História de Moçambique – Das Comunidades Primitivas Até aos Nossos Dias
Em 1880 os estados do sul de Moçambique, eram politicamente independentes do colonialismo
português dos quais se destacaram: Moamba a leste, Gaza a Norte, Maputo a Sul e [Link]
os mais dominantes eram:
O Estado de Gaza, com a sua capital em Mossurize as actuais províncias de Gaza e
Inhambane dominava;
O Estado de Maputo a sul da baia de Lourenço Marques, dominava a zona entre os montes
Libombos e a costa, incluindo algumas chefaturas de Tembe.
Antes da conquista colonial, estes Estados estavam ligados ao capital asiático e europeu através de
pequenos estabelecimentos portugueses em Inhambane e Lourenço Marques e indianos situados na
costa e no interior. Os contactos estabelecidos com os mercadores assentavam-se essencialmente
nas seguintes actividades:
Caça do elefante– com o marfim podiam participar no mercado internacional que
assegurava o acesso aos bens que localmente ainda não eram produzidos como é o caso de
enxadas de ferro, tecidos, missangas de vidro, armas de fogo, etc.
Produção de oleaginosas, (amendoim, gergelim e milho) que ganhou uma importância
quando o comércio de marfim começou a declinar na década de 1870, o que era antes
adquirido pela troca de marfim passou a ser adquirido pela comercialização de
oleaginosas.
Com o desenvolvimento das plantações de açúcar no Natal, com que as populações locais não
dessem resposta à grande necessidade de mão-de-obra daí que, houve necessidade de procurá-la
fora da África do Sul. Portanto, o sul de Moçambique era uma região próspera para o
recrutamento de mão-de-obra, aliado a outros factores:
A região sul de Moçambique tem um clima propenso à seca com solos pobres, dai que a
emigração sempre foi solução para a sobrevivência;
A ascensão do Estado de Gaza foi acompanhada por extorsões56 regulares e sistemáticas
através da cobrança de impostos e pilhagem, o que fez com que as populações preferissem
emigrar;
Depois da morte de Sochangana em 1858, eclodiu uma guerra civil que obrigava as
populações a emigrar à procura de protecção que acabavam trabalhando nas plantações.
A partir da segunda metade do século XIX, a economia do Sul de Moçambique começou a ser
profundamente influenciada pela expansão da economia capitalista que se verificava nas
colónias britânicas do Natal e da Cabo e nas Republicas Boers do Transvaal e Orange Free
State (Estado Livre de Orange). A necessidade de fontes de mão-de-obra abundante e barata
para as minas e plantações sul-africanas, combinada com as dificuldades económicas então
experimentadas pelas principais formações políticas do Sul de Moçambique, concorreu para a
transformação das actuais províncias de Maputo, Gaza e Inhambane em reserva de mão-de-
obra.
A emigração de moçambicanos do Sul do rio Save para os territórios vizinhos, especialmente para
os que hoje formam a Republica da África do Sul, teve início nos meados do século XIX,
reflectindo imperativos económicos, políticos e sociais internos e a expansão do capital agrícola e
mineiro sul-africano.
Assim as plantações de cana-de-açúcar do Natal em 1850 e a indústria mineira de diamantes de
Kimberley em 1870 constituíram os principais pólos de atracão da força de trabalho moçambicana.
Em suma, os factores resumem-se em:
A introdução da economia de plantações da cana sacarina no Natal, em 1850
O avanço do capitalismo na África Austral na colónia Britânica do Natal;
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Usurpações
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A abertura de minas de diamante em Kimberley em 1870;
A exploração de minas de ouro em Lydemberg, em 1874 a leste do Transval;
A abertura de novas minas de ouro nas áreas central e sul do Transval, em
Witwatersrand;
A construção de linhas férreas para servir estes centros em 1892;
Antes da imposição do domínio colonial português no Sul de Moçambique em 1897, a emigração
já era uma prática corrente, particularmente estimulada por necessidades que na altura só o
dinheiro podia satisfazer, e controlada pelas aristocracias locais. Desde então, a crescente
monetarização da economia do Sul de Moçambique fez da emigração uma componente
fundamental para a reprodução e equilíbrio material de grande parte das famílias camponesas e das
classes dominantes. A título de exemplo, em 1879 havia cerca de 15 000 moçambicanos a
trabalhar em diversos pontos da África do Sul e, em 1897, cerca de 60 000 estavam nas minas de
ouro do Transvaal.
O início das campanhas militares de ocupação colonial no sul de Moçambique, em 1895, marcou
uma nova etapa das relações entre Moçambique e os territórios da África do Sul (colónias
britânicas e as repúblicas boers). As vitórias conseguidas pelos colonizadores portugueses nas
batalhas de Marracuene, Magude, Coolela e Mandlakaze, ainda em 1895, concorreram
decisivamente para a rápida montagem das primeiras estruturas político-administrativas coloniais.
As autoridades coloniais portuguesas encetaram contactos com as autoridades do Transvaal
visando o controlo e o proveito da emigração para os campos auríferos de witwatersrand,
descobertas em 1886.
A partir de finais do século XIX, a mão-de-obra moçambicana e a sua exportação para os centros
mais avandos de acomulação capitalista na África do Sul tornou-se uma das características mais
imporantantes da história colonial do país, pois o Estado português ganhava devisas com este
trabalho.
4.8.1. Principais Acordos
A necessidade imperiosa de um instrumento legal com força suficiente e reconhecido pelos
interessados, levou ao governo português a negociar com as autoridades da Pretória, nos seguintes
termos:
1. 1867: Os governos de Natal e de Portugal, estabeleceram um acordo que permitia a saída
voluntária de trabalhadores migrantes moçambicanos para o Natal. Este acordo permitia os
trabalhadores viajar a partir de Lourenço Marques, por mar. Este acordo foi alargado em 1875
no sentido de permitir aos moçambicanos a trabalharem na Província de Cabo;
2. 1897:A fim de regularizar a emigração de mão-de-obra, os governos de Pretória e de
Moçambique, assinaram neste ano o primeiro Regulamento para o Engajamento de Indígenas
para RSA. Mouzinho de Albuquerque, pretendia regularizar a emigração e garantir a entrada de
dinheiro, solucionar a questão do porto, caminhos-de-ferro e do comércio. Este estatuto
estabelecia a pasta de Curador, cujo titular tinha como função dirigir e controlar os “nativos”
moçambicanos na África do Sul. Neste mesmo ano foi criado a Witwatersrand Native Labour
Association - WENELA
3. 1901:O recrutamento de trabalhadores moçambicanos parou devido a guerra Anglo-Boer
(1899-1902). Depois da guerra a indústria foi reestruturada e a necessidade de mão-de-obra
continuou. Face a esta situação, esboçou-se um novo plano que condicionava a assinatura do
acordo à garantia do uso de porto e caminhos-de-ferro para a circulação de mercadorias do
Rand. O novo acordo foi chamado Modus Vivendi de [Link] período, o contrato foi
limitado em um [Link] também incluída uma cláusula que proibia à WENELA o
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estabelecimento de estações de recrutamento a norte do paralelo 22º como forma de
salvaguardar os interesses do capital internacional a Norte do rio Save. No mesmo ano, a
WENELA, através de acordos secretos com as autoridades portuguesas, obteve o monopólio de
recrutamento no Sul de Moçambique.
4. 1909:Nesta data foi assinada a primeira Convenção entre Moçambique e Transval que
estabelecia:
a) A manutenção de uma zona de competência de parte de Lourenço Marques em relação
à área do Rand; a garantia de 50% do tráfego dessa área passar pelo porto de Lourenço
Marques; o estabelecimento de uma comissão mista para a coordenação dos dois
sistemas ferroviários e o sistema de tarifas ferroviárias;
b) A formalização do acordo prévio que estabelecia o monopólio de recrutamento da
WENELA; um sistema de pagamento deferido de salários; a possibilidade de o governo
português poder cobrar os impostos nas minas; o direito a receber uma taxa por cada
mineiro recrutado, a ser paga pelas minas;os contratos continuariam a ser por 12 meses,
mas renováveis.
5. A Convenção de 1928:Este acordo, que devia vigorar durante dez anos incluía os seguintes
pontos principais:
a) Mantinha em vigor todos os acordos anteriores no que diz respeito ao porto de Lourenço
Marques, nomeadamente o que estabelecia que 50% das importações por mar, dirigidas à
“zona de competência” no Rand seriam feitas através de Lourenço Marques;
b) O período de contrato era de 12meses, extensíveis por mais 6 meses e era proibido voltar a
empregar os trabalhadores antes destes terem passado pelo menos 6 meses em
Moçambique, depois de cada contrato;
c) Estabeleciam um sistema de pagamento deferido obrigatório, nos termos de que uma parte
dos salários eram entregues à Curadoria e pago aos trabalhadores depois do seu regresso à
Moçambique. Estes acordos foram revistos em 1934 e 1940.
O Acordo de 1964: estabelecia mecanismos mais específicos e mais rigorosos. O acordo
estipulava que os trabalhadores só podiam ser empregados com o reconhecimento do Instituto do
Trabalho, que tinha sido criado em 1961 para tratar, entre outros, dos assuntos relacionados com o
recrutamento de trabalhadores. O período de contrato manteve-se em 12 meses extensíveis até ao
máximo de 18 meses e em relação ao trabalho deferido estabelecia que depois de 6 meses, 60%
dos salários referentes ao restante período depositado pelas minas (através da WENELA) num
Banco designado por Moçambique, através do Instituto do Trabalho.
Acordo de 1965: A característica mais interessante deste acordo era autorizar o estabelecimento
de outras empresas recrutadoras. Como consequência disto, viriam a constituírem-se outras três
agências de recrutamento: ATLAS, ALGOS e a CAMON, que iniciaram a sua actividade em 1967,
recrutando trabalhadores para as minas não filiadas na Câmara das Minas e para agricultura da
África do Sul.
4.8.2. Impacto do Trabalho Migratório no Sul de Moçambique
Monetarização da economia do sul de Moçambique, com a introdução da libra esterlina;
Aumento da rede comercial no sul de Moçambique;
Diminuição da mão-de-obra das comunidades;
Readaptação de certas instituições sociais (lobolo) em função do salário;
A monetarização da economia levou também à alteração do sistema de tributação;
A emigração serviu de via de penetração da língua inglesa, vestuário e de outros elementos
europeus;
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