O Sector Financeiro em Moçambique
1. Introdução
O sector financeiro moçambicano é um dos pilares fundamentais do desenvolvimento
económico nacional. A sua evolução está intimamente ligada às reformas estruturais
iniciadas após 1990, com o objectivo de liberalizar a economia, promover a estabilidade
monetária e ampliar o acesso aos serviços financeiros.
Nos últimos anos, o Governo de Moçambique, através do Banco de Moçambique (BM)
e do Ministério da Economia e Finanças (MEF), tem desenvolvido políticas que
procuram reforçar a solidez e a inclusão do sistema financeiro, tornando-o mais
diversificado, digital e orientado para o crescimento sustentável.
A importância do sector financeiro reside na sua capacidade de mobilizar poupanças,
canalizá-las para o investimento produtivo e, assim, fomentar o crescimento económico
e o desenvolvimento social. Um sistema financeiro eficiente contribui ainda para reduzir
a pobreza, promover a igualdade de oportunidades e fortalecer o empreendedorismo.
2. Enquadramento geral do Sector Financeiro em Moçambique
O sector financeiro moçambicano é composto por um conjunto diversificado de
instituições, nomeadamente:
Bancos comerciais e microbancos, supervisionados pelo Banco de Moçambique;
Instituições de microfinanças (IMFs) e instituições de moeda electrónica (IME);
Companhias de seguros e fundos de pensões, supervisionados pelo Instituto de
Supervisão de Seguros de Moçambique (ISSM);
Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), que tem vindo a expandir as suas
operações e liquidez.
De acordo com o Banco de Moçambique (2024), o país registou progressos
significativos na expansão da rede de acesso aos serviços financeiros: entre 2014 e
2022, a cobertura bancária passou de 55% para 79% dos distritos, e os agentes não
bancários atingiram uma cobertura de 100%.
Apesar disso, persistem desafios, sobretudo nas zonas rurais, onde a densidade
populacional é baixa, as infra-estruturas limitadas e o nível de literacia financeira
continua reduzido.
O sistema financeiro moçambicano desempenha, portanto, uma função dual: por um
lado, garante estabilidade e regulação, e, por outro, procura expandir o acesso e a
inclusão — especialmente através das finanças digitais e da promoção das
microfinanças.
3. As Estratégias de Desenvolvimento do Sector Financeiro
3.1. Estratégia para o Desenvolvimento do Sector Financeiro 2013–2022 (EDSFM)
A EDSFM, lançada pelo Banco de Moçambique em 2013, representou um marco
decisivo para a consolidação das reformas iniciadas nos anos 1990. O documento
estabeleceu uma visão de um sector financeiro sólido, diversificado, competitivo e
inclusivo, capaz de oferecer serviços adequados e acessíveis a toda a população.
Os seus objectivos estratégicos foram:
1. Manter a estabilidade macroeconómica e financeira;
2. Melhorar o acesso aos serviços financeiros e apoiar o crescimento inclusivo;
3. Aumentar a oferta de capital privado para o desenvolvimento.
Entre as medidas implementadas destacam-se:
O reforço da regulação e supervisão bancária;
A promoção das microfinanças e das finanças rurais;
A expansão das infra-estruturas financeiras (como o sistema nacional de pagamentos e
registo de crédito);
O desenvolvimento dos seguros, pensões e mercado de capitais;
E o incentivo às parcerias público-privadas (PPP) e à educação financeira.
De acordo com o BM (2013), o objectivo era garantir que pelo menos 35% da
população adulta tivesse acesso físico ou electrónico a algum serviço financeiro formal
até 2022.
A EDSFM foi, assim, um instrumento de transição de um sistema bancário concentrado
e urbano para um modelo mais aberto, competitivo e inclusivo.
3.2. Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 (ENIF)
Em 2024, o Banco de Moçambique lançou a ENIF 2025–2031, documento que sucede à
EDSFM e que reforça a centralidade da inclusão financeira como pilar do
desenvolvimento económico e social.
O compromisso governamental passa por garantir que todos os moçambicanos tenham
acesso, uso e confiança nos produtos e serviços financeiros, de forma responsável e
sustentável.
A estratégia estrutura-se em quatro pilares principais:
1. Expandir o acesso a produtos e serviços financeiros;
2. Aumentar o uso de produtos financeiros acessíveis e de qualidade;
3. Promover a literacia financeira em todo o território nacional;
4. Reforçar a protecção do consumidor e a confiança nos serviços financeiros.
O documento destaca que, apesar dos avanços na digitalização e expansão da rede
bancária, persistem desafios como:
O predomínio do uso de numerário;
A baixa utilização de serviços formais nas zonas rurais;
A fraca integração entre bancos, IMFs e fintechs;
E a necessidade de maior protecção dos dados e dos consumidores.
A ENIF está alinhada com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE 2024–
2043) e com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacando o papel
da digitalização, da educação financeira e das finanças verdes como motores de um
crescimento inclusivo.
4. Obras e posicionamento dos autores sobre o Sector Financeiro
O debate sobre o sector financeiro em Moçambique combina perspectivas teóricas e
empíricas. Abaixo apresentam-se as obras e o posicionamento dos principais autores e
instituições.
Banco de Moçambique (2013)
Defende que o sector financeiro é um instrumento de inclusão económica e estabilidade
macroeconómica.
O BM considera que o sistema deve ser sólido, competitivo e acessível, assegurando a
confiança dos cidadãos e das empresas. A EDSFM coloca a ênfase na criação de um
ambiente favorável ao investimento privado e à expansão das microfinanças.
> Banco de Moçambique. (2013). Estratégia para o Desenvolvimento do Sector
Financeiro 2013–2022. Maputo: Banco de Moçambique.
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Banco de Moçambique (2024)
Na ENIF 2025–2031, o BM reforça que a inclusão financeira é essencial para a coesão
social e o crescimento sustentável.
O documento realça a importância da literacia financeira, da digitalização dos
pagamentos e da protecção dos consumidores como factores de confiança no sistema. O
sector financeiro é, assim, visto como um instrumento de bem-estar e de redução da
pobreza.
> Banco de Moçambique. (2024). Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–
2031. Maputo: Banco de Moçambique.
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Chaúque, A. (2018)
O economista moçambicano Abel Chaúque analisa empiricamente a relação entre o
desenvolvimento financeiro e o crescimento do PIB.
Conclui que o crédito ao sector privado tem impacto positivo e significativo sobre o
crescimento económico, mas que o sistema continua altamente concentrado nas zonas
urbanas.
Defende maior descentralização, fortalecimento das microfinanças e incentivos ao
crédito para pequenas e médias empresas.
> Chaúque, A. (2018). O papel do sector financeiro no crescimento económico de
Moçambique. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane.
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Levine, R. (2005)
Levine argumenta que o desenvolvimento financeiro é um dos principais motores do
crescimento económico.
O sector financeiro promove a mobilização de poupanças, a alocação eficiente do
capital e a inovação produtiva.
As suas ideias servem de base teórica para as políticas moçambicanas de reforço da
intermediação financeira e do crédito produtivo.
> Levine, R. (2005). Finance and Growth: Theory and Evidence. In P. Aghion & S.
Durlauf (Eds.), Handbook of Economic Growth (Vol. 1A, pp. 865–934). Elsevier.
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Shaw, E. S. (1973)
Shaw é pioneiro na teoria do aprofundamento financeiro (financial deepening).
Defende que a liberalização financeira, a concorrência e a diversificação de produtos
financeiros são essenciais ao desenvolvimento.
As reformas moçambicanas desde 1990 seguem este pensamento, ao liberalizarem o
sistema bancário e promoverem a concorrência.
> Shaw, E. S. (1973). Financial Deepening in Economic Development. Oxford
University Press.
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World Bank (2020)
O Banco Mundial destaca os progressos na digitalização e regulação do sector
financeiro moçambicano, mas identifica fragilidades estruturais, como:
A baixa intermediação financeira (crédito/PIB inferior a 30%);
A elevada concentração bancária;
A fraca inclusão rural e de género.
Recomenda maior integração das fintechs, promoção da literacia financeira e reforço da
supervisão prudencial.
> World Bank. (2020). Mozambique Financial Sector Assessment Program (FSAP):
Summary Report. Washington, D.C.: World Bank.
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5. Conclusão
O sector financeiro em Moçambique tem registado progressos significativos,
especialmente após a implementação das estratégias de 2013 e 2024.
As reformas estruturais permitiram fortalecer o sistema bancário, diversificar os
serviços e expandir o acesso à população. Contudo, persistem desafios como a baixa
inclusão nas zonas rurais, a literacia financeira limitada e a necessidade de consolidar a
confiança no sistema.
O futuro do sector financeiro moçambicano depende da digitalização, da integração das
fintechs, da educação financeira e da sustentabilidade.
A ENIF 2025–2031 constitui, assim, um instrumento fundamental para garantir que
nenhum moçambicano fique excluído do sistema financeiro formal, promovendo um
crescimento económico mais justo e inclusivo.