar se também nos processos de
jurisdição voluntária será possível recorrer até ao último grau de jurisdição, sempre
que o fundamento do recurso corresponda a algum dos mencionados no referido
preceito.
Em última análise tudo está em saber se a limitação estabelecida no n.º 2 do artigo 988º
prevalece sobre as exceções constantes do n.º 2 do artigo 629º ou se, ao invés, esta norma
vigora, tanto na jurisdição contenciosa, como na jurisdição voluntária.
Atendendo à assinalada «ratio legis» do n.º2 do artigo 988º e à consequente incidência da
limitação nele imposta às resoluções tomadas em processos de jurisdição voluntária,
apresenta-se natural a conclusão de que, neste campo, encontra expressão plena a
proibição do recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, sempre que o recorrente
pretenda invocar algum dos fundamentos indicados na alínea a) do n° 2 do artigo 629.° -
a incompetência absoluta ou a ofensa do caso julgado.
A prevalência do disposto no atual nº 2 do artigo 988º sobre as exceções previstas na
alínea a) do n.º 2 do artigo 629.º se situa na zona onde ao legislador é dado conformar os

11
AC. STJ 25/06/2012 processo 10102/09.2, relator Sebastião Póvoas

Ana Castro e Catarina Morais 80


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

recursos cíveis, aí se incluindo o estabelecimento das condições de acesso aos tribunais


superiores.
Encontra-se prevista na alínea b) do n.º 2 do artigo 629° outra situação de
admissibilidade irrestrita de recurso, agora com aplicação possível em processos de
jurisdição voluntária. Tal preceito permite o recurso, sempre que o recorrente se
proponha impugnar o valor da causa com o fundamento de que ele excede a alçada
do tribunal de que se recorre. Sabido que a possibilidade de recorrer está condicionada
pelo valor da ação, pretendeu-se, com o disposto na mencionada alínea b), obviar ao risco
de a parte vencida ficar privada do direito ao recurso pela ocorrência de erro do tribunal
«a quo» na fixação do valor da causa. Perante a importância do direito de defesa
contra possíveis erros de julgamento, a alínea b) do n.º 2 do artigo 629º abre o acesso
aos tribunais superiores, desde que o objeto do recurso se centre unicamente na
impugnação de um valor da causa impeditivo do recurso.
Ora, tal norma deve aplicar-se na jurisdição voluntária, de modo a permitir a
intervenção do Supremo Tribunal de Justiça, apesar do disposto no n.º 2 do artigo
988º, quando o recorrente pretende obter a atribuição de um valor à causa que não
impeça o recurso.
Concretamente, o Supremo Tribunal de Justiça poderá ser chamado a pronunciar-se, em
recurso interposto da decisão da Relação proferida no incidente da verificação do valor
da causa (artigos 269.° e ss.), desde que a questão a dirimir consista em determinar
se o valor da ação excede ou não a alçada da 1º instância, para o efeito de assim se
conseguir que o tribunal da Relação reaprecie as medidas que o tribunal «a quo» escolheu
no uso dos poderes que lhe assistem nesta modalidade de jurisdição.
Semelhante interpretação assenta no facto de o legislador ordinário, ao abrigo da
liberdade de conformação do sistema de recursos que a Constituição lhe confere, ter
consagrado a possibilidade de se recorrer até 2º instância das resoluções proferidas
na jurisdição voluntária. Para que este direito recurso fique plenamente assegurado,
deve o recorrente gozar da garantia de poder discutir no mesmo plano da jurisdição
contenciosa, o montante do valor da ação, enquanto elemento necessário ao
funcionamento das regras da alçada e da sucumbência.

4. Possibilidade de modificação das providências antes decretadas


Abre-se, nesta jurisdição, a possibilidade de modificabilidade das providências
anteriormente decretadas - 988.º/1 CPC, sendo que, esta possibilidade obriga a afastar a
regra de que o poder jurisdicional se esgota no momento em que a decisão foi proferida
(artigo 613º). Trata-se de promover a salvaguarda de interesses que o legislador
procura acautelar em detrimento do valor da segurança jurídica que, até certo
ponto, pode ser relegado para plano secundário dada a ausência de litígio sobre
direitos subjetivos.

Ana Castro e Catarina Morais 81


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

O fundamento desta possibilidade de alteração é a existência de circunstâncias


supervenientes às consideradas no primitivo processo (quer seja uma superveniência
objetiva ou subjetiva).
«dizem-se supervenientes tanto as circunstâncias ocorridas posteriormente à decisão
como as anteriores, que não tenham sido alegadas por ignorância ou outro motivo
ponderoso»

Em que consiste uma superveniência objetiva?


Quanto à primeira modalidade de superveniência (superveniência objetiva), não se trata
de reparar a decisão inicial, pois as medidas foram decretadas com base nas circunstâncias
de facto que na realidade se verificavam e mostravam-se adequadas à tutela dos interesses
que se visavam proteger, mas sim de regular «ex novo» uma situação material que
não foi, nem podia ter sido considerada.
Também nos processos de jurisdição contenciosa nada impede que os factos ocorridos
após a decisão, mais corretamente, após o encerramento da audiência final (artigo
611.º, n.º 1), sirvam de base - porque não se encontram abrangidos pela eficácia no
tempo do caso julgado material (artigo 621º) - a um novo processo judicial cujo
desfecho venha a consistir num «contrarius actus» relativamente à decisão anterior.
Tanto num caso, como no outro, as alterações refletem a evolução posterior da situação
de facto que esteve na base da aplicação do direito.
É de presumir que o legislador não tivesse a intenção de se limitar à enunciação do mesmo
princípio geral, reafirmando a sua vigência no domínio da jurisdição voluntária, mas
quisesse dizer algo de novo, no sentido de que o próprio juiz deve tomar em consideração
oficiosamente factos ocorridos mais tarde, desde que se tornem conhecidos no processo,
e, se for caso disso, modificar ou revogar as providências antes decididas sem
necessidade da proposição de nova ação e do pedido de algum dos interessados. A
instância onde as medidas foram decretadas como que se conserva em estado de
quiescência ou de pendência limitada, para o efeito de receber o impulso dirigido à
apreciação dos factos supervenientes com eventual adaptação da decisão anterior às
exigências da nova realidade. Se a instância inicial estivesse extinta, a relevância «ex
officio» dos factos supervenientes em termos objetivos apenas seria possível no quadro
de uma nova ação, que não pode ficar dependente da iniciativa do tribunal que decretou
as providências de jurisdição voluntária.

Em que consiste uma superveniência subjetiva?


Pelo contrário, os termos amplos em que se admite a relevância da superveniência
subjetiva introduzem uma diferenciação radical relativamente ao que se passa na
jurisdição contenciosa quanto à estabilidade da decisão. No fundo, o conhecimento tardio
pelo juiz de factos que não foram levados em consideração, quando deviam ter sido objeto
de análise no momento de fixar as providências dirigidas à tutela dos interesses que
importava defender, obriga-o a revogar a decisão e a substituí-la por outra ajustada
à realidade. Impõe- se ao julgador o dever de controlar decisões precedentes, logo que

Ana Castro e Catarina Morais 82


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

a adequação aos referidos interesses seja colocada em causa através do


conhecimento de factos já ocorridos, mas que não foram trazidos aos autos na altura
devida.
Também na superveniência subjetiva, por maioria de razão, as alterações da decisão
anterior devem ocorrer dentro da mesma instância, dado que se trata de reparar
soluções menos convenientes, induzidas por ausência no processo dos elementos de
facto necessários à avaliação correta da situação em apreço. A atividade processual
dirigida à revogação, além de se integrar no processo onde foram decretadas as
providências iniciais, assenta num dever imposto ao julgador de banir uma decisão
inadequada, não se configurando nesta eventualidade um poder discricionário que
permita a escolha entre a manutenção das providências anteriores ou a sua substituição
por outras mais ajustadas à realidade superveniente.
Só a unidade processual, assegurada através do perdurar da mesma instância, consente
que o tribunal exerça o poder, atribuído pelo n.º 1 do artigo 988.º de controlar, sem
necessidade do pedido de qualquer dos interessados, a adequação ao longo do tempo
das medidas que decretou, tanto na hipótese do desconhecimento da situação de facto
que lhe cumpria avaliar (superveniência subjetiva), como no caso de mais tarde se
alterarem as circunstâncias em que a decisão se fundou (superveniência objetiva).
Na fase processual dirigida à revogação, qualquer que seja o fundamento em análise, terá
de ser garantida a observância do contraditório, dando-se a todos os interessados a
possibilidade efetiva de intervirem na fixação dos factos e de se pronunciarem sobre as
questões jurídicas capazes de interferir com as providências decretadas.

Restrições ao exercício do poder de modificação


Salienta-se que podem dar-se limitações à revogabilidade das providências de jurisdição
voluntária com origem na aplicação de determinados regimes de natureza processual.
Desta possibilidade devem excluir-se as hipóteses em que a providência tenha consumado
o seu efeito, por exemplo, se é autorizada nos termos do 1000.º CPC, a prática de
determinado ato e esse ato é praticado, não se pode revogar a providência depois do ato
ser praticado.
A modificabilidade supõe o efeito duradouro da providência, isto pela limitação do
caso julgado poder ser modificado.
Nota: No âmbito de modificação do caso julgado por alteração das circunstâncias, a
jurisdição contenciosa segue um regime diferente - 619.º/2 CPC.
Encontram-se ainda especificidades em sede do rito do procedimento, tendo em vista
a celeridade da providência a tomar. Aos procedimentos de jurisdição voluntária aplica-
se por remissão do 986.º/1 CPC a tramitação própria dos incidentes de instância (292.º
a 295.º CPC), que é mais ligeira do que a tramitação comum, devendo a sentença ser
proferida no prazo de 15 dias - 986.º/3 CPC.

Ana Castro e Catarina Morais 83


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

E ainda, nesta jurisdição, não é obrigatória a constituição de advogado, salvo na fase


de recurso - 986.º/4 CPC.
Nota: Fora da jurisdição voluntária, importa ainda referir o DL 272/2001, com as
respetivas alterações, que é um diploma que atribui e transfere competências relativas a
um conjunto de processos especiais dos tribunais judiciais para o MP e para as
conservatórias do registo civil, regulando os respetivos procedimentos, quanto à decisão
de alguns processos de jurisdição voluntária.

Aplicação da Lei Processual no Tempo


Esta matéria tem uma grande importância prática, na medida em que o CPC entre 1995 e
2013 contou com 42 versões e, portanto, importa saber como tratar problemas de sucessão
de leis no tempo. Assim, das duas uma:

• Ou é estabelecido direito particular para regular os conflitos que possam


surgir, ou seja, a própria lei nova (LN) contém normas de direito transitório
que resolvam os problemas da aplicação da lei no tempo, por exemplo, a lei
que aprovou o novo código de 2013 - 5.º a 7.º da lei 41/2013 de 26/06: “a lei
aplica-se a partir da sua entrada em vigor”;
• Ou é preciso resolver os conflitos de acordo com os princípios gerais de
sucessão de leis no tempo;
Então, na falta de disposições especiais, é de aplicar a diretriz geral, tal como acontece
no direito substantivo vale o princípio de que a lei dispõe apenas para o futuro - 12.º
CC.
Este princípio faz sentido na medida em que, só a partir desse momento, é que as partes
podem prever as consequências resultantes da aplicação da lei, conformando o seu
comportamento àquilo que é exigido, facultado ou proibido pela própria lei.
Em sede processual este princípio tem uma consequência particular:

• Uma vez que o processo se traduz numa sequência de atos processuais, entende-
se que estando uma ação pendente, a LN se aplica de imediato a todos os atos
futuros que se tenham de praticar nas ações já pendentes. Ou seja, aplica-se a LN
aos atos futuros a praticar, nos atos que estejam pendentes, mantendo-se, no
entanto, a eficácia e validade de todos os atos que hajam sido praticados ao abrigo
da lei anterior.
Nota: Se for um ato duradouro, só se aplica a lei nova findo o ato, como é o caso da
audiência
1. Em matéria de competência12 dos tribunais, a lei que determina competência
do tribunal é lei ao tempo da propositura da ação - 259.º/1 CPC e 38.º/2 LOSJ

12
quantum de jurisdição atribuído a cada tribunal

Ana Castro e Catarina Morais 84


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Por exemplo, se na pendência da ação for negada a competência daquele tribunal para
conhecer daquela ação por uma LN, a competência permanece naquele tribunal, porque
a competência importa no momento da propositura - princípio “semel competens semper
competens” e “perpetuatio iurisdictionis” (uma vez competente, sempre competente)
Esta regra tem 2 exceções que decorrem do mesmo artigo da LOSJ:
(i) Quando seja suprimido o tribunal onde a causa foi intentada - por exemplo, quando
não se retira a competência, mas o tribunal deixou de existir, devendo o processo ser
remetido oficiosamente ao tribunal competente;
(ii) Quando venha a ser atribuída competência ao tribunal onde foi intentada e que
inicialmente carecia dela para conhecer da causa - por exemplo, se a ação deu entrada
num tribunal incompetente e, entretanto, entrou em vigor uma lei que lhe atribui
competência para.

2. Quanto ao formalismo processual, vale plenamente o princípio geral já


esclarecido, ou seja, a LN aplica-se de imediato, ou seja, a forma de cada ato
processual é estabelecida pela lei vigente ao tempo da respetiva prática - 136.º/1
CPC. Caso se trate de um ato processual duradouro, entende-se que só se aplica
a lei nova uma vez terminada a prática do ato antigo.
Esta sobrevigência limitada da lei antiga justifica-se por razões de economia processual,
pois o sentido último da lei nova não será o de provocar a anulação dos trâmites
processuais já decorridos, de modo a criar espaço para a repetição integral do ato
duradouro de acordo com os padrões normativos mais recentes.
3. Já no que diz respeito à forma do processo (especial ou comum) enquanto
grande estrutura, é determinada pela lei vigente ao tempo da propositura da ação
- 136.º/2 CPC.
Entendida nesta dimensão global, a forma do processo abrange o módulo que imprime
unidade de sentido aos atos que vão desde a proposição da ação até ao julgamento final,
pelo que não deve ficar dependente de mudanças estruturais ocorridas após a data da
proposição da ação.
4. Nos Recurso e Alçadas, vale o princípio de que se aplica a lei de recurso vigente
ao tempo da prolação da sentença
Vejamos as consequências práticas (partindo do pressuposto que a lei não contém normas
de direito transitório):
• É introduzida por uma LN a possibilidade de recurso, já depois de proferida a
sentença - As partes não poderão recorrer porque se aplica a lei vigente ao tempo da
prolação da decisão13;

13
admite-se que em norma especial, possa estar prevista a possibilidade de recursos para sentenças
já proferidas, mas não transitadas em julgado.

Ana Castro e Catarina Morais 85


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Quando o julgador proferiu a decisão, encontrava-se afastada a possibilidade de atacá-la


através de recurso, restando às partes o caminho da reclamação para o próprio órgão
decidente. Descontada semelhante possibilidade, a decisão tinha como destino
natural o trânsito em julgado, depois de decorrido o prazo de reclamação (artigos
149.º e 628.), sendo a perspetiva de encerramento do processo sem recurso aquela de que
as partes dispunham com referência à data em que o tribunal tomou posição sobre o
litígio. A decisão irrecorrível no momento em que foi proferida manterá esse
estatuto, apesar de posteriormente se ter aberto a possibilidade de a parte vencida vir
impugná-la perante o tribunal superior.
Mas pode o legislador considerar preferível, à luz da ponderação do interesse subjacente
à alteração legislativa, estender a recorribilidade às decisões já proferidas, mas ainda não
atingidas pela formação do caso julgado, convertendo, p. ex., o prazo em curso para a
apresentação de reclamação em prazo para a interposição de recurso.
• Se a LN reduz a possibilidade de recurso - Essa LN não se aplica a recursos já
interpostos ou ainda na pendência do prazo para a respetiva interposição, isto porque
na pendência de um certo prazo, todos os dias são igualmente hábeis para a prática do
ato, neste caso, para a interposição de recurso.
Julgar extintos os recursos pendentes, com base na aplicação imediata da lei nova que
deixou de admiti-los, correspondia à negação de uma das dimensões da garantia do
acesso aos tribunais consagrada no artigo 20.º da Constituição. O recorrente encontra-
se no exercício pleno do direito de reagir contra determinados erros de julgamento ou
vícios formais que afetam a decisão que lhe foi desfavorável (artigo 631°), pelo que, em
princípio, mostra-se desprovida de fundamento material bastante a solução de impedir o
prosseguimento dos termos do recurso.
Raciocínio análogo pode utilizar-se para também recusar a aplicação imediata da lei nova
que afasta a possibilidade de recurso, quando este não foi ainda interposto, mas a parte
vencida está a tempo de impugnar a decisão desfavorável (n.º 1 do artigo 638º). O
prazo que, após a notificação da decisão, a lei estabelece para que as partes vencidas
ponderem sobre a opção a tomar, conformando-se com o resultado desfavorável do litígio,
ou reagindo contra ele, não deve sofrer interferências resultantes da entrada em vigor
de um novo regime que deixa de admitir o recurso naquela situação concreta. Para
a manifestação da vontade de impugnar a decisão, qualquer dos dias necessários à
consumação do trânsito em julgado apresenta a mesma idoneidade, carecendo de
razoabilidade discriminações que se introduzissem no sentido de favorecer quem foi mais
expedito a interpor o recurso, em detrimento de quem tomou a iniciativa de recorrer mais
próximo do final do prazo concedido. Se houvesse aplicação imediata da limitação da
admissibilidade dos recursos, enquanto se aguarda que a decisão transite em julgado,
seria afetado o princípio da igualdade de tratamento das partes vencidas.
• Na eventualidade da LN entrar em vigor no momento em que ainda não tinha
sido proferida decisão, entende-se que aplica de imediato a LN (quer introduza ou
retire a possibilidade do recurso)

Ana Castro e Catarina Morais 86


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Em matéria de alçadas14, há uma disposição especial: 44.º/3 LOSJ - vale sempre a lei
vigente ao tempo da propositura da ação
Com o afastamento do critério da aplicação imediata da lei nova, teve o legislador em
vista assegurar às partes a manutenção das hipóteses de impugnação das decisões
de que disputam no momento em que a ação foi intentada, independentemente de
eventuais modificações dos valores das alçadas ocorridas na pendência do processo. Não
importa, assim, atender à lei vigente no momento em que foi proferida a decisão, com a
finalidade de se avaliarem as possibilidades de recurso ao dispor da parte vencida. Deste
modo, o ato da proposição da ação (n.º 1 do artigo 259°) serve também como
referência temporal para a fixação dos recursos ordinários na estrita medida em que
a sua admissibilidade dependa dos valores das alçadas - de que as partes podem socorrer-
se, caso pretendam impugnar as decisões que de futuro sejam proferidas, tanto na 1º,
como na 2.ª instância.
Para a adoção da regra de direito transitório do mencionado n.º 3 do artigo 44º pesaram
os argumentos desenvolvidos pelo Tribunal Constitucional no Acórdão n.º 287/90, de 30
de outubro de 1990, no sentido de fundamentar a inconstitucionalidade do artigo 106.º da
Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais de 1987 (LOTJ - Lei n.º 38/87, de 23 de Dezembro).
Com efeito, no aresto em apreço entendeu-se que a consagração normativa do princípio
da aferição das possibilidades de recurso pelos valores das alçadas vigentes na altura em
que o tribunal proferiu a decisão (à semelhança do que acontecia com o mencionado
artigo 106.º da LOTJ de 1987) lesava, de modo inadmissível para os padrões do Estado
de direito democrático, o «investimento de confiança» feito pelos litigantes no acesso
ao sistema de recursos que estava disponível na altura em que a ação foi proposta.
A inconstitucionalidade do preceito em causa não decorria propriamente da limitação do
direito ao recurso - visto que este direito apenas se torna exercitável com a decisão que a
parte vencida pretende impugnar -, mas da lesão de expectativas que o Tribunal
Constitucional considerou estarem alicerçadas numa «forte tradição jurídica que
contempla a regra segundo a qual a matéria das alçadas é regulada pela lei em vigor ao
tempo da propositura da ação».
Assim, as alterações das alçadas não são de aplicação imediata, sempre que esteja em
causa definir a admissibilidade da impugnação de decisões proferidas em processos
iniciados na vigência de uma lei, entretanto revogada, cujos valores davam às partes a
expectativa de terem aberta a via do recurso.
5. Provas
Já vimos aqui que se distingue o direito probatório formal e material.
• No âmbito do direito probatório formal (conjunto de regras que estão no CPC e que
regem a atividade probatória, ou seja, das diligências necessárias ao seu requerimento
e dos prazos disponíveis para o efeito, dos termos em que decorre a respetiva

14
valor imposto aos tribunais de 1ª e 2ª instância para efeitos de admissibilidade de recurso
ordinário. Ver esta matéria na página 183 Tavares de Sousa.

Ana Castro e Catarina Morais 87


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

preparação e subsequente oferecimento perante o tribunal, etc.. (410.º e ss. CPC)) -


neste caso aplica-se de imediato a LN por entender-se que introduz uma adequação
ou valoração mais adequada quanto ao meio de produção de prova, e por não interferir
com a situação material das partes envolvidas na relação litigiosa.;
• No âmbito do direito probatório material (as regras estão no CC e regulam quais os
meios de prova admissíveis, valor das provas e ónus da prova) - a solução depende de
saber se há expectativas das partes. Por exemplo, se a lei determina a forma a
observar num determinado negócio jurídico e uma LN vem alterá-lo, não se pode
aplicar a LN.
Assim, se a lei nova interfere unicamente com a admissibilidade dos meios utilizáveis na
prova de factos em geral, sem se prender especificamente com a demonstração da
ocorrência dos factos produtores de determinadas consequências jurídicas em particular,
a orientação a seguir deve ser a da aplicação imediata da lei nova, em lugar daquela
que vigorava na altura em que ocorreram os factos invocados no processo.
As alterações legislativas trazem, em princípio, vantagens para uma mais perfeita
aquisição da realidade que o julgador tem de avaliar, pelo que, não existindo
expectativas atendíveis dos litigantes construídas no domínio da vigência da lei
revogada, o processo deve aproveitar o novo regime legal que foi pensado para
melhoria da qualidade da decisão e, nessa medida, se traduz em benefício para
ambas as partes.
Mas as coisas mudam por completo, quando o novo regime se dirige à prova de factos
que estão diretamente na base da modelação de situações jurídicas substantivas.
Agora, passa para primeiro plano a confiança que as partes depositaram no
aproveitamento do conteúdo de tais situações e, portanto, o direito transitório tem de
considerar as expectativas geradas pelas normas que nessa altura vigoravam sobre os
meios admissíveis para a prova dos correspondentes factos constitutivos. Se, p. ex., na
altura em que foi concluído determinado contrato era bastante a prova por documento
particular e, mais tarde, quando se torna necessário invocar esse mesmo contrato em juízo,
estava em vigor uma lei nova que exige prova por documento autêntico, deve continuar
a aplicar-se a lei antiga («tempus regit actum») e não a que vigora no momento em
que a parte se vê confrontada com a necessidade de demonstrar perante o tribunal a
realidade dos factos constitutivos do direito .

6. Prazos - 297.º/1 e 297.º/2 CC - O que acontece se entrar em vigor uma lei que
prevê um prazo diferente do prazo previsto anteriormente?
• Se a LN introduz um prazo mais curto, essa LN aplica-se de imediato, mas o prazo
só se conta a partir da entrada em vigor da LN - 297.º/1 CC.
Este artigo tem uma ressalva e não se aplica se resultar dele uma extensão do prazo.

Ana Castro e Catarina Morais 88


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Imaginemos um prazo de 30 dias, em que o prazo novo passa a ser de 10 dias. Quando a
LN entra em vigor encontrávamo-nos no décimo dia de prazo, faltando ainda 20 dias. Da
aplicação da LN resulta assim que se contam 10 dias a partir da sua entrada em vigor,
logo, o prazo não terminou. Vão-se contar 10 dias a partir daí.
Suponha-se que o prazo era de 30 dias mas já tinham passado 25 dias do prazo e por isso,
faltavam 5 dias para terminar, e entra a lei nova que estipula um prazo de 10 dias, e como
se aplica a partir da sua entrada em vigor, o prazo seria maior, e por isso não se aplica
porque haveria um prazo de 35 dias, e se a lei reduziu o prazo não faz sentido que na
prática se usufrua de um prazo mais longo, aplicando-se por isso a lei antiga que estipula
os 30 dias.
2. Se a lei nova introduz um prazo mais extenso - aplica-se o prazo mais longo, tendo-
se em consideração o período já decorrido. Por exemplo, o prazo antigo era 10 dias
e o prazo previsto pela LN é 30 dias. Quando entra em vigor a LN já ia no oitavo dia
de prazo, logo há que descontar os 8 dias que já passaram, sobrando 22 dias para o
cumprimento tempestivo do prazo.

Pressupostos Processuais
O fim central do processo civil consiste na resolução de conflitos intersubjetivos, cuja
resposta deve ser procurada a partir da aplicação de critérios normativos válidos no
âmbito do direito privado. Mas a decisão em que o tribunal aplica o direito ao caso
concreto deve ser proferida se estiverem reunidos determinados requisitos formais que
justificam o funcionamento do processo, pois só então o que vier a ser decidido reúne
as condições para atuar com eficácia sobre a situação litigiosa. Estes requisitos, cuja
verificação torna admissível a pronúncia do tribunal sobre a questão de fundo, são os
pressupostos processuais.
A intervenção do tribunal na resolução dos litígios que lhe são submetidos desenvolve-
se, por conseguinte, em dois planos:
• Por um lado, cabe-lhe controlar a presença dos requisitos de admissibilidade do
processo, ou seja, verificar se estão reunidos os pressupostos que condicionam a
atividade dirigida à apreciação dos factos e à interpretação e aplicação do direito
material. Se faltar algum desses requisitos, está-se perante uma exceção dilatória,
na aceção em que o CPC usa esta classificação das exceções (artigos 278.º, 576.º, n.º
2, e 577.9). Significa isto que a falta do requisito em questão constitui um obstáculo
que, enquanto se mantiver presente na instância, impede o juiz de conhecer tudo o
que se relaciona com o mérito da causa, ainda que disponha já de elementos bastantes
para formar uma opinião fundada a tal respeito.
Num caso destes, em que a referida função central do processo não pode ser atingida,
compreende-se que recai sobre o tribunal o poder-dever de providenciar
oficiosamente pelo suprimento da falta dos pressupostos processuais suscetíveis de
sanação, determinando a realização dos atos necessários à regularização da instância ou,
quando a sanação estiver dependente de ato que deva ser praticado pelas partes,

Ana Castro e Catarina Morais 89


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convidando estas a praticá-lo (artigos 6.º, n.º 2, e 278.º, n.º 3, 1.ª parte). Sempre que se
revele de todo impossível sanar a falta do pressuposto processual, a presença da exceção
dilatória obriga o tribunal a pôr fim ao processo com uma decisão de forma que,
quase sempre, é a absolvição da instância. Logo que esta decisão transite em julgado
(artigo 628°), produz-se caso julgado formal, porque o tema que deu origem à
intervenção do juiz se situa unicamente ao nível da relação processual (n.º 1 do artigo
620.). Quer dizer, nada impede que o autor solicite, em nova ação, que o tribunal aprecie
e decida a mesma questão de fundo (identidade da causa de pedir e do pedido) entre as
mesmas partes da ação antecedente (identidade subjetiva), dada a limitação da eficácia
do caso julgado formal ao processo já encerrado.
• Por outro lado, não descortinando o tribunal a presença de exceções dilatórias, ou
havendo sanação das que existiam, está aberto o caminho para que seja proferida
decisão sobre a questão litigiosa em apreço. O que se pede ao julgador é que,
ultrapassada aquela barreira inicial, aprecie a questão da procedibilidade da
pretensão de tutela judicial que o autor formulou. Aqui coloca-se uma alternativa:
- Se o autor consegue provar os factos em que assenta a sua pretensão e o direito lhe
confere a tutela pretendida, o tribunal julga a ação15 procedente.
- Se o tribunal não reconhece fundamento, de facto ou de direito, à pretensão do autor,
absolve o réu do pedido, ou seja, profere uma decisão de improcedência. Estas decisões,
uma vez transitadas em julgado (artigo 628°), dão origem ao caso julgado material,
porque recaíram sobre o mérito da causa, visto terem como objeto a relação
material controvertida (n.º 1 do artigo 619.°).
Agora, se o autor que viu o réu absolvido do pedido repetir mais tarde a ação, com a
finalidade de tentar inverter em seu benefício o desfecho do processo anterior, esta
segunda ação é inadmissível, porque quanto a ela se verifica a exceção dilatória do
caso julgado (artigos 577º, alínea i), 580º e 581º)
O obstáculo que a presença da exceção dilatória cria em relação ao julgamento das
questões de mérito é, de certo modo, desativado, quando se verifiquem as condições
previstas na 2º parte do n.º 3 do artigo 278º.
Uma vez que o preenchimento formal do pressuposto em causa (p. ex., a capacidade
judiciária) se revela inútil, em confronto com o objetivo que, por seu intermédio o
legislador procura alcançar, perde sentido a sua manutenção como obstáculo à decisão
sobre a questão de fundo. A regularização da instância, através da prática dos atos
necessários à sanação de tal exceção dilatória correspondia na realidade, à imposição
de um conjunto de formalidades inúteis, porque desprovidas de conteúdo
substancial. De resto, no preceito analisado, o legislador tomou a precaução de exigir
que, além verificação da inutilidade funcional do pressuposto processual nas condições
descritas, não exista qualquer outro impedimento de forma e, ao mesmo tempo,

15
Integrando-se a ação na tutela condenatória, a procedência concretiza-se na condenação do réu no
pedido.

Ana Castro e Catarina Morais 90


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estejam reunidos os elementos que permitem ao tribunal proferir uma decisão de


mérito integralmente favorável à parte cuja posição na instância o requisito em falta
se destina a proteger.
Existe um conjunto restrito de pressupostos processuais, que não estão submetidos
ao regime do conhecimento oficioso do tribunal. É o que acontece com uma parte da
competência relativa – a que não está abrangida pelos nº 1 e 2 do artigo 104º – e a
preterição do tribunal arbitral voluntário, cujos efeitos sobre a relação processual
dependem da arguição do réu (artigo 578°). Para estes pressupostos processuais, que se
caracterizam pelo facto de a relevância da sua falta no processo estar subordinada ao
princípio dispositivo, costuma reservar-se a designação de impedimentos processuais.
No processo civil levanta-se, como já vimos, o problema da admissibilidade e do mérito,
e vamos agora tratar do plano da admissibilidade.
Os pressupostos processuais são um conjunto de requisitos de admissibilidade que
condicionam o tribunal de conhecer do mérito da causa. Na falta de algum pressuposto,
o tribunal não pode conhecer da causa, embora se o fizer a decisão é válida, devendo
remeter o processo para o tribunal competente.
Os pressupostos processuais podem ser agrupados:
• Pressupostos processuais relativos às partes: personalidade judiciária, capacidade
judiciária - 577.º alínea c) CPC, representação judiciária, patrocínio judiciário - 577.º
alínea h) CPC, autorização especial ou deliberação - 577.º alínea d) CPC
• Pressupostos processuais relativos aos tribunais: competência - 557.º alínea a)
CPC
• Pressupostos processuais quanto ao objeto do processo - não litispendência e
ausência de caso julgado material - 577.º alínea i) CPC
• Pressupostos processuais na relação entre as partes e o objeto do processo -
legitimidade - 577.º alínea e), f) e g) CPC

Os pressupostos processuais podem também ser:


1. Sanáveis - quando a sua falta possa ser colmatada. Sendo sanáveis, nos termos do
6.º/2 CPC. o juiz deve providenciar o suprimento da respetiva falta (exceção dilatória)
2. Não sanáveis - quando a sua falta não possa ser suprida.

Os pressupostos processuais podem ainda ser:


1. De conhecimento oficioso - 578.º CPC - vale a regra do conhecimento oficioso, em
certos casos a falta do pressuposto deve ser invocada pelas partes e assim acontece

Ana Castro e Catarina Morais 91


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em alguns casos de incompetência relativa - os que não estão englobados pelo 104.º
CPC16.
2. De conhecimento provocado - 578.º CPC - quando a falta de um pressuposto careça
de ser invocada pelas partes
Nota: Não obstante, os pressupostos processuais serem de conhecimento provocado ou
de conhecimento oficioso, em certos casos, só podem ser conhecidos até determinados
momentos processuais. Por exemplo, a incompetência relativa só pode ser conhecida até
ao despacho saneador - 104.º/3 CP.
Quanto ao suprimento de pressupostos processuais, há casos em que o juiz tem
legitimidade exclusiva para o fazer e outros em que se pressupõe o impulso das partes.
Por exemplo, o juiz tem competência para regular a instância no caso de irregularidade
de representação de uma parte, mas não tem competência para chamar ao processo novas
partes - 6.º/2 CPC.
Finalmente, os pressupostos processuais podem ser positivos, quando a sua presença seja
necessária à entrada no mérito da causa; ou negativos, quando a sua verificação obste à
consideração do mérito da causa (caso julgado e litispendência).

Regime Geral dos Pressupostos Processuais


O efeito próprio da falta de um pressuposto processual é a abstenção do juiz de
considerar o mérito da causa - 576.º/2 1ª parte CPC.
Não obstante, a regra do 278.º/3 CPC - mesmo que o pressuposto processual seja sanável
e que seja expectável que venha a ser regularizado, deve o juiz, na sua presença, abster-
se de praticar quaisquer atos que conduzam à decisão de mérito.
Mas não deve apenas abster-se de proferir sentença quanto ao mérito, como também
abster-se de entrar na matéria respeitante à decisão da causa, parando, nomeadamente, os
meios de produção de prova até que a instância seja regularizada.
Do ponto de vista da defesa, a falta de um pressuposto processual pode ser invocada como
forma de obstar a que o tribunal conheça do fundo da causa, por isso, é uma exceção
dilatória - 577.º CPC.
A finalidade do processo é o conhecimento do mérito da causa, ora se a falta de um
pressuposto processual obsta a que o tribunal possa conhecer do mérito da causa,
gera-se uma situação a remover, uma vez que contraria as finalidades do processo.
Se a falta for sanável, deve ser sanada.

16
No caso de preterição do tribunal arbitral voluntário - 97.º/1 CPC, estamos no âmbito da
incompetência absoluta.

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A presença de uma exceção dilatória (falta de pressuposto processual) tem por


consequência, não apenas que o juiz se deva abster de conhecer do fundo da causa, como
também, absolver o réu da instância17.
Nota: No caso de incompetência relativa, o processo é remetido para o tribunal
competente - 105.º/3 CPC, logo o réu não é absolvido.
Com vista ao maior aproveitamento dos atos processuais e máxima economia processual,
tratando-se de falta sanável do pressuposto processual, procura-se que haja oportunidade
de regularizar a instância.
Assim, o juiz tem o poder dever de apurar da verificação ou não verificação dos
pressupostos processuais nos casos em que o conhecimento das exceções seja oficioso, e
ainda, o poder dever, ao abrigo da gestão processual, de velar pela regularização da
instância - 6.º/2 CPC, seja ordenando a prática dos atos necessários à regulação da
instância, ou convidando as partes à sua regularização, quando dependa de atos que por
elas devam ser praticados.
Ou seja, o juiz tem sempre o poder dever de providenciar pela regularização da instância
(se a falta for sanável).
Assim, se a falta de pressuposto for sanável, o juiz deve providenciar pela regularização
da instância ou no despacho liminar ou no despacho pré-saneador (consoante o réu tenha
sido ou não citado).
Perante a falta de pressuposto insanável, desde logo, se houver despacho liminar, o juiz
deve proferir um despacho de indeferimento liminar, se não houver despacho liminar deve
absolver o réu da instância num despacho saneador.
O efeito da absolvição da instância é apenas a extinção daquela concreta relação
processual, e, portanto, o despacho que ordena essa decisão, não impede que se proponha
outra ação com o mesmo objeto - 279.º/2 CPC pois produz apenas um caso julgado
formal18.
Em qualquer caso, para dois tipos de efeitos permite-se o aproveitamento daquela ação (a
que foi proposta e na qual houve absolvição):

• Admite-se que os efeitos civis resultantes da propositura da ação e da citação do


réu se conservem se uma nova ação for intentada no prazo de 30 dias a contar da
absolvição do réu da instância - 279.º/2 CPC
• Efeito civil próprio da propositura da ação: interrupção da caducidade do
direito (311.º/1 CC);

17
Absolver o réu da instância é absolvê-lo daquela concreta relação processual, ou seja, extingue-
se a concreta relação pessoal. O 278.º/1 CPC prevê as causas de absolvição da instância, e na
alínea e) do mesmo artigo prevê-se que qualquer outra exceção dilatória seja causa de absolvição
da instância. Ainda neste âmbito, o 577.º CPC contém um elenco de exceções dilatórias, que não
é taxativo.
18
Tem força apenas dentro do processo em que se formou - 620.º CPC.

Ana Castro e Catarina Morais 93


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• Citação: cessação da boa-fé do possuidor (564º alínea a) CPC); interrupção da


prescrição (323.º/1 CC); interrupção do prazo de usucapião (1292.º CC); mora
(805.º/3 CC).

• Se a absolvição tiver ocorrido por causa diferente das previstas no 278.º/1 alíneas a)
a d) CPC - aproveita-se na ação que se venha a intentar as provas que tenham sido
produzidas na primeira ação - 279.º/3 CPC.

Mesmo quando a verificação da exceção dilatória tem por efeito a absolvição da


instância, o legislador admite que o tribunal possa pronunciar-se sobre o mérito,
excecionalmente, nos termos do 278.º/3 CPC que consagra três requisitos cumulativos
para que possa acontecer:
• O pressuposto processual em falta deve destinar-se a tutelar apenas o interesse de uma
das partes;
• Que não esteja presente qualquer outra exceção dilatória;
• Que a decisão de mérito que o tribunal deveria proferir no caso de não haver nenhum
impedimento, seja integralmente favorável a essa parte (parte que o pressuposto em
causa visa proteger).
Por exemplo, uma parte que devia estar representada no processo está indevidamente
representada (falta do pressuposto de capacidade judicial), o tribunal tem capacidade para
sanar, mas a ação continua. O juiz, quando deve proferir sentença, apercebe-se que a parte
não está devidamente representada, em princípio deveria absolver o réu da instância, mas
sabe que, entrando no mérito, a decisão seria favorável à parte. Então deve pronunciar-se
sobre o mérito da causa, porque embora o pressuposto em falta visasse proteger aquela
parte, se a decisão de mérito lhe era integralmente favorável, pouco importa que não tenha
estado bem representada.
Antes de entrarmos nos pressupostos processuais per si importa fazer algumas
considerações iniciais.

As Partes do Processo
Adota-se, no processo civil, uma noção formal de parte, são partes as pessoas que
movem ou contra quem são movidas determinadas ações, e, portanto, as pessoas, em
cujas esferas jurídicas se vão repercutir os efeitos jurídicos da decisão a proferir. Por
exemplo, se uma ação é movida por representante, a parte é o representado.
São centros personificados entre os quais se estabelecem as ligações jurídicas
nascidas a partir da proposição da ação, art. 259.º/1.
São partes quem intenta e contra quem é intentada a ação. Não importa, do ponto de
vista material, se essas pessoas são parte da relação material controvertida, importa

Ana Castro e Catarina Morais 94


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apenas quem move a ação e contra quem é movida a ação, independentemente de essas
pessoas terem legitimidade material ou não.
Por exemplo, de acordo com o pressuposto da legitimidade, se A move ação contra B,
afirmando que determinada prestação é devida, no âmbito de um contrato celebrado por
ambos e no decurso da ação se apura que o contrato não foi celebrado com B, mas antes
com C, nem por isso, B deixa de ser parte, porque foi contra B que a ação foi intentada.
O réu deve ser absolvido do pedido e não da instância
Por exemplo, se a ação for movida por um representante, a parte na ação é o representado,
porque é ele quem vai arcar com os efeitos e não o representante, que apenas conduz a
ação.
As partes primitivas da ação devem ser identificadas na petição inicial, ou seja, o
autor deve identificar a pessoa do réu na petição inicial - 552.º/1 alínea a) CPC. Caso o
réu não seja identificado, a secretaria deve recusar a petição inicial - 558.º alínea b) CPC.
Isto porque as partes funcionam como pontos de apoio indispensáveis à conformação do
processo e, nessa medida, é nas respetivas esferas jurídicas que se localizam os deveres e
os ónus que preenchem o conteúdo das posições processuais que ocupam e se projetam
os efeitos dos atos integrados no desenvolvimento da instância.
Até aqui, tem-se admitido como certo que o processo se desenvolve com base na presença
efetiva de duas partes na instância, que o autor identifica em concreto desde o momento
da proposição da ação (princípio da dualidade de partes).
Se é exato que a identificação das partes deve constar da petição inicial, todavia casos
há em que o processo pode decorrer, até certo momento, sem a presença do
demandado na instância, o que torna impossível a sua intervenção em juízo durante
esse período de ausência forçada. Razões de operacionalidade processual levam o
legislador a optar por este tipo de tramitação unilateral transitória, com a finalidade de a
decisão ser proferida num curto espaço de tempo, evitando-se as delongas que a
intervenção da contraparte traria. Já se referiu, a este propósito, o que se passa
naqueles procedimentos cautelares, em que o contraditório foi diferido. (n.º 6 do artigo
366º). Tanto num caso, como no outro, a parte que só tem possibilidade de intervir
mais tarde está concretamente identificada no requerimento com que o processo se
inicia.
Numa hipótese muito particular, a lei consente que não haja identificação concreta de
todas as partes que tomam a iniciativa de propor a ação, bastando o enunciado de um
critério definidor do círculo dos potenciais interessados na obtenção de um resultado
favorável. Assim acontece com as ações coletivas que obedecem ao modelo da ação
popular (cível ou administrativa), como a que se acha consagrada na Lei n.º 83/95, de 31
de agosto (cfr. n.º 1 e 4 do artigo 1° do referido diploma). Trata-se de assegurar a
representação coletiva no processo de um conjunto («classe») de titulares de interesses
difusos, sem que se exija a autorização específica de cada um deles para ficar envolvido
como parte na ação destinada à tutela de posições jurídicas que também lhe dizem
respeito.

Ana Castro e Catarina Morais 95


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A partir do momento em que o réu é citado, a instância estabiliza-se - 260.º CPC,


mantendo-se a mesma quanto ao pedido, à causa de pedido e às partes, não obstante as
possibilidades de modificação legalmente previstas - 265.º CPC.
Assim, admite-se que novas partes sejam chamadas à instância, mediante:
• Incidente de intervenção de terceiro (311.º CPC e ss.) - acrescentam-se novas partes
à instância;
• Incidente de habilitação (351.º e ss.) - nos quais se substitui uma parte primitiva.
Ex: A parte morre.
No que toca à sua posição na instância pode distinguir-se:
• Parte principal - Arca diretamente na sua esfera jurídica com os efeitos da sentença
que venha a ser proferida;
• Parte acessória - Assiste uma das partes principais (assistente) - 328.º/1 CPC,
estando a sua atividade principal subordinada à atividade da parte principal19, não
podendo praticar atos que esta tenha perdido o direito de praticar nem assumir atitude
que esteja em oposição com a do assistido; Havendo divergência insanável entre a
parte principal e o assistente, prevalece a vontade daquela (nº2 do artigo 328º).
Cumpre, no entanto, salientar que a distinção entre partes principais e partes acessórias
não exclui a eventualidade de, na pendência do processo, se alterar o respetivo
estatuto inicial, com a inerente modificação do conteúdo dos poderes que exercem em
juízo. Assim, o assistente, no caso de revelia do assistido, passa a atuar como substituto
processual deste (artigo 329º), o que representa a mudança da condição inicial de
parte acessória para a de parte principal. Pode, nesta nova veste, praticar em nome
próprio os atos que a parte assistida tenha o direito de realizar nas fases do processo
subsequentes ao momento em que se operou a referida mudança.
No que toca às posições contrapostas da relação processual:

• Parte ativa - Quem pede ao tribunal determinada providência destinada à defesa


de uma posição jurídica de que o requerente se afirma titular.
• Parte passiva - Define-se pela situação de ser contra ela que se dirige o
mencionado pedido.

Comecemos então por estudar os princípios atinentes às partes, nomeadamente, o


pressuposto da personalidade judiciária; e o pressuposto da capacidade judiciária. Quer
um conceito, quer outro, são a tradução processual, com especificidades, do conceito
de personalidade jurídica e da capacidade de exercício.

19
O assistente, não sendo tecnicamente parte da instância, fica obrigado a aceitar o caso julgado
que tenha sido proferido na ação em que assistiu uma parte principal.

Ana Castro e Catarina Morais 96


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Personalidade Judiciária
A personalidade jurídica tem inerente a capacidade de gozo20 de direitos e suscetibilidade
de ser titular de direitos e de obrigações.
Ora, se a personalidade jurídica consiste na suscetibilidade de ser titular de direitos e
obrigações, a personalidade judiciária consiste em poder ser parte de uma relação
processual - 11.º/1 CPC, e, portanto, ser sujeito ativo ou passivo de efeitos jurídicos
processuais.
A personalidade judiciária designa a possibilidade de alguém requerer perante o
tribunal, ou de contra si ser requerida - atuando sempre em nome próprio -, alguma
das medidas de tutela judicial previstas na lei.
Regra geral: Quem tem personalidade jurídica, tem personalidade judiciária - 11.º/2
CPC, por força do princípio da equiparação/ princípio da coincidência.
Se as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas, conforme proclama o
art. 67.º CC, é óbvio que também podem assumir a posição de sujeitos da relação jurídica
na sua vertente processual.
Sendo o processo o lugar do exercício do direito, a personalidade judiciária é uma das
principais vertentes da personalidade jurídica. Não poder ser sujeito de efeitos
jurídicos processuais é estar apartado da realização prática do Direito.
Têm personalidade jurídica:
a) Pessoas singulares a partir do nascimento completo e com vida - 66.º/1 CC;

b) Além da pessoa singular, a possibilidade de participar no tráfego jurídico a título de


“pessoa” é atribuída a certas corporações: associações e fundações com
personalidade jurídica - 158.º CC;

c) Sociedades comerciais21 a partir da data do registo definitivo do contrato que as


constitui - 5.º CSC.
Importa depois conhecer um conjunto de casos particulares em que a personalidade
judiciária é estendida a algumas entidades que ao nível do direito substantivo não
têm personalidade jurídica - 12.º CPC. Trata-se da atribuição de uma personalidade
jurídica limitada/ subjetividade jurídica.
São esses os casos dos artigos 12.º e 13.º CPC:

20
Não se confunde com a capacidade de exercício de direitos.
21
As sociedades comerciais adquirem personalidade jurídica a partir da data do registo definitivo
do contrato. Assim, à luz do princípio da equiparação, a partir da data do registo definitivo do
contrato, as sociedades comerciais adquirem personalidade judiciária.

Ana Castro e Catarina Morais 97


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• Herança jacente22 e patrimónios autónomos semelhantes cujo titular não


esteja determinado - 12.º alínea a) CPC:
Diz-se jacente, nos termos do artigo 2046.º CC, a herança já aberta, mas ainda não
aceita nem declarada vaga a favor do Estado.
Para intentar uma ação judicial que diga respeito a bens ou posições jurídicas que
compõem esta herança (por exemplo, crédito sobre a herança), a parte na ação vai ser a
própria herança representada pelo cabeça de casal. Por exemplo, se alguém se
apropriou de um bem que fazia parte da herança, é a própria herança que reivindica esse
bem. - A herança jacente é ela própria parte na ação, logo tem personalidade judiciária.
Mas esta personificação limitada desaparece, logo que os respetivos titulares fiquem
determinados mediante a aceitação, expressa ou tácita, da herança (artigo 2056.º CC).

A aceitação que coloca fim à jacência tem de se verificar em relação a todos os


sucessíveis, continuando a ocorrer a extensão da personalidade judiciária enquanto se
aguarda a aceitação ou o repúdio de algum dos chamados à sucessão (cfr. artigo 2049.°
CC).

Uma vez aceita a herança, mas ainda não partilhada, então chamar-se-á herança
indivisa. A jacência terminou (porque os sucessíveis se pronunciaram, repudiando-a ou
aceitando-a), mas continuamos a ter um património autónomo, só que agora com titulares
determinados. Logo, os direitos da herança devem ser exercidos por todos ou contra
todos os herdeiros - 2091.º CC, são casos de litisconsórcio necessário.
A mera indivisão hereditária não determina da atribuição de personalidade judiciária à
herança.

No período de jacência da herança a própria herança jacente pode ser parte da ação.
Quando a herança já foi aceite, mas não houve partilha, a regra geral é que a ação é
intentada por todos os herdeiros e contra todos os herdeiros (litisconsórcio necessário).

• Entidades de feição coletiva às quais não se atribui personalidade jurídica de


direito material, mas às quais se oferece à subjetivação consistente na
personalidade judiciária:
a) Associações sem personalidade jurídica e comissões especiais - 12.º alínea b)
CPCP e 195.º CC e ss;
b) Sociedades civis - 12.º alínea c) CPC e 980.º CC e ss.;

22
Diz-se jacente, nos termos do 2046.º CC, a herança que já foi aberta (abre-se com a morte do
de cuius e no lugar do último domicílio - 2031.º CC), mas ainda não aceita pelos sucessores, nem
declarada vaga a favor do Estado. A jacência termina logo que todos os sucessíveis aceitem a
herança - 2049.º CC ou que seja declarada vaga a favor do Estado. É um património autónomo
cujos titulares não estão determinados porque ainda não foi aceite pelos sucessíveis, nem
declarada vaga a favor do Estado.

Ana Castro e Catarina Morais 98


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c) Sociedades comerciais até à data do registo do contrato definitivo que as compõe


- 12.º CPC alínea d) e 5.º CSC, estende-se a personalidade judiciária até à data
do registo, embora anda não tenham adquirido personalidade jurídica.

• Condomínio resultante de propriedade horizontal - 12.º alínea e) CPC


No que diz respeito a ações que se integrem nas funções do administrador do condomínio.
O condomínio é um instituto jurídico que tem lugar na propriedade horizontal, e é
um direito que tem por conteúdo não só a propriedade exclusiva da fração
autónoma, mas também a propriedade comum das partes comuns do edifício -
1420.º/1 CC.
O núcleo das funções desempenhadas pelo administrador encontra-se estabelecido no
artigo 1436.º CC, sem prejuízo de a assembleia lhe cometer o exercício de outras
responsabilidades. Somente dentro deste quadro é que o condomínio recebe o estatuto de
parte, se houver necessidade de recorrer à via judicial, quer contra qualquer dos
condóminos, quer contra terceiro (nº1 do antigo 1437.º CC).
Pode também o condomínio ser demandado, porque se está ainda na zona da competência
própria do administrador, em ações respeitantes às partes comuns do edifício, a menos
que envolvam questões atinentes à propriedade ou posse dos bens comuns (n.º 2 e 3
do artigo 1437.° CC). Perante o critério que o legislador adotou, a personalidade
judiciária do condomínio tem como medida a competência funcional que a lei atribui ou
a assembleia venha a atribuir ao referido órgão executivo.
Fora destes casos, resulta da alínea e) do artigo 12.° que as demais ações obrigam à
intervenção dos condóminos singularmente considerados, porque se ultrapassam os
estreitos limites em que se admitiu a personalização do condomínio para fins processuais.
Daí que a questão da personalidade judiciária do condomínio não se coloque, se estiver
em causa a determinação de quem assume a posição de parte passiva na ação destinada a
apreciar a validade das deliberações tomadas em assembleia de condóminos (artigo
1433.º do CC).
Como se trata de um tema estranho ao exercício das competências do administrador, o
lado passivo da instância terá de ser integrado pelos condóminos perante os quais o
condómino autor pretende que se produzam os efeitos da impugnação da deliberação da
assembleia.
• Navios - 12.º alínea f) CPC
Nos termos da legislação especial, é possível que uma ação seja intentada por e contra
um navio - 28.º/2 do DL 352/86 de 21 de outubro23, com as respetivas alterações e o artigo
7.º DL 202/98 de 10 de julho24.

23
contrato de transporte de mercadorias por mar
24
estatuto legal do navio

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• Órgão de fiscalização das sociedades comerciais, sucursais, agências, filiações,


delegações ou representações - 13.º CPC
Os órgãos das pessoas coletivas e das sociedades, enquanto meros expedientes técnico-
jurídicos destinados a permitir a formação da vontade a assegurar a execução das
deliberações do ente a que pertencem, não gozam de personalidade jurídica.
Porém, não se exclui que, a título excecional, se lhes reconheça a autonomia suficiente -
em relação à entidade titular da personalidade jurídica -, para atuarem como portadores
de interesses específicos nos quais se funda o exercício dos poderes que integram o
estatuto processual da parte.
Também podem demandar ou ser demandadas as sucursais, agências, filiações,
delegações ou representações quando a ação proceda de facto por elas praticado.
São casos de sociedades descentralizadas, em que o centro de imputação é a
administração principal, mas que tem espalhadas sucursais, agências, filiações,
delegações ou representações.
Resulta que se o facto em causa (que deu origem à ação judicial) foi praticada por uma
sucursal, agência, filiação, delegação ou representação dessa sociedade que se
descentralizou, pode demandar ou ser demandada a própria.
13.º/2 CPC - Ainda que o facto de que deriva da ação tenha sido praticado pela
administração principal, podem as sucursais, agências, filiações, delegações ou
representações demandar ou ser demandas quando a administração principal que praticou
o facto:
1) Tem sede ou domicílio em país estrangeiro;
2) As sucursais, agências, filiações, delegações ou representações estão
estabelecidas em Portugal;
3) A obrigação em causa foi contraída com um português ou com um cidadão
estrangeiro domiciliado em Portugal.

Consequências da falta de personalidade judiciária


Não estando preenchido o pressuposto processual da personalidade judiciária, seja por
parte do autor, seja pelo lado do réu, o juiz fica impedido de apreciar a questão de fundo,
como é próprio da falta não sanada de qualquer pressuposto processual.
Em consequência da exceção dilatória que se produz e perante a impossibilidade de se
promover a respetiva sanação, o caminho que resta ao tribunal é o da absolvição do réu
da instância, conforme decorre do disposto no artigos 278.º, n.º 1, alínea c ), 576.º, n º2 ,
e 577.º, alínea c).
Se o tribunal tiver de apreciar a regularidade da petição antes da citação do réu, o que
apenas acontece nas hipóteses previstas no nº1 do artigo 590º, a falta de personalidade

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judiciária, apurada em face da simples leitura da petição inicial, determina o


indeferimento liminar do referido articulado.
Quando a falta seja conhecida depois de findos os articulados e se mostre suscetível de
sanação, o juiz deverá oficiosamente proferir despacho pré-saneador, mediante o qual
determina a realização dos atos necessários à regularização da instância dentro do prazo
que fixar (artigos 6º nº 2 e 590.º, nº2 alínea a)). Não sendo removida a falta do pressuposto
processual, dar-se-á a absolvição da instância no despacho saneador (artigos 591.º, nº 1
alíneas b) e d), e 595º n.º 1, alínea a)).
Se a existência da falta só for verificada depois deste despacho, a absolvição da instância
tem lugar na sentença final (n.º 1 do artigo 608º).
Este regime tem a particularidade resultante do 14.º CPC, de que, nestes casos, a falta de
personalidade judiciária, ou seja, o facto de ser intentada uma ação por ou contra
sucursais, agências, filiações, delegações ou representações, em casos não previstos no
13.º CPC é sanável.
Ex: A ação proposta contra a filial ou agência de uma pessoa coletiva com sede em
Portugal por facto praticado pela administração.
Faz-se a sanação através da intervenção da administração principal e da ratificação pela
administração principal do processado, ou se a administração principal não ratifica o
processado, tem de ser repetido o processado.
Não se verificando a integração do pressuposto (citação da administração principal)
dentro do prazo concedido para a sua regularização, resta ao tribunal absolver da
instância a filial ou agência (artigos 278.º, n.º 1, alínea c), e 577º, alínea c)).
Efetuada a citação de quem preencha os requisitos para intervir no processo como parte,
importa distinguir consoante a atividade desenvolvida em juízo seja ratificada pelo
interveniente ou haja recusa de ratificação. Na primeira hipótese, o processo seguirá
os seus termos como se a parte preterida tivesse intervindo desde o início; na segunda
hipótese, correm de novo os prazos previstos para a prática dos atos não ratificados (artigo
14º “in fine”).
Nota: Fora do elenco destes artigos, é de salientar a atribuição de personalidade judiciária
ao órgão de fiscalização das sociedades comerciais para efeitos de declaração de nulidade
ou anulação de deliberações sociais - 57.º/2 CSC.
A falta de personalidade judiciária dá origem a uma exceção dilatória - 278.º/1 alínea c)
e 577 alínea c) CPC. Se a falta é insanável, deverá o juiz indeferir liminarmente a petição
inicial (quando há despacho liminar) ou absolver o réu da instância no despacho saneador
(tendo havido previamente o contraditório) - 595.º/1 alínea a) CPC ou mesmo na sentença
final 608.º/1 CPC.
Se for sanável o juiz deve providenciar pela sanação - 6.º/2 CPC ora no despacho liminar
ou no despacho pré-saneador.

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A falta de personalidade judiciária é, em princípio, insanável, salvo quando esteja previsto


na lei um instrumento de regularização da instância, como por exemplo, no 14.º CPC.
Nota: Alguns tribunais têm admitido ações propostas contra pessoa já falecida,
permitindo a habilitação, ou seja, a personalidade jurídica cessou com a morte do de cuius,
e por consequência, terminou a personalidade judiciária, logo, é necessário habilitar os
sucessores.

Cessação superveniente da personalidade judiciária


O pressuposto processual da personalidade judiciária deve verificar-se ao longo do
processo.
Se uma das partes perde a personalidade judiciária deixa de poder ser destinatária de
decisões judiciais, e, portanto, há uma falta superveniente de um pressuposto
processual. Cabe distinguir:
(i) Se a instância se torna inútil em virtude da cessação da personalidade judiciária
(morte ou extinção, no caso da pessoa coletiva) - o juiz deve extinguir a instância
com fundamento na inutilidade superveniente da lide25. Por exemplo, se A
intenta ação contra B para que se abstenha de praticar atos lesivos da sua posse e
B morre, a ação torna-se inútil porque termina o risco de perturbação da posse por
B (que está morto).

(ii) Normalmente, a ação conservará a sua utilidade, aplicando-se o regime de


sucessão de parte.

Regime de sucessão de partes


Já vimos que pode haver modificações subjetivas de instância, através da intervenção de
terceiros (acrescentar parte), e habilitação (substituir parte).
A morte de uma das partes ou a extinção de uma das partes é causa de suspensão da
instância, quando o facto for conhecido - 269.º alínea a) CPC.
Nos termos do 270.º/2 CPC, qualquer uma das partes tem o dever de dar a conhecer no
processo o facto da morte da sua comparte (em casos de litisconsórcio e coligação) ou da
parte contrária, devendo juntar documento que o comprove. O incumprimento deste dever
é fonte potencial de responsabilidade civil para remoção dos danos gerados com o
respetivo incumprimento, devendo ainda ser condenado a pagar as custas dos atos que
tenham ficado sem qualquer efeito.
Mesmo que a instância só se suspenda quando se junta ao processo prova do falecimento,
são nulos todos os atos praticados a partir dessa data - 270.º/3 CPC, salvo quando os
atos entretanto praticados venham a ser ratificados pelos sucessores da parte falecida -
270.º/4 CPC.

25
é uma das causas de extinção da instância - 277.º alínea e) CPC

Ana Castro e Catarina Morais 102


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

A suspensão com este fundamento só termina quando houver notificação da decisão que
considera habilitados os sucessores da parte falecida - 276.º/1 alínea a) CPC.
Para regular a instância deve requerer-se a habilitação dos sucessores nos termos do
direito material - 351.º CPC, através do qual se admite à instância aqueles, que nos termos
do direito material, sucedem na titularidade da posição jurídica litigada.
Nota: Há uma exceção a este regime que decorre do 162.º CSC, vale paras as sociedades
comercias e nos termos deste regime, que a ação prossegue, não havendo suspensão da
instância e prosseguindo contra a generalidade dos sócios representados pelos
liquidatários, sem que seja necessário recorrer a incidente de liquidação.

A Capacidade Judiciária
Pressuposto da Capacidade Judiciária
Traduz, para o domínio do processo, o conceito substantivo da capacidade de exercício
de direito, o poder de exercer, através de ato pessoal e livre os seus direitos, por si próprio
ou através de representante designado.
Tem por conteúdo a suscetibilidade de estar por si mesmo (ou por um representante
designado livremente por si, por exemplo, um advogado) em juízo - 15.º/1 CPC.
A atuação das partes em juízo assenta no reconhecimento da sua aptidão para se
movimentarem livremente dentro das respetivas esferas jurídicas, com vista à
escolha autodeterminada do modo de realização dos direitos ou faculdades de que
são titulares. Como corolário desta capacidade, é-lhes consentido designarem uma
terceira pessoa para atuar em seu nome no processo, com base na representação
voluntária.
Existe capacidade judiciária, sempre que a esfera da capacidade de exercício de
direitos das partes puder comportar as consequências do resultado correspondente
à perda da ação.
A capacidade judiciária tem por base e medida a capacidade de exercício do direito
material - 15.º/2 CPC. O regime de direito processual procura trazer para o processo as
valorações de direito material, assim, por exemplo, os menores não poderão, em
princípio, estar por si próprios em juízo26 - 123.º CC, os menores são incapazes para o
exercício de direitos. São titulares de posições jurídicas, possuindo a capacidade de gozo,
que é inerente à sua personalidade jurídica, mas são incapazes de exercer por si mesmo
as posições jurídicas decorrentes da titularidade.
Mas se o direito material introduzir uma exceção - 127.º CC, os menores já poderão agir
sozinhos, sem representantes, numa ação civil que tenha por objeto as matérias para as
quais a lei lhes atribuí capacidade de exercício.

26
trata-se de uma situação de representação legal e não de representação voluntária.

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Para determinar a quem compete a representação nos casos de incapacidade de exercício


é preciso considerar o regime substantivo aplicável:
1. No caso de pessoas singulares: tratando-se de menores ou de maiores
acompanhados sujeitos a representação, ou seja, se estivesse estabelecida uma
medida de acompanhamento com representação, só podem estar no processo
através dos seus representantes, exceto quando possam exercer os atos pessoal e
livremente - 16.º/1 CPC e 16.º/2 CPC.

• No caso de um menor que esteja representado por ambos os pais (16.º/2 CPC),
numa situação de desacordo entre os pais, pode recorrer-se ao tribunal com vista
a assegurar a correta representação do menor na causa - 18.º CPC.

• Em caso de menoridade, devem ser citados para a ação ambos os pais - 16.º/3
CPC. O filho é citado na pessoa dos pais.

• No caso de maior acompanhado sujeito a representação, deve ser citado o


representante. Já no caso de maiores acompanhados que não sejam sujeitos a
representação, estes podem intervir em todas as ações em que sejam parte e
devem ser citados quando tiverem a posição de réu, sob pena de se verificar a
nulidade decorrente da falta de citação, ainda que tenha sido citado o
acompanhante - 19.º/1 CC e 187.º - A, 188.º e 189.º CPC.

• 19.º/2 CPC - A intervenção do maior acompanhado sem representação, no que


diz respeito a atos sujeitos a autorização, fica subordinada à orientação do
acompanhante que prevalece em caso de incompatibilidade.

• Não havendo representante geral deve requerer-se ao tribunal competente a sua


nomeação, podendo designar-se um curador especial ou provisório no período de
tempo em que a nomeação ainda não tenha sido feita - 17.º/1 CPC. Assim vale
para aqueles que estejam impossibilitados de receber a citação em virtude de
anomalia psíquica ou outro motivo grave - 20.º/1 CPC.

• Se o ausente ou o incapaz não deduzir oposição é o MP que assume a defesa - 21.º


CPC. É o MP que representa também os incertos - 22.º CPC.

2. Tratando-se de uma pessoa coletiva ou que careça de personalidade judiciária:

• 25.º/1 CPC - São representadas por quem a lei, estatutos ou pacto social designar;
apenas a PC é citada;

• 26.º CPC - São representadas pelos seus administradores ou gerentes. Trata-se de


uma representação orgânica e não exatamente de uma representação para efeitos de

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suprimento de uma incapacidade - as pessoas coletivas atuam no comércio jurídico


através de determinados órgãos que têm a função de as representar.

Falta e suprimento de Capacidade Judiciária


A incapacidade judiciária é uma exceção dilatória que obsta a que o tribunal
conheça do mérito da causa, com a consequência da absolvição do réu da instância-
278.º/1 alínea c) e 576.º/2 e 577.º alínea c).
O seu suprimento é assegurado por intermédio dos institutos da representação legal, da
curatela ou da administração de bens, nos mesmos termos estabelecidos no direito civil,
dado que a intervenção em juízo do incapaz corresponde a uma das modalidades que pode
assumir o exercício dos seus direitos.
Na representação legal, o representante atua em lugar do incapaz e independentemente da
vontade deste. Não havendo condições para o exercício das responsabilidades parentais
pelos progenitores, ou por um deles apenas, o menor fica obrigatoriamente sujeito a tutela
(artigos 1921.° e ss. do CC).
O exercício das responsabilidades parentais perante o menor, no caso de ser achar
instituído o regime de apadrinhamento civil, rege-se, em princípio, pelas disposições
sobre representação legal estabelecidas para a tutela (artigos 7.º, n.º 1 e 2, da Lei n.º
103/2009, de 11 de setembro, e 1936° a 1941º do CC).
Pode também a representação legal do menor ser exercida por administrador designado
para o efeito, quanto aos atos relativos aos bens cuja administração lhe pertença,
assumindo os direitos e deveres do tutor (artigos 1922.° e ss., 1967.° e ss, e 1971, n.º 1 e
2, do CC).
Já o curador acompanha o inabilitado com o objetivo de lhe prestar assistência,
autorizando-o ou não a praticar os atos incluídos no âmbito da incapacidade (n.º 1 do
artigo 16.º). Cabe ao próprio incapaz a prática dos atos, mas sob a supervisão do curador
que decide qual a atuação mais conveniente para os interesses do assistido (n.º 1 do artigo
153.º do CC). Daí que os inabilitados possam intervir em todas as ações em que sejam
partes, mas a sua atuação no processo, dentro da área abrangida pela incapacidade, fica
subordinada à orientação do curador, que prevalece no caso de divergência (n.° 1 e 2 do
artigo 19.º). Se forem réus, é obrigatória a sua citação juntamente com o curador, o que
mostra que na prestação da assistência deve existir um grau de cooperação próxima com
o assistido, embora permanecendo este em posição subordinada. A omissão da citação do
inabilitado para ocupar a posição de réu (assistido), apesar da presença do curador na
instância, dá origem à nulidade processual da falta de citação (artigos 19.º, n.º 1, 187. e
188.º, n.º 1, alínea a)).
Tratando-se de menor, a sua representação em juízo é assegurada, em princípio, por
ambos os progenitores ligados pelo casamento, uma vez que se está perante atos
integrados no exercício das responsabilidades parentais (artigo 1878.º, n.º 1, do CC.; cfr.
Nº 2 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 61/2008, de 31 de outubro), poder-dever que compete
conjuntamente aos pais na constância do matrimónio (n.º 1 do artigo 1901.° do CC.). O

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regime do exercício em comum dessas responsabilidades conhece, todavia, limitações


nos casos de divórcio, separação judicial de pessoas e bens, declaração de nulidade
ou anulação do casamento dos progenitores.
Para tal efeito, a lei distingue entre «atos da vida corrente do menor», em que o exercício
das responsabilidades parentais «cabe ao progenitor que com ele reside habitualmente, ou
ao progenitor com quem ele se encontre temporariamente» (nº3 e 4 do artigo 1906º do
CC), e as «questões de particular importância para a vida do filho», observando-se nas
ações que lhes digam respeito, o regime da representação em juízo durante a constância
do matrimónio. Excetuam-se da representação conjunta aqui prevista os «casos de
urgência manifesta, em que qualquer dos progenitores pode agir sozinho, devendo prestar
informações ao outro logo que possível» (n.º 1 do artigo 1906º do CC).
Pode ainda ocorrer outro caso de representação singular, se o tribunal, através de
decisão fundamentada, entregar a representação em juízo a um dos progenitores
apenas, quando a intervenção de ambos for julgada contrária aos interesses do
menor (n.º 2 do artigo 1906. do CC.).
Se a filiação se encontrar estabelecida relativamente a ambos os progenitores e estes
viverem em situação análoga à dos cônjuges, a representação legal do menor efetua-se
também por intermédio dos pais, enquanto a união se mantiver (n.º 1 do artigo 1911º do
CC). É a consequência que resulta do exercício das responsabilidades parentais, na
situação em apreço, ter lugar dentro de quadro idêntico ao que está previsto para a
constância do matrimónio (artigos 1901.º, n.º 1, e 1911.º, n.º 1, do CC). Esta equiparação
continua a ser a regra no caso da cessação da convivência entre os progenitores, uma
vez que se aplica também aqui o regime de exercício das responsabilidades parentais
previsto para os casos de divórcio, separação judicial de pessoas e bens, declaração
de nulidade ou anulação do casamento (n.º 2 do artigo 1911º do CC).
O suprimento da incapacidade judiciária dos menores implica a presença de ambos os
progenitores no processo - não como partes, porque o menor tem personalidade
judiciária, mas no desempenho da função de representantes da parte desprovida de
capacidade judiciária, em virtude de o exercício das responsabilidades parentais, na
constância do matrimónio, competir conjuntamente aos pais do menor (n.º 1 do
artigo 1901.º do CC). Resulta do que antecede que, via de regra, os menores são
representados por duas pessoas que têm de agir de comum acordo, na medida em que a
defesa dos interesses do incapaz assenta na definição de uma linha de orientação única
quanto aos objetivos a prosseguir no processo.
A necessidade de se providenciar no sentido do suprimento da incapacidade judiciária,
mediante a intervenção dos representantes legais, não se coloca unicamente no momento
da proposição da ação. Na verdade, a questão da representação em juízo pode
estender-se às decisões que venham a ser tomadas quanto a processos pendentes, em
que o menor não esteve inicialmente envolvido. A sua presença nesses processos
pode revelar-se útil para a defesa de interesses que lhe dizem respeito, cuja

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consideração levou a lei a atribuir-lhe legitimidade processual para assumir a


posição de parte na pendência da ação.
Ora, no incidente de intervenção de terceiros adequado à tutela daqueles seus direitos é
necessário assegurar a representação legal do requerente. Se não houver acordo dos
progenitores quanto a esta intervenção, «pode qualquer deles requerer a suspensão
da instância até à resolução do desacordo pelo tribunal da causa, que decidirá no
prazo de 30 dias» (n° 5 do artigo 18º).
A representação processual do menor por ambos os progenitores têm implicações que
importa destacar:

• Por um lado, se apenas um deles se apresenta isoladamente a propor a ação como


representante do filho menor existe irregularidade da representação. Não
aproveita ao progenitor que assim se comporta a presunção, estabelecida no n.º 1
do artigo 1902º do Código Civil, de que está a agir em concertação com o outro.
Na verdade, o preceito em causa deixa fora da sua previsão o exercício das
responsabilidades parentais que se traduz na representação dos filhos menores em
juízo. É que o artigo 16.º, n.º 2, «in fine, impõe expressamente o acordo de ambos
os pais para a proposição de ações, requisito que obsta a que se presuma a
existência de tal vontade comum, visto o referido n.º 1 do artigo 1902º afastar do
âmbito da presunção nele contida as hipóteses em que a lei exige de modo
expresso o consentimento de ambos os progenitores.
Não tem igualmente cabimento a aludida presunção quanto à restante atividade
processual que os progenitores podem ser chamados a realizar como representantes legais
do filho, pois não oferece dúvidas a conclusão de que se está diante de atos integrados no
exercício das responsabilidades parentais que assumem particular importância na gestão
dos interesses do menor, aspeto só por si suficiente para impedir que a presunção opere
(n.° 1 do artigo 1902º do CC). Aliás, o regime previsto no artigo 18º, para se
ultrapassarem diversas situações de desacordo entre os pais, permite concluir que a
função por eles desempenhada assenta na avaliação efetiva que ambos façam sobre
a melhor maneira de defenderem em juízo os interesses do filho.

• Por outro lado, ambos os pais devem ser citados quando lhes compete o exercício
das responsabilidades parentais, relativamente ao filho menor demandado logo no
início do processo (nº 3 do artigo 16º), ou quando seja desencadeada a sua
intervenção em causa pendente (cfr. n.° 5 do artigo 18º). Trata-se de
manifestações do sistema de representação dual instituído para o suprimento
da incapacidade judiciária do menor. A citação deve fazer- se individualmente
a cada um dos progenitores, não podendo considerar-se a incapacidade judiciária
devidamente suprida enquanto não se completarem as formalidades da chamada
ao processo de ambos os pais. Embora o n.º 2 do artigo 223.º comece por
enunciar a regra de que, nos casos em que a representação em juízo está
atribuída cumulativamente a várias pessoas, basta a citação de apenas uma
delas para assegurar a regularidade da representação, excecionam-se a atos

Ana Castro e Catarina Morais 107


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previstas nos n.º 2 e 3 do artigo 16.° Daí que, como se referiu, se exijam dois
procedimentos distintos de citação tendo como destinatários respetivamente
cada um dos progenitores do menor, quando o exercício das
responsabilidades parentais pertença a ambos os pais.
Perante a impossibilidade de se formar o acordo indispensável à representação do menor
pelos seus progenitores, tem de se provocar a intervenção do tribunal. Quando o
desacordo se referir à conveniência de intentar a ação, qualquer dos pais pode requerer
ao tribunal competente para a causa que resolva o conflito (n° 1 do artigo 18º). Se o
desacordo se manifestar no decurso do processo, deve qualquer dos pais, dentro do
prazo previsto para a realização do ato processual afetado pelo desacordo, requerer ao
juiz da causa que providencie no sentido de assegurar a representação do incapaz,
suspendendo-se, entretanto, a instância (n.º 2 do artigo 18º). O n° 2 do artigo 1901º, do
CC. determina que a intervenção do tribunal seja prioritariamente orientada no
sentido de se conseguir a conciliação dos pais sobre o exercício em concreto das
responsabilidades parentais no que respeita às questões de particular importância,
onde se inclui a tomada das decisões referentes à intervenção do menor em processos
judiciais.
Na hipótese de a tentativa de conciliação se revelar infrutífera, o n.º 3 do mencionado
preceito impõe que o tribunal, antes de decidir, ouça o filho, «salvo quando
circunstâncias ponderosas o desaconselhem».
Se a regra é a da representação em juízo por ambos os pais, existem, todavia, situações
em que os menores são regularmente representados tão-só por um deles.

• Hipótese de um dos progenitores haver falecido, caso em que o exercício das


responsabilidades parentais pertence ao sobrevivo (artigo 1904º do CC)
• A filiação se encontrar estabelecida unicamente quanto a um dos
progenitores (artigo 1910º do CC).
Trata-se de duas situações em que, pela própria força das circunstâncias, a representação
só pode ser cometida a um dos progenitores. Mas, ainda que ambos os pais estejam
determinados e com vida, a incapacidade judiciária do menor terá de ser suprida
mediante a intervenção de apenas um dos progenitores, quando o outro «não puder
exercer as responsabilidades parentais por ausência, incapacidade ou outro
impedimento decretado pelo tribunal» (artigo 1903º do CC).
A representação singular também pode ser imposta pelo tribunal, quando for
considerado contrário aos interesses do filho o exercício em comum das
responsabilidades parentais, estando os pais divorciados, separados judicialmente
de pessoas e bens, ou tendo sido o casamento declarado nulo ou anulado (nº2 do artigo
1906.º do CC).
A intervenção em juízo dos representantes legais - e também do curador (artigo 139.º ex
vi do artigo 156. °, ambos do CC) – encontra-se, por vezes, dependente de autorização
quando está em causa a proposição de determinadas ações, cujo resultado

Ana Castro e Catarina Morais 108


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desfavorável ao incapaz pode trazer-lhe prejuízos consideráveis. Assim, para que a


incapacidade judiciária esteja devidamente suprida, nos casos de tutela, administração de
bens, curatela e apadrinhamento civil, o representante legal deve atuar ao abrigo da
correspondente autorização judicial, sempre que necessite de propor ações no
âmbito dos interesses que lhe incumbe defender. Excecionam-se deste requisito,
indispensável à integração da legitimatio ad processum, tão-só:

• Ações destinadas à cobrança de prestações periódicas e aquelas cuja demora


possa causar prejuízo (alínea e) do n.º 1 do artigo 1938º do CC).
Por sua vez, a decisão do tribunal a quem a autorização seja solicitada tem de ser
antecedida de consulta ao conselho de família (n° 2 do artigo 1938º do CC).
Quando pertença aos progenitores do incapaz o exercício da sua representação em juízo,
compreende-se que disponham de uma margem mais larga de intervenção, com base
na regra da experiência que mostra haver maior cuidado da sua parte no modo como
acautelam os interesses dos filhos. Não obstante, o artigo 1889° do CC identifica um
conjunto de situações em que a representação legal através dos pais, quanto aos atos ali
especificados, depende da autorização prévia do tribunal.

• Ações de que possa resultar a perda ou oneração de bens do incapaz, por


aplicação do critério, acima indicado, que torna a aferição do pressuposto da
capacidade judiciária dependente da consideração, ainda que hipotética, do
resultado desfavorável da ação sobre os bens do filho (alínea a) do n.º 1 do artigo
1889.º do CC).
• Ações em que os pais requeiram «a divisão de coisa comum ou a liquidação e
partilha de patrimónios sociais» (alínea n) do n.º 1 do artigo 1889º do CC).
• Quando se trata de «negociar transação» ou «comprometer-se em árbitros»,
sempre que estejam em jogo quaisquer dos direitos do menor que não podem
dispor, nem onerar, sem autorização judicial (alínea o) do n.º 1 do mencionado
artigo 1889.").
Se, na altura da proposição da ação ou da chamada do réu ao processo, não houver quem
desempenhe as funções de representante legal ou de curador do incapaz, importa dar
resposta à necessidade de se suprir a incapacidade judiciária.

• Prevê-se que a nomeação da pessoa que vai representar o incapaz ou assisti-lo em


juízo seja requerida ao tribunal competente (n.º 1 do artigo 17.º), cabendo a
iniciativa das diligências necessárias às pessoas indicadas no n.º 4 do artigo 17.º
Em caso de urgência, por o desenvolvimento do processo não poder aguardar os termos
normais para a indicação do representante ou do curador, pode ser requerida a
«imediata designação de um curador provisório pelo juiz da causa» (nº 1 do artigo
17º). Trata-se de uma representação de emergência, encontrada para se acorrer a uma
situação em que o processo não podia funcionar, e que se mantém apenas durante o espaço
de tempo imprescindível para o tribunal competente designar quem assegura a
representação do incapaz. Durante a sua intervenção em juízo, o curador provisório pode

Ana Castro e Catarina Morais 109


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praticar os mesmos atos que competiriam ao representante geral, cessando as suas funções
logo que o representante nomeado ocupe o lugar dele no processo (n.° 2 do artigo 17.").
Distinguem-se deste curador provisório as situações em que está prevista a
intervenção de um curador especial ou ad litem.
A designação de curador, tanto provisório, como especial, faz-se em incidente da
instância. Sem prejuízo de a nomeação incidental poder ser promovida sempre pelo
Ministério Público, qualquer parente sucessível tem legitimidade para a requerer, se a
incapacidade se verificar do lado do autor, se o suprimento da incapacidade respeitar ao
réu, o requerimento pode ser apresentado pelo autor (n° 4 do artigo 17.º). Quando o
Ministério Público não tiver requerido a nomeação, deve ser sempre ouvido antes de o
tribunal se pronunciar (n° 5 do artigo 17.º).

Efeitos da incapacidade (não suprida) e da irregularidade da


representação das partes.
Quando a incapacidade judiciária não seja sanada, permanece no processo uma exceção
dilatória (artigo 278.º, n.º 3, 1º parte) que, em regra, provoca a absolvição da instância,
abstendo-se o tribunal de emitir decisão sobre o mérito da causa (artigos 278.º, n.º 1,
alínea c), 576.º, n.º 2, e 577º, alínea c)).
A incapacidade judiciária manifesta-se quando, por exemplo, o menor aparece
diretamente a propor a ação, sem o fazer por intermédio dos progenitores incumbidos do
exercício das responsabilidades parentais, ou apenas está representado por um deles, que
não obteve previamente o acordo do outro (n.º 2 do artigo 16°), nem pediu ao tribunal
que resolvesse o desacordo acerca da conveniência de intentar a ação, conforme
determina o n.º 1 do artigo 18.
Do mesmo modo, haverá incapacidade judiciária, quando seja demandada uma pessoa
sujeita a interdição, sem ser chamado ao processo o tutor a quem compete a respetiva
representação legal, como existirá irregularidade da representação, se tiver sido citado
para exercer essas funções um tutor já anteriormente removido do seu cargo.
Perante uma petição inicial reveladora da falta manifesta de capacidade judiciária, ou de
que a representação do incapaz não está assegurada nos termos que a lei prevê (artigos
27.º, n.º 1, e 278.º, n.º 1, alínea c), «in fine», e nº3, 1.ª parte), o tribunal, quando exista
despacho liminar (n.º 1 do artigo 590º), deve pôr fim ao processo com o despacho de
indeferimento.
A presença da exceção dilatória, detetada pelo juiz em fase anterior à citação do réu -
portanto, sem estar concluída a formação da instância (n.º 2 do artigo 259. °) -, impõe
que o encerramento do processo se concretize, logo neste momento inicial, através
de uma decisão que reconhece a sua inadmissibilidade.
Excetuadas as situações, como as acabadas de referir, em que subsiste a possibilidade de
controlar «in limine» a petição inicial, o juiz só depois de findos os articulados, está em
condições de se aperceber, tanto da incapacidade judiciária, como da irregularidade

Ana Castro e Catarina Morais 110


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da representação do incapaz ou, ainda, da falta de autorização ou de deliberação


que o representante devesse obter previamente. Quando se deparam ao julgador tais
deficiências, deve ser proferido despacho, depois de finda a apresentação dos
articulados, mas antes da convocação da audiência prévia - o despacho pré-saneador
do n.º 2 do artigo 590º-, em que se suspende o andamento do processo, pelo tempo
que o juiz determinar, e se convidam as partes a praticar os atos necessários à
regularização da instância, sempre que seja esse o mecanismo previsto para a
sanação (artigos 6.º, n.º 2, e 590.º, n.º 2, alínea a)).
Nos casos da incapacidade judiciária e da irregularidade da representação, a lei vai ainda
mais longe na procura da sanação efetiva do pressuposto em falta. Aqui o legislador não
se basta com a atuação do juiz no sentido de suspender a instância, deixando ao critério
das partes a sanação da falta dentro do prazo que fixar para o efeito, mas impõe-lhe
que assuma, ele próprio, a iniciativa de ordenar à secretaria a prática dos atos
destinados à regularização da instância. Em especial, «incumbe ao juiz ordenar a
citação do réu em quem o deva representar», o que supõe que se faça, quando
necessário, a recolha dos elementos relevantes para a correta identificação da pessoa
do representante.
Se a falta ou a irregularidade disserem respeito ao autor, o juiz determina «a notificação
de quem o deva representar na causa para, no prazo fixado, ratificar, querendo, no
todo ou em parte, o processado anterior, suspendendo-se, entretanto, a instância»
(n° 2 do artigo 28º). Está-se na presença de uma modalidade de sanação por ordem direta
do juiz e sob a sua supervisão, que contrasta com o regime geral da sanação da falta
de pressupostos processuais assente no convite ao aperfeiçoamento dirigido às
partes.
Semelhante imposição acaba por significar que, na prática, o juiz deve ordenar a citação
ou a notificação, a que se refere o n° 2 do artigo 28°, no mencionado despacho pré-
saneador, quando sejam estas as vias adequadas para o suprimento das exceções
dilatórias em análise, ao mesmo tempo que fixa prazo para que se verifique «a
intervenção ou citação do representante legítimo ou do curador do incapaz (artigos
27.º, n.º 1, e 28.º, n.º 1). Em tais hipóteses, o despacho do n° 1 do artigo 590° desempenha
a função, apesar do nome agora recebido, que corresponde a um despacho ordinatório da
citação ou da notificação. Assim não será, todavia, se a finalidade do despacho for
unicamente designar o prazo dentro do qual o representante deve obter a respetiva
autorização ou deliberação, suspendendo-se, entretanto, a instância (nº1 do artigo
29°).
Chegada a tramitação à fase em que deve ser proferida a sentença final, e revelando-se,
nesta altura, a presença de una exceção dilatória anteriormente não detetada, deixa de
existir espaço processual para se desencadear o mecanismo destinado à respetiva
sanação. Resta o caminho da absolvição de réu da instância, dada a impossibilidade
de o tribunal se pronunciar sobre o mérito da causa. O juiz, na decisão final, antes de
se debruçar sobre as questões de fundo, deve submeter a uma nova análise os aspetos
que condicionam a admissibilidade do conhecimento do pedido, desde que sobre eles

Ana Castro e Catarina Morais 111


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

não existam já decisões atingidas pelo efeito do caso julgado formal (artigo 620º). O
princípio da separação entre os temas pertencentes ao núcleo da aludida admissibilidade
e os que integram o julgamento da pretensão deduzida em juízo percorre todo o processo,
em termos tais que o n.º 1 do artigo 660° impede o tribunal de se pronunciar sobre o
mérito da ação, ainda que, porventura, disponha de todos os elementos para proferir
uma decisão conscienciosa nesse domínio, dando a primazia à absolvição da
instância, com ressalva da situação prevista no artigo 278º, nº3, 2º parte.
A incapacidade judiciária é uma das hipóteses em que pode não haver lugar à absolvição
da instância, mas antes à tomada de uma decisão de mérito quando seja integralmente
favorável a essa parte - 278.º/3 CPC 2ª parte. Se o juiz deteta quando vai proferir
sentença, que uma parte não está devidamente representada deve providenciar a
devida representação através do chamamento da parte certa, mas pode valer a regra
do 278.º/3 CPC 2ª parte.

Termos em que se processa a sanação da falta deste pressuposto


processual
Como se acentuou, cabe ao próprio julgador tomar a iniciativa de averiguar quem
deve assegurar a representação do réu, a fim de ordenar a citação desse
representante, do mesmo modo que tem de apurar qual a pessoa a quem incumbe a
representação do autor na causa, com vista a promover a sua notificação (n° 2 do
artigo 28º). Esta notificação ao representante da parte ativa obedece às formalidades
próprias da citação pessoal, pois trata-se de chamar a juízo, pela primeira vez, quem vai
atuar no processo em substituição do autor atingido pela incapacidade (artigos 219.º, n.º
1, 2º parte, e 250 °), embora este continue a ocupar a posição de parte principal na
instância.
Se o representante legal não se muniu previamente da autorização ou deliberação de que
carecia para intervir em substituição do incapaz, o tribunal deve ordenar a suspensão
da instância, a fim de que o vício seja sanado (n° 1 do artigo 29º). Referindo-se
especificamente à hipótese de o tutor ter proposto, como representante do pupilo, mas
sem dispor da autorização exigida por lei, alguma ação que não tenha por fim a
cobrança de prestações periódicas ou que não seja de carácter urgente (alínea e) do n.º 1
do artigo 1938.º do CC), o n.º 3 do artigo 1940. do CC determina que se efetue a
citação do réu, após o que o tribunal deve ordenar «ex officio» a suspensão da
instância, até que seja concedida a autorização necessária, para que o autor fique
regularmente representado em juízo.
Se competir ao representante do autor a realização das diligências que conduzem à
obtenção de autorização ou à tomada da deliberação sem a qual não pode atuar no
processo para exercer a representação legal ou orgânica, a falta de sanação do vício
dentro do prazo concedido acarreta a absolvição da instância – 29.º.
Quando a atividade destinada a corrigir o requisito em falta recaia sobre o representante
do réu, o não preenchimento de tal ónus leva a que a ação retome a sua marcha como

Ana Castro e Catarina Morais 112


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se não existisse oposição (n.º 2 do artigo 29º). Numa situação destas seria
despropositada a absolvição da instância, pois a inércia do representante do réu em
promover a sanação acabava por redundar em prejuízo do autor que, na realidade, estaria
impossibilitado de conseguir resposta do tribunal para o pedido que formulou.
Daí que a alínea d) do artigo 577° unicamente qualifique como exceção dilatória «a falta
de autorização ou deliberação que o autor devesse obter». Quer dizer, não haverá
absolvição da instância, apesar de persistir a falta do pressuposto processual em
causa, sempre que a sanação deva ser impulsionada pelo lado do réu. De facto, a
ausência da cooperação pedida a quem representa o réu conduzia à sistemática
inadmissibilidade da ação, bloqueando-se o acesso do autor a uma decisão de mérito, se
aqui fosse seguido o critério de ligar em termos absolutos a absolvição da instância a toda
e qualquer exceção dilatória não sanada. O afastamento da absolvição da instância
decorre da aludida necessidade de assegurar o funcionamento do processo, embora
com o preço de, em última análise, se submeter o réu ao tratamento reservado a
quem não contestou.

Exigência da ratificação do processado como momento integrador da


sanação.
Regimes aplicáveis no caso de recusa da ratificação
O suprimento da incapacidade judiciária e da irregularidade da representação não se
basta com a entrada no processo do representante do incapaz, havendo que cuidar
do destino reservado à atividade desenvolvida em juízo enquanto a instância
decorreu com a falta daqueles pressupostos processuais. Surge, neste quadro, a
necessidade de o representante legítimo ou o curador do incapaz tomarem posição
sobre o que foi feito anteriormente no processo.

• Se ratificarem os atos praticados antes da sua intervenção, «o processo segue


como se o vício não existisse»;
• Caso a ratificação seja recusada, «fica sem efeito todo o processado posterior
ao momento em que a falta se deu ou a irregularidade foi cometida, correndo
novamente os prazos para a prática dos atos não ratificados, que podem ser
renovados» (n.º 2 do artigo 27.º).
Se a ação foi proposta sem estar assegurada a representação do incapaz e o seu
representante, uma vez presente no processo, se recusa a ratificar tudo o que foi feito na
sua ausência, incluindo a petição inicial, o resultado de tal atitude só pode consistir na
absolvição da instância. Trata-se do corolário natural da inutilização, por iniciativa de
quem representa o incapaz, do próprio ato serviu de base à proposição da ação. A
nulidade de todo o processo, provocada por esta intervenção radical do representante do
autor atingido pela incapacidade judiciária, está na origem da exceção dilatória a que
se refere a alínea b) do artigo 577.° e da consequente absolvição da instância.
Só que ao autor, que vê a instância extinguir-se por força do modo como opera o
mecanismo de sanação da incapacidade judiciária, não aproveita a renovação prevista

Ana Castro e Catarina Morais 113


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na parte final do n.º 2 do artigo 27.°, que se refere unicamente a atos integrados na
marcha do processo, logo posteriores à petição inicial. Na realidade, quanto a este
articulado, não faz sentido determinar que corra novamente o prazo destinado à sua
eventual renovação, pois extinguiu-se a instância que lhe servia de suporte. A solução
teve que ser encontrada através do ajustamento do instituto da renovação à situação
gerada pela extinção da instância, conferindo-se ao autor uma proteção específica
para salvaguarda dos efeitos civis da proposição da ação, de modo a continuar a
reconduzi-los à data da apresentação a juízo da petição inicial atingida pela
nulidade. Se o prazo de prescrição ou de caducidade houver terminado enquanto estava
pendente a ação em que se verificou a anulação da petição inicial, ou vier a consumar-se
nos dois meses imediatos à recusa de ratificação da petição apresentada (ou ao trânsito
em julgado da decisão que absolveu o réu da instância), mantêm-se, tanto o efeito
interruptivo da prescrição, como o efeito impeditivo da caducidade, se a nova ação
for proposta antes de findar aquele prazo (n. 4 do artigo 27º).
Quando a incapacidade judiciária ou a irregularidade da representação atingem o réu, e a
opção pela recusa da ratificação dos atos praticados implicar a inutilização da contestação
que se encontrava no processo, não existe a razão antes invocada para a extinção da
instância, na medida em que a petição inicial permanece nos autos, com a eficácia
que lhe é própria de ato que marca o início da constituição da relação processual.
Implicando a defesa dos interesses do réu incapaz, segundo a avaliação feita pelo seu
representante quando interveio no processo, a eliminação pura e simples do ato da
contestação, o n.º 2 do artigo 27º abre a possibilidade de se renovar por inteiro tudo o que
foi envolvido na recusa da ratificação.
Dispõe, por isso, o réu de um novo prazo para contestar através do seu representante legal
ou curador, seguindo-se os demais termos do processo sem perda das garantias
anteriormente asseguradas.
Semelhante solução obriga a que se acautelem os interesses do representado, a cuja
proteção se dirige, em primeira linha, o pressuposto processual em falta. Por isso,
importa proteger o incapaz da exposição aos efeitos processuais desfavoráveis resultantes
da conjugação, por um lado, de um regime que o mantém no processo como réu e, por
outro lado, do efeito perverso do comportamento negligente do representante que
começou por recusar a ratificação, mas depois não contestou dentro do prazo de que
dispunha. Nesta emergência, a tutela dos interesses do réu é assegurada através do
mecanismo geral previsto para a hipótese de o representante legal do incapaz não
deduzir oposição. Assim, logo que no processo se verifique o esgotamento do prazo
concedido, sem a sanação da falta que motivou a suspensão da instância, deverá ser citado
o Ministério Público, correndo novamente o prazo para a contestação (n.º 1 do artigo 21º).
Trata-se de uma intervenção acessória (artigo 325º), competindo ao Ministério
Público zelar pelos interesses que lhe estão confiados na veste de substituto
processual da parte assistida (artigo 329º). A intervenção mantém-se, enquanto o
representante legal do incapaz não comparecer ou se aguarda que consiga a

Ana Castro e Catarina Morais 114


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

autorização ou a deliberação que condiciona a sua atuação no processo (nº3 do artigo


21º).
Se a irregularidade se traduzir na intervenção de apenas um dos progenitores em
representação do menor, o outro é notificado para declarar se ratifica ou não os atos
praticados. A notificação dirigida ao representante preterido obedece às formalidades da
citação pessoal (artigo 250º), o que implica a advertência ao notificando de que a falta
de resposta dentro do prazo estabelecido pelo tribunal equivale à ratificação (nº3 do
artigo 27°).
Existindo desacordo dos pais sobre a atitude a tomar, podem ambos ou qualquer deles
requerer ao juiz da causa que providencie no sentido de atribuir a representação
unicamente a um dos progenitores, de designar curador especial ou de conferir a
representação ao Ministério Público (artigo 18.º, n.º 2 e 3, «ex vi» do artigo 27.º, n.º
3).

A Legitimidade Processual
A Legitimidade Processual Singular

Este PP diz respeito à correspondência que deve haver entre as partes na ação e as
partes na ação material controvertida, tal como alegada pelo autor, sendo que, o não
cumprimento deste pp dá origem a uma exceção dilatória 278º nº1 d), e 577º e).

Para que o tribunal entre na apreciação do mérito da causa exige-se, além da presença na
instância de partes dotadas de personalidade judiciária e de capacidade judiciária, que
ambas tenham legitimidade processual.

Diferentemente do que se passa com os dois pressupostos processuais antes analisados,


que correspondem a qualidades das partes determináveis em geral para todos os processos
independentemente do seu objeto, a legitimidade processual traduz uma ligação
específica, tanto do lado ativo, como do lado passivo, com a relação de direito
material em que o autor sustenta o pedido de tutela judicial. Aqui prevalece a
referência subjetiva a uma concreta situação jurídica sobre a qual o autor pretende
interferir recorrendo à via judicial, pelo que a admissibilidade da decisão sobre o mérito
exige a presença em juízo dos titulares das posições jurídicas que serão atingidas
com a pronúncia do tribunal sobre a questão de fundo.
Com o objetivo de se realçar a dependência do pressuposto processual da legitimidade
relativamente a cada ação em concreto, também é usual atribuir-lhe a designação de
«legitimatio ad causam».

O requisito em apreço destina-se tão-só a colocar na instância os sujeitos dentro de


cujas esferas importa assegurar que se produzam os resultados práticos da solução
jurídica dada ao litígio que o autor submeteu a julgamento. Como a eficácia do caso
julgado, que se gera sobre a resposta que o tribunal vai dar à questão de fundo, fica
circunscrita a quem ocupou a posição de parte processual (n.º 1 do artigo 581° em

Ana Castro e Catarina Morais 115


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

conjugação com o n.º 1 do artigo 619º), seria desprovida de utilidade a decisão


proferida no confronto de quem, tendo sido parte, todavia não era titular do direito
ou da obrigação correspondente.
Fala-se da legitimidade como uma posição perante uma determinada ação. Uma relação
entre a parte do processo e o seu objeto.

A finalidade de qualquer ação é resolver o litígio, e este resolve-se com o caso julgado
material, e este caso tem limites e por regra só ficam por ele vinculadas as partes da ação,
devendo estar na ação as partes da ação material em litígio, mas pode não haver
correspondência entre as partes da ação e as partes da ação material controvertida. Para
efeitos de aferição do pp da legitimidade, atende-se à configuração que é feita dessa
relação material pelo autor na petição inicial, configuração essa que pode estar
errada.

Distingue-se da legitimidade processual a legitimação, enquanto instituto que exprime


o poder de disposição que a lei substantiva integra na esfera jurídica dos titulares
de direitos, de maneira a permitir-lhes modelar os termos em que se desenvolve a
autonomia privada. Por via de regra, a legitimação está presente na legitimidade
processual, uma vez que o exercício em concreto do direito de ação é um dos modos por
que pode manifestar-se o domínio sobre o conteúdo das posições integradas na esfera
jurídica do respetivo titular. Este poder de autorregulação que o direito material confere
aos titulares de interesses juridicamente protegidos justifica, só por si, que seja entre eles
que devem produzir-se os efeitos das decisões judiciais proferidas sobre conflitos
respeitantes às concretas situações jurídicas que o tribunal foi chamado a apreciar.

Nada impede que a legitimação para a prática de atos jurídicos constitua, ela própria,
objeto de ações onde se aprecia se o exercício do poder de disposição com origem no
direito material obedeceu, ou não, ao que estava previsto na lei. Pode, assim,
acontecer que o demandado preencha o requisito da legitimidade processual, porque
aparece na instância como um dos sujeitos da relação material trazida a juízo, mas o
tribunal decida que não dispunha de legitimação para a prática do ato que o demandante
pretende atingir com a invocação da invalidade.

Tudo resulta da consideração dos planos distintos onde operam os institutos em causa:
• A legitimidade processual responde tão-só à questão da admissibilidade de o
processo decorrer entre aquelas partes que estão presentes na instância;

• Ao passo que a questão da validade ou invalidade do negócio jurídico se coloca


no plano da procedibilidade de pretensão do autor.

Ex: É o proprietário que tem legitimidade para praticar atos de disposição sobre os bens
de que é proprietário. Se alguém vender algo que não é seu, estamos perante uma venda
de bens alheios, que é nula.

Ana Castro e Catarina Morais 116


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Na verdade, estando ausentes da instância os sujeitos da relação controvertida, eles


podiam discutir em nova ação as questões anteriormente decididas em face de quem não
dispunha de legitimidade para assegurar o contraditório, uma vez que o caso julgado
material não os atingia.

A matéria da legitimidade singular está regulada no art 30.º do CPC, legitimidade esta
para ser parte numa determinada ação principal.

Conhecida a ratio subjacente ao pressuposto da legitimidade processual importa encontrar


o critério prático que permite aferir, perante cada ação concreta, quais são as pessoas que
devem ocupar o lado ativo e o lado passivo da instância, para que o processo seja
conduzido em termos de o resultado final da questão de fundo independentemente do
sentido que assuma - vincular as partes corretas.

Ao definir a legitimidade processual, o legislador começa por utilizar o critério da ligação


das partes a um determinado «interesse direto». Esse vínculo é que justifica a atribuição
ao autor do poder de dirigir o pedido de tutela de um direito de que se afirma titular
contra o demandado, em cuja esfera jurídica pretende ver reconhecidos ou produzidos
os efeitos correspondentes ao exercício daquele direito. No polo oposto, a legitimidade
do demandado coincide com o interesse direto em contradizer o resultado prático-
jurídico que o autor procura alcançar com a procedência da ação (n.º 1 do artigo
30º).

O conceito de interesse é um dos conceitos mais polissémicos do discurso jurídico, e por


isso, o nº 2 e 3 complementam o nº1.

Através do n.º 2 do artigo 30º o legislador parece ter querido dar maior grau de precisão
ao conteúdo do interesse relevante para o estabelecimento da legitimidade processual,
quando acrescenta que a ligação do interesse do autor se exprime «pela utilidade derivada
da procedência da ação» e, do lado passivo, que o interesse que funciona como correlato
daquele é preenchido pela consideração do «prejuízo que dessa procedência advenha».

Na realidade, o n.º 2 do artigo 30° enuncia as notas que individualizam o interesse em


agir, pressuposto processual que, dentro dos padrões de rigor que devem pautar a técnica
legislativa, importa não confundir com a legitimidade processual. É que, no
mencionado nº2, o termo «interesse» aparece numa aceção e com intencionalidade
diversas das que subjazem ao número anterior. Agora, está em causa o sentido objetivo
do interesse que, na dogmática processual, exprime a necessidade de o autor utilizar a via
judicial para tutela dos seus direitos: o funcionamento dos tribunais só encontra
justificação perante situações da vida realmente carecidas dessa intervenção qualificada.
Do lado passivo, o conteúdo do interesse consiste em evitar que o tribunal julgue a ação
procedente, de modo que, o réu não fique sujeito ao prejuízo que resultaria de uma decisão
de mérito que lhe fosse desfavorável. Interesse este que dá corpo ao ónus de o
demandado pôr em causa os fundamentos da pretensão contra si dirigida, servindo-

Ana Castro e Catarina Morais 117


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

se dos instrumentos processuais que a lei disponibiliza para esse efeito. O que se diz
no n.º 2 do artigo 30º está situado fora do campo da legitimidade processual.

O nº3, refere o chamado interesse relevante, sendo um interesse-titularidade e afere-se


pela titularidade da relação material controvertida.

Vigora aqui a regra da titularidade, ou seja, o interesse relevante afere-se pela


titularidade da relação material controvertida. Resulta daqui a natureza supletiva
desta regra, sendo que esta aplica-se na falta de indicação de lei em contrário. Esta
titularidade afere-se do modo como o autor refere a relação material controvertida na
petição inicial.

A concretização prática do pressuposto da legitimidade processual serve-se igualmente


da noção de interesse, mas entendida em sentido subjetivo, ou seja, como síntese, ao
mesmo tempo, da ligação que deve existir entre quem se apresenta como autor e o
lado ativo da relação jurídica que integra o objeto do processo e, no polo oposto, da
ligação entre o lado passivo daquela relação e o demandado. Quer dizer, o interesse
que importa considerar na aferição da legitimidade processual limita-se a traduzir a
mencionada ligação subjetiva que está na base da titularidade, tanto ativa como passiva,
sem perder de vista que esse posicionamento se afere, por via de regra, numa fase em
que o tribunal não conhece o resultado da prova a produzir sobre os factos trazidos
aos autos pelas partes.
É neste contexto - de mera resposta a uma mera questão de admissibilidade do processo
- que se integra o n.º 3 do artigo 30º: «Na falta de indicação da lei em contrário, são
considerados titulares do interesse relevante para o efeito da legitimidade os sujeitos da
relação controvertida, tal como é configurada pelo autor»

A dificuldade em operar com o referido critério tomou particular relevo com o debate
doutrinal que se abriu a propósito de um caso discutido nos nossos tribunais, em que a
sociedade comercial autora alegou ter celebrado com o réu um contrato de compra e
venda de determinada quantidade de matéria-prima, que não fora cumprido
integralmente. Daqui decorria o pedido de condenação do demandado na entrega da
quantidade em falta ou, em alternativa, na indemnização dos prejuízos causados. Ao
contestar, o réu alegou que não assumiu pelo contrato a obrigação de fornecer a
mercadoria em causa, uma vez que se limitara a intervir como mero intermediário de uma
sociedade comercial espanhola, que era realmente a vendedora. Foi provada a alegação
do réu. Em consequência, punha-se a questão de saber se o tribunal devia absolver o
demandado da instância, por falta de legitimidade passiva; ou, ao contrário, devia ser
reconhecida a legitimidade do réu e proferida a sua absolvição do pedido, uma vez
que se provou que não tinha assumido qualquer obrigação perante o autor.

As reflexões que a doutrina dedicou às decisões divergentes dos tribunais que apreciaram
o caso estiveram na origem de prolongado debate, que se refletiu também no

Ana Castro e Catarina Morais 118


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estabelecimento de correntes jurisprudenciais que aderiam a uma ou outra daquelas linhas


de argumentação.

Havia quem entendesse que o funcionamento do critério de aferição da legitimidade


apenas tinha sentido útil se fosse dirigido às pessoas que, na realidade, ocupavam as
posições ativa e passiva na relação de direito substantivo que lhes dizia respeito, mas
sem que essa avaliação implicasse a entrada do tribunal no julgamento da questão de
fundo, porque, para formular semelhante juízo, se pressupunha que a relação litigiosa
existia (JOSÉ ALBERTO DOS REIS).

A outra orientação aceitava que a aferição da titularidade se baseasse tão-só na relação


controvertida tal como foi apresentada ao tribunal pelo autor, desde que a existência
dessa relação, assim configurada, pudesse em abstrato ser reconhecida pelo direito
(BARBOSA DE MAGALHÃES).

O legislador procurou ultrapassar a controvérsia, integrando no texto da lei as palavras


necessárias à consagração da última das referidas orientações, que vinha merecendo a
adesão da jurisprudência dominante. Era esse um dos objetivos do Decreto-Lei n.º 224/82,
de 8 de junho, diploma que, todavia, não chegou a entrar em vigor. Coube ao acima
mencionado Decreto-Lei n.º 180/96 introduzir a redação presente, que vigora desde o dia
1 de janeiro de 1997, e que transitou inalterada para o n.º 3 do artigo 30. do Código atual.

Esta última alteração, mais do que tomar partido numa querela de índole teórica, procurou
deixar claro que, para o juízo do tribunal sobre a mera admissibilidade do processo,
foi tida como suficiente a averiguação da titularidade da relação controvertida
perante o direito material aplicável, partindo tão-só da versão do litígio contida na
petição inicial. Dispensa-se o juiz de indagar, sempre que tal questão se levante, se os
titulares da relação litigiosa são efetivamente os apresentados pelo autor, quando esteja
em causa o apuramento da legitimidade singular. Dado que a questão não se situa no
plano da procedência ou improcedência do pedido, considerou-se que a solução melhor
adaptada à estrutura que o processo apresenta e à informação de que o julgador dispõe,
atendendo ao momento em que se controla a verificação dos pressupostos processuais,
era a de permitir responder ao problema da legitimidade sem que se impusesse
desenvolver uma indagação prévia, mediante a produção de prova, com o objetivo de se
apurar se as partes indicadas pelo autor coincidiam ou não com os sujeitos da relação
jurídica onde se enquadravam os factos controvertidos.

A fim de obviar ao inconveniente que pode resultar da perda da atividade processual já


realizada quando, mais tarde, se descobre com o avançar do processo que a pessoa
indicada como réu não é o efetivo titular passivo da relação litigiosa, ou quando
semelhante falta de correspondência se manifesta do lado ativo, foi criada uma figura de
pluralidade de partes destinada a funcionar a título meramente eventual ou subsidiário
(artigo 39º). Desde então, passou a existir a possibilidade de o autor, sempre que tenha
dúvida fundamentada sobre o titular passivo da relação litigiosa, dirigir o mesmo

Ana Castro e Catarina Morais 119


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

pedido, não só contra quem considera estar obrigado perante si, mas também, a
título subsidiário, contra outra pessoa que possa ocupar a posição de sujeito passivo
da pretensão.
Análoga possibilidade de presença no processo a título subsidiário, desde o seu início ou
por intervenção subsequente, encontra-se prevista para o lado ativo da instância, se o autor
dispuser de elementos que lhe permitam duvidar sobre se a legitimidade ativa lhe pertence
ou se encontra radicada noutra pessoa. Reunidos tais pressupostos, admite-se que apareça
na instância um autor de segunda linha a deduzir subsidiariamente o mesmo pedido contra
o réu.

Caso se demonstre, perante a prova produzida em juízo, que a titularidade não pertence
ao próprio autor ou à pessoa por ele indicada como réu, já se encontra no processo quem
se supunha poder vir a ocupar uma daquelas posições.

Resolvem-se desta forma, sem prejuízo para a economia processual, as situações em


que o autor manifesta dúvidas consistentes quanto à determinação da titularidade ativa ou
passiva, por se desconhecer na fase inicial do processo a configuração exata da
relação jurídica subjacente ao litígio.
A presença destas partes numa posição de reserva estratégica em relação às partes
para a afirmação de cuja legitimidade o autor se inclina até melhor prova, pode dar-se
logo na petição inicial ou provir de chamamento subsequente, como parte principal, do
presumível titular passivo, através do incidente previsto no n.º 2 do artigo 316°, que pode
ser requerido até ao termo da fase dos articulados (alínea b) do n.º 2 do artigo 318º).

Se o chamado para ocupar a posição passiva subsidiária não intervier no processo, a


sentença proferida sobre o mérito da causa constitui quanto a ele caso julgado, por
força do disposto no artigo 320º.

Definida nestes termos, a legitimidade processual aparece nitidamente demarcada das


condições da ação, enquanto requisitos, tanto de facto como de direito, indispensáveis
ao julgamento da questão de fundo em sentido favorável ao autor. Se faltar
legitimidade processual a alguma das partes, o tribunal fica impedido de se pronunciar
sobre o mérito da causa, quer dizer, não lhe é consentida a apreciação das condições da
ação. Havendo legitimidade processual, deve a ação ser julgada improcedente, no caso
de o tribunal concluir que não existem condições da ação, ou procedente, quando estejam
preenchidos os requisitos de fundo necessários ao reconhecimento da pretensão do autor.

Assim, aquilo que se pretende através deste pp, é que haja uma coincidência entre as
partes, porque o caso julgado só vai abranger as partes da ação, mas pode não haver
uma coincidência entre a legitimidade processual e a legitimidade material/ legitimação,
sendo que aqui IMPORTAM as regras de legitimação de direito material, não a efetiva
titulação.

Ana Castro e Catarina Morais 120


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Ex: A intenta ação contra B que tem por base um determinado contrato. O autor na petição
inicial alega que celebrou esse contrato com a ré B. A ré na contestação veio dizer que o
contrato foi celebrado entre A e C, e não A e B.

O autor configurou a relação material controvertida, dizendo que as parte no contrato são
A e B, mas a ré veio dizer que o que autor disse não era verdade porque o contrato foi
celebrado com outra pessoa, isso porque, B foi uma mera intermediária, entre A e C. O T
veio a aferir que a ré tinha razão, e na pendencia da ação mediante a prova produzida ao
T chegou à conclusão de que o contrato que servia de causa de pedir naquela ação não foi
celebrado com a ré, mas com uma terceira entidade, C. O que o T deve fazer? Deve
absolver a ré da instância ou do pedido? Se a ré carece de legitimidade processual deveria
ser absolvida da instância, mas se entendermos que a ré tem legitimidade processual, mas
não material porque não é parte no contrato, o T devia entrar no mérito da causa e absolver
a ré do pedido e não da instância.

Qual a posição do legislador? Para efeitos de aferição do pp da legitimidade, atende-


se à configuração que o autor faz na petição inicial, e assim B tem legitimidade
processual apesar de não ter legitimidade material. O que o T deve fazer é entrar no
mérito da causa e absolver a ré do pedido.

Critério de aferição da titularidade da relação controvertida.

Atribuição de legitimidade processual a não titulares dessa relação:

Legitimidade extraordinária; Substituição processual; Ação direta.

Está fora de dúvida que o legislador quis deliberadamente separar a legitimidade material
da legitimidade que funciona como mero requisito de admissibilidade do processo, pois
enquadrou a falta desta última entre as exceções dilatórias que, na sistematização legal,
exprimem a ausência de pressupostos processuais (artigos 278.º, n.º 1, alínea d), e 577.º,
alínea e)).
A legitimidade respeitante à ação judicial assenta, por conseguinte, numa titularidade
com função processual que não tem que coincidir forçosamente com a legitimidade
substantiva (legitimação), porque se limita a fornecer o critério que o julgador utiliza
para determinar quem deve estar no processo a ocupar as posições, ativa ou passiva, na
relação material controvertida, enquanto essa presença funciona como um dos requisitos
que lhe permite entrar no exame do fundo da causa. Por conseguinte, o preenchimento
de tais posições vai ser apreciado atendendo à versão que, no começo do processo, o
autor apresenta ao tribunal e à contraparte como correspondente aos lugares que os
litigantes ocupam na relação jurídica «sub iudice», desde que o direito admita a
possibilidade de o relacionamento entre as partes assumir a configuração que lhe foi dada
na petição inicial.

Ana Castro e Catarina Morais 121


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Este juízo sobre a legitimidade faz-se sem necessidade do apuramento prévio dos factos
que estiveram na origem das situações jurídicas descritas na petição inicial e, portanto,
independentemente de se saber se o direito e a obrigação, tal como configurados pelo
autor, correspondem, ou não, à realidade.

A legitimidade processual não tem de apresentar-se como decorrência sistemática do


reconhecimento da titularidade do direito e da obrigação correspondente, visto que,
semelhante sobreposição de planos, quando aceita em termos absolutos, comprometia
a função atribuída pelo legislador aos pressupostos processuais, remetendo-se o que
pertence à questão de fundo para a área onde o tribunal é chamado a pronunciar-se sobre
meros requisitos de admissibilidade da ação.

A legitimidade não integra o objeto do processo, mas corresponde, como se salientou, a


uma posição das partes perante esse objeto tida como relevante para o tribunal
apreciar o mérito da causa. Se, por hipótese, o critério geral de aferição da legitimidade
processual operasse com base na existência da legitimidade material, isso acabava por
conduzir ao resultado de a decisão sobre o pressuposto processual em apreço ter de
aguardar a tomada de posição do tribunal sobre os aspetos do mérito da causa
referentes à titularidade (ativa e passiva) da relação material que integra o objeto
do processo. Todavia, semelhante modo de colocar a questão acabava por subverter o
quadro normativo em que o legislador integrou a legitimidade processual.

Além de que essa identificação se tornou dogmaticamente insustentável a partir do


momento em que se consolidou a noção de parte em sentido formal, como resultado do
abandono das conceções de raiz material do direito de ação e da necessidade de se
enquadrarem jurídico-processualmente as situações em que a autor litiga em nome
próprio sobre relação jurídica alheia. Com efeito, a legitimidade processual não é um
mero reflexo da titularidade, ativa e passiva, da relação jurídica tal como acaba por ficar
provada no processo, pois é manifesta a existência de legitimidade processual nas
ações que terminam com a improcedência do pedido fundada no reconhecimento de
que ao autor ou ao réu falta a legitimidade substantiva, porque a configuração dada
à relação controvertida, quanto aos respetivos titulares, não foi comprovada em
juízo. Só em caso de procedência da ação passa a existir fundamento material que permite
sustentar, sempre «a posteriori», a afirmação de que o processo decorreu entre partes que,
além da legitimidade processual, dispunham de legitimidade material, porque essa
decisão de mérito envolve o reconhecimento de que eram titulares da relação
jurídica que integrou o objeto do litígio.

No entanto, há casos em que o autor se apresenta manifestamente a litigar sobre relação


jurídica alheia, sem que exista ilegitimidade processual. Trata-se das hipóteses de
substituição processual ou de legitimidade extraordinária. Agora, a aferição da
titularidade necessária ao estabelecimento deste pressuposto obriga a determinar,
previamente ao conhecimento da questão de fundo, se estão preenchidos os requisitos que

Ana Castro e Catarina Morais 122


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

permitem ao autor pedir a tutela judicial para direitos integrados em relação jurídica a que
é estranho, ou cuja titularidade não lhe pertence por inteiro.
Foi precisamente para englobar estas hipóteses que a doutrina evoluiu para a noção de
parte em sentido formal, de modo a permitir que a legitimidade processual estivesse
também radicada em pessoa diferente do verdadeiro titular da relação controvertida.

A legitimação, com origem na lei substantiva, aparece aqui voltada para a criação de
poderes específicos de iniciativa processual que envolvem relações jurídicas alheias,
desde que o tribunal se assegure do preenchimento dos requisitos que legitimam a
presença na instância, a ocupar a posição de parte e a exercer os correspondentes poderes
processuais, de quem se propõe intervir, através do resultado do processo, sobre relações
jurídicas em que não participa.

• A impugnação pauliana 610.º e ss.

Assim, na impugnação pauliana o credor dispõe de legitimidade processual para conduzir


a ação referente a uma relação jurídica em que não está presente, pois o ato jurídico
impugnado vincula apenas o seu devedor e o terceiro para quem foi realizada a
transferência patrimonial. Quando da atuação do devedor resulta diminuição da
garantia do crédito, em termos que a lei substantiva considera relevantes para, em
concreto, ficar legitimada tal intervenção (artigos 610.° e ss. do Cód. CC), o credor
adquire o estatuto de parte legítima na ação destinada ao reconhecimento da
ineficácia do negócio jurídico concluído pelo seu devedor, impondo a procedência
desta questão prévia a decisão final de os bens transmitidos para o terceiro ficarem
sujeitos a responder, no seu património, pelo cumprimento das obrigações do alienante
(n.º 1 do artigo 616º do CC).

É necessário que o autor mostre a situação legitimante, a demonstração dos factos que
permitem ao autor provar esta situação.

• A sub-rogação do credor ao devedor 606.º/1 CC e ss.

Uma vez verificada a situação legitimante prevista na lei, o credor substitui-se ao devedor
no exercício contra terceiro dos direitos de conteúdo patrimonial que competem àquele e
que não foram exercidos pelo respetivo titular, onde se inclui a proposição das ações
necessárias à defesa judicial dos mesmos. Se, p. ex., o herdeiro tiver repudiado a herança,
os seus credores podem aceitá-la em nome dele, o que os legitima para a proposição das
ações necessárias ao exercício e à defesa de direitos integrados no património herdado
(n.º 1 do artigo 2067º do CC).

Permite abrir ao credor a possibilidade de exercer posições jurídicas do seu devedor em


caso de inércia deste último, ou seja, é um instituto que tem como propósito permitir
que alguém que não o titular exerça posições do titular do direito, sendo este um

Ana Castro e Catarina Morais 123


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

mecanismo evasivo, mas que se justifica uma vez que se revela necessário para a
satisfação do direito do credor.

Em caso de sub-rogação, nos termos do art. 606.º/1 CC e do art. 606.º/2 CC:


• é parte ativa na ação o credor;
• é parte passiva aquele contra quem é exercido o direito, no entanto, a lei prevê a
necessidade de citação do devedor, sendo necessário chamá-lo à ação - art. 608.º CC.
Uma vez verificada a situação legitimante, o credor substitui-se ao devedor, perante a
inércia deste, podendo exercer os direitos que não foram exercidos pelo respetivo titular,
onde se inclui a propositura de ações necessárias à defesa dos seus direitos.

• Contitularidade de posições jurídicas

Correspondem também a uma versão peculiar da legitimidade processual, que se limita a


refletir soluções adotadas no plano da legitimação substantiva, um conjunto de situações
em que é admissível a proposição de ações por quem só em parte é titular da relação
jurídica deduzida em juízo, deixando de fora os demais contitulares sem que exista
ilegitimidade ativa.
É o que se passa no caso de existir pluralidade de credores de prestação indivisível,
em que qualquer deles, desacompanhado dos demais credores, tem o direito de exigi-
la por inteiro (nº1 do artigo 538. do CC.)

Recorda-se o que dispõem o n.º 1 do artigo 538º, o n.º 1 do artigo 1286º, o n.º 2 do artigo
1405º e o n.º 1 do artigo 2078º do CC.

O fundamento da legitimidade extraordinária atribuída isoladamente ao contitular de uma


posição jurídica plural resulta da consideração de que não seria exigível que se
aguardasse o resultado das diligências destinadas a procurar o assentimento prévio
dos restantes contitulares, uma vez que daí podia advir o risco de se retardar, ou até
de se inviabilizar, a utilização de mecanismos de defesa dos direitos de todos os
interessados. Optou, assim, o legislador por estabelecer a legitimidade singular, embora
se discutam na ação posições jurídicas que envolvem uma pluralidade de interessados.

Todavia, deve ter-se presente que aquelas normas atribuem a legitimidade processual a
descoberto do poder de os contitulares legitimados disporem da totalidade dos direitos
que integram o objeto do processo. Limitação esta que vai refletir-se na eficácia do caso
julgado material, pois, se a ação improceder, os restantes contitulares ausentes da
instância não ficam vinculados à decisão desfavorável (caso julgado «secundum eventum
litis»), ou seja, a eficácia do caso julgado está dependente do resultado da lide. Se a ação
for julgada procedente o resultado da ação aproveita a todos.
Por sua vez, o demandado numa daquelas referidas situações de legitimidade
extraordinária, perante os termos em que opera o caso julgado, pode ficar exposto a mais

Ana Castro e Catarina Morais 124


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

do que uma ação com objeto idêntico à anterior, que improcedeu, desde que os
contitulares não vinculados tomem a iniciativa de recorrer a juízo através de ações
por si autonomamente propostas, e assim estamos perante uma posição bastante
desprotegida por parte do réu. Para se proteger, o réu pode provocar a intervenção,
como partes principais, dos contitulares do direito invocado pelo autor, de modo que
a decisão de mérito, favorável ou desfavorável, também os vincule (alínea b) do n.º 3
do artigo 316º).

• Situações de posse comum

Também o compossuidor goza de legitimidade para propor ações destinadas à defesa da


posse comum, sendo irrelevante a invocação de que não é o único a exercê-la sobre a
totalidade da coisa (n.º 1 do artigo 1286º do CC). Tratando se de ação de reivindicação,
qualquer dos comproprietários tem legitimidade para pedir a condenação do réu na
entrega da coisa na sua totalidade, sem que aproveite ao réu a defesa baseada no facto
de ela não pertencer por inteiro ao autor (n.º 2 do artigo 1405º do CC).

Noutros casos, a existência do poder de disposição na esfera do titular do direito não lhe
assegura, quanto a certas ações, legitimidade processual, sem a presença na instância
de titulares de posições jurídicas que serão atingidas pelo resultado do processo.

Pense-se no caso do comproprietário que pretende pôr fim à indivisão (nº1 do artigo 1412º
do CC), mas cuja quota se acha onerada com o usufruto constituído a favor de terceiro.

A ação de divisão da coisa comum (nº 1 do artigo 1413º, do CC. e artigos 925º e ss do
CPC) traduz uma das formas de qualquer dos comproprietários dispor de sua
posição jurídica, com vista a concretizar a respetiva quota. Contudo, o resultado
prático que a divisão projeta sobre o usufruto retira legitimidade ao comproprietário
para formular um pedido que se inscreve no exercício dos seus poderes de disposição,
sem que o usufrutuário ocupe a posição de parte nessa ação, porque, como se salientou,
a sua procedência pode implicar a modificação, ou até a extinção, do direito real que
onera a quota.
Dada esta interferência, os titulares da quota e do usufruto têm de estar presentes na ação
em que é pedido o fim da compropriedade.

• Herança

Ainda no caso da ação de petição da herança (artigos 2075° e ss. do CC), qualquer co-
herdeiro está legitimado para pedir isoladamente a condenação na entrega da totalidade
dos bens da herança em poder do demandado (n° 1 do artigo 2078º do CC).

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• Transmissão da coisa ou direito litigioso na pendência de um litígio 263º

Ainda no plano das situações de legitimidade extraordinária, merece referência a


substituição processual que se verifica nas hipóteses em que há transmissão «inter vivos»
da coisa ou do direito litigioso (artigo 263º).

A pendência da ação não constitui obstáculo à validade dos negócios jurídicos que
digam respeito a direitos controvertidos. Isto é, enquanto se aguarda que o tribunal
resolva em termos definitivos o conflito que lhe foi submetido, as posições jurídicas
das partes, apesar de afetadas pelo estado de incerteza que a pendência da ação acarreta,
não ficam colocadas à margem da disponibilidade dos respetivos titulares, que
continuam a poder envolvê-los em negócios jurídicos que decidam concluir com
terceiros.

Só que a manutenção desta liberdade de disposição tem reflexos sobre a legitimidade das
partes, na medida em que aquela circulação de direitos faz sair da esfera jurídica do
transmitente as situações substantivas em que se fundava a legitimidade processual,
ou modificam-nas, quando ao titular inicial se juntam novos contitulares do mesmo
direito ou dever.

Porém, existe o risco de essas mudanças subjetivas não traduzirem o aproveitamento de


oportunidades de negociação das posições das partes na relação controvertida, mas serem
utilizadas como expediente para embaraçar o andamento normal do processo, que
seria afetado com a abertura de sucessivos incidentes de habilitação dos adquirentes dos
bens ou dos cessionários de direitos transmitidos na pendência da ação.

Para a entrada desses novos titulares está previsto o incidente da habilitação, com as
especialidades do artigo 356°, que pode ser promovido pelo transmitente ou cedente, pelo
adquirente ou cessionário ou pela parte contrária (nº2 do artigo 356º). Enquanto a
substituição não for admitida, a parte inicial continua a ter legitimidade para a causa
(n.º 1 do artigo 263º), o que significa a permanência do poder de condução do processo
na parte que, entretanto, perdeu a titularidade da posição jurídica que assegurava o
preenchimento do pressuposto processual em causa.

A legitimidade extraordinária aqui prevista termina quando o adquirente ou


cessionário for admitido, através da referida habilitação, a substituir o alienante ou
transmitente. Se a parte contrária estiver de acordo - o que constitui dado adquirido,
se for ela a requerer a habilitação - o tribunal admite a entrada na instância do novo titular;
mas se houver impugnação, o tribunal deve recusar a substituição, quando «entenda que
a transmissão foi efetuada para tornar mais difícil, no processo, a posição da parte
contrária» (n.º 2 do artigo 263°).

Quer dizer, o processo pode continuar até final com a presença da parte que deixou de ser
titular da posição jurídica que serviu para lhe conferir a legitimidade processual e que,

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

não obstante, continua a conduzir o processo, agora sobre uma relação jurídica a que é
estranha perante o direito material. Resulta daqui a consequência de a sentença
produzir efeitos em relação ao adquirente, que não chegou a ocupar a posição de parte
principal, salvo se a ação atingida pela mudança estiver sujeita a registo e o adquirente
registar a transmissão antes de estar efetuado o registo da ação (n° 3 do artigo 263º).

Assim, enquanto a mudança subjetiva operada no plano material não obtiver tradução
a nível dos sujeitos da relação processual, falta legitimidade ao adquirente ou
cessionário para requerer a intervenção como parte principal, fora do quadro do
incidente da habilitação do artigo 356.º.
No entanto, parece que lhe deve ser reconhecida legitimidade para intervir como
assistente do substituto (artigos 326° e ss.).

Havendo substituição processual decorrente da lei, verifica-se litispendência se o


adquirente ou cessionário demandar a contraparte inicial noutra ação com o mesmo
pedido e causa de pedir, pois verifica-se também identidade entre os sujeitos presentes
naquelas ações.

A atribuição de legitimidade processual ao substituto, desligada do poder de disposição


material que permanece na esfera do substituído, não pode deixar de se refletir na
amplitude com que aquele intervém no processo, em particular quando se entra na zona
da resolução do litígio por via negocial. Assim, o substituto não tem poderes para
transigir, a menos que lhe sejam outorgados pelo substituído, pois o reconhecimento
da legitimidade processual, de que inegavelmente beneficia, está desacompanhado do
poder de dispor da relação jurídica que integra o objeto do processo. Se vier a ser
apresentada pelo substituto ao juiz uma transação que deixe de fora o titular da posição
jurídica adquirida ou cedida na pendência da ação, deve ser recusada a homologação, uma
vez que, atendendo à qualidade das pessoas que nela intervieram, falta ao substituto
processual a legitimação indispensável à conclusão válida daquele contrato (nº3 do
artigo 290º).

• Administração de patrimónios alheios


Há situações em que certos administradores de patrimónios alheios são, nos termos da
lei, admitidos a litigar pelo património alheio, por exemplo:
(i) Cabeça de casal – art. 2079.º CC e ss.: cabe ao cabeça de casal a
administração da herança até à sua liquidação e partilha. O art. 2080.º CC
regula a quem incumbe a tarefa de ser cabeça de casal;

(ii) Testamenteiro – art. 2320.º CC: pessoa que pode ser nomeada em
testamento e tem a função de vigiar o cumprimento do testamento e de o
executar. De entre as funções que o testador pode atribuir ao testamenteiro
(art. 2325.º CC) cumpre supletivamente ao testamenteiro, se for necessário,
em juízo, sustentar a validade das disposições testamentárias – art. 2326.º

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alínea b) CC. Ora, ao fazer isto intervém sobre posições jurídicas que fazem
parte de uma herança, e esta herança, uma vez aceite, atua sobre a esfera
jurídica dos herdeiros e não do testamenteiro;

(iii) Administrador de insolvência - na pendência de um processo de insolvência,


é ele quem tem legitimidade para dispor sobre as posições jurídicas que
integram a massa insolvente (parcela de bens do devedor que se encontra ao
serviço do processo insolvencial) e estar presente em juízo - CIRE.

• Situações de ação direta

A ressalva inicial do n° 3 do artigo 30° abrange igualmente as situações de ação direta,


porque a legitimidade é construída pela lei de maneira a desviá-la de quem seria
normalmente o titular passivo na relação controvertida, por razões ligadas à
necessidade de acautelar o resultado prático da procedência da ação.

Em matéria de seguro obrigatório da responsabilidade civil emergente de acidente de


viação, as ações destinadas a efetivar o direito à reparação dos prejuízos sofridos
pelo autor devem ser dirigidas contra a empresa seguradora, quando o pedido se
contiver dentro do capital mínimo obrigatoriamente seguro (alínea a) do n.º 1 do artigo
64º do Decreto-Lei n.º 291/2007, de 21 de agosto). Esse capital encontra-se fixado
presentemente em € 1 200 000 por acidente, quanto a danos corporais, a que acrescem €
600 000 também por acidente, se estiverem em causa danos materiais (nº 1 do artigo 12.º
do Decreto-Lei n.º 291/2007).

Procurou-se proteger a vítima do acidente de viação, conferindo-lhe o direito de acionar


diretamente quem não interveio no ato que desencadeou os prejuízos reclamados.
Trata-se de uma das hipóteses que cabem na previsão da parte inicial do nº 3 do artigo
30.º, que se excetua do critério geral definidor da legitimidade os casos em que a lei
determina que a ação seja diretamente conduzida por quem não é titular da relação
material controvertida à luz dos factos alegados como fundamento do pedido.

A legitimidade passiva pertence, na situação descrita, em exclusivo à sociedade


comercial com quem o causador do acidente celebrou o contrato de seguro
obrigatório da responsabilidade civil. Todavia, a demandada pode, se assim o entender,
promover a vinda ao processo do tomador do seguro (n° 2 do artigo 64º do Decreto-Lei
n.º 291/2007). A eventual presença do causador do acidente ao lado da empresa
seguradora não se destina a integrar uma situação de legitimidade plural passiva, mas a
acompanhar a ré na organização da defesa, assumindo a posição de auxiliar da parte
principal que desencadeou a intervenção (intervenção acessória provocada, com uma
configuração algo diversa da que está prevista nos artigos 326° e ss).

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Excecionalmente, permite-se que a ação seja dirigida, a título provisório, contra o


civilmente responsável, se o lesado, sem culpa da sua parte, não estiver em condições
de determinar a sociedade seguradora. Perante a impossibilidade de identificação da
parte passiva, o juiz deve ordenar oficiosamente a notificação do réu para, dentro do
prazo fixado, indicar a empresa de seguros do veículo que interveio no acidente ou
juntar documento comprovativo da existência do seguro (n° 3 do artigo 64º do
Decreto-Lei n.º 291/2007). Admite-se que o demandado se exonere do mencionado dever
de colaboração, se justificar que é outrem o possuidor ou detentor do veículo, caso em
que se faz a notificação da pessoa ou entidade indicada para prestar as informações
necessárias à vinda ao processo da parte legítima.
Se o valor do pedido exceder o montante do capital mínimo do seguro obrigatório, a ação
tem de ser proposta conjuntamente contra a empresa de seguros e o civilmente
responsável (alínea b) do nº 1 do artigo 64º). Agora verifica-se uma situação de
litisconsórcio necessário passivo, existindo ilegitimidade (plural) se a ação for dirigida
apenas contra a seguradora.

No domínio das ações de responsabilidade civil automóvel, ocorre outra situação de


litisconsórcio necessário passivo, quando o causador do acidente é conhecido, mas não
beneficia de seguro válido e eficaz, pois a ação de indemnização tem de ser proposta
conjuntamente contra o responsável civil e o Fundo de Garantia Automóvel (n. 1 do artigo
62.º do Decreto-Lei n.º 291/2007). Quando o responsável civil for desconhecido, a ação
é proposta diretamente contra o Fundo de Garantia Automóvel (n.º 2 do artigo 62.º do
Decreto-Lei n.º 291/2007).

Embora no artigo 30º se utilize a noção de interesse para caracterizar a legitimidade


processual, importa salientar as diferenças que intercedem entre este pressuposto e um
outro designado por interesse em agir ou interesse processual.

Com a exigência deste requisito, o legislador procura manter afastadas dos tribunais
ações em que não existe necessidade, objetiva e séria, para o pedido de tutela judicial
que o autor deduz em juízo. Se alguém se apresenta como titular de determinado direito,
sendo, portanto, indiscutível a sua legitimidade ativa, mas resulta dos autos que o
demandado não lesou qualquer direito do autor, nem se perspetiva objetivamente a
possibilidade de tal lesão se concretizar mais tarde, o processo apresenta-se como
inadmissível. A razão está na falta interesse em agir do autor, porque não se justifica o
empenho da atividade dos tribunais na resolução de controvérsias sem existência real,
meramente hipotéticas. Mas a falta deste interesse objetivo, não impede que se
reconheça a existência do interesse subjetivo do autor. Portanto, dá base para o
reconhecimento da legitimidade processual que lhe assiste, na medida em que é
indiscutível a sua intervenção como titular do direito cuja tutela judicial requereu.

Ana Castro e Catarina Morais 129


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

A legitimidade e os interesses difusos


Os interesses difusos dizem respeito a situações subjetivas de relação com bens
insuscetíveis de apropriação individualizada, ou seja, bens que pela sua própria natureza
são insuscetíveis de fruição exclusiva, de acordo com os parâmetros consentidos pela
autonomia privada, (ex: defesa do ambiente, património cultural, saúde, segurança, etc.)
Assim, as figuras clássicas do direito subjetivo e do interesse direto revelam-se
inadequadas para fornecer o quadro de compreensão do respetivo regime jurídico, pois a
existência de um número indeterminável de titulares retira ao interesse difuso a estrutura
que permite a sua defesa individual ou através de grupos sectoriais auto-organizados.
As decisões que tenham por objeto a defesa deste tipo de interesses não atingem a sua
finalidade se não vincularem o próprio grupo, enquanto entidade portadora das
situações jurídicas a tutelar.
A dimensão supra-individual dos bens jurídicos a proteger exige a criação de técnicas de
tutela desligadas da versão clássica de determinados institutos fundamentais do processo
civil, todo ele caracterizado por forte matriz individualista dirigida à defesa do direito
subjetivo lato sensu.
Como se tutelam estes interesses?

• Pode atribuir-se legitimidade processual a determinadas entidades (mediante


preenchimento de determinados requisitos legais) que incluem nos seus fins
estatutários a proteção, promoção e defesa deste tipo de interesses – ex: art. 31.º/1
Código dos Valores Mobiliários;
Esta solução utiliza o expediente de atribuir a determinadas formações sociais a função
de agregar todo o conjunto de situações subjetivas correspondente ao interesse difuso,
ultrapassando, deste modo, a indiferenciação dos seus titulares ativos e a
indisponibilidade singular do respetivo objeto.

• Ou pode atribuir-se a qualquer cidadão, no gozo dos seus direitos civis e políticos,
legitimidade para intentar ações com vista à tutela de interesses difusos - art. 31.º
CPC em conjugação com a lei 83/95, de 31 de agosto.
Nos termos do art. 14.º da lei 83/95, nos processos de ação popular, o autor representa,
por iniciativa própria, com dispensa de mandato ou de autorização expressa, todos os
demais titulares dos direitos ou interesses em causa - caso não tenham exercido o direito
de autoexclusão nos termos do art. 15.º do mesmo diploma.

Nota: A admissibilidade de semelhantes ações encontra-se subordinada à apreciação


liminar da sua viabilidade, devendo o juiz a quem a petição seja distribuída efetuar
oficiosamente as averiguações que considere justificadas para aferir das perspetivas de
procedência do pedido (artigo 13.º lei 83/95, de 31 de agosto).

Ana Castro e Catarina Morais 130


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Pluralidade de Partes e Incidentes de Intervenção


Caracterização de pluralidade subjetiva
A relação jurídica processual, por via de regra, tem duas partes materiais singulares, o
autor, que toma a iniciativa da proposição da ação (n.º 1 do artigo 259.º), e o réu, que é
chamado posteriormente a integrar a instância (n.º 2 do artigo 259º) para, querendo, trazer
ao conhecimento do tribunal as razões que afastam a pretensão contra si deduzida ou que,
pelo menos impedem que sobre ela recaia uma decisão de fundo.
Todavia, pode ser mais complexa, consoante o modo como o autor opte por exerce o
seu direito de ação e consoante o réu opte por exercer o seu direito de contestação -
liberdade de conformação subjetiva da instância.
O autor é livre de:

• Conformar o objeto do processo: cabendo-lhe deduzir o pedido e alegar os


factos que integram a causa de pedir – princípio do dispositivo;
• Conformar a instância no que diz respeito às suas partes subjetivas: esta
liberdade de conformação subjetiva da instância, está de tal forma reservada às
partes que, entre nós, nos casos em que a lei impõe a presença de mais que uma
pessoa (litisconsórcio necessário) e isso não se verifica, essa falta não pode ser
corrigida oficiosamente pelo tribunal, a regularização da instância, que pressupõe
a vinda de uma parte nova à ação (incidente da intervenção de terceiros), tem
que ser impulsionada pelas partes.
No que respeita à pluralidade de devedores, existem dois regimes:
(i) Conjunção (regra no Código Comercial) – por exemplo, se A, B e C são
devedores conjuntos, cada um deles responde por uma parte da dívida;

(ii) Solidariedade - por exemplo, o credor de uma obrigação solidária27 pode exigir
a prestação por inteiro a cada um dos devedores. Isto é, o autor pode optar por
intentar ação apenas contra um dos condevedores solidários (haverá um réu), ou
contra todos os condevedores (haverá dois ou mais réus).

Assim, nos termos do art. 317.º CPC, o réu que tenha sido demandado sozinho, pode,
através de um incidente de intervenção, chamar os outros condevedores solidários ao
processo - não é para eles serem condenados juntamente com ele, é sim para que os outros

27
o credor pode exigir o cumprimento da obrigação por inteiro a qualquer um dos condevedores
solidários - art. 519.º/1 CC (dever de prestação integral). Nas relações internas (entre os devedores
solidários), haverá direito de regresso sobre os demais, ou seja, do ponto de vista interno, cada
um dos condevedores responde por igual e por isso, aquele que pagar, terá um direito de regresso
sobre os outros.

Ana Castro e Catarina Morais 131


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

fiquem vinculados por o que se está a decidir na instância e sejam condenados em termos
de direito de regresso.
Esta liberdade de conformação subjetiva da instância está limitada por duas formas
diferentes:

• Em alguns casos, a lei impõe28 a pluralidade das partes (litisconsórcio necessário


ou coligação), e, portanto, as partes não são totalmente livres, impondo-se o
princípio de utilidade ao princípio da liberdade;
• Por outro lado, a lei também impõe limites quanto à complexificação subjetiva da
instância, nomeadamente, quando a coligação se revele um obstáculo à eficiência
processual.

As situações de pluralidade de partes podem agrupar-se em diferentes classificações,


atendendo a vários critérios:
1. Quanto ao polo da relação processual a que diz respeito a situação de pluralidade:
1.1. Ativa, quando esteja presente mais do que um autor;
1.2. Passiva, quando esteja presente mais do que um réu;
1.3. Mista, quando esteja presente mais do que um autor e mais do que um réu.

2. Quanto ao fundamento da situação de pluralidade:

2.1. A situação pode ter fonte voluntária: quando se constituí pelo mero exercício
do autor demandar vários réus. Se a situação de pluralidade é voluntária, ou seja,
se estamos perante um litisconsórcio ou coligação voluntária, a situação de
pluralidade em causa, não constituí um pressuposto processual, por exemplo,
existe um credor de uma obrigação solidária e 3 devedores solidários, o autor
intenta a ação contra um condevedor, mas também pode optar por intentar contra
A, B e C - neste caso, é um litisconsórcio voluntário passivo;

• Quando é da iniciativa do autor, a opção é exercida na petição inicial


consoante aqueles que se apresentem como autores ou consoante aqueles que
se designem como réus - art. 552.º/1/a CPC. Não obstante, a opção pode ser
exercida em momento superveniente, por via de dedução do incidente de
intervenção principal provocada - art. 316.º/2 CPC até ao termo da fase dos
articulados - art. 318.º/1/b CPC;
• Se é da iniciativa do réu, a opção pelo litisconsórcio é exercida na contestação
ou em requerimento apresentado no devido prazo - art. 316.º/3 e 318.º/1/c
CPC.

28
apesar da lei impor, isto não é automático - cabe às partes conformar a instância de acordo com
a lei, sob pena de se absolver o réu da instância, é um pressuposto processual que as partes não
podem contornar

Ana Castro e Catarina Morais 132


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

2.2. Ou pode ter fonte necessária: quando a concreta litigação sobre a relação
material controvertida exija a presença de várias partes. Quando a situação de
pluralidade de partes é necessária, a existência da situação de pluralidade
constitui um pressuposto processual (legitimidade plural). Se na instância não
tiver essa pluralidade de partes, a instância é inadmissível (exceção dilatória
sanável, mediante o ingresso na ação da parte que lá deveria estar)

3. Quanto ao momento em que a situação de pluralidade tem lugar:

3.1. Pode ser originária - na petição inicial apresentam-se vários autores ou a ação é
intentada contra vários réus;

3.2. Ou superveniente - a situação de pluralidade constitui-se no decurso da ação,


ora mediante chamamento das várias partes, através de incidente de intervenção
principal provocada, ou através do incidente de intervenção principal espontânea
- art. 338.º CPC.

4. Quanto à natureza:

4.1. Litisconsórcio;

4.2. Coligação.

Como vimos na classificação, pode acontecer que a formação da pluralidade se produz já


no decurso do processo, através da utilização dos incidentes da intervenção de
terceiros.

A vinda de novas partes pode resultar da opção do terceiro, que toma a iniciativa de se
juntar a alguma das partes primitivas de uma ação pendente, aproveitando a posição de
cotitular da relação jurídica em litígio.
A intervenção pode também assentar numa «provocatio» nascida do interior do processo,
quando o interveniente é chamado por iniciativa do autor ou do réu de uma ação pendente,
tanto com o objetivo de sanar a ilegitimidade resultante da falta de alguém no processo,
como para ocupar uma posição que se encontra em aberto, a fim de ficar vinculado à
decisão de mérito que vier a ser proferida (artigos 316.º e 338.º).

Nota: A sanação da ilegitimidade plural não conhece o litisconsórcio ou a coligação


judicial, isto é, o chamamento das partes por determinação ou iniciativa do juiz. O juiz
deve tomar a iniciativa de provocar a vinda ao processo do representante do incapaz, quer
ordenando a citação do réu em quem o deva representar, quer proferindo despacho a
determinar a notificação da pessoa incumbida de assegurar a representação do autor na
causa, sempre que se verifique incapacidade judiciária ou irregularidade da representação
da parte (n.º 2 do artigo 28.º). No domínio da sanação da ilegitimidade processual,

Ana Castro e Catarina Morais 133


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

todavia, não se atribui ao juiz, o poder-dever de ordenar o desencadeamento dos meios


processuais concretamente destinados a provocar a vinda aos autos de terceiros que
asseguram a legitimidade plural.

Litisconsórcio vs Coligação
A presença de várias pessoas a ocuparem em simultâneo a posição de partes na mesma
instância, tanto pode resultar de o processo dizer respeito a uma relação jurídico-material
única, mas com vários sujeitos, como provir da junção de diversas relações jurídico-
materiais que, apesar da autonomia que mantêm entre si, vão ser objeto de uma tramitação
comum a todas elas.

No primeiro caso, a pluralidade limita-se a refletir, ao nível da instância, a estrutura


subjetiva da relação material, dando origem à formação de situações de litisconsórcio.

Já no segundo caso, que provoca o aparecimento da figura da coligação, a presença de


várias partes é o resultado natural da agregação de relações jurídico-materiais distintas,
cada uma delas com os correspondentes sujeitos, para o efeito de se aproveitarem as
vantagens do tratamento processual unitário de litígios que envolvem os respetivos
titulares.

Para a distinção entre litisconsórcio e coligação usamos o critério da unidade ou


pluralidade de relações jurídicas materiais que hajam de ser apreciadas na ação,
assim:
De acordo com o texto da lei, o litisconsórcio é apresentado como uma hipótese em
que a relação material controvertida diz respeito a várias pessoas - art. 32.º/1 CPC.
É a tradução processual da existência de uma só relação jurídica material, mas que é uma
relação jurídica plural, com pluralidade de partes.
Pode ser um litisconsórcio necessário ou voluntário, consoante a sua observância seja
ou não necessária para o processo:
Se for necessário, a sua preterição gera uma exceção dilatória sanável pela preterição
de litisconsórcio necessário. A sanação deverá ser feita através de um ato praticado pelas
partes, não tendo o tribunal o poder de iniciativa quanto à sanação do pressuposto - o juiz
tem o poder-dever de providenciar pela sanação, mas não o pode fazer oficiosamente.
Quanto à coligação, esta é uma agregação processual (cumulação objetiva) de
relações materiais distintas, ou seja, são agregadas no mesmo processo relações
materiais distintas, que ao formar-se, traz para a instância os vários sujeitos das relações
jurídicas agrupadas num mesmo processo. Pode também ser necessária, não obstante a
lei estabelecer um conjunto de requisitos que limita a admissibilidade da coligação.

Ana Castro e Catarina Morais 134


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Na coligação está presente, enquanto elemento que a diferencia do litisconsórcio, a


pluralidade de relações jurídico-materiais integradas numa instância que vai ser tratada
como única para efeitos de tramitação processual.
Nota: A cumulação das ações dentro da estrutura do processo não implica a quebra da
respetiva individualidade, permitindo o tratamento diferenciado da posição das partes e a
obtenção de um resultado distinto para cada uma delas.
O que os distingue é o número de relações materiais - o litisconsórcio corresponde a
uma só relação material plural, a coligação traduz, processualmente, uma agregação
de relações materiais distintas.
O Sr. Professor Miguel Teixeira de Sousa adota um critério diferente para distinguir:
critério do pedido: existe litisconsórcio quando, para além de existir uma cumulação
subjetiva (mais do que uma parte), não há uma pluralidade de objetos processuais, ou
seja, vários autores deduzem um só pedido ou contra vários réus é deduzido um só pedido.
Mas também considera consubstanciado um caso de litisconsórcio quando para além da
cumulação subjetiva, existe uma cumulação objetiva: não só há várias partes, como há
vários pedidos, mas estes pedidos são formulados por todos os autores ou contra todos os
réus - não existe cumulação objetiva diferenciada.
Há coligação quando para além da pluralidade de partes, há vários pedidos
diferenciados, cada autor faz um pedido diferente e contra cada um dos réus é feito um
pedido diferente.
Assim, o litisconsórcio pode constituir-se entre titulares ativos ou passivos de várias
relações jurídicas, mesmo que estejamos perante relações materiais distintas, por
exemplo, numa relação de fiança, o pedido que é deduzido é o mesmo (litisconsórcio),
mas há duas relações materiais distintas.
A existência de vários titulares envolvidos na mesma relação jurídica não torna a
admissibilidade dos processos que lhes digam respeito dependente da intervenção de
todos eles:
«Se a relação material controvertida respeitar a várias pessoas, a ação respetiva pode
ser proposta por todos ou contra todos os interessados»
Conforme determina a 1.ª parte do n.º 1 do artigo 32.° trata-se do reconhecimento do
princípio da liberdade do exercício direito de ação que o legislador quis assegurar,
evitando que a proposição das ações fosse retardada ou o seu andamento prejudicado pela
falta de colaboração dos demais titulares.
No entanto, essa autonomia só consegue a aludida tradução processual se for determinável
a quota-parte do direito ou da responsabilidade de cada um dos sujeitos da relação jurídica
plural, o que pressupõe a divisibilidade, no plano normativo, das posições atribuídas
aos diferentes contitulares. Só o preenchimento de semelhante pressuposto dá
consistência à liberdade do autor requerer a tutela da correspondente posição jurídica,
sem sofrer os inconvenientes da atitude menos cooperante dos outros contitulares,

Ana Castro e Catarina Morais 135


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

enquanto lhe é consentido demandar unicamente o sujeito passivo perante o qual pretende
promover a tutela do seu direito
Assim, prevê-se na 2.º parte do n.º 1 do mesmo artigo 32.º que se a ação for proposta de
maneira a não envolver todos os interessados, nem os ausentes intervierem no seu
decurso o tribunal deva «conhecer apenas da respetiva quota-parte do interesse ou da
responsabilidade, ainda que o pedido abranja a totalidade».
A estas duas formas de pluralidade de partes, devem acrescentar-se outras duas que serão
estudadas no âmbito dos incidentes de intervenção de terceiro: oposição29 - art. 333.º
CPC e ss. e assistência30 - art. 326.º CPC e ss.

Litisconsórcio
A regra é que o litisconsórcio é voluntário, que acompanha a regra da divisibilidade
das relações jurídicas materiais. Quando temos uma relação material que é plural,
processualmente, isso resulta num litisconsórcio, ou seja, é uma relação material plural,
seja do lado ativo ou passivo.
Como já vimos, se o litisconsórcio for necessário, estamos perante um pressuposto
processual.

Litisconsórcio necessário
O litisconsórcio necessário trata-se de uma técnica processual que se destina a que a
decisão que venha a ser proferida no processo em causa, vincule em termos idênticos o
conjunto dos titulares de uma determinada relação jurídica material plural,
forçando-se a presença na ação de todas a pessoas que integram a relação jurídica material
e que se pretende que fiquem vinculadas pela autoridade do caso julgado. Trata-se de
situações litigiosas com pluralidade de interessados que se caracterizam por a respetiva
decisão dever assumir conteúdo uniforme quanto aos vários sujeitos nelas envolvidos,
sob pena de não se operarem, ou de não se produzirem em toda a sua plenitude, na ordem
jurídica os efeitos que o direito material estabelece. Através da presença obrigatória na
instância, consegue-se que os chamados a juízo, mesmo que se alheiem do
desenvolvimento do processo depois de concretizado o chamamento, sejam atingidos
pela eficácia do caso julgado material (artigos 581.º, n.º 2, e 619.º, n.º 1).
A relevância que apresenta o valor da uniformidade dos julgados sobre determinada
relação jurídica (ou conjunto de relações jurídicas conexas entre si) justifica a solução
legislativa no sentido de só se admitir que o processo funcione com a presença simultânea
em juízo de todos os titulares envolvidos. A falta de algum deles gera o aparecimento da
exceção dilatória resultante da preterição do litisconsórcio ou da coligação necessários.

29
na oposição é admitido, numa ação em curso, quem tenha uma posição conflituante quer com a
posição do autor, quer com a posição do réu (3º pólo processual), por exemplo, A intenta ação de
reivindicação de um determinado bem contra B, C entende que o bem em causa não é nem de A
nem de B, é seu - é um terceiro pólo.
30
na assistência, o assistente intervém como parte acessória de uma parte principal.

Ana Castro e Catarina Morais 136


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Pretende obter-se uma decisão de mérito uniforme para os diferentes titulares, sempre por
força dos efeitos do caso julgado - art. 619.º e 581.º CPC.
Deste modo evitam-se as divergências de sentido associadas a sucessivas decisões sobre
o fundo da causa, que seriam possíveis - dada a pluralidade de processos consentida pela
ausência da exceção do caso julgado (artigos 577.º, alínea i), e 580.° a 582.°), se o
legislador deixasse ao critério das partes o tempo da sua vinda a juízo para a apreciação
de questões que apresentam elementos comuns aos vários interessados.
A lei pretende que os sujeitos de determinada relação plural estejam todos eles na ação
para que fiquem todos eles vinculados, evitando que pudesse haver outras ações com
outros resultados, existindo uma incompatibilidade prática de casos julgados (porque é
uma relação indivisível, daí a necessidade de estarem na ação todos os sujeitos da relação
material).
Nota: Como já vimos, não é a única técnica processual que existe para garantir a unidade
do caso julgado: caso julgado secundum eventum litis, em que se distingue a decisão de
mérito em função do prejuízo ou do benefício que resulte para os não intervenientes,
estendendo apenas os efeitos favoráveis. Diferentemente do que aconteceria se a
legitimidade passiva estivesse enquadrada no litisconsórcio necessário, situação em que
o desfecho do litígio o atingia, ainda que lhe fosse desfavorável.

Por exemplo, nos termos do art. 635.º CC, no caso da fiança se a ação for movida apenas
contra o fiador e houver absolvição do pedido com base numa causa que diga respeito à
relação principal, esse caso julgado pode ser estendido ao devedor principal, na medida
em que lhe sejam benéficos.

Exemplo na ação de reivindicação proposta por algum ou alguns dos comproprietários


(n.º 2 do artigo 1405.º do CC.) - hipótese manifesta de litisconsórcio voluntário ativo o
caso julgado material favorável ao reivindicante aproveita aos demais titulares do direito
de fundo.

Aqui a autonomia da atuação de cada um dos sujeitos reunidos por força do litisconsórcio
desaparece em atenção à unidade e indivisibilidade «sub specie iuris» da relação material
que une as partes. É este o sentido que o artigo 35.º, 1.ª parte, procura expressar, quando
alude à existência de uma só ação como base do regime do litisconsórcio necessário.

Modalidades do Litisconsórcio Necessário:


1. Legal:

a. Por disposição expressa da lei: resulta de uma regra específica a necessidade de


litisconsórcio - 33.º/1 CPC.
i. Ações propostas por ou contra sujeitos que são casados - art. 34.º CPC: as
ações devem ser intentas por ambos os cônjuges e contra ambos os cônjuges;

Ana Castro e Catarina Morais 137


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ii. As ações emergentes de facto praticado por ambos os cônjuges ou apenas


por um deles, mas em que pretenda obter-se decisão capaz de ser executada
sobre bens comuns ou sobre bens próprios do outro cônjuge (artigo 34.º, n.º 3);

iii. Incidente de habilitação mortis causa - art. 351.º CPC: serve para substituir
a parte que tenha deixado de existir na pendência da ação (art. 262.º/a CPC) e
existe litisconsórcio necessário entre todos os sucessores da parte falecida;

iv. Consignação em depósito - art. 922.º/1 CPC: se o devedor pretender consignar


em depósito o objeto da prestação por incerteza quanto à pessoa do credor (art.
841.º/1/a CC) e se pretender consignar judicialmente (art. 916.º CPC e ss.): há
litisconsórcio necessário entre os dois possíveis credores;

v. Compropriedade - art. 925.º CPC: se um comproprietário quiser dividir a


coisa comum, devem ser chamados à ação os demais comproprietários (art.
1412.º/1 e 1413.º CC);

vi. Se o direito de preferência pertencer a vários titulares: o mesmo só pode ser


exercido em conjunto (art. 419.º/1 CC) – litisconsórcio necessário ativo. Vale
regime diferente na hipótese específica de compropriedade, em que qualquer um
dos comproprietários tem um direito de preferência (art. 1409.º/1 CPC);

vii. A prestação indivisível com pluralidade de devedores deve ser exigida a todos
os devedores (art. 535.º/1 CC), se for com pluralidade de credores, pode ser
exigida por qualquer um (art. 538.º CC);

viii. Sub-rogação do credor ao devedor (art. 606.º CC e ss.): o credor está a exercer
em nome do devedor uma posição jurídica deste perante a inércia do devedor,
mas o devedor vai ser chamado à demanda (art. 608.º CC).
Por exemplo no regime societário: o CSC prevê a seguinte possibilidade, para os
sócios de uma sociedade, dentro de determinados requisitos previstos na lei, num caso
de responsabilidade dos gerentes de uma sociedade comercial perante a própria
sociedade, se a sociedade não agir contra esses gerentes, podem os sócios agir contra
esses gerentes em substituição da sociedade comercial - legitimidade extraordinária –
o sujeito da relação controvertida é a sociedade comercial, é esta que tem direito de
pedir uma indemnização ao gerente por atos de má gestão. A lei prevê que a sociedade
deve ser citada para a instância (art. 77.º/4 CSC) – litisconsórcio atípico.
ix. Ação de investigação da maternidade: tratando-se de filho nascido ou
concebido na constância do matrimónio, deve ser intentada também contra o
marido e, se houver perfilhação, também contra o perfilhante (art. 1822.º/1 CC);

Ana Castro e Catarina Morais 138


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x. Ação de impugnação da paternidade: devem ser demandados a mãe, o filho e


o presumido pai quando figurem como autores (art. 1846.º/1 CC);

xi. Direitos relativos à herança, fora do caso da ação de petição/reivindicação da


herança (art. 2078.º/1 CC – legitimidade extraordinária), só podem ser exercidos
em conjunto por/contra todos os herdeiros (art. 2091.º CC) em litisconsórcio
necessário ativo ou passivo.

b. Critério geral subsidiário do art. 32.º/2 e 3 CPC: é necessária a presença da


pluralidade das partes para garantir o efeito útil31 normal da ação.
Este critério levante imensas dificuldades operativas, só nos casos de o único modo de
obter uma decisão com o mínimo de utilidade seja a presença da pluralidade de
partes é que essa presença é exigida e estamos perante um litisconsórcio necessário.
O que se pretende garantir com o litisconsórcio necessário é impedir a incompatibilidade
de casos julgados na prática. Por exemplo: quanto à servidão legal de passagem, numa
situação de um prédio encravado, ou seja, que não tem acesso à via pública, existe o
direito a constituir uma servidão legal de passagem - se o caminho mais curto implicava
passar por dois prédios rústicos e a ação foi intentada apenas contra o titulares de um dos
prédios, não é possível porque continuava sem acesso à via pública tendo de ser
demandados os dois - é um litisconsórcio natural, porque a sentença teria um resultado
juridicamente inútil, nunca conseguindo produzir o seu efeito útil normal porque não
ficava garantido o acesso à via pública.
Por exemplo, também numa ação de demarcação - art. 1353.º CC - se afetar a posição
jurídica de vários sujeitos, todos eles devem ser chamados à instância e por isso, estamos
perante um litisconsórcio natural. No entanto, há alguns casos duvidosos:

• Ação de preferência - deve ser necessariamente intentada contra o obrigado à


preferência e contra o terceiro adquirente? ou apenas contra o terceiro adquirente?
- devem estar na ação como réus tanto o terceiro adquirente como o obrigado à
preferência - litisconsórcio necessário passivo;

• Ação de impugnação pauliana - Do lado passivo, obriga ao litisconsórcio entre


o devedor alienante e o terceiro adquirente, de modo a proporcionar ao credor um
título executivo que lhe permita executar os bens transmitidos (artigos 616.º, n.º
1, do CC. e 821.º, n.º 2, do CPC.).

31
a efetiva e definitiva composição do litígio entre aquelas concretas partes na ação, sem a
necessidade de intervenção de quaisquer outros sujeitos, ou seja, o efeito pretendido com a
atribuição de determinada posição jurídica a alguém só pode ser alcançado na presença de uma
pluralidade de partes na instância - litisconsórcio natural.

Ana Castro e Catarina Morais 139


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

[Link]
As partes vincularam-se previamente a só exercerem em conjunto determinados
direitos, através de estipulações destinadas a conformar a legitimidade nas ações que
venham a ser intentadas.)
Este consiste num fenómeno da legitimidade processual plural, que acresce às situações
em que o legislador fez da presença de todos os contitulares da relação material
controvertida um pressuposto processual.
O litisconsórcio necessário pode resultar da convenção das partes, isto é, terá fonte
negocial, quando, através de negócio jurídico, se preveja que, em caso de litigância
sobre uma certa relação jurídica, deve intervir uma pluralidade de partes.
Por exemplo, se houve depósito de uma coisa feito por uma ou mais pessoas, tendo se
estipulado no contrato de depósito que a coisa só podia ser levantada por todos os
depositantes em conjunto - a ação de restituição da coisa depositada ao ser intentada
contra o depositário terá que ter todos os depositantes presentes, porque assim foi
estipulado no negócio jurídico, logo, é uma situação de litisconsórcio necessário ativo por
força do negócio jurídico celebrado.

Regime do Litisconsórcio Necessário


• Em matéria de citação, a falta de citação de um dos litisconsórcios necessários
passivos, obriga à anulação de todo o processado posterior à citação (salvando-se
unicamente a petição inicial e os atos que lhe estejam ligados), ainda que os outros
sujeitos que integram o lado passivo da instância tenham sido citados
regularmente - art. 219.º/1 CPC e art. 190.º/a CPC.

Dá origem a uma nulidade decorrente da falta de citação do réu e a lei estabelece os casos
em que se considera haver falta de citação.

A invalidação assume toda esta amplitude, para que os co-réus fiquem colocados em
situações idênticas, após sanada a falta da citação, ato que terá de ser praticado com vista
ao preenchimento do pressuposto da legitimidade plural.

• Em matéria de confissão32 só é atendível com a força probatória que o CC lhe


atribui (art. 358.º/1 CC - confissão judicial escrita ou reduzida a escrito tem força
probatória plena) se provier em simultâneo de todos os litisconsortes - 363.º 2ª
parte CC.

Entende-se que não pode ser valorada pelo julgador como confissão a atitude de um ou
de alguns deles reconhecerem a realidade de um facto que a todos prejudica.

32
confissão enquanto meio de prova, em que uma parte reconhece a realidade de um facto que lhe
é desfavorável ou nega a realidade de um facto que lhe é favorável.

Ana Castro e Catarina Morais 140


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Todavia, mesmo que não goze de valor confessório, pode ser livremente apreciada pelo
julgador - art. 361.º CC e art. 607.º/5 CPC.

Nota: Se a necessidade de litisconsórcio for detetada mais tarde no processo e essa falta
for sanável, se o novo interveniente negar aquilo que foi confessado ou impugnar um
facto que não tinha sido contraditado, torna-se necessária a produção de prova e estes
factos devem ser considerados controvertidos, e, por isso, devem ser submetidos a
instrução, e assim, a matéria em causa deverá ser reconduzida à categoria dos temas de
prova, com reformulação do despacho previsto no 596.º.

Nota: Se a intervenção do ou dos litisconsortes passivos que não estiveram presentes na


instância se consumar depois de encerrada a audiência final e tomarem as assinaladas
atitudes de recusa da confissão ou de impugnação, a anulação poderá envolver o próprio
julgamento da matéria de facto.

• A confissão (do pedido), a desistência e a transação não produzem efeito sobre a


relação processual se provierem apenas de um dos litisconsortes, relevando apenas para
efeitos de custas - art. 288.º/2 CPC e art. 528.º/2 CC

Fica o tribunal impedido de atender à manifestação daquela vontade em tudo o que


interfira com o sentido do julgamento da questão de fundo. Cada um destes litisconsortes
perde autonomia para dispor do objeto do processo.

Por exemplo, nenhum dos litisconsortes ativos pode desistir do pedido, tem de envolver
todos os sujeitos, porque num litisconsórcio necessário, estamos perante posições
indivisíveis.

• Em matéria de recursos, o recurso intentado por um litisconsorte aproveita aos


demais (princípio da realidade) - art. 634.º/1 CPC.

Aqui existe a vantagem de se alcançar, também em sede de recurso, uma decisão uniforme
para o conjunto das partes vencidas.

Constituição
• Tratando-se de um litisconsórcio necessário ativo deverão marcar presença na ação
todos os autores. Logo, a ação deve ser intentada pelos vários sujeitos daquela relação
plural no caso de a lei impor essa presença.

Mas pode acontecer que algum dos sujeitos que ocupa essa relação jurídica se recuse a
intentar a ação, assim sendo, os outros autores, podem intentar a ação sozinhos, e na
petição inicial, requererem a intervenção daquele sujeito, através de um incidente de
intervenção principal provocada - art. 261.º CPC e art. 316.º/1 CPC

• No caso de um litisconsórcio necessário passivo, o meio próprio é a sua indicação


como réu na petição inicial e requerer a sua citação - art. 552.º/2/a CPC. Se o

Ana Castro e Catarina Morais 141


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

litsiconsórcio necessário for preterido deverão ser chamados pelo incidente de


intervenção provocada - art. 316.º CC e ss. ou espontânea - art. 311.º CC e ss.

Inobservância
A preterição do litisconsórcio necessário é causa de ilegitimidade, e, por isso, dá lugar
a uma exceção dilatória (art. 577.º/e CPC) que obsta a que o tribunal conheça do mérito
da causa e deva absolver o réu da instância (art. 278.º/1/d).

Nos termos gerais do CPC, tratando-se de uma exceção sanável, mas que o juiz não está
em condições de, por si, sanar, deve providenciar pela sanação (art. 6.º/2 CPC),
convidando as partes à prática dos atos necessários à regularização da instância.

• Se a causa comportar a existência de despacho liminar (exceção), deve convidar


à regularização de instância neste momento, dando um prazo ao autor para
requerer a indicação de outros sujeitos através do incidente próprio;

• Se não houver despacho liminar, o juiz deve exercer este poder no despacho pré-
saneador - art. 590.º/1 CC, dando um prazo para que seja regularizada a
instância, sob pena de haver lugar à absolvição do réu da instância no despacho
saneador.

Modo de Regularização da Instância


• Chamamento do terceiro através de incidente de intervenção principal
provocada - art. 316.º/1 CPC.

Nos termos do art. 318.º/1/a CC, o chamamento para a ação deve ser deduzido até ao
termo da fase dos articulados, sem prejuízo do art. 261.º CPC: o nº1 admite que até ao
trânsito em julgado da decisão que julga ilegítima uma das partes, por não estar em juízo
certa pessoa (preterição do litisconsórcio necessário), pode o autor ou o réu reconvinte
chamá-la a intervir. Por maioria de razão, se assim é, deverá admitir-se o chamamento já
depois de esgotada a fase dos articulados desde que a fase de decisão não tenha sido
esgotada;

• Vinda à ação por intervenção do terceiro, através de um incidente de


intervenção principal espontânea - 311.º CC. Pode ocorrer de uma de duas
formas:

[Link] adesão aos articulados de uma das partes - pode ocorrer até que a causa
esteja definitivamente julgada;
[Link] articulado próprio - só é admissível até ao termo da fase dos articulados (art.
314.º CC), que se entende dever terminar com o primeiro ato da fase subsequente.

Este ato pode ser o despacho pré-saneador - 590.º/2 CPC: é de admitir que o juiz, no
despacho pré-saneador, além de convidar as partes a regularizar a instância, aluda à
possibilidade de a instância ser regularizada mediante intervenção do terceiro.

Ana Castro e Catarina Morais 142


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

Aproveitamento dos Efeitos da Ação


Nos termos do art. 261.º/1 e 2 CPC, mesmo que haja absolvição da instância é possível
ainda aproveitar os efeitos da concreta relação processual, de duas formas:

i. Art. 261.º/1 CPC: já depois da decisão, mas ainda antes do trânsito em julgado,
é possível requerer a intervenção da parte preterida;
ii. Art. 261.º/2 CPC: mesmo depois da absolvição da instância, pode o chamamento
ter lugar nos 30 dias subsequentes. Se for admitido o chamamento, a instância
extinta, considera-se renovada, mas recai sobre o autor ou sobre o reconvinte o
encargo do pagamento das custas em que tiver sido condenado.

Litisconsórcio Voluntário
No litisconsórcio voluntário a legitimidade processual permite que cada uma das partes,
em caso de litígio, trate individualmente da posição jurídica que lhe diz respeito.
Assim, o litisconsórcio voluntário, que corresponde à situação regra na pluralidade de
partes, caracteriza-se por nele haver «uma simples acumulação de ações, conservando
cada litigante uma posição de independência em relação aos seus compartes» (2.º parte
do artigo 35.º).
Assim, e tendo em conta, que a legitimidade processual traduz para o processo categorias
materiais de relações jurídicas (tal e qual alegadas pelas partes), haverá litisconsórcio
voluntário quando a relação jurídica litigada, embora única, admita uma certa
divisibilidade de posições de cada um dos seus contitulares.
Logo, estas ações podiam ser conduzidas autonomamente, mas não o são, porque existe
um litisconsórcio - art. 35.º CPC.
No entanto, mesmo estando perante uma posição jurídica indivisível, a lei admite que
esteja presente na ação apenas um dos contitulares: casos de legitimidade
extraordinária.
Por exemplo, em matéria de obrigações solidárias, o autor pode exigir o cumprimento
por inteiro a cada um dos condevedores ou a todos - litisconsórcio voluntário passivo,
porque se houver uma situação de pluralidade de partes do lado passivo, será a título
voluntário.
A diretriz geral de divisibilidade de posições jurídicas, vai traduzir-se, por um lado, na
liberdade de cada um dos litisconsortes voluntários de, por si, conduzirem a ação.
Por outro lado, traduz-se também, na necessária limitação do objeto do processo, à quota
parte do seu interesse (não podem agir para além do seu interesse)
No art. 35.º CPC distingue-se entre litisconsórcio necessário e litisconsórcio voluntário,
sendo que neste último, há uma simples acumulação de ações, conservando cada litigante
uma posição de independência em relação aos restantes, as ações acumulam-se,
justamente porque podiam individualmente ser conduzidas.

Ana Castro e Catarina Morais 143


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

O nosso Direito parte de um princípio geral de divisibilidade da relação jurídica - art.


32.º CPC. Isto é, cada um dos interessados pode propor a ação contra cada um dos
interessados, logo, se assim não for, ou seja, se vale como princípio geral de divisibilidade
da relação jurídica, podendo cada um litigar sobre a quota parte do seu interesse, então
uma eventual situação de pluralidade de partes será voluntária e dará origem ao
surgimento de um litisconsórcio voluntário.
Em último dos casos, o próprio texto da lei, prevê a possibilidade de certa pessoa poder
litigar sobre uma relação jurídica - art. 32.º CPC.
Por exemplo, praticando duas pessoas um certo facto ilícito culposo e respondendo elas
solidariamente ao abrigo do art. 490.º CC e 497.º/1 CC, estarão em litisconsórcio
voluntário;
Havendo pluralidade de credores de prestação indivisível, qualquer um deles pode exigi-
la por inteiro (art. 538.º/1 CC), estando, também, em litisconsórcio voluntário passivo;
Qualquer um dos compossuidores pode servir-se dos meios de defesa da posse - art.
1286.º CC, da mesma forma que cada um dos comproprietários pode recorrer sozinho à
ação de reivindicação (art. 1405.º/2 CC), tal como cada um dos co-herdeiros pode recorrer
sozinho à ação de petição de herança (art. 2078.º/1 CC);
A estas hipóteses, acrescentam-se quaisquer outras em que estejamos perante posições
jurídicas divisíveis, por exemplo, no caso das obrigações conjuntas33, em que cada um
dos devedores conjuntos deve uma quota parte da obrigação ou que cada um dos credores
conjuntos pode apenas exigir uma parte da obrigação. Sendo a obrigação fracionável,
nestes termos, cada um dos credores ou devedores conjuntos pode agir autonomamente
sobre a sua quota parte, mas em litisconsórcio voluntário podem agir todos os titulares
ativos ou ser demandados todos os titulares passivos.
No entanto, pode acontecer que um dos contitulares, embora esteja materialmente
legitimado para litigar sobre a sua quota parte, litigue sobre a totalidade da relação
jurídica. Nestes casos o art. 32.º/1 CPC prevê uma redução automática do objeto do
processo, limitando-se o tribunal a conhecer da quota parte do interesse ou da quota parte
da responsabilidade do concreto autor ou do concreto réu.
A propósito da fiança colocam-se dúvidas de qualificação no sentido de saber se estamos
perante um litisconsórcio ou uma coligação. Quanto ao regime propriamente dito, a lei
não deixa grande dúvidas, o credor pode demandar em conjunto o devedor e o fiador -
641.º/1 CC. Consoante se entenda haver apenas uma relação jurídica material (complexa)
ou várias relações jurídicas materiais, termos um caso de litisconsórcio ou coligação. É
verdade que a autonomia do ato de constituição da fiança (art. 628.º/1 CC) poderia apontar
no sentido da sua autonomia face à obrigação do devedor principal, mas o regime material
carateriza-se pela acessoriedade jurídica da obrigação jurídica (art. 627.º/2 CC). Parece,
por isso, que mais do que duas obrigações autónomas, é uma modalidade especial de

33
modalidade de obrigações plurais que não está desenvolvida legalmente, encontrando-se uma
referência no art. 649.º/2 CC

Ana Castro e Catarina Morais 144


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

obrigação complexa que se carateriza pela presença de um vínculo acessório a um vínculo


principal, assim seria um litisconsórcio voluntário.
Este regime será de estender a outras hipóteses de garantia acessórias, por exemplo, a
hipoteca quando se age contra o devedor e o sujeito que tem o seu património onerado a
favor de outrem.

Constituição
O litisconsórcio voluntário pode ser da iniciativa do autor - art. 316.º/2 CPC ou do réu
- art. 316.º/3 CPC e deve ser requerido até ao fim da fase dos articulados, que se deve
entender terminada com a prática do ato da fase subsequente.
No que diz respeito ao litisconsórcio voluntário ativo, não pode ser o autor a
desencadeá-lo para forçar a vinda ao processo dos demais contitulares daquela
relação, ou seja, o incidente de intervenção principal provocada nos casos de
litisconsórcio voluntário por iniciativa do autor é só para chamar réus, não para chamar
outros autores. - alteração de 2013.
Como estamos perante posições relativamente autónomas, deixa-se a cada um dos
contitulares a possibilidade ou a decisão sobre intervir ou não intervir, quando e como
intervir. Esta liberdade só é restringida para tutela dos interesses do réu, que é um
interesse atendível (interesse do réu em ver definitivamente resolvida aquela relação
jurídica naquela ação).
O litisconsórcio voluntário ativo pode ser da iniciativa do réu, do autor é que não, o
que não obsta a que vários autores intentem uma ação a título de litisconsórcio ativo (art.
32.º/2 CPC) e também não impede que algum eventual litisconsorte voluntário ativo
intervenha espontaneamente na ação (art. 316.º/2 CPC)

Regime
• Quanto à citação, a sua falta (a falta de citação do outro litisconsorte) não implica
a anulação do processado posterior, continuando a ação com os réus já citados -
art. 190.º/b CPC;
Quanto ao réu atingido pela falta de citação, nada impede que seja tratado como não
fazendo parte da instância, porque a sua presença não é necessária para assegurar a
legitimidade passiva. Todavia, dá-se ao autor a possibilidade de requerer que se efetue
corretamente a citação em falta, «se o processo ainda não estiver na altura de ser
designado dia para a discussão e julgamento da causa», de modo a permitir que a
sentença vincule todos os inicialmente demandados.
Na hipótese de se optar por este caminho e de o estado do processo ainda permitir a
superação da falha ocorrida, o citado tem de ser «admitido a exercer, no processo, a
atividade de que foi privado pela falta de citação oportuna». Em consequência desta
intervenção, da iniciativa do autor, há que suspender a instância em relação aos demais

Ana Castro e Catarina Morais 145


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

réus, durante o período necessário para que o réu citado posteriormente exerça no
processo a atividade a que tem direito como parte principal.
• Quanto à confissão (meio de prova), afeta apenas o confitente, não devendo o
efeito confessório ser estendido às demais partes - art. 353.º/2 CC;

• Quanto aos atos de autodisposição do objeto do processo, a confissão, desistência


e transação são livres na medida do interesse de cada um - art. 288.º/1 CPC;
Havendo litisconsórcio voluntário, cada um dos litisconsortes é livre de confessar ou
desistir do pedido, assim como de celebrar individualmente transação, desde que se limite
a dispor da quota-parte do seu interesse na causa (n.º 1 do artigo 288.º).
• Em matéria de recurso vale o princípio da personalidade, aproveitando o recurso
apenas àquele(s) que o tiver interposto, e apenas se estende quando as outras
partes hajam aderido ao recurso (art. 634.º/2/a e 3 CPC) ou nos demais casos
previstos no art. 634.º/2 CPC;
A posição jurídica da parte vencida que não manifestou vontade de recorrer não integra
o «thema decidendum» submetido ao tribunal superior. A opção de a parte se
autoexcluir do recurso interposto por outros seus compartes é ainda uma manifestação
do princípio da liberdade de ação.
Aqui a limitação dos efeitos do recurso a quem tomou a iniciativa de impugnar a decisão
do tribunal «a quo» pode conduzir ao resultado de não haver uniformidade do que for
decidido a final, em relação aos litisconsortes, pois as posições jurídicas que
correspondem a cada um dos membros da parte plural são juridicamente
autonomizáveis.
Resulta deste modo de encarar a questão que unicamente os recorrentes se encontram
em condições de aspirar ao eventual benefício que o recurso pode trazer, em caso de
alteração da decisão impugnada.
Todavia, existem situações que mitigam a rigidez do princípio da personalidade:
• Admite-se a adesão ao recurso interposto por algum dos litisconsortes
voluntários, de modo a manter-se aberta a via da impugnação para os restantes
litisconsortes vencidos que só mais tarde venham a decidir-se pelo ataque à
decisão desfavorável. 634.º n. º2 a) 3. Não se trata de impor a extensão do recurso
a quem não manifestou vontade de recorrer, mas sim do afastamento da
preclusão do direito de impugnar, quando haja recurso interposto em tempo por
algum dos litisconsortes que estava em condições de o fazer.

• Quando seja titular de posição jurídica que se encontra na dependência


daquela que o litisconsorte recorrente procura defender com a procedência
do recurso (alínea b) do n.º 2 do artigo 634.º).

Ana Castro e Catarina Morais 146


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

O nexo de dependência estabelecido na lei substantiva justifica que o desfecho favorável


da impugnação da situação jurídica condicionante se estenda também ao litisconsorte não
recorrente.
Ex: O devedor principal e o seu fiador foram condenados na mesma ação a cumprir a
obrigação afiançada, a revogação dessa sentença com base no recurso interposto tão-só
pelo devedor principal aproveita ao garante, apesar de não ter recorrido, nem aderido ao
recurso.
• Hipótese de terem sido condenados como devedores solidários, juntamente
com o recorrente.
Qualquer uma destas caraterísticas concretiza a ideia de que, em matéria de
litisconsórcio voluntário, há uma mera acumulação de ações, podendo por isso, cada
um dos litisconsortes, em termos bastante amplos, gozar de tratamento relativamente
autónomo.

Coligação
A coligação é uma agregação processual (cumulação objetiva) de relações materiais
distintas, ou seja, são agregadas no mesmo processo relações materiais distintas, que ao
formar-se, traz para a instância os vários sujeitos das relações jurídicas agrupadas num
mesmo processo.
A admissibilidade da presença de várias partes na instância, conjugada com a submissão
ao tribunal de pretensões fundadas em relações jurídicas diversas, está sujeita a restrições
de natureza formal, destinadas a conter dentro de limites aceitáveis o grau de
complexidade que a figura da pluralidade de partes introduz no processo. Assim, só em
situações demarcadas e cumprindo um conjunto de requisitos específicos, é de admitir o
tratamento de processual simultâneo de relações materiais distintas com a presença
dos respetivos titulares, e, em termos de, na apreciação do litígio, permanecer
individualizada a posição subjetiva que, segundo o direito substantivo, compete a
cada uma das partes.
Ou seja, ao contrário do que se verifica no litisconsórcio, na coligação encontramos
uma pluralidade de relações jurídicas, o que comporta um risco considerável de
complexificação da marcha processual, e, por isso, são colocadas limitações à sua
admissibilidade, por forma a não entravar o normal funcionamento do processo.
Se forem inobservados os pressupostos de admissibilidade da coligação, isto origina a
exceção dilatória da coligação irregular - art. 577.º/f e 278.º/e CPC.
Importa saber os pressupostos da coligação - art. 36.º e 37.º CPC:
1. Conexão entre as diferentes relações jurídicas integrantes do objeto do processo
- requisito material. Pode resultar da verificação de qualquer um dos fatores previstos
no art. 36.º CPC:

Ana Castro e Catarina Morais 147


Faculdade de Direito da Universidade do Porto 2022/23

• Art. 36.º/1 CPC - Unicidade da causa de pedir34 ou relação de prejudicialidade


ou de dependência entre os pedidos35;
• Art. 36.º/2 CPC - A procedência dos pedidos principais dependa essencialmente
da apreciação dos mesmos factos36 ou da aplicação das mesmas regras de Direito
ou de cláusulas de contratos perfeitamente análogas37;
• Art. 36.º/3 CPC - Quando os pedidos se baseiem na invocação da obrigação
cartular, quanto a uns, e da respetiva relação subjacente, quanto a outros38.

• Compatibilidade formal da tramitação prevista para a consideração das


diferentes pretensões deduzidas em juízo e é necessário que se verifiquem
determinados requisitos de competência (art. 37.º/1 CPC) - requisito processual;
• Art. 37.º/1 CPC - É necessário que se siga a mesma forma (comum ou especial)
de processo quanto a todos os pedidos;
• Art. 37.º/2 CPC - Admite-se que o juiz autorize a coligação quando as formas
previstas não sejam manifestamente incompatíveis ou quando se vislumbre um
interesse relevante ou quando a apreciação conjunta das pretensões seja
indispensável para a justa composição do litígio.
• Art. 37.º/3 CPC - Se o juiz autorizar a coligação (quando se seguem formas de
processo distintas), deverá adaptar o processo à coligação que tenha autorizado -
trata-se de uma concretização concreta do poder de gestão processual, mais
essencialmente do poder dever de adequação formal;
• Art. 37.º/1 CPC - O tribunal tem de ser absolutamente competente39 para todos
os pedidos cumulados. A preterição das regras de competência relativa não obsta
à admissibilidade da coligação.

• Não rejeição da coligação pelo tribunal (art. 37.º/4 CPC): Mesmo estando
verificados os requisitos anteriores de aplicação, pode, ainda assim, o tribunal rejeitar

34
por exemplo, A coage B à celebração de um contrato com C, B que celebrou o contrato sob
coação exercida por terceiro, propõe ação de anulação contra C e na mesma ação um pedido
indemnizatório contra A; dois legatários, com posição jurídica autónoma, propõem uma ação de
cumprimento contra herdeiros, a causa de pedir é a mesma; acidente de viação atinge vários
passageiros, a causa de pedir também é a mesma, não obstante cada um dos lesados ter uma
pretensão indemnizatória autónoma.
35
por exemplo, A doa um bem a B e B doa um bem a C, A intenta ação de anulação contra B e
contra C, pedindo a C a restituição da coisa.
36
por exemplo, o mesmo exemplo do acidente de viação, porque o pedido efetuado pelos lesados
depende do mesmo facto; o cão X, que pertence a A e é vigiado por B, morde C, pode C propor
ação de responsabilidade civil contra A e contra B.
37
por exemplo, uma sociedade de telecomunicações a agir contra vários clientes por
incumprimento de contratos celebrados com recurso a cláusulas contratuais gerais.
38
em matéria de títulos cambiários.
39
internacional, material e hierarquicamente competente para conhecer de todos os pedidos.

Ana Castro e Catarina Morais 148


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a coligação com fundamento na grave inconveniência da coligação, para instrução,


discussão e julgamento em conjunto dos processos cumulados. Se houver grave
inconveniência segue-se o regime dos artigos 37.º/4 e 37.º/5 CPC, recusando o juiz a
coligação, com base nessa grave inconveniência, está vinculado a proferir um
despacho que justifique a sua decisão e onde analise os efeitos negativos que
resultariam para o processo da subsistência da coligação. Quanto ao momento em que
este despacho deve ser proferido, nada é dito nos termos do art. 37.º/4 CPC
A admissibilidade da coligação funda-se, assim, num juízo de discricionariedade
técnica do tribunal, que toma como ponto de partida a consideração de que o legislador
destaca apenas um núcleo de situações, onde, em princípio, está presente um interesse
que confere valor acrescido ao julgamento simultâneo de relações jurídicas que podiam
ser objeto de tratamento processual autónomo. Nos termos do art. 630.º/4 CPC, não se
admite recurso de decisões tomadas ao abrigo da discricionariedade.
Há coligação irregular quando não estão verificados os pressupostos que autorizam a
consideração conjunta daqueles diferentes pedidos relativos a diferentes relações
materiais.

Regime
No lugar de haver integral absolvição da instância, há consideração do mérito, pelo menos
quanto a um dos pedidos, sendo o autor chamado para, no prazo fixado pelo juiz, dizer
qual o pedido que pretende ver apreciado no processo - art. 38.º/1 CPC.
Havendo pluralidade de autores, são todos notificados para, por acordo, dizerem quais
os pedidos que pretendem ver apreciados (art. 38.º/2 CPC), nesse caso, o réu(s) é
absolvido da instância quanto aos demais pedidos (art. 38.º/3 CPC).
Se nada for indicado ou não houver acordo, é o réu(s) absolvido da instância em
relação a todos os pedidos.
Podem, ainda assim, ser aproveitados os efeitos da primitiva ação nos termos gerais
do art. 279.º/2 e 3 CPC.

Coligação Necessária

Devem ser consideradas em conjunto as diferentes relações jurídicas e devem ser tratadas
em conjunto no mesmo processo, sob pena de ilegitimidade, devendo aplicar-se as
formas de sanação da ilegitimidade plural que se encontram previstas para a preterição
do litisconsórcio necessário, ou seja, recorrer ao incidente de intervenção principal
provocada (art.º 316º nº1) beneficiando ainda do regime previsto no 261º - embora a lei
não o preveja.

A ocorrência da coligação necessária pode manifestar-se, quer do lado do ativo, quer do


lado passivo. Isto é, por exemplo, a pluralidade de réus demandados no mesmo
processo, a partir da relações jurídico-materiais diferentes, pode estar sujeita a um

Ana Castro e Catarina Morais 149


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regime legal que implica a sua presença simultânea na instância, sob pena de a
ausência não sanada de algum deles, impedir a pronúncia do tribunal sobre os pedidos
formulados.

34.º CPC
Ações que têm de ser propostas por ambos os cônjuges ou contra ambos os cônjuges -
litisconsórcio necessário ativo e passivo em matéria de direito matrimonial.

Por intermédio deste regime procura trazer-se ao processo um conjunto de valorações de


direito material (dada a natureza instrumental do processo civil) que marcam presença no
chamado direito matrimonial patrimonial, ou seja, o conjunto de disposições que
regem as posições patrimoniais daqueles que contraem casamento civil (art. 1577.º CC)
ou que contraem casamento com efeitos reconhecidos na OJ civil.

Estas disposições cumprem um duplo propósito (dupla intencionalidade):

• Por um lado, algumas dessas disposições, em especial, as que dizem respeito ao regime
das ilegitimidades conjugais, pretendem limitar a liberdade de disposição dos bens
que integram o património familiar em sentido amplo (tomando por referência o regime
da comunhão de adquiridos), ou a massa patrimonial de cada um dos cônjuges ou os
bens comuns do casal.

Isto é, a lei material introduz um conjunto de limitações, que visam obstar a que a
condução do processo por apenas um dos cônjuges frustrasse a tutela oferecida pelo
direito substantivo.

Neste primeiro grupo de casos, em que a lei pretende proteger o património familiar,
exige-se, via de regra, o consentimento do outro cônjuge para que a disposição sobre
determinados bens ou determinado direito seja válida, com sanções no caso de haver
essa disposição sem o consentimento do outro cônjuge (os atos são anuláveis - art. 1687.º
CC).

Estas regras são colocadas ao serviço da proteção do interesse da família, sendo, por isso,
possível que o cônjuge interessado na disposição de um certo bem ou direito, requeira, na
falta de consentimento do outro cônjuge, nos casos em que este seja exigido pela lei, o
suprimento judicial desse consentimento - art. 1684.º/3 CC.

Logo, muito embora possamos estar perante casos de litisconsórcio necessário por
prescrição expressa da lei, admite a lei, em certos casos, que um dos cônjuges seja
admitido a litigar singularmente quando tenha obtido o tal suprimento judicial do
consentimento - art. 1000.º e 30.º/2 CPC

• Por outro lado, um outro grupo de regras tem em vista a proteção daqueles que
interagem com os cônjuges, determinando a lei quem e quais massas de bens
respondem pelas dívidas dos cônjuges - art. 1690.º e ss. CC.

Ana Castro e Catarina Morais 150


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Vale como princípio que, pelas dívidas de um dos cônjuges respondem os seus bens
próprios, e, subsidiariamente, a sua meação40 nos bens comuns - art. 1696.º/1 CC.

Pelas dívidas de ambos os cônjuges, respondem os bens do casal, e na sua falta ou


insuficiência, os bens próprios de cada um - art. 1695.º/1 CC.
Podendo responder por certa dívida, mesmo que, constituída por apenas um dos cônjuges,
também os bens do outro cônjuge, tem o credor interesse em chamar ambos os cônjuges
à instância para que ambos sejam vinculados pelo efeito do caso julgado, e assim, contra
cada um deles ou contra ambos, possa ser intentada uma ação executiva.

Partindo dos art. 34.º/1 e 3 CPC podemos agrupar as hipóteses em três casos:

i. Casa de morada de família41: Exige-se a presença de ambos os cônjuges na ação,


propondo ambos os cônjuges a ação (art. 34.º/1 CPC) ou sendo propostas contra
ambos os cônjuges (art. 34.º/1 ex vi art. 34.º/3 CPC). Trata-se da tradução
processual da regra constante do art. 1682.º-A/2 CC.

A casa de morada de família é o bem familiar que goza de mais forte proteção, a par dos
bens móveis usados conjuntamente na vida dos cônjuges - 1682.º/3/a CC.

Por casa de morada de família, entende-se a casa em que a família tem a sua habitação
permanente.

A proteção que o CPC concede, vai para além da proteção dada pelo CC, mas pelas
mesmas razões que justificam o regime material, pois, neste, prevê-se a necessidade de
consentimento do outro cônjuge quando um deles pretenda alienar, onerar, arrendar ou
constituir outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família, ou seja,
quando se pretenda agir sobre este bem da família.

Já o CPC estende esta proteção às ações em que os cônjuges sejam titulares passivos
da relação jurídica, ou seja, quando a iniciativa processual que possa levar à “perda”
não seja do outro cônjuge, mas seja de terceiro - impõe-se um litisconsórcio necessário
passivo para que ambos os cônjuges possam participar na defesa;

ii. Bens cuja disposição exige consentimento do outro cônjuge: Devem ser
propostas por ambos os cônjuges (art. 34.º/1) ou contra ambos os cônjuges (art.
34.º/1 CPC ex vi art. 34.º/3 CPC), as ações “de que possa resultar a perda ou a

40
Cada um dos cônjuges tem uma parte nos bens comuns, ou seja, isto significa a sua parte nos
bens comuns.
41
Este ponto autonomiza-se dos restantes nos termos do art. 1682.º-A CC, porque carece de
consentimento de ambos os cônjuges, salvo se vigorar o regime da separação de bens, a alienação,
oneração, arrendamento ou constituição de outro direito pessoal de gozo seja sobre imóveis
comuns, seja sobre imóveis próprios. Já se se tratar da casa de morada de família, mesmo que seja
bem próprio de um dos cônjuges, exige-se o consentimento de ambos os cônjuges, mesmo que
estejam casados em regime de separação de bens.

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oneração de bens que só por ambos possam ser alienados ou a perda de direitos
que só por ambos possam ser exercidos”.

Uma destas hipóteses é justamente a da casa da morada de família - art. 1682.º e ss CC.

Em termos gerais, para se apurar quem deve intervir na ação é preciso atender, por um
lado ao objeto da ação e às suas possíveis consequências, ou seja, se pode ter por efeito
a oneração ou perda de bens ou de direitos. Por outro lado, é preciso atender ao regime
do casamento para se apurar se a disposição sobre certo bem ou direito era livre.

iii. Ações de responsabilização da massa de bens do outro cônjuge 42: Aqui


podemos distinguir entre duas situações diferentes, consoante os factos tenham
sido praticados por um dos cônjuges ou por ambos:

a. Ações de responsabilização emergentes de factos praticados por ambos os


cônjuges: Quando existam dívidas geneticamente comuns, o ato do qual
resulta aquela dívida foi praticado por ambos.

Neste caso, se se trata de uma ação de responsabilização a título de um facto


praticado por ambos os cônjuges estamos na presença de um litisconsórcio
necessário passivo, isto, porque, a ação deve ser intentada contra ambos os cônjuges
- os bens que dispõem da dívida são comuns, por isso é que a ação tem de ser intentada
contra ambos.

b. Ações de responsabilização por um facto praticado por um dos cônjuges,


cuja decisão é suscetível de ser executada sobre bens próprios do outro
cônjuge - art. 34.º/2 CPC:

Partindo do pressuposto que o ato em causa foi praticado por um dos cônjuges, não
estamos, portanto, perante uma dívida geneticamente comum. Este regime permite-nos
distinguir entre:

• Dívidas não comunicáveis: São próprias de um dos cônjuges, que responderá nos
termos do art. 34.º/1 CPC, ou seja, o cônjuge que praticou a dívida é quem tem
legitimidade passiva ou comunicável (ao outro cônjuge) na ação;

• Dívidas comunicáveis: O ato constitutivo da dívida não foi praticado por ambos os
cônjuges, foi apenas praticado por um deles, apesar disso pode suceder que estejamos
ainda assim perante dividas comunicáveis – dívidas que tem por fonte um facto
praticado por um dos cônjuges, mas que vinculam o outro em razão da natureza

42
Uma dívida pode resultar de um ato praticado por ambos os cônjuges - art. 1691.º/1/a CC -
esta é uma dívida geneticamente comum, no sentido que o ato que foi praticado por ambos os
cônjuges, logo, tratando-se de uma ação de responsabilização emergente de facto praticado por
ambos os cônjuges, ela tem de ser movida contra ambos os cônjuges - art. 34.º/3 CPC.

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comum dos bens que a dívida onera em razão da função económica comum que
desempenha na vida do casal. Por exemplo, a situação do art. 1691.º/1 CC.
Assim, para a dívida ser tratada como comum, é necessário que seja trazido ao
processo o fator de comunicabilidade da dívida, porque não é uma dívida
geneticamente comum.
Ora, tratando-se de uma ação declarativa, se o autor pretender obter uma decisão que
possa executar também contra o cônjuge que não praticou o ato, tem de invocar no
processo também o outro cônjuge, intentando uma ação contra os dois, e declarando, na
ação, que a dívida se estende ao outro cônjuge.

Se o autor percorrer este caminho, então a dívida receberá o tratamento de dívida comum,
e, portanto, respondem os bens comuns e na sua falta ou insuficiência os bens
próprios de cada um.

Se o autor intentar a ação contra ambos os cônjuges, só poderá executar o cônjuge que
praticou o ato.

Assim, podemos estar perante um litisconsórcio necessário consoante o pedido do


autor.

Isto merece uma ponte com a ação executiva, em concreto, com os art. 741.º e 742.º
CPC, que regulam o incidente da instância executiva - incidente da comunicabilidade43.

• Art. 741.º/1CPC:

- “Movida a execução apenas contra um dos cônjuges, o exequente (ou executado –


art. 741.º/2 CPC) pode alegar fundamentadamente que a dívida (...) é comum”: o
exequente não tem um título executivo contra os dois, porque o facto não foi praticado
pelos dois cônjuges, mas apenas por um deles, não obstante, o exequente pode invocar
fundamentadamente que a dívida é comum – art. 1691.º/1 CC.

- “constante de título diverso de sentença”: se o título executivo não for uma sentença,
o exequente pode invocar que a dívida é comum, embora do título só conste a presença
de um dos cônjuges (a dívida não é geneticamente comum).

Se for uma sentença não o pode fazer, porque isso significa que decorreu uma ação
declarativa onde nasceu esta sentença condenatória que está a ser executada – art. 34.º/3
CPC. Ora, se houve uma ação declarativa prévia que deu origem a esta sentença que está
a ser executada, se o credor queria obter uma sentença que ia ser executada contra
ambos devia ter intentado a ação contra ambos, coisa que não fez, porque se o tivesse
feito tinham de ser condenados os dois, mas só foi condenado um.

43
Quando o facto do qual resulta a dívida foi praticado só por um dos cônjuges, mas o exequente
ou até mesmo o executado entendem que aquela dívida é comunicável, não é geneticamente
comum, mas é comunicável, então na ação executiva podem invocar isto, através deste incidente
para adquirir no processo executivo este facto da comunicabilidade.

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Então…
3. Se o título é extrajudicial, na ação executiva para pagamento de quantia certa,
constando no título apenas um dos devedores, o exequente pode invocar que a dívida
é dos dois cônjuges;

4. Se o título é uma sentença, já não o poderá fazer, porque isso significa que decorreu
uma ação declarativa e o credor intentou apenas a ação contra um, se pretendesse ter
uma sentença que pudesse executar contra ambos tinha tido o ónus, quando intentou a
ação declarativa, nos termos do art. 34.º/3 CPC, de ter intentado contra os dois
cônjuges. Como não fez isso, e intentou a ação só contra um dos cônjuges, agora já não
pode invocar na ação executiva, que agora intenta, com base na sentença proferida, que
a dívida é comum.
Nota: Em ação de despejo, que é obrigatória quando o despejo se baseia em qualquer um
dos fundamentos do art. 1083.º CC, e, neste caso, se se tratar de um bem que esteja
arrendado a ambos os cônjuges, a ação deve ser intentada também contra ambos os
cônjuges.

Consentimento do outro cônjuge


Nas hipóteses em que a ação deve ser intentada contra ambos os cônjuges, admite-se que
um deles possa conduzir sozinho a ação caso tenha obtido ou obtenha o
consentimento do outro cônjuge ou o respetivo suprimento:

• Se o cônjuge intenta a ação sozinho, mas com o consentimento do outro: o


cônjuge, cujo consentimento seja necessário, deve prestá-lo nos termos do art. 1684.º
CC. O consentimento conjugal deve ser especial para cada um dos atos, especificando
a ação que se aceita que seja proposta, e o consentimento deve, ainda, observar a
forma exigida para a procuração (art. 1684.º/2 CC e 262.º/2 CC e art. 117.º do Código
do Notariado), ou seja, a forma prevista para o negócio que se pretenda celebrar;

• Se o cônjuge obtiver o suprimento judicial desse consentimento (antes de


intentar a ação): art. 1684.º/3 CC, o juiz, apurando da conveniência do ato para a
família, autoriza que a ação seja conduzida por apenas um dos cônjuges - art. 1000.º
CPC (processo de jurisdição voluntária);

• A apreciação relativa ao suprimento judicial do consentimento pode ter lugar na


ação principal, a título de incidente: pode dar-se o caso de a ação ser proposta
apenas por um dos cônjuges que não tenha obtido o consentimento do outro (nem o
suprimento judicial desse consentimento) - art.º 29.º/1 ex vi 34.º/2 CPC, decidindo o
tribunal do suprimento do consentimento, e podendo obter-se esse suprimento
através da suspensão da instância e aplicando-se o processo de jurisdição
voluntária do art. 1000.º CPC, ao abrigo do princípio da adequação formal. Em
caso de recusa do suprimento judicial do consentimento, o réu deve ser absolvido da
instância - art. 29.º/2 CPC.

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Nota: Se houver suprimento do consentimento deve poder o réu pedir a suspensão da


instância, antes da contestação, ou seja, tem o réu um interesse legítimo em não apresentar
a totalidade das “armas” da sua defesa, antes que seja seguro que estamos perante uma
instância regular - o réu não consegue por sua iniciativa provocar a regularização da
instância, porque não se basta com a chamada do outro cônjuge à ação através de um
incidente de intervenção provocada, dado que, o cônjuge tem que consentir.

Suprimento da Ilegitimidade - art. 1684.º/3 CC


Consideramos grupos de hipóteses de ações que devem ser propostas por/contra ambos
os cônjuges. A não verificação destas regras tem por consequência o surgimento de uma
exceção dilatória, por preterição das regras de legitimidade processual – art. 577.º/e
CPC.

Assim, o tribunal suspende a instância e dá prazo para a intervenção do outro cônjuge. Se


a instância não for regularizada poderá ter lugar a absolvição do réu da instância – art.
278.º/1 d) CPC. Não obstante, o juiz deve, nos termos do art. 6.º/2 CPC, convidar as
partes à regularização da instância: art. 29.º/2 CPC e 34.º CPC.

1. Ilegitimidade Ativa: Ação que devia ter sido intentada por ambos os cônjuges.

Formas de sanação:

• Nível substantivo: pode o cônjuge obter o consentimento do outro cônjuge e


está sanada a falta – art. 1684.º CC e 34.º/1 CPC;
• Nível processual: pode o cônjuge, cuja presença haja sido preterida, intervir
espontaneamente na ação, através de intervenção principal espontânea (art.
311.º CPC) ou ser a sua intervenção provocada pelo cônjuge, através da
intervenção principal provocada (art. 316.º CPC).

2. Ilegitimidade Passiva: Ação que devia ter sido intentada contra ambos os cônjuges.

Neste caso, o tribunal, em princípio, no despacho pré-saneador, concede um prazo para


intervenção ou chamamento do outro cônjuge (intervenção principal espontânea ou
intervenção principal provocada). Se tal não acontecer, o tribunal deve absolver o réu
da instância. Sendo certo que, mesmo depois do trânsito em julgado desta decisão de
absolvição do réu da instância, pode ser deduzido o incidente da intervenção principal
provocada - art. 261.º/2 CPC.

Apensação de Ações
São casos em que ações, que são propostas separadamente, podem ser apensadas
para efeitos de tramitação conjunta.

Até aqui consideramos a pluralidade de partes numa concreta ação, decorrente do modo
como a relação controvertida foi configurada pelo autor, admite-se, porém, nos termos do

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regime de apensação de ações - art. 267.º CPC, que ações que foram regularmente
propostas em separado venham a ser apensadas para que as diferentes ações sejam
tramitadas em conjunto.

Há diferenças em relação aos casos de pluralidade de partes, porque aí há uma pluralidade


de partes na mesma ação, na apensação há uma simples agregação externa de ações
para efeitos de ser realizada uma atividade processual conjunta - o propósito disto é
a economia processual e a uniformidade de julgados.

Causas de apensação de ações


(i) Prescrição normativa expressa - quando a própria lei dispõe que, no caso de estarem
pendentes diferentes ações autónomas com determinadas caraterísticas, devam ser
apensadas. Por exemplo, de acordo com o art. 60.º/2 CSC, estando pendentes várias
ações de anulação de uma mesma deliberação social, mesmo que essas ações tenham
fundamentos diferentes, devem ser apensadas;

(ii) Critérios gerais do CPC - art. 67.º CPC: sendo admissível quando se verifiquem os
pressupostos do litisconsórcio, da coligação, da oposição (333.º CPC e ss.) ou da
reconvenção (art. 266.º CPC).

A apensação pode ser requerida por qualquer parte com interesse atendível na junção
– art. 267.º/1 CPC, através de um requerimento dirigido ao tribunal em que esteja
pendente o processo a que o(s) outro(s) deva(m) ser apensado(s) – art. 267.º/3 CPC.

As outras partes deverão ser notificadas, para, se assim pretenderem, exercer oposição ao
requerimento – art. 3.º/3 CPC. Não se encontra, todavia, fixado o momento em que deva
ser requerida a apensação. À partida, as razões de conveniência que guiam este regime
sugerem que deva ser requerida antes da instrução e discussão da causa, para que depois
possa haver uma instrução e discussão conjunta, mas nada obsta a que mesmo nesta fase
do processo ela ainda seja ordenada.

A apensação deve ser rejeitada quando o estado do processo ou outra razão especial torne
inconveniente a apensação – art. 267.º/1 CPC.
Nos termos do 267.º/2 CPC, os processos são apensados ao que tiver sido instaurado em
primeiro lugar, salvo se os pedidos forem dependentes uns dos outros, caso em que a
apensação é feita na ordem da dependência, ou se alguma das causas pender em instância
central, a elas é apensado as que corram em instância local.

De acordo com o 267.º/4 CPC, quando se trate de processos diferentes pendentes perante
o mesmo juiz, a apensação pode ser determinada pelo juiz oficiosamente (ouvidas as
partes).

Finalmente, coloca-se uma questão: tendo sido ordenada a apensação dos processos,
será possível ordenar a sua separação?

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São várias as causa que permitem a apensação no processo, tratando-se de coligação, a


relação que existe entre os processos é laça, de tal forma, que se admite que o tribunal
não permita a tramitação conjunta - art. 37.º/4 CPC, nos casos de litisconsórcio é
diferente, porque o juiz não pode impedir a sua formação (é uma relação única).

Nos casos em que a lei não repugna a separação de processos, o juiz pode ordenar a
separação, o principal obstáculo é a produção de caso julgado formal do despacho que
ordenou a apensação. Podem formular-se dois contra-argumentos:

i. A sentença constituí caso julgado nos precisos termos e limites em que se julga -
art. 621.º CPC;
ii. Distinção entre decisões de estrita legalidade ou com base em critérios de
conveniência, e tendo em conta que a apensação se guia por razões de
oportunidade e conveniência, nestas últimas há abertura à reconsideração de
situações futuras. É isto aliás princípio geral que encontra concretização especial
em matéria de jurisdição voluntária 988.º. Havendo circunstância superveniente
que justifique a inconveniência da apensação pode ser justificado que haja
separação.

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