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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e
sua relação com o desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de
Guanambi (BA)
Article in Redes · December 2020
DOI: 10.17058/redes.v25i0.14953
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4 authors, including:
Leise Kelli Oliveira Leonardo Meira
Federal University of Minas Gerais Federal University of Pernambuco
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Isabelly Pinto
Federal University of Pernambuco
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DOI: 10.17058/redes.v25i0.14953
Influência dos custos de
produção e de transporte para a
agricultura familiar e sua relação
com o desenvolvimento regional:
o caso da feira municipal de
Guanambi (BA)
Leise Kelli de Oliveira
Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte – MG – Brasil
ORCID: 0000-0002-4756-4183
Isadora Alves Barbosa
Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte – MG – Brasil
ORCID: 0000-0002-5452-6791
Leonardo Herszon Meira
Universidade Federal de Pernambuco – Recife – PE – Brasil
ORCID: 0000-0002-3369-5801
Isabelly Christiny Monteiro de Souza Pinto
Universidade Federal de Pernambuco – Recife – PE – Brasil
ORCID: 0000-0003-3771-0316
Resumo
A agricultura familiar desempenha um papel fundamental na geração de renda e no
abastecimento dos centros urbanos. Contudo, ainda pouco se conhece sobre o perfil de
produtores da agricultura familiar, principalmente da região Nordeste do Brasil. Diante
disso, neste artigo é analisado a influência regional da feira municipal de Guanambi (BA),
formada em sua maioria por agricultores familiares. As análises foram fundamentadas em
dados de pesquisa de campo com agricultores familiares e consumidores da feira livre de
Guanambi (BA), além de observações no local. Entre os resultados obtidos, identificou-se
que a feira livre de Guanambi desempenha articulações urbanas e regionais com diversos
municípios e localidades rurais circunvizinhas, pois a maioria das propriedades rurais
localizam-se até 100 km da feira de Guanambi. Os agricultores familiares em sua maioria
desconhecem custos de produção e transporte, confirmando precariedade na gestão e no
controle dos custos nas propriedades agrícolas familiares. Em relação aos consumidores, a
qualidade dos produtos e o preço das mercadorias atraem consumidores de até 19 km de
Guanambi. Contudo, a falta de transporte intermunicipal é um fato observado nas viagens
tanto de produtores quanto de consumidores. Os resultados deixam evidente a
importância do aprimoramento das de políticas públicas com a inclusão de programas de
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Leise Kelli de Oliveira, Isadora Alves Barbosa, Leonardo Herszon Meira, Isabelly Christiny Monteiro
de Souza Pinto
gestão financeira e de cálculo de custos de transportes para a consolidação da agricultura
familiar no contexto regional.
Palavras–chave: Agricultura familiar. Feira livre municipal. Custos de transporte e produção.
Influence of production and transportation costs for family farming and its relationship
with regional development: the case of the municipal marketplace in Guanambi (BA)
Abstract
Family farming plays a key role in the generation of income and supplying urban centres
with fresh food. However, the knowledge about the profile of family farmers, especially in
the Northeast of Brazil is scarce. In light of this, this paper analyzes the regional influence of
the Guanambi (BA) municipal marketplace, formed mostly by family farmers. The analyzes
were based on data from field research with family farmers and consumers at the free
market in Guanambi (BA), in addition to on-site observations. Among the results, it was
identified that the Guanambi marketplace contributes to regional development since most
rural properties are located within 100 km of the Guanambi. Most family farmers are
unaware of production and transportation costs, confirming the precariousness of the
management and control of costs on family farms. Regarding consumers, the quality of
products and the price of goods attract consumers up to 19 km from Guanambi. However,
the lack of intercity transport is observed in the transportation mode used by producers
and consumers. The results make evident the importance of improving public policies with
the inclusion of financial management programs and transportation cost calculations for
the consolidation of family farming in the regional context.
Keywords: Family farming. Open market. Production and transportation cost.
Influencia de los costos de producción y transporte para la agricultura familiar y su
relación con el desarrollo regional: el caso de la feria municipal de Guanambi (BA)
Resumen
La agricultura familiar juega un papel clave en la generación de ingresos y el suministro de
centros urbanos. Sin embargo, se sabe poco sobre el perfil de los agricultores familiares,
especialmente en el noreste de Brasil. A la luz de esto, este artículo analiza la influencia
regional de la feria municipal de Guanambi (BA), formada principalmente por agricultores
familiares. Los análisis se basaron en datos de investigaciones de campo con agricultores
familiares y consumidores en el mercado libre en Guanambi (BA), además de observaciones
in situ. Entre los resultados obtenidos, se identificó que el mercado abierto de Guanambi
tiene vínculos urbanos y regionales con varios municipios circundantes y ubicaciones
rurales, ya que la mayoría de las propiedades rurales se encuentran dentro de los 100 km de
la feria de Guanambi. La mayoría de los agricultores familiares desconocen los costos de
producción y transporte, lo que confirma la precariedad en el manejo y control de los
costos en las granjas familiares. En cuanto a los consumidores, la calidad de los productos y
el precio de los bienes atraen a consumidores de hasta 19 km de Guanambi. Sin embargo, la
falta de transporte interurbano es un hecho observado en los viajes tanto de productores
como de consumidores. Los resultados ponen de manifiesto la importancia de mejorar las
políticas públicas con la inclusión de programas de gestión financiera y cálculos de costos
de transporte para la consolidación de la agricultura familiar en el contexto regional.
Palabras clave: Agricultura familiar. Mercado abierto municipal. Costos de producción y
transporte.
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
1 Introdução1
Com o aumento da população nos centros urbanos é recorrente a
preocupação com o abastecimento urbano em quantidade e qualidade de produtos.
Nesse contexto, a agricultura familiar desempenha um importante papel,
produzindo os produtos básicos na alimentação do brasileiro, como mandioca,
feijão e milho fornecidos majoritariamente por fazendas de agricultura familiar
(IBGE, 2006). Além disso, a agricultura familiar contribui na manutenção e geração
de empregos, diminuição do êxodo rural e geração de recursos para as famílias de
baixa renda (OLIVEIRA et al., 2016).
Apesar da discussão sobre a agricultura familiar ter ganhado visibilidade em
decorrência de questões associadas ao desenvolvimento sustentável, geração de
emprego e renda, segurança alimentar e desenvolvimento regional, existe a
necessidade de estudos específicos em virtude da heterogeneidade do setor
agrícola familiar (MACHADO; SILVA, 2004). Segundo Ferreira et al. (2009), trabalhos
que caracterizam a agricultura familiar em regiões pouco estudadas são relevantes,
uma vez que esses podem atuar como um instrumento confiável para a elaboração
de políticas públicas de desenvolvimento regional, por retratar as especificidades e
a realidade local.
Para Santos et al. (2015), as políticas de estímulo à agricultura, pesquisa,
tecnologias, sistemas de financiamento e comercialização agrícola visam a
industrialização brasileira e são destinadas, em sua maioria, à atividade agrícola em
grande escala, muitas vezes desconsiderando a agricultura familiar. Deste modo,
embora a agricultura familiar desempenhe um papel econômico e social muito
importante (OLIVEIRA et al., 2016), tanto em escala regional quanto nacional, a
realidade do setor é frequentemente marcada por dificuldades de escoamento da
produção (MACHADO; SILVA; 2004). De acordo com Machado e Silva (2004), o
transporte e a distribuição são os principais problemas que os produtores agrícolas
familiares encontram para atuarem no mercado. Além disso, alguns produtos, como
por exemplo, as hortaliças, geram maior dificuldade para distribuição por
apresentarem alta perecibilidade e podem prejudicar o desenvolvimento regional.
As feiras são uns dos principais canais de comercialização dos produtos da
agricultura familiar (RIBEIRO et al., 2014; CRUZ et al., 2020), sendo importantes na
diversificação da economia local, na geração de renda para os agricultores
familiares e na oferta de alimentos saudáveis para os residentes das áreas urbanas.
As feiras livres são pontos de venda tradicionais que atuam como alternativas para
o produtor vender seus produtos diretamente ao consumidor (MACHADO; SILVA,
2004), possibilitando maior proximidade entre produtores e consumidores, maior
lucro ao agricultor familiar e menor preço ao consumidor (NASCIMENTO; BESKOW,
2015).
Neste contexto, este artigo tem como objetivo analisar a influência dos
custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
1
Este artigo traz os principais resultados da dissertação de mestrado da segunda autora, orientada
pela primeira autora Curso de Mestrado em Geotecnia e Transportes da UFMG. Os demais coautores
contribuíram com a revisão de literatura e participaram conjuntamente da análise e discussão dos
dados.
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Leise Kelli de Oliveira, Isadora Alves Barbosa, Leonardo Herszon Meira, Isabelly Christiny Monteiro
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desenvolvimento regional, analisando o caso da feira municipal de Guanambi (BA).
O intuito é mostrar a influência regional de uma feira municipal cujos comerciantes
são, em sua maioria, agricultores familiares e a importância de políticas públicas
para a consolidação desse tipo de comércio para o fortalecimento da agricultura
familiar em um contexto regional. Guanambi (BA) foi escolhida para esse estudo por
ser um subcentro regional definido pelo IBGE (2008). Além disso, nada leva a crer
que a situação ora estudada seja diferente em outros polos regionais brasileiros.
Além do objetivo proposto, este trabalho contribui para reduzir a carência de
estudos com foco na agricultura familiar para o abastecimento urbano (OLIVEIRA et
al., 2016). Ainda, este artigo apresenta um perfil dos agricultores familiares e dos
consumidores da feira municipal de Guanambi (BA). Petrini et al. (2017) salientam a
importância da identificação da realidade por meio do próprio agricultor familiar,
conforme é realizado neste estudo para aqueles que comercializam na feira
municipal de Guanambi (BA).
Para atingir o objetivo proposto esse artigo está estruturado em 7 seções.
Após esta introdução, a seção 2 faz uma revisão sistemática da literatura sobre a
influência do transporte na agricultura familiar. Em seguida a seção 3 caracteriza a
região de Guanambi (BA). A seguir, apresenta-se a metodologia utilizada nesse
trabalho. A seção 5 apresenta o perfil dos agricultores familiares que atuam na feira
livre de Guanambi, discutindo a influência dos custos de produção e de transporte
para a agricultura familiar e sua relação com o desenvolvimento regional. Já a seção
6 traça um perfil dos consumidores da feira livre de Guanambi e discute a
importância deles para a consolidação da agricultura familiar. Por fim, a seção 7 tece
as considerações finais e traz recomendações para trabalhos futuros.
2 A influência do transporte na agricultura familiar
À medida que a população mundial aumenta, as áreas rurais tendem a
acompanhar esse crescimento para abastecer os centros urbanos. Como
consequência, a agricultura familiar pode ter vantagem na produção e fornecimento
de produtos para mercados próximos aos locais de produção, visto que quanto
menor a distância percorrida entre o campo e os locais de abastecimento, menor
será o custo de transporte (CURRAN-COURNANE et al., 2016).
Neste sentido, áreas produtoras em regiões densamente povoadas e com
alta concentração de renda têm um acesso preferencial aos grandes mercados,
além de reduzidos custos de transporte. Há dessa forma, uma relação positiva entre
o grau de urbanização e a perpetuidade das empresas agrícolas (BERTONI;
CAVICCHIOLI, 2016). Segundo Faús (2014), dados geográficos e variações
socioeconômicas são influenciadas pelas ligações rurais-urbanas e suas condições.
O transporte é o meio de ligação das áreas produtoras da agricultura familiar
e os locais de comercialização. A precariedade no armazenamento e no transporte
são os principais processos responsáveis por grande parte da perda da produção
proveniente da agricultura familiar (MICCOLI et al., 2016). Contudo, poucos são os
agricultores familiares que tem conhecimento além do processo de plantio e
colheita, incluindo informação sobre o processo de transporte e comercialização
dos produtos (CURRAN-COURNANE et al., 2016). Esta falta de conhecimento
acarreta um elevado grau de informalidade, com precificação dos produtos sendo
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
um resultado do ambiente e não dos custos envolvidos. As dificuldades encontradas
pelos agricultores, principalmente associadas ao transporte e acesso ao mercado
consumidor e as vantagens da produção próximo ao mercado consumidor são
relatadas por Michalscheck et al. (2018), Bertoni e Cavicchioli (2016), Miccoli et al.
(2016), Coelho e Favareto (2008) e Faús (2014).
A relação entre a distância do estabelecimento rural ao mercado consumidor
e o lucro foi foco dos estudos de Bromley (2009), Grande (2011) e Pölling et al.
(2017), avaliando os obstáculos associados às grandes distâncias entre as
propriedades rurais e o centro urbano, tais como a dificuldade na venda da
produção e a redução dos lucros em decorrência dos elevados custos de transporte.
O impacto da distância na rentabilidade, no tipo de produção agrícola e padrões de
uso da terra foi analisado por Vandercasteelen et al. (2017), Headey e Jayne (2014),
Garrett et al. (2013), Taiwo (2014), Abdullah et al. (2017), Holland et al. (2016),
Krishna et al. (2017) e Babigumira et al. (2014). As vantagens da proximidade entre a
propriedade agrícola e o mercado, conforme proposto nas redes alimentares
alternativas (AFNs) e nas áreas agrícolas peri-urbanas foi analisado por Paül et al.
(2013), Newman et al. (2015) e Wästfelt et al. (2016). Coelho e Favareto (2008)
analisaram as dificuldades de acesso aos mercados consumidores de produtos
agrícolas e a atuação de intermediários na região do Vale da Ribeira no Estado de
São Paulo. Não foi identificado estudo para o nordeste brasileiro, onde há intensa
atuação agrícola familiar e onde concentram-se 47,2% dos produtores agrícolas
familiares (IBGE, 2017).
Os estudos analisados permitem concluir que a literatura margeia as
questões referentes a importância do transporte para a agricultura familiar,
confirmando a necessidade de estudos para compreender a importância do
transporte para a agricultura familiar. Apesar de ser uma temática com relevância
social e científica, a maioria dos estudos priorizam o agronegócio e as grandes
fazendas ou temas como cooperativas e agricultura orgânica. A influência do
transporte para a agricultura familiar, principalmente sobre o aspecto do pequeno
agricultor familiar ainda carece de estudos, reafirmando a importância deste
trabalho. Desta forma, este artigo pretende contribuir para reduzir esta lacuna, por
meio de um estudo no município de Guanabi (BA).
3 Caracterização do município de Guanambi (BA)
O município de Guanambi está distante 796 quilômetros de Salvador e é
interligado à capital pelas rodovias BR-030, BA-262 e BR-324. A proximidade com os
municípios de Caetité, Palmas de Monte Alto, Pindaí e Candiba faz com que atue
como uma forte influência na área comercial (IBGE, 2010). O potencial econômico
do município está relacionado ao comércio e à prestação de serviços, configurando
a cidade como polo regional. Um dos fatores que contribui para a cidade adquirir
esse perfil é sua localização, interligando o estado da Bahia a Minas Gerais, atuando
como importante rota de escoamento de mercadorias.
Segundo o IBGE (2010), a população de Guanambi era de 78.833 habitantes
em 2010, sendo estes distribuídos 79% na área urbana e 21% na rural. Em termos de
influência regional, o município de Guanambi é classificado como centro sub-
regional A, que no Brasil é composto por 85 cidades, onde cada uma delas possui,
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em média, 95 mil habitantes e 112 relacionamentos (IBGE, 2008). Ademais, a
categoria caracteriza-se por ofertar uma grande diversidade de serviços nos setores
do comércio, educação, saúde, jurídica, transporte e outros, atraindo pessoas da
região.
A cidade de Guanambi exerce influência sobre o centro sub-regional B, Bom
Jesus da Lapa; sobre os centros de zona A, Caetité, Santa Maria da Vitória e
Macaúbas; sobre os centros de zona B, Ibotirama e Caculé. Influencia também os
centros locais: Candiba, Carinhanha, Feira da Mata, Iuiú, Jacaraci, Malhada, Matina,
Palmas de Monte Alto, Pindaí, Riacho de Santana, Sebastião Laranjeiras, Urandi,
Licínio de Almeida, Mortugaba, Rio do Antônio, Ibiassucê, Botuporã, Igaporã, Lagoa
Real, Tanque Novo, Paratinga, Serra do Ramalho e Sítio do Mato (IBGE, 2008).
No contexto da agricultura familiar, Pereira (2010) analisou a expansão do
município de Guanambi e identificou o papel expressivo desempenhado pela
agricultura e pelo comércio. Segundo o autor, o município de Guanambi é
tradicionalmente associado à força do seu centro comercial. Esse fenômeno fica
mais evidente nas segundas e quintas-feiras, dias mais tradicionais de feira livre no
município e onde há uma grande atração de pessoas de outras cidades,
impulsionando o comércio local (PEREIRA, 2013).
No tocante aos produtos cultivados, segundo informações do sistema de
dados estatísticos (SIDE, 2018), as culturas que obtiveram maiores volumes de
produção na cidade em 2016 foram o tomate e a banana, com 67% e 12%
respectivamente. Atualmente, o Mercado Municipal de Guanambi, onde a feira livre
é realizada, comercializa além de produtos originários da agricultura, carnes, peixes,
leite e derivados, utensílios domésticos, dentre outros, atraindo compradores e
vendedores de locais variados.
4 Metodologia
O estudo ora apresentado caracteriza-se como exploratório, pois realizou-se
um estudo de caso, descrevendo as características envolvidas da agricultura familiar
para o abastecimento da feira livre de Guanambi. Para tal, os dados foram coletados
aplicando-se questionários aos feirantes (pequenos agricultores familiares) e aos
consumidores dos produtos comercializados na feira livre. O questionário foi
elaborado para permitir relacionar questões relacionadas ao transporte e
comercialização dos produtos da agricultura familiar, com o local de
comercialização (no caso, a feira livre) e o perfil dos consumidores. A Figura 1
apresenta as principais informações obtidas por meio do questionário com a
pesquisa de campo.
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
Figura 1: Principais informações obtidas com o questionário na pesquisa de campo
• Modo de transporte
utilizado para o escoamento
da produção;
• Distância percorrida até o
ponto de comercialização;
• Local de origem do Feira Livre • Motivações para comprar na
agricultor familiar;
feira livre;
• Produtos comercializados;
• Local de origem;
• Preço de venda da
mercadoria; • Funcionamento; • Modo de transporte utilizado
• Infraestrutura; para chegar à feira livre.
• Opinião sobre a qualidade
das estradas; • Questões relativas à
• Concepção sobre gestão na acessibilidade.
propriedade.
Consumidores
Agricultores
Familiares
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
A aplicação do questionário aconteceu in loco, entre os meses de março e
agosto de 2018. Na feira livre de Guanambi há comerciantes que são agricultores
familiares e comercializam produtos produzidos em suas propriedades rurais e
outros comerciantes que apenas compram produtos para revenda. Do total de
comerciantes abordados para responder o questionário, 68% eram agricultores
familiares. A amostra foi dimensionada para uma confiança de 90% e 5% de erro
amostral. Com isso, da população de 265 agricultores familiares da feira de
Guanambi, foi estimado uma amostra de 140 para aplicação dos questionários. Em
relação aos consumidores não foi possível estimar a população que frequenta a
feira. Desta forma, dimensionou-se a amostra para uma população infinita, o que
gerou a necessidade de, pelo menos, 276 respostas.
As informações obtidas foram analisadas com estatística descritiva e
espacial. A estatística descritiva permitiu caracterizar os produtores da agricultura
familiar e consumidores. A estatística espacial, por meio de mapas de calor, permitiu
mostrar a influência regional do caso em estudo. Finalmente, os resultados obtidos
foram comparados com a literatura pertinente.
5 A influência dos custos de produção e de transporte para os agricultores
familiares
Os produtores cultivam frutas, legumes e hortaliças, sendo usual a produção
de mais de uma cultura. Dos produtos produzidos, 38% são legumes, 34% são frutas
e 28% hortaliças. Já entre os produtos comercializados, 47% são legumes, 30% são
frutas e 23% são hortaliças. Por fim, entre os produtos mais vendidos, 45% são
legumes, 39% são frutas e 16% são hortaliças.
Os agricultores familiares cultivam esses produtos, em média, há 25 anos,
sendo que o tempo mínimo exercendo a atividade é de 3 anos e o tempo máximo é
de 60 anos (Figura 2a). Em relação ao tempo comercializando os produtos na feira,
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Leise Kelli de Oliveira, Isadora Alves Barbosa, Leonardo Herszon Meira, Isabelly Christiny Monteiro
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o tempo médio é de 12 anos (±11 anos), sendo que o tempo mínimo pesquisado é de
1 ano de atividade na feira. A quantidade de clientes no local é o principal motivo
para 49% dos agricultores familiares comercializarem na feira (Figura 2b). Além
disso, os agricultores consideram o ambiente agradável e frequentado por famílias
e clientes que com o tempo se tornaram amigos.
Figura 2: Tempo como agricultor familiar e comercializando na Feira de Guanambi
(a) e motivos para a comercialização dos produtos na Feira (b)
> 40 anos
31-40 anos
21-30 anos
11-20 anos
6-10 anos
Até 5 anos
0% 10% 20% 30% 40%
Comercialização Produção
(a) tempo de produção e comercialização
Clientes 49%
Ambiente agradável 34%
Facilidade de acesso 14%
Comercializar produtos que
3%
não são comuns na região
0% 20% 40% 60%
(b) motivos para comercialização na Feira
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
Quanto à frequência com que os agricultores familiares comercializam na
feira livre de Guanambi, 15% vendem todos os dias, 23% vendem três vezes por
semana, 35% vendem duas vezes na semana, 24% apenas uma vez e 3% adotam outra
periodicidade. Ressalta-se ainda que há comerciantes que comercializam produtos
todos os dias da semana na feira livre. No entanto, os dias de maior movimento são
domingos, segundas e quintas-feiras.
Com relação ao local de origem dos agricultores familiares que
comercializam na feira, 30% vêm do distrito de Morrinhos, pertencente ao próprio
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
município de Guanambi. Ainda, Candiba, Ceraíma e Palmas de Monte Alto são a
origem de 17%, 14% e 7%, respectivamente, dos agricultores familiares (Figura 3).
Estes resultados mostram a atratividade regional da feira no que tange aos
agricultores familiares.
Figura 3: Origens dos agricultores familiares comerciantes na feira de Guanambi
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
O tempo médio de viagem é inferior a 60 minutos para 74% dos agricultores
familiares, sendo que 39% gastam até trinta minutos durante o deslocamento, 35%
gastam entre 31 e 60 minutos, 11% gasta entre 60 e 120 minutos e 15% gasta mais de
duas horas. Em termos de distância, 57% dos agricultores familiares percorrem
menos de 30 quilômetros, 15% percorre entre 31 e 50km, 9% percorre entre 51 e
100km, 15% entre 100 e 200km e 4% percorre mais de 200km para chegar em
Guanambi. A correlação de Pearson entre o tempo de viagem e a distância
informada pelos entrevistados é de 0,97, indicando que os valores declarados estão
relacionados. A velocidade média da amostra é de 48 km/h.
Em decorrência do número de viagens geradas pela feira livre de Guanambi,
esta pode ser caracterizada como um Polo Gerador de Viagem (PGV), que são
empreendimentos que atraem ou produzem grande número de viagens (OLIVEIRA
et al., 2017), impactando negativamente na circulação viária do seu entorno e, em
certos casos, dificultando a acessibilidade.
A análise dos impactos dos Polos Geradores de Viagem desempenha um
papel importante no planejamento urbano, pois atua sobre as condições de
circulação de pessoas e mercadorias (OLIVEIRA et al., 2017). Dessa forma, a
identificação da área de influência do Polo Gerador de Viagem e a antecipação dos
seus impactos podem subsidiar as atuações relativas ao planejamento urbano e ao
desenvolvimento de políticas públicas. Assim, a Figura 4 mostra a área de influência
da feira de Guanambi, considerando a origem dos agricultores familiares. Esta área
equivale a 68.228 km², aproximadamente. A sobreposição da área delimitada pelo
mapa de calor da região de influência dos agricultores familiares e a delimitada pelo
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Leise Kelli de Oliveira, Isadora Alves Barbosa, Leonardo Herszon Meira, Isabelly Christiny Monteiro
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REGIC (IBGE, 2008), indica que a primeira é superior, ou seja, a feira exerce
influência sobre uma área superior à área composta pelo centro sub-regional B, os
centros de zona A, centros de zona B e sobre os centros locais determinados no
estudo do REGIC.
Figura 4: Região de influência dos agricultores familiares e comparação com região
delimitada pelo REGIC
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
Ainda segundo a pesquisa, os agricultores familiares utilizam diferentes tipos
de veículos para transportar as mercadorias até a feira de Guanambi. As
caminhonetes predominam, com 54% das viagens. Além disso, é comum serem
utilizados “carros de frete” (com 17% das viagens), isto é, micro-ônibus e vans
fretados que realizam viagens conduzindo pessoas de localidades próximas para
Guanambi. Automóveis próprios (10%), motocicletas próprias (7%), Kombis (5%) e
pessoas a pé (1%) complementam a amostra pesquisada.
Uma questão econômica que chamou a atenção na pesquisa é que a maioria
dos produtores entrevistados (79%) não conhece o custo de transporte das
mercadorias da propriedade rural para a feira livre de Guanambi. Os agricultores
familiares que conheciam esse custo (21%) eram, em sua maioria, aqueles que
utilizavam veículos fretados e indicavam o custo pago pelo frete como o custo de
transporte. Outros estimavam o custo de transporte baseando-se na distância
percorrida, o consumo de combustível do veículo e o preço do combustível,
desconsiderando aspectos como custos de manutenção, licenciamento,
depreciação do veículo, dentre outros. A média de custo de transporte declarado é
de R$ 18,94, para o trajeto de ida e volta.
Outro resultado que merece destaque é que os agricultores familiares não
utilizam lógica de precificação das mercadorias. Todos os entrevistados afirmaram
que não sabem estimar o custo médio de produção de uma caixa do produto mais
vendido na feira livre, pois, segundo eles, por se tratar de uma propriedade familiar,
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
os custos variam e são distribuídos dentre as diversas culturas cultivadas no local.
Os agricultores familiares informaram que não existe distinção entre o produto
vendido (excedente) e o destinado ao consumo próprio. Dessa forma, não há
controle de quanto é produzido para comercialização e para consumo próprio.
Desta forma, é difícil estimar um valor justo e ao mesmo tempo lucrativo, por
desconhecerem os custos envolvidos no processo, desde a plantação até a
comercialização.
Consequentemente, os agricultores familiares tornam-se reféns dos preços
dos produtos trazidos por outros feirantes de CEASAS (centrais de abastecimento
regionais) para revenda e dos próprios consumidores que, por uma questão
cultural, associam feira livre a baixos custos. Apesar disto, a correlação entre o
preço de venda do produto mais vendido e a distância da propriedade agrícola é de
0,89, indicando que apesar de não existir sistemática de precificação, quanto mais
longe a localização da propriedade, maior é o preço de venda deste produto. Além
disso, pode-se entender também que os produtos mais perecíveis (e também mais
baratos), como verduras e leguminosas, são produzidos nas proximidades de
Guanambi. As frutas (como abacaxi, laranja, melancia) são produzidas, em sua
maioria, a mais de 100 km da feira de Guanambi, tendo, também, os maiores valores
de venda.
Pensando em termos de desenvolvimento regional, é importante que os
produtos sejam cultivados em diferentes locais e em municípios próximos como foi
verificado em Guanambi. Isso é relevante para a cadeia de abastecimento e propicia
melhores condições de vida para os agricultores familiares, uma vez que não os
obriga a se mudar para a cidade-polo regional (que normalmente tem custo de vida
mais alto). Nesse contexto, Silva e Paula (2018) salientam que o jovem rural vê ainda
a possibilidade de continuar sua atividade produtiva sem abandonar a propriedade
rural. Os autores complementam dizendo que essa forma descentralizada de
agricultura familiar também viabiliza o cumprimento da Lei Federal nº. 11.947/2009
que trata da compra de, no mínimo, 30% dos produtos da agricultura familiar para a
alimentação escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)
e a participação no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
A pesquisa também obteve a percepção dos agricultores familiares sobre
alguns problemas vivenciados na sua rotina. Essas questões influenciam,
diretamente e indiretamente, o transporte das mercadorias da propriedade rural à
feira livre de Guanambi. Os resultados apresentados na Tabela 1 indicam que as
condições das estradas e o custo de transporte é percebido pelas pessoas como
ruim e péssimo. Esta percepção faz-se verdadeira quando comparada com os
resultados da pesquisa de rodovias da Confederação Nacional do Transporte (CNT,
2018), que avaliou os trechos de acesso ao município de Guanambi com estado geral
regular, impactando negativamente o acesso ao município.
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Tabela 1: Problemas vivenciados pelo pequeno agricultor familiar
Problemas Ótimo Bom Ruim Péssimo Não sabe opinar
Condição das estradas 2% 42% 23% 33% 0%
Custo de transporte 0% 6% 32% 49% 13%
Valor de venda do produto 1% 44% 46% 2% 7%
Rentabilidade do negócio 1% 40% 31% 1% 27%
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
O valor de venda do produto é avaliado como ruim pelo produtor, mesmo
não sabendo precificar os produtos. No entanto, os mesmos produtores percebem
a rentabilidade como sendo boa. Vale comentar que o agricultor familiar que
comercializa na feira livre de Guanambi paga uma taxa mensal de R$ 13,68 para a
Prefeitura. Essa taxa serve para contribuir com os custos de manutenção do local da
feira, tais como limpeza, manutenção dos banheiros e da rede elétrica. De acordo
representantes da Prefeitura Municipal de Guanambi que atuam no Mercado
Municipal, são gastos R$ 80.000,00 por mês com as despesas de manutenção do
local. Além da taxa paga mensalmente à Prefeitura Municipal de Guanambi, os
feirantes que utilizam balança também pagam um imposto federal ao INMETRO
(Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). Especificamente na
Bahia, o órgão responsável pelo controle e fiscalização dessas balanças é o
IBAMETRO (Instituto Baiano de Metrologia e Qualidade). Durante as entrevistas,
verificou-se que a minoria dos agricultores familiares que comercializam na feira
livre de Guanambi utiliza balanças, utilizando medidas alternativas como o litro,
sacos com quantidades específicas e a contagem por dúzias.
O transporte dos produtos até a feira percebido em Guanambi é um ponto
de dificuldade já relatado em outros estudos. Por exemplo, segundo Ciro et al.
(2013), os agricultores de Viçosa (MG) relatam que as estradas que dão acesso às
comunidades rurais de Viçosa (MG) encontram-se em más condições o que
prejudica o escoamento da produção. Além disso, a gestão dos custos dos
empregados na produção, incluindo transporte, não é realizada pelos produtores, o
que implica em desconhecer o ganho real com a produção, fazendo com que os
agricultores tenham dificuldades e insegurança no processo de vendas para o PNAE.
Já segundo Izumi et al. (2008), os procedimentos logísticos para a compra de
alimentos diretamente dos agricultores têm sido relatados como uma das principais
preocupações e desafios na aquisição de alimentos locais.
Assim, os resultados obtidos nesta parte da pesquisa confirmam a
precariedade na gestão e no controle dos custos nas propriedades agrícolas
familiares, conforme identificado por Chemin e Ahlert (2010), Medeiros et al. (2012)
e Santos et al. (2014). De acordo com Chemin e Ahlert (2010), frequentemente o
agricultor familiar não distingue os gastos pessoais e do empreendimento, o que
pode gerar prejuízos na atividade. Comumente, o pequeno agricultor não
contempla todos os custos associados à atividade agrícola, tais como custos com
sementes, combustível, fertilizantes, energia elétrica e depreciação de
equipamentos (MEDEIROS et al., 2012), desconhecendo o custo real da produção
para precificação dos produtos (SANTOS et al., 2014). Ademais, geralmente os
agricultores familiares determinam os preços de venda dos seus produtos baseados
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
no preço de mercado, sem especificar a ocorrência de lucro ou prejuízo (MEDEIROS
et al., 2012).
Neste contexto, parece seguro afirmar que não basta apenas investir em
capacitação para a produção e manejo. Deve-se investir também em capacitação de
gestão da propriedade agrícola para que a atividade seja lucrativa para o agricultor
familiar. Esse contexto já tinha sido explorado em outros estudos, como em Santos
et al. (2019), que demonstraram a importância da gestão financeira para a
agricultura familiar em sistemas agroflorestais. Nessa perspectiva, constata-se a
necessidade de políticas públicas que promovam o desenvolvimento econômico
dos agricultores familiares, via capacitação dos produtores, propondo alternativas
sustentáveis e viáveis economicamente, conforme as especificidades locais
(SANGALLI; SCHLINDWEIN, 2013).
Contudo, essa não parece ser uma tarefa fácil. Lunas et al. (2017) destacam o
universo agrário brasileiro como um espaço extremamente complexo, seja em
função da grande diversidade da paisagem (meio físico, ambiente, variáveis
econômicas, entres outros fatores), seja em virtude da existência de diferentes
tipos de atores sociais (camponês, posseiro, agricultor familiar, dentre outros), que
têm interesses particulares e estratégias próprias de sobrevivência e de produção.
Os níveis de escolaridade das pessoas envolvidas na atividade e a existência e
constituição das instituições locais ou regionais de apoio à agricultura familiar
também variam muito.
No contexto nacional, Oliveira et al. (2020) colocam que em termos de
agricultura familiar distinguem-se: (a) o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA),
instituído pela Lei Federal nª. 10.696/2003, que articula a compra de alimentos da
agricultura familiar com ações de segurança alimentar para populações em situação
de vulnerabilidade social; (b) o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE),
que é uma das mais antigas e permanentes intervenções governamentais federais
de suplementação alimentar (SPINELLI e CANESQUI, 2002) e que, desde 2009,
assegura que, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento
da Educação (FNDE) para a alimentação escolar deve ser aplicado na aquisição de
alimentos da agricultura familiar; e (c) a Compra Institucional, assegurada pelo
Decreto Federal nº. 8.473/2015, que estabeleceu que todos os estabelecimentos da
administração federal, que compram ou forneçam alimentos, devem direcionar,
igualmente, pelo menos 30% dos recursos para a agricultura familiar (SWENSSON,
2019; PEREZ-CASSARINO et al., 2018; TEO; TRICHES, 2016).
Analisando a inclusão da agricultura familiar na alimentação escolar no
Estado de São Paulo, Belik e Corá (2012) apontam que apesar do objetivo da nova lei
de injetar mais recursos na região por intermédio dos produtores rurais
(promovendo um círculo virtuoso de aquecimento da economia local, gerando mais
ocupações e oportunidades, apoiando os agricultores a ingressarem em outros
mercados além do institucional), os bons propósitos na prática são de difícil
realização quando se tratar de grandes municípios, com dificuldades logísticas para
abastecer as escolas, dado o número de pontos de entrega, as dificuldades de
armazenamento dos produtos, condições de manipulação, transporte e outros
(TRICHES et al., 2019).
A questão é que nenhum desses programas e políticas públicas existentes no
contexto nacional atua na questão do transporte para o agricultor familiar. Além
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disso, o Brasil é um país onde o sistema de transporte público intermunicipal de
passageiros é precário e isso faz com que os agricultores familiares precisem buscar
alternativas para comercializar seus produtos. Esse quadro, aliada à questão da
baixa escolaridade dos agricultores familiares, dificulta ainda mais a gestão do custo
real da produção e a correta precificação dos produtos.
Contudo, observam-se algumas estratégias de ordem regional/local. Por
exemplo, o NEDET do Sudoeste Goiano elaborou alguns projetos para ajudar na
comercialização, no armazenamento, na logística e no abastecimento de produtos
da agricultura familiar (LUNAS et al., 2017). Já Oliveira et al. (2020) detalham
experiências como o estabelecimento dos chamados circuitos ou canais curtos de
comercialização, focados em estratégias variadas de aproximação agricultor
consumidor e na prioridade ao abastecimento local e regional, na valorização da
produção local e na compreensão da sazonalidade produtiva regional (MEIRELLES,
2004; PEREZ- CASSARINO, 2004; SOLER e CALLE, 2010). Neste sentido, ressalta-se a
importância de desenvolver políticas públicas para implementação de programas de
gestão financeira e de cálculo de custos de transportes para os agricultores
familiares.
6 A importância dos consumidores para a consolidação da agricultura familiar
Além da caracterização do agricultor familiar comerciante na feira livre de
Guanambi buscou-se ainda caracterizar os consumidores do local. Em termos de
faixa etária, 3,60% dos consumidores declararam possuir menos de 25 anos, 23,60%
entre 26 e 35 anos, 26,80% entre 36 e 45 anos, 19,60% entre 46 e 55 anos, 18,10%
entre 56 e 65 anos e apenas 8,30% afirmaram ter mais de 65 anos.
Os consumidores frequentam a feira livre de Guanambi principalmente aos
domingos (29%), segunda-feira (23%) e quinta-feira (22%), que são os principais dias
da feira livre. Os frequentadores da feira de Guanambi estão à procura de frutas,
verduras, hortaliças, ovos, laticínios e carnes, conforme mostra a Figura 5. Contudo,
eles não adquirem estes produtos exclusivamente na feira. A maioria dos
consumidores pesquisados (51,8%) afirmaram complementar suas compras em
supermercados, lojas de hortifrútis e outras feiras.
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
Figura 5: Produtos adquiridos pelos consumidores
Frutas 30%
Legumes 26%
Hortaliças 16%
Carne e Peixe 11%
Queijo 5%
Ovos 4%
Doces 3%
Biscoitos 3%
Especiarias e chás 1%
Cereais 1%
0% 10% 20% 30% 40%
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
Dentre as principais motivações das pessoas frequentarem e comprarem na
feira livre de Guanambi, destacam-se a qualidade dos produtos (39%) e os preços
(22%), conforme Tabela 2. Ressalta-se que dentre os entrevistados há aqueles que
consideram a ida a feira um passeio, por gostarem do ambiente. A feira atua como
um local de encontro com amigos, principalmente para aposentados que
frequentam o lugar há vários anos. Restringindo a análise aos entrevistados que
vêm de outras cidades, as motivações estão associadas à prática de outras
atividades na cidade e a utilização da viagem para realizar compras no local.
Tabela 2: Motivações dos clientes para comprar na feira livre de Guanambi
Motivação para comprar na Feira Livre de Guanambi Porcentagem
Diversidade de produtos (%)
17%
Facilidade de acesso 4%
Passeio 7%
Preço 21%
Qualidade dos produtos 39%
Realiza outras atividades na cidade e aproveita a viagem 12%
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
A origem dos consumidores da feira de Guanambi não se restringe ao seu
município, como mostra a Figura 6. Os frequentadores da feira livre de Guanambi
estão, em média, a 19 quilômetros do local. Guanambi (64,5%), Candiba (10,1%) e
Palmas de Monte Alto (7,9%) correspondem por 82,5% da origem dos entrevistados.
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Figura 6: Origem dos consumidores
Fonte: elaborado pelos autores (2018).
Do total de consumidores entrevistados, 35% dos entrevistados residem em
outros municípios. Desta forma, pode-se inferir sobre o caráter regional da feira de
Guanambi também para consumidores. Em termos relativos, do total de moradores
de Guanambi, 30% afirmaram ir à feira com automóvel próprio, 12% com motocicleta
própria, seguidos pessoas indo a pé (9%), bicicleta (6%), mototáxi (5%) e transporte
público (3%), totalizando os 65%. Já dos moradores de outras cidades, 23%
responderam ir de “carro de frete” (veículo fretado), 8% de automóvel próprio e 4%
de motocicleta própria, totalizando os 35% restantes. Este resultado confirma a
escassez de transporte público intermunicipal, mesmo Guanambi sendo um
subcentro regional. Ainda, na pesquisa de campo observou-se em campo carência
de infraestrutura de transporte como pontos de ônibus, bicicletário e ciclovia nas
imediações da feira.
Do total de entrevistados que utilizam veículo próprio, 63% informaram que
percebem falta de áreas para estacionamento no local. Na pesquisa de campo foi
constatado que nas imediações da feira não existe distinção entre as áreas
utilizadas pelos comerciantes para carga/descarga de mercadorias e as áreas
destinadas ao estacionamento geral de veículos. Além disso, não há fiscalização
constante no local, motivando operações de carga e descarga em locais
inapropriados, desrespeitando vagas, horários e faixas de pedestres.
Os resultados referentes ao perfil do consumidor da feira de Guanambi
deixam evidente que a área de influência da feira extrapola os limites do município
em relação aos hábitos de compra de produtos da agricultura familiar. Os resultados
ainda indicam a falta de integração regional entre as cidades (apesar da
proximidade) e a dependência por modos de transporte não regulamentados, como
é o caso dos veículos fretados. Em relação aos produtos, os frequentadores
valorizam a agricultura familiar, consumindo produtos que são produzidos na
região, como frutas, legumes e verduras.
Como os frequentadores também adquirem os mesmos produtos em outros
locais, como supermercados e lojas de hortifrúti, identifica-se a necessidade de
manter a qualidade dos produtos comercializados para manter a cadeia de consumo
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Influência dos custos de produção e de transporte para a agricultura familiar e sua relação com o
desenvolvimento regional: o caso da feira municipal de Guanambi (BA)
ativa. Por fim, devido ao elevado número de consumidores atraídos, a feira de
Guanambi pode ser considerada um Polo Gerador de Viagens. Desta forma, o
desenvolvimento de políticas públicas para implementação de programas de gestão
financeira e de cálculo de custos de transportes pode aumentar a atratividade da
feira e atuar para melhorar o desenvolvimento regional, consolidando a cidade
como um importante subcentro regional.
6 Considerações finais
Para a análise realizada nesse artigo foram entrevistados produtores e
consumidores da feira livre de Guanambi, Bahia. No que tange aos produtores da
agricultura familiar, um dos principais resultados da pesquisa é o desconhecimento
do custo de produção e de transporte, indicando dificuldades em termos da gestão
financeira da atividade. Além disso, grande parte dos agricultores familiares têm
uma produção diversificada de frutas, legumes e hortaliças. No entanto, somente o
excedente é comercializado, visto que a produção destes produtores é destinada
também para a subsistência.
Conterato e Bráz (2019) afirmam que em vinte anos, o Pronaf mostrou-se a
principal política pública de apoio aos agricultores familiares, embora com certa
timidez no que diz respeito às estruturas produtivas do rural brasileiro. Os autores
complementam que o Pronaf deve ser repensado enquanto principal política
pública que aporta recursos aos agricultores familiares no sentido de apoiar a
diversificação produtiva e a agregação de valor. Assim, não parece sensato
suspender ou encerrar o Pronaf enquanto política pública de apoio à agricultura
familiar. Tendo em vista o que foi apresentado nesse artigo, a proposta é que a
questão da gestão financeira e de cálculo de custos de transportes seja incluída na
política pública e haja um esforço de ordem nacional para aumentar a capacitação
dos agricultores familiares.
Para fomentar essa capacitação se propõe uma ampliação da atuação do
chamado Sistema S para mais cidades com características de cidades-polos
regionais de agricultura familiar. O Sistema S possui vultosos recursos e expertise
nesse tipo de capacitação profissional e seria de grande valia para aumentar a
gestão financeira dos agricultores familiares. Essa ação tenderia a melhorar a
competição no mercado e a preços mais justos, tanto para o produtor quanto para
o consumidor.
Como sugestões para futuros trabalhos sugere-se analisar especificamente o
custo de transporte de produtos originários da agricultura familiar e/ou formas
alternativas para redução desse custo de transporte. Outra sugestão é a aplicação
de estudo semelhante em outras cidades caracterizadas como centro sub-regional
A, nas quais haja atuação agrícola familiar, utilizando a metodologia proposta nesse
artigo.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao CNPq e à Capes pelo suporte à pesquisa.
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Leise Kelli de Oliveira. Doutora em Engenharia de Produção. Universidade
Federal de Minas Gerais. Professora Associada. leise@[Link]
Isadora Alves Barbosa. Mestre em Geotecnia e Transportes. Universidade
Federal de Minas Gerais. [Link]@[Link]
Leonardo Herszon Meira. Doutor em Engenharia Civil. Universidade Federal de
Pernambuco. Professor Adjunto. [Link]@[Link]
Isabelly Christiny Monteiro de Souza Pinto. Mestre em Engenharia Civil.
Universidade Federal de Pernambuco. Doutoranda em Engenharia Civil.
isabellycmsp@[Link]
Submetido em: 01/04/2020 Aprovado em: 12/072020
Como citar: OLIVEIRA, Leise Kelli de et al. Influência dos custos de produção e de transporte
para a agricultura familiar e sua relação com o desenvolvimento regional: o caso da feira
municipal de Guanambi (BA). Redes (St. Cruz Sul, Online), Santa Cruz do Sul, v. 25, p. 2105-
2127, 2020. ISSN 1982-6745. doi:[Link]
CONTRIBUIÇÃO DE CADA AUTOR
a. Fundamentação teórico-conceitual e problematização: Isadora A. Barbosa, Leise K.
Oliveira e Leonardo H. Meira.
b. Pesquisa de dados e análise estatística: Isadora A. Barbosa e Leise K. Oliveira.
c. Elaboração de figuras e tabelas: Isadora A., Barbosa, Leise K. Oliveira, Leonardo H. Meira
e Isabelly C. M. S. Pinto.
d. Elaboração e redação do texto: Isadora A. Barbosa, Leise K. Oliveira, Leonardo H. Meira e
Isabelly C. M. S. Pinto.
e. Seleção das referências bibliográficas: Isadora A. Barbosa e Leonardo H. Meira.
Fontes de financiamento: CNPq; CAPES
Redes (St. Cruz Sul, Online), v.25, Ed. Especial 2, p.2128 - 2150, 2020. ISSN 1982-6745
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