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Amazônia: História de Exploração e Desafios

O documento discute a história da Amazônia, destacando como a região tem sido explorada economicamente em detrimento de seu povo e biodiversidade. Apesar do crescimento do PIB, a riqueza gerada não se reflete em melhorias para a população local, que enfrenta desigualdades e exploração. As políticas públicas falham em integrar desenvolvimento sustentável e conservação, resultando em danos ambientais e sociais significativos.

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Amazônia: História de Exploração e Desafios

O documento discute a história da Amazônia, destacando como a região tem sido explorada economicamente em detrimento de seu povo e biodiversidade. Apesar do crescimento do PIB, a riqueza gerada não se reflete em melhorias para a população local, que enfrenta desigualdades e exploração. As políticas públicas falham em integrar desenvolvimento sustentável e conservação, resultando em danos ambientais e sociais significativos.

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Amazônia: uma história de perdas e danos, um futuro a (re)construir

VIOLETA REFKALEFSKY LOUREIRO

A HISTÓRIA da região tem sido, da chegada dos primeiros europeus à


Amazônia até os dias atuais, uma trajetória de perdas e danos. E nela, a Amazônia tem
sido, e isso paradoxalmente, vítima daquilo que ela tem de mais especial – sua magia,
sua exuberância e sua riqueza. Não se trata de uma queixa, mas de uma constatação
simples: a Amazônia foi sempre mais rentável e, por isso, mais útil economicamente à
Metrópole no passado e hoje à Federação, do que elas o tem sido para a região.
A Amazônia foi no passado “um lugar com um bom estoque de índios” para
servirem de escravos, no dizer dos cronistas da época; uma fonte de lucros no período
das “drogas do sertão”, enriquecendo a Metrópole; ou ainda a maior produtora e
exportadora de borracha. Se a Amazônia tem gerado riqueza, a riqueza não se vê nem
se fixa nela. É verdade que tem havido um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)
da Amazônia nas últimas décadas. No caso do Pará, por exemplo, onde houve um
crescimento econômico expressivo, no ano de 1975 o PIB era US$ 2,408 bilhões e em
1987 havia ascendido a US$ 5,332 bilhões, o que significa um fantástico aumento de
121% no período.
No entanto, como o crescimento da população foi igualmente grande (face à
migração), a renda per capita que era de US$ 946,83 em 1975 passou para
US$ 959,01 em 1987, com um crescimento relativo de apenas 1,29% no período. Em
contrapartida, os recursos naturais da Amazônia vêm sendo engajados nesse esforço
de exploração da região pela União com uma força extraordinária e com grande
desperdício, já que é justamente para explorálos a custo baixo, ou próximo de zero
(como no caso da floresta), que os novos capitais vêm se dirigindo nas últimas
décadas para a região.
A viagem de Orellana (em 1549) instaura o momento fundador dos
primeiros mitos, como o das Amazonas – índias guerreiras, bravas habitantes de uma
aldeia sem homens. Outros viajantes, aventureiros e exploradores que procuravam
riquezas espalharam mundo afora mitos e fantasias. De todos, o mito mais persistente
parece ter sido sempre o da superabundância e da resistência da natureza da região.
Desde então, a Amazônia tem sido definida, interpretada, explorada, amada
e mal-amada a partir do olhar, da expectativa e da vontade do outro. As primeiras
viagens dos estrangeiros iniciam, também, um ciclo dos preconceitos que, desde então,
nunca mais abandonaram essa visão, fortemente distorcida, sobre o homem e sobre a
região, eivada de preconceitos que ficaram colados nela desde os primeiros
[Link] primeiros conquistadores e colonizadores não se conformaram em ver
aquela terra, que lhes parecia ser o paraíso terrestre, ocupada por povos que julgavam
bárbaros, primitivos, rudes, preguiçosos e, possivelmente desprovidos de uma alma!
Dos primeiros séculos da colonização aos governantes, políticos e planejadores dos
dias atuais, a história da Amazônia tem sido o penoso registro de um enorme esforço
para modificar aquela realidade original.
Ao longo do século XX, outros mitos (e também, equívocos e preconceitos)
juntaram-se àqueles dos primeiros séculos. A Amazônia foi considerada como a terra
da superabundância e o celeiro do mundo. Estrangeiros e brasileiros imaginaram que
uma floresta tão exuberante devia estar sustentada por um solo igualmente fértil.
Assim, a Amazônia poderia ser, no futuro, o celeiro do mundo – um lugar bíblico ao
qual, no período de escassez, como ocorreu no passado, todos poderiam recorrer para
dele sobreviver. Posteriormente, fizeram-nos acreditar que a Amazônia seria o pulmão
do mundo.
Gostaria aqui de citar pelo menos três grandes equívocos que estão
presentes e bastante destacados nos planos e projetos dos últimos 35 anos: • A
Amazônia seria um macro-sistema homogêneo de floresta, rios e igarapés em toda a
sua extensão; • A natureza em geral, e a floresta em especial, seria a expressão do
primitivismo e do atraso regionais; os planos governamentais estimulam, sempre, sua
substituição por atividades ditas “racionais”, produtivas; • A natureza amazônica seria
resistente, superabundante, auto-recuperável e inesgotável.
A maior riqueza da Amazônia – sua biodiversidade – tem sido, na prática,
ignorada, questionada e combatida sistemática e implacavelmente pelas políticas
públicas. Essas políticas estabeleceram uma oposição (que é, na verdade, um falso
dilema) entre desenvolvimento e conservação ambiental. O desenvolvimento
sustentável, como uma forma de desenvolvimento que satisfaz as necessidades do
presente sem comprometer as necessidades das futuras gerações, não integra as
políticas públicas como condição essencial. Quando aparece, está confinado e
limitado a alguns programas específicos dos setores e órgãos ambientais.
E, pode-se mesmo dizer, contra o futuro da região e das novas gerações que
precisarão dela para viver! A natureza não tem sido considerada como parceira e
aliada para estabelecer um real desenvolvimento da região. Ao contrário disso, a
floresta aparece nos planos e programas federais para a região nas últimas décadas ora
como um obstáculo a ser vencido, ora como simples objeto a ser explorado, ora como
um almoxarifado inesgotável de riquezas – que, portanto, não se precisa ser reposto.
Na Amazônia, não se pode desmatar sem replantar, por várias razões
combinadas, todas elas igualmente importantes. Em primeiro lugar, a copa das árvores
abranda o impacto das fortes chuvas que caem durante quase seis meses por ano na
região; os solos descobertos não resistem às intensas e constantes chuvas, que os
lavam e os deixam surpreendentemente pobres. Segundo, porque os solos vivem da
biomassa oriunda das árvores e que apodrece sobre eles, formando uma importante
camada de nutrientes; por sua vez, os solos são alimentados, também, pelos nutrientes
que escorrem pelos galhos e troncos junto com as águas. No entanto, gostaria de me
limitar àqueles que parecem exercer maior influência sobre os destinos da região e de
sua gente.
Destaco aqui os seguintes: 1º – Os governos têm entendido (o que é também
um equívoco) que o desenvolvimento é tarefa e virtude exclusiva do capital e,
principalmente, do grande capital. Mais ainda, têm entendido que somente o grande
capital teria o impulso capaz de desenvolver a região, dada sua grande extensão. O
capital e somente ele, o que exclui o homem da região, representaria riqueza.
Atraindo-se grandes capitais para a região, como uma conseqüência “natural” ter-se-ia
a riqueza econômica, da qual, a longo prazo, todos se beneficiariam. Em nenhuma
instância o modelo levou em conta que, sem uma política de desconcentração de
renda, o grande capital somente aumentaria as desigualdades sociais e a formação de
bolsões de pobreza em contraste com os grandes empreendimentos.
2º – Os abusos, as exorbitâncias e o arbítrio desse novo capital que se
instala na região são incontáveis: a criação e a recriação do trabalho escravo; a
expulsão e a morte de posseiros, índios, trabalhadores rurais em geral; a grilagem de
terras; as queimadas; a poluição de rios, lagos; e muitos outros. Contudo, sob a nova
ótica economicista, esses problemas devem ser entendidos como fenômenos
característicos de uma fase inicial do desenvolvimento amazônico, cuja tendência
seria a de desaparecerem, a longo prazo, quando o processo de desenvolvimento tiver
atingido sua fase avançada (sic)! No entanto, é visível que a superação dessa “fase”
não vem ocorrendo.
3º – Quanto à política de trabalho e emprego, para os governos vale mais a
geração de um emprego num dos novos empreendimentos recém-criados (mineração,
extração de madeiras, etc.), pois, apesar dos danos ambientais graves que provocam,
geram impostos e, assim, são preferíveis às atividades não-geradoras de impostos
como as atividades tradicionais dos caboclos da região. Tratase de uma estranha
contabilidade pública na qual os governos, ao prestarem contas à sociedade dos
investimentos feitos visando o desenvolvimento regional, apontam apenas os ganhos,
sem registrar e descontar as perdas econômicas e sociais: uma contabilidade que não
leva em conta a formação de grandes massas de desempregados, constituída pelos
habitantes naturais que ficam sem condições de permanecer em suas terras, vilas e
povoados depois de expulsos delas para que sejam implantados os grandes
empreendimentos – que, supostamente, promoverão o desenvolvimento da região.
Uma contabilidade que não considera como problema a população
migrante que, atraída pelos grandes empreendimentos, fica desempregada, formando
as periferias miseráveis das cidades amazônicas. Trata-se de uma estranha lógica que
não contabiliza os custos dos subsídios, vantagens e facilidades financeiras
concedidas pelo setor público, que sacrifica o restante da sociedade ao canalizar esses
recursos para fins privados; que não computa o desperdício dos recursos naturais
implicados no processo de atração de novos capitais para a região, nem os custos de
uma infra-estrutura que, com freqüência, serve diretamente e apenas aos
empreendimentos de grandes grupos econômicos e não à população em geral.
4º – O extrativismo vegetal tem sido considerado primitivo, antieconômico
e, por isso mesmo, pouco merecedor de apoio, modernização e aperfeiçoamento.
Assim, as políticas públicas têm entendido que deve ser substituída a mata nativa por
atividades econômicas consideradas mais “modernas”.
Não se tem promovido uma política efetiva visando enriquecer a floresta,
adensando-a com espécies rentáveis, substituindo as espécies de baixo valor
comercial por outras de elevado valor no mercado; não se cogitou de definir
claramente a forma de extração, conservação e aproveitamento da madeira, ou de
fiscalizar rigidamente a exploração madeireira, punindo sistematicamente os
infratores, para desestimular os abusos e as reincidências; e também não se tem
levado em conta, seriamente, que a Amazônia constitui-se no maior banco genético do
mundo.
E no maior reservatório de espécies florestais – o que possibilitaria o
desenvolvimento e a produção de medicamentos os mais variados, inseticidas
orgânicos, cosméticos, perfumes, novos alimentos, novas frutas e essências, enfim,
produtos industrializaddos os mais diversos e não apenas produtos semi-elaborados,
como tem sido a maioria dos produtos gerados pelos novos investimentos (e.g., a
madeira em tábuas e toras, e o minério em lingote). Para aproveitar economicamente a
floresta dessa forma, há necessidade de investimentos continuados em pesquisa e na
produção. Mas, lamentavelmente, não se estabeleceu até hoje um programa nacional
consistente, duradouro e eficiente para esse fim, embora a Amazônia seja,
sabidamente por todos, o maior banco genético do mundo. Pelo contrário, os recursos
destinados à fiscalização e à pesquisa vêm diminuindo gradativamente, enquanto
cresce o contrabando de produtos florestais para o exterior, tal como ocorreu com a
borracha no passado.
5º – Nos planos e projetos governamentais, a riquíssima biodiversidade da
natureza amazônica – ou, mais propriamente, sua mega-biodiversidade – aparece
como um elemento negativo. Para a maior parte dos empresários, seria preferível se a
natureza amazônica tivesse poucas espécies (como o cat fish, o mogno, o pau d’arco e
outras poucas espécies já conhecidas no mercado internacional). Numerosos tipos de
madeiras, com características as mais diversas; peixes de água doce e salgada, com
variados sabores, tamanho e aparência; uma enorme quantidade de essências vegetais
– tudo isso, tão variado, segundo os empresários, dificulta a comercialização, porque
o mercado internacional conhece apenas algumas poucas espécies.
No início de um novo século, a Amazônia vive uma situação sem precedentes:
a informação que circula no mundo pôs a nu os danos ambientais ao maior patrimônio
natural do planeta Terra, sem que um novo modelo substitutivo tenha sido estruturado.

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