AULA SOBRE “LER E BRINCAR, TECER E CANTAR” – YOLANDA REYES
1. Abertura (5 min)
Sugestão de introdução falada:
“Hoje, vamos conversar sobre um livro que nos convida a olhar para a literatura como
uma forma de habitar o mundo: Ler e brincar, tecer e cantar, da escritora e educadora
colombiana Yolanda Reyes. A obra nos propõe pensar a linguagem, a leitura e a escrita
não como técnicas escolares, mas como experiências vitais, afetivas e simbólicas, ligadas
à infância, à imaginação e à formação humana.”
Contextualização da autora:
• Yolanda Reyes é educadora e escritora colombiana, nascida em Bogotá.
• Licenciada em Ciências da Educação, com especialização em Literatura e pós-graduação
em Língua e Literatura Espanhola.
• É uma das vozes mais importantes da América Latina sobre leitura, infância e
subjetividade.
• Fundadora do projeto Espantapájaros, um espaço de mediação de leitura e literatura para
crianças, pais e professores.
• Sua escrita entrelaça literatura, experiência e pedagogia.
2. O mundo da linguagem e a literatura como morada (10–15 min)
Ideias centrais:
• Para Reyes, a linguagem é a casa que habitamos: ela nos reveste, nos conecta ao mundo
e nos permite expressar e significar a experiência humana.
• A literatura é parte desse “reino da linguagem”, um território simbólico onde o humano
se reconhece, se perde e se reencontra.
• A autora critica a redução escolar da literatura a resumos, listas e avaliações, que
transformam o prazer da leitura em obrigação.
Citação para comentar:
“A literatura não se faz com boas intenções, não tem compromissos com modismos, não
é para dar lições de vida, e muito menos para reforçar conteúdos escolares.”
Comentário:
Reyes nos convida a resgatar a literatura como espaço de liberdade e transgressão, em
oposição à leitura utilitária. Isso tem implicações diretas para a formação docente: ler com
as crianças é abrir o espaço da linguagem, não apenas decodificar textos.
3. Casas de palavras: a leitura como experiência subjetiva (10–15 min)
Síntese:
• Cada sujeito constrói sua própria “casa de palavras”, um modo singular de habitar a
língua.
• A leitura é uma atividade de escuta e de acolhimento, que permite que as experiências
e memórias se entrelacem com o texto.
• Não se lê um manual da mesma forma que um poema — a escola precisa reconhecer essas
diferenças e ensinar a ler poeticamente.
Citação para refletir:
“Cada um constrói sua própria casa de palavras [...] cada ser humano vai se apropriando
do código por meio de suas experiências vitais.”
Comentário:
Essa concepção desloca a leitura do campo do “ensinar a ler corretamente” para o campo
do encontro com o texto e consigo mesmo. A leitura passa a ser um ato de escuta do
outro — do texto, da criança, de si.
4. O que a literatura pode ensinar (10 min)
Síntese:
• Reyes reconhece que a literatura não transforma o mundo de forma direta, mas o torna
mais habitável.
• Em uma sociedade marcada pela pressa e pela padronização, o texto literário restaura a
interioridade e a capacidade de imaginar.
Citação:
“Embora ler literatura não transforme o mundo, pode fazê-lo ao menos mais habitável,
pois o fato de nos vermos em perspectiva e de olharmos para dentro contribui para abrir
novas portas para a sensibilidade.”
Comentário:
Aqui há uma dimensão ética e estética da literatura: formar leitores é formar sujeitos
sensíveis, capazes de compreender a si e aos outros.
5. Ler, brincar, tecer e cantar: o vínculo entre infância, imaginação e escrita (10–15
min)
Síntese:
• O título do livro resume a proposta: ler, brincar, tecer e cantar são formas irmãs de
expressão.
• Brincar e escrever são modos de habitar o mundo pela linguagem, ambos exigem
imaginação, disponibilidade e escuta.
• Nas oficinas literárias descritas por Reyes, o ponto de partida é o brincar — a
irresponsabilidade criadora que antecede a forma.
Citação:
“Quem sabe o desafio de acompanhar os outros a escrever seja devolver-lhes, em primeira
instância, o desejo de brincar e de resgatar as conexões entre linguagem e vida.”
Comentário:
Reyes propõe uma pedagogia da escrita que nasce da experiência sensível e afetiva com
a língua. A criança, o jovem — e o professor — precisam poder brincar com as palavras,
experimentar, errar, criar mundos possíveis.
6. Oficinas de criação literária: entre o brincar e o narrar
Na seção “Ler e brincar, tecer e cantar: apontamentos a partir de oficina de criação
literária”, Reyes compartilha sua prática como mediadora de escrita, descrevendo o
modo como conduz oficinas em que a criação nasce do brincar com as palavras.
Ela relata que, quando criança, passava longos períodos brincando sozinha, inventando
vozes e histórias — e que a escrita foi uma forma de continuar esse jogo na vida adulta:
“Conto às crianças que eu, como provavelmente elas fazem agora, me recolhia a brincar
sozinha por dias intermináveis, mas que quando comecei a crescer, e já não era bem-visto
brincar e fazer vozes diferentes, precisei escrever... para continuar falando sozinha.”
(p.46)
Esse relato evidencia o vínculo entre brincadeira e criação literária. Escrever é, para
Reyes, um modo de brincar com as vozes, de inventar mundos possíveis.
Nas oficinas, a autora procura criar “uma atmosfera propícia” para que os participantes
se sintam à vontade para experimentar a linguagem:
“Tento criar com meus alunos uma atmosfera propícia para que cada um se conecte com
sua necessidade de conjugar o verbo na forma irregular — digávamos —, em toda a sua
disparatada incorreção.” (p.46)
A partir dessa “irresponsabilidade inicial”, ela conduz o grupo a um processo de
organização e reescrita, até que a intuição se torne forma:
“Dificílimo, certamente - é o ofício árduo de escrever, de corrigir, de ler, de reler e
reescrever, até que essa intuição obscura resulte compreensível para qualquer leitor
alheio.” (p.49)
Ao falar desse processo, Reyes mostra que escrever é um trabalho de articulação entre
liberdade e rigor, entre a espontaneidade da infância e a consciência da linguagem.
Ela reconhece que a maior dificuldade das oficinas está na falta de familiaridade com a
língua — uma carência que a escola deveria suprir, oferecendo experiências literárias que
despertem sensibilidade e imaginação.
“As maiores dificuldades que costumamos enfrentar, alunos e professores, nas oficinas
de escrita têm a ver com a carência desse ‘treinamento’ que proporciona familiaridade
com a língua e com suas possibilidades e matrizes; [...] como um equipamento básico,
intuitivo e invisível, como uma segunda pele.” (p.51)
Reyes conclui que o papel da escola é devolver às pessoas o desejo de brincar e de
escrever, restabelecendo as conexões entre linguagem e vida:
“Quem sabe o desafio de acompanhar os outros a escrever seja devolver-lhes, em primeira
instância, o desejo de brincar e de resgatar as conexões entre linguagem e vida.” (p.52)
7. Escrever para os jovens na Colômbia: o reino da possibilidade
No final do livro, Reyes reflete sobre o ato de escrever em um contexto social marcado
por conflitos, como o da Colômbia.
Ela menciona “A infância na fronteira da guerra” e “O reino da possibilidade”, revelando
a dimensão ética e política de sua escrita.
Em meio às dificuldades e às dores coletivas, a literatura é apresentada como um espaço
de reconstrução simbólica e de afirmação da vida.
A escrita, nesse sentido, é o lugar onde o sujeito pode “acrescentar alguma linha ao
texto coletivo”, como ela diz em outro trecho:
“E se ler é tentar nos decifrar nesse texto escrito a tantas mãos, por aqueles que não mais
estão, por nós que estamos, pelos que ainda não foram e vislumbramos, escrever é tratar
de acrescentar alguma linha ao texto coletivo.” (p.38)
Reyes reafirma que a literatura é, antes de tudo, linguagem, e que a escola precisa ser um
espaço de luta e resistência para garantir o direito à palavra.
“A literatura, acima de tudo, é linguagem; a leitura deve ser uma prática livre e
transgressora, não reduzida a definições de dicionário; o papel da escola é ser um espaço
de luta e de resistência para a afirmação de direitos.” (Considerações finais)
Conclusão
Em Ler e brincar, tecer e cantar, Yolanda Reyes entrelaça literatura, infância e
educação em uma tessitura delicada e potente.
A autora nos convida a pensar a escola como um lugar de escuta, criação e liberdade,
em que ler e escrever sejam experiências de encontro com o outro e consigo mesmo.
Sua reflexão sobre as oficinas de criação literária e sobre escrever para jovens
evidencia o compromisso ético e estético da palavra: a linguagem como abrigo simbólico,
como morada e como resistência.
Ler, brincar, tecer e cantar — gestos que, em Reyes, se tornam sinônimos de viver e
educar poeticamente.
Síntese final:
• Para Yolanda Reyes, a literatura é linguagem e experiência.
• Ler e escrever são atos de escuta e de resistência: escutar o outro e resistir à lógica escolar
que quer mensurar tudo.
• A escola deve ser espaço de luta e de sensibilidade, onde ler é viver outras vidas e tecer
vínculos simbólicos com o mundo.
Fechamento possível:
“A leitura, como diz Yolanda Reyes, é o que nos devolve à nossa humanidade — uma
ponte entre o brincar e o pensar, entre o sentir e o dizer. Ler é habitar o mundo com mais
delicadeza.”