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Economia do Café no Brasil do Século XIX

A aula aborda a importância da economia cafeeira escravista para a recuperação econômica do Brasil no século XIX, destacando o papel do café como principal produto de exportação. O documento analisa as origens da cafeicultura, sua expansão no Vale do Paraíba e a relação com a mão-de-obra escrava, além de discutir os limites e desafios enfrentados pela economia brasileira nesse período. A transição do café de um cultivo de subsistência para um produto voltado para o mercado externo é enfatizada como um fator crucial para o crescimento econômico do país.

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Economia do Café no Brasil do Século XIX

A aula aborda a importância da economia cafeeira escravista para a recuperação econômica do Brasil no século XIX, destacando o papel do café como principal produto de exportação. O documento analisa as origens da cafeicultura, sua expansão no Vale do Paraíba e a relação com a mão-de-obra escrava, além de discutir os limites e desafios enfrentados pela economia brasileira nesse período. A transição do café de um cultivo de subsistência para um produto voltado para o mercado externo é enfatizada como um fator crucial para o crescimento econômico do país.

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4

AULA
Economia cafeeira escravista
Meta da aula
Analisar as origens da economia cafeeira,
sua importância para a recuperação
econômica brasileira na primeira metade do
século XIX, bem como os limites do uso da
mão-de-obra escrava na produção.
objetivos

Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:

1
Reconhecer o papel fundamental do café na
recuperação da economia brasileira no início
do século XIX.

2 Conceituar bases iniciais de produção ao longo


do século XIX.

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

INTRODUÇÃO O século XIX marcou um importante processo de estagnação da economia


brasileira, particularmente no período que se seguiu ao processo de
independência do país. No campo externo, crescia o déficit comercial

GUERRAS – resultante, sobretudo, de dois fatores. Primeiro, a extensão de vantagens


CISPLATINAS comerciais dadas a outros países além da Inglaterra – como vimos na aula
“A Banda Oriental, passada, esse país teve grandes privilégios com os tratados comerciais firmados
disputada por
brasileiros e a partir da abertura dos portos. Segundo, as culturas da cana-de-açúcar e do
castelhanos, é
incorporada ao
algodão, principais fontes de recursos externos (moeda estrangeira), sofriam
Império em 1821 crescente concorrência no mercado internacional.
como Província
Cisplatina. Em 1825, No caso da cana, o aumento da produção de açúcar, na Europa, a partir da
líderes separatistas
locais, comandados beterraba, e a pesada entrada no mercado de países como Cuba aumentaram
por Fructuoso sobremaneira a oferta internacional. Como conseqüências, temos a queda
Rivera, proclamam
a independência do preço no mercado externo e a redução da receita de exportação brasileira
da região. O Brasil
declara guerra à (reveja, na Aula 1, a crise da cultura da cana-de-açúcar).
Argentina, que
A cultura do algodão passou por problemas semelhantes. Apesar do quadro
também reivindica a
posse da Província, favorável para a produção no Brasil nos últimos 25 anos do século XVIII – em
em 10 de outubro de
1825. É derrotado especial no Maranhão –, o panorama mudou radicalmente no início do século
na batalha de Passo
do Rosário em 20/2/
seguinte. O fim da guerra pela independência nos Estados Unidos (1776)
1827. A diplomacia propiciou um grande aumento da produção de algodão em regiões da Flórida,
britânica intervém
e os dois países o que também fez despencar os preços internacionais e reduzir drasticamente
desistem da região.
Um tratado de paz a receita de exportação brasileira do produto.
cria a República No plano interno, agravava-se rapidamente o déficit público. Isso ocorreu em
Independente do
Uruguai, em 27 de função do aumento das despesas militares. Os conflitos regionais multiplicaram-
agosto de 1828.” –
In: [Link] se, e houve também disputas territoriais, como as GUERRAS CISPLATINAS. Além disso,
[Link].
como você viu na aula passada, o Brasil se viu obrigado a pagar uma indenização
br/historia-do-brasil/
unidade-nacional-e- a Portugal para ter sua independência reconhecida.
[Link]
Durante esse período, houve uma queda importante das receitas alfandegárias,
resultado direto da adoção de medidas direcionadas à prática do LIVRE

LIVRE CAMBISMO CAMBISMO, que estendeu a outros países as vantagens comerciais concedidas
Conjunto de medidas à Inglaterra quando da assinatura dos tratados comerciais – que você viu com
direcionadas
para a liberação mais detalhes na Aula 3.
do comércio
internacional – a
redução das tarifas
alfandegárias,
por exemplo.

72 CEDERJ

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4
Você já ouviu falar na cidade de Colônia do Sacramento? Situada à margem direita do Rio da
Prata, em frente a Buenos Aires, foi fundada por portugueses e ingleses em 1680 por ordem de D.

AULA
Pedro I. Os objetivos do monarca eram estender seus domínios até o estuário do Prata e continuar
captando a prata peruana. A cidade, inicialmente domínio português, acabou ficando em poder
dos espanhóis a partir de 1750. Em [Link] você pode obter
mais informações sobre a importância estratégica de Colônia do Sacramento.

Nesse cenário de estagnação e dificuldades de crédito, o único fator abundante


na economia brasileira era a terra. Era essencial encontrar um produto exportável
que aproveitasse essa vantagem, pois o capital disponível era praticamente
inexistente, e a mão-de-obra estava entrando em um claro processo de escassez,
já que a queda de receita das principais culturas reduzia a capacidade de
aquisição de escravos.

O INÍCIO DA CAFEICULTURA PARA EXPORTAÇÃO NO


BRASIL

Cultivado no Brasil desde o início do século XVIII, o café era, até


então, um produto direcionado à subsistência e com difusão bastante
limitada no país. Apenas no século XIX passou a ser incentivada
sua produção para o mercado externo. Alguns fatores contribuíram
decisivamente para isto.
Pelo lado da demanda, o crescimento dos mercados europeu e
norte-americano, em função do avanço da indústria e da urbanização, foi
fundamental. Ao mesmo tempo, do lado da oferta, o colapso da produção
haitiana (colônia francesa em processo de independência) determinou um
importante aumento dos preços internacionais, estimulando a entrada
do Brasil nesse mercado.
Contava ainda, a favor do produto, uma característica crucial para o
momento: a baixa capitalização requerida para o processo produtivo, bem
mais reduzida que na economia açucareira – o maquinário utilizado para a
produção de açúcar tinha um custo bem superior. Concorriam para isso a
utilização extensiva da terra, com técnicas rudimentares e de fácil acesso, e
as menores necessidades de reposição de maquinário, pois os equipamentos
eram bem simples e, em grande parte, de fabricação local.

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

Como resultado, na década de 1830 o café já era o principal


produto de exportação do Brasil, superando as receitas das culturas
tradicionais de açúcar e algodão. Vamos ver isto com mais detalhes?

Atividade 1
As contas do café 1

Observe, na Tabela 4.1, o crescimento da participação relativa do café ao longo do


século XIX. De 1821 a 1840, por exemplo, a porcentagem aumentou de 18,4% a 43,4%.
Impressionante, não acha?

Tabela 4.1: participação relativa dos principais produtos de exportação no Brasil (%)

Produtos 1821/30 1831/40 1841/50 1851/60 1861/70 1871/80 1881/90


Café 18,4 43,4 41,4 48,8 45,5 56,6 61,5
Açúcar 30,1 24 26,7 21,2 12,3 11,8 9,9
Algodão 20,6 10,8 7,5 6,2 18,3 9,5 4,2
Fumo 2,5 1,9 1,8 2,6 3 3,4 2,7
Cacau 0,5 0,6 1 1 0,9 1,2 1,6
Total 72,1 81,1 78,4 79,8 80 82,5 79,9

Fonte: CANABRAVA (1997)

Repare, agora, nas taxas relacionadas ao açúcar e ao algodão, vistos nas aulas anteriores,
e compare-as ao que aconteceu com o café. O que você pode verificar? Lembre-se de
incluir, nas suas observações, o contexto histórico do século XIX.
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________

Resposta Comentada
Em apenas 70 anos (de 1821 a 1890), o café passou a representar 61,5% das
exportações brasileiras – uma participação de peso, você não acha? Enquanto
a cultura cafeeira não parava de crescer, as do algodão e da cana-de-açúcar
atravessavam uma grande crise, causada pela redução dos preços de revenda
no mercado internacional. Você consegue perceber a dupla importância do
café nesse contexto?

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O início da produção de café para exportação no Brasil se deu

4
no Vale do Paraíba. Tratava-se de uma região de condições climáticas

AULA
propícias para o cultivo desse produto, com terras abundantes para o
plantio (você vai ver este assunto com mais detalhes na Aula 7, fique
atento!). Ao mesmo tempo, havia recursos ociosos da área da mineração
(em franca decadência em Minas Gerais), tanto de capitais como de
mão-de-obra escrava.
É importante ressaltar que o Vale do Paraíba já vinha sendo
ocupado, por ser caminho natural da área de mineração para o Rio
de Janeiro, que era a capital e principal porto de escoamento das
exportações.
Desta forma, havia um claro interesse na ocupação e plantio
dessa área para abastecer a capital, principalmente após a vinda da
corte portuguesa para o país em 1808. Veja, na Figura 4.1, a região do
Vale do Paraíba e a proximidade entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais
e São Paulo. Na próxima aula, você verá a importância dessa trajetória
natural de expansão da cultura de café.
Além disso, havia uma razão favorável para esta localização,
em função da ausência de meios de transporte capazes de garantir o
escoamento da produção a ser exportada a partir do porto do Rio de
Janeiro. O café era então transportado por mulas, disponíveis em grande
quantidade e bastante resistentes para a atividade.

Figura 4.1: O Vale do Paraíba. Observando este mapa, é possível constatar que a
proximidade de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo é notável.

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

O sistema de ocupação, como em geral ocorria à época, foi


realizado por meio do sistema de SESMARIAS: as terras eram distribuídas
e entregues aos fazendeiros de acordo com o número de escravos
possuídos por eles. Este é um ponto importante; você pode perceber
nele um dos determinantes do processo de concentração fundiária
no Brasil.

SESMARIAS
“Grandes extensões de terras devolutas pertencentes à Coroa portuguesa e que
eram doadas pelo monarca, ficando os beneficiados na obrigação de cultivá-las
num prazo de três anos, sob pena de revogação da doação, e de pagar a sesma
(daí o nome de sesmarias) ou um sexto do que nela viessem a produzir para a
Coroa. A instituição das sesmarias deveu-se a uma lei promulgada em 1375 por
D. Fernando I de Portugal e serviu para beneficiar a burguesia comercial nascente
que não possuía terras. Inicialmente, o beneficiário se obrigava de uma sexta parte
dos lucros obtidos nas terras das sesmaria. A instituição foi transferida para o
Brasil, onde assumiu forma mais abrangente com o estabelecimento da Capitanias
Hereditárias: as doações de sesmarias eram feitas aos colonos pelos donatários e
pelos governadores – gerais. O sistema, só extinto em julho de 1822, deu origem à
grande propriedade rural (latifúndio) no Brasil, beneficiando apenas uma pequena
parte dos habitantes da Colônia, e contribuiu para a concentração da propriedade
fundiária no Brasil” (SANDRONI, 2004, p. 555).

Neste caso, quando a produção de café começou a ganhar peso


e importância, elevando substancialmente a capacidade de geração
de renda e lucros no setor, os grandes fazendeiros expulsaram os
pequenos proprietários – sobretudo por meio da falsificação dos
registros. Isso obrigava os minifundiários a migrar para as cidades
ou a partir para regiões periféricas, formando cordões agregados aos
grandes latifúndios.

A história do café no Brasil está estreitamente ligada


a Francisco de Mello Palheta, oficial que trouxe clandes-
tinamente, da Guiana Francesa para o Brasil, a primeira
muda da planta em 1727.
Quer saber mais? Consulte [Link]
[Link]. Veja, também, [Link]
[Link]

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Atividade 2

4
AULA
Café e ouro: atividades interdependentes? 2

Em sua opinião, a expansão da atividade cafeeira no Brasil e o processo de decadência


econômico-financeira da mineração estão relacionados? Justifique sua resposta.
_____________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________

Resposta Comentada
Apesar da elevação dos preços internacionais do café e da abundância de
terras no Vale do Paraíba, a produção de café na região não seria viável sem
os recursos ociosos da decadente atividade mineradora, com destaque para
a oferta de mão-de-obra escrava e de capitais. Afinal, o ouro encontrado no
país parecia estar se esgotando rapidamente, e toda a infra-estrutura montada
para encontrá-lo, purificá-lo e vendê-lo estava disponível.

BASES E CARACTERÍSTICAS DA PRODUÇÃO DE CAFÉ

A produção de café no Vale do Paraíba seguiu as mesmas


características básicas das demais culturas para exportação anteriormente
assentadas no Brasil. O café era cultivado em latifúndios monocultores
de base escravista, utilizando-se técnicas absolutamente precárias para a
plantação, o que destacava a forma extensiva do processo produtivo.
Tradicionalmente, o “preparo” da terra para o plantio baseava-
se na derrubada e queimada da Mata Atlântica que cobria a região,
utilizando o método vertical de plantação nas encostas, quando o
recomendado para solos montanhosos seria a plantação das mudas
em platôs ao longo da encosta. Não havia, entretanto, qualquer
cuidado adicional com a terra, já bastante desgastada pelas queimadas

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

e exposta à ação erosiva das chuvas – uma constante naquela região.


A intenção explícita dos cafeicultores era facilitar o trabalho dos escravos,
desprovidos de qualquer experiência com o plantio do café – oriundos,
em sua maioria, da atividade de mineração.
É importante perceber que essa forma de utilização da terra
impôs uma produção que ocupava áreas cada vez mais extensas, pois a
deterioração do solo tornava-se acelerada. A necessidade recorrente de
utilização de novas terras é um ponto-chave na dinâmica produtiva do
Vale do Paraíba, explicando diretamente sua expansão na direção do Oeste
paulista. De todo modo, como essas terras eram fartas e sem valor comercial
à época, este não foi um problema fundamental no início da produção.
Ao mesmo tempo, o emprego da mão-de-obra escrava não
causou maiores problemas para os produtores – havia escravos ociosos
da mineração e, posteriormente, outros foram trazidos de outras regiões
decadentes, em particular do Nordeste. Os problemas decorrentes dessa
forma de mão-de-obra, todavia, eram iminentes, pois o tráfico negreiro
vinha sendo cada vez mais combatido, o que determinava uma elevação
substancial dos preços dos escravos.

!
A Lei Eusébio
de Queiroz, de 1850,
determinando o fim do
tráfico, reduziu drasticamente
a oferta de escravos. Nem isso,
entretanto, causou uma mudança
de postura dos cafeicultores do
Vale do Paraíba, que mantiveram
a prática de trazer negros
de outras regiões
brasileiras.

Os últimos 209 escravos trazidos para o Brasil


desembarcam em Serinhaém (PE), em 1855.

78 CEDERJ

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O resultado foi que, ao final de 1877, cerca da metade dos escravos

4
do país estava nessa região. Observe, na Tabela 4.2, o crescimento do

AULA
número de escravos no Rio de Janeiro. Esse comportamento tinha
uma raiz claramente cultural, pois já vinham ocorrendo, desde 1845,
experiências com mão-de-obra imigrante (esse assunto será tratado com
mais detalhe na próxima aula). Na verdade, os produtores não foram
capazes de vislumbrar, até por questões ideológicas, a necessidade de
uma forma alternativa de trabalho, considerando a iminente escassez
de escravos após a extinção do tráfico.

Tabela 4.2: Escravos no Rio de Janeiro

Ano Número
1844 119.000
1877 370.000

Fonte: COSTA, 1989.

O crédito e a comercialização do café seguiam um esquema


CASAS
semelhante ao apresentado na cultura do açúcar. Destacava-se, assim, COMISSÁRIAS
a figura do comissário intermediando as transações entre fazendeiros, Eram os pontos de
venda do café nas
exportadores e importadores. A maior parte do lucro resultante do café
cidades. Nestas
girava em torno da comercialização do produto, a cargo dos exportadores localidades, os
comissários – que
e dos intermediários (como as CASAS COMISSÁRIAS). intermediavam o
comércio entre os
meios rural e urbano
– compravam o café
dos fazendeiros e
Entre as mais importantes Casas Comissárias, destacam-se a Prado Chaves, que revendiam o produto
era também exportadora – e, em 1910, exportou 1,5 milhão de sacas de café para compradores
–, a Whitalter & Brotero, a Companhia Intermediária de Café de Santos e a na cidade ou
Companhia Paulista de Armazéns de Santos, controlada por ingleses. no exterior. Os
As vendas para o mercado externo eram muito lucrativas, já que, em virtude comissários vendiam,
de a comunicação entre os continentes ser precária, os comissários podiam também, produtos
manipular a cotação do café. industrializados
aos fazendeiros.
Muitos deles tinham
procuração dos
fazendeiros para
comercializar
em seu nome.

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

Além disso, no que se refere ao crédito, os bancos nunca forneciam


empréstimos diretamente aos fazendeiros, que ficavam dependentes
dos comissários para auferir os recursos necessários para a produção.
Os comissários, por sua vez, seriam responsáveis pela venda do café,
recebendo uma comissão remuneradora. Isso ocorria em função das
próprias características do crédito, algo eminentemente pessoal até 1930
– o conhecimento direto e pessoal assumia uma importância muito grande
para a concessão do crédito. Os fazendeiros, residentes na área rural,
tinham poucas oportunidades para esse contato mais próximo com os
banqueiros, o que criava um mecanismo que perpetuava a intermediação
dos comissários, pois a garantia do dinheiro emprestado aos produtores
era, exatamente, a sua produção.
Inicialmente, o café era transportado por mulas, em estradas
precárias, causando perdas importantes de café e de escravos. Essa
prática era possível em função da proximidade entre as áreas iniciais de
plantio no Vale e o porto do Rio de Janeiro, como você pôde verificar
na Figura 4.1. À medida que a produção se expandia, e considerando sua
natureza extensiva, outra forma de transporte tornava-se necessária. A
Estrada de Ferro D. Pedro II foi um exemplo: foi financiada com capitais
antes empregados no tráfico de escravos e que ficaram sem aplicação
após a Lei Eusébio de Queiroz.

Atividade 3
Vendo e aprendendo: café também é cultura 2

Observe esta tela, de autoria de Cândido Portinari (1903-1962). Nela, o pintor


brasileiro retrata a maneira de produção e armazenagem do café. A partir dela,
como você descreveria a produção do café no Brasil? Na sua resposta, lembre-se
de considerar:
a) o tipo de mão-de-obra;
b) a extensão do terreno;
c) o perfil dos trabalhadores.

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4
AULA
Café, de Candido Portinari, 1935
1,30m x 1,95m. Óleo sobre tela.
Exposta no Museu Virtual da Administração

Resposta Comentada
Resposta comentada: Você reparou a quantidade de pessoas trabalhando? São
tantas que Portinari nos faz ter a impressão de que não cabem na tela. E o
tamanho do terreno? Parece não ter fim, não é mesmo? Assim era a produção
cafeeira no Brasil: em grandes extensões de terra (latifúndios), utilizando a
mão-de-bra escrava. Repare nas feições dos trabalhadores. Homens e mulheres
têm características físicas dos negros. Eram ainda os escravos, remanejados
de várias partes do país.
Viu que não existem outros tipos de plantação ao redor? A monocultura
também era outro traço marcante da produção cafeeira da época.

O DECLÍNIO DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NO VALE DO PARAÍBA

A decadência da cultura do café no Vale é explicada diretamente


pelas bases assumidas no seu processo de produção, sobretudo no que diz
respeito à utilização das terras e à mão-de-obra escrava insistentemente
empregada ao longo da segunda metade do século XIX, quando sua
oferta tornou-se definitivamente escassa.
Ao mesmo tempo, a decadência da cafeicultura implicou
a inadimplência crescente dos produtores junto aos comissários,
levando-os também a uma situação financeira complicada. A quebra
de casas comissárias, por sua vez, atingiu também bancos em que os

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

comissários descontavam títulos para obter recursos. Esse processo


foi responsável por uma importante redução da disponibilidade de
crédito para a produção, o que dificultou ainda mais a continuidade
do negócio.
Apesar de algumas tentativas de diversificação produtiva com
o algodão e o açúcar, no intuito de fugir da grande dependência da
plantação de café, a maior parte das fazendas do Vale do Paraíba mais
próximas da capital entrou em um processo irreversível de falência. Como
resultado, a produção de café passou a se concentrar, definitivamente, na
região conhecida como Oeste Paulista, assunto da próxima aula.

CONCLUSÃO

O café tornou-se rapidamente o principal produto de exportação


do Brasil no século XIX, expandindo sua cultura de maneira acelerada.
Encontrou condições excepcionalmente propícias para esse crescimento,
reunindo vantagens associadas à facilidade para sua plantação em larga
escala (pela pouca exigência de capital inicial e pela oferta abundante de
terras próximas ao porto do Rio de Janeiro). A possibilidade de utilização
de mão-de-obra escrava ociosa em outras culturas foi também um fator
altamente favorável no início da produção no Vale do Paraíba.
Em um período relativamente curto de tempo, todavia, essas
mesmas condições determinaram o fim da produção nessa região.
As terras, apesar de fartas, não eram as mais adequadas para o plantio,
tanto pela sua qualidade, quanto pela situação geográfica em encostas – a
erosão era extremamente veloz. Por seu turno, a manutenção do trabalho
escravo nas lavouras logo viria a se apresentar como um problema crucial
para a continuidade da produção, especialmente a partir do fim definitivo
do tráfico negreiro, o que reduziu substancialmente a oferta deste tipo
de mão-de-obra.

Atualmente, o Brasil é o maior produtor de café do mundo, sendo responsável


por 30% do volume total de produção. É, também, o segundo maior consumidor,
antecedido apenas pelos Estados Unidos, segundo informações do Instituto
Brasileiro do Café (IBC).

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Atividade Final

4
AULA
Contradições da economia cafeeira 1 2

Imagine que você está arrumando sua prateleira para colocar seus livros de
Administração. Você tem de tirar do lugar materiais antigos, álbuns, coisas de que
você nem se lembrava...

De repente, cai no chão um álbum antigo. Quando você vai olhar, descobre que ele
pertencia aos seus bisavós. Ao pegá-lo, cai um recorte de jornal. Ele está envelhecido,
mal se pode ler o que ele contém. A data? 18... Tomado pela curiosidade, você começa
a ler. O único trecho legível é:

“A existência do braço escravo relativamente abundante, no Vale do Paraíba, tornou-se


um fator diretamente contrário ao progresso da cultura cafeeira na região.”

Que coincidência, não? Justo o que você estudou nesta aula. Já que você acabou de
ver este assunto em detalhes, é uma hora propícia para perguntar se você concorda
com essa afirmação.

______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________

Resposta Comentada
Refeito do susto provocado pela grande coincidência – há quem diga que o acaso não
existe, principalmente nas suas aulas de FEB –, você deve ter concordado com o que se
disse no texto que você encontrou. Dois motivos contribuem, fundamentalmente, para
esse raciocínio. Primeiro, de maneira mais direta, a pouca especialização do escravo
para a lavoura cafeeira determinava o uso de técnicas precárias. Segundo, a reduzida
necessidade de buscar uma alternativa de mão-de-obra aos escravos, pois havia a
possibilidade de trazê-la de regiões onde se encontrava ociosa – mesmo após o
fim do tráfico negreiro – primeiro de Minas e depois do Nordeste.

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Formação Econômica do Brasil | Economia cafeeira escravista

RESUMO

Nesta aula, vimos que a produção de café para exportação no Brasil


encontrou uma situação especialmente favorável no início do século XIX.
Vimos também que a decadência de culturas tradicionais (veja na Tabela 4.1)
e a disponibilidade de recursos ociosos, em um contexto de elevação dos
preços internacionais do produto, permitiram um rápido crescimento de sua
cultura no País. Todavia, as condições propícias do Vale do Paraíba para seu
deslanche inicial, sobretudo a fartura de terras e a oferta de mão-de-obra
escrava, foram também responsáveis diretas para seu rápido declínio, pelo
uso inadequado dessa terra e o fim do tráfico de escravos.

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