O sol mal nascia quando Valentina acordou sobressaltada.
Dormira no sofá, com o casaco
ainda grudado ao corpo e os olhos pesados. Sonhou com gritos, tiros e sangue. Mas o
pior... era que agora aquilo já não parecia tão distante da realidade.
Foi até o banheiro. O espelho revelou uma mulher diferente. Os olhos estavam fundos, as
olheiras pesadas, e havia um brilho estranho ali — algo entre o medo e a adrenalina.
Quando voltou para a sala, encontrou uma bandeja sobre a bancada: café, torradas, frutas.
Tudo impecavelmente arrumado. O bilhete dizia:
“Se vai continuar viva, precisa comer. – D”
Ela rolou os olhos, mas comeu. Com fome e orgulho ferido.
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À tarde, a porta se abriu novamente. Era o mesmo segurança da noite anterior, agora de
terno cinza.
— O chefe mandou você descer. Agora.
— E se eu não quiser?
Ele apenas apontou para a arma no coldre.
Valentina engoliu em seco e seguiu.
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Dante a esperava em um tipo de sala de treinamento. Havia uma mesa no centro, dois
homens armados ao fundo, e uma parede com fotos, mapas e documentos espalhados. Ela
hesitou na entrada. Ele nem olhou para ela.
— Sente-se.
Ela obedeceu. Ainda que cada parte do corpo gritasse para sair correndo.
— Está aqui porque decidiu se envolver num jogo que não entende — ele começou,
friamente. — Mas já que trouxe informações valiosas, vou te ensinar a não morrer... pelo
menos, não rápido demais.
— Isso é um curso de sobrevivência ou uma tortura disfarçada?
Dante largou um dossiê na frente dela.
— Isso é um treinamento. Um favor. E um aviso.
Ela abriu o arquivo. Reconheceu rostos. Gente poderosa. Políticos, empresários, criminosos
com aparência elegante.
E, entre eles, uma foto do próprio pai dela.
O mundo de Valentina desabou num instante.
— Isso... isso é uma piada, né?
— Seu pai não morreu em um acidente. Ele foi executado. Por traição. E pelo visto... você
herdou o mesmo talento.
Ela ficou em silêncio. O ar parecia pesado. Quente. Sufocante.
— Por que está me mostrando isso?
Dante se aproximou, encostando as mãos nos braços da cadeira dela, o rosto a centímetros
do dela.
— Porque agora você faz parte disso, gostando ou não. E quero saber se vai ser uma
arma... ou uma ameaça.
Ela o encarou com raiva. Com medo. Com algo novo que crescia entre eles.
— Eu não sou um joguete, Dante.
— Não. — Ele sorriu. — Mas ainda é uma peça. E toda peça tem seu preço.
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Naquela noite, ela voltou ao apartamento com a mente em guerra. Sabia demais. Sentia
demais. E no meio de tudo isso, estava ele.
O homem que podia matá-la... ou salvá-la.
E ela, no fundo, não sabia o que queria mais.
Jogou o dossiê sobre a mesa e foi direto para o banheiro. Lavou o rosto, prendeu o cabelo
em um coque desajeitado e encarou o espelho como se fosse outra pessoa ali. E talvez
fosse.
A Valentina ingênua morrera no instante em que pisou naquele galpão. A que restava
agora... era alguém disposta a sobreviver.
Quando saiu do banheiro, deu de cara com Dante parado na sala, encostado na parede
como uma sombra viva.
Ela deu um passo para trás, surpresa.
— Como entrou?
Ele ergueu as chaves.
— Eu tenho a chave de tudo aqui. Inclusive de você.
— Você não deveria invadir meu espaço.
— E você não deveria invadir o meu mundo. Estamos quites.
Valentina bufou e passou por ele com o ombro erguido. Sentou-se no sofá e cruzou as
pernas, tentando esconder o nervosismo.
— Veio me vigiar de perto agora?
— Vim te observar. Tem diferença. — Ele se aproximou, devagar. — Preciso entender se
você é tão útil quanto parece... ou só mais uma distração.
— Uma distração perigosa — ela respondeu, com um meio sorriso provocador.
Dante parou à frente dela. A tensão entre os dois era como um fio de alta tensão prestes a
estourar.
Ele se inclinou.
— Você me provoca... como se não tivesse ideia de quem eu sou.
— Eu sei exatamente quem você é. Um homem que precisa controlar tudo porque tem
medo de perder algo.
Ele piscou, uma única vez. Depois, sorriu com um quê de respeito — ou desafio.
— Esperta. Mas cuidado com o que diz.
— Cuidado você — ela rebateu. — Eu posso ser útil, sim. Mas não vou rastejar.
Dante se afastou, finalmente, e pegou uma pequena caixa sobre o balcão. Jogou no colo
dela.
— O que é isso?
— Seu novo celular. E um número seguro. A partir de agora, vai se comunicar só por ele.
Ninguém pode saber onde você está. E nem que está viva.
Ela olhou para o aparelho.
— Quer me apagar do mapa?
— Quero te manter viva. E isso começa com desaparecer do radar. Amanhã cedo, você terá
uma nova identidade. E uma escolha a fazer.
— Que tipo de escolha?
— Ou você joga do meu lado... ou eu mesmo entrego sua cabeça para os homens que
estão caçando você. Acredite, eles fariam você implorar pela morte.
Valentina apertou o celular nas mãos. Estava sem ar. Perdida. Mas algo dentro dela
queimava com intensidade.
Não era medo. Era desafio.
— Amanhã, então — ela disse. — Traga sua melhor proposta.
Dante assentiu, já caminhando até a porta.
— E você... traga sua melhor versão. Porque essa fraqueza nos olhos? Não combina com
você.
Ele saiu.
Ela ficou.
E pela primeira vez... não sabia se era prisioneira dele.
Ou dele... dentro dela.