Prólogo I:
A ruína de Galbren
Conta-se uma história sombria sobre um homem que,
embora destemido em seu dever, veria sua própria alma
consumida pelo fogo que conjurou: Galbren, um feiticeiro de
renome e honra. Movido por uma lealdade implacável, ele
dedicara anos a proteger o reino, a cortar a teia da
criminalidade que se enovelava pelas terras. Não era um
mero servo da magia, mas um dos conjuradores mais
habilidosos de toda a Valdoria, com um compromisso
ferrenho com a coroa. Ele integrava a Guarda Real, sendo
parte de uma elite formada para caçar e exterminar aqueles
que ameaçassem o frágil equilíbrio entre a ordem e o caos.
No entanto, as virtudes que carregava em seu coração
foram, certa vez, confrontadas por uma terrível fatalidade,
forjada pela própria magia que ele dominava.
Começa numa manhã fria e enevoada, quando Galbren e
seus colegas da Guarda receberam notícias sobre um vilão
chamado Eldred, líder de uma rede criminosa que desafiava
o próprio trono. Por meses, Eldred havia se escondido nas
florestas de Sombramata, movendo-se de vilarejo em
vilarejo, sem jamais deixar rastros evidentes. "É como caçar
o vento," murmurara certa vez um dos cavaleiros,
exasperado com a falta de progresso. A frustração era
generalizada, mas não para Galbren. Ele, movido por seu
senso de justiça, continuava incansável.
Em uma noite fria na taverna, enquanto discutiam a rota do
vilão e suas possíveis paradas, um jovem cavaleiro se
dirigiu a Galbren, ansioso por entender a intensidade que
brilhava nos olhos do feiticeiro.
— Galbren, por que persistes tanto — indagou Roderic, um
dos mais novos na Guarda, com um misto de admiração e
dúvida. — Quando muitos já perderam a esperança de
capturar Eldred? Ele já demonstrou seu talento para
mesclar-se às sombras. É como se a ele fosse natural, como
sentir vontade de mijar. O rei jamais te culparia por desistir.
Tu já fizeste muito.
Galbren suspirou, permitindo que as palavras que lhe
pesavam na alma encontrassem caminho.
— A magia que possuo não é só um dom, Roderic. É uma
dívida — respondeu ele, olhando para o horizonte como se
pudesse ver além da escuridão. — E essa dívida, eu não devo
apenas ao rei, mas ao povo de Valdoria. Cada feitiço lançado,
cada energia evocada, me compromete mais e mais com a
proteção desta terra. Eldred é uma perna gangrenada que
precisa ser extirpada, não apenas para impedir que
contamine todo o corpo, mas para honrar os inocentes que
ele prejudicou. Meu lugar é aqui, na linha de frente.
As palavras de Galbren reverberaram entre os homens da
Guarda, renovando-lhes a determinação. Por semanas, eles
seguiram os rastros efêmeros do criminoso, enfrentando
chuvas torrenciais e a densa neblina das florestas. Por
vezes, encontravam somente vestígios: fogueiras apagadas
e marcas no solo, restos de provisões deixados às pressas.
Tudo indicava que estavam sempre um passo atrás. Mas
Galbren era hábil em interpretar não apenas o terreno, mas
as energias arcanas que permeavam Valdoria. Por meio de
pequenos encantamentos, ele conseguia vislumbrar pistas
sutis – o eco de passos esquecidos, as sombras de
intenções passadas. Assim, a cada noite, se aproximavam
mais do rastro de Eldred.
Após meses de busca, numa noite silenciosa, Galbren
deparou-se com uma intuição poderosa. Sentado ao lado da
fogueira, ele sentiu o ar denso e o peso da magia que o
rodeava. "É aqui," sussurrou ele para si, com um arrepio. Ao
dia seguinte, sob um céu cinzento, guiou seus
companheiros em direção à clareira escondida.
Por fim, entre os troncos das árvores ancestrais de
Sombramata, eles avistaram o refúgio. Era um conjunto de
chalés simples, toscamente construídos, ocultos pelo
emaranhado da floresta. O grupo se esgueirou até uma
encosta de onde podiam observar o local.
— Ali, homens — disse Galbren, com o olhar fixo. — Temos o
refúgio. São chalés modestos, mas não se enganem. Este
local é um ninho de víboras, e Eldred é o mais perigoso entre
eles.
Os cavaleiros acenaram em compreensão, com as mãos
firmes nas bainhas de suas espadas. A Guarda estava
preparada para uma batalha, mas Galbren, percebendo a
grande movimentação pela clareira, sabia que precisaria
recorrer à magia para garantir o êxito da missão. Ele sentiu
o peso da responsabilidade sobre os ombros, como uma
sombra gelada.
— Galbren, qual será o plano? — questionou um dos
cavaleiros, aproximando-se, cauteloso. O feiticeiro olhou ao
redor, e então, com decisão, sacou o pergaminho de fogo,
símbolo da última carta, a magia proibida que apenas os
conjuradores da Guarda tinham permissão de utilizar nos
limites da cidade. Em silêncio solene, Galbren desenrolou o
pergaminho ao redor do braço. Cada palavra arcana, cada
runa e símbolo nele gravado pulsavam contra sua pele,
como se o papel estivesse vivo, ecoando uma energia
primitiva e furiosa. Galbren fechou os olhos, inspirando
profundamente enquanto seus lábios entoavam o
encantamento.
— Naethra Val’kor Ignis’ael… Naethra Val’kor Ignis’ael... — as
palavras flutuaram, quase inaudíveis, no ar frio.
Uma esfera de fogo irrompeu de seu braço, girando e
crescendo, ganhando a forma de uma esfera flamejante.
Com um movimento firme, ele a lançou em direção à
clareira. O cometa de chamas desceu sobre os chalés com
um rugido ensurdecedor, como se os próprios céus
tivessem aberto sua ira. O fogo se espalhou, devorando as
construções em uma fração de segundos. O estrondo era
tamanho que as árvores ao redor tremiam, as folhas secas
do chão se levantavam em rodopios de cinza, e o ar se
preenchia com o cheiro acre de madeira e carne queimadas.
Mas então, quando o eco do feitiço começou a ceder e os
lamentos do incêndio abafaram, os olhos de Galbren
captaram formas pequenas entre as chamas e os
escombros. Uma mão minúscula, não a de um halfling ou
anão… tombada, ainda segurava um brinquedo; ao lado,
abraçada a ela, uma silhueta feminina, que mesmo sem
pele ou rosto reconhecível, expressava o desespero dos
últimos segundos.
— Pelos deuses... não, o que foi que eu fiz? — Galbren
murmurou, sua voz trêmula, enquanto seus olhos
perdiam-se entre os corpos. Um de seus companheiros de
guarda aproximou-se, visivelmente horrorizado.
— Galbren… — começou o cavaleiro, mas sua voz falhou. O
feiticeiro parecia petrificado, seus olhos ainda focados nos
corpos carbonizados, incapaz de acreditar na extensão da
destruição que causara.
O choque de Galbren era absoluto. Os gritos dos inocentes
ainda ressoavam em sua mente, ecoando no vazio onde sua
determinação outrora estivera.
Na manhã que se seguiu, Galbren apresentou-se ao
comandante da Guarda. Suas roupas chamuscadas e os
olhos pesados o denunciavam. Sem hesitar, ele retirou o
manto que simbolizava seu posto e o depositou aos pés do
comandante.
— Eu, Galbren de Valdoria, renuncio ao meu posto, pois não
posso servir ao reino com as mesmas mãos que destruíram
vidas inocentes. Este é o preço pelo qual me responsabilizo.
Sem nada mais a dizer, ele virou-se e desapareceu nas
sombras do reino. Dizem que desde aquele dia, o feiticeiro
nunca mais conjurou uma magia sem ver, no eco das
chamas, os rostos daqueles que ceifara sem saber. E, nas
noites em que a floresta silenciava, seu lamento, envolto
pelo vento, ainda podia ser ouvido, sussurrando sobre o
destino daqueles que ousam trilhar o caminho do poder
sem medir o peso das sombras que ele projeta.
Prólogo II:
Althar, o Desarmado
Na velha taverna Portas Partidas, sempre há quem busque a
lâmina em vez do copo, mas naquela noite em Valdoria, as
tábuas rangentes do chão seriam palco de um confronto
inusitado. As cadeiras e mesas espreitavam a cena, e a luz
bruxuleante das tochas mal revelava o clima de contenda.
Uma montanha de músculos e fúria, de barba mal cuidada e
olhos tão estreitos quanto seu campo de visão, empunhava
um imponente machado de lâmina dupla, a serra do aço
mal polido reluzindo ameaçadoramente sob o fogo.
Encarava seu oponente um homem de semblante tranquilo,
de braços cruzados e uma expressão despreocupada —
talvez até levemente entediada — como se já soubesse de
antemão o desfecho daquilo.
— Mais uma vez, ratinho — rosnou com um hálito inebriado
o gigante, girando o machado com a habilidade de um
lenhador faminto por cortar carne — Você vai pedir
desculpas ou não?
O esguio rapaz suspirou, observando-o como quem admira
a peça de um teatro ruim.
— Vou dizer mais uma vez, seu cintura de sequoia. Foi sem
querer que eu esbarrei em sua cerveja. Quem sabe você
toma outro copo e desconta sua raiva no barril, em vez de
mim?
— Acha que pode me fazer de bobo e continuar por aí,
derramando a bebida de um homem de bem? Isso não vai
ficar assim, ratinho! Pode fugir!
— Fugir? De você? — Althar levantou as sobrancelhas,
divertido. — Ora, me diga, o machado é para compensar
alguma outra... carência?
O rosto do brutamontes contorceu-se em fúria. Ele deu um
passo à frente, os músculos das veias do pescoço saltando
enquanto seu peito inflava de ódio.
— Como ousa falar assim comigo, desarmado? Um
camundongo sem garras que se atreve a zombar de um
urso!
E então rosnou, girando o machado até posicioná-lo
ameaçadoramente acima de sua cabeça.
Althar sorriu e, de maneira quase indolente, ergueu uma
mão na direção do oponente, como se o estivesse
silenciando.
— Veja bem, eu não sou o tipo de homem que luta... mas sou
adepto de uma escola de pacifismo muito peculiar.
Franzindo o cenho, sem entender, o homem armado baixou
o machado alguns centímetros.
— Pacifismo? Bah! Isso é uma desculpa de covarde!
Foi tudo muito rápido.
Althar se inclinou ligeiramente para frente, e quando o
machado era levantado em resposta, um braço delicado
serpenteou até o punho da arma com a agilidade de uma
víbora. Ele deslizou seus dedos em volta do cabo,
pressionando os tendões do oponente com precisão
cirúrgica.
Um segundo depois, o machado escapava das pesadas
mãos, girando no ar antes de pousar, como se por encanto,
nas mãos de Althar. A plateia da taverna engasgou em
surpresa, e uma figura gigantesca e estupefata tropeçou
para trás, com o olhar boquiaberto, os dedos ainda presos
em um gesto vazio de quem tentava segurar algo que já não
existia.
— Requer muita prática, — comentou Althar, com uma
expressão estudada de falsa modéstia. — Mas veja bem,
agora o machado está em mãos melhores.
— Devolva isso, seu ladrão! — Fez um grito, já quase
perdendo a compostura. Ele tentou avançar, mas Althar o
impediu com um gesto leve da lâmina.
— Ah, não tão rápido, meu grande, — disse Althar, com uma
voz tranquila. — Eu não costumo brigar, lembra-se? Sou um
pacifista, afinal.
Entre a raiva e choque, o homem gaguejou, sem saber se
devia avançar ou recuar. Althar inclinou o machado em sua
direção, seus olhos brilhando com um sarcasmo afiado.
A multidão ao redor, que a princípio se mantinha silenciosa,
começou a sussurrar, abafando risadas enquanto o urso
bêbado recuava, seu rosto tornando-se um rubro furioso e
envergonhado. Quando ele saiu, Althar estalou os dedos,
sorrindo para os espectadores que ainda tentavam conter o
riso.
— Bem, meus amigos, eu os libero agora para celebrarem a
paz, — disse, com um sorriso despreocupado, antes de se
virar para o balcão e pedir outra bebida.
Aquela noite seria lembrada como o dia em que a taverna
viu nascer uma lenda — a lenda de Althar, o Mestre do
Pacifismo Forçado.
Prólogo III:
Norahlin, uma ameça inocente
Não era à toa que o lugar se chamava Mata
Escarlate. Quando o fim do dia chegava, a tênue luz do sol
lançava uma luz avermelhada e essa floresta de Valdoria,
onde passos leves esmagavam a relva úmida.
Uma garotinha andava sozinha, uma mochila nas
costas que parecia grande demais para sua pequena
estatura. Seus passos eram delicados, e seus olhos
refletiam uma tranquilidade incomum para alguém tão
jovem e tão só em meio às sombras da mata.
Mas ela não estava realmente só. Três figuras
surgiram de trás das árvores, sorrateiras e predadoras. Três
homens de aparência rude, olhos famintos e mãos que já se
fechavam como garras ao vê-la.
— Olha só o que temos aqui, menininha, — um deles
disse, com um sorriso de dentes tortos. — Andando sozinha
por essa mata perigosa… não acha que tá um pouco
perdida?
Ela parou, virando-se lentamente. Os olhos da
garotinha eram calmos, inocentes, mas seu silêncio
incomodou o primeiro dos homens, que avançou mais um
passo, sorrindo com crueldade.
— Ei, criança, estamos falando com você! — Outro
criminoso rosnou, sacando uma faca enferrujada.
A garotinha finalmente abriu a boca, sua voz doce e baixa:
— Agradeço por vocês terem me seguido.
Os homens trocaram olhares e riram, enquanto o
terceiro deles, alto e magro, se aproximou com passos
ameaçadores.
— Ora, mas o que você vai fazer contra nós,
garotinha? Acho que vamos levar o que tiver nessa mochila,
hein?
Ele esticou a mão para puxá-la. Foi então que a
garotinha ergueu a mochila um pouco, como se ela pesasse.
Os homens riram novamente, mas foram silenciados de
imediato. Um ruído metálico agudo e perturbador cortou o
ar. De dentro da mochila, surgiu uma lâmina grotesca, larga
e pesada, semelhante a um enorme cutelo. Ela parecia
pulsar, e uma aura escura rodeava a arma como uma névoa.
— Mas… o que… o que é isso? — Gaguejou o primeiro homem,
recuando um passo com olhos arregalados.
Com um leve suspiro, a garota disse apenas:
— Sim, eles me ameaçaram. Sim, eles são todos seus.
Ficou comprovado em definitivo que Norahlin não
estava realmente só.
A lâmina saiu da mochila como um relâmpago,
lançando-se ao ar e avançando sobre os homens como um
predador faminto. O primeiro deles gritou, mas o grito foi
interrompido por um corte profundo em sua garganta, e o
sangue jorrou em um arco grotesco. A lâmina moveu-se
quase como se estivesse viva, atacando com uma precisão
cruel, cortando membros, rasgando carne e abrindo
caminhos de sangue que pintaram ainda mais a floresta de
vermelho.
— O-O que… Que tipo de demônio é esse? — O segundo
criminoso conseguiu balbuciar antes de ter o peito
perfurado pela lâmina que o atravessou como uma lança.
Pela falta do limite de um corpo humano para
empunhá-la, a lâmina parecia dançar pelo ar, impiedosa,
com uma brutalidade que nem mesmo o mais feroz dos
guerreiros poderia ter dominado. O último homem,
tremendo e incapaz de se mover, caiu de joelhos, as mãos
levantadas em desespero.
— Por favor… misericórdia! Eu... Eu não sabia… me perdoe,
pequena…!
A garotinha o observou com uma expressão serena.
Seus olhos inocentes estavam distantes, como se a
brutalidade que testemunhara não tivesse sido algo fora do
comum.
— Ele não gosta de deixar o trabalho pela metade, — ela
respondeu, com uma doçura assustadora.
A lâmina zuniu pelo ar uma última vez, encerrando a
súplica desesperada do homem com um golpe mortal.
Quando o silêncio finalmente caiu sobre a Mata
Escarlate, a lâmina flutuou levemente no ar, coberta de
sangue. A garotinha observou enquanto a arma sugava, gota
a gota, todo o líquido vital que havia nela, até que o metal
brilhasse de novo como se nunca tivesse sido manchado.
Ela abriu a mochila calmamente, e a lâmina
retornou ao seu interior com um leve zumbido, como se
uma parte de seu poder tivesse adormecido novamente. A
garotinha fechou a mochila, colocou-a de volta nas costas e
deu um leve sorriso.
— “Obrigada, Papai” — sussurrou ela, como quem
agradece a um protetor invisível.
E então, sem pressa e com a mesma tranquilidade
com que caminhava antes, a garotinha seguiu seu caminho,
deixando para trás sua contribuição à vermelhidão da
floresta.
Prólogo IV:
O Fardo de Hakar
Nas ruelas escuras do distrito de Durnfel, onde as sombras
se entrelaçam com os sons vibrantes da cidade, vivia Hakar,
um jovem elfo de olhos prateados e passos tão leves quanto
o vento da madrugada. Seu sustento vinha de truques,
carteiradas e pequenos furtos — arte que aprendera desde
cedo entre as tavernas imundas e os becos esquecidos da
cidade.
Sua infância fora um mosaico de necessidade e astúcia.
Órfão de mãe, abandonado pelo pai desconhecido, Hakar
sobrevivera de esmolas e pequenos delitos até cruzar o
caminho de Maelor Vethran, um ladino veterano, temido
tanto pelas lâminas ocultas em suas mangas quanto pelo
intelecto afiado. Maelor enxergou no garoto de olhos
prateados não apenas um ladrãozinho qualquer, mas uma
promessa. Sob sua tutela, Hakar aprendeu a ler os
movimentos das pessoas, a prever suas intenções, a
manipular palavras como quem maneja punhais.
— “As sombras não são um esconderijo, garoto. São uma
extensão do teu corpo. Aprende a caminhar nelas, e o
mundo nunca saberá que você esteve ali”, dizia Maelor nas
noites de treino.
Com o tempo, Hakar ganhou renome entre os marginais e
acabou recrutado para a Guilda dos Sombravale, um bando
de ladrões astutos e sobreviventes natos, cuja honra era
medida apenas pela lealdade interna. Ali encontrou, além de
um propósito, sua primeira família verdadeira. Embora
fosse hábil com as adagas de arremesso, suas armas de
predileção sempre foram o sorriso torto e a língua afiada —
dons que o tornavam um excelente manipulador de
situações.
Entre todos da guilda, foi com Kaelen que Hakar construiu
laços inquebráveis. Ambos partilhavam noites de riso após
golpes bem-sucedidos, e inúmeras vezes um salvou a pele
do outro em fugas arriscadas. Kaelen, mais impetuoso,
dependia da calma analítica de Hakar, assim como Hakar
dependia da coragem quase imprudente do amigo.
No entanto, certa noite, enquanto o luar dourava os telhados
de Durnfel, Hakar foi surpreendido por rumores abafados
que corriam entre becos e vielas da guilda:
“Levaram Kaelen...”, murmurava um aprendiz, pálido.
“Acusaram-no de matar um mercador rico. Mas foi armação,
eu sei!”, choramingou outro.
Hakar sentiu o mundo afundar sob seus pés. Kaelen, seu
amigo mais próximo, agora apodrecia nas masmorras da
Guarda Real, acusado de um crime que não cometera. No
jogo da sobrevivência, Hakar já vira muitos serem
sacrificados injustamente... mas não Kaelen. Não o seu
irmão da noite, aquele que tantas vezes lhe estendera a
mão.
Movido pela convicção quase instintiva e a lealdade que
sempre o guiara, Hakar mergulhou em uma investigação
silenciosa. Descobriu rapidamente que o crime havia
beneficiado o magistrado Arven Torhail, homem cuja
fortuna crescia à sombra de chantagens e manipulações.
Documentos falsos e testemunhas compradas pintaram
Kaelen como culpado. Com cada pista que confirmava a
farsa, a determinação de Hakar aumentava. Se libertar o
amigo significava afrontar o poder de um magistrado,
assim seria.
Hakar passou três dias estudando os movimentos da
guarda que vigiava a mansão de Torhail. Desenhava mapas
em pedaços de pergaminho roubados, anotava as trocas de
turno, marcava os pontos cegos entre tochas. Escondeu
suas adagas em botas, frascos de veneno em cintos, e
manteve consigo o amuleto de ferro negro que Kaelen lhe
dera em uma noite de bebedeira — símbolo de amizade e
promessa de que um sempre protegeria o outro. Na noite
escolhida, a cidade dormia sob uma lua encoberta por
nuvens pesadas. As ruas de Durnfel estavam mergulhadas
em silêncio, e Hakar se movia como sombra entre sombras.
A entrada pela muralha lateral da mansão foi rápida, mas
dentro, três guardas protegiam o corredor que levava à sala
onde documentos importantes eram armazenados. Hakar
não tinha a opção de recuar.
Com passos calculados, deslizou pelo escuro e atirou uma
pedrinha contra uma viga distante.
“O que foi isso?”, murmurou um dos soldados, distraindo-se
por segundos preciosos.
Hakar aproveitou. O primeiro caiu com a garganta cortada
antes de emitir som. O segundo, surpreendido, ergueu a
espada, mas Hakar arremessou uma adaga que cravou em
seu ombro, derrubando-o em dor. O terceiro avançou em
fúria, golpeando cegamente, e o elfo o desarmou com um
giro rápido, usando o corpo do oponente ferido como escudo
vivo. O sangue respingou nas paredes, mas a mansão
permaneceu em silêncio — exceto pelo coração acelerado de
Hakar.
Enfim, diante da porta reforçada da sala, Hakar arrombou a
fechadura com as ferramentas que Maelor lhe ensinara a
usar tantos anos atrás. O que encontrou lá dentro mudaria
sua vida para sempre.
Entre baús, cofres e estantes, havia um cofre adornado com
runas. Dentro dele, protegido por selos arcanos, repousava
um pergaminho antigo. Ao abri-lo, Hakar sentiu o sangue
ferver e seus olhos arderam em chamas místicas.
O texto falava de uma linhagem de dragões cujos
descendentes estavam infiltrados em formas humanoides
— elfos, humanos, anões — espalhados por Valdoria,
aguardando o momento em que o Senhor dos Olhos Púrpura
se ergueria para tomar o domínio de toda a Valdoria.
Hakar tremia. Revelar isso ao mundo significava expor a
verdade: dragões caminham entre os mortais. O caos se
espalharia — governantes desconfiariam de súditos, guerras
poderiam estourar. Mas ninguém iria acreditar em um elfo
que tem por sustento o roubo e a manipulação. Ele também
não saberia quem recorrer. Se qualquer um pode estar
infiltrado no reino, quem garante que ele não fosse expor a
trama à “pessoa” errada? Ao mesmo tempo, seu silêncio
custaria a vida de um irmão inocente (pelo menos por esse
crime).
Sob o silencioso luar de Durnfel, em sua mente, uma
batalha silenciosa se travava.