BREVE HISTÓRIA DOS PENSADORES QUE INFLUENCIARAM A
RECONSTRUÇÃO DO SENTIMENTO DE INFÂNCIA…
Pensadores, interessados em estudar a criança, influenciaram a construção de
um olhar cuidadoso e respeitoso em relação à infância, ao desenvolvimento
infantil e à educação.
Jean-Jacques Rousseau6 (1712-1778), embora não tenha sido um educador,
apresentou suas ideias em relação à criança, refletidas na obra “Emílio ou da
Educação”, foram de extrema relevância para a educação vigente do século
XVIII.
Rousseau defendia a volta do homem natural, do homem bom que não fora
corrompido pela civilização artificial. Desse modo, era necessário educar as
crianças desde pequenas, pois estas possuíam uma bondade natural e deviam
ser encorajadas a enfrentar tal perversa sociedade. Para ele, a educação
tradicional, livresca, conteudista, que privilegia o professor enquanto detentor
do saber e o ato exclusivo de decorar, não possibilita o desenvolvimento
intelectual da criança. O filósofo afirma que essa só constrói o pensamento a
partir de suas experiências e que a educação deve partir das necessidades e
interesses da criança. Nessa perspectiva, o educador rousseauniano considera
a educação como um processo natural de vida, ensina conhecimentos claros e
úteis, desenvolve a autonomia e a curiosidade infantil, respeita as
particularidades da criança, pois como bem argumenta Rousseau:
A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se
queremos perturbar essa ordem, produziremos frutos precoces, sem maturi-
dade nem sabor e que não tardarão a apodrecer; teremos jovens doutores e
velhas crianças. A infância tem maneiras de ver, pensar, de sentir que lhes são
próprias, nada há de mais insensato do que querer substituí-las pelas nossas
(…). (Rousseau, 1973, p.75).
Seguindo essa direção, Rousseau propõe um processo de ensino-
aprendizagem baseado no método natural ou autoeducação, isto é, dar à
criança a oportunidade de educar-se naturalmente. Alicerçado no tripé –
liberdade, interesse e ação, é preciso que a criança seja livre para selecionar o
que deseja conhecer, e estimulada a aprender através da observação,
comparação e exploração dos objetos e da natureza. Rousseau nos alerta,
também, sobre a importância do movimento na educação, pois os aspectos
físicos e motores têm influência no comportamento geral da criança e estão
intimamente ligados à sua atividade mental.
É interessante a teoria de Rousseau, especialmente contrária a uma época,
cuja educação conteudista prevalecia. Valorizar a criança, confiar na sua
capacidade intelectual, priorizar a experimentação e a construção do conheci-
mento são metas que buscamos concretizar nas escolas nos dias atuais.
Friedrich Fröbel (1782-1852), filósofo alemão, revolucionou a educação,
especialmente a educação direcionada às crianças pequenas, relatadas na
obra “A Educação do Homem”.
Fröbel preocupou-se com a educação anterior ao ensino elementar, isto é, a
educação da primeira infância. Fundou, em 1873, o jardim da infância
ou kindergarten, que diferia das demais instituições educativas daquele pe-
ríodo, ao assumir um caráter pedagógico e não somente assistencial.
O kindergarten fazia alusão ao jardineiro (o professor) que cuida das plantas
(as crianças) desde pequeninas para crescerem bem, pressupondo que os
anos iniciais do homem são básicos para a sua formação.
Fröbel tinha como objetivo promover o desenvolvimento individual e o
progresso social, com base na atividade da criança e na sua própria vida. O
referido estudioso foi um defensor do desenvolvimento genético que ocorre
segundo as seguintes fases: infância, meninice, puberdade, mocidade e
maturidade, todas igualmente importantes. Sendo assim, a educação deve se
basear na evolução natural das atividades da criança e seu desenvolvimento
ocorre por meio de experiências espontâneas.
O currículo do kindergarten compunha-se da jardinagem, da criação de
animais, dos cantos e dos jogos. Neste, a criança se expressa através da
linguagem, da percepção sensorial e do brinquedo. Como bem articula Nicolau:
Fröbel foi o primeiro educador a enfatizar o brinquedo, a atividade lúdica; o
desenho e as atividades que envolvem o movimento e os ritmos eram muito
importantes. Para a criança se conhecer, o primeiro passo seria chamar a
atenção para os membros de seu próprio corpo para depois chegar aos movi-
mentos das partes do corpo. (Nicolau, 2002, p.32).
Fröbel elaborou métodos e materiais para as crianças se expressarem,
denominados dons e ocupações. Os primeiros, referentes às “dádivas divinas”,
são materiais destinados a despertar a representação da forma, cor,
movimento e matéria; incluem as bolas, os cubos e os cilindros. A bola, o “dom”
mais universal, era considerado o corpo mais simples, demonstrava a
sensação de liberdade, ponto de partida para as demais formas. Já as
ocupações incluíam as atividades mais livres como o trabalho com barro, o
recorte, as dobraduras, o desenho, a tecelagem e o bordado.
Todo o trabalho do kindergarten se baseava na autoatividade, na expressão
das ideias e nos interesses nascentes em cada fase da vida da criança. Fröbel
foi o primeiro a desenvolver um programa com base no desenvolvimento
infantil. Foi com ele que a educação da infância assumiu, de fato, sua
importância.
Sob as influências da Psicologia Genética e as profundas mudanças na
educação infantil, Maria Montessori (1870-1952), a primeira mulher a se formar
médica na Itália, defendeu uma educação viva e ativa às crianças. Trabalhou,
inicialmente, com meninas e meninos portadores de necessidades especiais,
na Clínica de Psiquiatria da Universidade de Roma, defendendo a supremacia
do método pedagógico sobre o clínico. Posteriormente, interessada na área da
educação, aplicou suas ideias e procedimentos em crianças de evolução
regular, criando instituições chamadas Casa dei Bambini – Casa das Crianças.
A primeira delas, inaugurada em 1907, foi destinada a crianças pobres de 3 a 7
anos, cujos pais necessitavam trabalhar. Pouco a pouco, outras Casas dei
Bambini foram criadas e o método montessoriano foi, paulatinamente,
divulgado pela Europa, América e Ásia.
Essas instituições visavam, principalmente, ao ensino pré-escolar e
conciliavam educação e vida. Tinham por princípios básicos o movimento livre,
a liberdade, o interesse, a autoatividade, o autodomínio e a individualidade da
criança. O professor concebia-a como um ser em desenvolvimento;
acreditando que isso ocorre naturalmente; a construção do conhecimento
depende somente da atividade da criança.
Segundo Nicolau (2006), Montessori ressalta a relevância do ambiente
adequado e do preparo do educador para orientar a criança por meio de uma
atividade contínua. É importante que o educador respeite os dois períodos da
criança: o primeiro, denominado iniciações, objetiva a apresentação do
material; o segundo, denominado técnica das lições, leva as crianças a
organizar melhor suas ideias, a distinguir as diferenças entre os materiais e a
aprender suas nomenclaturas.
Preocupando-se com o corpo, com o espírito e com a adaptação do aluno à
vida, Montessori considerava as fases do desenvolvimento infantil e as
diferenças individuais de cada criança. Defendia, também, a formação da
personalidade integral através do jogo, do trabalho, das atividades prazerosas,
da formação artística, da socialização.
Montessori desenvolveu uma série de materiais sensoriais voltada para a
estimulação sensório-motora, que reunia formas, cores, sons, qualidades
táteis, movimentos, dimensões, experiências térmicas, sensações musculares,
com a intenção de alcançar o domínio do corpo e dos objetos.
Para Montessori, as crianças precisam vivenciar concretamente o conteúdo
através dos diferentes materiais. As explicações e palavras dos professores
não permitem a total compreensão do mundo. É necessário, portanto, des-
pertar o interesse da criança através da experimentação, ação e manipulação.
É interessante perceber que os diferentes pensadores, cada um com a sua
particularidade, contribuíram, com excelência, para a educação e para uma
nova forma de olhar a criança e para a criança. Certamente, os valores sociais,
políticos e culturais, bem como o sentimento de infância, foram influenciados e
transformados com os estudos de Rousseau, Fröbel, Montessori, entre outros
importantes estudiosos e pesquisadores.
Teorias recentes da educação infantil destacam que a criança, além de seu
potencial cerebral e corporal para crescer, aprender e se desenvolver, em seu
processo filogenético, nasce com um patrimônio da humanidade, com um
legado histórico.
Esperamos que a linha do tempo da infância, que esse pedaço da história,
contribua para a construção de uma educação infantil respeitosa com as
crianças, terna e rica de boas relações e aprendizados.