DOI 10.21680/2446-5674.
2023v10n19ID30435
Equatorial
ENSAIO VISUAL
v.10 n.19 | jul./dez. 2023
ISSN: 2446-5674
Trabalho e a sociobiodiversidade a partir
de experiências etnofotográficas na feira do
Juaba, Cametá/PA
Work and sociobiodiversity from an
ethnophotographic experience in the Juaba free fair,
Cametá/PA
Trabajo y sociobiodiversidad a partir de experiencias
etnofotográfica en la feria libre de Juaba, Cametá/PA
Tiago Corrêa Saboia
Universidade Federal do Pará
e-mail: tsaboia@[Link]
ORCID: [Link]
Trabalho e a Sociobiodiversidade... Ensaio Visual
Apresentação
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado / Fotografei o perfume /
[...] Olhei uma paisagem velha a se debruçar sobre uma casa / Fotografei o sobre
/ Foi difícil fotografar o sobre, mas por fim eu consegui. (BARROS, 2003, p.
11−12).
Começo esse ensaio com as palavras do poeta Manoel de Barros, pois, a partir delas,
encontrei, de certa maneira, o que buscava na fotografia, mesmo sem saber: pensar as
imagens para além das coisas aparentes. Ao meu ver, o preenchimento dessas descrições
é um bom começo, tendo em vista que esse ensaio somente faz sentido em função desse
despertar consciente do transver apresentado pelo poeta. Nesse contexto, busco
desenvolver uma narrativa imagética acerca das experiências na Feira livre do distrito de
Juaba, localizado no município de Cametá−PA, a fim de destacar as relações, conexões e
pontes criadas entre o trabalho e a sociobiodiversidade, na construção ser-estar no mundo,
capaz de delimitar as fagulhas da existência, independentemente da perspectiva.
O conceito de imagem dialogado por Vilém Flusser (2002) auxilia a entender que o
uso da imagem que busco desenvolver nesta narrativa imagética não pode ser tomado
como referência de captura do real. Para o autor, o significado atribuído às imagens é
relacional, reversível e circular, pois “o significado das imagens é o contexto mágico das
relações reversíveis” (FLUSSER, 2002, p. 8).
É nesse movimento que situo esse ensaio fotográfico como uma experiência
etnofotográfica. Uma experiência no sentido que Jorge Larrosa Bondía (2002) nos provoca
a pensar quando afirma que “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos
toca” (p. 21). Assim, as imagens ora apresentadas não são registros de coisas, pessoas ou
lugares, mas a minha experiência com as pessoas e com o lugar. É um desvelar das
vivências particulares e subjetivas com a feira do Juaba e tudo que nela há. Nesse sentido,
busco aproximar este trabalho à etnografia produzida a partir da narrativa visual ou “um
discurso do olhar” (ACHUTTI, 1997, p. 111).
Considero, portanto, a fotografia não enquanto técnica, mas como linguagem e, ao
mesmo tempo, como arte que possibilita narrar a experiência. Se a fotografia é escrever
com a luz, considero a poesia como uma espécie de iluminar de sentimentos, pois sem
sentimentos não há poesia. Percebo, então, a fotografia e a poesia de maneira
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indissociáveis, haja vista que a narrativa imagética é poética na medida em que expresso
os meus sentimentos, vivências e experiências naquilo que registro. Nessa perspectiva,
conforme Walter Benjamin (1985) nos ensina a perceber, a narrativa carrega as marcas do
narrador, tal qual a mão do oleiro na argila ao fazer o vaso.
A percepção dessa trama no contexto das vivências sociais me guia na construção
e recorte das imagens produzidas durante o período de pesquisa. Assim, a experiência
etnofotográfica permitiu estabelecer conexões outras com o lugar e com as pessoas que
vão além da coleta de dados acerca do que é comercializado e que possibilitou perceber
que o lugar da pesquisa também carrega as suas marcas. São as marcas indissociáveis do
hábitat e do habitar o território que Henrique Leff (2015, p. 283) situa como “lugar em que
se constrói e se define a territorialidade de uma cultura”. O hábitat, portanto, é onde se
constituem os sujeitos sociais que se apropriam do espaço a partir dos hábitos,
sensibilidades, gostos e prazeres. Nesse sentido, o que apresento aqui são as marcas do
território marcadas na minha experiência na feira do distrito Juaba.
Entre as muitas marcas, destaco, portanto, o trabalho e a sociobiodiversidade como
centralidade da minha experiência. Considero o trabalho enquanto categoria universal a
partir de uma visão dialética a qual se define o próprio modo humano de existir, conforme
refere Karl Marx (2013). De acordo com este autor, “o trabalho é antes de tudo, um
processo entre o homem e a natureza” (MARX, 2013, p. 255). Na medida em que
promovemos modificações ao nosso redor, também nos transformamos. É nesse
contexto dialógico na interface entre trabalho e natureza que considero a
sociobiodiversidade a partir da interação entre a gigantesca diversidade biológica e os
sistemas culturais (DIEGUES; ARRUDA; SILVA; FILGOLS; ANDRADE, 2000). Deste
modo, trabalho e biodiversidade convergem e representam as relações (i)materiais
presentes nos modos de vida no território. O trabalho, portanto, conecta historicamente
os diferentes modos de vida dessas populações à biodiversidade presente na paisagem
amazônica.
No território Amazônico esse existir encontra conexão com as águas e florestas que
marcam o ecossistema e com todo um arcabouço de conhecimento cultural e ancestral
das populações tradicionais. As florestas possibilitam o acesso à parte dos recursos que
são fundamentais para a manutenção dos meios de existência. O extrativismo vegetal
possibilita o acesso à extraordinária diversidade de frutos, fibras vegetais que são utilizadas
para confecção de cestarias e instrumentos de pesca. Por sua vez, as águas nos seus muitos
rios, furos e igarapés são o local da pesca de variadas espécies de peixes, moluscos e
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crustáceos que fazem parte dos hábitos culturais e alimentares dessas populações. Na feira
encontramos, por exemplo, o camarão comercializado no paneiro, confeccionado com
talas de Jacitara (Desmoncus orthacanthos Mart.), mas pescado com a utilização de pelo menos
outras cinco espécies vegetais. Tais relações nos revelam uma parte das conexões entre o
trabalho, as águas e as florestas. A feira, portanto, é o lugar no qual podemos ter contato
com a sociobiodiversidade do lugar e perceber as inter-relações com os diferentes modos
de vida e de resistência no território da Amazônica Tocantina.
Situando a experiência e o lugar da experiência etnofotográfica
A feira livre do distrito de Juaba, um dos nove distritos que formam o município
de Cametá, acontece todos os domingos na Praça Central da Vila de Juaba. A feira é um
importante espaço de comercialização e troca de produtos da agricultura familiar das
comunidades ribeirinhas e de terra firme da região.
A intensa movimentação tem início por volta das 5h da manhã nos dois pequenos
trapiches que dão acesso à vila. Por eles chegam os ribeirinhos com a produção extrativista
das águas e florestas. Açaí, castanha, camarão e peixes são os principais produtos do
trabalho das comunidades ribeirinhas e da região das ilhas do distrito. Os ramais ligam as
comunidades de terra firma à vila de Juaba. São dezenas de comunidades que trazem à
feira hortaliças, frutos, carne de caça e, principalmente, os derivados da mandioca, a
exemplo dos diversos tipos de farinha — farinha d’água, farinha seca, farinha mista,
farinha branca, farinha de tapioca, tapioca em ramos e muitos outros produtos. Motos,
bicicletas e carros de boi são meios utilizados para transportar a produção das
comunidades de terra firme. Estradas em péssimas condições impõem dificuldades
adicionais ao deslocamento das famílias. No período mais chuvoso, por exemplo, o fluxo
da feira diminui, principalmente pela dificuldade de acesso à vila pelos ramais e estradas
de terra.
Na maior parte da feira não há lugar fixo para os feirantes. Quem chega mais cedo
garante o melhor lugar para comercializar os seus produtos. Chegam e acomodam os
produtos em pequenas barracas, bancas de madeira ou mesmo no chão (como é caso dos
paneiros com frutos e as sacas de farinha). Mesmo que não haja lugares fixos, a feira é
organizada por setores bem definidos: área de lanches, pescado, carnes, frango abatido,
frutos, roupas e o setor de comercialização dos derivados da mandioca, principalmente a
farinha. Cabe ressaltar a importância das comunidades dos Territórios Quilombolas do
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distrito, sobretudo comunidades como Tomásia e Itapocú, na produção e comercialização
da mandioca e seus derivados.
Para o território, a dinâmica da feira não representa apenas trocas econômicas e
comerciais. Os cestos produzidos a partir das talas de Jacitara que permitem a
comercialização do camarão e de frutos como o açaí e castanha-do-Pará, as unidades de
medida utilizadas para quantificar e comercializar os produtos (lata, meia lata, rasa e
alqueire) e a própria farinha comercializada são exemplos do emaranhado de trocas
materiais e imateriais que representam práticas de resistência na manutenção dos modos
de vida das populações ribeirinhas e quilombolas da região.
Assim, no contexto das múltiplas relações sociais, econômicas, ambientais, culturais
e históricas vivenciadas na feira livre de Juaba emerge a narrativa imagética de que trata
este ensaio. Ela foi construída com os feirantes, agricultores familiares, carregadores de
mercadorias, consumidores e frequentadores da feira durante os meses de março e abril
de 2022 durante o desenvolvimento de uma pesquisa mais ampla, sob minha orientação,
que buscava compreender a feira do Juaba enquanto estratégia de reprodução social
camponesa no território. Se anteriormente o processo de pesquisa volta-se para a
linguagem escrita, aqui as imagens assumem o protagonismo. Uma escrita imagética
pensada na transgressão emergencial da sociedade moderna em dizer tudo em poucas
linhas, na qual a imagem transborda de palavras, sentimentos, sensações e impressões.
As imagens foram registradas com câmera fotográfica Nikon, modelo Coolpix P510
e tratadas no programa Adobe Photoshop Lightroom.
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Praça Central, às 5h da manhã, no início da movimentação da feira. O grande quadrado
vazio aos poucos é preenchido pelas cores, cheiros e histórias.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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2. Quando o sol aparece, na feira já se espera.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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3. Ribeirinhos e a produção regional das ilhas: chegam para compor o mosaico
de cores e cheiros em movimento.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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4. Entre as cores e cheiros: o “cheiro-verde”.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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5. Pescadores e atravessadores: garantia da oferta do peixe na feira.
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6. Compra e venda da farinha de mandioca. Um dos produtos mais
comercializados na Feira.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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7. O (des)pescar da região e suas conexões.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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8. Açaí na lata: a preferência regional e a medida de comercialização muito
presente na feira.
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9. Cesto com Castanha do Pará: fruto de grande valor histórico na região
amazônica.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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10. A jabarana vendida pelas mãos de quem as colheu.
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11. Cores, movimento e a satisfação de encontrar.
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12. Quem chega para vender, também chega para comprar. Morador da região
das ilhas retornando com a saca de farinha de mandioca.
Foto: Tiago Saboia (03/2022).
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Referências
ACHUTTI, Luis Eduardo. Fotoetnografia: um estudo sobre antropologia visual sobre
cotidiano, lixo e trabalho. Porto Alegre: Tomo Editorial, Palmarinca, 1997.
BARROS, Manoel de. O fotógrafo. In: BARROS, Manoel de. Ensaios fotográficos. Rio
de Janeiro: Record, 2003. p. 11-12.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista
Brasileira de Educação, n. 19, p. 20−28, 2002.
DIEGUES, Antonio Carlos; ARRUDA, Rinaldo Sergio Vieira; SILVA, Viviane
Capezzuto Ferreira da; FIGOLS, Francisca Aida Barboza; ANDRADE, Daniela. Os saberes
tradicionais e a biodiversidade no Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo:
NUPAUB-USP, 2000.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Relume Dumará, 2002.
LEFF, Henrique. Saber ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade e
Poder. 9ª edição. Petrópolis: Ed. Vozes, 2015.
MARX, Karl. O Capital: crítica da Economia Política. Livro I: o processo de
produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
Agradecimentos
À todas as pessoas que fazem da Feira livre do Juaba um extraordinário e
privilegiado lugar da experiência. Durante esses dias pude vivenciar e perceber os olhos
curiosos e receosos para alguém “de fora” com uma câmera em uma mão e um caderno
de anotações na outra. Esses olhares se transformaram em reconhecimento,
acompanhados por “olha o professor das fotos voltou”/”Só quero ver essas fotos depois,
hein!”. Meu muito obrigado pela receptividade, pelas conversas, pelas explicações e,
principalmente, por terem permitido escrever com as imagens essa experiência.
Recebido em 20 de setembro de 2022.
Aceito em 10 de fevereiro de 2023.
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