Prólogo: O Som das Correntes
Lembro-me do peso. Não o peso físico das algemas que prendiam meus pulsos contra a parede de
pedra úmida da masmorra, mas o peso do tempo que parecia ter parado. Três dias. Três dias sem
água, dois sem comida, e a febre da infecção que subia pelo meu braço esquerdo onde a lâmina
enferrujada havia me cortado profundamente.
Era assim que tudo começaria, ou terminaria, dependendo de como você vê. Eu não era ninguém
especial. Apenas um soldado que fez a pergunta errada para o oficial errado. Apenas um homem que
descobriu segredos que não deveria conhecer sobre a corrupção que apodrecia o reino por dentro. E
agora, apenas um prisioneiro esperando pela execução ao amanhecer.
Mas ao invés da morte, veio a bruxa.
Ela não tinha nome ou pelo menos, não um que ela compartilhasse comigo. Surgiu como fumaça
através das barras da cela, seus olhos negros como poços sem fundo me estudando com uma
curiosidade que fazia minha pele arrepiar. "Você quer viver?" sua voz era como vidro moído, raspando
contra meus ouvidos. Eu deveria ter dito não. Deveria ter cuspido em seu rosto e aceitado meu destino.
Mas o medo... o medo é um senhor cruel.
"Sim", sussurrei, e selei meu destino.
As palavras que ela pronunciou não faziam sentido para meus ouvidos uma língua antiga, cheia de
consoantes duras e vogais que pareciam sugar o ar da sala. Senti algo se enrolar ao redor do meu
coração, frio como gelo de inverno, apertado como um punho. "Você não conhecerá a paz da morte
enquanto não cumprir sua penitência", ela disse, sorrindo com dentes podres. "Você caminhará em
uma terra de névoas e sombras, onde os mortos não descansam e o sol é apenas uma memória. Lá
você caçará. Lá você sofrerá. E apenas quando tiver pago o preço pelo sangue que você derramou,
apenas então poderá encontrar o descanso."
Sangue que eu derramei? Eu era um soldado, sim, mas nunca... As memórias vieram como uma
enchente. Aquela aldeia na fronteira. As ordens para não deixar testemunhas. Os gritos. Deus, os
gritos das crianças...
A névoa veio antes que eu pudesse protestar, cinza e densa, preenchendo a masmorra como água
enchendo um navio afundando. Ouvi os guardas gritando, o som do metal contra pedra, depois... nada.
Apenas o silêncio e a névoa, sempre a névoa.
Capítulo 1: Despertar nas Sombras
Acordei com o rosto pressionado contra terra úmida e folhas mortas. O cheiro era diferente não o fedor
de prisão e esgoto ao qual havia me acostumado, mas algo mais profundo, mais antigo. Era o cheiro de
uma floresta que nunca viu o sol, de árvores cujas raízes mergulhavam em terras amaldiçoadas.
Levantei-me lentamente, cada músculo protestando. Meus pulsos ainda doíam onde as algemas
haviam estado, mas as algemas se foram. Tudo se foi. Minhas roupas estavam rasgadas e sujas, mas
não eram mais os trapos ensanguentados da prisão. Eu vestia... roupas de viajante? Uma túnica de lã
grosseira, calças de couro resistente, botas que não eram minhas.
Ao meu redor, árvores se erguiam como pilares de uma catedral profana. Troncos retorcidos, galhos
que se entrelaçavam como dedos esqueléticos bloqueando qualquer luz que pudesse existir acima. E
havia névoa. Sempre a névoa, deslizando entre as árvores como uma criatura viva, enrolando-se ao
redor dos meus tornozelos, sussurrando com vozes que quase podiam ser entendidas.
"Onde diabos estou?" minha voz soou estranha, abafada pela floresta morta. Nenhuma resposta veio,
exceto o distante uivo de um lobo mas não era como nenhum lobo que eu já havia ouvido. Havia algo
errado naquele som, algo que falava de fome que ia além da carne.
Comecei a caminhar. Não havia escolha real. Ficar parado era morrer, eu podia sentir isso nos meus
ossos. A floresta... observava. Cada árvore, cada sombra, cada pedaço de névoa parecia ter olhos
invisíveis fixados em mim. Era como caminhar através de um cemitério vivo.
O tempo não tinha significado aqui. Caminhei por horas ou talvez minutos, eu não conseguia dizer. O
céu acima, quando eu conseguia vislumbrá-lo através da cobertura de árvores, era uma massa cinza
uniforme. Sem sol, sem lua, sem estrelas. Apenas cinza morto e perpétuo.
Foi então que ouvi as vozes.
Humanas. Reais. Vindas de uma clareira à frente. Me aproximei cautelosamente, a mão instintivamente
procurando por uma arma que não possuía. Através das árvores, vi luzes fogueiras! E ao redor delas,
figuras em roupas coloridas, tão deslocadas nesta terra sombria que quase pareciam alucinações.
Eles eram viajantes de algum tipo, suas carroças pintadas com cores vibrantes que feriam os olhos
neste lugar sem cor. Havia música de um violino tocando uma melodia lenta e melancólica que parecia
se adequar perfeitamente à atmosfera opressiva. E havia pessoas... famílias, crianças correndo entre
as carroças, anciãos sentados ao redor das fogueiras.
"Vistani", uma voz disse atrás de mim, e eu girei tão rápido que quase caí. Uma velha estava ali,
apoiada em um cajado retorcido, seus olhos um azul pálido quase branco me estudando com uma
intensidade que me fez querer recuar. Ela vestia camadas de xales e saias, todas em tons escuros de
vermelho e púrpura. Tiras de metal e pequenos ossos tintinavam em seu cabelo grisalho.
"Você acabou de chegar", ela continuou, não era uma pergunta. "Posso ver as névoas ainda agarradas
à sua alma. Outro prisioneiro. Outro perdido. Outro... amaldiçoado."
"Quem é você?" consegui perguntar, minha mão ainda estava tremendo.
"Eu sou Katya", ela respondeu, virando-se para caminhar em direção ao acampamento. "E você, pobre
tolo, está em Barovia. Venha. Você deve estar com fome, e há muito que você precisa aprender se
quiser sobreviver até o amanhecer."
Capítulo 2: Tser Pool e as Primeiras Verdades
Segui Katya até o acampamento, cada passo parecendo mais pesado que o anterior. As pessoas os
Vistani, como ela os chamava, me observavam com uma mistura de piedade e curiosidade. Alguns
faziam sinais com as mãos quando eu passava, gestos que eu não reconhecia mas que claramente
tinham significado protetor.
Katya me levou até a maior fogueira, onde um caldeirão borbulhava com um ensopado que cheirava
melhor do que qualquer coisa que eu lembrasse de ter comido. Ela encheu uma tigela de madeira e a
empurrou em minhas mãos. "Coma", ordenou. "E então falaremos."
Eu comi. Deus, como eu comi. O ensopado era rico e quente, cheio de carne e vegetais que eu não
conseguia identificar. Apenas quando a tigela estava vazia, quando o calor da comida havia se
espalhado pelo meu estômago, Katya falou novamente.
"O que é a última coisa que você lembra?"
Contei a ela. A prisão, a bruxa, a maldição, as névoas. Katya ouviu em silêncio, seus olhos nunca
deixando meu rosto. Quando terminei, ela acenou lentamente.
"Uma maldição de penitência", ela murmurou. "Rara, mas não desconhecida. As bruxas de fora... às
vezes elas enviam suas vítimas para cá quando querem um destino pior que a morte." Ela se inclinou
para frente, a luz do fogo fazendo sombras dançarem em seu rosto enrugado. "Barovia não é um lugar,
criança. É uma prisão. Uma prisão para almas tanto os que governam quanto os governados. Aqui, o
tempo não flui como deveria. Aqui, os mortos não descansam. E aqui... aqui governa o Diabo Strahd."
"Strahd?"
"Strahd von Zarovich", o nome saiu de sua boca como uma praga. "O Primeiro Vampiro. O Senhor
Obscuro de Baróvia. Ele é o guardião desta prisão... e também seu prisioneiro mais antigo." Ela
apontou para o céu cinza acima. "Não há escape das névoas, não para nós que aqui vivemos. Elas
cercam este vale por todos os lados. Tente atravessá-las e você apenas se encontrará de volta onde
começou... se tiver sorte. Os sem sorte... bem, às vezes as névoas têm fome."
Senti meu estômago apertar. "Então estou preso aqui? Para sempre?"
"Para sempre é uma palavra muito longa", Katya disse com um sorriso triste. "Mas sim, você está
preso. Sua maldição o trouxe aqui, e apenas cumprindo os termos de sua maldição você poderá
partir... se é que tal coisa é possível. Muitos vêm com propósitos e destinos. Poucos os cumprem."
Passamos horas conversando enquanto a noite se é que era noite se aprofundava ao nosso redor.
Katya me falou sobre o Vale de Baróvia: as três vilas principais a Vila de Baróvia aos pés do Castelo
Ravenloft, Vallaki a oeste, e Krezk nas montanhas. Ela me falou sobre os perigos: os lobos que
caçavam em matilhas e eram mais inteligentes que animais naturais, os mortos-vivos que se erguiam
dos cemitérios todas as noites para marchar em direção ao castelo, as bruxas no velho moinho que
faziam tortas de sonhos a partir de crianças roubadas.
"E Strahd?" perguntei. "Como alguém luta contra um vampiro que governa todo um reino?"
Katya riu, um som seco e sem humor. "Você não luta. Você sobrevive. Strahd é antigo e poderoso além
da compreensão. Ele não é meramente um vampiro ele é... mais. Os Poderes Sombrios que criaram
esta prisão o fizeram imortal de maneiras que vão além da não-morte vampírica. Matá-lo? Talvez. Mas
ele sempre retorna. Sempre."
Mas eu podia ver em seus olhos que ela escondia algo. "Mas?"
Ela suspirou. "Mas há histórias. Lendas de que aventureiros de fora, trazidos pelas névoas com
propósitos próprios, às vezes conseguem ferir o Diabo Strahd de maneiras que seus próprios súditos
não podem. Há artefatos, armas sagradas, conhecimentos perdidos. Se alguém pudesse reunir tais
coisas..." Ela balançou a cabeça. "Mas estas são histórias de tolos. Strahd joga com tais esperanças
como um gato com um rato."
Capítulo 3: A Vila de Baróvia e o Primeiro Horror
Na manhã seguinte se podia chamar aquilo de manhã, já que a luz nunca realmente mudava, Katya me
forneceu provisões básicas: pão duro, carne seca, um cantil de água, e uma faca pequena mas afiada.
"A vila fica a leste, seguindo a estrada", ela disse. "Procure pelo Burgomaster Kolyanovich. Ele pode ter
trabalho para você, se você provar ser útil."
"E você?" perguntei. "Vocês não ficam em um lugar?"
"Os Vistani vagueiam", ela respondeu. "É o nosso caminho. As névoas nos permitem viajar onde outros
não podem, porque fazemos nossa paz com este lugar." Ela me entregou algo mais um pequeno
talismã de osso entalhado. "Use isto. Pode não protegê-lo de Strahd, mas afastará os lobos menores e
talvez... talvez dê sorte."
Agradeci e parti, seguindo a estrada de terra batida que serpenteava através da floresta sombria. A
viagem foi um pesadelo de sons e sombras. Galhos estalavam sem vento. A névoa formava figuras que
desapareciam quando eu olhava diretamente. E sempre, sempre, a sensação de ser observado.
Foi ao meio-dia ainda sob aquele céu cinza perpétuo que cheguei à Vila de Baróvia.
Se o acampamento Vistani havia sido colorido mas melancólico, a vila era simplesmente morta. Casas
de madeira cinza com janelas fechadas por tábuas. Ruas vazias. Nem mesmo cães latindo. O silêncio
era absoluto e opressor, quebrado apenas pelo ocasional ranger de uma porta mal fechada.
"Novo por aqui?" uma voz rouca me assustou. Virei-me para ver um homem de meia-idade, magro
demais, com olhos fundos que haviam visto coisas terríveis. Ele vestia o que outrora foram roupas finas
mas agora eram apenas trapos remendados. "Você tem o cheiro da estrada. E ainda tem... esperança
nos olhos. Isso vai passar."
"Estou procurando pelo Burgomaster", consegui dizer.
O homem riu, mas não havia alegria ali. "Kolyan Indorovich está morto, estrangeiro. Morto há três dias.
Seu filho Ismark agora comanda... pelo menos tenta. Você o encontrará na mansão ao norte, velando o
corpo de seu pai e protegendo sua irmã da atenção do Diabo."
"Atenção do... Strahd?"
"Strahd quer Ireena", o homem cuspiu no chão, como se o próprio nome fosse veneno. "A filha do
Burgomaster. Ele já a mordeu duas vezes. Uma terceira, e ela será dele para sempre. Ismark está
desesperado por ajuda, mas quem na vila ajudaria? Ajudar é convidar a ira do Diabo."
Encontrei a mansão do Burgomaster facilmente, era a maior construção na vila, embora ainda fosse
modesta pelos padrões de qualquer cidade normal. A porta estava reforçada com tábuas, e quando
bati, ouvi o som de móveis sendo arrastados do outro lado antes que uma voz masculina e desconfiada
gritasse: "Quem está aí?"
"Um viajante", respondi. "Disseram-me que você precisa de ajuda."
Houve uma pausa longa, depois o som de fechaduras sendo abertas. A porta se abriu apenas uma
fresta, revelando um homem jovem com uma espada em uma mão e uma aparência de exaustão total.
"Entre. Rápido."
Dentro, a mansão estava escura e fria. Ismark, pois era ele, me levou até uma sala onde um corpo
jazia em um caixão simples de madeira. Um homem mais velho, claramente o Burgomaster, seu rosto
marcado por profunda tristeza mesmo na morte.
"Meu pai morreu tentando proteger minha irmã", Ismark disse, sua voz quebrando. "O coração dele
simplesmente... desistiu. E agora ela está ainda mais vulnerável."
"Onde ela está?" perguntei.
"Escondida. Sempre escondida." Ele passou a mão pelo cabelo desgrenhado. "Você parece capaz.
Tem armas? Sabe lutar?"
"Fui soldado", disse. "Antes de... antes de chegar aqui."
Ismark estudou meu rosto, procurando por mentiras. Satisfeito com o que viu, ele acenou. "Preciso
levar Ireena para longe daqui. Para Vallaki, onde há uma igreja consagrada. Strahd não pode entrar em
solo sagrado tão facilmente. Mas a estrada é perigosa, e eu não posso protegê-la sozinho."
Antes que eu pudesse responder, ouvi um grito vindo do andar de cima. Um grito feminino de terror
puro.
Ismark correu, e eu o segui, subindo as escadas de dois em dois. Ele arrebentou uma porta revelando
um quarto onde uma jovem mulher com longos cabelos ruivos se pressionava contra a parede,
apontando para a janela com olhos arregalados de horror.
Lá, empoleirado no parapeito do lado de fora, estava... ele.
Mesmo sem nunca ter visto um vampiro antes, eu sabia. Strahd von Zarovich era alto e terrivelmente
belo de uma maneira que fazia minha pele arrepiar. Vestido em roupas nobres negras e vermelhas, seu
cabelo escuro puxado para trás revelando um rosto que poderia ter sido esculpido em mármore. Mas
eram os olhos, vermelhos como brasas acesas, que congelavam o sangue nas veias.
"Ireena", sua voz era como veludo sobre aço. "Por que você me nega? Você sabe que é inútil. Você
sempre foi minha. Sempre será."
"SAIA!" Ismark gritou, posicionando-se entre Strahd e sua irmã. "Você não tem poder aqui!"
Strahd riu, e o som era cheio de séculos de escuridão. "Poder? Eu sou o poder nesta terra, pequeno
Ismark. Mas..." seus olhos se desviaram para mim, e senti como se minha alma estivesse sendo
despida. "Ah. Um novo brinquedo. Como interessante." Ele sorriu, revelando presas. "Bem-vindo a
Barovia, estrangeiro. Espero que você proporcione entretenimento mais duradouro que a maioria."
E então, antes que qualquer um de nós pudesse se mover, ele simplesmente...desapareceu.
Transformando-se em névoa que deslizou pela janela e se dispersou na noite.
Ireena desabou, soluçando. Ismark a segurou, sussurrando palavras tranquilizadoras. E eu apenas
fiquei ali, tremendo, percebendo pela primeira vez a verdadeira natureza do que havia me tornado
preso.
Este era apenas o primeiro dia. E já eu sabia: havia coisas piores que a morte. Muito piores.
Capítulo 4: A Igreja e o Padre Aflito
O funeral do velho Burgomaster foi um assunto sombrio, assistido por talvez uma dúzia de aldeões os
únicos suficientemente corajosos (ou ainda com almas suficientes) para desafiar a presença implícita
de Strahd. Enterramos Kolyan Indorovich no pequeno cemitério ao lado da igreja, uma estrutura
decrépita dedicada ao Morninglord um deus de luz e esperança cujos raios nunca tocavam esta terra.
O padre que oficiou o funeral, Father Donavich, era um homem quebrado. Eu podia ver isso na
curvatura de seus ombros, no tremor de suas mãos enquanto ele recitava as orações, na maneira
como seus olhos constantemente se desviavam para a igreja como se ouvisse algo que ninguém mais
podia ouvir.
Após o enterro, enquanto os aldeões se dispersavam rápido para a segurança de suas casas
trancadas, eu me aproximei dele. "Padre", comecei. "Preciso fazer algumas perguntas sobre Barovia.
Sobre Strahd."
Ele me olhou com olhos vazios. "Perguntas. Todos têm perguntas. Mas as respostas... as respostas
apenas trazem desespero." Ele começou a se virar, mas eu peguei seu braço gentilmente.
"Por favor. Sou novo aqui. Não sei como sobreviver."
Father Donavich parou, então suspirou profundamente. "Entre. Mas... ignore os sons do porão. Por
favor."
Dentro da igreja, vi o que poderia ter sido um lugar de beleza. Vitrais (embora a luz que os atravessava
fosse sempre cinza), bancos de madeira esculpida, um altar com o símbolo do Morninglord um sol
nascente. Mas tudo estava coberto de poeira e abandono. E do porão... vinha um som. Arranhões.
Gemidos. E ocasionalmente, uma voz que chamava: "Pai... pai... deixe-me sair... tenho tanta fome..."
Meu sangue gelou. "Padre... o que…"
"Meu filho", Father Donavich disse, lágrimas correndo por seu rosto. "Doru. Ele tinha dezesseis anos.
Tão cheio de vida, de esperança. Ele e um grupo de jovens... tolos. Tolos corajosos. Eles acreditaram
que poderiam invadir o Castelo Ravenloft, matar Strahd enquanto ele dormia." Ele riu, um som
quebrado. "Apenas Doru retornou. Mas não como meu filho. Como uma criatura. Um vampire spawn.
Strahd o enviou de volta... como uma mensagem."
"E você o mantém no porão."
"Não consigo matá-lo", o padre sussurrou. "Ele ainda é meu filho. Ainda tem seu rosto, sua voz. Como
posso...?" Ele cobriu o rosto com as mãos. "Eu rezo. Todas as noites, rezo pelo Morninglord me dar
força. Mas Ele não responde. Talvez Ele não possa. Talvez esta terra esteja além até de Sua luz."
Passei aquela noite na igreja, compartilhando o que restava do vinho e pão que Father Donavich
mantinha para a comunhão. Ele me contou mais sobre Barovia histórias que Katya havia apenas
tocado superficialmente.
"O tempo aqui é... estranho", ele disse. "Alguns que vivem aqui dizem ter memórias que abrangem
décadas, séculos mesmo. Mas quando você tenta rastrear histórias, datas... elas não se encaixam. É
como se o próprio tempo fosse prisioneiro de Strahd, girando em círculos, repetindo."
"E a maldição que me trouxe aqui?" perguntei. "Uma maldição de penitência. Você já ouviu falar de tal
coisa?"
Father Donavich franziu a testa. "Maldições são... comuns aqui. Todos nós estamos amaldiçoados de
uma forma ou de outra. Mas uma maldição que especificamente traz alguém para Barovia... isso é raro.
Geralmente são as névoas que escolhem, que puxam almas de fora para servir a algum propósito nos
jogos dos Poderes Sombrios."
"Poderes Sombrios?"
"As entidades que criaram esta prisão. Que mantêm Strahd aqui... e que parecem se alimentar de seu
sofrimento e do sofrimento daqueles ao seu redor." Ele olhou para o teto da igreja. "Eles não são
deuses. Ou talvez sejam deuses de um tipo que não deveria existir. Ninguém realmente sabe. Strahd
fez um pacto com eles séculos atrás, trocando sua humanidade por poder e imortalidade. Mas o poder
veio com um preço: ele está preso aqui para sempre, incapaz de ter a única coisa que verdadeiramente
deseja."
"Ireena", entendi. "Ele a quer. Mas por quê?"
"Não Ireena especificamente. Ou talvez sim." Father Donavich suspirou. "Há histórias de uma mulher
chamada Tatyana, séculos atrás. O irmão mais novo de Strahd estava para se casar com ela. Strahd a
desejava, e no dia do casamento... ele matou seu próprio irmão, tornando-se um vampiro no processo.
Tatyana, horrorizada, se jogou das muralhas do Castelo Ravenloft para a morte. Desde então, sua alma
reaparece. Sempre uma jovem mulher com cabelo ruivo e rosto pálido. E Strahd sempre a persegue,
sempre tentando fazê-la sua. Mas ela sempre morre, ou foge, ou de alguma forma escapa dele. É a
tortura dele. Seu inferno pessoal. E Ireena... é a última encarnação."
Um ciclo. Um jogo cruel repetido indefinidamente. A enormidade disso era esmagadora.
Do porão, Doru gritou novamente: "Pai! Por favor! Apenas... apenas um gole! Não vou machucar
ninguém, eu prometo!"
Father Donavich fechou os olhos, sussurrando orações que ninguém ouvia.
Capítulo 5: Tentativas e Fracassos Contra o Senhor da Noite
Nos meses seguintes, minha determinação endureceu como ferro. Se Strahd era a sombra que
permeava tudo nesta terra, então eu precisava ser a lâmina que o desafiaria. Viagens a Vallaki me
mostraram um povo oprimido, mas com um lampejo de resistência sob a liderança dos Martikovs, uma
família de wereravens que mantinha uma taberna imune às garras do Senhor da Noite.
Foi nos encontros com os Martikovs que aprendi algo vital: Barovia não era apenas governada por um
vampiro, mas era moldada por poderes antigos e obscuros, os Dark Powers que criaram e sustentavam
esta prisão. Uma noite, durante uma conversa com Patrina Martikov, eu disse entre goles de hidromel:
"Se Strahd é seu mestre, como é que vocês ainda conseguem sorrir?"
Ela sorriu de lado, os olhos brilhando na penumbra. "Porque não somos seus brinquedos. Somos
sobreviventes. E em toda escuridão, há uma centelha, mesmo que seja pequena demais para ser
vista."
Minha procura me levou ao misterioso Amber Temple, um lugar ancestral nas montanhas, cheio de
artefatos obscuros e segredos proibidos. A exploração do templo revelou verdades incômodas sobre os
Dark Powers, entidades que trocam seus favores em barganhas perigosas, oferecendo poder com
custo que nunca é revelado até ser tarde demais.
Os confrontos com as criaturas de Strahd tornaram-se mais frequentes. Vampiros subordinados,
lobisomens corrompidos, bruxas como Morgantha do Old Bonegrinder cada um uma faceta da ameaça
que permeava o Vale. Combati-os, fracassando em muitas vezes, aprendendo que a força bruta não
seria suficiente.
Durante uma caçada especialmente amarga na Svalich Woods, fui emboscado por uma matilha de
lobos liderada por um alfa que parecia enxergar em mim algo além do comum. No desespero da fuga,
encontrei um refúgio temporário numa cabana velha e abandonada, onde comecei a escrever minhas
primeiras anotações sobre as criaturas, seus hábitos e fraquezas.
Capítulo 6: O Isolamento e os Estudos
Os anos seguintes foram de solidão auto imposta. Construí minha cabana com as mãos calejadas na
profundidade da Svalich Woods, afastado das vilas, longe da névoa que parecia me seguir menos ali.
Era o meu santuário e campo de estudos.
Meus diários, espalhados e amarelados pelo tempo, detalhavam tudo: desde os padrões de caça dos
lobisomens, as fraquezas únicas dos vampires spawn, até observações sobre as bruxas e suas tortas
de sonhos, que roubavam mais do que apenas a vida das crianças.
Tive poucos encontros com outros habitantes. Um deles foi com Rictavio, o misterioso contador de
histórias e possível ex-caçador de monstros, numa noite chuvosa em que ele buscava refúgio da
névoa. Em uma conversa sussurrada sobre o perigo e a esperança, ele murmurou: “Aqui, aprender é a
verdadeira arma.”
Outra vez, uma noite fria, os Martikovs trouxeram um ferido um caçador de estranhos poderes
sombrios, reclamando de um combate feroz com os druidas corrompidos em Yester Hill. Seus olhos
tinham o brilho de quem viu o rosto da morte e voltou para contar a história.
Mesmo com todo o conhecimento adquirido, nada parecia deter o avanço de Strahd, e a maldição da
minha ausência de envelhecimento era uma lembrança constante da prisão que me prendia a este
vale. Essa maldição, apesar da juventude perpétua, tornou-se uma pesada cruz. Morreria, lutaria, mas
envelhecer? Nunca.
Capítulo 7: O Presente e o Novo Encontro
Hoje, enquanto as folhas crepitam sob meus pés e a névoa se espessa mais uma vez, ouvi ao longe
vozes estranhas, um grupo de aventureiros recém-chegados, talvez a última esperança ou apenas
mais vítimas da maldição.
Observo de longe, minha figura uma sombra entre outras sombras, calculando, estudando, preparando.
Talvez, finalmente, minha história não termine em isolamento, mas encontre uma nova trama em que
eu possa ser mais do que um espectador.
O vento traz até mim fragrâncias e promessas, e eu sei que antes que a névoa se dissipe, terei que
cruzar novamente com aqueles que escolherem enfrentar Strahd... ou sucumbir para sempre a esta
terra amaldiçoada.