anotações (ab2)
11/09/2024
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE
JURÍDICA
• A maior parte dos sujeitos passivos nas relações de consumo são empresas (pessoas jurídicas ou PJ).
◦ A pessoa jurídica é constituída de uma maneira diferente, nos termos de sua organização e
consequências.
• Existem algumas razões pelas quais, a maior parte delas econômicas, as pessoas são PJ e uma delas é
no tocante à responsabilidade civil da PF (pessoa física) e PJ (pessoa jurídica).
◦ A PF responde com todo o seu patrimônio por dívidas e danos causados.
◦ A PJ possui uma regra geral – a depender de qual PJ se fala, mas essa regra se aplica a maioria
delas no ordenamento jurídico brasileiro –, que é a responsabilidade limitada ao capital social
integralizado. Portanto, existe uma limitação na responsabilidade civil.
▪ Não se aplica à todas, logo, algumas respondem ilimitadamente a depender da configuração
da PJ.
Além da PF e PJ, existe um outro tipo de sociedade: a sociedade de fato ou irregular, que
é aquela que não possui registro na Junta Comercial, possuindo, assim, uma
responsabilidade ilimitada em razão da inobservância dos trâmites burocráticos
necessários para preencher os próprios requisitos da responsabilização limitada.
• Por exemplo: perfis no Instagram que atuam como se fossem PJs, mas, na prática, não
tem nem registro na Junta Comercial. Dessa forma, quem gerencia esse perfil acaba
por responder ilimitadamente, pois vai responder como uma sociedade irregular.
• Quando se cria uma PJ, um dos principais “benefícios/características” é a responsabilidade
limitada e a não responsabilização pessoal dos sócios.
◦ Sendo assim, responde pelo dano/dívida somente o patrimônio da PJ, não o da PF.
▪ Os patrimônios são independentes, autônomos e incomunicáveis pela regra geral. Portanto,
há uma separação patrimonial.
▪ Por exemplo: se o consumidor processar uma empresa, ele vai obter reparações de dano
material e moral à nível de patrimônio da empresa, não dos sócios.
◦ Há a impossibilidade de cobrança dos seus respectivos integrantes por dívidas e obrigações da
pessoa jurídica.
A razão do surgimento e da existência, nos contornos atuais, da pessoa jurídica, é além da
constituição de uma formação orgânica para realização de uma atividade, a separação
entre a pessoa dos que a constituem e sua própria personalidade.
• O princípio da separação da pessoa jurídica da pessoa de seus sócios ou constituintes
(societas distat a singuli), comporta dois aspectos:
◦ A separação subjetiva da pessoa jurídica, pela qual sua personalidade não se
confunde com a de seus sócios;
◦ E a separação objetiva, segundo a qual não se confundem o patrimônio da
pessoa jurídica e o de seus sócios.
• Estas características, ao tempo em que auxiliavam, e mesmo estimulavam o
desenvolvimento da atividade econômica, uma vez que limitavam os riscos de quem
se dispunha a empreender e para tanto constituía uma pessoa jurídica, por outro lado,
deu ensejo a diversas espécies de abusos, ou seja, de mau uso ou irregularidades
realizadas pelos sócios e administradores.
◦ Diante desta situação, mediante desenvolvimento da jurisprudência norte-
americana (…) tem origem tese na qual passa-se a admitir a hipótese de
responsabilização dos sócios e administradores pelas obrigações assumidas pela
sociedade, afastando a limitação porventura existente em seus atos constitutivos,
quando houver abuso ou fraude no exercício da atividade da pessoa jurídica. É a
origem da disregard of legal entity, ou simplesmente teoria da desconsideração
da personalidade jurídica.
• A previsão normativa da desconsideração da personalidade jurídica só foi realizada,
em direito privado, pelo CDC em 1990, que em seu artigo 28 determinou sua
possibilidade quando em benefício do consumidor. Mais recentemente o artigo 50 do
CC também previu a hipótese de desconsideração da personalidade jurídica. - Bruno
Miragem.
• O fenômeno da desconsideração da personalidade jurídica é quando se retira a proteção jurídica
do sócio, de forma que ele passa a poder ser responsável com seu patrimônio pessoal em alguns
casos.
◦ O regime jurídico da PJ constrói uma espécie de muro de proteção entorno dos sócios, de forma
que estes não respondem com seu patrimônio pessoal em caso de responsabilidade civil.
▪ Na desconsideração da pessoa jurídica, constrói-se uma porta nesse muro e “por essa porta,
vai entrar uma pessoa (o credor prejudicado - Tia Erá) para pegar um dos sócios”, este que
vai responder com seu patrimônio pessoal perante os credores ilimitadamente.
◦ O sócio responderá solidariamente, junto à PJ.
◦ Uma vez quitada a dívida, o sócio retorna para “o muro de proteção”. Portanto, essa porta
construída é temporária, é uma exceção à regra, só aberta para o prejudicado.
◦ A desconsideração da PJ só atinge o administrador ou sócio que tenha praticado ato irregular.
Assim, os demais sócios permanecem íntegros e a PJ continua existindo.
▪ Por outro lado, a despersonalização da pessoa jurídica extingue a PJ.
DESPERSONALIZAÇÃO x DESCONSIDERAÇÃO
• A despersonalização e a desconsideração da pessoa jurídica são dois conceitos
diferentes no direito, embora ambos se refiram à separação entre a pessoa jurídica e
seus sócios ou administradores.
• A despersonalização ocorre quando a empresa ou entidade perde sua
personalidade jurídica, ou seja, deixa de existir legalmente.
◦ Isso pode acontecer em situações como a dissolução da sociedade, a extinção ou
a falência. Nesse caso, a empresa deixa de ter capacidade jurídica, ou seja, perde
a autonomia para ser sujeito de direitos e obrigações.
◦ A despersonalização implica, portanto, na extinção da existência jurídica da
empresa, e, uma vez despersonalizada, ela não pode mais atuar no âmbito legal.
• Já a desconsideração da pessoa jurídica é um instituto diferente, pois não extingue
a empresa, mas suspende temporariamente a separação entre o patrimônio da
pessoa jurídica e o de seus sócios ou administradores.
◦ Isso acontece quando há abuso da personalidade jurídica, como no caso de
fraude, desvio de finalidade ou confusão patrimonial. Nesses casos, a
desconsideração permite que o juiz "fure o véu" da pessoa jurídica,
responsabilizando diretamente os sócios pelos atos da empresa. Ou seja, os sócios
podem ser obrigados a responder com seus bens pessoais pelas dívidas ou
obrigações da empresa, mas a pessoa jurídica continua existindo e operando.
• A principal diferença entre os dois conceitos está, portanto, nas consequências
jurídicas.
◦ Enquanto a despersonalização resulta na extinção da empresa, a desconsideração
mantém a empresa ativa, mas responsabiliza os sócios em casos específicos de
abuso.
◦ Outro ponto distinto é o momento de aplicação: a despersonalização ocorre ao
final da existência da pessoa jurídica, como na dissolução, enquanto a
desconsideração pode ser aplicada durante a vigência da empresa, quando se
identifica o uso indevido da sua personalidade jurídica.
◦ Em resumo, a despersonalização está ligada à extinção da empresa, enquanto a
desconsideração busca evitar que os sócios se beneficiem indevidamente da
separação patrimonial entre eles e a pessoa jurídica.
• A desconsideração expansiva é quando existe um sócio oculto – existem alguns tipos de PJ em que
isso é possível –, sendo possível fazer a desconsideração para atingi-lo.
• É possível também a inversão da desconsideração de personalidade jurídica, em que a PJ tem
todo o patrimônio e o sócio não possui patrimônio.
◦ No caso do sócio ser demandado, também é possível pedir a desconsideração da PJ, só que
inversa, atingindo o patrimônio da PJ.
A desconsideração inversa ou invertida, do mesmo modo, é possível em demanda
envolvendo uma relação de consumo. Imagine-se o caso de um fornecedor ou prestador
que tem vários débitos em relação a consumidores e que, para fraudá-los, passa a
transmitir os seus bens para o seu nome próprio. Entendendo desse modo, e fazendo
menção ao art. 28 do CDC, do Tribunal de São Paulo:
“Pedido de aplicação da desconsideração inversa. (…) Presentes os elementos de
convicção dos pressupostos do art. 28 do Código de Defesa do Consumidor e do art. 50
do Código Civil de 2002, é aplicável a despersonalização da pessoa jurídica inversa para
alcançar os bens sociais ou particulares dos administradores ou sócios que a
integram.”
“Com a desconsideração inversa da personalidade jurídica, busca-se impedir a prática de
transferência de bens pelo sócio para a pessoa jurídica sobre a qual detém controle,
afastando-se momentaneamente o manto fictício que separa o sócio da sociedade para
buscar o patrimônio que, embora conste no nome da sociedade, na realidade,
pertence ao sócio fraudador.
• No atual CPC, o exame do juiz a respeito da presença dos pressupostos que
autorizariam a medida de desconsideração, demonstrados no requerimento inicial,
permite a instauração de incidente e a suspensão do processo em que formulado,
devendo a decisão de desconsideração ser precedida do efetivo contraditório.” -
Flávio Tartuce.
• A teoria da sucessão de empresas ocorre quando uma empresa sucede outra por diversas razões
(mais uma canetada da Dra. Blogueira - Tia Erá).
◦ Às vezes, é o próprio sócio que cria outro CNPJ e se instala no mesmo local, ou ele vende para
terceiro que se instala no mesmo local.
◦ A desconsideração econômica ou indireta ocorre nos casos de abuso da personalidade
jurídica em que for patente a ocorrência de fraude, em que o o juiz poderá estender as
responsabilidades de uma empresa para outra, ou seja, para a empresa sucedida e sucessora,
respectivamente.
▪ Se ficar caracterizada e constatada a fraude na sucessão de empresas, é possível a
desconsideração.
A teoria da sucessão de empresas, no contexto do direito do consumidor, refere-se à
possibilidade de responsabilizar a empresa sucessora pelas dívidas e obrigações da
empresa anterior, especialmente quando há uma tentativa de fraudar credores ou
prejudicar consumidores.
• Essa teoria busca evitar que, por meio de manobras como a transferência de
patrimônio, venda ou reorganização societária, os responsáveis por uma empresa
insolvente consigam se eximir de suas responsabilidades.
• Essa teoria permite que, mesmo após a mudança formal da empresa (por exemplo,
uma fusão, incorporação ou cessão de controle), a nova entidade seja responsabilizada
por dívidas deixadas pela anterior, especialmente quando a alteração societária foi
realizada com o intuito de frustrar o pagamento de dívidas ou de prejudicar o direito
dos consumidores.
• A responsabilidade da empresa sucessora pode ser acionada independentemente de
fraude ou desvio de finalidade, desde que a sucessão empresarial tenha o efeito de
prejudicar o consumidor.
• Em suma, a teoria da sucessão de empresas no direito do consumidor impede que
uma reorganização societária seja usada como artifício para evitar a reparação dos
danos causados aos consumidores, mantendo a responsabilidade pelo cumprimento
das obrigações, mesmo após a transferência do controle empresarial.
TEORIA MAIOR/SUBJETIVA (CÓDIGO CIVIL)
• Teoria maior no sentido de exigir MAIS requisitos.
• Exige a presença de dois requisitos no Código Civil:
1. Abuso da personalidade jurídica, cujas hipóteses que autorizam a desconsideração da
personalidade jurídica são:
• Desvio de finalidade: afastamento do objeto social descrito no ato constitutivo.
◦ CC, art. 50, § 1º - Para os fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização
da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de
qualquer natureza.
◦ Por exemplo: uma empresa tem como finalidade descrita no contrato social a venda de
garrafas térmicas. Contudo, ela passa a vender sapatos, desviando a finalidade social.
Comentário da Tia Erá: deixarei apenas esse parágrafo aqui. Mais uma vez
percebemos que a canetada da Dra. Blogueira não foi tão acertada.
CC, art. 50, § 5º - Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a
alteração da finalidade original da atividade econômica específica da pessoa
jurídica.
• Confusão patrimonial: não há separação entre o patrimônio do sócio e da PJ.
◦ CC, art. 50, § 2º - Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato
entre os patrimônios, caracterizada por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou
vice-versa;
II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de valor
proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial.
◦ Por exemplo: as despesas pessoais do sócio estão sendo pagas com o patrimônio da
empresa.
2. Prejuízo ao credor.
• Só o prejudicado pode “tirar o sócio”.
• Se não há esse prejuízo, não há como se falar de desconsideração.
◦ Se só existe um receio por parte do credor, não é possível desconsiderar a personalidade
jurídica. Portanto, deve haver demonstração do prejuízo.
• Ainda que os requisitos sejam atendidos, é preciso um requerimento para a desconsideração da
personalidade jurídica, pois ela não é ex officio, elaborado ou pelo prejudicado ou pelo MP.
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO CIVIL - Bruno
Miragem
• CC, art. 50 - Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de
finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do
Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
§ 1º Para os fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização da pessoa
jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de qualquer
natureza.
§ 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato entre os
patrimônios, caracterizada por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou
vice-versa;
II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de
valor proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial.
§ 3º O disposto no caput e nos §§ 1º e 2º deste artigo também se aplica à extensão das
obrigações de sócios ou de administradores à pessoa jurídica.
§ 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata
o caput deste artigo não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica.
§ 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade
original da atividade econômica específica da pessoa jurídica.
• Segue a desconsideração da personalidade jurídica, no regime do direito civil, o
entendimento da teoria quando de sua recepção no Brasil, exigindo-se para que tenha
lugar a limitação imposta
pela pessoa jurídica, que tenha havido por parte dos sócios ou administradores
confusão patrimonial ou desvio de finalidade.
◦ Embora a norma não explicite, é majoritário o entendimento de que tais situações
abrangem a motivação geralmente dolosa dos beneficiários. Daí porque se vai exigir,
como regra para o deferimento da desconsideração, a existência de má-fé através de
fraude ou atos abusivos de parte dos sócios ou administradores.
• A doutrina mais recente, contudo, vem sustentando a necessidade de certa objetivação
das hipóteses que autorizam a desconsideração em direito comum, defendendo que se
exija apenas a realização material do resultado concreto da confusão patrimonial ou
desvio de finalidade, sem a necessidade de demonstração cabal da atuação dolosa dos
sócios e administradores. Pode surgir assim, como mera eficácia de lei, sem vinculação
necessária com abuso ou fraude.
◦ Por outro lado, contudo, boa parte da doutrina em direito civil, permanece a sustentar
a adoção da teoria subjetiva da desconsideração, ou seja, da exigência da culpa ou
dolo como pressuposto da desconsideração da personalidade jurídica, sobretudo
em face do caráter excepcional de que se reveste esta providência.
◦ Será esta disputa interpretativa em relação aos pressupostos da desconsideração da
personalidade jurídica segundo o tipo definido na lei, que motivou a edição de medida
provisória, em 2019 (…) propôs alteração do art. 50 do CC.
▪ “Anote-se que a Medida Provisória 881/2019 pretendia inserir o dolo para a
configuração do desvio de finalidade na desconsideração da personalidade
jurídica tratada pelo Código Civil, em qualquer uma das suas hipóteses fáticas.
Porém, na sua conversão em norma jurídica, a Lei da Liberdade Econômica (Lei
13.874/2019) acabou por não trazer esse requisito
no antes transcrito caput do art. 50 do CC/2002, o que veio em boa hora, pois tal
requisito traria requisito até intransponível para a incidência do instituto nas
relações civis.” - Flávio Tartuce.
• Há na nova redação do art. 50 do CC (antes da mudança, só tinha o caput do art. 50 - Tia
Erá) claro propósito de restringir sua aplicação, em especial delimitando novos
pressupostos legais para autorizar sua incidência. O principal deles é o de que a confusão
patrimonial, ou o desvio de finalidade, tenham resultado, necessariamente, em beneficio
aos sócios ou administradores cujo patrimônio será alcançado pela desconsideração.
• Note-se que nos termos estabelecidos pelo artigo 50 do CC, a desconsideração da pessoa
jurídica tem como pressuposto de fato a necessidade de demonstração do desvio de
finalidade ou confusão patrimonial, circunstâncias cuja prova é ônus do demandante
que postula a desconsideração. Daí porque este regime irá diferir bastante daquele
estabelecido no CDC, cuja diretriz básica orienta-se no sentido da proteção dos interesses
legítimos do consumidor, o que induzirá à ampliação das possibilidades de ressarcimento
de eventuais prejuízos decorrentes das relações de consumo.
TEORIA MENOR/OBJETIVA (CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR)
• Teoria menor no sentido de exigir MENOS requisitos.
◦ Em termos quantitativos, há mais hipóteses que autorizam a desconsideração da personalidade
jurídica, além de serem amplas.
• Em termos qualitativos, as hipóteses são menos exigentes, tendo em vista que o único requisito
exigido para a desconsideração da personalidade jurídica é o prejuízo ao credor – não somente à
nível do CDC, mas também para a legislação trabalhista, ambiental, anticorrupção –.
◦ CDC, art. 28, § 5º - Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos
consumidores.
• O juiz pode, de ofício, realizar a desconsideração da personalidade jurídica.
• Não se pode dizer que a desconsideração da personalidade jurídica é um direito subjetivo, tendo em
vista que há a exigência de requisitos e há necessidade de avaliação e autorização do juiz.
• O prejuízo em detrimento do consumidor, segundo o CDC, deve ser decorrente:
1. Abuso de direito;
• CC, art. 187 - Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes.
• Como é um conceito indeterminado, qualquer ato pode ser um abuso de direito.
2. Excesso de poder: qualquer “coisa” pode ser excesso de poder;
3. Infração da lei: qualquer infração da lei;
4. Fato ou ato ilícito;
• CC, art. 186 - Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar
direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito
• Ainda que não haja infração da lei, mas a PJ cometeu um ato ilícito.
5. Violação dos estatutos ou contrato social;
• Diferentemente da teoria maior que só abrange o desvio da finalidade, aqui se abarca qualquer
violação dos estatutos ou contrato social.
6. Personalidade como obstáculo para o ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores;
• Nenhum dos outros requisitos precisam existir se a personalidade jurídica for obstáculo, por si
só, para o ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.
7. Falência, insolvência, encerramento, inatividade da PJ, SE provocados por má administração.
• Essas três hipóteses são bem limitadas, porque só serão consideradas requisitos caso tenham
sido provocadas por má administração.
◦ É indispensável provar a culpa para gerar a responsabilidade ao sócio.
▪ Por exemplo: empresas foram à falência durante a época da pandemia, mas isso não foi
causado por má administração.
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CDC - Bruno Miragem
• CDC, art. 28 - O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando,
em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei,
fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também
será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou
inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
• A desconsideração da personalidade jurídica é prevista no artigo 28 do CDC com duas
funções básicas:
◦ De sanção pelo uso da pessoa jurídica para prática de atos ilícitos genericamente
considerados;
◦ E como garantia do consumidor ao ressarcimento de seus prejuízos.
• O artigo 28 do CDC estabelece uma larga relação de hipóteses que autorizam a
desconsideração da personalidade jurídica.
• As hipóteses estabelecidas no caput do artigo 28, primeira parte, têm como característica
comum a ilicitude ou irregularidade da conduta do fornecedor.
◦ CDC, art. 28 - O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade
quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder,
infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. (…)
• Já no que diz respeito à segunda parte do dispositivo, as hipóteses de falência,
insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica não importam na
desconsideração de per se. Ao contrário, apenas importam na desconsideração quando
tais circunstâncias decorram diretamente de má-administração.
◦ CDC, art. 28 - (…) A desconsideração também será efetivada quando houver falência,
estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por
má administração.
◦ A dificuldade prática reside justamente em precisar no que consiste o significado de
má-administração.
▪ Um primeiro entendimento vai sustentar que má-administração equivale à gestão
dos negócios da sociedade mediante fraude ou má-fé.
▪ Por outro lado, há os que vão defender a noção, como espécie de atos de gerência
incompetente dos sócios ou administradores que deem causa à extinção da
pessoa jurídica.
◦ Não é desconhecido que o alcance da expressão má-administração, nesta segunda
parte do artigo 28, caput, é essencial para circunscrever os limites da responsabilidade
dos sócios e
administradores.
▪ O primeiro entendimento, exigindo a má-fé, fixa o mesmo sentido do que a
primeira parte do dispositivo, referindo-se à necessidade de reprovação jurídica
da conduta dos sócios e administradores.
▪ Já a exigência de simples incompetência administrativa abre a possibilidade de
desconsideração, via interpretação extensiva, a qualquer espécie de falência ou
estado de insolvência uma vez que é de se pressupor que, racionalmente, a
consecução da finalidade lucrativa das sociedades não é alcançada em vista de
falta de conhecimento ou competência na administração do negócio.
• Da mesma forma, embora não seja reprovável sob o aspecto jurídico como a
má-fé, a demonstração do que seria incompetência administrativa do sócio
ou administrador, e sua vinculação como causa da falência ou insolvência do
fornecedor, é prova de difícil produção.
• Requerida a desconsideração na própria petição inicial ou em incidente próprio, nos
termos do CPC/2015, será obrigatória a citação dos sócios atingidos.
◦ A eficácia da desconsideração alcança todas as obrigações decorrentes de relação de
consumo, como a responsabilidade por acidentes de consumo, vícios do produto ou
do serviço, assim como perdas e danos e outras consequências pecuniárias
decorrentes do inadimplemento.
◦ A desconsideração impõe, neste sentido, a responsabilidade ilimitada dos
sócios e administradores pelas obrigações do fornecedor decorrentes de relação
de consumo, em vista igualmente da sanção ao comportamento irregular e como
garantia do ressarcimento devido, promovendo em última análise, a efetividade do
direito do consumidor.
◦ Não poderá a pretensão de desconsideração da personalidade jurídica ser promovida
apenas em relação a alguns dos sócios, como é o caso daqueles que exercem a
gerência ou administração da sociedade. Deve ser proposta contra todos.
GRUPOS SOCIETÁRIOS E SOCIEDADES CONTROLADAS
• Além da hipótese geral de desconsideração prevista no artigo 28, caput, também no
parágrafo § 2º são abrangidas as hipóteses de desconsideração em relação às sociedades
integrantes de grupos societários e às sociedades controladas.
• CDC, art. 28, § 2º - As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades
controladas, são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste código.
◦ Por sociedade integrante de grupo societário entenda-se aquelas que se estruturam no
regime das sociedades ligadas por vínculo orgânico ou de direção. O que distingue o
grupo societário é a unidade que se lhe reconhece de interesse e direção.
◦ Já as sociedades controladas têm seu conceito estabelecido pela Lei das Sociedades
Anônimas, estabelecendo sociedade controlada como:
▪ Lei 6.404/76, art. 243, § 2º - Considera-se controlada a sociedade na qual a
controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos
de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas
deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores.
◦ “Grupos societários são conjuntos de empresas juridicamente independentes, mas
que estão vinculadas entre si por uma relação de controle ou coordenação, geralmente
sob a liderança de uma empresa controladora. Essa estrutura permite que as empresas
atuem de maneira integrada, visando objetivos comuns, como estratégias
empresariais conjuntas ou divisão de mercados.
▪ Já as sociedades controladas são aquelas em que outra empresa, chamada de
controladora, possui o controle efetivo. Esse controle ocorre quando a
controladora detém a maioria do capital votante da controlada, permitindo-lhe
influenciar ou determinar as decisões da administração e o rumo das atividades
da sociedade controlada.” - Chat GPT.
• Neste caso, havendo circunstância fática ou jurídica que caracterize a existência de grupo
societário, e havendo obrigações decorrentes de relações de consumo para os
consumidores, resulta aplicável a regra de responsabilidade subsidiária das outras
empresas do grupo de que faz parte o fornecedor originariamente responsável.
◦ Este caráter apenas subsidiário, e não solidário, da responsabilidade das sociedades
controladas mereceu críticas da doutrina especializada.
• Destaque-se, contudo, que não há, neste aspecto, necessidade de demonstração de culpa
ou dolo dos dirigentes das empresas responsabilizadas subsidiariamente. Basta ao
consumidor que não tenha tido seu crédito satisfeito, a demonstração de existência de
grupo econômico, devendo ser considerado prova para tal, tanto documentos que atestem
formalmente sua existência, até o que é mais comum, a demonstração de características
das próprias empresas e suas atividades, que corroborem esta conclusão.
• Em ambos os casos, ao prever a responsabilidade subsidiária do grupo societário e das
sociedades coligadas, o legislador do CDC não parece estabelecer efeito próprio da
desconsideração da personalidade jurídica, senão de responsabilidade legal subsidiária, a
ser imputada na hipótese do fornecedor direto, integrante destas estruturas societárias,
não puder responder às obrigações decorrentes de relações de consumo.
SOCIEDADES CONSORCIADAS
• “Uma sociedade consorciada é uma forma de associação temporária entre duas ou mais
empresas, com o objetivo de realizar um projeto ou atividade específica em conjunto,
geralmente de grande porte, como obras de infraestrutura, fornecimento de serviços ou
desenvolvimento de tecnologia.
◦ Cada empresa participante mantém sua independência jurídica e administrativa, e a
responsabilidade por suas obrigações é limitada à parte que lhe cabe no consórcio.
◦ Esse tipo de associação é regido por contrato e é utilizado quando a colaboração entre
as empresas é necessária para o sucesso do empreendimento, sem que haja uma fusão
ou incorporação entre elas.” - Chat GPT.
• Já no que diz respeito às sociedades consorciadas, o artigo 28, § 3º, do CDC estabelece
que sua responsabilidade decorrente das obrigações estabelecidas sob o regime desta lei
(decorrentes de relação de consumo), serão de responsabilidade solidária entre todas os
fornecedores participantes do consórcio. Note-se que a regra estipulada no CDC
estabelece uma exceção ao disposto na Lei das Sociedades Anônimas.
◦ CDC, art. 28, § 3º - As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis
pelas obrigações decorrentes deste código.
• Isto porque, no regime da Lei 6.404/76, as chamadas sociedades consorciadas não
integram pessoa jurídica específica, mas ao contrário, mantém cada uma sua
personalidade jurídica original, não havendo em regra, solidariedade pelas obrigações
assumidas.
◦ Lei 6.404/76, art. 278, § 1º - O consórcio não tem personalidade jurídica e as
consorciadas somente se obrigam nas condições previstas no respectivo contrato,
respondendo cada uma por suas obrigações, sem presunção de solidariedade.
• Deste modo, em face do disposto no CDC, seu artigo 28, § 3º estabelece exceção à regra
fixada na Lei das Sociedades Anônimas, estabelecendo a solidariedade das sociedades
consorciadas quando se trate de obrigações derivadas de relações de consumo.
SOCIEDADES COLIGADAS
• “Uma sociedade coligada é aquela em que uma empresa participa do capital de outra, mas
sem exercer controle sobre ela. A coligação ocorre quando uma empresa detém uma
influência significativa, geralmente possuindo entre 10% e 50% das ações com direito a
voto da outra empresa.
◦ Apesar dessa participação relevante, a empresa coligada não tem poder para decidir
ou controlar diretamente as decisões da administração, como ocorre nas sociedades
controladas. Esse tipo de vínculo permite uma relação de cooperação entre as
empresas, sem interferência direta na gestão.” - Chat GPT.
• Dentre as diversas figuras societárias examinadas em vista da responsabilidade que lhes é
imputada no regime do CDC, o artigo 28, § 4º, do CDC, vai estabelecer, por fim, que em
relação às sociedades coligadas, estas só responderão por culpa, restringindo a extensão
da responsabilidade que é a tônica das normas de proteção do consumidor.
◦ CDC, art. 28, § 4º - As sociedades coligadas só responderão por culpa.
• Esta aparente exceção se explica em face do próprio conceito de sociedade coligada. (…),
ainda são pessoas jurídicas distintas, e tampouco se há de falar em direção ou controle,
mas apenas, quando for o caso, influência sobre dadas decisões.
◦ Daí porque mantém-se adequada a solução indicada no § 4º do CDC, de que a
responsabilidade de uma delas em relação às obrigações originadas de contratos de
consumo ou danos a consumidores, em que a outra tenha atuado como fornecedora,
só terá lugar se ficar demonstrada a culpa daquela a quem se deseja estender a
responsabilidade, em caráter subsidiário.
CLÁUSULA GERAL DO ART. 28, § 5º, DO CDC
• Além da extensão das hipóteses de responsabilidade dos sócios e administradores e das
sociedades coligadas, consorciadas, controladas ou integrantes do mesmo grupo
econômico do fornecedor que seja titular do débito em obrigação havida com o
consumidor, o CDC vai prever ainda, disposição de largo campo de aplicação. Esta
disposição é abrangente de todas as hipóteses em que, independente da causa, deixe de
haver o ressarcimento dos prejuízos do consumidor.
◦ CDC, art. 28, § 5º - Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre
que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores.
• Em matéria de significado e âmbito de incidência da norma, note-se que o § 5º, em
questão, abrange completamente as hipóteses legais precedentes, previstas no mesmo
artigo 28.
◦ Ao indicar que sempre poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica quando esta for de
alguma forma obstáculo ao ressarcimento, a norma que aparentemente seria
subsidiária em relação à aplicação do caput e demais parágrafos do artigo 28, assume,
em razão do seu conteúdo abrangente, a qualidade de norma principal.
• O caráter amplo e, de certo modo objetivo, ou ao menos independente de culpa, uma vez
que abrange todas as hipóteses, presentes ou não a culpa e o dolo, suscita grandes
discussões doutrinárias e jurisprudenciais.
◦ Parece-nos que, embora de largueza semântica incomparável, e considerando mesmo
que, em termos literais, o § 5º do artigo 28 tem o condão de transformar a exceção
em regra, no sentido do afastamento da personalidade jurídica para efeito da
responsabilização dos sócios e administradores com relação ao ressarcimento dos
prejuízos causados aos consumidores nas
relações de consumo, a aplicação prudente do dispositivo pela jurisprudência vem
dando ao mesmo o perfil de norma de garantia de ressarcimento de danos.
• Neste sentido, é paradigmática a decisão do STJ, relativa à responsabilidade pelos danos
decorrentes da explosão do shopping em Osasco/SP.
◦ Na defesa das suas posições, houve divergência entre os Ministros Ari Pargendler,
defensor da denominada teoria subjetiva da desconsideração (conhecida, por muitos,
como teoria maior, indicação, contudo, com tendência ao desuso, pela qual esta só
tem lugar quando demonstrada o desvio de finalidade ou confusão patrimonial).
◦ Entretanto, restou assentado no julgado, em vista do voto condutor da Min. Nancy
Andrighi, que defende a aplicação, no microssistema do CDC, a teoria da natureza
objetiva da desconsideração (denominada também de teoria menor), pela qual “o
risco empresarial normal às atividades econômicas não pode ser suportado pelo
terceiro que contratou com a pessoa jurídica, mas pelos sócios e/ou administradores
desta, ainda que estes demonstrem conduta administrativa proba, isto é, mesmo que
não exista qualquer prova capaz de identificar conduta culposa ou dolosa por parte
dos sócios e/ou administradores da pessoa jurídica”.
◦ A questão, permanece polêmica, mas o STJ vem confirmando em novas decisões, o
entendimento já fixado. Ou conforme bem afirma a jurisprudência da Corte, “os
credores não negociais da pessoa jurídica podem ter acesso ao patrimônio dos sócios,
por meio da disregard doctrine, a partir da caracterização da configuração de prejuízo
de difícil e incerta reparação em decorrência da insolvência da sociedade.”
• Observe-se que a aplicação do § 5º do artigo 28, como fundamento da desconsideração
tem sua aplicação circunscrita às circunstâncias do caso concreto, de acordo com a
prudência e cautela do juiz, considerando-se seu caráter subsidiário em relação à
responsabilidade da própria pessoa jurídica fornecedora, mas ao mesmo tempo de
garantia, de acordo com o princípio da confiança, em vista da necessidade de assegurar o
direito do consumidor ao ressarcimento integral de seus prejuízos. - Bruno Miragem.
JURISPRUDÊNCIA E ENUNCIADOS
• Não há necessidade de provar que a empresa está falida para que a desconsideração seja deferida
(diz Dra. Blogueira que STJ estabeleceu isso, mas só vi Tartuce afirmando mesmo - Tia Erá).
• Membros do conselho fiscal de uma cooperativa não podem ser atingidos pela desconsideração da
personalidade jurídica se não praticaram nenhum ato de administração.
“A desconsideração da personalidade jurídica de uma sociedade cooperativa, ainda que
com fundamento no art. 28, § 5º, do CDC (Teoria Menor), não pode atingir o patrimônio
pessoal de membros do Conselho Fiscal sem que haja a mínima presença de indícios de
que estes contribuíram, ao menos culposamente, e com desvio de função, para a prática
de atos de administração”.
STJ – REsp 1.766.093/ SP – Rel. Min. Nancy Andrighi – Rel. p/ Acórdão Ministro Ricardo
Villas Bôas Cueva – Terceira Turma – j. 12.11.2019 – DJe 28.11.2019.
No direito empresarial, uma cooperativa é uma sociedade formada por pessoas que se
associam voluntariamente para realizar atividades econômicas de forma coletiva, com o
objetivo de melhorar suas condições econômicas e sociais, sem ter o lucro como finalidade
principal.
• Ao contrário das sociedades empresariais tradicionais, que buscam maximizar os
lucros para seus sócios, as cooperativas visam fornecer benefícios diretos aos seus
membros, chamados de cooperados, como melhores condições de produção, crédito
ou consumo, conforme o tipo de cooperativa.
• Regida pela Lei nº 5.764/1971, a cooperativa é caracterizada pela gestão
democrática, em que cada cooperado tem direito a um voto nas decisões,
independentemente de quanto capital tenha investido. Além disso, qualquer
excedente econômico gerado pelas atividades da cooperativa é distribuído
proporcionalmente à participação dos cooperados nas operações da entidade, e não
com base no capital investido, como nas sociedades empresariais.
• Uma característica importante das cooperativas é a presença do conselho fiscal, um
órgão interno encarregado de fiscalizar a gestão financeira e contábil da cooperativa.
◦ O conselho fiscal é eleito pelos próprios cooperados durante a assembleia geral e
tem a função de garantir a transparência e a legalidade das operações, verificando
a exatidão das contas e assegurando que os recursos da cooperativa sejam
administrados corretamente.
◦ Ele analisa demonstrações financeiras, acompanha a administração e emite
pareceres sobre os balanços anuais, sendo essencial para a boa governança da
cooperativa.
• Quando o anúncio de medida excepcional e extrema que desconsidera a personalidade jurídica tiver
potencial bastante para atingir o patrimônio moral da sociedade, à pessoa jurídica será conferida a
legitimidade para recorrer daquela decisão.
“À pessoa jurídica interessa a preservação de sua boa fama, assim como a punição de
condutas ilícitas que venham a deslustrá-la. Dessa forma, quando o anúncio de medida
excepcional e extrema que desconsidera a personalidade jurídica tiver potencial bastante
para atingir o patrimônio moral da sociedade, à pessoa jurídica será conferida a
legitimidade para recorrer daquela decisão. Bem assim, que a lesão injusta ao patrimônio
moral, que é valor agregado à pessoa jurídica, é fundamento bastante a legitimá-la à
interposição do recurso com vistas à recomposição do estado normal das coisas alterado
pelo anúncio da desconsideração, sempre com vistas à defesa de sua autonomia e regular
administração.”
REsp 208852/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4ª T., j. 12.05.2015, DJe 05.08.2015.
◦ Tanto o sócio que teve a desconsideração da personalidade jurídica contra si decretada quanto a
PJ possuem legitimidade para recorrer.
• Não há condenação em honorários advocatícios em incidente de desconsideração da personalidade
jurídica.
“Não há condenação em honorários advocatícios em incidente de desconsideração da
personalidade jurídica. Em regra, não é cabível a condenação em honorários advocatícios
em qualquer incidente processual, ressalvados os casos excepcionais. Tratando-se de
incidente de desconsideração da personalidade jurídica, não cabe a condenação nos ônus
sucumbenciais em razão da ausência de previsão legal. Logo, é irrelevante apurar quem
deu causa ou foi sucumbente no julgamento final do incidente.”
STJ. 3ª Turma. REsp 1.845.536-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Marco
Aurélio Bellizze, julgado em 26/05/2020 (Info 673).
• Uma vez aplicada a desconsideração da personalidade jurídica, não há limite de
responsabilização por quotas de sócios.
V - A partir da desconsideração da personalidade jurídica, a execução segue em direção
aos bens dos sócios, tal qual previsto expressamente pela parte final do próprio art. 50, do
Código Civil e não há, no referido dispositivo, qualquer restrição acerca da execução,
contra os sócios, ser limitada às suas respectivas quotas sociais e onde a lei não distingue,
não é dado ao intérprete fazê-lo.
VI - O art. 591 do Código de Processo Civil é claro ao estabelecer que os devedores
respondem com todos os bens presentes e futuros no cumprimento de suas obrigações,
de modo que, admitir que a execução esteja limitada às quotas sociais levaria em
temerária e indevida desestabilização do instituto da desconsideração da
personalidade jurídica que vem há tempos conquistando espaço e sendo moldado às
características de nosso ordenamento jurídico.
STJ, REsp 1.169.175/DF.
No direito empresarial, as sociedades cuja responsabilidade dos sócios é limitada por
quotas sociais são chamadas de sociedades limitadas (LTDA). Nessas sociedades, os
sócios têm a sua responsabilidade restrita ao valor de suas quotas de participação no
capital social da empresa, ou seja, eles respondem pelas dívidas da sociedade apenas até o
limite do valor que investiram.
• Nas sociedades limitadas, o capital social é dividido em quotas, que são partes ideais
do valor total da empresa, e cada sócio possui uma determinada quantidade dessas
quotas, conforme o montante que investiu.
• A gestão da sociedade pode ser feita por um ou mais sócios ou por terceiros
designados, e as decisões mais importantes são tomadas em assembleia, onde o poder
de voto é geralmente proporcional ao número de quotas de cada sócio.
• Além disso, apesar de a responsabilidade dos sócios ser limitada, eles são obrigados a
integralizar totalmente suas quotas no capital social da empresa. Caso contrário, eles
podem ser chamados a responder pela parte não integralizada.
• Enunciado 282 da IV Jornada de Direito Civil - O encerramento irregular das atividades da
pessoa jurídica, por si só, não basta para caracterizar abuso de personalidade jurídica.
Observação: não se quer dizer com isso que o encerramento da sociedade jamais será
causa de desconsideração de sua personalidade, mas que somente o será quando sua
dissolução ou inatividade irregulares tenham o fim de fraudar a lei, com o desvirtuamento
da finalidade institucional ou confusão patrimonial (Min. Maria Isabel Gallotti).
Em outras palavras, o encerramento irregular pode ser um indício de que houve abuso da
personalidade (desvio de finalidade ou confusão patrimonial), mas serão necessárias
outras provas para que se cumpra o que exige o art. 50 do CC. - Dizer O Direito.
◦ Súmula 435/STJ - Se presume dissolvida irregularmente a empresa que deixa de funcionar no
seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento
da execução fiscal para o sócio-gerente.
◦ Por exemplo: se morreu todos os sócios e a empresa foi dissolvida, assim, irregularmente, não
há de se falar em desconsideração. Por outro lado, se a empresa foi dissolvida por má
administração, há de se falar em desconsideração.
• Admite-se a desconsideração da personalidade jurídica em face de uma associação.
3. Há diferença estrutural e funcional entre as sociedades e associações, na medida em
que, ao se desconsiderar a personalidade jurídica de determinada sociedade, alcança-se
um contrato societário, o qual vincula seus sócios no plano obrigacional, destacando-se o
seu elemento pessoal. De outro lado, as associações são marcadas por um negócio jurídico
firmado entre elas e seus associados, mas sem nenhum vínculo obrigacional, conforme
comando do parágrafo único do art. 53 do CC, de modo que o elemento pessoal não lhe é
inerente.
4. É admissível a desconsideração da personalidade jurídica de associação civil, contudo a
responsabilidade patrimonial deve ser limitada apenas aos associados que estão em
posições de poder na condução da entidade, pois seria irrazoável estender a
responsabilidade patrimonial a um enorme número de associados que pouco
influenciaram na prática dos atos associativos ilícitos.
STJ, REsp 1.812.929.
• Enunciado 285 da IV Jornada de Direito Civil - As pessoas jurídicas de direito privado sem fins
lucrativos ou de fins não econômicos estão abrangidas no conceito de abuso da personalidade
jurídica.
• Enunciado 285 da IV Jornada de Direito Civil - A teoria da desconsideração, prevista no art. 50
do Código Civil, pode ser invocada pela pessoa jurídica em seu favor.
◦ É a auto desconsideração da personalidade jurídica. É possível em razão de, dentro de
empresa, existir vários interesses que nem sempre convergem.
• Enunciado 111 da II Jornada de Direito Civil - O incidente de desconsideração da personalidade
jurídica pode ser aplicado ao processo falimentar.
◦ O incidente de desconsideração da personalidade jurídica está previsto no CDC, exigindo o
contraditório e ampla defesa.
PRÁTICAS ABUSIVAS
• São aquelas que fogem do bom senso, do razoável; aquelas que excedem o direito dos fornecedores
• O art. 39 do CDC, que define as práticas abusivas, não é numerus clausus, isto é, a lista elencada no
artigo é exemplificativa, não taxativa.
◦ CC, art. 39, caput - É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas
abusivas:
◦ Não estão no rol, mas Dra. Blogueira mencionou que são práticas abusivas:
▪ Recusar ao consumidor a disponibilização de gravações de chamadas efetuadas para o SAC;
▪ Deixar de fornecer histórico escolar por inadimplência;
▪ Quanto aos hotéis e pousadas que oferecem “pacotes” de diárias nos feriados, Dra.
Blogueira diz que não acha que é uma prática abusiva;
▪ Restaurantes em sistema de rodízio que cobram “multa” quando o cliente deixa comida no
prato;
▪ Dar troco em balas e chicletes.
• Qualquer pessoa exposta à prática abusiva é considerada consumidor por equiparação.
A previsão das práticas abusivas no direito brasileiro, por intermédio do art. 39 do CDC,
abrange série de condutas proibidas do fornecedor, consideradas abusivas em face da sua
posição de poder em relação ao consumidor.
• A técnica de não exaustão das hipóteses previstas na lei, de sua vez, deve-se ao
reconhecimento da criatividade negocial, seja em aspecto positivo – para formatação de
diferentes modelos de negócio – mas no caso específico, também em sentido negativo, da
adoção de diferentes condutas suscetíveis de qualificação como práticas abusivas.
• As várias hipóteses previstas na lei buscam preservar determinadas situações ou
qualidades que representem vantagem ao consumidor, como no caso da possibilidade de
reflexão para formação da vontade negocial, a garantia de formação do consenso, seu
esclarecimento e informação, dentre outras espécies de cláusulas de proteção da efetiva
liberdade contratual da parte vulnerável.
◦ Por outro lado, a proibição de determinadas práticas no curso da atividade negocial do
fornecedor implica na delimitação do espaço de exercício da liberdade negocial do
fornecedor, assegurada no art. 170, caput, da Constituição da República, que coloca
como bases da ordem econômica os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.
• A técnica legislativa pela qual optou o legislador foi a de estabelecer a proibição das
condutas enunciadas nos incisos do art. 39, do CDC. Tornou-as, portanto, ilícitas,
qualificando-as como espécies de práticas abusivas.
◦ Trata-se de clara delimitação da autonomia privada do fornecedor como agente
econômico, traçando limites ao exercício da liberdade de iniciativa e a criatividade
que caracteriza a atividade econômica em um sistema de economia de mercado. -
Bruno Miragem.
VENDA CASADA
• CC, art. 39, I - É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou
serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;
• É a prática em que se condiciona a aquisição de um produto à aquisição de outro produto ou serviço.
◦ Por exemplo: quando os cinemas exigiam que o consumo dentro deles fossem de produtos do
próprio cinema.
◦ Por exemplo: tratando-se de financiamento, alguns bancos exigem que o consumidor também
contrate seguro.
• Também se trata de venda casada condicionar o fornecimento de um produto ou serviço a limites
quantitativos sem justa causa.
◦ Por exemplo: limitar o consumidor a comprar somente X unidades de um produto.
O artigo 39, I, do CDC, estabelece de modo claro, que (…) existindo a decisão do consumidor
pela aquisição de determinado produto ou serviço, esta não pode ser subordinada, por ato do
fornecedor, à aquisição de outro produto ou serviço que, a princípio, não são de interesse do
consumidor.
• Trata-se de evidente exercício abusivo do fornecedor, que além de violar as normas de
direito do consumidor, também caracteriza ilícito na legislação do direito da concorrência
(artigo 36, § 3º, XVIII, da Lei 12.529/2011), uma vez que pode servir para mascarar a
eventual ineficiência deste segundo produto ou serviço que se procura impingir ao
consumo.
◦ Dentre as várias práticas abusivas, a denominada venda casada é uma das mais
longevas, sendo inicialmente prevista na legislação de proteção à livre concorrência,
onde tem também sua origem em outros sistemas jurídicos.
• A proibição da venda casada é uma das hipóteses mais claras de abuso nas práticas
comerciais do fornecedor, uma vez que este pretende obter, mediante condicionamento
da vontade do consumidor que busca adquirir produto ou serviço efetivamente desejado,
uma declaração de vontade irreal, de aquisição de um segundo produto ou serviço
absolutamente dispensável.
• Há, portanto, necessariamente, ofensa à liberdade de escolha do consumidor. E é em
relação a esta prática abusiva que vem se estabelecendo largo desenvolvimento no direito
brasileiro,
notadamente nas práticas relativas a serviços bancários e de crédito, assim como, mais
recentemente, à polêmica relativa aos serviços de telefonia, em relação aos quais a
cobrança de valores relativos à assinatura mensal básica, independente da sua utilização
efetiva pelo consumidor, vem sendo discutida judicialmente sob lógica de que se trata de
venda casada.
◦ Independente da regulação do setor, e das eventuais justificativas para a cobrança
destes valores (manutenção da rede, universalização do acesso), o fato é que
condicionar o acesso ao serviço, à remuneração de uma utilização fixa mínima, parece
configurar a prática de subordinação de aquisição de um produto (a linha telefônica) a
outro (uma quantidade de serviço mínima mensal).
◦ Assim também ocorre em relação às promoções de fidelização, muito em voga em
setores como o da telefonia celular, no qual ao lado da oferta que permita a aquisição
do aparelho celular se agrega um “pacote de serviços” pelo prazo de doze ou quinze
meses, por exemplo, deve ser assegurada a possibilidade do consumidor de adquirir
somente uma das opções.
▪ Da mesma forma, deve ser exercido efetivo controle sobre a possibilidade de
desvinculação do consumidor do contrato de fidelidade, sem a imposição de
multas e demais encargos em valor tal que o impeça na prática, de desonerar-se
daquela relação contratual antes do término do prazo (catividade extrema do
contrato).
• Portanto, é correto afirmar que há venda casada, tanto quando exista a subordinação da
venda de um produto ou serviço à aquisição de outro produto ou serviço, como também
quando se subordina a oferta de determinadas condições de celebração do negócio
(parcelamento ou pagamento a prazo, por exemplo) à aquisição de um segundo
produto/serviço que não era objeto da disposição inicial de contratação pelo consumidor.
◦ Ou quando, embora possa se tratar de um produto ou serviço útil ou necessário ao
consumidor, seja ele compelido a contratar com um determinado fornecedor, como é
o caso do financiamento imobiliário no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação,
em que o mutuário “não pode ser compelido a contratar o seguro habitacional
obrigatório com a instituição financeira mutuante ou com a seguradora por ela
indicada.” (Súmula 473 do STJ).
◦ Da mesma forma, a contratação do seguro de proteção financeira em conjunto com o
contrato de financiamento cuja satisfação vise garantir.
• Alguma discussão pode haver quando se trate de venda casada que seja vantajosa ao
consumidor individualmente considerado. Neste sentido, poderia se afirmar que, na
medida em que atenda ao interesse do consumidor poderia ser admitida. Todavia, não é
esse o entendimento mais adequado.
◦ Isso porque, configurando-se como ilícito de dupla dimensão, uma vez que ofende a
liberdade de escolha do consumidor e a livre concorrência, o CDC admitirá apenas
uma exceção em que poderá ocorrer licitamente: no caso em que havendo justa causa,
subordine-se a venda a limites quantitativos.
• Da mesma forma, há de se considerar venda casada a limitação da escolha do consumidor
à aquisição de determinados produtos a fornecedores pré-determinados, como é o caso do
exibidor de cinema que permite o acesso a suas dependências apenas dos produtos
adquiridos em um determinado bar ou lanchonete, prática notadamente abusiva.
• A prática da venda casada, uma vez proibida pelo CDC, enseja, na hipótese de danos
causados, a responsabilidade do fornecedor e, quando for o caso, a responsabilidade
solidária de toda a cadeia de fornecimento, em face dos danos aos consumidores. - Bruno
Miragem.
RECUSA DE FORNECIMENTO
CC, art. 39, II - recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas
disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes;
• É vedado ao fornecedor escolher para qual consumidor venderá seu produto ou serviço, tampouco o
quanto, tendo em vista que, uma vez colocado seus produtos ou serviços à disposição do mercado de
consumo, o fornecedor deve estar preparado para vendê-lo a todos.
• Por exemplo: fornecedor oferece uma promoção de celular valendo a partir do dia 12/11, às 8h da
manhã. Um consumidor, ainda que tenha sido o primeiro da fila no dia da promoção, é recepcionado
com o atendente lhe informando que o produto da promoção tinha acabado, mas que havia outros
produtos. Para não perder a viagem, o consumidor decide comprá-lo, ainda que seja mais caro que o
produto da oferta. Já aconteceu de, na verdade, a loja possuir o produto nos estoques, tratando-se de
uma prática abusiva, posto que é uma tática de “fisgar” o consumidor para ele ir até a loja e não
comprar o produto em promoção, mas sim um mais caro.
O fornecedor que exerce atividade profissional no mercado de consumo tem o exercício desta
atividade sempre vinculado a uma função social e econômica (artigo 187 do CC). Neste
sentido, ao submeter-se às práticas do mercado de consumo, não pode recusar-se ao
fornecimento de produtos ou serviços que realiza, em face de sua atuação profissional.
• Em outros termos, estabelece o CDC que havendo a possibilidade de
fornecimento, esta não pode ser recusada sem justa causa, a qual o mesmo CDC
expressamente previu como sendo a disponibilidade de estoque e os usos e costumes.
• Note-se que o fornecedor não pode, ao se dispor a enfrentar os riscos da atividade
negocial no mercado de consumo, pretender selecionar os consumidores com quem vai
contratar.
◦ Há uma obrigação inerente de atendimento a todos os consumidores que pretenderem
contratar, nos termos da oferta realizada ou do que o exercício da atividade
profissional do fornecedor permita presumir.
• Não há, portanto, a possibilidade do fornecedor recusar a contratar na hipótese de se
tratar de negócios menos atraentes se e quando, pela sua atividade, propõe-se a fornecer
produtos e serviços a quem se interessar, observados – como menciona o próprio CDC – os
usos e costumes comerciais.
◦ Assim ocorrerá prática abusiva, por exemplo, quando o fornecedor se recusar a
fornecer em razão da contratação do serviço lhe ser desinteressante porque de
pequeno valor, da mesma forma quando a recusa motivar-se por discriminação ilícita
de determinado consumidor. - Bruno Miragem.
ENVIO DE PRODUTO OU OFERECIMENTO DE SERVIÇO NÃO
SOLICITADO
CC, art. 39, III - enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou
fornecer qualquer serviço;
• CC, art. 39, parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues ao
consumidor, na hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, inexistindo
obrigação de pagamento.
• Tudo que for enviado sem solicitação prévia do consumidor é tido como gratuito.
◦ Por exemplo: fornecedor de vinho manda para o consumidor um vinho sem que este o tenha
solicitado. O vinho poderá ser consumido pelo consumidor sem que este tenha que pagar por
algo, já que o produto será tido como gratuito.
◦ Por exemplo: antigamente, bancos enviavam cartões de crédito à idosos do interior, sem que
eles tenham solicitado. Na fatura enviada para eles, estava sendo cobrada a anuidade do cartão
ainda no primeiro ano de uso, configurando prática abusiva, já que os cartões não tinham sido
solicitados, mas cabe frisar que os consumidores deviam pagar o que tinham comprado
utilizando o cartão.
As hipóteses de envio ou fornecimento não solicitado de produto ou serviço têm seu caráter
abusivo infirmado pela ausência de consentimento ou de vontade expressa do consumidor em
adquiri-los. Ou seja, há também aqui o propósito de constranger o consumidor a realizar a
contratação buscando, sob o argumento da facilitação do negócio, caracterizá-la em sua visão,
como fato consumado.
• A tais situações, o CDC estabelece uma sanção específica, no artigo 39, parágrafo único,
(…). Ou seja, equipara-se o produto ou serviço entregue ao consumidor sem sua solicitação
à amostra grátis, não havendo obrigação do beneficiário ao pagamento.
• Entendimento algo difundido sustenta que tal disposição prevê hipótese que autoriza o
enriquecimento sem causa pelo consumidor. Não parece correto. A hipótese aqui é a de
determinação legal de uma causa de atribuição patrimonial ao consumidor.
◦ Ou seja, não se trata de enriquecimento sem causa, uma vez que a causa de acréscimo
patrimonial pelo consumidor é determinada pela própria norma legal. O que existe é
espécie de sanção do fornecedor, mediante a conversão do ato negocial cuja vontade
inicial era de revestir-se do caráter oneroso, em contrato gratuito, na medida em que
se desobriga o consumidor ao pagamento.
• A jurisprudência brasileira, já firmou seu entendimento a respeito do tema, tanto no que
diz respeito ao envio não solicitado de cartões de crédito ao consumidor, assim como no
caso do fornecimento de serviços onerosos tipo “0900”, sem a prévia solicitação do
consumidor do contrato da linha telefônica.
◦ Neste sentido, tanto a cobrança do serviço, quanto eventual registro do consumidor
nos bancos de dados de proteção ao crédito na hipótese de não pagamento,
configuram hipótese de responsabilização do fornecedor pelos danos causados. -
Bruno Miragem.
APROVEITAMENTO DA VULNERABILIDADE AGRAVADA DO
CONSUMIDOR
CC, art. 39, IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua
idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços;
• O CDC foi construído com base no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor, buscando
que essa vulnerabilidade não se agrave.
• As práticas que hipervulnerabilizam o consumidor são consideradas abusivas.
◦ Por exemplo: Leite Molico Acti Fibras, que é vendido como leite, com preço de leite, mas não é
leite, sendo, na verdade, um composto lácteo.
• É com base nesse dispositivo que boa parte da doutrina é contrária à publicidade infantil, tendo em
vista sua capacidade de influenciar no poder de compra dos seus pais.
◦ Com base nisto, defende-se que se evite colocar figuras infantis e desenhos específicos nos
produtos, já que a criança não tem a maturidade para discernir entre o real e a fantasia até os 12
anos.
A proteção do consumidor tem por fundamento a presunção legal de vulnerabilidade. De
acordo com o princípio da vulnerabilidade estabelecido no artigo 4º, III, do CDC, todos os
consumidores são vulneráveis.
• Ocorre que para além da vulnerabilidade, existem características pessoais, subjetivas, e
identificadas em alguns consumidores e não em todos, que determinam uma fragilidade
ainda maior, em razão da idade (idosos e crianças), condição socioeconômica e cultural (o
consumidor pobre, o consumidor analfabeto), qualidades a que se denomina
vulnerabilidade agravada do consumidor.
◦ É reconhecido pela jurisprudência o conceito de hipossuficiência como critério de
inversão do ônus da prova pelo juiz, em favor do consumidor.
• Todavia, examinando-se os casos concretos, é possível identificar que a proteção dos
interesses do consumidor em uma determinada relação específica seja mais ampla em
razão da necessidade de tutelar adequadamente os interesses de um consumidor que
apresente, além de sua vulnerabilidade inerente, a presença de condição pessoal que
reforce a desigualdade entre as partes no contrato de consumo.
• O que se considera prática abusiva, entretanto, é o aproveitamento da hipossuficiência do
consumidor, e não certamente o simples fato de contratar-se com consumidores
hipossuficientes.
◦ A caracterização da hipossuficiência, que se retira do mundo dos fatos é reconhecida a
partir de condições subjetivas especiais, como idade, condição econômico-cultural,
dentre outros.
• Ocorrendo esta prática abusiva, sua sanção pode ser tanto a invalidade do contrato obtido
nestes termos (e.g. no caso de publicidade abusiva para crianças e idosos que se
aproveitem desta condição para promover a contratação), assim como, existindo danos, a
responsabilidade do fornecedor pela reparação dos mesmos. - Bruno Miragem.
EXIGÊNCIA DE VANTAGEM MANIFESTAMENTE EXCESSIVA
CC, art. 39, V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
• Por exemplo: o produto normalmente custa R$1,00 e o fornecedor o coloca no preço de R$50,00.
Trata-se de hipótese genérica que contempla a vedação de conduta do fornecedor visando à
obtenção de vantagem que venha a dar causa ao desequilíbrio da relação jurídica de consumo.
• Note-se que não há necessidade de existir o contrato, senão o mero ato do fornecedor
postulando o recebimento de vantagem.
• A identificação dos critérios para determinação do caráter excessivo ou não de pretensão
negocial do fornecedor verifica-se em acordo com o disposto – com finalidade idêntica –
para determinação da abusividade de cláusula contratual por consignar vantagem
exagerada ao consumidor (artigo 51, § 1º, do CDC).
◦ CC, art. 51, § 1º - São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o
consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a
eqüidade;
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de
tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a
natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias
peculiares ao caso.
◦ Tanto é assim que a utilização do dispositivo, pela jurisprudência, vem sendo feita em
vista de sua aplicação combinada com o artigo 51 do CDC, para determinar a
nulidade da cláusula contratual abusiva que estipule vantagem exagerada aos
fornecedores, em claro desacordo com o direito básico do consumidor ao equilíbrio
contratual.
• No mesmo sentido é a conduta do fornecedor que evita a liberação do consumidor do
contrato, exigindo a satisfação de vantagem indevida de seus interesses, como é o caso da
recusa da instituição de ensino em permitir a colação de grau do aluno inadimplente.
◦ Nestes casos, assim como eventual invalidade, impedimento ou cessação da conduta
abusiva, há o direito à pretensão de perdas e danos do consumidor prejudicado,
quando tiver existido prejuízo de sua parte. - Bruno Miragem.
EXECUÇÃO DE SERVIÇOS SEM ELABORAÇÃO DE
ORÇAMENTO PRÉVIO
CC, art. 39, VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa
do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes;
• Por exemplo: o consumidor colocar algo para consertar em uma loja e, uma vez consertado, a loja
repassar o valor do conserto. Nesse caso, trata-se de prática abusiva, já que o fornecedor deve enviar
o orçamento prévio e o consumidor deve dizer se autoriza ou não.
• Não será considerada prática abusiva quando ela for recorrente entre as partes.
◦ Por exemplo: toda vez que o carro de A precisa de conserto, ele leva para o mecânico B, que,
depois de consertar o carro, envia o orçamento só depois, configurando prática recorrente entre
eles.
A garantia de orçamento prévio pelo consumidor foi consagrada pelo CDC em duas
disposições distintas:
a) do artigo 39, VI, que qualifica como abusivo “executar serviços sem a prévia elaboração de
orçamento e autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas
anteriores entre as partes”,
e b) o artigo 40 que dispõe: “O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao consumidor
orçamento prévio discriminando o valor da mão-de-obra, dos materiais e equipamentos a
serem empregados, as condições de pagamento, bem como as datas de início e término dos
serviços”.
• A sanção reconhecida para a prestação de serviço sem a prévia aprovação do orçamento
pelo consumidor configura a segunda hipótese em que o CDC desobriga o pagamento pelo
consumidor (a primeira, a que já nos referimos, é a prevista no artigo 39, parágrafo único).
• Isto porque, aprovado o orçamento pelo consumidor, seus termos passam a vincular
ambos os contratantes (artigo 40, § 2º), de modo que o consumidor não responderá “por
quaisquer ônus ou acréscimos
decorrentes da contratação de serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio”
(artigo 40, § 3º).
• A causa de atribuição patrimonial do consumidor, neste caso, é a expressa disposição do
CDC que desobriga o pagamento daquilo que não lhe foi previamente informado (direito à
informação) e que, portanto, com o que não consentiu (princípio do consensualismo).
• Observe-se, todavia, que tendo consentido com determinado orçamento, e sendo este
desconsiderado pelo fornecedor, responde o consumidor a princípio até o valor com o que
consentiu, salvo se os serviços realizados não foram os contratados, ou seja, a prestação é
diversa e não maior do que a contratada, hipótese em que existirá simples
inadimplemento do fornecedor, com as consequências típicas daí decorrentes. - Bruno
Miragem.
DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES DEPRECIATIVAS
DECORRENTE DO EXERCÍCIO DO DIREITO PELO
CONSUMIDOR
CC, art. 39, VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no
exercício de seus direitos;
Note-se que não se está vedando aqui a formação e inclusão de informações em bancos de
dados de consumidores, o que é expressamente permitido pelo CDC, atendidas as exigências
do artigo 43.
• O que se proíbe, na disposição em destaque, é o repasse de informação depreciativa
quando esta efetivamente, por sua qualidade, tenha por consequência projetar imagem
desabonadora da conduta do consumidor (por exemplo, a indicação de um
inadimplemento contratual).
• O sentido da prática abusiva em questão, é evitar a formação de “listas negras” de
consumidores “que reclamam e exigem seus direitos, agora assegurados pelo CDC, ou de
consumidores envolvidos em associações de proteção de consumidores”.
• A grande dificuldade, neste caso, é sem dúvida a comprovação da prática, para efeito de
responsabilização do fornecedor.
◦ Sabedores de que se trata de prática abusiva vedada por lei, os fornecedores que a
promovem o fazem em relativo sigilo, deixando de motivar as razões de eventual
decisão que recusa a contratação com consumidores incluídos nestas “listas negras”.
• Esta prática abusiva complementa-se com o que dispõe o inciso IX, do artigo 39, ao
estabelecer como prática abusiva a recusa de fornecimento mediante pronto pagamento.
Todavia, nada impede a inversão do ônus da prova quando as circunstâncias do caso o
autorize, indicando ao fornecedor que recusa fornecimento – e de que se suspeita basear-
se em uma “lista negra” – que seja instado a demonstrar as razões objetivas que
determinaram a recusa da contratação ou a inadequação do consumidor a um
determinado padrão de contratação admissível. - Bruno Miragem.
OFERECIMENTO NO MERCADO DE PRODUTO OU SERVIÇO
EM DESACORDO COM NORMAS TÉCNICAS (não foi falado
pela Dra. Blogueira)
CC, art. 39, VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo
com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não
existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo
Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro);
A qualidade e a segurança dos produtos e serviços oferecidos no mercado têm como critério
básico para atestar sua adequação o atendimento das normas técnicas estabelecidas por
entidades acreditadas (como é o caso da Associação Brasileira de Normas Técnicas) e os
órgãos estatais dedicados a este fim (caso do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial – INMETRO – e do Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial – CONMETRO).
• A par das sanções administrativas cabíveis pela violação das normas em questão, a
previsão da violação destas normas técnicas como práticas abusivas permite a atuação dos
órgãos de defesa do consumidor e demais legitimados para a tutela coletiva prevista no
CDC, para promoverem a defesa dos interesses dos consumidores nos termos previstos
neste diploma legal.
• Da mesma maneira, caracterizada a prática como abusiva, e, portanto, ilícita, surge para
os consumidores prejudicados a possibilidade de demandar o fornecedor que a promova,
em acordo com o regime de responsabilidade civil previsto no CDC.
• Atualmente, sobretudo em consideração aos efeitos da globalização econômica e do
aumento das importações de produtos e serviços, vale lembrar que o critério de adequação
e qualidade dos mesmos no mercado brasileiro, serão as normas técnicas admitidas ou
editadas pelos órgãos competentes brasileiros, não servindo, a priori, de escusa para o
fornecedor, a alegação de atendimento de normas dos países de origem dos referidos
produtos, quando ocorrer destas serem consideradas menos acreditadas do que a
normalização brasileira. - Bruno Miragem.
RECUSA DE FORNECIMENTO MEDIANTE PRONTO
PAGAMENTO
CC, art. 39, IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se
disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação
regulados em leis especiais;
• Por exemplo: Dra. Blogueira tentou pagar o presente de seu irmão com um cheque que tinha recém
obtido em razão do seu PIBIC na UFAL. Contudo, a loja recusou o pagamento em razão de ser um
cheque com idade, considerando-se a idade bancária do cheque (6 meses), como se pessoas que
tivessem contas abertas há pouco tempo fossem “maus pagadores”, tratando-se de uma prática
abusiva.
A norma em questão foi introduzida pela antiga Lei de Defesa da Concorrência (Lei 8.884/94,
ora Lei 12.529/2011), sendo que sob a perspectiva do direito do consumidor, tem por
objetivo essencial impedir a discriminação de consumidores, em situações que reduzem
expressivamente, ou praticamente eliminam, para o fornecedor, o risco de inadimplemento da
prestação pelo consumidor.
• A noção de pronto pagamento remete à discussão do que se pode considerar como tal, ou
seja, se além do uso de moeda corrente, o pagamento em cheque ou a utilização de
cartões de crédito e débito estão incluídos em tal definição.
◦ Parece-nos que por “pronto pagamento” deve-se entender o pagamento em dinheiro,
o que no caso importa dizer, em moeda corrente nacional, com custo forçado.
◦ Fora disto, uma interpretação ampliativa do conceito permitiria admitir como tal,
também os cartões de débito – atualmente muito utilizados – assim como outros
instrumentos de pagamento que tenham por requisito básico transferir
imediatamente, ainda que por meio eletrônico, o valor do pagamento da conta
corrente do consumidor para a conta corrente do fornecedor.
▪ Entretanto, há de se considerar que só existirá oportunidade de pronto
pagamento se o fornecedor dispuser do serviço (equipamento do cartão, por
exemplo) e o utilizar habitualmente para receber pagamentos.
• O caráter imediato ou instantâneo da transmissão do recurso financeiro é requisito
essencial, sem o qual não há de se considerar qualquer procedimento abrangido pelo
conceito de “pronto pagamento”.
◦ Neste sentido, afasta-se do conceito o pagamento em cheque ou em cartão de
crédito, razão pela qual eventual negativa do fornecedor em admitir sua
utilização não há de caracterizar prática abusiva, nos termos do artigo 39, IX, do
CDC.
◦ Isto, contudo, não impede que se identifique a responsabilidade do fornecedor que se
disponha a oferecer e anunciar sistemas eletrônicos de pagamento, hipótese em que
assume os riscos inerentes à facilidade ofertada, como eventuais falhas do sistema, ou
a impossibilidade temporária da sua utilização.
▪ Ou seja, dispondo-se a oferecer o sistema especial de pagamentos (via cartões de
débito ou crédito, e.g.), naturalmente responde pela confiança gerada no
consumidor, o qual, neste sentido, crê na possibilidade de realizar a contratação
por intermédio de tais procedimentos. - Bruno Miragem.
ELEVAÇÃO DE PREÇO SEM JUSTA CAUSA (AUMENTO
ARBITRÁRIO)
CC, art. 39, X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços.
• A diferença deste dispositivo para o inciso V do mesmo artigo é que aquele prevê a questão da
ausência de justa causa, enquanto esta prevê a excessividade.
◦ Portanto, para a elevação do preço ser considerada abusiva, ela deverá ser ou excessiva ou sem
justa causa.
• A justa causa se refere à existência de uma razão para a elevação do preço, de tal forma que não é
toda elevação de preço que se caracteriza como abusiva.
◦ Existindo justa causa, a prática está dentro dos parâmetros da liberdade econômica, da lei da
oferta e da procura.
◦ Por exemplo: o salário mínimo aumentou, logo os preços das coisas também.
◦ Por exemplo: o preço da matéria-prima de um produto aumentou, logo o valor de tal produto
também aumentará.
◦ Por exemplo: caso de enchentes em 2010, em que o preço de itens de necessidade básica
aumentaram muito, configurando uma hipótese de lesão no CC, logo uma anulação do negócio
jurídico.
A previsão como prática abusiva da elevação sem justa causa de preços (art. 39, X), é dentre os
vários tipos legais previstos no CDC, um dos que oferece maiores desafios na sua interpretação
e concreção. Isso porque, considerando o sistema econômico baseado na livre iniciativa, a
intervenção do Estado no domínio econômico só pode se dar em situações
constitucionalmente autorizadas, observada a proporcionalidade.
• Deste modo, a formação de preços submete-se à racionalidade expressa pela conhecida lei
econômica da relação entre oferta e demanda. Com o devido cuidado, entretanto, para
assegurar a intervenção constitucionalmente definida para a proteção do consumidor
(artigo 5º, XXXII e artigo 170, V, da Constituição), e da livre concorrência (artigos 170,
IV, e 173 da Constituição).
• No artigo 39, inciso X, do CDC, veda-se a elevação de preços sem justa causa. Sua
aplicação corrente permite a proteção do consumidor da prática de preços elevados
mesmo na ausência de contrato prévio entre as partes.
• Não se pode identificar como sinônimos as hipóteses de aumento excessivo e aquele sem
justa causa.
◦ A evolução natural dos preços, em decorrência da conjuntura econômica, não será
considerada elevação sem justa causa.
▪ A hipótese mais comum será a situação em que se verifique a elevação dos custos
que compõem o preço. É natural que diante deste fato não se possa exigir do
fornecedor que mantenha estável ou reduza seu lucro, o que só pode ser adotado,
em limites racionais, de modo voluntário, como estratégia para atração de
clientela.
• A interpretação e aplicação do artigo 39, X, do CDC também deve conhecer as regras
básicas da formação de preços, (…) A rigor, seu propósito racional deverá ser sempre o de
oferecer produtos e serviços de qualidade com preços competitivos, vale dizer, que tenha
aptidão para atrair o consumidor.
◦ Deste modo, o aumento de preços sem justa causa revela uma anormalidade. A noção
de justa causa, neste caso, é decisiva.
◦ Pode a causa da elevação de preços ser o aumento da demanda? Em termos normais,
é certo que sim. (…) A hipótese do artigo 39, X, do CDC não parece se aplicar a estas
situações, mas àquelas em que o fornecedor eleva preços de modo excessivo,
mantendo clientela, sobretudo em vista de sua catividade ou extrema necessidade.
▪ No caso da prestação de serviços, hipoteticamente considere-se contratos de
longa duração, nos quais o consumidor enfrente certos obstáculos para migrar de
um concorrente a outro, tais como prazo de carência para fruição dos serviços,
cláusulas de fidelização, ou simplesmente entraves burocráticos comuns, como
ligações intermináveis, ou série de providências sucessivas que devem ser
adotadas para encerrar a contratação. É esta dependência ou catividade que fará
com que parcela de consumidores, mesmo percebendo o aumento excessivo,
mantenha-se vinculado ao contrato original.
• O conceito de elevação sem justa causa de preços, prática abusiva prevista no artigo 39, X,
do CDC, não se confunde com a de aumento arbitrário de lucros previsto na legislação
concorrencial, nem pressupõe a existência de abuso de posição dominante como sustenta
certa linha de interpretação no direito concorrencial.
◦ A elevação sem justa causa de preços é espécie de abuso no exercício da liberdade
negocial do fornecedor, segundo a dogmática própria das práticas abusivas na
legislação de defesa do consumidor.
◦ Isso não faz com que qualquer aumento de preços – mesmo se for para maximização
dos lucros – seja per se abusivo. Afinal, se está em uma economia de mercado. Porém,
há limites que deverão ser considerados, associados à boa-fé e à própria
vulnerabilidade do consumidor em dada situação específica.
◦ Embora com origem na tradição legislativa do direito da concorrência no Brasil, e
associando, inicialmente, às noções da elevação sem justa causa de preços e aumento
arbitrário de lucros com o abuso da posição dominante de mercado, a definição da
prática abusiva prevista no Código de Defesa do Consumidor assume autonomia, em
vista dos interesses dos consumidores.
▪ Isso faz com que a identificação e a sanção da prática de elevação sem justa causa
do preço de produtos e serviços prevista no CDC não dependa, necessariamente,
da identificação do abuso de posição dominante, tampouco do aumento dos
lucros do fornecedor.
◦ CHAT GPT:
▪ A elevação sem justa causa de preços, prevista no Código de Defesa do
Consumidor (art. 39, X), ocorre quando um fornecedor, de forma injustificada,
aumenta o preço de seus produtos ou serviços, prejudicando o consumidor. Esse
dispositivo busca proteger o equilíbrio nas relações de consumo, coibindo práticas
abusivas que se aproveitem da vulnerabilidade do consumidor. Para ser
considerada abusiva, a elevação de preços precisa ser desproporcional e sem uma
razão legítima, como aumento de custos de produção ou mudanças econômicas
que justifiquem o reajuste.
▪ Já o aumento arbitrário de lucros, previsto na legislação concorrencial,
principalmente na Lei nº 12.529/2011 (Lei de Defesa da Concorrência), se
refere a práticas empresariais que distorcem o mercado, elevando de forma
desmedida os lucros e prejudicando a livre concorrência. Essa conduta afeta o
funcionamento saudável do mercado, impedindo a competição justa entre
empresas e prejudicando, por consequência, o consumidor. No contexto da
legislação concorrencial, o foco é o impacto que tal prática tem no mercado como
um todo, e não apenas na relação direta entre fornecedor e consumidor.
• No direito do consumidor, em uma primeira visão, percebe-se a ausência de justa causa,
caracterizadora da prática abusiva proibida, como uma elevação de preços que não seja
justificada pelo respectivo aumento dos custos da atividade.
◦ Conforme Antônio Herman Benjamin, “em princípio, numa economia estabilizada,
elevação superior aos índices de inflação gera uma presunção – relativa, é verdade – de
carência de justa causa”.
◦ Em um regime de livre-iniciativa, contudo, frente à ausência de controle direto de
preços, não se pode, a priori, retirar do fornecedor a possibilidade de readequar os
preços de seus produtos e serviços, inclusive para – se entender correto – aumentar
sua margem de lucro.
◦ O abuso estará presente quando isso se dê de forma dissimulada, ou ainda, quando
haja claro aproveitamento da posição dominante que exerce frente ao consumidor
(aqui bem entendido, em sentido que lhe reconhece no direito do consumidor e dos
contratos em geral – desigualdade de posição contratual – e não exatamente aquele
desenvolvido no direito da concorrência).
◦ Identifica-se no comportamento do fornecedor a deslealdade em sua relação com os
consumidores, como ocorre, por exemplo, quando há discriminação entre eles,
cobrando-se preços diferenciados, nas mesmas circunstâncias negociais, por um
mesmo produto ou serviço.
• Não podem ser considerados abusivos, por igual, os aumentos de preços que se
justifiquem por propósito de diferenciação entre consumidores motivado objetivos de
política tarifária (seja para suportar maiores custos/investimentos, ou para promover
objetivos de solidariedade social). - Bruno Miragem.
NÃO ESTIPULAÇÃO DE PRAZO PARA O CUMPRIMENTO DA
OBRIGAÇÃO OU NÃO FIXAÇÃO DO TERMO INICIAL (não
tinha no Bruno Miragem)
CC, art. 39, XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a
fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério.
• O direito no geral “não gosta” de condições puramente potestativas, ficando ao exclusivo critério de
uma das partes, para capricho de uma das partes, “quando eu decidir”.
• No CDC, o que ficar ao exclusivo critério do fornecedor é prática abusiva.
• Por exemplo: entrega do imóvel 36 meses depois do seu lançamento, mas não se fixa quando será
esse lançamento.
• Por exemplo: empresa de entrega de mercadorias que informa ao consumidor que entregará a
encomenda dentre às 8h da segunda-feira até às 18h da sexta-feira, sem estabelecer um dia.
APLICAÇÃO DE FÓRMULA OU ÍNDICE DE REAJUSTE
DIVERSO DO PREVISTO NA LEI OU NO CONTRATO (não foi
falado pela Dra. Blogueira)
CC, art. 39, XIII - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente
estabelecido.
XI - Dispositivo incluído pela MPV nº 1.890-67, de 22.10.1999, transformado em inciso
XIII, quando da conversão na Lei nº 9.870, de 23.11.1999
Fica evidenciado que a norma em questão visa à proteção do equilíbrio contratual,
reproduzindo efeito que se verifica no art. 51, do CDC ao definir como abusiva cláusula
contratual que permita a alteração unilateral do preço (inciso X), ou do conteúdo do contrato
(inciso XIII).
• A rigor, contudo, a enunciação da conduta como prática abusiva tem predomínio de
finalidade pedagógica, uma vez que independente da indicação expressa, é certo que
aplicação de fórmula ou índice de reajusta de modo unilateral pelo fornecedor, será
vedada se não prevista em lei ou no contrato.
• A utilidade desta previsão da prática abusiva, todavia, é reconhecida na medida em que,
tendo previsto espécie de ilícito civil, não existindo disposição contratual que reconheça a
possibilidade de alteração unilateral, a conduta do fornecedor que a promova não se
reportará necessariamente ao contrato, ajuste ou norma preexistente. Nesta situação, o
consumidor prejudicado deveria reportar-se à mera violação genérica do contrato, diante
da ausência de autorização que, se existisse, seria considerada abusiva (artigo 51, X e
XIII).
◦ A caracterização do ilícito civil permite desde logo que se identifique a violação do
direito e, com isso, a possibilidade, tanto de recusa do consumidor e o exercício do
direito de resolução, quanto da manutenção do contrato, nos termos originariamente
ajustados.
◦ Da mesma forma, facilita o controle de tais práticas pelos órgãos de defesa do
consumidor, Ministério Público e associações de consumidores, via exercício das
competências dos primeiros, e da legitimação de todos para a promoção da tutela
coletiva dos consumidores. - Bruno Miragem.
PERMITIR O INGRESSO DE NÚMERO MAIOR DE
CONSUMIDORES ACIMA DO MÁXIMO PERMITIDO (não foi
falado pela Dra. Blogueira)
CC, art. 39, XIV - permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de um
número maior de consumidores que o fixado pela autoridade administrativa como máximo.
TESES DO STJ. ED. 165 (não está no rol, mas Dra. Blogueira
trouxe essa jurisprudência)
Constitui prática comercial abusiva e propaganda enganosa o lançamento de dois modelos
diferentes para o mesmo automóvel, no mesmo ano, ambos anunciados como novo modelo para o
próximo ano.
3. Embora lícito ao fabricante de veículos antecipar o lançamento de um modelo meses antes
da virada do ano, prática usual no país, constitui prática comercial abusiva e propaganda
enganosa e não de “reestilização" lícita, lançar e comercializar veículo no ano como sendo
modelo do ano seguinte e, depois, adquiridos esses modelos pelos consumidores, paralisar a
fabricação desse modelo e lançar outro, com novos detalhes, no mesmo ano, como modelo do
ano seguinte, nem mesmo comercializando mais o anterior em aludido ano seguinte. Caso em
que o fabricante, após divulgar e passar a comercializar o automóvel "Pálio Fire Ano 2006
Modelo 2007", vendido apenas em 2006, simplesmente lançou outro automóvel "Pálio Fire
Modelo 2007", com alteração de vários itens, o que leva a concluir haver ela oferecido em
2006 um modelo 2007 que não viria a ser produzido em 2007, ferindo a fundada expectativa
de consumo de seus adquirentes em terem, no ano de 2007, um veículo do ano.
REsp 1342899/RS
18/09/2024
PROTEÇÃO CONTRATUAL
• A legislação civil sobre contratos pressupõe a existência de partes livres e iguais que transigem sobre
os seus respectivos interesses, com pleno domínio da vontade. Assim, divergem das relações de
consumo, em que se predomina a vulnerabilidade do consumidor, tendo em vista que o consumidor
não contrata se quiser, com quem quiser e como quiser, como estabelece o princípio da autonomia
da vontade no direito civil (freestyle da Tia Erá com base no slide dela, já que ficou com deus os
primeiros 20min de aula).
NÃO VINCULAÇÃO DAS CLÁUSULAS DESCONHECIDAS E
INCOMPREENSÍVEIS
CDC, art. 46 - Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não
lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos
instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.
Repise-se que, pelo princípio da função social do contrato, deve-se interpretar e visualizar o
contrato de acordo com o meio que o cerca. O contrato não pode ser mais concebido como
uma bolha que envolve as partes, ou uma corrente que as aprisiona.
• Alguns dos comandos relativos à proteção contratual do Código Consumerista trazem essa
ideia em moldes perfeitos, mitigando a força obrigatória da convenção, a antiga premissa
liberal segundo o qual o contrato faz lei entre as partes (pacta sunt servanda).
• A norma está a prever a não vinculação de determinadas cláusulas, que são
consideradas como não escritas ou inexistentes.
◦ Em um primeiro momento, resta claro que a opção do legislador foi de tratar do plano
da existência do negócio jurídico, pois o comando, por si só, não estabelece a solução
da invalidade.
◦ Todavia, pode-se interpretar pela nulidade das cláusulas de infringência ao preceito,
conjugando-se o art. 46 com o art. 51, inc. XV, da Lei 8.078/1990, que consagra
como abusiva qualquer cláusula que esteja em desacordo com o sistema de proteção
do consumidor.
• Aprofundando-se na análise do art. 46 do CDC, para começar, são consideradas como
não vinculativas as cláusulas desconhecidas, ou que o consumidor não teve a
oportunidade de conhecer, havendo a chamada violação do dever de oportunizar.
◦ A origem da previsão está na vedação da chamada condição puramente potestativa,
aquela que representa a vontade ou o puro arbítrio de apenas uma das partes,
considerada ilícita pelo art. 122 do CC/2002.
• Seguindo no estudo do tema, do mesmo modo não vinculam o consumidor as cláusulas
incompreensíveis ou ininteligíveis, geralmente diante de um sério problema de
redação, que visa a enganar o consumidor.
• A não vinculação decorre de um dolo contratual praticado pelo fornecedor ou prestador,
via de regra com o claro intuito de induzir o consumidor a erro e obter um enriquecimento
sem causa.
◦ A título de exemplo, muitas vezes verifica-se em contratos de seguro cláusulas mal
escritas ou mal elaboradas, de difícil entendimento até pelo mais experiente aplicador
do Direito, por utilizar expressões técnicas da área jurídica ou de gerenciamento de
riscos.
• As cláusulas contratuais devem ser elaboradas para a devida compreensão pelo brasileiro
médio (pessoa natural comum). Assim sendo, diante da realidade cultural brasileira, os
termos devem ser simples, sem grandes desafios em sua leitura e compreensão, sob pela
de sua não vinculação ou a cabível solução de nulidade absoluta, conforme outrora se
expôs.
• Existe no art. 46 do CDC um ponto de simbiose entre o princípio da boa-fé objetiva e a
função social do contrato, a mitigar a força obrigatória da convenção. Isso porque o
desrespeito ao dever de informar com clareza gera como consequência a interpretação do
pacto de acordo com a realidade social, afastando aquilo que aparentemente foi
convencionado entre as partes.
◦ Em outras palavras, o concreto e o efetivo prevalecem sobre o meramente formal,
tendência do Direito Civil Contemporâneo. - Flávio Tartuce.
INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR
CDC, art. 47 - As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.
O art. 47 da Lei 8.078/1990 consagra a máxima in dubio pro consumidor (…). Aqui, o princípio
da função social do contrato, em sua eficácia interna, é flagrante pela preocupação em se
proteger o consumidor como parte vulnerável da relação negocial, o que repercute na
hermenêutica do negócio jurídico.
• Atente-se ao fato de ter o Código Civil de 2002 adotado a mesma premissa para o
contrato de adesão, dispondo o seu art. 423 que “quando houver no contrato de adesão
cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao
aderente”.
◦ Consubstancia a norma a regra in dubio pro aderente, interpretando-se o negócio
jurídico em desfavor do seu estipulante
• Imagine-se a contratação de um serviço de conserto de um encanamento, em que o
contrato traz expressamente dois preços, um fixo e um de acordo com a extensão do
trabalho do encanador. Diante da presunção absoluta de vulnerabilidade do consumidor,
valerá a menor remuneração, o que não comporta qualquer debate ou discussão para
afastar a premissa. - Flávio Tartuce.
FORÇA VINCULATIVA DOS ESCRITOS E BOA-FÉ OBJETIVA
NOS CONTRATOS DE CONSUMO
CDC, art. 48 - As declarações de vontade constantes de escritos particulares, recibos e pré-contratos
relativos às relações de consumo vinculam o fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos
termos do art. 84 e parágrafos.
Pelo teor do preceito, fica evidenciada a função de integração da boa-fé objetiva em todas as
fases contratuais: fase pré-contratual, fase contratual e fase pós-contratual.
• Nessa linha, não se olvida o teor do Enunciado n. 26, aprovado na I Jornada de Direito
Civil do Conselho da Justiça Federal, segundo o qual “a cláusula geral contida no art.
422 do novo Código Civil impõe ao juiz interpretar e, quando necessário, suprir e corrigir
o contrato segundo a boa-fé objetiva, entendida como a exigência de comportamento leal
dos contratantes”. Ora, se a premissa civil foi inspirada pelo Código Consumerista, a
conclusão deve ser necessariamente a mesma para os contratos de consumo.
• A respeito da abrangência das fases contratuais, na mesma I Jornada de Direito Civil foi
aprovado o Enunciado n. 25, estabelecendo que “o art. 422 do Código Civil não
inviabiliza a aplicação, pelo julgador, do princípio da boa-fé nas fases pré e pós--
contratual”.
◦ Ato contínuo, da III Jornada de Direito Civil, o Enunciado n. 170 CJF/ STJ, in
verbis: “a boa-fé objetiva deve ser observada pelas partes na fase de negociações
preliminares e após a execução do contrato, quando tal exigência decorrer da natureza
do contrato”.
• As menções constantes do art. 48 do CDC a qualquer escrito, pré-contrato ou recibo deixa
clara a total abrangência do regramento, visando interpretar o negócio de acordo com a
lealdade e a confiança depositada.
• A força vinculativa da boa-fé é marcante, uma vez que não sendo respeitado o que se
espera do negócio celebrado, caberão as medidas de tutela específica tratadas pelo art. 84
do CDC, inclusive com a possibilidade de fixação de multa diária ou astreintes.
• No que concerne à proposta de contratar, há claro diálogo com o art. 427 do CC/2002,
segundo o qual a proposta formalizada vincula o proponente, se contiver os elementos
fundamentais do negócio a ser celebrado.
◦ O juiz poderá determinar qualquer providência que o caso mereça, a fim de que seja
assegurado o resultado prático equivalente ao adimplemento da obrigação de fazer.
Não quer o Código a resolução em perdas e danos.
◦ Consagra-se o princípio da conservação dos negócios jurídicos, sendo a solução de
extinção do contrato a ultima ratio, o último caminho a ser percorrido.
• Deve ficar claro, todavia, que a incidência da força vinculativa dos instrumentos não
afasta o direito à indenização dos danos a que o consumidor tem direito, decorrência
natural do festejado princípio da reparação integral dos danos (art. 6º, inc. V, da Lei
8.078/1990).
DIREITO DE ARREPENDIMENTO
• CDC, art. 49 - O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua
assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de
fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por
telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os
valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de
imediato, monetariamente atualizados.
• Não existe direito de troca, existindo a proteção do CDC em determinadas hipóteses.
• Há dois requisitos para se exercer o direito de arrependimento:
1. Tratar-se de um contrato à distância:
• É o maior requisito.
• Os contratos à distância, no CDC, baseiam-se na questão da distância física, porque o que
importa para a contratação é se o consumidor teve todos os sentidos à sua disposição, se pôde
analisar todo o produto ou não.
• A menção de “especialmente por telefone ou a domicílio” não exclui a internet ou outras formas
de contratação.
• Por exemplo: Dra. Blogueira disse que comprou um relógio na internet que, quando chegou,
parecia um Omnitrix de tão alto, mas não parecia na publicidade, porque na propaganda ele só
foi gravado de cima, sem a possibilidade do consumidor analisar as outras dimensões.
• Por exemplo: Dra. Blogueira comprou uma calça na internet que ficou grande no comprimento,
porque ela não teve a oportunidade de provar.
2. A partir do momento da celebração do contrato ou da entrega do produto ou serviço, o
consumidor tem 7 dias para exercer o direito de arrependimento.
• São dois termos iniciais: a contar de sua assinatura (contratação) ou do ato de recebimento
do produto ou serviço.
• Esse prazo pode ser aumentado, mas não diminuído.
Esse direito de arrependimento, relativo ao prazo de reflexão de sete dias, constitui um direito
potestativo colocado à disposição do consumidor, contrapondo-se a um estado de sujeição
existente contra o fornecedor ou prestador.
• Como se trata do exercício de um direito legítimo, não há a necessidade de qualquer
justificativa, não surgindo da sua atuação regular qualquer direito de indenização por
perdas e danos a favor da outra parte. Como decorrência lógica de tais constatações, não
se pode falar também em incidência de multa pelo exercício, o que contraria a própria
concepção do sistema de proteção ao consumidor.
• Tal direito existe para proteger a declaração de vontade do consumidor, possibilitando que
ele reflita com calma nas agressivas situações de vendas a domicílio.
• Deve ficar claro que não se trata de venda a contento ou ad gustum, tratada pelos arts. 509
a 512 do CC, pois nesse caso há necessidade de o comprador motivar as razões da sua não
aprovação. No tipo do art. 49 do CDC, dispensa-se qualquer motivação para o exercício
do arrependimento dentro do prazo de reflexão.
• Pela literalidade vigente, a sua incidência se restringe às vendas realizadas fora do
estabelecimento empresarial, citando a norma as vendas por telefone ou a domicílio
(chamada a última de venda porta a porta).
◦ De toda maneira, quando a lei foi elaborada, ainda não existia a atual evolução a
respeito das vendas pela Internet ou outros meios de comunicação semelhantes ou
próximos, devendo o referido dispositivo ser estendido para tais hipóteses, conforme
reconhece a melhor doutrina.
• Na atual realidade legislativa, efetivamente, nas situações em que o produto ou o serviço é
adquirido no estabelecimento, não há o direito de arrependimento. Todavia, na prática, há
um costume saudável de as empresas trocarem produtos, em especial quando o
consumidor diz não estar satisfeito com eles; ou ainda porque o bem de consumo não lhe
serviu.
◦ Os fornecedores assim o fazem para não perderem a clientela, mantendo um bom
relacionamento com a coletividade consumerista.
• De qualquer modo, filia-se aos julgados que subsumem o art. 49 do CDC para as vendas
realizadas no estabelecimento em que são utilizados meios agressivos de marketing para
trazer o consumidor de fora para dentro do estabelecimento.
• Deve ficar claro que a boa-fé objetiva deve estar presente para o exercício desse direito de
arrependimento por parte do consumidor. Justamente para se evitar abusos é que o prazo
de reflexão é exíguo, de apenas sete dias, conforme lecionam Nelson Nery Jr. e Rosa
Maria de Andrade Nery.
◦ Em outras palavras, não pode o consumidor agir no exercício deste direito em abuso,
desrespeitando a boa-fé e a função social do negócio, servindo como parâmetro o art.
187 do CC/2002, mais uma vez em diálogo das fontes.
◦ Imagine-se, por exemplo, a hipótese de alguém que utiliza um serviço prestado pela
internet e sempre se arrepende, de forma continuada, para nunca pagar pelo
consumo. Por óbvio que a norma está sendo aplicada em desrespeito ao seu escopo
principal, não podendo a conduta do consumidor ser premiada. - Flávio Tartuce.
GARANTIA CONTRATUAL (Dra. Blogueira deu na AB1, mas
coloquei aqui de novo para seguir a ordem do CDC)
• CDC, art. 50 - A garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo
escrito.
Parágrafo único. O termo de garantia ou equivalente deve ser padronizado e esclarecer, de maneira
adequada em que consiste a mesma garantia, bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode ser
exercitada e os ônus a cargo do consumidor, devendo ser-lhe entregue, devidamente preenchido
pelo fornecedor, no ato do fornecimento, acompanhado de manual de instrução, de instalação e uso
do produto em linguagem didática, com ilustrações.
• A garantia contratual é facultativa e convencional, em que o fornecedor só a dá se ele quiser.
Contudo, se ele der, ele deverá cumprir.
◦ Quando um fornecedor vende um produto/serviço, normalmente, ele oferece uma garantia de 1
ano/6 meses.
• A garantia legal independe da vontade do fornecedor, devendo o fornecedor garantir, por exemplo,
90 dias para os produtos duráveis.
• A garantia do produto é a soma da garantia contratual com a garantia legal, devendo ser
contabilizada, primeiro a garantia contratual. Uma vez acabada a garantia contratual, conta-se a
garantia legal.
◦ GARANTIA DO PRODUTO = GARANTIA CONTRATUAL + GARANTIA LEGAL.
◦ Por exemplo: se A comprou um celular, cujo fornecedor ofereceu garantia de 1 ano, e, passado
1 ano e 2 dias, o aparelho passa a apresentar problemas, A ainda está com o produto na
garantia, já que se findou a garantia do fornecedor, aquela convencionada e facultativa, mas
ainda resta a garantia legal de 90 dias. Sendo assim, a garantia do aparelho é de 1 ano e 90 dias
e, sendo o caso do fornecedor apontar que a garantia acabou com 1 ano, ele está errado.
A garantia contratual constitui modalidade de decadência convencional, sendo o prazo
concedido geralmente pelo vendedor para ampliar o direito potestativo dado pela lei ao
comprador de determinado bem de consumo.
• A título de ilustração, cite-se a comum garantia estendida, fornecida quando da venda de
eletrodomésticos ou da prestação de serviços cotidianos.
• O caput do art. 50 do CDC ainda prenuncia que a garantia contratual deve ser concebida
por escrito pelo fornecedor de produtos ou prestador de serviços, o que é denominado
como termo de garantia. A norma está em sintonia com o dever de informar próprio da
boa-fé objetiva.
◦ A norma visa a dar maior segurança aos consumidores, para a tutela efetiva dos seus
direitos.
• Em complemento, estipula o parágrafo único do art. 50 que o termo de garantia ou
equivalente deve ser padronizado e esclarecer, de maneira adequada, em que consiste a
garantia, especialmente o seu lapso temporal.
◦ Além disso, deve indicar a forma e o lugar em que pode ser exercitada e os ônus a
cargo do consumidor. Em suma, as informações constantes do termo devem ser
completas e precisas, para o seu devido exercício por parte do vulnerável negocial.
• O art. 50, parágrafo único, do CDC ainda preceitua que o termo de garantia deve ser
efetivamente entregue e preenchido pelo fornecedor, no ato do fornecimento,
acompanhado de manual de instruções, de instalação e uso do produto em linguagem
didática, com ilustrações. O desrespeito a tais deveres inerentes à boa-fé objetiva pode
gerar a responsabilização do fornecedor ou prestador, nas hipóteses de danos causados
aos consumidores. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS ABUSIVAS
• A cláusula abusiva é aquela que é notoriamente, absurdamente desfavorável à parte mais fraca na
relação contratual.
◦ É uma vantagem exagerada que viola o princípio da boa-fé objetiva.
• A ideia é remeter à ideia de abuso de direito, que serviu de inspiração, mas no CDC a proteção é
maior.
• O CDC fez uma lista de cláusulas abusivas que não é taxativa, mas sim exemplificativa, que vão
invalidar o negócio jurídico, tornando-o nulo.
• CDC, art. 51 - São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que:
◦ A nulidade é imprescritível, podendo ser arguida por qualquer pessoa ou pelo MP.
DECORRÊNCIAS DAS CLÁUSULAS (FLÁVIO TARTUCE)
• Como as hipóteses descritas são de nulidade absoluta, deve-se reconhecer a imprescritibilidade da
ação declaratória correspondente, o que é incidência da regra do art. 169 do Código Civil, segundo
o qual a nulidade não convalesce pelo decurso do tempo.
◦ CDC, art. 169 - O negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem convalesce pelo
decurso do tempo.
◦ Ademais, a imprescritibilidade está fundada no argumento de que a nulidade absoluta envolve
ordem pública.
• Entre as características das nulidades (absolutas) que mais se destacam, podemos referir, em regra:
◦ A insanabilidade;
◦ A alegação por qualquer interessado;
◦ A decretação de ofício pelo juiz, com efeito ex tunc;
◦ A dispensa de ação específica para poder ser reconhecida;
◦ A imprescritibilidade;
◦ E a impossibilidade de produzir efeitos.
• De início, em detrimento da impossibilidade de se sanar a nulidade absoluta – nos termos do que
estabelece o citado art. 169 do CC/2002 –, o § 2º do art. 51 do CDC acaba por consagrar o
princípio da conservação contratual, que visa à manutenção da autonomia privada.
◦ CDC, art. 51, § 2° - A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o
contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus
excessivo a qualquer das partes.
◦ Determina o último comando que a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o
contrato, em regra, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer
ônus excessivo a qualquer das partes.
◦ Desse modo, deve o juiz fazer uso das máximas de experiência e dos princípios gerais
consumeristas para suprir e corrigir o contrato.
◦ Sendo assim, é cabível por parte do consumidor, diretamente, uma ação de revisão e não de
nulidade, o que representa o exercício de um direito por parte do vulnerável negocial, de acordo
com a sua conveniência.
▪ Por razões óbvias, a ação de revisão também não prescreve, por envolver a citada ordem
pública.
• No que concerne à propositura da demanda de nulidade da cláusula abusiva, (…), dispõe o art. 51, §
4º, do CDC que é facultado a qualquer consumidor ou a entidade protetiva requerer ao Ministério
Público que ajuíze a competente ação para declarar a nulidade de cláusula contratual que contrarie o
disposto no CDC ou que, de qualquer forma, não assegure o justo equilíbrio entre direitos e
obrigações das partes. Resta claro, pela legitimidade reconhecida ao MP, que a matéria é de ordem
pública, nos termos do sempre citado art. 1º da Lei 8.078/1990.
◦ CDC, art. 51, § 4° - É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente requerer
ao Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser declarada a nulidade de cláusula
contratual que contrarie o disposto neste código ou de qualquer forma não assegure o justo
equilíbrio entre direitos e obrigações das partes.
• A encerrar o tópico, cumpre trazer à tona o polêmico tema relativo à revisão de ofício ou ex officio
das cláusulas abusivas, o que constitui uma normal decorrência da nulidade absoluta.
◦ A polêmica a respeito da questão instaurou-se definitivamente entre nós com a edição da infeliz
Súmula 381 do Superior Tribunal de Justiça: “nos contratos bancários, é vedado ao julgador
conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas”. Ora, tal ementa representa uma séria afronta
à proteção dos direitos dos consumidores e aos preceitos gerais de Direito, devendo ser
imediatamente cancelada por aquele Tribunal Superior.
◦ Como primeiro argumento de crítica e pelo cancelamento, constata-se que a súmula representa
um contrassenso jurídico, tendo em vista o art. 1º do CDC e a comum aplicação da Lei
8.078/1990 aos contratos bancários, conforme reconhecido pela Súmula 297 do próprio STJ.
▪ Repise-se que o art. 1º do CDC é expresso ao prever que a lei consumerista é norma de
ordem pública e interesse social, nos termos da proteção que consta do Texto Maior. Como
decorrência natural do preceito, deve o juiz conhecer de ofício da proteção dos
consumidores, pela previsão constitucional de sua tutela (art. 5º, inc. XXXV, da CF/1988).
▪ Releve-se, por oportuno, que o próprio STJ já havia se pronunciado, em momento anterior,
no sentido de que “questões de ordem pública contempladas pelo Código de Defesa do
Consumidor, independentemente de sua natureza, podem e devem ser conhecidas, de
ofício, pelo julgador. Por serem de ordem pública, transcendem o interesse e se sobrepõem
até à vontade das partes” (STJ – AgRg no REsp 703.558/RS). Percebe-se, em tal contexto,
um retrocesso no entendimento anterior do próprio Tribunal Superior.
◦ Como segundo aspecto, firme-se que o CC/2002, como norma geral privada, preconiza, no seu
art. 168, parágrafo único, que as nulidades absolutas devem ser conhecidas de ofício pelo juiz.
Trata-se de decorrência natural da antiga lição pela qual as matérias de ordem pública devem
ser conhecidas ex officio pelo magistrado.
▪ CC, art. 168, parágrafo único - As nulidades devem ser pronunciadas pelo juiz, quando
conhecer do negócio jurídico ou dos seus efeitos e as encontrar provadas, não lhe sendo
permitido supri-las, ainda que a requerimento das partes.
▪ Anote-se a costumeira aplicação de tal premissa em instâncias superiores, o que demonstra
igualmente o conflito da comentada súmula em relação à posição daquela Corte.
▪ Em um diálogo entre as fontes, a norma privada não só pode como deve ser aplicada de
forma subsidiária às relações de consumo (diálogo de complementaridade).
◦ (…) Como quarto argumento pelo cancelamento da Súmula 381 do STJ, nota-se que tem a sua
ementa o condão de engessar a atuação do magistrado, aprisionando-o aos pedidos formulados
pelas partes.
▪ Como verdadeiro absurdo, a súmula veda ao juiz que conheça de abusividade apenas nos
contratos bancários. Simbolizando, em tais contratos (e somente nesses), o magistrado deve
se comportar como Pôncio Pilatos, lavando as mãos e mantendo-se distante do abuso ou do
excesso cometido. Em suma, somente atuará se houver pedido em tal sentido.
▪ Há um quê de proteção ou defesa dos bancos em detrimento do consumidor, quando o
sistema consagra justamente o contrário, pela existência de lei específica e contundente de
tutela dos vulneráveis, o CDC.
◦ A encerrar, como quinto argumento, entra em cena a questão principiológica. Cláusulas
abusivas, sejam em contratos bancários ou não, são consideradas violadoras dos princípios da
função social dos contratos e da boa-fé objetiva. Ambos os princípios – função social do contrato
e boa-fé objetiva – são preceitos de ordem pública pela civilística contemporânea.
▪ Quanto à função social do contrato, é claro o art. 2.035, parágrafo único, do CC/2002, no
sentido de que nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública,
tais como aqueles que visam a assegurar a função social dos contratos e da propriedade.
▪ A respeito da boa-fé objetiva, na IV Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal
concluiu-se que “os princípios da probidade e da confiança são de ordem pública, estando a
parte lesada somente obrigada a demonstrar a existência da violação” (Enunciado n. 363 do
CJF/STJ).
Estabelece o CDC, como sanção típica cominada às cláusulas contratuais abusivas, sua
nulidade de pleno direito, de acordo com o que estabelece o artigo 51, caput. Trata-se, a
princípio, da mais intensa sanção civil prevista no ordenamento, que implica a rejeição
absoluta de validade para a cláusula em questão.
• A nulidade de pleno direito, ou absoluta, segundo a lição de Pontes de Miranda, é aquela
que implica a invalidade do ato nulo, sem que haja possibilidade de saneamento e
convalidação do mesmo.
• No regime do CDC, a nulidade de pleno direito decorre de ofensa à ordem pública de
proteção do consumidor, devendo ser reconhecida judicialmente mediante ação ou
exceção oposta pelo consumidor, ou ainda reconhecida de ofício pelo juiz.
• De fato, a experiência brasileira na aplicação do CDC vem demonstrando a opção da
jurisprudência no reconhecimento da invalidade da cláusula – não do negócio – cumprindo
ao juiz promover os esforços de integração do contrato, preenchendo a lacuna decorrente
da nulidade da cláusula em vista da boa-fé e do equilíbrio contratual.
◦ Os tribunais brasileiros, neste sentido, vêm reconhecendo a possibilidade da
decretação de ofício da nulidade das cláusulas abusivas nos contratos de consumo.
◦ Neste sentido, admite-se igualmente a possibilidade de revisão contratual visando à
decretação da nulidade da clausula do contrato de consumo, abrangendo inclusive a
revisão do contrato original que tenha sido objeto de novação.
◦ Exceção a isto, contudo, é o recente entendimento firmado pelo Superior Tribunal de
Justiça, que resultou na edição da Súmula 381, daquela Corte, com a seguinte
redação: “Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da
abusividade das cláusulas”.
• Em relação ao contrato, note-se que a proteção do contratante se opera de distintas
formas.
◦ No Código Civil, pela disciplina dos defeitos do negócio jurídico, a presença de erro,
dolo, coação, fraude a credores, lesão ou estado de perigo conduz à anulabilidade do
contrato.
▪ Será hipótese de anulabilidade porquanto se admita ao titular do interesse
disponível decidir sobre a oportunidade e conveniência de requerer a anulação.
• Protege-se liberdade e consciência da vontade do declarante em vista de seus
próprios interesses, bem como a possibilidade do beneficiário do contrato
impedir, em determinadas circunstâncias, a anulação (artigos 144 e 157, §
2º, do CC/2002).
◦ Nos contratos civis, a nulidade decorre apenas da ausência de seus elementos
essenciais (agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável e forma
prescrita ou não defesa em lei) ou quando o comportamento das partes dirige-se para
violação de preceitos da ordem jurídica. Não se protege aqui o interesse dos
contratantes, mas a autoridade do direito (artigos 166, III a VI, e 167, do CC/2002).
▪ No caso de nulidade parcial, contudo, reconhece-se a possibilidade de
manutenção da parte válida do negócio celebrado, conforme prevê o artigo 184
do CC/2002, ao dispor que: “Respeitada a intenção das partes, a invalidade
parcial de um negócio jurídico não o prejudicará na parte válida, se esta for
separável”, prosseguindo, contudo, ao dispor que “a invalidade da obrigação
principal implica a das obrigações acessórias, mas a destas não induz a da
obrigação principal”.
◦ No contrato de consumo, a invalidade parcial do negócio é a regra, mediante nulidade
das cláusulas abusivas, sobretudo porque é reconhecido o direito de manutenção do
contrato por
parte do consumidor.
• Faz referência o artigo 51, caput, do CDC à nulidade de pleno direito. A nulidade de pleno
direito, ou absoluta, segundo a lição de Pontes de Miranda, é aquela que implica a
invalidade do ato nulo, sem que haja possibilidade de saneamento e convalidação do
mesmo.
◦ Neste sentido, é correto identificar no regime das nulidades, que estas operam de
pleno direito, ou seja, “não se torna necessário intentar uma ação ou emitir uma
declaração nesse sentido, nem uma sentença judicial prévia, e podem ser declaradas
ex officio pelo tribunal.
CLÁUSULAS DE LIMITAÇÃO OU EXONERAÇÃO DE
RESPONSABILIDADE CIVIL + DE RENÚNCIA OU
DISPOSIÇÃO DE DIREITOS
CDC, art. 51, I - São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de
qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas
relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá
ser limitada, em situações justificáveis;
• Por exemplo: placa de estacionamento ou em hotéis que diz que “não nos responsabilizamos por
furtos ocorridos”, logo, por se exonerar da responsabilidade, trata-se de uma cláusula abusiva. No
caso do hotel, segundo a jurisprudência, se ele forneceu cofre ao consumidor e este não o utilizou,
não haverá responsabilidade.
◦ Do mesmo modo, se havia um cofre no quarto do hotel, mas este era pago e o consumidor optou
por não pagar, caso venha a ser furtado, não haverá responsabilidade.
• Súmula 638, STJ. É abusiva a cláusula contratual que restringe a responsabilidade de instituição
financeira pelos danos decorrentes de roubo, furto ou extravio de bem entregue em garantia no
âmbito de contrato de penhor civil.
◦ Por exemplo: A coloca as joias de sua família para serem penhoradas no banco e acontece um
roubo. É tida como abusiva a cláusula que tenta exonerar a responsabilidade bancária nesse tipo
de situação.
A responsabilidade do fornecedor por vícios dos produtos e dos serviços constitui matéria de
ordem pública no regime do CDC, insuscetível de ser reduzida ou excluída por força de
estipulação contratual. Não se sujeitam, portanto, à disponibilidade do direito por parte dos
consumidores a quem protegem, por intermédio de estipulação contratual em contrário.
• Da mesma forma, segundo jurisprudência consolidada dos tribunais brasileiros, não
subsiste a limitação de indenização por danos ao consumidor, mesmo quando prevista em
convenção internacional, hipótese em que a norma em questão é afastada frente à plena
aplicabilidade do CDC às relações de consumo.
• Note-se que a vedação à limitação ou exoneração da responsabilidade diz respeito àquela
que decorra de violação dos deveres contratuais, portanto, responsabilidade contratual.
◦ Logo, pretende o CDC com a disposição do inciso I, do artigo 51, impedir que por
intermédio da celebração de contrato de consumo, o consumidor, reduza, limite ou
simplesmente renuncie a direitos em caso de vícios do produto ou do serviço, ou
decorrentes de incumprimento contratual (os efeitos da mora do fornecedor, como
juros, cláusula penal, dentre outros previstos no artigo 396 do CC) a que tem direito
por força de lei (neste sentido o regime dos vícios previstos nos artigos 18, 19 e 20 do
CDC).
• A norma em questão não diz respeito à responsabilidade pelo fato do produto ou do
serviço (responsabilidade extracontratual), cujos danos são sempre indenizáveis, pela
simples razão de que a exoneração, limitação ou qualquer espécie de diminuição ou
enfraquecimento dos seus efeitos já estão expressamente proibidas pela norma do artigo
25 do CDC.
◦ Tal atenuação somente é admitida nos casos de fato ou culpa concorrente do
consumidor, o que decorre das circunstâncias fáticas e não do que foi pactuado.
• Note-se, por fim, que a teor do artigo 51, I, a cominação de nulidade atinge as cláusulas
que impossibilitem, exonerem ou limitem a indenização do consumidor pessoa natural.
◦ Em relação ao consumidor pessoa jurídica, a segunda parte da norma admite a
limitação da responsabilidade quando esta se der em situações justificáveis. O que se
considere como situações justificáveis será matéria de apreciação judicial, a partir da
concreção do significado da norma em acordo com o caso concreto.
◦ Contudo, frise-se que esta limitação é admitida pelo regime do Código, quando
previamente estabelecida em contrato. Ou seja, estabelece a norma que a cláusula
contratual com este conteúdo não será considerada abusiva, quando se considere a
presença de uma situação justificável.
▪ Será o caso da assunção de risco expressamente prevista em contrato, por parte
da pessoa jurídica consumidora, ou ainda a possibilidade de exclusão em vista de
condições vantajosas da contratação, sempre quando devidamente demonstrada
pelo conteúdo e natureza da contratação (assim, por exemplo, as vendas em
saldos ou pontas de estoque, em que os produtos apresentem pequena falha –
vício –, mas que não chegam a comprometer de modo definitivo sua utilidade). -
Bruno Miragem.
• Como outra ilustração concreta de falta de vinculação da cláusula de não indenizar na
realidade dos contatos de consumo, cite-se a conhecida placa encontrada em
estacionamentos, com dizeres próximos a: “o estacionamento não se responsabiliza por
objetos deixados no interior do veículo”.
◦ Ora, o estacionamento deve sim responder pela segurança no seu interior, o que é
inerente à própria contratação, pois esse é o fator buscado pelos consumidores (causa
contratual).
◦ Nesse sentido, repise-se o teor da Súmula 130 do Superior Tribunal de Justiça,
segundo a qual “a empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou
furto de veículo ocorridos em seu estacionamento”.
◦ Apesar dessa responsabilização pelo furto, não se pode esquecer que as empresas de
estacionamentos – excluídos os relativos aos bancos – não respondem pelo assalto à
mão armada, pois tal fato escapa do risco do empreendimento ou risco do negócio
ofertado.
• Destaque-se, também, a Súmula 302 do STJ, que determina a nulidade por abusividade
da cláusula contratual de plano de saúde que limita no tempo a internação hospitalar do
segurado.
◦ A cláusula é claramente antissocial, por mais uma vez violar a própria concepção do
negócio jurídico celebrado. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE SUBTRAIAM AO CONSUMIDOR A OPÇÃO
DE REEEMBOLSO DA QUANTIA JÁ PAGA
CDC, art. 51, II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos
previstos neste código;
• Por exemplo: A contrata um curso que, no contrato, estabeleceu cláusula que dita que, havendo
cancelamento, não haverá reembolso. Ou ainda, caso haja reembolso, será sem atualização
monetária. Então, se, por exemplo, A veio cancelar depois de 1 ano esse curso, caso não haja
atualização monetária no seu reembolso, o curso acaba lucrando com a valorização em cima do
dinheiro de A, logo, é uma cláusula abusiva.
O fundamente da previsão é a antiga máxima de vedação do enriquecimento sem causa,
retirada do atual Código Civil (arts. 884 a 886).
• Especificamente, o art. 53 do mesmo CDC estabelece a nulidade, nos contratos de
financiamento em geral, da cláusula de decaimento ou perdimento, que encerra a perda
de todas as parcelas pagas, mesmo nas hipóteses de inadimplemento. - Flávio Tartuce.
CLÁSULAS QUE TRANSFIRAM RESPONSABILIDADE A
TERCEIROS
CDC, art. 51, III - transfiram responsabilidades a terceiros;
• Por exemplo: A bate o carro e o leva para a concessionária. Depois de consertado, o carro de A
continua com problemas na parte elétrica, levando-o de volta para a concessionária, que alega que
somente consertou a lataria, enquanto a parte elétrica foi consertada por uma terceirizada e, por
isso, A deve reclamar com essa terceirizada. Essa transferência de responsabilidade para terceiro é
uma cláusula abusiva.
◦ O contrato foi feito entre as partes, logo, se a o fornecedor terceirizou depois, ele assume o ônus
dessa terceirização.
A abusividade é patente por afetar o sistema de solidariedade e de responsabilidade objetiva
adotado pelo Código Consumerista, havendo previsão no mesmo sentido no art. 25 da Lei
8.078/1990. A cláusula é nula, ainda, por se afastar da ideia de risco-proveito consagrado
pelo CDC.
• Desse modo, é nula a cláusula que transfere a responsabilidade para uma seguradora,
pois, na verdade, o consumidor tem, em regra, a livre escolha em optar contra quem
demandar. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE ESTABELEÇAM OBRIGAÇÕES INÍQUAS E
ABUSIVAS OU INCOMPATÍVEIS COM A BOA-FÉ OU
EQUIDADE
• CDC, art. 51, IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o
consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a eqüidade;
◦ Ainda que esteja elencada como um exemplo de cláusula abusiva, é esse inciso que norteia a
maior parte das demais cláusulas.
◦ Por exemplo: cláusula do curso de informática que obrigue os alunos a pagarem todas as
parcelas do curso, se desistirem antes do seu término.
◦ Por exemplo: o plano de saúde limitar a quantidade de exames ou consultas que o consumidor
pode fazer/ter, tendo em vista que não é o plano que é capaz de dizer quantos exames/consultas
o paciente precisará para ser diagnosticado, para melhorar da doença, etc. Essa limitação é
considerada cláusula abusiva pela jurisprudência.
• CDC, art. 51, § 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal
modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e
conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso.
As cláusulas abusivas em face da violação do equilíbrio contratual constituem ampla definição
prevista no artigo 51, IV, do CDC, a fim de proteger não apenas o equilíbrio de interesses
contratuais, como também a equivalência das prestações.
• Neste sentido, a proteção do equilíbrio contratual, em vista da boa-fé objetiva, tem como
elemento nuclear a proibição de estipulação de vantagem exagerada em favor do
fornecedor, trazendo uma ideia de desequilíbrio de interesses.
◦ A proteção do equilíbrio contratual resulta não apenas do princípio do equilíbrio, mas
também dos deveres da boa-fé objetiva, quais sejam, os deveres de respeito,
colaboração e lealdade com a contraparte.
• Este desequilíbrio causado pela vantagem exagerada do fornecedor pode surgir tanto da
imposição de parcelas que agravem a prestação do consumidor, como exclusões ou
limitações que contrariem a natureza de determinado contrato.
◦ É o caso do contrato de seguro, que exclui da cobertura os riscos inerentes à atividade
segurada do consumidor, assim como a cláusula que estabelece responsabilidade
absoluta do fornecedor pelo uso do cartão de crédito furtado, até o momento de
notificação do fornecedor acerca do furto.
◦ Da mesma maneira, o será a cláusula estabelecida em contrato de plano de saúde que
estabelecer a suspensão do atendimento na hipótese de atraso de uma única parcela,
ou que limita o tempo de internação, os exames a serem realizados, ou o número de
sessões de terapia necessária ao atendimento à saúde do consumidor, conforme já
decidiu, com sabedoria, o STJ.
◦ Nesta mesma linha de entendimento, observando o dever de boa-fé que protege o
respeito aos interesses legítimos do consumidor, também será abusiva a cláusula que
exclui do tratamento coberto pelo plano de saúde, providência que é consequência
necessária, em vista da finalidade de cura do segurado, de procedimento coberto pelo
plano de saúde.
▪ É o caso do paciente que, tendo realizado prostatectomia, tem negado seu direito
a esfíncter urinário artificial, sob o argumento de que tal aparelho não se encontra
coberto pelo plano,
ou do consumidor que submetido à cirurgia cardíaca, tem negada a aquisição de
stent (aparelho a ser instalado durante a cirurgia, na válvula cardíaca do paciente),
ou da recusa do fornecimento de quaisquer materiais associados razoavelmente
ao êxito de um determinado procedimento cirúrgico.
◦ E, ainda, a cláusula que limita a realização de exames e demais procedimentos apenas
quando solicitados por médico credenciado da operadora do plano de saúde.
◦ Da mesma forma, nos contratos bancários, aquela que prevê remuneração específica
por serviço que se entenda ser do conteúdo de prestação já objeto de remuneração, ou
que não tenham sido efetivamente prestados.
▪ Nesse particular, inclusive, em precedente julgado pelo STJ, no regime dos
recursos especiais repetitivos, restou assentada, corretamente, a tese da
“abusividade da cláusula que prevê a cobrança de ressarcimento de serviços
prestados por terceiros, sem a especificação do serviço a ser efetivamente
prestado”.
• Não se considera abusiva, conforme a jurisprudência, contudo, a cláusula que autoriza o
fornecedor a cobrar do consumidor inadimplente as respectivas despesas de cobrança,
considerando-se que caracteriza a restitutio in integrum, efeito da responsabilidade do
devedor.
◦ Isso não significará, contudo, que sobre tais despesas não possa haver controle quanto
a sua adequação e razoabilidade.
• O regime das cláusulas abusivas, quando protege o equilíbrio contratual, contempla
igualmente o respeito ao adimplemento substancial da obrigação pelo credor, hipótese
que, por conceito, deve obstaculizar a resolução do credor, atuando em favor do direito de
manutenção do contrato (direito básico do consumidor de manutenção do contrato).
• A identificação das cláusulas abusivas e a decretação da nulidade da estipulação contratual
em questão, será tarefa do juiz, ao examinar o caso concreto e identificar as circunstâncias
da contratação, como se havendo ou não a vantagem exagerada em favor do consumidor,
a ensejar o desequilíbrio dos interesses das partes no contrato.
◦ Da mesma forma, poderá o julgador, ao identificar a violação do equilíbrio contratual,
não decidir pela nulidade da cláusula – em especial quando verifique-se que cumpre
função legítima no ajuste contratual – podendo optar, mediante atividade integrativa
do contrato, em reequilibrar a relação, mediante imposição de ônus ou deveres iguais
a consumidor e fornecedor. É o caso da abusividade da cláusula contratual que impõe
sanção por atraso do cumprimento da prestação apenas ao consumidor.
◦ Ao lado da alternativa de decretação da nulidade da cláusula, em vista do
desequilíbrio que causa entre os modos de tutela dos interesses dos contratantes,
poderá o juiz integrar o contrato para impor a mesma sanção por descumprimento
também ao fornecedor. - Bruno Miragem.
• CDC, art. 51, V - (Vetado);
Por fim, algumas palavras devem ser ditas em relação à chamada cláusula-surpresa, que
constava do art. 51, inc. V, da Lei 8.078/1990, dispositivo que foi vetado pelo então
Presidente da República.
• O texto tinha a seguinte redação, ao reconhecer a nulidade das cláusulas contratuais que,
“segundo as circunstâncias e, em particular, segundo a aparência global do contrato,
venham, após sua conclusão, a surpreender o consumidor”.
• As razões do veto foram: “reproduz, no essencial, o que já está explicitado no inciso IV. É,
portanto, desnecessário”.
• Pelo conteúdo do veto, como expõe a doutrina, a cláusula-surpresa é vedada pela previsão
do inciso IV, havendo desrespeito à boa-fé objetiva pelo rompimento das justas
expectativas depositadas pelo consumidor. Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA EM
PREJUÍZO DO CONSUMIDOR
CDC, art. 51, VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;
• CDC, art. 6º, VIII - São direitos básicos do consumidor:
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
• Não é um direito subjetivo, nem aplicado à todos os consumidores de forma automática.
• É um direito para qual alguns requisitos precisam ser preenchidos:
1. Deve haver um requerimento ao juiz: o juiz não estabelece a inversão do ônus da prova de ofício;
2. Verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor: é um critério alternativo.
A abusividade de estipulação contratual com este teor é manifesta. A uma, porque a inversão é
estabelecida no CDC como faculdade do juiz em benefício do consumidor.
• Trata-se, portanto de matéria de ordem pública, que não pode ser objeto de disposição
contratual das partes interessadas.
◦ Em outro sentido propõe Nelson Nery, para quem, tal como estabelecida, a disposição
não importa a nulidade da cláusula que inverte o ônus da prova, senão que esta será
nula apenas quando esta inversão for contrária aos interesses do consumidor.
• Por outro lado, a regra que imponha o ônus da prova para o consumidor em contratos de
consumo resulta, na prática, na impossibilidade de defesa ou exercício dos direitos do
consumidor, que lhe são assegurados por lei.
◦ Observe-se, por exemplo, a circunstância em que o consumidor, frente ao mau
funcionamento do produto, alegue vício do mesmo. Não é lícito, considerando sua
vulnerabilidade técnica, que se lhe exija a prova da existência do vício e do
comprometimento da utilização normal do produto.
▪ O caráter abusivo da cláusula contratual em destaque, neste sentido, abrange
especialmente a proteção do consumidor contra vícios, assim como nas hipóteses
de ausência da entrega do produto ou prestação do serviço como originariamente
ajustado, situações em que o consumidor nem sempre terá como comprovar
cabalmente a existência do vício ou do prejuízo, razão pela qual se estipula a
presunção. E assim porque, igualmente, o ônus da prova dos fatos dirá respeito –
quando se relacionem características ou procedimentos da prestação do produto
ou serviço – à própria atividade do fornecedor.
• Da mesma forma, ofendem o sistema de proteção do consumidor, uma vez que
estabelecem o ônus da prova em seu prejuízo, cláusulas que firmem declaração do
consumidor sobre situação de fato, em relação as quais este não terá condições futuras de
atestar sua correção ou não.
◦ É o caso da cláusula pré-redigida na qual o consumidor desde logo ateste que recebeu
o produto ou serviço sem oferecer reclamação, ou de que foi, no momento de
celebração do contrato, adequadamente esclarecido quanto a seus termos.
◦ Em todas estas situações, que geralmente serão examinadas no momento do litígio
entre consumidor e fornecedor, caberá ao juiz comparar o conteúdo das cláusulas
contratuais e os fatos a serem provados na demanda. Se ocorrer que em vista das
cláusulas contratuais fique caracterizada afirmação capaz de induzir a inversão do
ônus da prova em prejuízo do consumidor, caberá ao juiz o reconhecimento de seu
caráter abusivo, cominando-lhe a respectiva nulidade. - Bruno Miragem.
CLÁUSULAS QUE IMPONHAM ARBITRAGEM COMPULSÓRIA
CDC, art. 51, VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
• Dra. Blogueira mencionou que poderia cair em prova (como ela sabe, já que não é ela que faz a
prova, você não me pergunte).
• A cláusula arbitral, por si só, não é automaticamente abusiva. Ela só será abusiva, logo, nula, caso a
cláusula seja compulsória, ou seja, que não permite o consumidor optar ou não pela arbitragem.
• Existe uma discussão no tocante à como se estabelecer que houve a autonomia da vontade do
consumidor em resolver o litígio através da arbitragem, ou seja, que ela não foi compulsória.
◦ A jurisprudência tinha construído um primeiro critério, hoje já superado, no sentido de se a
cláusula arbitral fosse colocada à parte, como se fosse um anexo isolado do contrato, e o
consumidor assiná-la, este teria aceitado a cláusula arbitral.
▪ No contexto de um contrato de adesão, acabava que o consumidor assinava essa cláusula
em razão do fornecedor exigir sua assinatura para a celebração do contrato, e não por
vontade própria, logo, uma cláusula compulsória.
• Só não seria vista como cláusula compulsória caso houvesse prova da manifestação de
vontade do consumidor pela arbitragem.
• Logo, o fato dessa cláusula estar à parte e assinada não indica a autonomia da vontade
do consumidor, imprescindível para a arbitragem e demais métodos de solução de
conflito.
◦ O segundo critério é de que se o consumidor ajuizar uma ação arbitral decorrente de uma
cláusula arbitral, significa que ele quer a arbitragem. Contudo, isso não significa que ele quer ou
que escolheu pela arbitragem, isto é, não se demonstra a autonomia da vontade do consumidor.
▪ Por exemplo: Dra. Blogueira se inscreveu em um curso, que depois foi tido como não
reconhecido, para se tornar juíza arbitral, cujo contrato estabelecia uma cláusula arbitral
compulsória. Nossa Dra. entrou com uma ação judicial para receber o dinheiro, mas o
judiciário alegou que como havia uma cláusula arbitral, a competência era da justiça privada
arbitral.
◦ O terceiro critério e atual estabelece que se o consumidor, no compromisso arbitral, estabelecer
que quer a arbitragem, é tida como válida a cláusula arbitral. Do contrário, é tida como inválida.
▪ Depois que se ajuíza uma ação arbitral, é realizada uma reunião em que as partes
estabelecem um compromisso arbitral, que estabelece a configuração da arbitragem no caso
concreto.
▪ No contrato de consumo, só valerá o compromisso arbitral, tampouco importa se a cláusula
arbitral estabelecida no contrato seja vazia ou cheia.
A diferença entre cláusula arbitral e compromisso arbitral está no momento e na
forma de utilização desses instrumentos no processo de arbitragem.
• A cláusula arbitral é um acordo prévio, inserido no contrato desde o início, antes
de qualquer conflito surgir.
◦ Nessa cláusula, as partes estabelecem que, caso haja alguma disputa no
futuro relacionada ao contrato, ela será resolvida por meio da arbitragem, ao
invés de ser levada ao Judiciário. A cláusula arbitral pode ser cheia ou vazia.
◦ A cláusula arbitral vazia estabelece que as partes devem submeter seus
conflitos à arbitragem, mas não define aspectos específicos como a escolha da
câmara de arbitragem, o número de árbitros ou o local do procedimento,
deixando essas questões para serem decididas posteriormente.
◦ Já a cláusula arbitral cheia é mais completa, prevendo todos os elementos
essenciais do processo arbitral, como o local, o procedimento e a câmara
arbitral responsável, o que confere maior clareza e segurança para a execução
imediata da arbitragem, sem necessidade de novos acordos entre as partes.
• Já o compromisso arbitral é um acordo feito após o surgimento de um conflito.
◦ Quando as partes já estão envolvidas em uma disputa, elas decidem firmar
um compromisso arbitral, concordando em resolver aquela questão específica
através da arbitragem.
◦ Nesse caso, o compromisso detalha o procedimento arbitral para o litígio já
existente, como a escolha dos árbitros e as regras que serão seguidas.
Note-se que o vedado expressamente pelo CDC é a utilização compulsória da arbitragem, o
que não prescindiria da estipulação de cláusula compromissória no contrato de consumo,
prevendo este instrumento a necessidade de submissão das partes ao juízo arbitral. Presentes
estas circunstâncias, há de se reconhecer a nulidade da cláusula compromissória em questão.
• A simples previsão do recurso à arbitragem, por si, não caracteriza a abusividade, uma vez
que a arbitragem só poderá recair sobre direitos disponíveis do consumidor.
• Todavia, não se deve perder de vista o perigo de o árbitro, nos contratos de consumo, vir a
ser designado pelo contratante mais forte (o fornecedor).
◦ Essa foi uma das razões, inclusive, para o veto da Presidente da República a
dispositivo da Lei 13.129/2015, que expressamente permitia a arbitragem nas
relações de consumo.
• Revigorada está, pois, a importância indicada pela norma do artigo 51, VI, de que se
assegure, na hipótese de recurso à arbitragem de consumo, que a mesma seja voluntária e
não compulsória, retirando os meios do consumidor recorrer ao Poder Judiciário visando à
tutela de seus direitos.
◦ Neste sentido, cominando de nulidade, porque abusiva, a cláusula contratual que
prevê a arbitragem compulsória, o CDC buscar resguardar o consentimento válido do
consumidor na estipulação da cláusula arbitral como instrumento alternativo de
solução de controvérsias.
• Neste sentido, o entendimento jurisprudencial de que a nulidade da cláusula que imponha
a arbitragem compulsória não impede que possa o consumidor, após a ocorrência do
litígio, em acordo com o fornecedor, recorrer à arbitragem. Ou seja, não basta a aceitação
da cláusula compromissória no momento da celebração do contrato de adesão, senão a
instauração do procedimento, ou a aceitação expressa deste, quando instaurado pelo
fornecedor.
• A preservação da voluntariedade do recurso à arbitragem e da proteção de direitos
indisponíveis do consumidor, contudo, permanecem sob o controle do Poder Judiciário. -
Bruno Miragem.
CLÁUSULAS-MANDATO (não foram mencionadas pela Dra.
Blogueira)
CDC, art. 51, VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo
consumidor;
Outra cláusula contratual abusiva rejeitada pela jurisprudência, diz respeito à denominada
cláusula-mandato. Trata-se da cláusula pela qual uma das partes nomeia antecipadamente a
outra parte como sua representante, outorgando-lhe poderes para realização de determinados
atos ou negócios em seu próprio favor.
• Ou seja, a cláusula pela qual o consumidor nomeia o próprio fornecedor, ou terceiro, para
que realize ato ou negócio em seu próprio benefício, porquanto na qualidade de
representantes do consumidor.
• A importância do controle destas espécies de estipulações, em que o representante aja, no
exercício dos poderes de representação, em seu próprio benefício, não se observa com
exclusividade no direito do consumidor.
◦ Quando se trate de contratos de consumo, todavia, uma vez que caracterizem
desequilíbrio no poder de direção da relação contratual, está cláusula deverá ser
considerada abusiva, e por isso nula.
• O que o CDC estabelece, em essência, é a abusividade da cláusula que autorize a
nomeação de procurador do consumidor que atue, em representação deste, no exclusivo
atendimento dos interesses do fornecedor.
◦ Assim por exemplo a decisão do STJ que considerou ineficaz a hipoteca celebrada pela
construtora em favor do banco financiador da obra, mediante cláusula contratual do
consumidor adquirente do imóvel que autorizava sua constituição. Neste caso, a
nulidade da cláusula que no contrato entre o fornecedor e o consumidor autorizava a
hipoteca (espécie de cláusula mandato que transferia os riscos do empreendimento ao
consumidor), importou na ineficácia do direito real de hipoteca celebrado em favor do
fornecedor.
◦ Da mesma forma ocorre em relação aos contratos bancários, nos quais, conforme a
doutrina, aparecem como principais hipóteses de cláusulas-mandato, em favor da
instituição bancária:
a) a cláusula irrevogável pelo qual o consumidor autoriza o banco a emitir e aceitar
título de crédito no valor correspondente à dívida apurada unilateralmente;
▪ Na primeira hipótese, caso em que o consumidor autoriza a emissão e aceitação
de título da dívida determinada de forma unilateral, sua rejeição tem o condão de
impedir toda sorte de comportamentos abusivos do credor, tendo o STJ
sedimentado seu entendimento por intermédio da Súmula 60, nos seguintes
termos: “É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário
vinculado ao mutuante, no exclusivo interesse deste”
b) a cláusula pela qual o consumidor autoriza o banco a debitar de sua conta corrente
os custos e despesas decorrentes da emissão de cartão de crédito, bem como do valor
das faturas vincendas do mesmo;
c) a cláusula pela qual o consumidor autoriza o banco a aplicar recursos disponíveis no
mercado financeiro, a seu exclusivo critério, mas em prejuízo do outorgante.
• O caráter abusivo da cláusula satisfaz-se – determinando sua nulidade – com a simples
outorga de poder, e, portanto, de oportunidade do fornecedor de agir em favor do seu
próprio interesse. - Bruno Miragem.
CLÁUSULAS QUE DEIXEM AO FORNECEDOR A OPÇÃO DE
CONCLUIR OU NÃO O CONTRATO, EMBORA OBRIGANDO O
CONSUMIDOR (não foram mencionadas pela Dra. Blogueira)
CDC, art. 51, IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora obrigando
o consumidor;
Como bem pondera Bruno Miragem, trata-se de situação de cláusula puramente potestativa,
pois deixa o negócio ao livre arbítrio apenas do fornecedor ou prestador.
• No conteúdo do inciso há uma clara vedação da falta de equivalência contratual, em que o
fornecedor tem um direito sem a devida correspondência jurídica em relação à outra
parte.
• Deve ficar claro que o termo concluir quer dizer formar ou constituir o negócio jurídico,
tendo o comando incidência na fase pré-contratual ou de oferta.
• A título de exemplo, imagine-se uma hipótese de celebração de um orçamento, em que
conste a opção do prestador não celebrar o contrato definitivo. A cláusula deve ser tida
como nula também por entrar em conflito com a força vinculativa do orçamento, retirada
do art. 40 do CDC. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE PERMITAM AO FORNECEDOR VARIAÇÃO
DO PREÇO DE MANEIRA UNILATERAL
CDC, art. 51, X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira
unilateral;
• A unilateralidade não é bem-vinda em nenhum contrato.
• Por exemplo: durante a execução de um contrato de prestação de serviço escolar, a escola mudou o
valor da mensalidade. Nesse caso, isso não é permitido, tendo em vista que o reajuste é anual, ou
seja, só poderá ser feito o reajuste quando acabar o ano, não durante.
• Por exemplo: no caso dos planos de saúde para pessoa física, o reajuste anual e o de idade deve ser
autorizado pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que possui um limite anual e legal.
◦ O STJ decidiu que o reajuste de idade aos 60 anos é constitucional, desde que seja razoável.
◦ No tocante aos planos de saúde para pessoa jurídica, o reajuste anual e de idade dos planos de
saúde para pessoa jurídica não são limitados pela ANS. Além disso, há o reajuste de
sinistralidade, isto é, quanto mais se usa o plano, mais sinistro e maior o reajuste.
O reconhecimento da abusividade tem relação com a vedação do enriquecimento sem causa
(…). Além disso, a declaração de nulidade visa à manutenção do equilíbrio do negócio, de sua
base objetiva.
• A regra, é verdade, dirige-se aos casos em que o negócio já foi firmado, uma vez que, no
sistema de liberdade de preços atualmente vigente no País, o valor inicialmente é fixado
de forma livre pelo fornecedor. O que ele não pode fazer é modificá-lo para aumentá-lo
após ter efetuado a transação.
• Para ilustrar, não pode uma escola valer-se de uma cláusula para aumentar sem qualquer
justificativa a mensalidade inicialmente contratada, com vistas ao locupletamento sem
razão.
• Do mesmo modo, o financiamento em crediário não pode trazer cláusulas que alteram
substancialmente o preço no decorrer do negócio de trato sucessivo, gerando onerosidade
excessiva.
• A mesma premissa de vedação do desequilíbrio vale para os contratos de plano de saúde,
como se tem reconhecido na prática, em que as empresas impõem aumentos abusivos
com fundamento em cláusulas de variação unilateral. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE AUTORIZEM O FORNECEDOR A
CANCELAR O CONTRATO UNILATERALMENTE, SEM QUE O
CONSUMIDOR POSSA O MESMO
CDC, art. 51, XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual
direito seja conferido ao consumidor;
• Não é todo o cancelamento unilateral que vai configurar cláusula abusiva, pois o dispositivo
estabelece a condição “sem que igual direito seja conferido ao consumidor”.
• Dessa forma, o cancelamento unilateral não será uma cláusula abusiva se o consumidor também
puder cancelar. Se só o fornecedor puder cancelar, nesse caso, será uma cláusula abusiva.
O CDC encerra no inciso em comento um importante controle sobre o direito de resilição
contratual, mais uma vez vedando uma cláusula puramente potestativa, denominada cláusula
de rescisão unilateral ou de cancelamento unilateral.
• Reside por igual no conteúdo da norma a máxima que veda o comportamento
contraditório, relacionada à boa-fé objetiva e às justas expectativas depositadas no
negócio jurídico (venire contra factum proprium non potest).
• A cláusula em questão merece um cuidado especial nos contratos cativos de longa
duração, especialmente nos contratos de plano de saúde, em que a finalidade tem relação
com a tutela da vida e da integridade físico-psíquica. Numerosos são os julgados que
reconhecem a nulidade da referida cláusula em casos tais. A título de exemplo, do STJ,
colaciona-se:
◦ “Consumidor. Plano de saúde. Cláusula abusiva. Nulidade. Rescisão unilateral do
contrato pela seguradora. Lei 9.656/1998. É nula, por expressa previsão legal, e em
razão de sua abusividade, a cláusula inserida em contrato de plano de saúde que
permite a sua rescisão unilateral pela seguradora, sob simples alegação de
inviabilidade de manutenção da avença. Recurso provido” (STJ – REsp 602.397/RS). -
Flávio Tartuce
CLÁUSULAS QUE OBRIGUEM O CONSUMIDOR A RESARCIR
OS CUSTOS DE COBRANÇA DE SUA OBRIGAÇÃO, SEM QUE
IGUAL DIREITO LHE SEJA CONFERIDO CONTRA O
FORNECEDOR
CDC, art. 51, XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação,
sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor;
• Muitos bancos começaram a querer cobrar dos seus clientes uma taxa de cobrança.
◦ Por exemplo: se o banco cobra por honorários advocatícios, por uma dívida, por emissão do
boleto ou pela cobrança, o consumidor também poderá cobrar.
◦ Esse inciso é bastante relevante para as ações ajuizadas contra bancos.
O CDC não veda a estipulação que impõe ao consumidor o pagamento das despesas de
cobrança em decorrência do inadimplemento, mas apenas determina que esse direito seja uma
via de mão dupla, ou seja, somente será válida a cláusula se constar do mesmo modo contra o
fornecedor.
• Como ocorre com outras previsões já expostas, a norma visa a manter o equilíbrio
contratual, a sua equivalência material e a boa-fé objetiva.
• De toda sorte, mesmo constando o pagamento de tais despesas de forma bilateral, a
cláusula de imposição não pode trazer uma onerosidade excessiva, sob pena de se
configurar a abusividade por outro inciso do art. 51, caso do inc. IV, a gerar do mesmo
modo a sua nulidade absoluta.
◦ A título de exemplo, pode ser citado o entendimento de Tribunais Estaduais no
sentido de ser nula a cláusula contratual que impõe ao consumidor o pagamento de
taxas que seriam da instituição financeira, caso da TEC ou tarifa de emissão de carnê.
▪ A questão se consolidou de tal forma que, em fevereiro de 2016, foram editadas
duas súmulas admitindo parcialmente tais cobranças.
• De início, prevê a Súmula 565 da Corte Superior “a pactuação das tarifas de
abertura de crédito (TAC) e de emissão de carnê (TEC), ou outra
denominação para o mesmo fato gerador, é válida apenas nos contratos
bancários anteriores ao início da vigência da Resolução-CMN n.
3.518/2007, em 30/4/2008”.
• E, ainda, a Súmula 566 do STJ: “nos contratos bancários posteriores ao início
da vigência da Resolução-CMN n. 3.518/2007, em 30/4/2008, pode ser
cobrada a tarifa de cadastro no início do relacionamento entre o consumidor
e a instituição financeira”.
◦ Ainda sobre o inciso em análise, do ano de 2013, cite-se aresto que deduziu pela
abusividade da cláusula contratual que atribui exclusivamente ao consumidor em
mora a obrigação de arcar com os honorários advocatícios referentes à cobrança
extrajudicial da dívida, sem exigir do fornecedor a demonstração de que a contratação
de advogado fora efetivamente necessária e de que os serviços prestados pelo
profissional contratado sejam privativos da advocacia.
▪ Conforme consta da publicação no Informativo n. 524 daquela Corte Superior, “é
certo que o art. 395 do CC autoriza o ressarcimento do valor de honorários
decorrentes da contratação de serviços advocatícios extrajudiciais. Todavia, não
se pode perder de vista que, nos contratos de consumo, além da existência de
cláusula expressa para a responsabilização do consumidor, deve haver
reciprocidade, garantindo-se igual direito ao consumidor na hipótese de
inadimplemento do fornecedor. Ademais, deve-se ressaltar que a liberdade
contratual, integrada pela boa-fé objetiva, acrescenta ao contrato deveres anexos,
entre os quais se destaca o ônus do credor de minorar seu prejuízo mediante
soluções amigáveis antes da contratação de serviço especializado. Assim, o
exercício regular do direito de ressarcimento aos honorários advocatícios depende
da demonstração de sua imprescindibilidade para a solução extrajudicial de
impasse entre as partes contratantes ou para a adoção de medidas preparatórias
ao processo judicial, bem como da prestação efetiva de serviços privativos de
advogado” (STJ – REsp 1.274.629/AP – Rel. Min. Nancy Andrighi – j.
16.05.2013). - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE AUTORIZEM O FORNECEDOR A
MODIFICAR UNILATERALMENTE O CONTEÚDO OU
QUALIDADE DO CONTRATO APÓS SUA CELEBRAÇÃO
CDC, art. 51, XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a
qualidade do contrato, após sua celebração;
• Isso tem a ver com o princípio da obrigatoriedade: uma vez celebrado, o contrato não pode ser
modificado unilateralmente. Portanto, a alteração só poderá ser feita com a concordância do
consumidor.
• Qualquer cláusula que permita modificação unilateral é abusiva.
Diante das justas expectativas depositadas no negócio, não pode o fornecedor modificar
unilateralmente o contrato e sem qualquer motivo, sendo a sua cláusula autorizadora nula por
abusividade.
• Consigne-se que Claudia Lima Marques, Herman Benjamin e Bruno Miragem criticam o
comando, pela utilização da expressão qualidade, que acaba restringindo a sua
concretização.
• Assim, a correta interpretação seria no sentido de se vedar qualquer alteração posterior do
contrato, qualquer quebra das regras do jogo, a gerar um desequilíbrio ou uma situação de
injustiça contra o consumidor.
• Cite-se, em conformidade com previsão anterior, a cláusula que altera o preço ou os juros
inicialmente contratados pelas partes.
◦ Em reforço, da realidade jurisprudencial, é nula a cláusula que muda as regras do
plano de telefonia, sem qualquer fundamento
◦ Ou, ainda, é nula a cláusula contratual que afasta a possibilidade de devolução de
valores pagos em contrato de serviços educacionais em caso de não reconhecimento
do curso de mestrado pelos órgãos existentes, quebrando as expectativas depositadas
quando da contratação inicial.
◦ Por fim, “a cláusula contratual que possibilita ao credor modificar unilateralmente o
contrato após a sua celebração, aumentando o
número de prestações devidas pelo contratante, deve ser reputada como nula,
porquanto manifestamente abusiva, afrontando o princípio da boa--fé objetiva”. -
Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE INFRINJAM OU POSSIBILITEM A
VIOLAÇÃO DE NORMAS AMBIENTAIS (não foram
mencionadas pela Dra. Blogueira)
CDC, art. 51, XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;
A previsão estabelece interessante conexão dialogal do Direito do Consumidor com o Direito
Ambiental, mormente com a proteção do Bem Ambiental retirada do art. 225 da CF/1988.
• Nesse contexto de proteção, o Bem Ambiental constitui um bem difuso, que supera a
antiga dicotomia público x privado, surgindo um novo conceito de interesse, maior do que
essa simples contradição, qual seja a tripartição do interesse coletivo em direitos
individuais homogêneos, direitos coletivos em sentido estrito e direitos difusos.
◦ Sendo difuso, o meio ambiente envolve interesses que não podem ser determinados
em um primeiro momento, ou seja, os interesses públicos e os privados ao mesmo
tempo, o que justifica a responsabilização objetiva daqueles que lhe causam danos,
nos termos do art. 14, § 1º, da Lei 6.938/1981.
◦ Preocupa-se com os interesses transgeracionais ou intergeracionais relativos a esse
bem de todos, pela proteção das futuras gerações, aquelas que ainda virão (equidade
intergeracional).
◦ Como decorrência de tais premissas teóricas, o direito ao equilíbrio no Bem
Ambiental é considerado pela doutrina como um direito fundamental.
• Diante de sua indeclinável abrangência difusa, a proteção do meio ambiente envolve
igualmente os contratos. Nesse contexto, pode-se afirmar que o contrato que viola valores
ambientais é nulo por desrespeito à função social do contrato (função socioambiental).
◦ Utiliza-se a eficácia externa do princípio, pela proteção dos direitos difusos e
coletivos, na esteira do Enunciado n. 23 do CJF/STJ, da I Jornada de Direito Civil.
◦ Não poderia ser diferente com os contratos de consumo, em que a proteção coletiva é
marcante.
• Para ilustrar, se, em determinado contrato de fornecimento de um produto, o consumidor
aceita contratualmente que o seu uso cause danos ao meio ambiente, a previsão é nula,
por contrariar os citados valores de proteção.
◦ Além dessa decretação de nulidade, é possível retirar o produto do mercado, diante de
seu índice de periculosidade ao meio ambiente. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE ESTEJAM EM DESACORDO COM O
SISTEMA DE PROTEÇÃO AO CONSUMIDOR (não foram
mencionadas pela Dra. Blogueira)
CDC, art. 51, XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
Mais uma vez, o inciso consagra um sistema aberto de proteção, ao preconizar a nulidade de
qualquer cláusula que entre em conflito com o sistema de proteção consumerista.
• Um bom exemplo envolve a cláusula de eleição de foro, quando inserida em contratos de
consumo. Como se sabe, trata-se da previsão que escolhe o juízo competente a apreciar o
conflito contratual, cláusula essa que é válida, em regra, por força da antiga Súmula 335
do Supremo Tribunal Federal e do art. 63 do CPC/2015.
◦ (…) Pois bem, no que toca às ações de responsabilidade civil, a cláusula de eleição de
foro é flagrantemente nula, por violar a regra do art. 101, inc. I, do CDC, que
estabelece o foro privilegiado para os consumidores em demandas de tal natureza.
Insta verificar se a premissa vale para qualquer demanda envolvendo os consumidores.
◦ Isso porque a cláusula de eleição de foro representa uma afronta ao direito
fundamental do consumidor de facilitação de sua defesa,
retirado do art. 6º, inc. VIII, do CDC. Nessa linha, é totalmente desnecessário
debater se houve ou não prejuízo ao consumidor, como muitas vezes insiste a
jurisprudência.
▪ Todavia, a posição acima não é pacífica, pois existem arestos que exigem a prova
do citado prejuízo ao consumidor,
bem como de sua hipossuficiência. - Flávio Tartuce.
CLÁUSULAS QUE POSSIBILITEM A RENÚNCIA DO DIREITO
DE INDENIZAÇÃO POR BENFEITORIAS NECESSÁRIAS (não
foram mencionadas pela Dra. Blogueira)
CDC, art. 51, XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias necessárias.
Nos termos dos arts. 96 e 97 do Código Civil, as benfeitorias como bens acessórios são
melhoramentos ou acrescidos introduzidos em um bem principal, classificadas quanto à
essencialidade em necessárias, úteis e voluptuárias.
• Nos termos da lei, são necessárias as benfeitorias que visam à conservação do bem
principal, tidas como essenciais ao último.
• As benfeitorias úteis são aquelas que aumentam ou facilitam o uso do bem principal.
• Por fim, as voluptuárias são as de mero deleite ou recreio, que não aumentam o uso
habitual do bem, ainda que o tornem mais agradável ou sejam de elevado valor.
• Diante da relação de essencialidade com o bem principal, o Código do Consumidor deduz
como abusiva a cláusula de renúncia às benfeitorias necessárias. Não se pode esquecer da
presunção de boa-fé a favor do consumidor, a gerar o direito de indenização por tais
benfeitorias, nos termos do art. 1.219 do Código Civil.
• A previsão consumerista em comento tem grande concreção prática, em casos relativos a
compromissos de compra e venda de imóveis celebrados com incorporadoras ou outros
profissionais que são inadimplidos pelos consumidores, sendo forçoso reconhecer o direito
a tais benfeitorias. - Flávio Tartuce.
INCISOS NÃO DADOS + NÃO ACHEI NA DOUTRINA
CDC, art. 51, XVII - condicionem ou limitem de qualquer forma o acesso aos órgãos do Poder
Judiciário;
CDC, art. 51, XVIII - estabeleçam prazos de carência em caso de impontualidade das prestações
mensais ou impeçam o restabelecimento integral dos direitos do consumidor e de seus meios de
pagamento a partir da purgação da mora ou do acordo com os credores;
CDC, art. 51, XIX - (VETADO).
COBRANÇA DE DÍVIDAS
• Como regra geral, é um ato lícito, sendo permitido que o fornecedor possam cobrar suas dívidas. No
entanto, existem algumas cobranças que podem ser tornar ilícitas na medida em que se tornam
abusivas ou ilegais.
• CDC, art. 42 - Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem
será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.
◦ Esse dispositivo é regido pelo princípio da dignidade humana nessa cobrança do fornecedor ao
consumidor, de forma que este não pode ser submetido ou exposto ao ridículo, constrangimento
ou ameaça.
◦ Por exemplo: ligações constantes do fornecedor para o trabalho do consumidor a fim de cobrar a
dívida podem gerar compensação ao consumidor.
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito,
por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais,
salvo hipótese de engano justificável.
◦ A repetição do indébito tem critérios:
1. Cobrança indevida de um valor já pago pelo consumidor em excesso: isto é, o credor
cobra a mais do que deveria e o consumidor pagou esse excesso.
▪ O consumidor deve pagar pelo excesso, já que o mero fato de ter sido feita a cobrança em
excesso não acarreta no direito à repetição do indébito.
▪ Por exemplo: o consumidor pagou uma conta uma vez, o fornecedor o cobra pela segunda
vez e o consumidor paga novamente.
2. Cobrança indevida e em excesso em virtude de engano justificável:
▪ Ainda que aparente ser uma responsabilidade objetiva, a repetição do indébito é uma
responsabilidade subjetiva, ou seja, não basta a cobrança e pagamento em excesso, pois
essa cobrança deve ser decorrente de um engano justificável.
Comentários da Tia Erá: eu tinha entendido que, no caso, o consumidor NÃO
teria direito se houvesse um engano justificável para a cobrança do fornecedor,
mas ok, né.
▪ O que é engano justificável será verificado mediante a análise de culpa, logo, é uma
responsabilidade subjetiva.
▪ É por causa desta última parte que a repetição de indébito é tão difícil de ser aplicada.
◦ Uma vez configurada a repetição do indébito, além do dobro do que foi pago em excesso
▪ Por exemplo: o consumidor foi cobrado primeiramente em R$100,00. Depois, pela
segunda vez e indevidamente, por R$80,00. No caso, o consumidor receberá pela repetição
do indébito o dobro do que pagou em excesso (R$80,00 x 2 = R$160,00), mais correção
monetária e juros.
• CDC, art. 42-A - Em todos os documentos de cobrança de débitos apresentados ao consumidor,
deverão constar o nome, o endereço e o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF
ou no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ do fornecedor do produto ou serviço
correspondente.
O art. 42, caput, da Lei 8.078/1990, que trata do abuso de direito na cobrança de dívidas,
tem grande aplicação na prática consumerista.
• Fica clara a opção pela configuração do abuso de direito, ilícito equiparado, uma vez que a
cobrança de dívidas, em regra, constitui um exercício regular de direito que afasta o ilícito
civil (art. 188, inc. II, do CC/2002).
• No âmbito penal, todavia, a solução é pela caracterização do ilícito puro, pelo que consta
do art. 71 do próprio CDC.
◦ CDC, art. 71 - Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento
físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro
procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira
com seu trabalho, descanso ou lazer:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.
• Pelo texto, veda-se, de início, a exposição do consumidor ao ridículo na cobrança de
dívidas, o que deve ser analisado caso a caso, tendo como parâmetro as máximas de
experiências e os padrões de conduta perante a sociedade.
◦ Da jurisprudência superior, (…) o Superior Tribunal de Justiça (…) deduziu pela
cobrança vexatória em caso de cárcere privado em loja, por suposto furto de
mercadoria, o que gerou o dever de reparar.
◦ Em situação próxima, constitui cobrança vexatória a prática de casas noturnas de
impedir a saída do consumidor enquanto não for paga a dívida de consumação.
◦ Obviamente, tais práticas abusivas ensejam a possibilidade de reparação imaterial a
favor do consumidor, devendo a indenização ser fixada em parâmetros pedagógicos,
para que as condutas antissociais não se repitam.
◦ Já se entendeu que a entrega de correspondência de cobrança aberta em portaria de
prédio constitui cobrança vexatória, a justificar indenização por danos morais.
• Por outra via, em algumas situações afasta-se o abuso na cobrança, entendendo-se pela
presença de exercício regular de direitos por parte do credor.
◦ De início, (…) a respeito de cobrança de dívida realizada no ambiente de trabalho do
consumidor:
“Responsabilidade civil. Cobrança de dívida no local de trabalho do devedor.
Ausência de abusividade na conduta do credor. Danos morais não caracterizados. A
simples presença de um representante da empresa credora no local de trabalho do
devedor não caracteriza exposição ao ridículo, constrangimento ou ameaça, nos
termos do art. 42 do CDC. Apelo improvido” (TJRS – Apelação Cível
70022807408).
◦ Seguindo a linha da ausência de cobrança vexatória, no que concerne a ligações
telefônicas e envio de cartas de cobrança sigilosas, (…), por si sós e dentro da
razoabilidade que se espera, não parecem configurar o abuso de direito na cobrança,
mas um exercício regular do direito por parte do credor.
▪ Todavia, em havendo exageros sociais, com quebra da ética particular, presente
estará o abuso de direito, com a consequente responsabilização civil do abusador.
• No presente contexto, surge o tema relativo à cobrança de dívidas em sede de condomínio
edilício.
◦ Não há relação de consumo entre o condômino e o condomínio, pela falta de
alteridade. Sendo assim, o art. 42 do CDC não se aplica às relações condominiais.
◦ O controle das condutas está sujeito ao transcrito art. 187 do CC/2002, tendo como
parâmetro a função social, a boa-fé objetiva ou os bons costumes.
◦ Com o devido respeito ao posicionamento em contrário, entende-se que a mera
exposição, na prestação de contas mensais do condomínio, da relação das unidades
inadimplentes não constitui cobrança vexatória, mas sim um exercício regular de um
direito. Na verdade, pode-se falar até em dever de informação por parte do síndico, de
acordo com as suas atribuições como administrador-geral.
▪ O que não se pode admitir é que o condomínio afixe em local visível o nome
daqueles que são inadimplentes, o que, sem dúvidas, configura o abuso de direito
civil, nos termos da lei geral privada.
◦ De toda sorte, deve ficar claro que o debate relativo ao condomínio edilício não
envolve o art. 42 do CDC, pois não se situa a relação entre esse e os seus
componentes na órbita da relação jurídica de consumo.
REPETIÇÃO DE INDÉBITO NO CASO DE COBRANÇA
ABUSIVA (ART. 42, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CDC)
• A norma tem incidência nas hipóteses em que o consumidor é cobrado de indébito,
havendo o pagamento da dívida indevida, a justificar a ação de repetição de indébito (actio
in rem verso).
• Uma leitura apressada da norma pode trazer a conclusão de que a mera cobrança indevida
é motivo para o pagamento em dobro do que está sendo cobrado. Todavia, como se nota,
o dispositivo está tratando de repetição, o que, obviamente, exige o pagamento indevido.
• É necessário o preenchimento de dois requisitos para a subsunção da norma:
a) cobrança indevida;
b) pagamento pelo consumidor do valor indevidamente cobrado.
• A repetição em dobro representa uma punição contra o fornecedor ou prestador,
independente da prova de prejuízo para a sua aplicação. Por essa sua natureza, a repetição
em dobro não afasta o direito de o consumidor pleitear outros prejuízos do pagamento do
indevido, caso de danos materiais e morais, premissa retirada do princípio da reparação
integral dos danos (art. 6º, inc. VI, do CDC).
◦ Como se nota, a punição introduzida pelo CDC é maior do que a tratada pelo Código
Civil, uma vez que a repetição da norma geral privada somente abrange o valor da
dívida paga acrescida de correção monetária e juros legais (arts. 876 e 884 do
CC/2002).
• Atente-se que um dos principais exemplos de aplicação do art. 42, parágrafo único, da Lei
8.078/1990 envolve a cobrança e pagamento indevidos de tarifa de água e esgoto,
quando o serviço não é efetivamente prestado.
◦ A ilustrar, “a jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que, inexistente rede de
esgotamento sanitário, fica caracterizada a cobrança abusiva, sendo devida a
repetição de indébito em dobro ao consumidor” (STJ – AgRg no REsp 1135528/RJ ).
◦ Edição n. 74 da ferramenta Jurisprudência em Teses, do STJ (Consumidor IIII, de
2017): “é obrigatória a restituição em dobro da cobrança indevida de tarifa de água,
esgoto, energia ou telefonia, salvo na hipótese de erro justificável (art. 42, parágrafo
único, do CDC), que não decorra da existência de dolo, culpa ou má-fé”.
• A parte final do dispositivo consumerista em comento afasta o direito à repetição de
indébito em dobro se houver erro escusável, ou seja, um erro justificável por parte
do fornecedor ou prestador que faz a cobrança e recebe o pagamento.
◦ A expressão gera um grande debate jurisprudencial a respeito dos limites de
incidência da norma. A polêmica repercute na necessidade de prova ou não da má-fé
ou da culpa por parte do credor que faz a cobrança.
▪ Segundo o entendimento anterior majoritário do Superior Tribunal de Justiça, tal
elemento seria necessário.
▪ A exigência de prova de má-fé ou culpa do credor representa a incidência de um
modelo subjetivo de responsabilidade, totalmente distante do modelo objetivo
adotado do CDC, que dispensa o elemento culposo.
▪ Criticando esse entendimento jurisprudencial, leciona Claudia Lima Marques que
“no sistema do CDC todo engano na cobrança de consumo é, em princípio
injustificável, mesmo o baseado em cláusulas abusivas inseridas no contrato de
adesão, ex vi o disposto no parágrafo único do CDC. Cabe ao fornecedor prova
que seu engano na cobrança, no caso concreto, foi justificado”.
◦ Em outubro de 2020, a questão foi enfim pacificada no âmbito da sua Corte Especial,
no julgamento do EAREsp 676.608, tido como acórdão paradigma. Seguiu-se a
segunda vertente, de dispensa de prova da má-fé para a repetição de indébito. As
teses fixadas foram as seguintes (…):
“A restituição em dobro do indébito (parágrafo único do artigo 42 do CDC) independe
da natureza do elemento volitivo do fornecedor que cobrou valor indevido, revelando-
se cabível quando a cobrança indevida consubstanciar conduta contrária à boa-fé
objetiva. (…)”.
▪ Seguindo no estudo do tema, anote-se que a jurisprudência superior dispensa a
prova do erro nos contratos de abertura do crédito. Dispõe a Súmula 322 do STJ
que “para a repetição de indébito, nos contratos de abertura de crédito em conta
corrente, não se exige a prova do erro”.
• Feitas tais considerações, no que concerne ao prazo para a ação de repetição de indébito
consumerista, a demonstrar o equívoco desta última posição superior, houve debate
anterior na jurisprudência superior. Discutiu-se entre o prazo de prescrição de cinco anos
(art. 27 do CDC) e o prazo geral de prescrição do Código Civil (10 anos).
◦ O Superior Tribunal de Justiça acabou por concluir pela aplicação do último, por ser
mais favorável ao consumidor vulnerável, editando a Súmula 412, in verbis: “a ação
de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto sujeita-se ao prazo prescricional
estabelecido no Código Civil”.
◦ A ementa representa clara aplicação da teoria do diálogo das fontes, pela escolha da
norma mais favorável aos consumidores, mesmo estando ela fora do CDC, no caso,
no Código Civil.
• O art. 42, parágrafo único, do CDC consagra hipótese em que há apenas a cobrança e
pagamento de indébito, não se exigindo a presença de uma demanda judicial, como faz a
codificação civil. - Flávio Tartuce.
25/09/2024
DOS BANCOS DE DADOS E CADASTROS
• CDC, art. 43 - O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações
existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem
como sobre as suas respectivas fontes.
§ 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem
de fácil compreensão, não podendo conter informações negativas referentes a período superior a
cinco anos.
• O consumidor tem direito ao acesso às informações relacionadas a ele. Portanto, se ele pedir para o
Serasa ou SPC alguma informação, eles terão que ceder.
• CDC, art. 43, § 2º - A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá
ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele.
◦ Antigamente, a compreensão jurisprudencial era no sentido de que a notificação ou aviso prévio
devia ser enviado pelo fornecedor e os bancos de dados não eram responsáveis por esse envio.
Nesse sentido, só os fornecedores eram condenados no caso de não notificação.
▪ A jurisprudência evoluiu e, hoje, ambos são responsáveis pelo aviso prévio e notificação,
logo, ambos podem ser condenados por danos morais caso não façam essa notificação.
• CDC, art. 43, § 3º - O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros,
poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a
alteração aos eventuais destinatários das informações incorretas.
◦ O consumidor pode solicitar a correção dos dados caso ele perceba qualquer equívoco.
◦ É possível encontrar na jurisprudência algumas decisões no sentido de que se o consumidor não
pedir administrativamente a correção dos dados, ele não poderá pedir os danos morais.
▪ No entanto, cabe ressaltar que a correção dos dados pelo consumidor não é um direito
amplamente divulgado, nem obrigatório, nem condição da ação do dano moral.
▪ Sendo assim, a correção de dados é somente um direito, e não uma condição da ação.
• CDC, art. 43, § 4º - Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, os serviços de
proteção ao crédito e congêneres são considerados entidades de caráter público. (Dra. Blogueira não
deu esse parágrafo, estou apenas complementando - Tia Erá)
O § 4º do artigo 43 qualifica os bancos de dados e cadastros de consumidores, assim
como os serviços de proteção ao crédito e entidades congêneres, como equiparadas a
entidades de caráter público – permitindo a utilização, pelo consumidor, do remédio
constitucional do habeas data para garantir o acesso e conhecimento dos seus dados
pessoais. - Bruno Miragem.
• CDC, art. 44 - Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão cadastros atualizados de
reclamações fundamentadas contra fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-lo pública
e anualmente. A divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não pelo fornecedor. (Dra.
Blogueira não deu esse parágrafo, estou apenas complementando - Tia Erá)
§ 1° É facultado o acesso às informações lá constantes para orientação e consulta por qualquer
interessado.
§ 2° Aplicam-se a este artigo, no que couber, as mesmas regras enunciadas no artigo anterior e as do
parágrafo único do art. 22 deste código.
CADASTRO POSITIVO
A gravação da aula não pegou ela falando de cadastro negativo, uma grande perda, realmente -
Tia Erá.
• A ideia do banco de dados positivo é: se o consumidor negativado não pode contratar, aumenta sua
taxa de juros, etc., então, se for criado um cadastro de bons pagadores, eles poderão ter desconto, os
juros mais baixos, como um incentivo para as pessoas não deverem.
• Em tese, é uma boa ideia, mas acabou se tornando “intragável” na prática em virtude do cadastro
positivo começar a ser usado de maneira discriminatória, no sentido de:
◦ Os fornecedores só contratarem com aqueles que possuem cadastro positivo, enquanto aqueles
que não possuem, os fornecedores não contratam;
◦ Ou que quem possui cadastro positivo vai ter muitas vantagens ou até mesmo um tratamento
diferenciado.
TABELA SCORING
• Como forma de facilitar a redução de juros, criou-se a tabela scoring.
◦ Ela é usada pelos bancos para se decidir se será aplicado juros menores ou maiores.
• Ela é lícita.
A par da organização de bancos de dados com a finalidade tradicional de permitir a consulta
de informações restritivas de crédito – como prevê o art. 43 do CDC – e de informações de
adimplemento e histórico de crédito, previsto pela Lei 12.414/2011, outros métodos de uso
de informações para avaliação de crédito ganharam espaço nos últimos anos, em especial,
modelos de pontuação (scoring) de consumidores para fim de determinação do risco de
crédito.
• Este método de avaliação (…) consiste em aplicação de técnica estatística para análise de
informações relativas aos consumidores, segundo certos modelos de comportamento, pelo
qual é atribuída certa pontuação ao consumidor, representativa do risco de
inadimplemento.
• Os dados utilizados por este sistema, uma vez que não se considerem bancos de dados de
informações positivas com o procedimento para acesso e compartilhamento de
informações a ele inerentes, ficam limitados ao período de cinco anos.
• Dada a repercussão do uso do sistema de pontuação de crédito e os questionamentos
sobre sua conformidade, especialmente, com as normas de proteção do consumidor, a
matéria foi objeto de
exame pelo Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial 1419697/RS, (…) dando
origem a:
◦ Súmula 550 do STJ - A utilização de escore de crédito, método estatístico de
avaliação de risco que não constitui banco de dados, dispensa o consentimento do
consumidor, que terá o direito de solicitar esclarecimentos sobre as informações
pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados no respectivo cálculo.”
◦ De interesse, contudo, o exame das teses fixadas na decisão mencionada, a saber:
1) O sistema “credit scoring” é um método desenvolvido para avaliação do risco de
concessão de crédito, a partir de modelos estatísticos, considerando diversas
variáveis, com atribuição de uma pontuação ao consumidor avaliado (nota do risco de
crédito).
2) Essa prática comercial é lícita, estando autorizada pelo art.5º, IV, e pelo art. 7º, I,
da Lei n. 12.414/2011 (lei do cadastro positivo).
3) Na avaliação do risco de crédito, devem ser respeitados os limites estabelecidos
pelo sistema de
proteção do consumidor no sentido da tutela da privacidade e da máxima
transparência nas
relações negociais, conforme previsão do CDC e da Lei n. 12.414/2011.
4) Apesar de desnecessário o consentimento do consumidor consultado, devem ser a
ele fornecidos esclarecimentos, caso solicitados, acerca das fontes dos dados
considerados (histórico de crédito), bem como as informações pessoais valoradas.
5) O desrespeito aos limites legais na utilização do sistema “credit scoring”,
configurando abuso no exercício desse direito (art. 187 do CC), pode ensejar a
responsabilidade objetiva e solidária do fornecedor do serviço, do responsável pelo
banco de dados, da fonte e do consulente (art. 16 da Lei n. 12.414/2011) pela
ocorrência de danos morais nas hipóteses de utilização de informações excessivas ou
sensíveis (art. 3º, § 3º, I e II, da Lei n. 12.414/2011), bem como nos casos de
comprovada recusa indevida de crédito pelo uso de dados incorretos ou
desatualizados. - Bruno Miragem.
DISTINÇÃO ENTRE BANCOS DE DADOS E CADASTROS
DE CONSUMIDORES
Tabelinha do Flávio Tartuce:
Diferenciação quanto: BANCO DE DADOS C
À forma de coleta dos dados armazenados: Têm caráter aleatório, sendo o seu objetivo propiciar a máxima O
quantidade de coletas de dados. Não há um interesse particularizado. a
c
À organização dos dados armazenados: As informações têm uma organização mediata, pois visam a uma A
utilização futura, ainda não concretizada. e
À continuidade da coletiva e da divulgação: Como são aleatórios, há a necessidade de sua conservação C
permanente, no máximo de tempo possível. c
c
À existência de requerimento do cadastramento: Não há consentimento do consumidor, que, muitas vezes, sequer tem H
conhecimento do registro. s
À extensão dos dados postos à disposição: Como há o objetivo de transmissão de informações a terceiros, é É
proibido o juízo de valor em relação ao consumidor. Existem apenas i
dados objetivos e não valorativos.
À função das informações obtidas: Não apresentam a finalidade de utilização subsidiária. As O
informações constituem o conteúdo fundamental da existência do d
banco de dados. s
Ao alcance da divulgação das informações: A divulgação é externa e continuada a terceiros, sendo essa a sua A
principal finalidade social.
• Os bancos de dados e cadastros de consumidores são identificados, em conjunto, sob a
terminologia arquivos de consumo. Esta expressão vai se considerar gênero do que são
espécies os bancos de dados e os cadastros de fornecedores.
• Os arquivos de consumo têm como características comuns – tanto aos bancos de dados,
quanto aos cadastros de fornecedores – o fato de armazenarem informações sobre
terceiros para uso em operações de consumo.
ESPÉCIES DE BANCO DE DADOS
• São basicamente duas as espécies de bancos de dados de consumidores estruturados
habitualmente no mercado de consumo.
• A gestão dos dados pessoais dos consumidores, sejam positivos ou negativos, acerca de
seu comportamento de consumo, não prescinde do amplo acesso dos mesmos às
informações registradas, bem como a possibilidade efetiva, e sem ônus, da sua retificação.
◦ Neste sentido, considerando que a manutenção dos bancos de dados de consumo
atende precipuamente os interesses dos fornecedores, com vista à diminuição dos
riscos de sua atividade negocial, (sobretudo quando relativos ao arquivo de
informações negativas), eventual acesso, retificação ou exclusão dos dados do
consumidor não pode ser condicionado ao pagamento de quaisquer valores.
◦ Do contrário, se estaria diante de uma transferência de custos pela diminuição dos
riscos do fornecedor para o consumidor, o que contraria a lógica do CDC, pela qual o
fornecedor é quem responde pelos riscos da atividade negocial, o que inclui, por
certo, a redução ou prevenção destes mesmos riscos.
BANCO DE DADOS NEGATIVO (CADASTRO NEGATIVO)
• Primeiro os que arquivam e mantêm informações do comportamento de consumo, que em
razão do seu conteúdo deem causa à impressão geral negativa ou o desabonem, perante
outros fornecedores, para futuras contratações. São bancos de dados restritivos, cujo
acesso da informação pelo fornecedor, em geral impede ou condiciona o acesso do
consumidor ao crédito para o consumo.
• Os principais bancos de dados utilizados no Brasil, e que mais diretamente destaque
possuem no tocante às relações de consumo são, sem dúvida, os bancos de dados de
proteção ao crédito.
◦ Principal espécie de banco de dados de informações negativas, organizam-se sob
diversos modos, seja mantidos pelas associações de fornecedores (caso do Serviço de
Proteção ao Crédito, mantidos pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas –
CNDL), por empresas que tem como objetivo a organização, armazenamento e
disposição dos dados para consulta, mediante remuneração (caso do SERASA), ou
mesmo por órgãos públicos – como é o caso do Cadastro de Cheques sem Fundo,
mantido pelo Banco Central do Brasil (BCB).
◦ É o caso (de banco de dados), no Brasil, dos denominados órgão de proteção ao
crédito (SPC, SERASA), os quais terão sua finalidade específica voltada à obtenção,
organização, armazenamento e divulgação relativamente restrita, das informações
financeiras e patrimoniais em geral dos consumidores para os fornecedores, com o
objetivo de subsidiar o exame, por parte destes, da conveniência da celebração do
contrato de consumo.
▪ Em termos práticos, entretanto, a inscrição do consumidor em quaisquer destes
cadastros equivale à sua exclusão do mercado de compra a crédito, e mesmo, da
possibilidade de aquisição de produtos mediante pagamento em cheque, ou
quaisquer outros mecanismos que não o dinheiro (moeda de custo forçado).
• Ao CDC é indiferente quem seja o responsável pelo banco de dados, uma vez que a
questão principal a ser observada é a qualidade e natureza dos dados divulgados (se
pertinentes ao consumidor), aplicando-se, portanto, indistintamente, a bancos de dados
públicos ou privados.
◦ Assim também, não importa qual o modo de arquivamento e gestão das informações
para caracterizar a existência ou não do banco de dados. Neste sentido, o
arquivamento das informações pode se dar tanto por intermédio de meios
informáticos – os bancos de dados automatizados –, quanto de bancos de dados
manuais, sem utilização dos recursos informáticos –
os bancos de dados não automatizados.
BANCO DE DADOS POSITIVO (CADASTRO POSITIVO)
• Segundo, os bancos de dados de informações positivas, compostos de informações que
atestam, em geral, o bom comportamento dos consumidores na realização de seus
negócios de consumo, como a habitualidade do pagamento regular de suas obrigações,
seu nível de comprometimento, dentre outros dados relevantes.
• A finalidade principal da manutenção e acesso dos fornecedores em bancos de dados de
informações
positivas diz respeito a uma redução dos riscos de inadimplemento.
• A perversão deste instrumento, contudo, pode estabelecer a obrigatoriedade de que
consumidor tenha seus dados arquivados em banco de dados de informações positivas,
como condição para a contratação, o que, neste caso, poderá caracterizar-se como prática
abusiva, a teor do que estabelece o artigo 39, II e X.
INCLUSÃO DO CONSUMIDOR NO BANCO DE DADOS:
O DIREITO À COMUNICAÇÃO
• A inclusão do consumidor em banco de dados não depende de seu consentimento prévio.
◦ Neste sentido, a princípio, seria distinguido dos cadastros de fornecedores (ou de
consumidores), uma vez que, em sua origem, estes dependem para acesso aos dados,
que os mesmos sejam repassados pelos próprios titulares da informação (pressupondo
sua anuência expressa ou tácita).
◦ Hoje, todavia, considerando as técnicas de cruzamento de informações a que
referimos acima, não há como se caracterizar na maioria dos casos, que o consumidor
tenha consentido com utilização específica que se dê à informação.
• CDC, art. 43, § 2º - A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo
deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele.
◦ Ou seja, o CDC estabelece expressamente um dever de comunicação a quem
promova a inscrição do consumidor em banco de dados. Este dever é correspondente
ao direito à comunicação do consumidor, cuja razão de ser é justamente permitir, na
prática, a adoção dos procedimentos cabíveis visando evitar ou corrigir o conteúdo da
informação inscrita no respectivo banco de dados.
• Estabelece o CDC, o dever de notificação escrita do consumidor. Não determina
expressamente o tempo desta notificação, se necessariamente anterior à inclusão do
consumidor. A doutrina e a jurisprudência, todavia, considerando a finalidade da norma,
de permitir ao consumidor impedir ou corrigir os termos do registro, consagrou a
necessidade de que esta notificação seja prévia à inclusão.
◦ STJ, Súmula 359 - Cabe ao órgão mantenedor do Cadastro de Proteção ao Crédito a
notificação do devedor antes de proceder à inscrição.
◦ STJ, Súmula 404 - É dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de
comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e
cadastros.
◦ Neste sentido orienta-se parte da jurisprudência, inclusive, em considerar a ausência
de prévia notificação como causa suficiente para a determinação de dano moral e sua
consequente indenização.
▪ Com exceção das situações em que resulte da reprodução fiel de informação
registrada em cartório – cujo conhecimento público é característico.
◦ Entendimento diverso vai sustentar que se tratando de devedor contumaz, a
inexistência do prévio aviso não é causa per se de dano, uma vez o registro do
consumidor como inadimplente.
▪ Ressalve-se, contudo, situação em que a inscrição indevida se dá em face de falha
do credor ao contratar, admitindo documentos falsos de terceiro como se fossem
do consumidor inscrito indevidamente por dívida que não contraiu. Neste caso, o
fornecedor que dá causa à inscrição, ao admitir o uso de documentos falsos,
responde pelos danos ao consumidor.
• O artigo 43, § 1º, do CDC estabelece os deveres do fornecedor com relação ao conteúdo
da informação arquivada, estabelecendo que estes dados “devem ser objetivos, claros,
verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão”.
◦ CDC, art. 43, § 1º - Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo conter
informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
◦ A clareza, objetividade e correção dos dados são passíveis de registro, importa
observar que não se admitem, a priori, registros acerca de juízos de valor sobre o
consumidor por parte do fornecedor, senão exclusivamente de informações
objetivamente consideradas, cuja avaliação subjetiva apenas deverá ser feita pelo
fornecedor que eventualmente consultar os dados para avaliação do seu risco na
concessão de crédito ao titular das informações arquivadas.
◦ Da mesma forma, a correção e clareza das informações decorrem do dever geral de
cuidado que deve, com fundamento na boa-fé objetiva, presidir a relação entre o
consumidor, o fornecedor e o gestor do banco de dados.
• Tratando-se do Cadastro de Emitentes de Cheques Sem Fundo, gerido pelo Banco do
Brasil, contudo, o entendimento prevalente é que não lhe cabe o dever de notificação
prévia à inclusão do
emitente no respectivo banco de dados.
◦ Isso porque trata-se, nessa hipótese, de banco de dados disciplinado pelo Banco
Central do Brasil no interesse da proteção do sistema financeiro e da poupança
popular, cuja gestão é delegada ao Banco do Brasil. Resulta, neste caso, de uma
relação jurídico-administrativa.
◦ STJ, Súmula 572 - O Banco do Brasil, na condição de gestor do Cadastro de
Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), não tem a responsabilidade de notificar
previamente o devedor acerca da sua inscrição no aludido cadastro, tampouco
legitimidade passiva para as ações de reparação de danos fundadas na ausência de
prévia comunicação.
▪ Assim, o dever de notificação do emitente do cheque sem fundo, neste caso, será
do banco sacado, para seu respectivo correntista-consumidor.
CONTEÚDO DO ART. 43 (FLÁVIO TARTUCE)
• Do art. 43 da Lei 8.078/1990 podem ser extraídas três situações concretas relativas aos
dados dos consumidores:
a) A inscrição ou registro;
b) A retificação ou correção das informações;
c) O cancelamento da inscrição.
• Em todas as hipóteses citadas, diante dos princípios da transparência e da confiança, o
consumidor terá acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados
pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes
(art. 43, caput). Ademais, os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão (art. 43, § 1º).
INSCRIÇÃO OU REGISTRO DO NOME DOS CONSUMIDORES
• Enuncia o § 2º do art. 43 do CDC que a abertura de cadastro, ficha, registro e dados
pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não
solicitada por ele.
• A par desse comando, no que interessa aos cadastros negativos, os requisitos para a
negativação do nome do consumidor são:
a) Existência da dívida;
b) Vencimento da dívida;
c) A dívida há de ser liquida (certa quanto à existência, determinada quanto ao valor);
d) Não pode haver oposição por parte do consumidor em relação à dívida.
◦ Apesar da exposição do último elemento, a jurisprudência superior tem entendido que
a simples oposição pelo consumidor não é motivo para a não inscrição.
RETIFICAÇÃO OU CORREÇÃO DOS DADOS
• No que concerne à retificação ou reparo, estatui o § 3º do art. 43 que o consumidor,
sempre que encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros, poderá exigir sua imediata
correção.
◦ CDC, art. 43, § 3º - O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados
e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista, no prazo de
cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários das informações
incorretas.
• Em casos tais, deve o arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos
eventuais destinatários das informações incorretas, caso dos credores da dívida nas
hipóteses de negativação.
◦ O prazo é exíguo para evitar maiores danos aos direitos da personalidade do
consumidor.
◦ O Superior Tribunal de Justiça concluiu que esse prazo de cinco dias úteis deve ser
aplicado para o dever do credor de retirar o nome do devedor de cadastro negativo. O
prazo é contado da quitação, representando aplicação do princípio da boa-fé objetiva
na fase pós-contratual.
◦ STJ, Súmula 548 - Incumbe ao credor a exclusão do registro da dívida em nome do
devedor no
cadastro de inadimplentes no prazo de cinco dias úteis, a partir do integral e efetivo
pagamento do débito.
• Cabe aqui trazer algumas palavras a respeito da retirada do nome do devedor de cadastro
de inadimplentes em casos de ação proposta pelo consumidor-devedor, para revisão ou
discussão da dívida.
◦ A jurisprudência superior entendia que a mera contestação do consumidor-devedor,
por meio da propositura de demanda, já era motivo para a medida de retificação
temporária.
◦ Entretanto, houve uma lamentável reviravolta na jurisprudência superior. (…) as
exigências expostas passaram a compor a ferramenta jurisprudência em Teses, do
STJ, que em sua Edição n. 59 trata do Cadastro de Inadimplentes, como já exposto
(publicada em 2016). Conforme a sua premissa 12, “a abstenção da
inscrição/manutenção em cadastro de inadimplentes, requerida em antecipação de
tutela e/ou medida cautelar, somente será deferida se, cumulativamente:
a) a ação for fundada em questionamento integral ou parcial do débito;
b) houver demonstração de que a cobrança indevida se funda na aparência do bom
direito e em jurisprudência consolidada do STF ou STJ;
c) houver depósito da parcela incontroversa ou for prestada a caução fixada conforme
o prudente arbítrio do juiz”.
CANCELAMENTO DA INSCRIÇÃO
• Quanto ao cancelamento da inscrição no banco de dados ou cadastro, o § 1° do art. 43 do
CDC determina em sua parte final que não podem os cadastros conter informações
negativas referentes a período superior a cinco anos.
◦ Em outras palavras, após cinco anos da inscrição ocorrerá a sua caducidade, sendo o
referido prazo de natureza decadencial do direito potestativo de inscrição.
• STJ, Súmula 323 - A inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos serviços de
proteção ao crédito até o prazo máximo de cinco anos, independentemente da prescrição
da execução.
◦ CDC, art. 43, § 5º - Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do
consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito,
quaisquer informações que possam impedir ou dificultar novo acesso ao crédito junto
aos fornecedores.
◦ Desse modo, havendo prescrição do débito correspondente, o nome do devedor deve
ser retirado imediatamente do cadastro, sob as penas da lei. Se o prazo prescricional
do débito for maior do que os cinco anos, mesmo assim deve ocorrer o cancelamento,
pelo respeito ao teto temporal quinquenal estabelecido na norma consumerista em
prol dos vulneráveis negociais.
• Outra questão de relevo diz respeito ao início dessa contagem dos cinco anos. Conforme
aresto publicado no Informativo n. 588 do Superior Tribunal de Justiça:
◦ “O termo inicial do prazo de permanência de registro de nome de consumidor em
cadastro de proteção ao crédito (art. 43, § 1º, do CDC) inicia-se no dia subsequente
ao vencimento da obrigação não paga, independentemente da data da inscrição no
cadastro.” (REsp 1.316.117/SC).
• Deve ficar claro que, se o nome do devedor for mantido inscrito no cadastro após os
prazos analisados, configurado está o ilícito consumerista, a gerar a responsabilização civil
do órgão mantenedor por todos os prejuízos suportados pelo consumidor, sejam eles
materiais ou morais (manutenção indevida).
◦ A responsabilidade, como não poderia ser diferente, é objetiva ou independentemente
de culpa.
• No caso de pagamento da dívida ou acordo entre as partes, cabe ao credor tomar as
medidas para a retirada do nome do devedor de cadastro de inadimplentes, sob pena de
sua responsabilização civil.
◦ A hipótese representa clara aplicação da boa-fé objetiva na fase pós-contratual,
presente a violação positiva da obrigação, por quebra do dever anexo de colaboração,
caso o credor não tome as medidas cabíveis (responsabilidade post pactum finitum).
REPARAÇÃO DE DANOS NOS CASOS DE INSCRIÇÃO INDEVIDA
DO NOME DO DEVEDOR
• A inscrição do nome do devedor por parte do credor, quando a dívida efetivamente existe,
constitui exercício regular de direito, a afastar o ilícito civil (art. 188, inc. II, do
CC/2002). Daí decorre a correta
dedução de que, se a dívida inexiste e a inscrição é feita, presente está o exercício
irregular do direito de crédito.
• A configuração da hipótese como abuso de direito serve para reforçar a responsabilidade
objetiva ou sem culpa no caso de inscrição indevida, além da incidência de vários
preceitos do CDC.
◦ A propósito da natureza dessa responsabilização, na VI Jornada de Direito Civil
(2013), aprovou-se o Enunciado n. 553 do CJF/STJ, in verbis: “nas ações de
responsabilidade civil por cadastramento indevido nos registros de devedores
inadimplentes realizados por instituições financeiras, a responsabilidade civil é
objetiva”.
• Vale dizer que a inscrição indevida não está caracterizada somente nas hipóteses em que a
dívida inexiste ou é inválida, mas também quando não há a comunicação prévia por parte
do órgão que mantém o cadastro, em desrespeito à citada Súmula 359 do STJ.
◦ Há que se falar igualmente em manutenção indevida do nome em cadastro, quando a
dívida é paga ou quando expirado o prazo máximo de conservação do nome por cinco
anos.
• Em resumo, pode-se dizer que a inscrição indevida está presente sempre que não houver
um justo motivo ou fundamento como alicerce da atuação. Em todos os casos, como os
cadastros de consumidores lidam como o nome, direito da personalidade com proteção
fundamental, é correto entender que os danos imateriais presentes são presumidos ou in re
ipsa.
◦ A questão se consolidou de tal forma que passou a compor a ferramenta
Jurisprudência em Teses, do STJ. Conforme a premissa 1, publicada na sua Edição n.
59, que trata do Cadastro de Inadimplentes, “a inscrição indevida em cadastro de
inadimplentes configura dano moral in re ipsa”.
▪ A presunção é relativa, cabendo prova em contrário, por parte do fornecedor ou
prestador (inversão do ônus da prova automática).
▪ Porém, de acordo com a tese 19, publicada no mesmo canal e com importante
ressalva, não existindo a anotação irregular nos órgãos de proteção ao crédito, a
mera cobrança indevida de serviços ao consumidor não gera danos morais
presumidos ou in re ipsa.
▪ Em complemento, em 2019, a Terceira Turma da Corte Superior passou a
entender que configura dano moral in re ipsa a ausência de comunicação sobre a
disponibilização ou comercialização de informações pessoais em bancos de dados
do consumidor
◦ Pelo sistema de presunção existente, sempre causou grande estranheza a Súmula
385 daquela Corte Superior, segundo a qual “da anotação irregular em cadastro de
proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente
legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento”.
▪ A súmula está estabelecendo que, se a pessoa, física ou jurídica, já tiver uma
inscrição anterior, de valor devido, não caberá indenização imaterial pela
inscrição indevida, o que representa uma volta ao sistema de investigação da
presença do dano imaterial.
◦ Em relação aos danos materiais sofridos, devem eles ser provados, nos termos do art.
402 do CC/2002, salvo os casos em que há pedido de inversão do ônus da prova por
parte do consumidor, nos termos do art. 6º, inc. VIII, do CDC.
CADASTRO DE CONSUMIDORES
• Os cadastros de consumidores, que como já referimos, são espécies de arquivo de
consumo que se caracterizam pela coleta e utilização das informações de consumidores
pelo fornecedor, para seu próprio benefício ou de pessoas com ele associados em vista de
uma finalidade mercadológica, da conquista de novos consumidores, atendimento
personalizado ou específico para os atuais consumidores, a partir da formação de
identidade de informação com base nos dados coletados diretamente ou decorrentes de
outras bases de informações.
◦ As informações de que se compõem este cadastro podem ser fornecidas pelo próprio
consumidor, no interesse de celebrar uma determinada relação de consumo com o
fornecedor, ou mesmo resultarem de pesquisa do próprio proprietário do cadastro,
que pode criar novos cadastros ou enriquecê-lo de outras informações.
◦ A formação, coleta e gestão das informações dos cadastros de consumidores não são
feitas de modo aleatório, senão orientadas pela finalidade específica perseguida pelo
fornecedor (a formação de uma base de dados de consumidores com determinadas
características ou traços comuns).
▪ São dirigidos, deste modo, a formar perfis de consumidores, a partir dos quais
poderá ser identificada, em vista de uma análise, por vezes multidisciplinar, sua
aptidão por determinados produtos ou serviços.
• Os cadastros de consumidores estão em voga, atualmente, no que diz respeito à
segmentação das técnicas de marketing por parte de fornecedores, assim como pelo
surgimento de empresas especializadas em coleta e formação de perfis de consumidores
para atender a esta especialização do marketing.
◦ A grande questão diz respeito ao limite da utilização destes cadastros. Isto porque,
uma vez fornecido pelo consumidor determinados dados pessoais, estes poderão ser
acrescidos de
inúmeras outras informações, decorrentes de outras bases de dados.
◦ E pelo cruzamento das informações de diferentes bases de dados poderá o fornecedor
obter um perfil do consumidor, muito além do que este haveria desejado ou previsto,
ao fornecer de modo compartimentado as informações a diferentes fornecedores, em
ocasiões totalmente distintas uma das outras (é isto que leva muitas vezes ao
consumidor receber em seu domicílio, publicidade de produtos ou serviços de
fornecedores com quem nunca manteve contato, ou mesmo via telefone, receber
ofertas e propostas de operadores de telemarketing sem que tenha como perceber o
modo pelo qual foi selecionado para aquela campanha promocional).
▪ O exemplo mais ilustrativo é o do denominado marketing direto ou marketing
individualizado (distinguindo-se do marketing de massa), que se desenvolve a
partir do oferecimento direto pelo fornecedor (detentor do cadastro) ao
consumidor, de um determinado produto ou serviço, de acordo com um perfil
específico que o identifique com um segmento de adquirentes potenciais do
produto ou serviço (a identificação dos hábitos de consumo), ou mesmo sua
vinculação a outro serviço que facilita ou agiliza os meios de cobrança pelo
fornecedor (titular de um determinado cartão de crédito, cuja operadora mantém
relação jurídica subjacente com fornecedor-ofertante).
▪ Ao mesmo tempo, a popularização do uso de mensagens eletrônicas fez com que,
por intermédio da utilização de alguns recursos de informática, seja possível
identificar quantidades de endereços eletrônicos e mesmo o monitoramento de
utilização da internet, pela identificação dos sítios acessados pelos usuários da
rede.
• Isto implica, de um lado, a possibilidade de formação de perfis dos
consumidores usuários da internet, e a consequente disseminação de
mensagens eletrônicas selecionadas mediante critérios centrados em
informações sobre o comportamento do consumidor na rede mundial de
computadores.
• Tais práticas estariam de acordo com a proteção da privacidade de dados pessoais do
consumidor?
◦ A princípio, nota-se também neste caso que a autorização do consumidor para uso de
seus dados pessoais – realizada em geral, por intermédio de opções de preenchimento
automático – não exime desde logo o fornecedor que faz uso destes dados, de
responsabilidade.
◦ É necessário, em homenagem ao direito do consumidor à informação, esclarecê-lo de
modo claro e objetivo sobre a extensão do uso que deverá fazer destes dados.
◦ O adequado esclarecimento do consumidor sobre o uso das informações, no
momento da coleta das mesmas, parece ser requisito indispensável para que seu uso
futuro possa ser considerado regular. Neste sentido, parece incluirse no conceito de
“esclarecimento adequado” a necessária informação de que seus dados poderão ser
utilizados por terceiros, como se tornou rotina em nosso mercado de consumo.
◦ Existindo tais precauções, e não se tratando de informações sensíveis como raça,
orientação religiosa, política ou filosófica etc. (dados sensíveis, segundo definição
legal do art. 5º, II, da Lei 13.709/2018), admite-se a formação destes cadastros e sua
utilização, segundo as condições definidas agora pela Lei Geral de Proteção de Dados.
◦ Todavia, é assegurada ao consumidor a possibilidade de, a qualquer tempo, solicitar a
cessação de utilização da informação, o que poderá ser requerido tanto do fornecedor
que coletou as informações, quanto de todos os que dela se utilizam, por força da
responsabilidade solidária a que faz referência ao artigo 7º, parágrafo único do CDC,
assim como o direito básico do consumidor à prevenção de danos (artigo 6º, VI).
SUPERENDIVIDAMENTO
Infelizmente, não tem doutrina para essa parte porque os PDFs que tenho do Bruno Miragem e
Flávio Tartuce são de 2020 e janeiro de 2021. Teremos que nos contentar com as canetadas
da Dra. Blogueira, cujos incisos que ela ignorou estão sem quaisquer comentários, já os que ela
pelo menos leu, estão destacados ou comentados - Tia Erá.
• CDC, art. 6º - São direitos básicos do consumidor:
XI - a garantia de práticas de crédito responsável, de educação financeira e de prevenção e
tratamento de situações de superendividamento, preservado o mínimo existencial, nos
termos da regulamentação, por meio da revisão e da repactuação da dívida, entre outras
medidas;
• CDC, art. 54-A - Este Capítulo dispõe sobre a prevenção do superendividamento da pessoa natural,
sobre o crédito responsável e sobre a educação financeira do consumidor. (Incluído pela Lei nº
14.181, de 2021)
§ 1º Entende-se por superendividamento a impossibilidade manifesta de o consumidor pessoa
natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, sem
comprometer seu mínimo existencial, nos termos da regulamentação.
◦ O superendividamento vem como uma espécie de regime jurídico para as pessoas físicas com
dificuldade de pagar as suas contas a fim de se ter um tratamento mais igualitário se comparado
ao tratamento dado pelo ordenamento jurídico às pessoas jurídicas.
▪ Até 2021, todas as pessoas jurídicas poderiam ter o privilégio de, caso não tivessem sido
bem administradas/organizadas financeiramente, elas sempre tinham uma segunda chance
para poder se recuperar. Por outro lado, as pessoas físicas não possuíam essa segunda
chance.
▪ Por exemplo: A, que recebe R$1.000,00, foi ao Centro querendo comprar uma geladeira e,
no caminho, ela foi abordada por várias ofertas de crédito. Diante disso, A decidiu que iria
pegar um emprésitmo de R$500,00 e parcelar o valor em 3 vezes, de forma que conseguiu
comprar a geladeira. Contudo, além do valor que ela recebe mensalmente já estar
comprometido com outras coisas, como alimentação, escola, transporte, energia, de forma
que não seria possível pagar a parcela contraída do empréstimo, o valor do empréstimo, em
virtude dos juros, ficou em R$800,00, o que impossibilita ainda mais o pagamento da
parcela. Em razão do não pagamento da parcela, o valor desta fica ainda maior. Para
conseguir pagar esse empréstimo, A contrai outro empréstimo. Posteriormente, ocorre o
cadastro de A no Serasa/SPC e ela não consegue mais ter crédito, além do contexto todo
estar afetando seu mínimo existencial.
• Antigamente, os bancos processavam A e ela fazia acordo com eles, individualmente.
Por se tratar de acordos individuais, A não conseguia quitar sua dívida, pois os
requisitos de um acordo impossibilitavam o do outro (banco X exigia uma entrada que
já comprometia o valor a ser pago para o banco Y, por exemplo), virando mais uma vez
uma bola de neve para A pela ausência de uma solução sistemática, orgânica e conjunta
de todas as dívidas.
◦ O superendividamento começou como uma prática não legislada de reunir todos os credores de
um consumidor em uma mesa redonda a fim de se chegar a um acordo conjunto levando em
consideração o valor disponível que o consumidor possui dentro do seu salário, de forma a
garantir seu mínimo existencial, deixando-se, também, de cobrar os juros a fim da dívida não
aumentar mais.
▪ Sendo assim, divide-se o valor disponível entre os credores.
▪ Por exemplo: A pegou um empréstimo de R$300,00, não conseguiu pagar esse
empréstimo, depois pegou mais um novo empréstimo de R$600,00 para pagar o primeiro e
assim sucessivamente, acumulando os juros de cada empréstimo, de forma a comprometer
todo o seu salário. Nisso, A fica entre se alimentar e quitar suas dívidas. Nesse sentido,
reúne-se todos os credores de A, verifica-se que, por exemplo, A recebe um salário de
R$1.400,00 e a dívida é de R$10.000,00 e, a partir desse momento, como numa
recuperação judicial, os juros param de ser cobrados a fim da dívida não crescer mais e se
estabelece que 30% do salário de A será destinado para quitar sua dívida, devendo os
R$420,00 ser repartido entre todos os credores.
◦ Nesse sentido, a proteção do dispositivo em questão é exclusiva para pessoas naturais, não se
aplicando às pessoas jurídicas.
§ 2º As dívidas referidas no § 1º deste artigo englobam quaisquer compromissos financeiros
assumidos decorrentes de relação de consumo, inclusive operações de crédito, compras a prazo e
serviços de prestação continuada.
◦ O superendividamento não engloba somente os contratos bancários.
◦ Por exemplo: compra de um imóvel, computador a prazo.
◦ Por exemplo: plano de saúde, já que se trata de serviço de prestação continuada.
§ 3º O disposto neste Capítulo não se aplica ao consumidor cujas dívidas tenham sido contraídas
mediante fraude ou má-fé, sejam oriundas de contratos celebrados dolosamente com o propósito de
não realizar o pagamento ou decorram da aquisição ou contratação de produtos e serviços de luxo de
alto valor.
◦ A boa-fé é um requisito exigido para o superendividamento, isto é, esse dispositivo não é
direcionado para as pessoas que compram várias coisas de má-fé, sabendo que não serão
capazes de pagar.
• Posteriormente, a lei do superendividamento estabelece que, nessas negociações, deve ser garantido:
◦ O crédito responsável, tendo em vista que se o credor oferece crédito às pessoas, ele será o
responsável por isso. Ou seja, se o credor oferece, por exemplo, um crédito de R$6.000,00 para
uma pessoa que só recebe o salário mínimo, o credor será responsável;
◦ A educação financeira;
◦ Prevenção e tratamento de situações de superendividamento, preservado o mínimo existencial.
• O Decreto Presidencial 11.150/2022, ao regulamentar a lei, havia fixado o valor do mínimo
exiestencial em 25% do salário mínimo.
◦ Posteriormente, o Decreto Presidencial 11.567/2023 estipulou que o mínimo a ser protegido é
de R$600,00.
◦ A Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (Anadep) acionou o Supremo
Tribunal Federal (STF) contra o decreto presidencial que fixou em R$ 600,00 a quantia mínima
de renda a ser preservada para despesas básicas nas negociações de casos de
superendividamento.
▪ Buscou-se ampliar o mínimo existencial o máximo possível para evitar qualquer tipo de
problemas de subsistência, de dignidade básica.
◦ Há jurisprudências que estabelecem o mínimo existencial em até 30% do salário mínimo.
• CDC, art. 54-B - No fornecimento de crédito e na venda a prazo, além das informações obrigatórias
previstas no art. 52 deste Código e na legislação aplicável à matéria, o fornecedor ou o intermediário
deverá informar o consumidor, prévia e adequadamente, no momento da oferta, sobre: (Incluído
pela Lei nº 14.181, de 2021)
I - o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o compõem;
II - a taxa efetiva mensal de juros, bem como a taxa dos juros de mora e o total de encargos,
de qualquer natureza, previstos para o atraso no pagamento;
III - o montante das prestações e o prazo de validade da oferta, que deve ser, no mínimo, de 2 (dois)
dias;
IV - o nome e o endereço, inclusive o eletrônico, do fornecedor;
V - o direito do consumidor à liquidação antecipada e não onerosa do débito, nos termos do §
2º do art. 52 deste Código e da regulamentação em vigor.
◦ Todas as prestações continuadas dão direito à liquidação antecipada e não onerosa do débito,
inclusive com uma redução significativa dos juros.
§ 1º As informações referidas no art. 52 deste Código e no caput deste artigo devem constar de
forma clara e resumida do próprio contrato, da fatura ou de instrumento apartado, de fácil acesso ao
consumidor.
§ 2º Para efeitos deste Código, o custo efetivo total da operação de crédito ao consumidor consistirá
em taxa percentual anual e compreenderá todos os valores cobrados do consumidor, sem prejuízo do
cálculo padronizado pela autoridade reguladora do sistema financeiro.
§ 3º Sem prejuízo do disposto no art. 37 deste Código, a oferta de crédito ao consumidor e a oferta
de venda a prazo, ou a fatura mensal, conforme o caso, devem indicar, no mínimo, o custo efetivo
total, o agente financiador e a soma total a pagar, com e sem financiamento.
• CDC, art. 54-C - É vedado, expressa ou implicitamente, na oferta de crédito ao consumidor,
publicitária ou não: (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
I - (VETADO);
II - indicar que a operação de crédito poderá ser concluída sem consulta a serviços de
proteção ao crédito ou sem avaliação da situação financeira do consumidor;
◦ As ofertas que alegam que não consultam ao SPC/Serasa é proibido.
III - ocultar ou dificultar a compreensão sobre os ônus e os riscos da contratação do crédito ou da
venda a prazo;
IV - assediar ou pressionar o consumidor para contratar o fornecimento de produto, serviço
ou crédito, principalmente se se tratar de consumidor idoso, analfabeto, doente ou em estado de
vulnerabilidade agravada ou se a contratação envolver prêmio;
V - condicionar o atendimento de pretensões do consumidor ou o início de tratativas à renúncia ou à
desistência de demandas judiciais, ao pagamento de honorários advocatícios ou a depósitos judiciais.
ARTIGOS NÃO DADOS, MAS QUE FOI RECOMENDADA A LEITURA
• CDC, art. 54-D - Na oferta de crédito, previamente à contratação, o fornecedor ou o intermediário
deverá, entre outras condutas: (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
I - informar e esclarecer adequadamente o consumidor, considerada sua idade, sobre a natureza e a
modalidade do crédito oferecido, sobre todos os custos incidentes, observado o disposto nos arts. 52
e 54-B deste Código, e sobre as consequências genéricas e específicas do inadimplemento;
II - avaliar, de forma responsável, as condições de crédito do consumidor, mediante análise das
informações disponíveis em bancos de dados de proteção ao crédito, observado o disposto neste
Código e na legislação sobre proteção de dados;
III - informar a identidade do agente financiador e entregar ao consumidor, ao garante e a outros
coobrigados cópia do contrato de crédito.
Parágrafo único. O descumprimento de qualquer dos deveres previstos no caput deste artigo e nos
arts. 52 e 54-C deste Código poderá acarretar judicialmente a redução dos juros, dos encargos ou de
qualquer acréscimo ao principal e a dilação do prazo de pagamento previsto no contrato original,
conforme a gravidade da conduta do fornecedor e as possibilidades financeiras do consumidor, sem
prejuízo de outras sanções e de indenização por perdas e danos, patrimoniais e morais, ao
consumidor.
• CDC, art. 54-F - São conexos, coligados ou interdependentes, entre outros, o contrato principal de
fornecimento de produto ou serviço e os contratos acessórios de crédito que lhe garantam o
financiamento quando o fornecedor de crédito: (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
I - recorrer aos serviços do fornecedor de produto ou serviço para a preparação ou a conclusão do
contrato de crédito;
II - oferecer o crédito no local da atividade empresarial do fornecedor de produto ou serviço
financiado ou onde o contrato principal for celebrado.
§ 1º O exercício do direito de arrependimento nas hipóteses previstas neste Código, no contrato
principal ou no contrato de crédito, implica a resolução de pleno direito do contrato que lhe seja
conexo.
§ 2º Nos casos dos incisos I e II do caput deste artigo, se houver inexecução de qualquer das
obrigações e deveres do fornecedor de produto ou serviço, o consumidor poderá requerer a rescisão
do contrato não cumprido contra o fornecedor do crédito.
§ 3º O direito previsto no § 2º deste artigo caberá igualmente ao consumidor:
I - contra o portador de cheque pós-datado emitido para aquisição de produto ou serviço a prazo;
II - contra o administrador ou o emitente de cartão de crédito ou similar quando o cartão de crédito
ou similar e o produto ou serviço forem fornecidos pelo mesmo fornecedor ou por entidades
pertencentes a um mesmo grupo econômico.
§ 4º A invalidade ou a ineficácia do contrato principal implicará, de pleno direito, a do contrato de
crédito que lhe seja conexo, nos termos do caput deste artigo, ressalvado ao fornecedor do crédito o
direito de obter do fornecedor do produto ou serviço a devolução dos valores entregues, inclusive
relativamente a tributos.
• CDC, art. 54-G - Sem prejuízo do disposto no art. 39 deste Código e na legislação aplicável à
matéria, é vedado ao fornecedor de produto ou serviço que envolva crédito, entre outras
condutas: (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
I - realizar ou proceder à cobrança ou ao débito em conta de qualquer quantia que houver sido
contestada pelo consumidor em compra realizada com cartão de crédito ou similar, enquanto não
for adequadamente solucionada a controvérsia, desde que o consumidor haja notificado a
administradora do cartão com antecedência de pelo menos 10 (dez) dias contados da data de
vencimento da fatura, vedada a manutenção do valor na fatura seguinte e assegurado ao consumidor
o direito de deduzir do total da fatura o valor em disputa e efetuar o pagamento da parte não
contestada, podendo o emissor lançar como crédito em confiança o valor idêntico ao da transação
contestada que tenha sido cobrada, enquanto não encerrada a apuração da contestação;
II - recusar ou não entregar ao consumidor, ao garante e aos outros coobrigados cópia da minuta do
contrato principal de consumo ou do contrato de crédito, em papel ou outro suporte duradouro,
disponível e acessível, e, após a conclusão, cópia do contrato;
III - impedir ou dificultar, em caso de utilização fraudulenta do cartão de crédito ou similar, que o
consumidor peça e obtenha, quando aplicável, a anulação ou o imediato bloqueio do pagamento, ou
ainda a restituição dos valores indevidamente recebidos.
§ 1º Sem prejuízo do dever de informação e esclarecimento do consumidor e de entrega da minuta
do contrato, no empréstimo cuja liquidação seja feita mediante consignação em folha de pagamento,
a formalização e a entrega da cópia do contrato ou do instrumento de contratação ocorrerão após o
fornecedor do crédito obter da fonte pagadora a indicação sobre a existência de margem
consignável.
§ 2º Nos contratos de adesão, o fornecedor deve prestar ao consumidor, previamente, as
informações de que tratam o art. 52 e o caput do art. 54-B deste Código, além de outras porventura
determinadas na legislação em vigor, e fica obrigado a entregar ao consumidor cópia do contrato,
após a sua conclusão
OFERTA
• CDC, art. 30 - Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer
forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados,
obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser
celebrado.
• A proposta vincula o proponente. Contudo, no CDC, traz-se a ideia de oferta no lugar de proposta,
mas com a mesma consequência: vinculação da oferta de consumo.
◦ Assim, qualquer informação constante em qualquer material do fornecedor irá vinculá-lo, ainda
que não seja o contrato.
◦ Ainda que seja tão somente um folheto distribuído em um momento anterior à celebração e
assinatura do contrato, haverá a vinculação do fornecedor.
• CDC, art. 31 - A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades,
quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem
como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.
◦ A oferta deve informar sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores,
como nos brinquedos.
Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao
consumidor, serão gravadas de forma indelével.
FORMAÇÃO DO CONTRATO DE CONSUMO
• O modo típico de formação dos contratos é representado em nosso direito privado sob o
binômio proposta e aceitação. A presença dos dois elementos assinala o nascimento do
vínculo jurídico apto a produzir efeitos jurídicos.
• A proposta, também denominada policitação, é o ato pelo qual a parte manifesta sua
intenção de contratar, bem como os termos em que pretende fazê-lo, e solicita da outra
parte a respectiva manifestação sobre sua aceitação.
◦ Ensina Pontes de Miranda que “à oferta ou sucede a aceitação pura e simples, que
bilateraliza o negócio jurídico e vincula os figurantes, ou a recusa, ou a aceitação
modificativa que não é, propriamente aceitação, mas sim outra manifestação de
vontade, outra oferta, no lugar da recusa ou aceitação pura e simples, que se havia de
esperar”.
• A função da oferta, neste sentir, é dar a conhecer o conteúdo do que será o negócio
jurídico. Já no que se refere à aceitação, esta pode ser expressa ou tácita, sendo a primeira
quando se empregue palavras ou sinais que a exprimam, a segunda, pelo silêncio, mas
acompanhada de atos positivos ou negativos que não se componham de sinais
compreensíveis.
• Em geral, aliás, em face das condições gerais estabelecidas em muitos contratos de
consumo, o comportamento concludente, a caracterizar a aceitação do consumidor,
poderá se dar apenas pela utilização do produto ou serviço, o apertar de um botão ou
acionar um dispositivo, ou como no caso dos contratos via internet, pelo simples ato de
clicar em determinada alternativa em um determinado sítio eletrônico.
◦ Assim por exemplo, quem embarque em um ônibus esperando que este lhe deixe em
alguma estação do trajeto pré-estabelecido, ou quem adquira um cupom na bilheteria
de um cinema.
▪ Sem a necessidade de maiores debates ou conformações do conteúdo do contrato
pelos contratantes em ambos os casos, o fato é que se entende nas condutas
empregadas a intenção de realizar, no primeiro caso, um contrato de transporte,
assim como no segundo, a audiência de um filme.
• Em face da nova realidade contratual, na qual os contratos de consumo se estabelecem
sob a forma de contratos de adesão, muitas vezes após intensa atividade publicitária a
exigir a regulação do fenômeno a partir da preocupação de proteção dos potenciais
aceitantes, demonstra a insuficiência da visão tradicional de direito civil sobre os
contornos da oferta e da aceitação, sobretudo no que diz respeito a seus efeitos
vinculativos do ofertante.
◦ A oferta de consumo assim surge não apenas como espécie de convite a contratar
(invitatio ad offerendum), hipótese que reconhece amplas possibilidades de sua
revogação, mas com caráter vinculativo, em vista da proteção do consumidor a quem
se dirige.
A OFERTA DE CONSUMO E SUA EFICÁCIA
VINCULANTE
• O Código Civil brasileiro apresenta distinção entre a oferta e a proposta, embora
doutrinariamente muitos autores identifiquem ambos os conceitos.
◦ A expressão oferta, deste modo, é reservada apenas à situação de oferta ao público,
regulada pelo artigo 429, nos seguintes termos:
▪ CC, art. 429 - A oferta ao público equivale a proposta quando encerra os
requisitos essenciais ao contrato, salvo se o contrário resultar das circunstâncias
ou dos usos.
Parágrafo único. Pode revogar-se a oferta pela mesma via de sua divulgação,
desde que ressalvada esta faculdade na oferta realizada.
◦ A oferta ao público apenas obriga quando encerra os requisitos essenciais do contrato.
Esta exigência, embora obedeça à lógica contratual do direito civil tradicional,
naturalmente que não parece adequada à realidade dos contratos de massa, assim
como ao fenômeno da publicidade e sua linguagem muitas vezes fluída, de duplo
sentido, sem a precisão e caráter determinável inerentes à noção de proposta
contratual formal e determinada.
• Considerando o modo como se processam as contratações no mercado de consumo, assim
como a multiplicidade de meios e a velocidade com que se estabelecem e divulgam as
informações relativas a tais contratos, o legislador do CDC optou por indicar à oferta
efeito vinculante, caracterizando-a como toda e qualquer informação suficientemente
precisa divulgada pelo Fornecedor.
◦ CDC, art. 30 - Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada
por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços
oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar
e integra o contrato que vier a ser celebrado.
• Não há de se considerar, portanto, tendo a oferta ou informação qualidades que
despertem a confiança do consumidor, a possibilidade do fornecedor alegar erro ou
equívoco na sua Formulação.
◦ Não há relevância do elemento volitivo, razão pela qual descabe fazer referência a
qualquer espécie de defeito da vontade do fornecedor (erro de objeto, por exemplo)
como óbice ao seu caráter vinculativo.
◦ Naturalmente que ao se referir o fato da oferta ser apta a despertar a confiança do
consumidor, ficam excluídas desta hipótese as ofertas manifestamente incorretas,
com erros crassos e evidentes ao observador razoável.
◦ Restrições à oferta, deste modo, para serem consideradas válidas, devem ter igual
condição de serem percebidas e compreendidas pelo consumidor.
• É de se notar, portanto, que ao regular a oferta de consumo, o artigo 30 do CDC
reconhece duas situações, de diferentes naturezas, mas para as quais se determina o
mesmo efeito vinculativo do fornecedor.
◦ Na previsão normativa em questão, está abrangida tanto a oferta de consumo
propriamente dita, quanto a publicidade, que poderá ou não ser integrada por uma
oferta de consumo.
▪ No primeiro caso, em geral se reconhece como negócio jurídico unilateral (uma
vez que pertence à decisão do fornecedor determinar seu conteúdo).
• Negócio jurídico unilateral é caracterizado pela manifestação de vontade de
apenas uma parte para a criação, modificação, transferência ou extinção de
direitos e deveres - Tia Erá.
◦ Com relação à segunda, contudo, é espécie de ato-fato jurídico, ou melhor, de contato
social (relação meramente de fato, que por si só determina a existência de uma
relação de consumo).